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01/07/2022

O António e os dedos no rabo

Sim, se calhar estas coisas acontecem a toda a gente, mas dá-se que não o creio. É por esse motivo que necessito de desabafá-las por escrito, como se, ao fazê-lo, elas se me descolassem da mente, ou, pelo menos, perdessem a força estrondosa com que me atormentam.

Era eu a chegar à bicha (blhá) da estação de serviço, e reconheci-o logo, de costas: careca, envergando o tipo de calças que usa sempre — skinny jeans, o homem já passou dos sessenta e aquilo ainda lhe aumenta mais o perímetro da cintura e lhe diminui o volume do traseiro a níveis praticamente inexistentes —, camisa desportiva entalada por dentro das calças, todo um menear de anca enquanto se queixava do aumento do preço dos combustíveis. Quando se apercebeu de que era eu que estava atrás dele, perguntou-me como é que eu estava, deu-me dois beijinhos extremamente perfumados e eu respondi a verdade: "Agora estou melhor". "Ah, do quê?", "Cancro.", "Aaaah, de quem?", "Meu.", e ele de nariz franzido, óculos a subirem para o intervalo das sobrancelhas, olhos exageradamente escancarados, boca a tomar aquele formato da das influencers quando se fotografam em selfie, "Aaaah, não fazia ideia!", lá veio a retórica das amigas que tiveram, milhares de amigas que tiveram e estão óptimas, olha que maravilha, ter um cancro é o prelúdio de ficar óptima, imagino o que ficarei, se óptima já eu era. 

Estava nestes pensamentos etéreos — não esquecer que o cenário era uma bomba de gasolina —, quando ele larga de lá, depois de me dizer que o Paulo é como um filho para mim, sendo que eu sei que o Paulo e ele vivem maritalmente: 

- Eu faço o exame da próstata todos os anos. Os meus amigos recusam-se, dizem que ninguém lhes mete os dedos no rabo, ou então aquele aparelho, mas eu não. 

E eu a pensar que sorte a dele, amigas pós-cancro óptimas, amigos pré-cancro com medo dos dedos no rabo, agora finalmente concluo que isto de ser mulher é um privilégio muito maior do que eu pensava, talvez me pirasse daqui neste preciso momento, antes que ele seja um nico mais gráfico. 


20/12/2018

Rebolar para fora

Vem, cruzando-se no meu caminho, a jovem mamã empurrando o carrinho do seu bebé, petiz para uns dez, onze meses, enfadado, irrequieto, fazendo menção de se libertar dos cintos que o prendem, correndo o não muito sério risco de pular dali e, quem sabe, continuar o passeio pelo passeio, em liberdade de movimentos, gatinhando, ou rebolando.
[Uma das minhas filhas diz-me, muitas vezes, que adorava poder sair das situações incómodas a rebolar, e é disso que me lembro quando olho para a criança enervada.]
(Dias há em que, se pudesse fazê-lo, passaria todo o tempo a rebolar.)
A mãe muito faladora, muito psicóloga, muito terapeuta da fala, muito (pre)ocupada em dialogar com o rebento. É importante falar com as crianças, é certo, mas mais importante ainda é respeitar os seus momentos de necessidade de menos palavras, que não são necessariamente de silêncio. 
- O que é que fizeste à tua girafa Sofia?
E era vê-la procurar pelas dobras do assento, no cesto atrás da criança, no chão. Sofia, a girafa de borracha/peluche/material aleatório desaparecera sem deixar rasto, sei lá eu - porque não sou criança - se por ser dotada de personalidade própria, nome de baptismo e atenções várias da mãe. 
- Suicidaste-a?
Suicidaste-a?
A criança debatia-se agora com a trave dianteira do carrinho, creio que com uma vontade ainda mais imperiosa de sair a rebolar, naturalmente não devido à incompreensível - até para mim - pergunta da mãe, sequer pelo desaparecimento de Sofia, a girafa personificada, mas pelo decurso de um tempo  excessivo, sentada, quieta, interlocutora passiva do monólogo materno. Já eu, tenho a certeza que rebolei pela rua afora, pensando para com os meus botões um conselho que ficou por dar, por tantos e tantos motivos: Não familiarizes os teus filhos com algo que queres manter longe deles


06/11/2018

Das frases que vou ouvindo lá naquele programa, que, repito, a-do-ro


Já não nos vimos há algum tempo.

