31/07/2016

Rezem pela minha Maria

mesmo que não acreditem.
mesmo que não creiam.
mesmo que não queiram.
rezem.
rogo-vos.

29/07/2016

O Acordo e eu

Temos uma estranha relação de adesão-repulsa, porque não pode ser de amor-ódio, uma vez que eu não sou dessas coisas.
Na minha vida profissional — e exerço num campo em que escrevo cerca de 6.500 (lestes bem, seis mil e quinhentas — eu ensino o truque, se me pedirdes com jeitaço) palavras por dia, fora as que venho aqui depositar à ordem do blog —, escrevo com Acordo, e jamais me engano. Aqui e nos outros lugares onde não me pagam para apresentar coisas escritas, não uso Acordo. Não gosto nem desgosto, simplesmente não concordo, passe a contradição. Começa e acaba porque aprendi a escrever assim, na escola primária, e isto já não muda. (Também ainda não me adaptei ao euro, meu rico conto de reis e de princesas.)
Outro dia, en passant comme les éléphants, dei com isto:


Para já, fiquei logo ali um nico nervosa, porque a frase que está pintada na parede abre uma aspa e fecha duas. Mas depois, dentro da frase propriamente dita, pareceu-me avistar o nome daquela rainha inglesa que andou a espalhar gente por todos os cantos da Europa, e não uma citação de um senhor... oh, wait, Jeremy H., não sei de quem se trata, mas a ignorância pode ser minha. Fui estudar. Mas, como sempre, as minhas lições ficam estudadas para o 10, deve parecer-me a fasquia do 20 muito alta. Jeremy é ou foi um ciclista canadiano, o que bate certo com a parede de uma sala cheia de biclas, embora estas sejam de não ir a lado nenhum. Manda a regra que as citações sejam respeitadas no original. Faz sentido. Eu também levei com o Luiz Vaz no original e não piei. (Por acaso, até piei. E cada vez que me lembro volto a piar. Piu.) Já aquela ali, do meu exemplo, e sendo uma tradução de uma citação, alguém sabe explicar-me que lógica tem escrevê-la em português antes do AO, ainda que Jeremy H. a tenha proferido há duzentos anos? É que nem a Ciberdúvidas (existenciais) me tira este enigma, ou sequer me cessa este castigo.

Pensamento escatológico do dia # 20

Sem tempo para melhor do que isto: alguém me consegue explicar a nova moda juvenil, que é começar todas as frases por "caga"?

- Caga, isso é bué louco.
- Caga, tive a melhor nota.
- Caga, vou à praia.

OK, suponhamos que até defeco. E então?
Acreditem que o "caga" é o novo "Eh pá".
Um dia, será promovido a nome de gelado. Fica a dica.



27/07/2016

Este vestido é a tua cara

dizem-me elas, quando me querem enfiar um saco que sabem que me vai ficar mal. 
Ou porque me vai ficar largo, e apagar-me as formas.
Ou porque a cor não bate com a minha, e vou ficar esverdeada (sobretudo, se o pano for... verde).
Ou porque tem um modelo vintage/old fashioned/bom para a avó (delas), que me fará... velha. 
Ou porque é simplesmente piroso, e vou ficar simplesmente pirosa.
Uma vez, num local onde trabalhei, ofereceram-me, pelos anos, um vestido que acumulava todas as vertentes anteriores: apagava-me as formas, porque era tão justo que me faria (se o tivesse chegado a vestir) aparecer formas que desconheço em mim. Imagine-se, a título de exemplo, alguém muito obeso, com um cinto muito apertado. O que é que acontece? Fica partido em dois, certo? Assim ficava eu com aquele horror: partida em mil; a cor do monstro era preta, mas ia esverdear-me, pelo simples facto de me ver inserida nele; o modelo era péssimo (justo, uma manga de renda, outra manga por fazer, como aquela ladainha da meia feita e da meia por fazer: ali era uma manga que não exista); ia fazer-me velhíssima, só com a quantidade de rugas que me aflorariam a cútis, assim que o envergasse; e era de um mau gosto olímpico. 
Ontem foi a cigana, minha personal dresser and adviser nos tempos das vacas (nunca as vi mais) gordas. Disse-me que tinha um vestidinho ali na carrinha, lindo-lindo, que é a sua cara. 
Eu devo ter uma cara muito deslavada. 
O raio do vestido era todo em renda, branquinho como a neve, só que de Verão. 
Fazia de mim uma Ágata, mas em moreno. Ou uma daquelas noivas do Say yes to the dress.
Fugi-lhe, qual noiva em fuga, sem o vestido que era a minha cara. I said no to the dress. 

Imagem do filme

E tu, Blue, o que vês tu do teu mísero barquinho a remos?

Vejo uma pessoa a subir uma montanha muito maior do que ela, sem olhar para cima.
(A minha mãe sempre me disse que, quando subisse uma montanha, nunca olhasse para cima — sábias, as mães; e algumas usam metáforas que nos ensinam a vida.)
Vejo uma mulher a lutar com uma máquina, ciente, crente, consciente de a vencer.
Vejo uma guerreira pequenina, à briga com a elíptica, ignorando o esforço, subestimando o cansaço. 
Vejo uma filha, uma mãe, uma irmã, a cabeça tapada pelo lenço — faz um calor assassino, mas o que a assassina a ela será não só o frio de não ter cabelo —, persistente, resiliente, animada de animus, caminhando pela vida.

Remas e remas, cabelos ao vento — mas, diante dos teus olhos, o Adamastor enfrenta-o ela. Sem um pestanejar.

