31/12/2015

Desejo-vos

(Não, este não é um post herótyco.)

um grande ano de 2016. Atentem no facto de ele ser mesmo maior do que os outros três que lhe antecederam, e que os três que lhe advirão. 
Que ele vos traga bombons, bombokas e tudo de bom (menos bombas — a não ser que sejam daquelas não bélicas, e apenas belas).
Que seja, portanto, bombástico.


E que venha com saúde e perfeitinho, que o sexo tanto faz, como se costuma dizer às grávidas.
Já agora, não concordo: agora a sério, desejo que tenham

UM ANO PROFUNDA, EFECTIVA E EXTREMAMENTE AZUL!


Sabes que os planetas estão desalinhados quando

1. Ainda não escreveste uma mensagem de feliz ano novo aos teus môres da blogobola;
2. Não passaste das 4 resoluções de ano novo, e faltam escassas 5 horas e meia para o velho acabar, salvo seja (até tens ideia para mais uma, mas entre 4 e 5, olha, que se lixe);
3. Entras numa pastelaria, o rapaz que te atende ao balcão despede-se de ti com um "Feliz Natal" e tu respondes "Boas férias".

(Façamos 2016 acontecer, porque isto já deu o que tinha a dar. Que ferro, como diria o Carlos.)

No Inverno, os velhos ficam mais velhos

Último dia do ano. O desconforto da humidade, do céu chumbado, do ar molhado. Os velhos dormem, dormitam, acordam, reclamam. Há uma que se levanta e bate noutra. Diz que tem que ser, que o marido dela devia sacudir-lhe mais vezes o pó. A pobre apanha, sacode-lhe a mão, ainda no ar, e enxota-a, como a uma mosca. 
Noutros tempos, eu moveria uma palha, para tentar salvar aqueles mundos.
Agora, fico, diferente — nunca indiferente —, metida no meu.
Para mim, também é Inverno, e o ano já está muito velho.

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 6

Dona Gata Mia, ocupando todos os spots de Mel Maria. Dormindo nos mesmos lugares, fazendo marcações de território (sim, voltou à carga) nos cantos que foram dela.
(E a esquisita sou eu.)



30/12/2015

Blue, so blue, que resoluções para 2016 traças tu? # 4

Quarta resolução para 2016:
A ver se consigo tornar-me uma pessoa mais normal.
~
Hoje é o terceiro dia seguido em que não verto uma lágrima pela minha gata. A tristeza pela morte dela não se me desarranca, mas já não choro de manhã, à tarde e à noite. Eu não sou feita desta massa, de pedra dura e fria. A minha, é uma composição muito mais mole e lisa, que pulsa, mas que também pára, como parado ficou o coração dela, debaixo dos meus polegares, que tentaram, descrédulos da certeza de fim, trazê-la de volta à vida. 
A Mia apareceu com uma lágrima num olho, e a espirrar. Tive tanto medo que me morresse, que liguei à vet,
Sabe, senhora doutora, morreu-nos uma gatinha, de morte súbita, faz mais de três semanas, e agora parece que tudo é motivo para pânico.
Diz a veterinária que é constipação ou alergia.
Lembrei-me que andei a limpar o pó no Natal, para que a casa me cheirasse a Porto e a fadas. Tenho uma gata alérgica ao pó, e isso parece ser um alívio, neste momento. 
Lembrei-me também de um episódio, há muitos anos, em que tive um aquário cheio de guppies, e uma das peixinhas resolveu dar à luz vinte e quatro filhos de uma assentada. É claro que ficou bastante combalida do parto, e teve um pós-parto de agonia. Ora, encontrando-me eu própria em pré-parto — e só dessa forma admito uma explicação para a atitude que tomei —, liguei para a loja de animais (vá que não foi para um veterinário), e relatei, com detalhes, senão sórdidos, pelo menos, escusados, o que se passava com a minha guppie.
Sabe, ela teve agora vinte e quatro bebés, coitadinha. Anda para ali, a nadar pelos cantos, muito quietinha, parece-me que não se encontra lá muito bem, e eu tenho medo que ela morra...

(Pronto, era isto que eu queria corrigir, no fundo.)

Blue, so blue, que resoluções para 2016 traças tu? # 3

Terceira resolução para 2016:
(Ando a congeminar) 
Publicar o enxovalho público (passe lá o pleonasmo) que foram as minhas 69 aulas de condução. Umas quantas, já espetei no Desblogue, desgraçadamente. Mas tenho outras quantas aqui entaladas entre a glote e o museu de arte antiga dos meus documentos no computador, na pasta Documentos - Os meus documentos - Documentos - Vários - Nata da nata do que eu escrevo - Merdinhas sem jeito nenhum.
(Assim se afere a minha organização, mental e tudo.)

Por falar em aferir, creio que é de bom tom, neste momento da minha indecisão, sondar-vos, através do recurso a uma sonda.
Vai daí, vou metê-la ali à direita, de quem chega aqui.

Blue, so blue, que resoluções para 2016 traças tu? # 2

Segunda resolução para 2016:
Não voltar a fumar.
Já deixei no século passado, já agora aguento esta mais um século.

29/12/2015

Blue, so blue, que resoluções para 2016 traças tu?

Vou ter que inventar 12, não é?
Ou isso são os desejos?
Doze desejos, é coisa que nunca consegui juntar numa só assentada, nem jamais consegui meter as 12 passas nessa mesma assentada boca adentro (ou abaixo), não só porque não gosto do sabor delas, como também porque receio asfixiar, de forma absurda, logo ao bater das doze, naquele stress, 12 badaladas, 12 passas, 12 desejos, são demasiadas dúzias para que uma pessoa não se engasgue, ou consiga encadear, alinhadas. Ou então, sou eu que tenho um nico de distúrbio obsessivo e descoordeno-me, incapaz de cumprir doze tarefas em doze segundos. 

Primeira resolução para 2016: 
Desistir de tirar a mim mesma retratos (selfies...) em dias em que o meu cabelo está giro. 
Eles serão alvo da minha raiva nos dias de bad hair. E ele há muitos.

Coração aberto, disse ela

Há caminhos por onde a vida nos leva, que não têm a finalidade que lhes atribuímos ao início. A minha levou-me há pouco para um lugar onde conheci gente nova, e também a ela. Trocámos duas ou três frases e, rapidamente, percebemos que nascemos no mesmo lugar, com um ano de diferença. Podíamos ter sido companheiras de berçário — fomos agora, sentadas numa espécie de sala de aulas. Ela, mais frágil do que eu — todas as pessoas, especialmente aquelas de quem me aproximo, ou que me são trazidas em braços pelo destino, são mais frágeis do que eu —, por mais sozinha, mais perdida, mais vulnerável a doenças do corpo e da alma, caiu de cama e nela estava quando falámos, cheia de tudo o que é possível ter e imaginar, com um sem nada, daquele tudo o que não se tem quando se lá cai assim. Feita forte, que sou bastante, ofereci-lhe um bocado de mim, 
Queres que vá à farmácia?, 
Queres que te leve alguma coisa?, 
porque faço sempre as mesmas perguntas (aborreço-me de mim mesma),
e ela que não, que não era preciso, e depois concluiu todos os nãos com 
Já não se encontram pessoas assim, de coração aberto. 
Que susto, Nani, que susto — coração aberto têm as pessoas operadas ao músculo, o meu está fechado, olha que nem para balanço nem para obras, está só fechado ao público, e, por isso, está tudo menos aberto, pois me parece que não cabe cá nem mais uma pequena migalha, quanto mais uma grande amiga. Ah, mas ainda cabes tu.

28/12/2015

Ainda bem que penalizam o piropo

Eu já andava a estranhar o decréscimo de piropos à minha figuraça quando passava numa obra dessas da construção civil. Mas, com o advento da crise (associar as palavras advento e crise na mesma expressão, reconheço que é de valor, embora também reconheça que não fui eu que inventei) e a paralisação da construção de casas, ainda pensei cá para com o fecho éclair que só podia ser por isso. Numa de no money, no funny — no obras públicas e privadas, no piropo ordinário. Depois, começou a provocar-me comichos na peluquera que os piropos, básicos ou elaborados, salvo raras e honrosas excepções (penumbra, dias de chuva intensa, ocasiões em que se encontrava na área outra fêmea, mas em jovem), de todo não surgiam — e foi quando me ocorreu que, de duas uma: ou o que havia decrescido era o meu sex-appeal, apesar das negas veementes e das bocas ordinárias que o meu espelho continuava a berrar-me diariamente, ou o que havia decrescido era a capacidade de discernimento da macheza deste país e arredores. Agarrada com unhas e dentes (que, graças ao senhor, que é o doutor dentista, e a mim mesma, estão óptimos e de boa aparência) a esta última teoria, que era a que me assentava como um vestido feito à medida, sosseguei o ânimo e travei o ímpeto de sair para a rua a questionar directamente os transeuntes sobre os motivos pelos quais já não me amandavam bocas e convites vários. Que fique claro que sempre menosprezei, enquanto piropo, aquela cena de desatarem a soprar à passagem da presa, traumatizada que fiquei por ter assistido a uma resposta a um sopro desses, Acaba lá de esvaziar a lata, que é para eu te dar com ela na tromba!. Por acaso, acho que deviam começar a pensar na Lei da Resposta ao Piropo, como forma de salvaguarda dos direitos do piropeiro, que, se não o pudesse isentar de responsabilidades no acto de piropar, ao menos que lhe servisse de atenuante no crime piropeiro, ou, quem sabe, mandar para o xadrez a bruta que assim lhe respondesse a um piropo (ainda que sob a forma de sssssssssss).