That´s what he said, the specialist.
Não sei, nem quero saber, em que é que o senhor estaria a pensar. Mas deixo-vos com as possibilidades várias, e também todas as variações que podem ter os verbos ver e vir

Haverá quem venha aqui reclamar que não consegue visionar o vídeo que tão trabalhosamente elaborei. Vamos vir, talvez se encontre uma solução.  Pronto, já está.

30/10/2016

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 21

Há muitos anos (ou nunca) que ninguém me dizia nada que eu sentisse tão insultuoso como hoje.

Cenário:
As máquinas de remos (ergómetros) de um qualquer ginásio deste mundo.

Personagens:
A pessoa humana; uma senhora, de idade compatível com a da pessoa humana; um jovem parolo (que, no meu tempo, estaria a cumprir o serviço militar obrigatório, que era um descanso).

Sit:
Cada qual dos três a ocupar uma máquina (diferente), a ver quem chegava primeiro a Olho de Boi. 

Vem de lá (de trás? Do chão? Do telhado? Das trevas?) outro jovem parolo (que, no meu tempo, não sei se já disse, estaria a cumprir o serviço militar obrigatório, que era um descanso), que profere, extremamente alto:

Olha lá, rrréma! E ólha pá frenti! Só te vejaólhar pó lado! Tájaki só pólhar pás miúdas?


20/05/2016

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 20

Foi desmantelada uma associação criminosa que produzia documentação falsa para imigrantes ilegais, para que se dedicassem ao furto de residências...
[Rádio Nostalgia, 08:00, notícias]

STOP. Pára tudo.
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Imagem mental:

Até tive pena do ladrão
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Artigo 203.º [Código Penal]
Furto
1 - Quem, com ilegítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa, subtrair coisa móvel* alheia, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.
2 - A tentativa é punível.
3 - O procedimento criminal depende de queixa.

* sublinhado e bold meus, que o legislador ainda não...
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Era só isto.

21/07/2015

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 19

Felizmente, este jovem manteve consigo todos os membros do seu corpo.

cmtv, ontem à noite, a propósito do acidente com um tubarão, do qual saiu ileso o surfista Mick Flanning. 

[1. Uma pessoa nunca vê televisão; 2. Uma pessoa nunca tem os comandos daquelas caixas na mão; 3. Uma pessoa vive sempre no mundo da lua, nem sabe ao certo o que é uma televisão; 4. No único momento em que se abrem excepções aos 3 itens anteriores, eis que sucede aquela frase, ribombando contra os incautos ouvidos de uma pessoa.]

09/06/2015

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 18

Não sei quem é que trabalha na Cidade FM, nem quem faz a locução daquilo às 9:30 da manhã. Nem me venham cá com a treta que são jornalistas, que isso, então, é matéria suficiente para me pôr a arfar como os cães quando querem brincar ao atirei-o-pau-ao-gato. 
Hoje, estava eu a ouvir a radiofonia a essas lindas horas da madrugada, e diz ela — é uma ela — de uma assentada só, qual lambada no meu pobre rosto desacordado pela míngua de cafeína na veia:

Se está a pensar em colocar férias, esta deve de ser a altura ideal para...

Flop. Morri.

Já tinha ouvido fazer férias (com as mãos, com os pés, com o poder da mente, com a imaginação, como castelos na areia), ir de férias (e de mochila ao ombro, de máquina a tiracolo e de sogra, cão, gato, passarinhos, e restante família atrás), meter férias (metê-las, presume-se que é metê-las no calendário laboral, sempre tão embutidas, tão encastradas, tão esmifradas, aos olhos das entidades patronais e chefiais, mas metê-las bem metidas, cada um por si, salve-se quem puder, cada um sabe de si e mete onde melhor lhe dá jeito), ou tirar férias (tirar, pôr para o lado, amealhar, ou, se nos pusermos na pele do lobo mau, roubar, apoderar-se, usurpar, furtar, que roubalheira, vinte e dois dias úteis, em trezentos e sessenta e cinco).