26/07/2016

Servidão humana

O prazo corre contra mim, o cansaço vence-me, ouço o mar a chamar-me em assobios de melodia, sinto que me nasce um rabo de peixe e vou.
Ou não fora eu, perco-me pelo caminho, saio pela saída errada, ando mais duas dezenas de quilómetros e já levo a gasolina à pele. Mas é a pele que pede mar, e essa urgência atendo como faz um bombeiro, sem olhar à própria vida. 
Só preciso de quatro metros quadrados e um par de horas. Rente ao mar de água, ondula um mar de gente, mas consigo o meu espaço, longe de tudo. Verifico que o mar está a subir na minha direcção e, no entanto, abanco-me onde sei que, dentro de duas horas, a areia desaparecerá sob a espuma branca que avança a cada espreguiçar. Inquieta-me a ideia de ficar tão perto daqueles que são agora meus vizinhos à força, não por mim, mas por eles. Parece-me que lhes provoquei uma sombra indesejada e reprimo a pergunta: "Importa-se que fique aqui?". Não usucapi aquele bocado, embora fosse essa a minha vontade — apenas ocupei terra de ninguém, como um garimpeiro em busca de ouro. Talvez os meus companheiros de salga e secagem tenham uma servidão de passagem por roda do meu território, mas eu tenho uma servidão de vistas que bem gostaria mais desafogadas, afogadas que estão em mar a menos. Para me dar razão a estas divagações altamente filosóficas, somos todos, sem excepção, agraciados com um espectáculo único. Chamo ao meu umbigo a fortuna que é não ter podido ir ver os veleiros Tall Ships, mas terem eles vindo ver-me a mim. 





Quando o mar se estende aos meus pés, é hora de voltar ao cais.

25/07/2016

Do meu (tão frágil) sentido de orientação

Outro dia quis ir ao Cascais Shopping, a partir de Cascais. Queria a Seaside, porque, aparentemente, só lá é que havia as xanatas da criança. Tinha ligado para a loja e tudo. Tudo. Tudo se conjugava para ser ali que as bonitas se encontravam à venda. Em mais nenhuma Seaside do planeta. Para lá, fui bem, porque fui orientada por uma voluntária que, tal como o nome indica, se voluntariou para me orientar, indo à minha frente. Lá chegada, como nunca tinha entrado naquele shopping a conduzir, achei melhor deixar o boi à porta da Conforama, do lado de fora. Entrei pelo estacionamento pela lateral, houve que passar um carwash qualquer, e elaborei imediatamente um mantra "Nunca mais uses roupa leve em dias de muito calor". Cheguei ao shopping e verifiquei que a Seaside não era ali. Então, perdi-me, e dei várias voltas ao piso, na intenção de sair por onde tinha entrado, como os bebés nas barrigas das mães. Porém, já não encontrava o meu ponto de referência, que era a Nespresso, e tinha muita fome, porque já era quase uma da tarde e isto é um relógio que só serve para atrapalhar. Fui comer um docinho do Algarve, e devo ter tido um pico de glicémia, pois fui acometida de um ataque de inteligência, e liguei para o apoio ao cliente da Seaside, de onde a senhora me explicou que a loja de Cascais é mesmo em Cascais, mas no Villa. Pretendi meter-me no boi, de volta para Cascais, já que estava em Alcabideche, ou onde raio, mas já não sabia muito bem onde é que era a saída para o parque exterior da Conforama. Sabia que tinha que atravessar o carwash outra vez, apesar do mantra, mas, embora o tivesse diante de mim, não via nenhuma saída que desse para a Conforama. Contudo, via-lhe as letras encarnadas assim de ladex. Dei algumas voltas a pé ao parque, até que, um bocado cansada e com vontade de fazer chichi, decidi sair por onde os carros entram, rampa acima, donde fui parar a uma estrada nacional. Eu nunca tinha andado a pé numa estrada nacional, mas agora já não posso dizer isso. Aquilo não tem passeios nem nada, que é para demover os valentes. E também os distraídos. Já tinha um niquinho de vontade de chorar quando alcancei o boi, mas o calor era tanto que temi desidratar. 
Fui ao Villa e comprei as p. das benditas sandálias. Cheguei a casa a meio da tarde, em hipoglicémia, e foi por um triz que não recebi a medalha de melhor mãe do mundo. 

24/07/2016

Propostas indecentes


Assim como faço colecção de cromos só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes — porque há pessoas verdadeiramente bafejadas, não sei se por alguma espécie de sorte, ou se é só um azar que tiveram na vida, e calha-lhes um daqueles empregos em que não têm que fazer lá grande coisa que, no meio da estrutura, se calhar porque não são pilares, ninguém repara, ou, se repara, cala-se e siga —, dizia eu que, assim como faço colecção de cromos só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes, também faço uma outra colecção, em caderneta cor-de-rosa fluorescente, que dá pelo nome de só-a-mim-me-fazem-propostas-destas.
Ainda esta semana. 
Capaz de a minha empregada ganhar melhor, e ela ganha pessimamente.
(Não desmerecendo, escusam de vir já aí as 72 virgens a dar à língua, com aquele grito.)
Horário 9 to 6, acho que não vou dizer quanto é que me foi sugerido.
Fico-me pelo grito.

video


A arte e a tristeza

Não me apeteceu dançar, durante toda esta semana.
Cada vez que não estou triste, perco a inspiração e não tenho veia para nada: nem para escrever, nem para cantar, nem para dançar. 
Até o sentido poético se me escoa, apesar de nunca ter escrito poesia nenhuma, para além de todas as que fiz sem querer. Não vejo beleza em quase nada quando a vida me sorri, a menos que seja um sorriso triste, e então é ver-me em produção artística em série, qual linha de montagem.
As minhas poucas e pequeníssimas artes somem-se e encolhem na directa proporção em que posso contar com alguma felicidade. Quanto às outras, não posso afiançar coisa nenhuma: pouco ou nada dedico às artes plásticas — tenho sempre as mãos demasiado ocupadas com teclados, tachos e molas de roupa —, nunca compus uma música, desconheço como se monta um filme, para mais do que aqueles que fiz com o telemóvel, sem cortes nem ensaios. 
É por isso que aqui estou hoje, desmemoriada e desinspirada — o que, vindo de mim, e estando longe do mar, é absolutamente admirável. Preciso urgentemente de arranjar de novo novos motivos para voltar a dançar.