Digamos que a Lei do Piropo começou logo com a aparência de um grande sapo, nunca feito príncipe, no momento em que foi apresentada pelo BE na rentrée política de 2013, por ir baptizada de "Engole o teu piropo". Eu, por acaso, sou uma pessoa que, nas questões sexuais debatidas em público, ainda não consegui sair dos dez anos de idade, e, por isso, vejo logo imensas maldades neste título. 

Mas, agora a sério: era preciso que os portugueses não percebessem nada de leis para acreditarem que esta nova Lei do Piropo mais não é do que um... pirete. 

Diz o artigo, que vai ser acrescentado ao código dos cães (porque todos os seus artigos começam por quem):

Crime de importunação sexual
Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

Pronto, é isto: quem importunar outra pessoa — mas depois o legislador tem o cuidado de especificar, exemplificando —, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual.

Onde é que fica o piropo, neste texto? No verbo importunar? Eu confesso que há bastantes coisas, diariamente, que me importunam, e não é isso que faz delas crimes. 
OK, esperemos, sentados, pelas primeiras sentenças. 
E oremos, irmãos, para que não haja mais juízes capazes de proferir, ou sequer pensar, na expressão macho ibérico.

Não se zangam as comadres, mas sabem-se as verdades

Diz o povo que cunhadas são unhadas e eu até concordo.
(Por acaso, não tenho nenhuma comadre que acumule com essa afinidade a que chamam parentesco.)
As comadres, na boca do mesmo povo, não dão unhadas — são, antes, aquelas das verdades que se sabem, quando se zangam umas com as outras. 
Não estando zangada com nenhuma delas, apetece-me, ainda assim, dizer uma ou outra verdade sobre todas elas.
Eu sou pessoa para ter quatro comadres de uma assentada, porque sempre tive a mania da quantidade, embora nunca em detrimento da qualidade. Uma espécie de mania das grandezas em ponto muito pequenino, ou seja, uma mania das pequenezas. 
As minhas quatro comadres são todas diferentes umas das outras. 
As duas mais presentes, por mais dedicadas e mais irmãs que a minha irmã (que também é minha comadre, numa acumulação de títulos tipo príncipe de Gales, que depois é Duque da Cornualha, Conde de Chester e sei lá que mais nobiliárquicas canseiras), são ainda mais diferentes uma da outra do que as quatro todas juntas entre si. 
Uma, mora na Beloura, Linhó, Sintra, o que se queira chamar ao local, e tem três filhos. No dia 24, à hora de almoço, largou a família e a possibilidade de almoçar (designadamente com eles), percorreu os 22 quilómetros que a separam da afilhada e veio enchê-la de beijos.
A outra, mora a 2 quilómetros do afilhado, tem duas filhas, e veio com a família toda, no dia 27, ao fim da tarde, fazer uma visita que durou meia-hora. Ai que grande que ele está. Sem beijos.
Eu gosto das duas por igual. E sei que ambas gostam dos afilhados na mesma medida. Estamos, assim, quites.
Amor com amor se paga, diz o povo. E eu até concordo.


27/12/2015

Arco-íris PB

O final da tristeza há-de estar guardado num pote, ao cabo de um arco-íris todo de cinzentos e brancos de cinza, em sete tons distintos, que são capazes de ir do chumbo ao branco quase puro. Talvez seja necessário, primeiro, encontrar o arco, e depois percorrê-lo, desde os tons mais duros até aos da translucidez.
Qualquer tentativa de perverter esse caminho, pode eternizar os cinzentos mais pesados, impedindo que as cinzas mais claras nos invadam e nos tomem conta da vida.
~
Andei a ver se havia uma gata bebé para adoptar, porque mo pede o instinto e me faz falta dentro do coração, onde anda um buraco que não há meio, nem fim, nem princípio, de fechar. Encontrei uma, quase exactamente como me encaixa na falha, porém está muito longe e não posso ir buscá-la. Por alguma razão de lógica emocional, que é a mais matemática que conheço, não seremos uma da outra — o que, neste momento, deve ser bom para ambas. 
As coisas são o que têm que ser, assim como os animais e as pessoas. Tudo se alinha, quando chega o momento — o da tal translucidez. 
~
Também me tenho lembrado muito disto:
Please, don't ask me how I feel
I feel fine.
Oh, I cry a bit, don't sleep too good, 
But I'm fine.

26/12/2015

Diálogos à sombra # 15

Amorosa, pergunta-me a PT:
- Então o seu Natal, foi bom?
- A prova em como foi bom é que eu aqui estou...
- Já somos dois — mete-se, sozinho e a pés juntos, o senhor da mercearia (sinceramente, isto sou eu a ser muito honesta, aliás, sou-vos franca, não sei se o senhor tem uma mercearia ou não, mas lá que lhe ficava a matar como habitat natural, isso ficava), naquele diálogo recém-entabulado, para o qual ninguém o chamou. Por acaso, apeteceu-me dizer uma alarvidade do género "A conversa ainda não chegou ao nabo", mas fico demasiado exaurida para mais do que estender a toalhinha em cima de uma cama, a que eles chamam supino, deitar-me nela e, embora me apeteça sempre partir para o reino de Morfeu, ter que fingir que elevo dois alteres que lá diz 5 kg, mas só pode ser a brincar, porque eu acho que pesam cerca de 20 quilos cada um.
- Eu sei que o meu Natal me pôs um quilo — continua a grande querida, metaforiquíssima, como se fosse possível o Natal pôr-nos alguma coisa, que não seja uma carga de nervos em cima, drivados de todas as razões e consequências que dele advêm. 
- Eu, isso, não sei. Nem me ponho em cima da balança, não vá ter-se-me posto alguma coisa em cima também, e, assim, ao menos, não tomo conhecimento. Antes ignorante do que deprimida.
- Então, deprime se tiver posto peso?
[E ela a dar-lhe com o verbo pôr, em vez de, simplesmente, engordar.]
- Deprimo. Portanto, uma coisa de cada vez. Não consigo ficar gorda e deprimida, tudo ao mesmo tempo. Ou uma, ou outra.
É esta a minha primeira resolução para o Ano Novo — uma coisa de cada vez.
(A ver se não me esqueço.)

Vamos lá, que já é dia 26, e a sorna acabou

Vocês, não sei, mas eu, por mim (e um nico por vós), vou para o ginásio. Começa hoje, oficialmente, a Operação de Combate ao Biquíni Flácido.
Preciso de queimar a rabanada.
E os muitos sonhos.


25/12/2015

A desilusão retumbante, ribombante e ressonante deste Natal

Ao contrário dos trinta anteriores, este ano não se ouviu, por todos os lados e mais algum, o mega hit Last Christmas, nem na voz do George, nem em nenhuma outra. E, parecendo que não, fez falta. Eu senti.
Estou aqui para colmatar essa falha, a todos os níveis. Para tanto, deixo a minha versão favorita, à laia de prenda no stiletto. Cá beijinho e votos de um dia feliz.

24/12/2015

Só me resta desejar-vos

uma consoada consolada.
Sem espinhas.
(Tits.)
Eu, por mim, estou presa num elevador, ao nível de um quinto andar. Podia ser pior (podia ser um décimo).

