15/07/2016

A mim não me apetece falar sobre as tristezas que vão pelo mundo. Posso?

As coisas são assim mesmo, e há muito que a vida me ensinou que nos pode ocorrer um cataclismo dentro de casa ou da cabeça, que não é por isso que, surpreendentemente, os pássaros deixam de cantar, os autocarros deixam de passar a horas (mais ou menos) certas, as outras pessoas deixam de rir e de chorar, por motivos que, ainda mais surpreendentemente, não dizem respeito à nossa dor.
~
Ela entrou na mercearia e, mesmo que tudo nela não me chamasse logo à atenção, o simples facto de ter tentado passar à frente da minha vez, acendeu-me um alerta qualquer. Mas vi-a assim, velhíssima — pelos noventa —, e frágil, bengala numa mão, sapatinhos cor-de-rosa, corsários brancos, um infantil chapelinho branco, de palha, ao qual nem a fita azul faltava. Fez-me a funcionária sinal que esperasse um pouco, teria que ir atrás dela, que entretanto se havia embrenhado para os fundos do estabelecimento, pois tinha o costume de meter coisas na mala. Assim fiz, agarrada que fiquei ao chão, os olhos colados no ladrilho, uma paralisia que me tomou inteira, suportando as culpas do mundo sobre toda a pele passada a creme protector de manhãzinha. Temi pela abordagem de uma, pela reacção da outra, temi por mim, inapta para fazer mais do que tolher-me de inépcia. Afinal, foi tudo muito discreto, a rapariga pediu-lhe, delicadamente, que lhe mostrasse o conteúdo do saco, ela assim fez, a outra retirou de lá os objectos do furto, e eu fui, esmagada, pagar os meus sete quilos de fruta e hortaliça. 
- Esta é a maior pobreza. — Ouvi-me dizer baixinho, enquanto trocava dinheiro por comida.
- Esta senhora nem precisa. — Respondeu-me uma voz.
Mas outra voz, daquelas que me sopram ao ouvido, tinha uma opinião diferente:
Precisa, precisa. Há demasiadas formas de precisar.

10 comentários:

  1. Respostas
    1. Tantos dramas submersos, nunca sabemos com que tipo de descompensações nos cruzamos todos os dias, e que bomba farão estourar um dia — ou nunca...

      :)

      Eliminar
  2. Respostas
    1. Que bom, Maria...
      Entro nesse abraço. Obrigada.

      Eliminar
  3. Entras? Toma lá outro ... abraço.

    ResponderEliminar
  4. Há diferentes formas de precisar.
    Mas também à diferentes formas de o conseguir.
    Não descartes a possibilidade dela o fazer por "recreio".
    Conheci senhoras idosas que trabalhavam por "recreio". Não sabiam elas fazer outra coisa, não queriam parar de vender as suas coisinhas. Não se pode tirar o pouco que resta de propósito de vida a certas pessoas que ainda têm um...
    Talvez tirar bens do supermercado seja uma actividade que a senhora aprecie. Se lhos comprassem e oferecessem não ia ser a mesma coisa. Talvez... furtar tenha sido uma prática de vida. Talvez... goste da atenção e se excite com a possibilidade de poder conseguir trazer um item, mesmo que lhe tirem todos os outros. Talvez possa pagar cada um, mas prefere não o fazer porque noutros tempos passou por muita miséria, nunca conseguia juntar dinheiro e quando precisava não havia.

    Tantos talvezes....

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Por isso mesmo, digo que há demasiadas formas de precisar.
      E, independentemente de ser criticável e de eu poder não concordar com aquela actuação, o factor idade (demência, solidão, fragilidade física, abandono em diversas camadas) desculpa rigorosamente tudo. Não é por acaso que a lei consagra, no domínio das inimputabilidades, a demência.

      Mas continuam os tais talvezes...

      Eliminar
  5. Horrível !
    Pobres pessoas ...
    Não podia concordar mais... com a tua resposta anterior.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É a pobreza da alma, quando já nada mais resta. Coitadinha da senhora.

      Eliminar