23/07/2016

estrela

Afundada em mais um trabalho maior do que eu, que me leva o tempo e o alento, afogada no calor que cobre a cidade e julgo que o país, não alcanço o mar ao longe, menos ainda ao perto. 
Lembro-me das estrelas do mar que davam à costa na Costa, era eu tão pequena que me saíam maiores do que as minhas mãos. Umas estavam vivas, e sabia-o por vê-las mexerem-se, os cinco bracinhos de Davi às quais faltava um, penta em vez de hexa, outras só não estavam, por as ver quietas, secas e rijas como ficavam os peixes, quando perdiam a água e se perdiam sem ela. De tão pequena que era, acho que já disse, nem sabia se eram animais ou plantas, ou talvez estrelas do céu, caídas no mar por confusão entre azuis. Certezas, só tinha a que me acompanha até hoje: a de que o Criador havia de ter tido dias de grande falta de imaginação, e então repetia-se, copiava-se, ou, mais modernamente, plagiava-se — pois se mar e céu em tantos tons se reproduziam, que novidade haver estrelas num e noutro?
Vem isto a propósito de hoje, de agora, deste preciso momento, em que me sinto transmutada numa estrela do mar, dessas assim, igualzinha às que via quando ainda nem na palma da minha mão caberia colada uma, dedo a dedo. 
Continuo sem saber se sou um animal ou uma planta, mas vejo-me penta, sinto-me seca, e estou longe do mar.

Das minhas associações de ideias # 11



Fotos com direitos de autor, não tirei nenhuma. Só roubei.

Cisne negro

Ela é toda enorme. Tem seguramente o dobro do meu volume, se não um pouco mais, e o de quase todas as pessoas que frequentam o ginásio, menos dela própria. Sei que deixou África pelo chocolate da pele e pelo cantar crioulo ao telemóvel, que a acompanha para todo o lado. Frequenta aulas de seguida, risonha e extenuada. Passados muitos meses, não perdeu um grama da imensa corpulência, mas terá ganho muitos de festa interior, ou não fosse também para isso que todos lá estamos. 
Hoje, no balneário, estávamos à distância de quatro cacifos uma da outra. Quando entrei, tocava nas colunas uma kizomba com cheiro a morna, você é linda, que me deu uma logo reprimida vontade de dançar. Ela encontrava-se junto do cacifo dela, tinha o espelho a uns três metros de distância, e fazia exactamente o que eu seria incapaz, esquecida do ambiente, indiferente às cabeças das gentes em volta: dançava. Por alturas do refrão, acompanhava também, você é linda, e, no espelho, via certamente bambolear-se uma figura linda, esbelta e inebriada. O meu cacifo estava posicionado de maneira a que, para lhe chegar, teria que me interpor entre ela e a imagem. Quando o fiz, percebi que, de alguma maneira, ocultei com o meu corpo, que é metade, todo o dela, que é o dobro, pois que parou de dançar, parou de cantar, confusa de ter perdido o delgado reflexo, apesar de a música continuar a repetir você é linda.

22/07/2016

Eu quero plagiar o vestido da plagiadora

Imagens extorquidas de A Net

Pá, pronto.
Agora está na moda, uma pessoa sente-se livre para copiar sem pudor nem medo do que vier, e também do que der.
O vestido da Melania é absolutamente maravilhoso. E é porque não me apetece, que não quero gastar dois mil euros num igual. Além disso, está esgotado, e eu quero-o agora. Só me falta arranjar uma costureira ajeitada (não confundir com jeitosa, que para isso estou cá eu) e barateira.
Até já tenho o sapato igual ao dela, assim a combinar, num tom nude (que só é nude antes da praia; depois, é só bege).
Para mim, um S, se faz favor. Se não couber lá dentro, inspiro até caber, e depois apneio, como a Melania.
Não sei bem em que ocasião é que o vou poder usar, mas isso interessa, realmente, porquê e a quem?

Cam(nh)urça

É assim quando uma pequena mulher mete uma coisa na cabeça, muito em particular se essa coisa for uma peça de roupa, e em particularíssimo se for calçado: move o mundo, movem-se céus e Terra, mas a coisa há-de surgir, nem que tenha que ser buscada no Inferno, ou num castelo qualquer, após luta com um dragão. Quais espada, quais príncipe, uma mulher que quer uns sapatos, um vestido, aquela mala (hah, nessa não caio eu), desembainha as suas unhas e parte à conquista. E ela queria umas sandálias. 
Por educação ambiental e outras educações de que, sem querer, também serei "culpada", as xanatas não podiam ser de pele, tinham que ter um determinado formato e serem rigorosamente do tamanho do pé dela, pois que a forma pretendida não permite nem mais um número, nem menos um, uma vez que o pé assenta na palmilha, e o resto é rebordo. 
Numa das dezenas de lojas onde entrou, ao encontrar o que procurava, travou o seguinte diálogo com a senhora que a atendeu:
- Gosto destas. São em pele?
- São em pele.
- Então, não quero. Prefiro as de imitação.
- Mas isso não é bem pele. 
- Mas têm aqui o símbolo de pele.
- Mas não é pele. É camurça.
Contou-me ela depois que não disse mais nada, mas pensou Alpes, Pirinéus, cabras, e saiu da loja. Sem sandálias, mas tranquila. 

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 44

Vejo ninhos de amor.
Ambulantes.


21/07/2016

Eu também me encontro em encruzilhadas nesta vida, ou julgam que são só vocelências?

Quem vem de Moscavide e anda ali um bocado a apalpar terreno, a ver como é que há-de
voltar para um lugar tipo diferente daquele

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 41

Vejo autodeclarações de amor.