As fadas do Natal

Em passeio pelos natais alheios, mais uma vez me apercebo de que nem o estereótipo da avó como figura dominante do Natal da infância tive. Nos meus natais havia duas tias, trezentos quilómetros separadas uma da outra, ambas irmãs, uma materna e outra paterna. 
Nasci já só com uma avó, portuense por usucapião do casamento, mas barcelense das costelas todas. Era no Porto que o Natal acontecia, o que me levou, até ser mulher, à ilusão de que o resto do país não comemorava o Natal. Quando chegávamos, a casa da minha avó cheirava a rezina e canela, à madeira que ardia na lareira da sala, aos móveis acabados de passar a óleo de cedro, a açúcar em ponto de rebuçado, à couve e ao bacalhau, à lã das camisolas grossas e dos cobertores de papa que era preciso agasalhar por aqueles dias. Esta alquimia era processada pelas mãos de fada da minha tia, que instalava e alimentava treze pessoas em casa, e só não à mesa porque a minha avó, supersticiosa, se sentava apenas quando a décima-segunda pessoa se levantava — o que não a impediu de ser a primeira a morrer, de todas as treze que lhe habitavam os natais. 
A minha tia comemorava o Natal amarrada a um fogão e presa a panelas maiores do que ela, metaforicamente falando. Nessa época, como agora, não havia mil criadas para tudo. Isto, porque havia novecentas e noventa e nove que não existiam, e uma que, pelo insondável motivo de ter igualmente família e não pertencer a nenhuma religião alternativa, folgava também por esses dias, quem sabe soldada de e a outro fogão, comandando o ritual de fuzilamento e assadura de um condenado peru. 
[Gabriela, cheiro de cravo, cor de canela.]
Ao contrário, a minha tia tinha um avental de algodão cheiroso, que concentrava o cheiro da canela, e eram da cor do cravo as mãos dela, quando saía da cozinha, e se sentava à mesa, para tomar a refeição. Tem graça que, agora que penso nisso, não me lembro de a ver comer. Lembro-me só dos olhos, muito pretos, cheios de água pelo brilho do calor do fogão — ou seria da felicidade?
Os homens conversavam à mesa e fumavam charutos especiais, porque eram dias de festa. 
(Ninguém se lembra que os homens não se moviam, a não ser para levar o garfo ou o charuto à boca.)
Mais tarde, quando os natais se transportaram para Lisboa, trouxeram com eles também a figura da tia ao fogão, no corpo de outra tia, tão minha quanto a do Porto. Usava igualmente um avental cheiroso de canela, colocava travessas de rabanadas na mesa, e as mãos, da cor do cravo, tem graça, agora que penso nisso, não me lembro de lhas ver pegar em talheres para tomar a refeição. Lembro-me só dos olhos, quase verdes, cheios de água pelo brilho da felicidade — ou seria do calor do fogão?

23/12/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 22

Por exemplo, vou à FNAC, esse grande templo hipster, pináculo da intelectualidade moderna, ao nível do livro, do gadget, do material escolar ao preço do ouro e da t-shirt alegórica, e vejo coisas.

Cada vez que a caixa expresso implica comigo, ie, sempre.
Uma pessoa carrega no botonete ajuda e leva com este andrógino, cuja manita aponta o número 3.

Esta fotinha adorna uma parede, alegórica a transeuntes da vida real, mormente à porta de várias FNACs desta vida.
Algo me diz que não é este público que a FNAC atinge, qual alvo. 
E é tudo, por agora.

Os meus presépios

Gosto muito de presépios. Devia ter uma colecção, mas, como tal não é possível, vou guardando imagens, que vou buscar ao Google. 
Gosto particularmente do meu presépio. É uma só peça, em que a figura do S. José é predominante e protectora. Não sendo lindo, representa exactamente a forma como eu vejo e entendo a história de um homem e de uma mulher pobres, em cujo percurso de uma longa e penosa viagem ocorreu o nascimento de uma criança, num estábulo — que é, afinal, o significado etimológico da palavra presépio


Não há Natal que venha, que não me traga à memória a descrição do presépio, feita pelas três meninas mais amadas da minha vida, assim que começaram a articular frases, por volta dos dois anos de idade. 

Tinha a mais velha 27 meses, quando assim o descreveu:
O hóme [S. José], a Banca Véve [Branca de Neve = Maria] e o miúdo.

A segunda tinha 26 meses no Natal, e foi assim:
O tio, a tia e o bebé.

A mais nova, com 22 meses, descreveu o presépio da seguinte maneira:
O Zuzu [Jesus], aquele de pau [S. José], aquela de joêio [de joelhos = Maria], aquela de asas [anjo].

Estes foram e serão sempre os meus melhores presépios, de todas as colecções fotográficas, reais ou mentais que algum dia eu tenha feito, ou venha a fazer.

22/12/2015

Flutuações

Soube hoje, de uma forma muito serena e agradável, que aqueles olhos me levariam até ao inferno, caso quisessem, pois foi o que aconteceu, e foi serena e agradável a nossa passagem, juntos, por lá. 
Mesmo à gajo, deixou as compras de Natal para hoje e pediu-me que o levasse ao Colombo, e por isso eu fui — mesmo à mãe, incapaz de um não tão fora de mão. 
Já no parque de estacionamento, que alcançámos após luta corpo a corpo com milhares de outros carros, tenho um contratempo com um condutor que me fica com o lugar, também ele conseguido através do recurso ao pente fino. Saio do carro, peço explicações para a atitude do homem, ele responde-me com uma frase cheia de "você" para cá e "você" para lá, decido que não vou entabular conversações com o porta-estandarte da bandeira da zona J, mas isso deixa-me à beira de um ataque de nervos. Volto para o carro, onde desabo como um baralho de cartas. Sossega-me instantaneamente a voz dele, que me diz, com precisão delicadamente cirúrgica, o que me ouviu a mim, em tantas circunstâncias das nossas vidas: Aquele homem não vale as tuas lágrimas. 
Metemo-nos na multidão, passamos a fazer parte dela e, no entanto, não nos misturamos com ela. Somos iguais um ao outro, e diferentes de toda a gente. Falamos sobre os mesmos assuntos, reparamos nas mesmas coisas, rimo-nos das mesmas situações. Pergunto-me e pergunto-lhe o que seria se houvesse uma emergência com o centro cheio daquela maneira, e se o plano de emergência funcionaria, ou sequer estaria actualizado. Ele tem quinze anos e ainda não despiu completamente a capa de super-herói. Deve ser por isso que me responde que trepava às paredes mais altas e ficava lá em cima, à espera que o perigo passasse. Ele não sabe nem sonha que, acontecesse o que acontecesse, eu nunca o deixaria para trás, e, assim como entrámos juntos naquela massa, sairíamos dela juntos, com toda a certeza absolutíssima. Tal como das duas vezes que o resgatei do mar, vestida eu de super-heroína. 
- Mulher, falta-me a tua prenda! — confessa-me, às tantas, e aos tantos milhares de passos. 
Entramos juntos na Calzedonia*, ele quer oferecer-me os collants da Julia Roberts
- Esta collant tem uma tripla função — anuncia a funcionária, como se ainda estivéssemos indecisos acerca da compra — modela a anca, reduz a barriga e descansa a perna. 
- É mesmo disto que tu precisas — diz ele, glorioso, satisfeito com a sua compra três-em-um, apesar de ainda não efectuada.
- Só da parte de descansar as pernas, só dessa... — respondo-lhe, toda risos, enquanto penso que bom seria que existissem collants de descanso da alma.
Haja o que houver, sei que estes serão os collants da minha vida — pelo menos, até que haja mais Natal.

* sem patrocínio

Ela fala tanto # 5

Pergunta-me se lhe dou a quinta-feira, dos dias que ainda tem para gozar de férias. Baralha-me um nico, este raciocínio, pois se os tem, não lhe estarei a dar nada. Ainda assim, armo em benemérita, e respondo, entre o estupefacta e o sinceríssima: 
- Claro que sim.

Acabava aqui a conversa — se ela não falasse tanto.

- É que este ano combinámos com uma das minhas irmãs [tem três, ou seja, histórias para contar a multiplicar por quatro, tendo em conta que as próprias também são para consumo alheio, nem que seja à força] passar o Natal lá em casa dela, que é na outra banda, e ela quer que eu faça as filhós e as rabanadas, porque ela não se ajeita. Aliás, não se ajeita com nada que seja de cozinhados. Então, desde que teve a miúda, parece que ainda está pior, atrapalha-se com a casa e com o trabalho, não é capaz de dar conta daquele recado, nunca tem tempo para nada, está sempre cansada, quer é encostar no sofá, e depois chama-me para estas coisas, já as outras duas é a mesma coisa, o que querem é que eu vá lá fazer as coisas e elas encostam-se todas a conversar, o que vale é que eu levo a minha Tatiana e ela sempre me dá uma mãozinha, porque aqui a mula é sempre a mesma, ninguém faz nada e eu passo o Natal na cozinha, encostada ao fogão, mas se eu não for, até acho que ninguém come...

Lembro-me, vagamente, naquela fase em que estava a entrar em anestesia geral, de ter dito qualquer coisa como "Encoste-se também, aprenda com quem vai à frente. A solução é um copo de vinho tinto", tudo por me estar a lembrar daquele jantar de sábado em que, antes que me calhasse o carrego da terrina da sopinha e do pirex do bacalhau, bastou-me escurropichar um copo de vinho tinto na altura das tostinhas com queijo, que apaguei geral, e já só dei para monossílabos o resto da noite. Creiam-me que até pestanei pesado no momento em que o dono da casa fez uma prelecção subordinada ao tema "Os meus trabalhos actuais", vulgo actualização pública e verbal do curriculum vitae. Não há melhor desculpa para não nos conseguirmos desalapar do sofá, do que uma dor na anca que não nos larga (a dor, não a anca), ou um vinho qualquer, em que até podemos acusar os donos da casa de lhe terem deitado quebranto, só para nos porem fora de combate. 