Colocar férias?

Colocar a mesa.
Colocar o Rossio na Rua da Betesga.
Entre marido e mulher, não coloques a colher.
Colocar a bola dentro da baliza.
Colocar a mão na massa.
Colocar a foice em seara alheia.
Colocar a cabeça na areia.

Abaixo com o medo do verbo meter. Meta-se o meter nas frases, à bruta, à meiga, à brava, à fartazana, à doida, mas meta-se de uma vez por todas. E sem medos, que ele existe, é para ser usado. Mas usado correctamente, não é como também já ouvi:

Eu meto a mesa; eu não meto isso em causa; eu meto isso aos ombros. (Metes mas é o genital, ignorante. Mete mais tabaco nisso, se te custa engolir pessoas como eu: chatas de meter dó.)

Quanto ao deve de ser, pois. 
Prefiro não me pronunciar. Trata-se de um verbo que não aprendi na escola (dever de ser), pelo que mais vale ficar calada, a dizer alguma artoada que seja o meu fim enquanto autora de alto calibre e calibragem, que sou. Ora, com licença, que aquela radiação que sofri de manhã, via frequência modulada, já me agastou o dia.

04/05/2015

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 17

Ainda acerca de Rio Maior

Está uma pessoa a tentar obedecer a uma tradição, que isto de estares em Roma tem muito que se lhe diga, e deves ser romano, e à mulher de César não basta ser séria, tem que parecer séria, e mais não sei quê, ou seja, estava plácida e candidamente a adquirir pão-de-ló (não que me mate pela especialidade, que eu só me mato pelo leitão da Mealhada, aí é acenarem-me com o bicho e verem-me amandar pelas cataratas do Niagara abaixo, em mergulho de cabeça, com triplo mortal encarpado à retaguarda, a terminar em cristo, só para o papar, mas já expliquei e chega, imagine-se que ia a Barcelos: também não me mato de amores pelo galo e, no entanto, era mulher para adquirir um em tamanho natural - desde que não fosse ele capão, hom'essa - para pôr na minha entrada de casa, que é o hall), e ouço um senhor a dizer

pãos-de-lós

E morri.
E ressuscitei mais pobre, e tão mais frágil dos meus nervos.
E cheia de dós dele.

E nãos, nãos vou perdoar nunca mais, àquele tipo de cidadões, que espontapeie assim a minha língua. Fico com ela a doer, como se tivesse tomado uma bica escaldada, ou lá como é que dizem estes cristões.

04/03/2015

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 16

A notícia era esta.

Mas eu ouvi-a assim:

Alguns vizinhos apontam alguns motivos para este crime.
Ticiana Xavier, TVI, 04.03.2015, 12 H.



Há tantas coisas erradas na mesma frase que eu fico sem palavras. Sobretudo, há um indesculpável engano na palavra motivos.

Chame-lhe motivações pessoais, chame-lhe os genitais.

Motivos, não.

Ticiana (que genitais de nome é este?) tem uma responsabilidade acrescida no uso da linguagem verbal. E não me venham cá com a cena do teleponto. Se ela leu, há responsabilidades a imputar a duas pessoas neste texto: de quem o escreveu e, depois, de quem o lê, e ainda o difunde com essa leitura.

Silêncio por mais uma vítima. E espero, sinceramente, que o peso deste silêncio esborrache a cabeça da Ticiana da próxima vez que lhe derem um teleponto para ler. 

Já agora, que nunca encontre um amor tão trágico quanto o desta mulher, que já nem deste tipo de pessoas se pode defender.

15/01/2015

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 14

Já não se pode desabafar trivialidades deste calibre:

- Hoje estou num daqueles dias em que só me apetece gritar. Nem é gritar com ninguém, é gritar a plenos pulmões até perder a voz.

Que tem logo que se ouvir uma coisa abstrôncia:

- Isso é porque você tem Júpiter em algum lado. Foi uma amiga minha que me disse, que é uma pessoa que sabe destas coisas, que 2015 é o ano de Júpiter. E se, ainda por cima, você tem Júpiter no ascendente, ou em alguma fase da sua vida, como ele é o da guerra, de vez em quando tem essa necessidade de gritar.