Depois chego a casa, ligo-me à máquina e percebo que, afinal, isto é mais um desafio facebookiano, para as pessoas humanas dizerem o que é que gostam em si mesmas consideradas.  
Foi giro, saber que há uma pessoa que ama ser pequenina e jeitosinha. Numa garrafa cujo fundo são umas quantas sardinhas. Isto é tão português e tão bom.
Existem mil e uma razões pelas quais nos amamos, com maior ou menor profundidade, e também de forma mais ou menos fogosa. 
A colecção toda está aqui: http://www.alimentasorrisos.pt/pt/corpos-danone/descobre-tua-garrafa-metade.html

Acho que já não vou a tempo, embora não tenha estudado o assunto prazos (e, ainda que fosse, não tendo FB, era mesmo impossível). Portanto, a minha participação fica-se por aqui. (Miss PT, queres aproveitá-la?) A minha garrafa teria que ser forrada a bolachas, para lá caber este rasgo de originalidade:


Então e tu, camarada? Por que te amas? Confessa lá isso.


20/07/2016

Ainda na senda do post anterior

Blogocatarse # 2

E depois há aqueles blogs onde nunca vou. Porque são os da síncope, os que me arrisco a destruir o monitor à dentada, a atirar a torre janela abaixo — ou, se estiver no portátil, a separar o monitor das teclas; ou, se estiver com chico-smart na mão, a amandá-lo pela pia abaixo e a puxar o autoclismo com a mão disponível —, e a partir para a ignorância. São aqueles do recado interposto, da boca para o ar, para atingir alguém (que até me calha a mim, por vezes), e em que a indirecta só se torna directa porque alguém me vem avisar para ir lá ver. Vou, mas não volto. É como ir tomar uma vacina. Chega uma vez, fica-se logo imune.
E o que me anda a apetecer pegar outra vez no assunto plágio? Agora ia de caras, ando a cansar-me da cernelha. Vem isto a propósito da deslavada de ontem, mas não só. 

Não plagiei esta imagem — roubei, mesmo.

Acho que há quem ainda não tenha percebido a dimensão da coisa, apesar de tudo o que já se disse (perspectiva jurídica incluída), e então venho ajudar. Que se salvaguarda na teoria bacoca de que tudo o que está na net é de todos. Não é, muito em particular se estiver assinado. E também se estiver salvaguardado por copyright. E isso estende-se a todo o conteúdo de um blog, desde o texto às fotografias. Há quem tenha o aviso na página principal (como eu), há quem não tenha. Mas isso é como o artigo 14.º nos portões das garagens: não é por lá não estar que passa a ser permitido estacionar em frente de um. E não é porque eu vou buscar textos a algum lado e os posto no meu blog que eles passam a ser meus, ok?
Também me anda a dar no nervo óptico a cena da cópia de expressões. Não é tão mau quanto a cópia de textos ou de frases, mas é só irritante, óié.
Possivelmente, um boneco era capaz de ajudar. O Google fornece isto tudo. Curiosamente, nenhum retrata o plágio como uma coisa fixe. Não se percebe porquê. Cambada de manientos.

Blogocatarse

Vá, agora tudo a chibar-se ou a silenciar-se para toda a eternidade.
Sou só eu que, quando me quero irritar, vou consultar alguns blogs?
E faço isso tipo todos os dias, tipo amiúde, tipo estereotipo?
É que eu quero irritar-me todos os dias. Preciso de descargas. Preciso de fazer circular o sangue na guelra. Preciso de ferver.
Preciso de me irritar.  
Abro um ou dois blogs de estimação cá minha, leio (basta) um post, reprimo a vontade de arrancar várias fichas da tomada, lamber os dedos e metê-los lá dentro, recebo a descarga na mesma, estremeço, estrebucho, recupero mais ou menos, e fico logo mais leve. Equiparável a isto, só uma boa cestada de roupa para passar a ferro. (Eu queria ser mais blogger, mas não resisto a mostrar às outras pessoas que sou uma pessoa comum, vulgar, povina.) (E tenho a minha empregada de férias.) (Desculpem, isto agora saiu-me assim; já passou.)
(Também me questiono se o meu não é um blog desse tipo. Mini-tramp, saco de pancada, boneco de voodoo de algumas pessoas.)
(Se é, percebo: eu própria, às vezes, irrito-me comigo mesma. Releio-me, e só não me sovo porque sou uma caguinchas para a dor auto-inflingida — até a espremer borbulhas me saltavam as lágrimas, quanto mais —, e não porque considere que não mereço uns bons cascudos.)

19/07/2016

Quando está muito calor,

lembro-me da Mel, quando se deitava no chão da sala, entre portas, ou perto da entrada de casa, a aproveitar a fresquinha.
Às vezes, ainda me parece vê-la.
Faz-me falta todos os dias. Todos, sem falta.





memória

Não queria ter visto, mas vi. Não temos capacidade para escolher o que nos adentra os olhos e, por isso, também a cabeça, a alma, e depois nos trespassa o coração. Não sei como fazem as pessoas que se arrogam uma memória selectiva, que eu também queria ter para mim e não sei onde nem como adquiri-la. O que me atinge a retina é igualmente o que me toca e amachuca.
Estava um calor impossível de ser verdade, a brisa que corria queimava o ar e entrava pela janela, fazendo com que a trave do blackout batesse ora cá, ora lá, como um pêndulo horizontal que marca a vida a compasso de espera. A hora era de modorra, entregues estavam muitos ao passar do tempo com vista ao lanche, com vista ao jantar, sem vista mar.
Ele, enorme, magro e triste. Não sai de mim a mágoa pela tal memória que eu queria selectiva e não sei onde nem como adquirir. Mesmo sentado, puxou as calças para baixo e expôs as pernas, que hão-de ter sido bonitas, longilíneas, musculadas e brancas. Era o calor que o matava e lhe fazia morrer a vergonha de se desnudar à frente das senhoras, senhor que foi e que é, mas não se lembrará. Chega-lhe ao pé a aflita, diz-lhe que se tape, puxa-lhe as calças para cima, mesmo sentado, e ele resiste e luta no sentido inverso, porque não compreende: tem calor, isso basta-lhe e devia bastar-lhe a ela também. É preciso gritar-lhe ao ouvido que não se pode despir na sala, e é aquele momento, em que ele baixa a cabeça e, num olhar aflito, se conforma, que ganho a certeza de que também eu, um dia, quero perder toda a memória, se não a puder perder já hoje.