21/12/2015

Eu hoje entrei numa nuvem



Diálogos à sombra # 14

Queixo-me de que não posso ir à internet tentar perceber um sinal do corpo, uma alteração insignificante, uma anormalidadezinha, um sintoma qualquer, que não venha de lá uma de duas respostas, invariáveis, que são cancro ou calo no cu.
Diz-me uma assim: 
- É verdade. Tenho uma comichão num joelho, digito "comichão num joelho", e aparece-me logo "cancro no joelho", "cancro no osso do joelho", ou "cancro nos pêlos das pernas, ao nível do joelho". 
E diz-me a outra assim: 
- É isso mesmo. Se digitares "calo no cu", o resultado é "cancro". E, se digitares "cancro", o resultado é "calo no cu". 

Eterno regresso

Espera-me um dia todo azul, e o sol aguarda-me, a pino. Vou passar sobre o rio, vou ter o mar diante dos olhos e nos olhos, tudo de uma só vez — pois, desta vez, o adeus é de vez. 
Já não na manta que a trouxe e depois a levou, mas, de alguma forma, vou trazê-la de volta a casa, de onde nunca deveria ter saído — de onde, efectivamente, nunca saiu.

video


20/12/2015

Check with no list

Neste momento, acho que comprei as prendas todas. 
No entanto, tenho a certeza que fiz o que faço todos os anos: esqueci-me que tinha comprado para A e comprei duas. Ou para B, tanto faz. Só nunca me esqueço de alguém, mas lá comprar a dobrar, é mais do que frequente. Listas? Até faço, mas perco-as, ou não risco um nome, ou acho a prenda péssima (a mesma que era óptima quando a comprei) e "reforço-a". Ou então, destino qualquer coisa para uma pessoa, depois acho melhor para outra, e acabo baralhando tudo.
Também uso o sistema da prenda-vezes-várias: há sempre qualquer coisa que compro a multiplicar por seis, que dá para as amigas todas. Vai tudo corrido à mesma. Este ano são umas luzes de Natal da Primark, que devem durar uma noite e ó-ó. Mas o que vale é a intenção.
E uso ainda um outro sistema, que é o da prenda passa-a-outro-e-não-ao-mesmo: qualquer coisa que sei, de antemão, que a pessoa pode dar a outra, caso não goste do que eu lhe ofereci. Por isso, é raro pedir talões de troca. Não gostas? Dá à vizinha.
Enfim. Agora, espero que não me apareça cá o amigo secreto, o amigo-surpresa, o amigo imaginário, o amigo da onça, que a pessoa humana já está de pés enfiados na lareira que não tem, e ainda tem que se ir despencar para os centros comerciais à custa dos da última hora. 
Caneco. E o meu vizinho de baixo? E os do 4.º andar?
Só um momento, já volto.

Às vezes, pergunto-me se sou a única pessoa que conheço que faz anagramas disfuncionais

Encontramo-nos em Sintra. Acaba de me dizer que vai dali para Torres Vedras. E eu respondo:
- Apanhas o IC19, depois a segunda circular, e vais directo pela A1, não é?
- Não. Era capaz de dar uma volta demasiado grande. 

É verdade, a minha velha confusão Torres-Torres.

Torres Novas - Torres Vedras - Alhos Vedros - Vendas Novas - Linda-a-Nova - Linda-a-Velha - Cacela Velha  - Fonte Nova - Feira Nova - Continente - Pingo Doce - Lidl - ALDI. 

Homem rico, homem pobre

É nesta altura do ano, e, em particular, nos centros comerciais, que o inferno se materializa, cimenta, ergue, qual Adamastor.
Fileiras de gente, igualmente infernais, comandadas agora pela regra da fila única mais altifalante, inventada pela Primark e adoptada pela FNAC, caixa 2, por favor!, caixa 5 por favor!, e assim segue a carneirada. yes sir, mééé, eu só quero sair daqui.
Vem uma mãe, pequena, despenteada, desgastada, magra, daquele magro de tanta falha, e ralha para o filho, uns sete anos, loiro, nariz a gritar "opera-me já aos adenóides", magro das mesmas falhas, Não me chateies!, ele choraminga, Mas eu não te estou a chatear..., e ela obriga-o a ficar ali ao pé, quieto — tolhido de vergonha, perante uma plateia indiferente.
Uns metros adiante, está um pai, não sei se feliz, mas vejo que contente, que traz um rapaz da mesma idade do da mulher magra, cabelo escuro, mas que anda à solta pela loja, ora mexendo num expositor, ora observando outro, enquanto o pai, que julgo contente, desata a cantar "Let it snow". O miúdo olha para ele, continua a saltitar entre corredores de revistas e gomas, e o homem repete "let it snow", e dá um discreto pezinho de dança de cada vez que canta. O filho esconde-se mais um pouco, a cada "let it snow" do pai, cada vez mais sonoros — tolhido de indiferença, perante uma plateia embaraçada.
O rapaz loiro está ali, ao pé da mãe, como ordenado, de olhos cravados no rapaz moreno, que ora se esconde, ora reaparece. 
Com toda a probabilidade, nunca se irão conhecer.
Por algum motivo, lembrei-me de uma série que deu, há muitos anos, Homem rico, homem pobre. Dois irmãos, um rico e um pobre.
Por algum motivo, pus-me a pensar: se tivesse que escolher, será que escolhia ser o filho da mãe magra e desgastada, ou o filho do pai contente e despropositado?
Por algum motivo, decidi-me pela mãe.


19/12/2015

A minha cosmética sofre de GERTRUDE

Para quem não saiba, GERTRUDE é um acrónimo.
(Já começo bem, logo de manhã, ao sábado, que é para não perder a embalagem. Nem o pacote. Hah, que espirituosa.)
Acrónimo esse, que significa Gestion Electronique de Règulation en Temps Réel pour l'Urbanisme, les Déplacements et l'Environnement.
Foi um sistema implementado na cidade de Lisboa, que é para não andarmos cá todos ao molho e, apesar de estarmos militarizados pelos semáforos, não estarem uns meia-hora à espera que os outros passem, e outros, cinco segundos com o verde pela frente, apesar de ser o que, no entanto e no fundo, acontece na mesma.
Bom. Eu só queria fazer uma associação de ideias.
Sabem aquela cena de as lâmpadas de uma casa fundirem todas ao mesmo tempo? Não é o curto-circuito, é mesmo o longo. Quando se nos funde uma, e, depois, as outras, no espaço de poucos dias, armam em solidárias e aqui vai disto de suicídio colectivo? Ou, menos dramático, porém igualmente perturbador, tipo despedimento colectivo, mas em que só dói à entidade patronal (pode ser que exista)?
A minha cosmética tem GERTRUDE, longo-circuito e acordo colectivo: cada vez que se acaba a base, o creme de dia esguicha a última nhanha, o rímel (sorry, girl, mas, assim como tu não esqueces o meu oil dress, eu não me esqueço de te chamar à colação de cada vez que digo ou escrevo rímel) desata a acabar, o lápis fina-se, o eyeliner falece.
És toda de plástico, pensam vocês em uníssono de pensamentos ruidosos.
Tomara eu, respondo eu assim para comigo, em silenciosa meditação, meditabunda.

18/12/2015

Vamos só supor

que me aguarda, no dia de amanhã, um jantar de Natal de uma empresa, mas que é feito em casa do gerente dela (e não, não me enganei, administrador é outra coisa). Sendo que até tenho alguma intimidade com o senhor, mandei recado, a perguntar se o jantar era servido à mesa.
A resposta veio nim. 
Preocupa-me saber, não se é volante ou sentado, mas se existe pessoal para ajudar os donos da casa. Quero saber o que me espera, e não o que raio levo vestido, porque, conforme já publicitei sobejamente, o meu dress code é, ao longo do ano, Christmas chic, seja lá o que isso for. Mas dá-se que conheço muito bem a casa onde terá lugar o repasto, na qual se inclui uma cozinha que parece Alcácer-Quibir, de todas as vezes que ali se cozinha um prato de forno. Conhecendo os anfitriões como conheço, qualquer coisa me diz que mais vale ir já de avental vestido, armada em maçónica, porque, ou muito me engano, ou a cena é andar a carregar pirexes de bacalhau, do denso nevoeiro para a sala, e da sala de volta para lá. Capaz de ainda encontrar el-rei.  
Aqui d'el-rei.


Fwd: FW: Boas Festas!

Já começam as sarnas do mail, que mais valia entalarem as pontinhas dos dedos nos refegos do teclado, electrocutarem a unha na rodinha erótica do rato, ou, simplesmente, estarem quietas. 

