01/07/2016

O meu borracho

Subimos uma escada de acesso ao restaurante onde íamos jantar. Aninhado a um canto, encostado à parede de um dos degraus, vimos um pássaro, pequeno para ser um pombo, grande para ser uma codorniz. Também não podia ser um pássaro fugido ou solto de uma gaiola, também não podia ser uma das imensas espécies que Lisboa abriga (gaivotas, pombos, pardais, melros, arvelas, papagaios, até águias — já para não falar nos pavões do Campo Grande), mas, caramba, o que fosse parecia perdido, doente, incapaz de voar, talvez esfomeado. Acabei de subir as escadas preocupada com o bicho, ai coitadinho, vai morrer, ai coitadinho, deve ter fome, ai coitadinho, o que é que se faz?
Todos nós temos momentos, com maior ou menor frequência, em que nos achamos sozinhos no mundo. Refiro-me àqueles em que a nossa opinião não é escutada, o nosso pedido não é atendido, a nossa presença não é notada. São os tais instantes de invisibilidade, em que parece que desaparecemos do mapa por segundos, e ficamos a assistir ao filme da nossa vida e dos outros enquanto  meros espectadores. 
Assim me senti eu, quando me sentei à mesa, por ter ficado com a impressão que ninguém tinha tomado a mínima atenção ao meu cuidado com o estado do pássaro. Nem de propósito, fiquei posicionada de maneira tal que continuava a vê-lo, através da montra do restaurante.
Vieram os hambúrgueres para a mesa, eu pus os olhos no meu prato e pensei: "Vou guardar um bocadinho de pão para lhe dar, pode ser que o arrebite".
Então, sem qualquer troca de palavras, ele agarrou num bocado do seu pão, desfez em pequenos pedaços, levantou-se e saiu, calado. Vi-o, comovida por me ver naquela frescura dos quinze anos dele, colocar os pedaços de pão junto do bico do animal.
Se ele comeu ou não o pão, não sei, porque não assisti. Mas vi-o trepar os degraus que faltavam para atingir o cimo das escadas, e passar, pata ante pata, pela montra do restaurante, seguindo o seu caminho, até desaparecer num ponto da escuridão da noite. Era um borracho, afinal.


6 comentários:

  1. Lindo coração que tu educaste ;)

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    1. Ouro puro, o meu borracho :)

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  2. Muito bem !
    Atitude /gesto muito bonito, e muito saudável essa cumplicidade contigo!
    Muito raro !
    Frequente é o blá /blá ...muitos parabéns aos dois !
    Não é para todos !


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    1. Ele é muito, muito bonito :)

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  3. !sai um babete para a menina Linda Blue :D

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    1. Com alguidar incorporado, Manel :)

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