Lá amuei mais um

Entram e saem da lista de seguidores, põem e tiram pessoas lá da lista deles. 
Ora, isto tem que acabar: a mim, se me tiram da lista, faz favor retiram os sapatinhos de seguidores, que eu não vivo cá disso, e ter mil ou ter dois é bom que dói de qualquer maneira. No dia em que descobri essa cena dos seguidores, já tinha para aí um ano de blog e eles eram seis. Beijos para ti, companheira Sister V., beijos para ti, T., que eu não me esqueço de ninguém, nem mesmo no dia em que atingir a estratoblogosfera, o que não faltará muito, a avaliar pelo andar da carroça. Arre, burro. Picando a mula, vamos a isto.

Sei que não é fácil, e cada um tem o computador que Deus lhe deu, ou o que merece. Mas hoje venho ensinar o povo a sair de seguidor, sem ter que ir ao Google e levar com um tutorial ou um texto em português do Brasil que explica basicamente zero, ou que apresenta imagens que não correspondem às que aparecem nos ecrãs. Então, este monstro de abnegação que me habita a espaços e me possui irremediavelmente, hoje acordou proactivo e a rugir que há que dar a volta, contornar, resolver, arrumar, limpar, arejar, desempatar.

Vá, eu ajudo:

1. Digitar lá ao alto, naquela barrinha branca, https://www.blogger.com/home;

2. Aparece isto assim:


Estão a ver aquele botão com uma caneta, ali ao lado direito? É clicarem lá em cima, por obséquio;

3. Tarááá... aparece, então, este quadradinho, com toda a nossa lista, com todas as nossas possibilidades de varredura e despejo. 


4. É escolher e clicar no baldinho, e o foco do descontentamento desaparece num pluft;

5. De nada. Foi um prazer incomparável.

18/07/2016

O calor e eu

Isto de andar há mais de vinte e quatro horasembora mentalmente, é certo —, a tentar fazer um trocadilho com a palavra canícula, assim,

Está uma canícula do caneco [eu sou uma senhora, tá?],

faz de mim uma pessoa quê?
Sai-me qualquer coisa como,

Está uma canécula do canico.  

E depois sinto-me igual àquela personagem do Coca-Cola Killer, que andava com a Maria Estrovenga, e escreveu um livro chamado Trocadalhos.

E isso faz de mim uma pessoa quê?

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 43

Não encontro Pokémons, mas encontro poetas, não muito longe de mim.

Pus-lhe marca de água. Desculpa aí, Miss Portugal. Mas é que fui eu que tirei, sabes? E quero ficar-lhe com os descréditos (mau enquadramento, má focagem, má sina, má fama, tudo a que tenho direito.) Cá beijinho.

17/07/2016

And that awkward moment # 13

Em que até estás numa loja. Vendem-se ali biquínis, estás de conversa de circunstância com o rapaz que está ao balcão — extremamente tatuado, um alargador numa orelha, olhos esbugalhados, solícito até à quinta casa (decimal) —, suponhamos que lhe dizes que gostas da marca Salinas, e que o teu primeiro Salinas foi comprado na loja deles, em 2009, e que está novo em folha, que ninguém diz que tem tantos anos, e suponhamos também que ele, não conhecendo a marca (a loja deixou de vender Salinas), e pretendendo visioná-la no sistema, te pergunta assim:
...
...

(Oh pá, não tenho coragem.)
...
...

Era ele assim...
...
... para mim:

...
...

Então, ele pergunta-me assim, à queima-roupa:

...

- Salinas é com S?

Parou-me tanto a boneca que eu própria tive dúvidas. Quantas possibilidades de resposta?

1. Que irreverente.
2. Não, é com C de cedilha.
3. Não, é com dois SS.
4. Sim, com S, mas só no fim: como Salina, mas no plural.
5. Aonde?
6. Queres falar?
7. Talvez a minha colega, pergunte ali no guiché 5...
8. Não sabe/ Não responde.

Nem sequer sou amarela, e, no entanto,

cheguei a casa, pousei as tralhas que carrego comigo para todos os lados, incluindo o B, entrei na cozinha e estava uma delas e um amigo, a tomarem café. Ele tinha o telemóvel na mão, cumprimentou-me, olhou para o ecrã do aparelho e avisou-a:
- Tens um Pokémon na tua cozinha.
Perguntei, quase nada surpreendida:
- Sou eu?
- Não, é mesmo um Pokémon.
(Acho que ainda) saí (a tempo) da minha cozinha.

16/07/2016

Um post sobre mamas

(Ao sábado, a freguesia desce para menos de metade, há que atrair as massas. Falando de mamas. Massas mamárias.)

———

Descobriu-se intolerante à lactose. 
Explicava-me ela, que tudo sabe (mesmo, sem ironias) que a lactose está presente em maior proporção no leite de vaca, e menor no leite de cabra.
Ela mamou até aos oito meses.
É normal que me tenha surgido a dúvida e, pior, a tenha verbalizado?
- E o leite de mãe?

~

Provava uma nova especialidade vegetariana. 
- Ui, que delícia!
Fiquei curiosa e quis provar, mas só havia um garfo, que ela usava no momento, mas me estendeu de imediato.
- Isso não é muito higiénico...
- Prova, mulher, qual higiénico? Foi de ti que eu mamei.
(É esta a educação que eu lhes estou a dar. E adoro. Adoro-as.)
Provei. Mas ela, ainda encantada com o sabor, disse:
- É a caldo verde que sabe...
É normal que me tenha surgido a dúvida e, pior, a tenha verbalizado?
- O meu leite?

15/07/2016

A mim não me apetece falar sobre as tristezas que vão pelo mundo. Posso?