Estes mails forwardeds, são os mesmos que já recebo desde 2003, que foi quando percebi, finalmente, que a nettinha existia. Com o passar do tempo, têm-me merecido tratamentos diversificados, a saber: 
- No primeiro ano em que os recebi, fiquei maravilhada, comovida, alucinada, incapaz de me conter (tipo incontinente) e vai de responder, um a um, com palavras doces e agradecidas. Apesar de ter ficado triste, só e abandonada como o gelado, por ter visto decrescer exponencialmente os postais de papel, por outro lado, senti-me super-moderna e a acompanhar uma new trend qualquer. Era tão totó.
- Nos anos seguintes, por talvez ter desconfiado que aquilo seguia para uma imensidão de gente, despersonalizado e frio, já fiz uma triagem, o que me fez sentir extremamente inteligente, perspicaz e esclarecida. 
- Depois, vieram os anos em que abria os mails de forwarded Boas Festas, ficava a olhar para eles sem saber muito bem o que pensar — note-se que recebia postais animados, daqueles da internet, com famílias inteiras vestidas de duende do Pai Natal, postais lá da firma, postais que eram uma autêntica caricatura ao Carnaval, que nem made in China seriam tão purpurinosos —, muito menos o que fazer. Por isso, não fazia nada. Fechava-os, guardava-os para desmemória futura, e esperava, pacientemente, que viesse o Carnaval e a Páscoa seguintes.

Quem nunca recebeu esta desgraça, com as caras de pessoas com as quais tinha intimidade zero, ponha o dedo no ar
- Mais à frente, vieram os anos da semi-libertação, em que abria os mails da boa festa, os meus olhos percorriam a espécie de texto na vertical, e zás, lixo.
- Neste momento, aparecem-me mails fwd Boas Festas na caixa a receber, já não os abro, e delete-delete-delete, directo para a caixa do caixotinho. 
- Para o ano, quem sabe não terei atingido a perfeição da indiferença aos mails da indiferença, e não terei uma caixa de spam tão perfeita, que mos sugue directamente, antes que me suguem eles a paciência a mim?

A fome é tão negra

Deu-me o ronco no estômago, a meio da manhã. Mas já tinha acontecido o intervalo das 11 — durante o qual já tinha comido bolachas —, e ainda faltava bastante para a hora do almoço. Lembrei-me que tinha um pacote, também de bolachas, na mala. No entanto, considerei que era desagradável para o orador, se me visse trincar e mastigar bolachas, ali, no meio da plateia. Só que a fome matava-me e o estômago, qual bezerro desmamado, não se calava. Peguei numa das bolachas (duplas, com creme no meio), e, discretamente, meti-a inteira na boca. 
A p. da bolacha tinha exactamente o tamanho da minha arcada dentária, pelo que fiquei com bolacha até às amígdalas, e sem capacidade para articular o maxilar, por forma a poder mastigá-la. Caso uma das migalhas se desprendesse, iria colar-se directamente no goto, engasgar-me-ia, e sufocar-me-ia. Lentamente, passo a passo, fui começando a conseguir descolar os dentes da bolacha, e ela foi sendo meigamente triturada. 
Quando, finalmente, me livrei do embaraço, a fome continuava a roer-me as entranhas, o que me levou a repetir a experiência. Preferi arriscar a minha vida, a morrer de fome. 
No final, apareceu-me uma migalha no colo, e perguntei ao meu colega do lado: "Olha lá, o que é que isto, castanho, te parece? Achas que é bolacha?", mas não esperei que ele respondesse (não fosse ele querer comer a minha migalha), e comi a migalha, diante do ar estupefacto dele.
Eu própria me surpreendo. E me temo.

17/12/2015

Chakras, cada um carrega os seus

Entro na sala e, em vez do orador que tinha como certo ir encontrar, está a fazer uma prelecção uma das pessoas que, no dia anterior, estava comigo na plateia. 
"Então não queres lá ver que este engoliu o monitor?" — raciocina o meu sono, o meu stress de quase 30 quilómetros na estrada mais parva dos arrabaldes, a minha luta interior por não saber se quero estar ali ou se já saltava fora. 
Ouço-o falar em chakras e decido que, definitivamente, ainda estou a dormir. Vá, eu não vim de tão longe para ouvir falar nos sete chakras, a começar pelo que se encontra no cóccix e a acabar no outro, que se encontra fora de nós, acima da cabeça. E que há pessoas que não querem ter um espelho à entrada de casa. E que, às vezes, quando estamos carregados de energias negativas, devemos tomar duche com um balde de sal grosso, que nos cubra do pescoço para baixo. Ou então, um banho de imersão, em que ponhamos um fio de cobre a sair da banheira, para que essas energias negativas saiam todas, através do cobre. 
Não percebo nada do que ouço. Mas também não sou céptica em relação a nada. Que las hay.
Acabo de me sentar, pouso a mala no chão, depois a marmita debaixo da cadeira onde estou sentada, a seguir a minha carteira, ao lado da mala. Fico quase de cabeça para baixo, e reparo que levei uma meia opaca e uma meia transparente, embora ambas pretas. Estou de calças, quase não se vê, mas eu vejo. Vou andar todo o dia a meter um pé atrás do outro, em terceira ou quarta posição do ballet, tanto faz.
Fico ali uns segundos, de cabeça para baixo, a olhar para os meus pés.
O monitor que eu esperava encontrar quando entrei na sala, está à minha frente. O que estava a palestrar quando eu entrei, está sentado, na fila diante da minha.
Tenho os chakras todos trocados: o do cóccix está-me abaixo da cabeça; o que fica fora da cabeça nem quero imaginar por onde anda. 

Eu, cheia de reunite

Tenho estado todo o dia a ouvir a expressão boa zona.
Tem-me valido também ouvi-la dita, de vez em quando, no plural, o que me leva a dissipar as dúvidas acerca do tema que estamos a tratar.

As minhas marmitas

Esta semana ando por fora da minha box, e sujeita a carregar o meu almocinho, que é para evitar vários contratempos, designadamente ter que almoçar com estranhos com os quais não tenho nada em comum, a não ser andarmos todos ao mesmo, ou nem isso.
Então, venho munida de mamita.
Vivendo e aprendendo.

Marmita de terça-feira

Erro: ter inserido alface e rúcula na mesma caixa onde pretendia aquecer a refeição toda. Tive que tirar a relva, aquecer e voltar a pôr a relva nos separadores.

Marmita de quarta-feira

Foi bem: separei a relva do prato.
Erro: temperei a relva. Foi só um niquinho de azeite, uma pitadinha de sal e uns borrifos de orégãos. Mas matei a alface na mesma. Mas comi-a na mesma.

Marmita de quinta-feira [já chega de fotos]
Foi bem: não trouxe relva.
Erro: zero.


16/12/2015

Só não acertei na forma da prenda


Afinal, não era sob a forma sólida.


Licor de chocolate. Numa garrafa lindíssima.

Mas já comi mousse de chocolate num prato raso e fruta com uma colher.


Isto não me está a correr mal

A que disse que o dress code era Christmas chic, veio de Hysterical chic pro.
Serviram o vinho no copo da água e vice versa.
Perguntaram-me se queria tinto ou branco e eu perguntei o que é que iam servir, para poder decidir. Diz-me ela que vai ser buffet, e eu decidi branco, porque me determinei a ir ao peixe.
Serviram-me uma miséria e eu pedi mais uma colherada. O marmanjo disse que eu podia voltar ao buffet as vezes que quisesse. Expliquei-lhe que não me ia meter de novo naquela fila. De mona, lá me meteu mais uma pazada de bacalhau não sei com que espinafres, que também era à Brás.
Pode ser que me saia uma caixa de bombons da Regina, ou uma vela com cheiro a insonsas na troca do amigo secreto.
E estou para aqui agarrada ao telemóvel.

15/12/2015

Feeling high because of my top coat

Em primeiros, eu não dou conselhos cosméticos, por várias ordens de ideias, a começar porque já cá há na blogobola quem o faça melhor do que ninguém, e quem sou eu para arrebanhar o nicho a quem quer que seja. Mas vamos partir do pressuposto que eu também uso coisas de embelezamento (que resultam lindamente, passe o pleonasmo), e dá-se que me apetece falar delas, sobretudo quando não tenho mais nada para dizer, como é o caso presente. Também se dá que nem sempre é para dizer bem, e a mais não sou obrigada.
A cavalo dado não se olha o dente, e é bem verdade. O top coat de que venho aqui falar, é o cavalo. Dos dentes, ainda não sei o que pensar. Foi-me oferecido como a última coca-cola do deserto (como se no deserto uma coca-cola tivesse alguma serventia, que não seja desenferrujar as torneiras e desentupir as canalizações), a última bolacha do pacote, a última cocada da praia, a última maravilha do mundo, enfim: a última qualquer coisa, ou o dernier cri, o peido mestre na arte da fanera. Chama-se Seche Vite e, conforme o nome indica em gálico, seca rapidamente. Tipo passe vite, mas em verniz.