E perguntais vós: com esta explicação, o que aconteceu à tua vontade de gritar, Linda Porca?

Pois. 

No entanto, acalmou-me o ânimo a cara do marido a assistir a este diálogo, a olhar para ela, depois para mim, e a expressão toda a dizer: Ela era gira e boa e a carne é fraca...

04/11/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 13

Era de manhã, e eram as notícias das 8, é certo. Eu só tinha arrancado da cama há uma hora, também é certo. Mas já tinha tomado banho e lavado as orelhas, o que também é certo.

Agora não encontro online, menos ainda no site da M 80, que foi a querida que me forneceu esta pérola, por outras palavras: Sondagem Cetelem revela que 68 % dos portugueses consideram que em 2014 terão menor poder de compra do que este ano. Os mesmos pretendem gastar mais até ao final do ano 2013, canalizando a despesa para electrodomésticos [eu percebo. Máquina de fazer pão, daquelas que se amortizam quando já se fez tanto pão que a máquina falece de cansaço, máquina de costura, para fazer roupa em casa, robot de cozinha, para evitar o restaurante...?] e iPhones.

A sondagem Cetelem é isenta ou só vê o mundo a duas cores? Preto e electrodomésticos?

23/09/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 12

- Olha lá, onde é que arranjaste essa cor?

- Então ontem e anteontem não esteve tão bom tempo?

- És mas é arraçada.

racistas, tá?

15/07/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 12

O Jovem Sem Pêlos no Peito não pára de me surpreender. Hoje almoçámos, embora não a sós, no mesmo canto desta serralharia civil onde ambos damos ao coiro. Quando as mulas se levantaram todas, ficou JSPNP e eu à mesa. Relatou-me a primeira e única aula de surf que teve, no sábado passado. Ficou super-entusiasmado e, neste momento, assistem-lhe problemas do estilo tenho que comprar um fato e uma prancha, tenho que comprar um carro novo porque no que tenho a prancha não cabe, etc. E, à queima-roupa, dispara-me esta:

- O meu maior medo no surf é alargar os ombros.

Ora, tendo em conta que os ombros do JSPNP são até bastante estreitos, armei em psi da copa: "Porquê?"

- Porque depois as camisas deixam todas de me servir.

Esta, por acaso, foi merecida. Era eu ter ficado calada.

11/07/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 11

Eu trabalho numa floresta, passo o dia a apagar fogos - disse a que se despediu (e nem vou lembrar que se trata de a gorda), mas que não desampara a loja.

Ora, como eu sou uma pessoa muito atreita a ter ataques de cultura geral, fiquei assim parada, a pensar. 

Quem trabalha num local onde passa os dias a apagar fogos, são os bombeiros. Portanto, ela queria dizer "quartel" e não "floresta". Por outro lado, a existência de floresta não implica necessariamente a presença de um incêndio, ó pirómana. A menos que tenhas sido educada na Guarda. Ou assim.

Ah, já sei. A confusão foi com o rinoceronte, conhecido como o "bombeiro da floresta". Faz sentido. Rinoceronte. 

03/07/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 10

Vários distritos sobre aviso amarelo.

Rádio Comercial, pelas 8:05 da manhã.

Sobre aviso, sobreaviso ou sob aviso? Vou começar a dar aulas de português não tarda nada. Tudo me distrai do essencial, é por isso que não percebo metade do que dizem nas notícias.

25/06/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 9

Não faço uma única viagem de táxi que não me forneça mais conhecimentos antropológicos:

A minha mulher é professora. E ficava até às 11 da noite a corrigir testes. Era eu que tinha que fazer o jantar e tudo, onde é que já se viu?

16/06/2013

Ouvi eu, com estes que o forno há-de cremar # 8

Intrigada com a profusão de informação da treta que recebo das pessoas que andam comigo na vida laboral, desabafo com uma, talvez a única que não me sujeita a essas partilhas:

- Eu acho que elas acham que eu tenho cara de débil mental, ou então de tarada sexual.

- Eu acho que é mais a segunda...