As coisas são assim mesmo, e há muito que a vida me ensinou que nos pode ocorrer um cataclismo dentro de casa ou da cabeça, que não é por isso que, surpreendentemente, os pássaros deixam de cantar, os autocarros deixam de passar a horas (mais ou menos) certas, as outras pessoas deixam de rir e de chorar, por motivos que, ainda mais surpreendentemente, não dizem respeito à nossa dor.
~
Ela entrou na mercearia e, mesmo que tudo nela não me chamasse logo à atenção, o simples facto de ter tentado passar à frente da minha vez, acendeu-me um alerta qualquer. Mas vi-a assim, velhíssima — pelos noventa —, e frágil, bengala numa mão, sapatinhos cor-de-rosa, corsários brancos, um infantil chapelinho branco, de palha, ao qual nem a fita azul faltava. Fez-me a funcionária sinal que esperasse um pouco, teria que ir atrás dela, que entretanto se havia embrenhado para os fundos do estabelecimento, pois tinha o costume de meter coisas na mala. Assim fiz, agarrada que fiquei ao chão, os olhos colados no ladrilho, uma paralisia que me tomou inteira, suportando as culpas do mundo sobre toda a pele passada a creme protector de manhãzinha. Temi pela abordagem de uma, pela reacção da outra, temi por mim, inapta para fazer mais do que tolher-me de inépcia. Afinal, foi tudo muito discreto, a rapariga pediu-lhe, delicadamente, que lhe mostrasse o conteúdo do saco, ela assim fez, a outra retirou de lá os objectos do furto, e eu fui, esmagada, pagar os meus sete quilos de fruta e hortaliça. 
- Esta é a maior pobreza. — Ouvi-me dizer baixinho, enquanto trocava dinheiro por comida.
- Esta senhora nem precisa. — Respondeu-me uma voz.
Mas outra voz, daquelas que me sopram ao ouvido, tinha uma opinião diferente:
Precisa, precisa. Há demasiadas formas de precisar.

14/07/2016

A pessoa chega à noite apaziguada com a vida

Para tanto, contribuiu uma aula de dança ao ar livre.
E, pois, estava mais calor na rua do que no ginásio. 30 dele às 8 da noite. 
(Coreografiazinha nova, e depois, oh, depois, lá está — a mim ninguém me tirou da aldeia, nem há uma aldeia que se possa tirar de mim, mas talvez um bairro social inteiro. Há-de ser coisa explicável através da reencarnação: põem-me Lucenzo e kuduro e eu acho logo tudo o máximo.)

Vá, agora um momento musical. Adoro esta melodia (e os óculos do Elly). 
Estou também a afinar a voz para cantar Doidas andam as galinhas procêis, preferencialmente com a voz de jantes de liga leve que me caracteriza nas primeiras horas do dia. Enquanto não, conformem-se com a voz de Sir.

Minha rica tia

Pronto, agora já posso falar de outras coisas.
Venho de um funeral. Morreu-nos uma tia, que caminhava, a passos largos (apoiados numa bengala), para os cem anos. Já estou um bocadinho habituada a perder tios por afinidade, de cada vez que tenho um trabalho maior. Até já andava a estranhar tanta trabuca e nada de exéquias.
Rica, podres, sem herdeiros que não sejam(os) os sobrinhos, e um ou outro irmão sobrevivo, dos sete que eram. 
Eu não me dou lá muito bem com velórios. Mas ontem fui lá ao dela. Adivinhei que não teria muita gente, e fui para encher a sala. E fazer de corpo presente, passe a expressão.
Na capela, já estavam sentadas várias primas (afins); quis conversar com elas, mas fiquei sem ter onde pôr a mala, a não ser no chão. Então, lamentei:
- Dizem que o dinheiro se vai embora se pusermos a mala no chão.
- Não arrisques, filha, agora não. — Respondeu-me uma doida que tem o mesmo nome próprio que eu, e pode ser por isso.
Algumas flores. Não muitas, porque se tratou de uma pessoa que não deixou quem a chorasse, e parece que as flores e as lágrimas têm uma directa correlação. Nenhuma criança adoptada, pegada pela mão, aninhada no colo, mesmo não tendo saído da barriga dela. Conversam os sobrinhos menos indirectos do que eu, como é que serão feitas as contas ao pagamento das flores. Uma delas explica que a agência se fez pagar por um pacote completo, pelo que o serviço fúnebre as inclui. No fundo, o de cujus paga as suas próprias flores. Ironia do destino, se é que se pode falar numa coisa ou noutra, nesta hora. Quem podia, pode — pensei eu assim. 
Um pouco por todo o lado, suspiros — Ai, minha rica tia.
Anteontem, nem talvez uma hora sobre a morte, ligou-me a que só bebe sumos de laranja, a rir que nem uma perdida, porque acha que é desta que vai ficar rica. 
Hoje, na missa de corpo presente, só ela e mais duas comungaram. Também sabe a missa de trás para a frente, e já está naquela idade em que fala mais alto do que toda a gente, para que se perceba que sabe a lição toda de cor.
À saída, fui comprar um geladinho azul, para aguentar o enterro. Pergunta-me a doida que é minha homónima se estou com fominha.
- Estou. Não papei hóstia nenhuma, fiquei nesta fraqueza.



Este foi, de todos, o que mais me custou

Podia ignorar-lhe qualquer outro. Este já não.



A lata e o descaramento não conhecem limites # 2 (nem no céu...)

Mais um enviado pela Mia, que também foi copiada indecentemente (como todos).


A lata e o descaramento não conhecem limites

Apanhei mais uns quantos posts copiados, fora todos os outros que reconheci, dos blogs que frequento. Até onde a paciência me deixou ir e o sono não me venceu, apanhei mais três (este que aqui deixo e dois que pertencem à Blue), e também uma muito curiosa troca de comentários entre a Senhora-Dona-de-Toda-a-Propriedade-Intelectual e uma deslumbrada pela capacidade criativa da dita, que uma grande querida das minhas me enviou por mail.
Não sei se me deleite, se me deveneno.


Giro, ter logo copiado um post onde se incluem as palavras lata e chica-esperta.

Não tenho capacidade intelectual para comentar isto.