Ou seja, é top coat e secante, o que, para excitadas como eu, que não podem aguardar cerca de 30 segundos que o verniz seque, é muito prometedor. E o que o Seche promete, o Seche cumpre. A unha fica lisinha, o verniz dura até uma pessoa o arrancar à dentada ou à facada, e seca tão depressa, que não dá para indecisas, ah, afinal queria as unhas de outra cor. Isto é coisa para mulheres cheias de certezas absolutas.

Porém.

O Seche Vite, diz-me este nariz (incrivelmente belo e apurado com que fui brindada naquele momento em que os meus pais...), é cola de contacto, a avaliar pelo cheiro que exala, e depois se instala por toda a ambiência que nos rodeia, para além de dar uma super moca, super fixe. Não sei se cria habituação, mas sei que acabei de passar top coat nas unhas, e pode ser isso que explica o teor deste post.

Diz que o dress code do jantar de Natal

é Christmas chic.
E o que faço eu, que me visto Christmas chic todo o ano?

14/12/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 21

Vejo mulheres a tomar duche com AS cápsulas.

Num El Corte Inglés mais ou menos perto de mim
Por falar nisso, hoje foi a primeira vez que, em toda a minha vida de condutora, meti o carro no silo do estacionamento do El Corte Inglés. Desde a rua, até ao piso - 1, aquilo dá, pelo menos, quatro voltas de 360º. Quando lá cheguei, ia algo enjoada, mas vitoriosa. Na subida, foi a mesma coisa, mas ao contrário. E a vitória maior ainda, quando alcancei a rua.

É que eu tenho trauma com rampas muito pronunciadas, de parques de estacionamento.

É tão blogger da minha parte # 4

Pese embora não tenha nenhum Pai Natal gordo e generoso a quem possa choramingar um item, venho a esta casa em desabafo, mas também, e essencialmente, para mostrar que também sou capaz de fazer uma uichlist.
Vamos partir de um pressuposto, que é para haver já uma base de entendimento: eu detesto portáteis. O teclado irrita-me, o rato da placa enerva-me, a luminosidade do monitor desgasta-me, ter que o transportar (para justificar o adjectivo) é uma cruz.
Mas, por questões que para aqui não interessam, como quase todas as minhas, e ainda mais as que se me levantam, suspeita-me seriamente que vou necessitar de transportar para fora da torre, de modo mais eficaz do que apenas em chico-smart, toda a minha capacidade informática, e ó que não é assim tão pouca. E o meu PC é um CPU, se é que me entendem.
Então, hoje acordei a pensar neste bebé, tão lindo e maneirinho, mas do qual não sei nada, a não ser que, dentro do género, é o que mais depressa adoptaria como meu. Porque é azul (deve ser menino).

(Quanto às outras, não sei, mas este que utilizei, é também um critério fundamental e determinante para a escolha das grandes coisas da minha vida — um carro, por exemplo. Quais marca, quais carroçaria, quais motor, quais performance, quais consumos: a cor dele, é o mais importante nele.)

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 20/

Eu, pecadora, me confesso

Está uma pessoa, muito descansada da sua vidinha, em uma grande superfície, às compras — que é, talvez, a actividade mais stressante e temida, logo a seguir ao salto de pára-quedas, que se pode praticar entre 1 e 24 de Dezembro. Havia entrado numa loja de produtos naturais e cenas feitas à mão, que eu só não digo qual é, para que não se identifique o protagonista deste episódio e me caiam logo em cima os defensores dos oprimidos. Na verdade, tratava-se de um homossexual, e, por isso, se alguma piada isto pode ter tido, é, precisamente, devido a esse facto.
Estava a ser atendida por uma funcionária quando, de repente, me deu uma irreprimível vontade de mastigar uma pastilha elástica. É verdade. Nós, velhos, adoramos dar à castanhola com as placas, para dar ares de modernos. Mas não tinha nenhuma na carteira, e fadei-me para comprá-las na primeira ocasião. Em cima do balcão, avistei um cesto com umas caixas pequenas, cujo rótulo dizia "Pastilhas dentífricas". Vá que não dizia orais. O preço eram 3,5 euros, mas eu não estava em condições de discutir o preço da droga, pelo que peguei numa caixinha e perguntei para o ar: 
- Isto são pastilhas elásticas?
Salta-me o homossexual para a frente, a responder à minha dúvida (seria comissionista? Teria 10 % de comissão sobre 3,5 euros?), a abanar-se todo. 
(Pausa para explicar que eu não sou homofóbica. A sério. Acho que todas as pessoas devem ser felizes à sua maneira, e cada um toma onde mais lhe dá gozo, sem que ninguém tenha nada a ver com isso. Mas consigo fazer uma destrinça entre homossexuais e bichas. E a bicheza, por teatral e despropositada, dá-me uma certa estranheza, passe a rima.)
Este era do tipo bicha, cheio de trejeitos. 
- Isto são pastilhas, que você masca [menear de cabeça, em diagonais perfeitas com os ombros], e depois, quando começa a fazer espuma [menear de cabeça, para o lado oposto do anterior, ombros em diagonal], mete a escova de dentes na boca [biquinho com os lábios], e escova [sorriso cheio de dentes, olhos em alvo. Feliz.].
E vá que eu ficasse satisfeita com a explicação. Isso era mesmo bom, caso eu fosse igualzinha a toda a gente normal, e conseguisse, por um momento, ficar calada.
- Ah. E engulo?
[Bicha tem um espasmo, e faz HAH. Mas não desarma.]
- É uma tentação. Mas não. 
- Não posso engolir?
[A parva que me estava a atender faz um risinho parvo.]
[Eu nem mexo a cabeça na direcção dela, mas espeto-lhe os olhos, muito esbugalhados, e, quando tenho a última oportunidade que a vida me dá para ficar calada, digo-lhe:]
- Se calhar, agora, não continuava esta conversa...

13/12/2015

A construção de um dique

Durante muito tempo, guardei águas numa barragem que fiz para mim, retidas em grandes quantidades. Algumas vezes as deixei subir a um nível próximo do incomportável e quase transbordar — por ter que ser, por saber a minha represa capaz de comportar tamanho volume. Outras vezes, senti o nível baixar para alturas aceitáveis de sobrevivência alegre e pacífica — por vontade minha, ou por efeito do sol, que raia com intensidades volúveis e inconstantes. 
Ultimamente, a minha barragem encheu sem que eu desse pela subida do limite das águas, sem que pudesse evitar o seu entornamento. 
[Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima.]
Abriu as comportas — e de lá jorra agora uma imensa massa de águas, poderosa e inflexível.
Só construindo um dique as vou conseguir separar.

12/12/2015

Nem de propósito

Na Bairro Arte
(adaptação minha)

Fui ver a Cinderela, saiu-me a Bela, mas vi o Pai Natal (ou seria o Gandalf?)

Convenci-me que ia ver a Cinderela e, afinal, havia outra.
Já me pesam os anos, e os meses, as semanas e os dias. Só isso pode explicar tanta desorganização mental. 
Por outro lado, não sou uma pessoa de confiança, no que toca a fazerem-me convites, e também no que não toca. Queres ir...?, já nem ouço o resto, até podem estar a mandar-me à merdinha ou ao genital, que eu digo logo que sim na mesma. Tenho a meu favor a desculpa de ter sido desafiada por uma menina na qual confio cega, surda e mudamente. 

Era suposto estarmos às 9 horas no Teatro São Carlos, e decidimos ir de metro, por todos os motivos que expus supra, a acrescer que não sou assim tão parva e um pouco menos tonta do que pareço: optar por ir de carro, em Lisboa, sexta à noite, para o Chiado, pode ser a conjugação perfeita para quem queira ter momentos sucessivos de arrependimento genuinamente cristão.
Pela hora de começo do espectáculo e pela sua duração, rapidamente percebemos que teríamos que jantar antes, sob pena de entrarmos em hipoglicémia e depois ser uma chatice para sairmos dela. Assim, comprámos duas caixas de vegetariano e fomos andando para o teatro, para garantir que chegávamos a horas. Faltava meia-hora para as 9 quando chegámos ao Largo de São Carlos, onde nos sentámos num banco de jardim e jantámos. Parecíamos duas sem-abrigo, com a diferença que éramos duas sem-abrigo felizes e vegetarianas (não necessariamente por esta ordem). 

O Teatro São Carlos é majestoso, na verdadeira acepção da palavra: nobre, sumptuoso, real. Mas é também queiroziano, e não foi difícil imaginar o flirt entre a condessa e Carlos, ali mesmo, há muitos anos. 
Mal me havia acomodado, feita Cohen, no camarote que me saiu à sorte, quando avistei, do outro lado da sala, o Pai Natal. Quando já tudo me gritava baixinho Pai Natali, Pai Natali!, eis que me ocorreu se não poderia tratar-se antes do grande Gandalf. Sou uma perseguida pelas Bichas do Demónio, eu.