13/07/2016

E eis que é chegado o momentinho em que LP é plagiada à bruta

Afinal, sou um nico blogger...?



Indó Movimento "Queremos ouviri as vozis dos bloggeris a declamari poesiã"

O resgati do bloggeri alentejano

Na percebo. Tanta bleza nas vozis cristalinas e puras, tambéim nas vozis grossas e impuras, nas entoações más belas do mê Portugali e de sês arredoris, nos escritos e lidos por uns, nos somenti lidos por outros, tanto sotaqui bunito, tanta genti lá de cimã, tanta genti da capitali, talveiz um mesmo do suli lá da ponta, e ninguéim, nem uma alminhã, uminha pra amostra, com o nosso sotaqui inconfundíveli, fêtos maganos, qu'até pareci que a interneti na nos chega cá por culpa das olivêras e dos sobrêros, olivêras, olivêras, ao longe sã olivais, mas que lindo chapéu preto naquela cabeça vai, ora se na há tanto qu'um homem possa cantari, quanto más declamári.
Aqui estou pra colmatari essa falha tectónicã. Perdoem-mi apenas o fundo do filmi, mas estou sem vagari pra estudari cumo fazeri melhori.

12/07/2016

Em busca do autoconhecimento

Eu só queria perceber uma coisa.
Não, duas.
Três. 
Muitas.
Imaginemos que se me estragou uma coisa, que ainda está na garantia, já que ainda não perfez seus dois aninhos de idade.
Pessoa extremamente (des)arrumada que sou, amando-me para dentro da gaveta das garantias e dos manuais de instruções. Sim, possuo-a. Uma gaveta inteira, cheia de papelada importante. Muitas garantias, muitos fucking manuals.
Encontro garantias e manuais de telemóveis que já não tenho, de óculos de sol, de uma webcam, de uma depiladora que já morreu (engasgada?) há milénios, comprovativos de compras feitas pela net, de um relógio, de uma coluna de som, de não sei quantas malas e acessórios da minha bem amada Tous, de um ipod, de um mp3, de tudo. Tudo, menos a p. da garantia da m. que se estragou agora.
Daqui a uns meses, hei-de andar à procura de um clip no meio do meu caos, e encontro a p. da garantia — obviamente, já passada da validade. 

Estarei em negação?

Fomos jantar, éramos vários, comemorávamos o aniversário do elemento mais velho da família. Sentámo-nos as mulheres, relativamente perto umas das outras. Reparo que uma traz o cabelo à balda, grisalho, a outra traz o dela bonito, preto, curto e esticado, mas com fios brancos a escorrer por ele abaixo. Eu própria já devia ir tratar das raízes do meu, castanho e comprido. Vem o menu, elas precisam dos óculos para o lerem, uma esqueceu-se deles em casa, a outra empresta à esquecida. Mandam vir água, a acompanhar o prato. Uma delas já não pede peixe porque não consegue, sem os óculos, tirar-lhe as espinhas. Reparo que o meu cunhado emagreceu substancialmente, o que não fez dele um homem interessante. Diz que não fez dieta, mas ela denuncia-o, relatando uma crise de intestinos, tida há poucos meses, que não lhe permitiu comer durante uma semana inteira. Inconveniente, como sempre, e porque não existe melhor lugar para uma boa conversa escatológica do que a mesa de refeições, concluo, só não a rir porque começo a estar enfadada (a mesa tem a forma de um T e eu estou quase de costas para uma senhora de idade, que me pergunta onde será que o Cristiano Ronaldo estará a esta hora): "Isso não foi só de não comer, foi de despejar à grande". Até certo ponto, adoro o meu efeito Eliza Doolittle. Fica sempre tudo pasmado, entre o sorriso amarelo e a gargalhada de nervos. Conta paga, recolha às respectivas tocas, "amanhã trabalha-se", "estou tão cansada", mas a noite está linda, o vento é só uma brisa, e ainda me pulsa a febre do campeonato. Não esgotei as energias do dia, mas sigo-lhes os passos, e recolho também, enfim — ou nunca —, conformada. 


11/07/2016

LB também sabe falar sobre futesfera # 7 (sete é O número)

Nova Teoria do Caos, intraduzível

(O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque.)

Le battement d'ailes d'un papillon sur un héros peut provoquer un ouragan à Saint-Denis.


10/07/2016

LB também sabe falar sobre futesfera # 6

O que é que eu disse? Atentai: Mas eu tenho aquele feeling, e esse é do caneco.

TEMOS O CANECO!


furtei

LP também sabe falar sobre futesfera # 5

Que porcaria é aquela, milhares de borboletas no ar, na roupa, na cara e no cabelo dos jogadores?
Agora nós, em coro: que nojo!

O momento em que LP posta uma posta de pescada que ninguém vai ler, mas, ainda assim, posta

Hoje, em cerca de dois segundos, consegui resumir num único adjectivo toda e qualquer praia da zona limítrofe de Lisboa — designadamente ao nível da fauna (pois que não há flora):

...

...

...

su
bur
ba
na

su-bur-ba-na

suburbana!

LB também sabe falar sobre futesfera # 4

É sempre assim, na minha vida: quando já estou bem oleada — salvo seja —, sei a coreografia de trás para a frente e da esquerda para a direita, ela muda. Emudece, mesmo: para a semana, mudamos o esquema nas aulas de dança. Lá vou descoordenar-me toda outra vez. 
Por duas vezes, a boa da querida da titcha me disse para dar eu a aula. Não podia ser mais gentil, deve ser por ter os olhos azuis.
 
Quanto àquilo lá em Saint-Denis, daqui a bocado, que era o que me trazia aqui, prefiro fazer como o esquema da dança: muda. Nem um pio. O momento é de grande concentração. Mas eu tenho aquele feeling, e esse é do caneco.

09/07/2016

Isto, a continuar assim, conquisto um altar só para mim

Ainda acabo santinha. 
Fui atestar.
É um bocado mentira, mas não me apeteceu escrever pôr gasolina; meter gasolina; colocar gasolina — a pessoa deve ser pobre, nunca atesta. Boi, por seu lado, bebe gasosa como um viciado. Qualquer dia inscrevo-o nos AA.
Quando voltava do pré-pagamento, encontrei uma carteira no chão, ao lado de meu animal. Peguei-lhe com todo o cuidado, não fora dar-se o caso de conter uma bomba — uma bomba na bomba, bumba na bombástica — e até deflagrar. Abri-a, e, fazendo uma pequena prece de entrega do corpo (a alma não entrego, que isso nunca se sabe), espreitei só com um olho lá para dentro, tipo o cão da arma.
E vi dinheiro.
O susto foi tanto, que fechei logo aquilo, correndo mesmo o risco de entalar o globo. Pareceu-me ver uma nota de quinhentos. (Mesmo à pobre.)
Dirigi-me ao balcão e disse assim:
- Encontrei uma carteira com dinheiro.
E a pessoa de lá esbugalhou os olhos dela. Mas eu, já habituada a estas lides, pedi-lhe um papelinho, escrevi o meu nome e telemóvel e disse que entregava à pessoa que me fizesse a melhor descrição da carteira. Acho que ela achou que eu era parva. Eu também me senti um nico.
Depois, pela estrada fora, roeu-me o diabo, abri a carteira que não era uma bomba, e vi uma mísera nota de 10, uma de 5 e umas moedas. Dezanove euros e um escudo. É verdade: um escudo. Se era a moeda da sorte de alguém, já fostes
Não, desculpem — eu ajudo: o que há de encantador em mim, é o momento em que acho que estão 500 euros dentro daquela carteira e, ainda assim, vou deixar os meus dados para que o dono a encontre.
Amo-me.
Chiu.

Palminhas e (chutos nos) kudos

para as mulheres que vão para o balneário secar o cabelo quando estão 35 graus na rua. É que não é só secar, é fazer o bom brushing. Levam a escova cilíndrica e puxam e repuxam da farripa. Hoje até cheirava a queimado ao pé da tola de uma delas. Aquilo era o odor do neurónio que falece. 
E vai que podiam sair de lá lindas, belas e esplendorosas. Mas é que não. A pluma esticada, e lá vão elas, deixando a sala toda num brasedo que não há ares condicionados que lhe (nos) possam valer. Não suam das cabecinhas, enquanto secam aquilo? Já agora, eu é assim: no Verão é uma tortura lavar a cabeça — enquanto molhada, a canícula é tal, que não sossego enquanto não a sinto seca. Ando mesmo a ponderar a possibilidade de deixar de lavar a crina na época estival, e que se lixem as relações pessoais e sociais. Ora, se lhe metesse o secador, mais molhada ficava, por força da sudação. Capaz de ficar a cheirar a mofo e depois apodrecer. Assim, mais vale aquele piquinho a azedo, derivado da ausência de lavagem. Não?

07/07/2016

LP, assim como LB, também sabe falar sobre futesfera

Então, eu vou contar qual é o meu nível de influência nos resultados de a bola, e depois vocês mo confirmam, ou não.
Eu sou uma pessoa humana que, de cada vez que entra numa sala onde está a decorrer um relato, quer ao nível televisivo, quer ao nível radiofónico, dá-se um golo. É um fenómeno que ocorre desde que sou petiza, e para o qual não encontro outra explicação, a não ser a do acaso, ou de possuir qualidades tipo medium do chuto. O único senão disto aqui — é que não há bela sem ele — é o de não ter controle sobre a direcção da esfera, e tanto me dar para a baliza que eu gostaria, como para a do adversário, o que constitui uma grande adversidade.
Ontem estava com gulas de franga mais batatas fritas em óleo de automóvel mais cerveja beijeca estupidamente loira e gelada, e parti em demanda. 
(Bem sei que era muito mais blogger da minha parte vir para aqui falar dos caviares e champanhes Don não sei quantos, mas que quereis de uma doce parola, cujo príncipe encantado ou vem de garrafa de mini no sovaco, ou pode ir declamar para o deserto aos peixes?)
(Bem sei que o colesterol e as coronárias e o genital, mas ó: se me falharem as lindinhas, falham-me felizes, e o resto é fado.)
Depois de ter dado numa porta com aquele que é o orgulho da minha mãe e para o qual eu já devia ter feito um seguro para tamanha perfeição, mudei-me para outra frangaria. Assim que entrei, o bafo era uma coisa de me assar a mim mesma, logo à entrada. Deu-se que envergava o vestido verde, aquele tal que, apesar de fazer de mim uma menina em idade escolar, foi aqui há um ano tema de conversa cá no buraco, só porque o enfiei em óleo (um vestido de seda da Stefanel, ou pensam que eu meto no óleo qualquer trapo?). Ora, o referido vestido enche-se de manchas escuras assim que eu suo, desde a barriga, às costas, e, vá-se lá perceber por que não, menos na sovacada. Era eu às malhas e o empregado a suar como um condenado, enquanto as aves, na grelha, praticavam Pilates. (Aquela cena de rolar como um frango no espeto, como diz Pilateiro.) Então, encetei o diálogo futebolístico, enquanto esperava que acabasse a aula às galinhas depenadas:
- Estamos a quantos?
- Zero a zero.
- Então estamos a ganhar.
E dá-se o primeiro golo.
O homem começa a escorrer ainda mais suor por todos os poros, pede à Dona não sei quê para ligar a ventoinha e confessa-se cheio de tonturas.
A pessoa, que deve ter sido torturador noutra encarnação, insiste:
- Mais um, que é para ficarmos confortáveis.
E dá-se o segundo golo.
Pede-me o homem que não saia dali até ao final do jogo. Mas suponhamos que eu queria jantar, o ambiente estava a ferver — literalmente — e não sou assim tão ambiciosa de boladas que valesse o sacrifício continuar ali.
- Venho cá no jogo da final. E fico ali sentada, caladinha, a jantar. De graça.
- Combinado.
(Pumba, uma refeição grátis à custa do dom.)