O espectáculo começou, e eu, plenamente convencida de estar a assistir à Cinderela, em nada estranhei que começasse com um baile, que existisse um lacaio, um príncipe (ou rei), uma princesa (que não situei muito bem na história, mas também não me despertou a dúvida, de adormecida nela que estava), uma mulher vestida de azul (que eu achei que era a Cinderela) e uma mulher má (que eu achei que era a madrasta). Às tantas, vi passar um bebé (que era um boneco), e aí, sim, achei que deviam ter-se enganado, porque não existe bebé nenhum na Cinderela
Foi só quando a bailarina principal se deitou no chão é que eu suspeitei que aquela podia não ser a história da Cinderela. De resto, já tinha dado pela falta das duas irmãs feias — que toda a minha infância me intrigaram com que raio de parentesco era aquele, uma vez que eram filhas de pai e mãe diferentes. Nessa altura, percebi que estava a ver A Bela Adormecida, já o bailado ia a meio. E só não considerei a hipótese de se tratar d' A Branca de Neve, por não ter visto passar nenhum anão, quanto mais sete. Mas também tenho a dizer em minha defesa que não vi passar nenhuma roca, nem nenhuma velha, e não podia adivinhar qual das dorminhocas era a protagonista deste espectáculo.
O príncipe que acorda a Bela é, outra vez, o japonês. Se calhar, não se lembram do japonês, mas eu lembrava-me, e muito bem. De notar que me encontrava a uma altura de quatro andares, e percebi claramente que ele tinha aqueles olhos assim. Veio lá de tão longe para acordar a rapariga, a dormir há cem anos. Por acaso, para fazerem aquele efeito que queriam, puseram um fumo na sala que deu mesmo parecenças com um castelo abandonado há cem anos, com o pessoal todo a dormir. Já o povo que estava acordado, na plateia e balcões, fartou-se de tossir, e eu hoje tenho os olhos injectados como o diabo, e quase em bico, como os do príncipe.

Bom, creiam-me que — e isto repito as vezes que for preciso, até ficar bem cimentado —, a nossa Companhia Nacional de Bailado em nada deve à escola russa, ao ballet francês, espanhol, ou do Burkina Faso. E a nossa Orquestra Sinfónica é, verdadeiramente, assombrosa. Metade dos músicos tocaram debaixo do palco, porque é assim a sala de orquestra no São Carlos. Deve haver muito mineiro com uma vida mais arejada. 
Eu cá, bati palmas até me doerem os ossos (até porque não tirei os anéis). E fá-lo-ia de novo, se ainda lá estivesse.

Há qualquer coisa de muito errada na forma como pratico exercício físico

Ou então, com o meu trato intestinal.
Ou então, com as canalizações do ginásio.
É que eu sou a única pessoa que não se peida.
Chiu.

11/12/2015

Post à la minute

Onde te escondes agora, ó Linda?
Olhem, cultivo-me, qual alface, que, no fundo, sou.
E quando penso, cá para comigo, que é tão verdade a minha velha teoria, que diz quando começares a ver os tectos, é porque estás verdadeiramente a divertir-te, eis que encaro com este assombro, mesmo diante dos meus olhos.

Teatro Nacional São Carlos (balcão quarta ordem)

10/12/2015

Desaceleração

Até tenho coisas para contar, se pensar bem. 
Parei, acelerando, e ainda não sei bem em que direcção. Ontem cheguei ao médico com 96 pulsações, quando o normal são 68, disse ele. E eu despreocupada, indiferente. O consultório fica num oitavo andar, mas eu não subi a pé. Perguntou-me a razão do disparo do meu coração, e eu disse-lhe Estou triste. A mulher dele é parva, quis por força impingir-me que alguém me desejou o mal e a praga caiu sobre a minha gatinha. Também tem a mania das mezinhas, para além das bruxarias. Disse que umas gotas de limão, metidas no café, fazem muito bem às dores de cabeça. Tinha dois limões na mão e estendeu-me um. E eu, que nunca tenho dores de cabeça, aceitei o limão e meti-o na minha mala amarela. Indiferente, nem quis saber se o limão se esborrachava contra o porta-moedas e as chaves e os mil telemóveis e pacotes de açúcar que trago lá dentro. 
Não tarda, estamos no Natal. Ainda não fiz compras, a não ser a de um livro para mim. A árvore foi comprada no dia 8, que é um dia especial cá em casa. Baptizámos duas crianças, nesse dia. É dia de Nossa Senhora da Conceição, que significa concepção, e houve uma altura em que eu era mais mística do que religiosa, e queria ser devota da Senhora da Concepção. Não sei porquê, uma vez que sempre concebi com uma facilidade invejável a silvas e a daninhas. Talvez quisesse fugir da Senhora das Dores. E acabei andando, durante muito tempo, mascarada de Senhora do Amparo, eu. Agora sou indiferente a isso. Este ano não quisemos aquela árvore monstra, de plástico carnavaleiro. Antevimos a Mel a tentar destruí-la, e agora não a temos. Por essa razão, também não quisemos montar a árvore falsa. Não combinámos, não trocámos uma palavra acerca do assunto, mas intuímo-nos e coincidimo-nos na escolha de uma árvore pequena, jovem e verdadeira. Fomos juntos ao Horto e trouxemos um abeto. Ficou muito bonita, a nossa árvore. Diminuta. Quando acabar o Natal, vamos pô-la na varanda onde a Mel brincava. Pode ser que sobreviva e, para o ano, seja uma árvore maior e mais alegre, também — o que, neste momento, também me parece indiferente.
A Mia anda pela casa a cheirar os lugares da Mel. Tem-na procurado, sem perceber por que é que não a encontra. Vai ao sítio onde ficavam as taças dela e vai ver dela debaixo da minha cama. De vez em quando, cheira o canto da minha cama onde ela morreu. Outras vezes, faz os percursos que ela fazia, pára nos mesmos sítios, e adopta as mesmas posições. Ao contrário do que sempre aconteceu, deixa-nos fazer-lhe festas, e anda atrás de nós pela casa, a fazer de Mel. Parece-me que está triste, mas isso sou eu, que tinha — ou tenho? — 96 pulsações por minuto. 
Tenho muitas — muitas — saudades da minha gata.

Quem tem olho/

Pensamento escatológico do dia # 16

9:00 horas.
Ela entra e acho que deseja bom dia. Assim, a seco. Mas eu não me importo. Para além de ter dezoito anos de hábito disto, sou uma pessoa apreciadora das diferenças de carácter entre os humanos e não tenho que ser a educadora de infância do povo todo. Já me basta ser a mãe.
Então, respondo, como sempre:
- Bom dia, Sandra.
E faço uma pausa, curtíssima, até questionar — por genuíno interesse, mas, sobretudo — e hipocritamente — porque, se não o fizer, ela amua por mais cinco dias. E eu, repito, já me basta ser a mãe do povo todo. O papel de madrasta assenta-me que nem uma luva de boxe apertada:
- Então, está melhor?
- Heh... — responde ela, com um encolher de ombros — já está menos dorido.
E eu quedo-me, muda. 
Menos dorido.
O quê?
Quero muito perguntar — por genuíno interesse, mas, sobretudo, porque as explicações medico-patológicas dela são verdadeiramente hilariantes —, mas trava-me a discrição, a falta de paciência para descrições desconexas extra-longas, as imagens mentais que me assaltam, desarmada, à mão armada, e acho que também o peso dos dezoito anos a que a aturo (e ela a mim). Então não querem lá ver que também devo ser um bocado mãe desta?

09/12/2015

Ela fala tanto # 4 /

Pensamento escatológico do dia # 15


Hoje despertei ao som, à luz e à imagem (gráfica, passe o pleonasmo) do conteúdo gástrico e intestinal dela.

Mensagens do cosmos

Já não bastavam os outdoors?


Recebo o recado, sob a forma de açúcar. Retenho-o, mas não o tomo, embora talvez devesse — quem sabe ficaria (ainda) mais doce. 
Tomo tudo sem açúcar, mas não amargo. Tudo tem uma conta, um peso e uma medida. No entanto, eu, embora não possa queixar-me do meu peso e das minhas medidas, posso bem queixar-me (e muito) da minha conta — que passa das marcas sem dó, oh, Piedade!
Isto é tão pouco blogger da minha parte.


08/12/2015

E tu, Blue? Enquanto não se decide por aí qual é, verdadeiramente, o melhor blog da blogobola (parece que isso não é uma evidência), diz-nos: o que levarias para uma ilha deserta?

Olhem, não foi fácil responder a esta. Mas, no fundo, a resposta estava dada antes de a pergunta me ter sido feita (por mim mesma, a moi même): para além de cápsulas de café, que eu mastigaria assim mesmo, com o estanho e tudo — que a paz e o silêncio de uma ilha deserta são capazes de encher uma pessoa de stress rural —, um secador de cabelo, com ar frio — que o meu cabelo detesta ares quentes, a mim no deserto só me apanhavam de touca de borracha —, 

fui furtar à netty

e um difusor, para que as pontas não espetem. E também um babyliss, que, parecendo que não, às vezes as pontas armam para o lado errado e eu não estava para andar pela ilha fora com ar de cavernícula. De resto, prescindo de quase tudo.


Eu tenho problemas com tudo # 8

Pediu-me a minha amiga mais Preta que fosse a uma casa de câmbios buscar-lhe dinheiro que os familiares lhe iam enviar do Brasil.
Podia a minha amiga ser menos preta e ter-me pedido que fosse ao inferno buscar-lhe granadas anti-tanque, com as cavilhas soltas, que eu iria na mesma.
(Depois, só tinha que ir levar-lhe o dinheiro a casa, que fica em Algés, a onze quilómetros da minha.)
É que eu sou este poço de abnegação, e as pessoas sabem disso. Por isso, pedem-me o impossível e eu, qual fada fadada para o bem, tiro-lhe o prefixo de negação e torno-o possível.
Tratava-se de uma quantia altíssima para os meus padrões — que, por muito coloridos, berrantes e floridos que possam ser, entendem € 1.305,00 como sendo muito dinheiro. Mil, trezentos e cinco euros. Ainda por cima, que, não sendo meus, me redobravam a responsabilidade sobre eles. Era como se transportasse dois mil, seiscentos e dez euros comigo. Tive medo de os perder e tive medo de ser assaltada. Eram dois medos com uma única causa. Só quem já passou por elas é que me entende.
Vesti-me de sem-abrigo (descalcei os meus Cubanas high heels e calcei umas sabrinas baratas. Achei importante, podia dar-se o caso de ter que fazer um sprint), disparei para o Colombo, com a minha mala amarela da Tous, que grita money-money-money-must-be-funny-in-the-rich-man's-world, e acho que entrei profundamente incógnita na casa de câmbios. Queria bastante ter posto uns óculos de sol, para intensificar o disfarce, mas calha que não tenho nem uso. Tive uns que amava com ardor, que se partiram pelas dobradiças, mais valia tê-los comprado na feira, que me tinha ficado muito mais em conta e faziam de mim a gaja mais gaja do meu espelho na mesma. Assim, fui com os olhos nus, apesar de bem abertos.
O rapaz que me atendeu contava notas em dinheiro mais depressa do que aquelas maquinetas que eles usam nos bancos, que parecem as tipas da natação sincronizada a amandarem-se para o charco. E entendeu apresentar-me a quantia dos 1.305 euros, toda em notas de cinquenta (e uma de cinco, claro). Aquilo fazia um molhinho razoavelmente volumoso, que eu não queria pôr na mala, nem tinha bolsos onde guardar. Temia ainda que algum gandulo (agora diz-se gandim, não percebi bem a evolução do termo) me visse guardá-lo e a ideia encheu-me de ânsias. É claro que podia sempre optar por levar as notas à mostra, em forma de leque e ir a abaná-las, até ao parque de estacionamento, onde, finalmente, podia trancar-me dentro do meu boi em paz e em segurança.
Depois lembrei-me que podia entalá-las no elástico da cintura das leggings. Por baixo da blusa que as tapava, por baixo do sobretudo, por muito estreito que ele seja, daria sempre para esconder lá uma edição capa dura e letras douradas d' Os Maias, quanto mais um maço de notas de cinquenta. Então, pedi ao rapaz que mas enfiasse num envelope, É que sabe, não me apetece levar escolta até ao parque de estacionamento, e ele percebeu. Disse-me que me deslocasse ali para um cantinho da loja, onde havia uma porta que, por sua vez, ia dar a um jardim secreto, onde coelhos tomavam chá com chapeleiros... ai, desculpem, esta parte é um bocadinho fantasia. Fiquei numa câmara fechada e opaca, à qual só ele tinha acesso, e foi aí que me entregou o dinheiro e o envelope. Eu meti um no outro, abri o casaco, levantei a blusinha e escondi tudo junto assim de lado, mas por dentro das calças.
Acho que fiquei com um andar um bocado esquisito, porque os bicos do envelope me iam para ali a moer os ossos (outra mentira, os meus ossos estão emigrados sob carne), e o peso dele, parecendo que não, era maior do que o da responsabilidade sobre ele. Mas tenho consciência de que me comportei quase como uma dama até ao carro, apesar de me sentir uma dealer de balalaicas nos pés. Então, subrepticiamente, dei notícias da nossa transacção. E ela, como boa brasileira, habituada a cenas de filme de acção, respondeu.

Sim, este palavrório todo só para mostrar que houve uma mulher
 que me chamou bonita. Eu gosto de ter anónimas recalcadas.


07/12/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 9

A tinta preta é do Mal
(22.02.2010)

Achei importante para a minha maturidade enquanto cidadã desta pequena polis que responde pelo nome de Lisboa tirar o passe do metropolitano, já que o bem-fadado cartão custa 18 euros e dá para 30 dias, e eu gasto um mínimo de 8 euros por semana nas 10 viagens que faço. Nada que o senhor da mercearia não tivesse concluído há mais tempo do que eu, que faço hoje quatro semanas de trabalhadora assalariada naquele novo muquifo, e só me deu a luminosa porque outra cabeça pensante me deu a ideia.

Vai daí, fui perguntar a um guichet do metro se podia tirar o passe nas máquinas - as tais que sabem tanto mais desta vida do que eu, que me fazem repensar toda a minha existência no planeta desde os memoráveis tempos da fralda de pano.

A funcionária que me atendeu esclareceu-me que não, deu-me uns impressos para a mão e disse-me que lhes acrescentasse duas fotografias e os entregasse na estação Avenida, porque lá só levavam um dia útil a fazer o meu passe, contra os quinze úteis em qualquer outra estação. Dobrei o papelote, depois perguntei se podia dobrar ao meio, ela respondeu que só uma vez (talvez ela tenha pensado que eu o ia dobrar mais do que sete vezes, o que nem possível seria, uma vez que está cientificamente comprovado que nenhuma folha dobra mais do que essas sete, por muito grande que seja), e meti-o na mala. Isto é importante porque o papel excede um nico o tamanho A4 e são relativamente raras as malas de senhora com mais do que esse tamanho, logo, defendo a teoria de que as fêmeas deviam ter uma autorização especial para dobrar o papel(zinho).

Então hoje embarquei rumo à Avenida, para conceber o meu passe. A coisa está feita para nos obrigar a gastar uma viagem, porquanto o buraco redondo do guichet está de costas viradas para o torniquete. Temos que dar saída do bilhete e depois, se quisermos entrar no metro outra vez, gastamos outra viagem. A menos que moremos na Avenida.

"Núcleo 69", ouvi eu dizer para uma das três pessoas que estavam à minha frente, a conceber seus passes também. Duas delas foram recambiadas para um objecto igualzinho àquele que os maestros usam para segurar as partituras, e que se chama estante. Ambas para repetirem o preenchimento da papelada. Enchi-me da nervos. Desatei a alisar o vinco ao meio dos meus papeis.

Depois percebi. A tirana que estava no núcleo 69 nunca estava contente com o preenchimento, e é um ser alienígena formatado para estragar a paciência aos do Bem. Ela é do Mal. Quando chegou a minha vez, mandou os meus papeis para trás, através da rodinha do balcão (acho que para não haver contacto físico entre ela e a freguesia). Perguntei o que é que estava mal, porque ó c'um caneco, eu sei preencher documentos.

Então ela disse:
- A senhora preencheu isto a azul, e tem que ser a preto.

(E forneceu-me uma caneta preta que mal escrevia, com a qual eu voltei a preencher os papeis do passe do metropolitano de Lisboa. E preenchi aquilo tudo sem pestanejar pela estupidez dela, porque sou uma pessoa feliz, e as pessoas felizes estão sempre a encontrar saídas para os entraves que as infelizes lhes põem no caminho.)

Passados esforços para que a caneta do Mal escrevesse, e distraída que estava a observar a zona oral da figura - uns maxilares bastante protuberantes, os 32 dentes da dentição adulta a saírem boca fora a cada palavra, uma franja à anos 80 que já só se usa no planeta Zycon 69 de onde ela vem - eis senão quando a alien pega num corrector branco, apaga quatro dos meus cinco apelidos e fica lá só escrito, por hipótese: "Linda Blue V. G. Estrume". Estive para começar a espernear e a gritar coisas deste estilo: "Mas quem corellos é que lhe diz a si que eu quero que na minha ficha fique V. G.? Eu posso ter um complexo associado a V. e a G.!". Mas ela perguntou-me: "Que nome quer que fique no passe?". Doida para lhe dizer: "Giselle Bündchen, e faz favor não se esquece do trema", disse a verdade: simplesmente, Linda. Blue. Estrume.

PS - Ah, custou-me a pressa dez euros. Mais os dezoito do carregamento, ainda levo 3 semanas e meia a amortizá-lo. Ou tenho que viajar mais vezes, para a amortização acontecer em menos tempo. Paul Samuelson, tu fosteS grande, mas eu ainda sou maior!