21/06/2018

Notícias da obra esperta

Vai de vento em popa, ou em proa, pois que ainda não está terminada.
Fizemos tudo como manda o figurino. Já não é a primeira vez que fazemos obras em casa, pelo que, desta vez, tivemos o cuidado de agendar, planear, escolher, encomendar, envolver arquitecto e projecto, contratar mestre de obras e equipa recomendadíssimos. 
O projecto, quanto à casa-de-banho, incluía a construção de um nicho, rente à banheira, para arrumos, de toalhas ou cosmética. Assumo aqui sem pudor - designadamente por se tratar da privada - que nunca fui muito amiga de nichos. Pode ser algum trauma de outra encarnação, mas é que é um vão em vão, um buraco, uma cena à parte do resto de uma divisão, sem porta e, quantas vezes, sem janela, que me causa uma claustro que anda rés vés com a fobia, para além da absurda inutilidade que constitui a coisa. Para que genitais serve um nicho, a não ser para meter umas plantas, eternamente infelizes, praticamente entaipadas? Eu sei que sou esquisita, mas é assim que vejo a cena.
Ainda assim, e pelo facto de ter trezentas mil merdas para decidir no espaço de um mês (fora todos os meses anteriores aos do início da obra, e as semanas que se seguirão no após), deixei que o nicho fosse adiante. Confesso que nem pensei muito sobre o assunto, como faço com quase tudo. Não. Há. Tempo.
Então, ontem à noite fomos de visita à obra, o ser humano entra na casa-de-banho (ou na ruína da que foi) (ou no que será a), e só não tem um stroke porque ó-pá-não-era-a-minha-hora: o nicho era um par de grossas paredes paralelas, com uma distância livre entre si de não mais de vinte e cinco centímetros (na qual eu guardaria, talvez, toalhas de bidé, objecto de culto traseiro que deixei de ter), e que, ainda por cima, furtava espaço ao cagadócio, que é, como se sabe, senão o, pelo menos um dos motivos principais pelo qual as pessoas têm casa-de-banho, pese embora o nome.
Olhem, mandei destruir o nicho.


19/06/2018

Onde é que está o gato?

Conformada com o facto de termos (todos, a união diz que faz a força) deixado de ter Primavera, num muito pouco alegre goes-around-comes-around, Inverno-Outono-Verão-Inverno-Outono-Verão, e assim sucessivamente, que não, a ordem dos factores não é arbitrária, e após ter amargado com a canícula do dia de ontem, suando as estopinhas e todos os outros tecidos que me envolviam (designadamente o de um muito famoso vestido de flores, que se mantém impecável ao nível dos vincos e rugas — ao contrário da pessoa humana — pelo facto de ter um nico de fibra na sua composição, e, por esse motivo, ainda me fazer suá-las mais), e ainda aliviada por dar a entender que isto hoje estão menos dez graus do que ontem, deu-se que tomei a se não dramática, pelo menos drástica resolução de envergar um vestido branco, a ver se afastava os raios, complementado, não encimado, pela bela sandália que imita a pele da cobra, e que também já aqui publicito desde os anais (desta coisa), eu feliz a fazer contas de cabeça — aquele conceito que sofre várias variáveis em se tratando de mim —, tentando chegar à conclusão de quantos anos é que as cobrinhas já levam, acho que vão para o quinto Verão, congeminando que — genitais! — cinco anos numas sandálias já faz delas uma peça do Museu de Arte Antiga, mas também um objecto de culto e comprovada amortização, quando ouço miar. Era um miar sob mim, um miar de gatinho bebé, um miarinho. À medida que continuava a andar, miau-miau debaixo dos meus pés. Antes mesmo de ter a veleidade de imaginar que havia gatinhos sob a calçada portuguesa, apercebi-me que uma das sandaletes agora mia. Não sei se a outra se vai solidarizar, e passarei a andar com dois gatinhos no lugar das cobras, se isto passa, se me habituo e deixo de ouvir, se virá uma mãe gata tirar satisfações com o meu pé um destes dias, ou se, de facto, e efectivamente, tenho um gato dentro, sob, sobre ou através da sandália. Mas está a ser animado, ter um animal de companhia constante, na rua inclusive.
Pronto, desculpem. No fundo, não tinha mais nada para dizer ao mundo, hoje. Nem nunca, na verdade.

16/06/2018

Ainda não foi hoje que enlouqueci

Enquanto sentir vidros debaixo dos pés

Na verdade, não sabia que título pôr a isto. E também não tenho nada para dizer, vim cá só varrer os cantos, arejar a casa, ver se está tudo bem.
Mas é verdade que ainda não foi hoje que enlouqueci.
Casa em obras; a viver noutra casa; sem máquina da loiça; um estendal que não comporta uma máquina; empregada de férias [pronto, lá vou perder uma seguidora. Fazei como entenderdes, eu não posso fazer nada contra o facto de ter empregada e de ela, apesar de falar pelos cotovelos, pelos tornozelos e, em geral, por todas as articulações, me dar muito jeito], uma prova para fazer daqui a horas [umas 36, vá, com sono, refeições e trabalho de permeio], acompanhada da sensação certeza de que fui brindada à nascença pela ignorância, e que devia reprovar [aka, repetir a prova], se justiça existisse neste Mundo; trabalho com prazo a correr contra mim, qual locomotiva; depois da chuva em Junho, agora o vento; ontem, numa breve pausa que me impus, comi areia esfoleei os dentes.
Não sei mais de que me queixar para pintar este quadro de ainda mais negro. 
Enquanto sentir vidros debaixo dos pés, foi uma frase por mim proferida, a propósito de uma garrafa de vidro que se estatelou no chão desta minha agora cozinha [uma ou várias desgraças nunca vem/vêm só(s)], e passei a sentir a vidraria moída sob meus chanatos, daí a frase, que tanto gostei de ouvir a mim mesma, que equacionei até a possibilidade de escrever um livro com este título. Só não sei sobre o quê.

15/06/2018

Casa de azul

Era toda azul, a nossa casa. Não, faltavam - falhavam - o nosso quarto e o quarto das meninas, brancos. Toda em remodelação, toda em vias de ser pintada de novo, então de que cor?, mantemos tudo como estava?, mandamos pintar toda de branco? Que não, que queria o nosso quarto em azul, também. Não percebo uma casa azul, minha, um quarto branco, meu. 
Fui às tintas, vi cinza mesmo quase branco, vi bege mesmo quase branco, vi azuis. Então, casa toda branca e o nosso quarto azul? Ou toda branca? Ou toda azul, e os quartos brancos? 
O "meu" azul não existia na loja das tintas. 
Era branco-azul, lembra-se?
Não está no catálogo, não está no sistema, só faltou perguntarem-me se sonhei com aquele azul.
Vou trazer uma amostra, e os senhores fazem a cor, fazem?
Que sim, traga lá uma tampa da electricidade, qualquer coisa onde esse azul esteja (exista, sem ser na sua cabeça).
Eu queria tanto o quarto de azul. Não o quarto azul, não o quarto em azul. O quarto de azul.
Não percebo essa mania do azul.
Eu também não, mas gostava...
Seja, fica azul.
Vou ter a casa toda de azul, daquele mesmo azul com que sonhei e que, afinal, existe na loja, bastou levar uma coisa onde esse azul esteja
(Só o quarto das meninas se mantém em branco-branco. Mas isso não significa que toda a casa não fique de azul.)

12/06/2018

Daquilo de o Google não nos notificar dos comentários

Estava eu entre o desmoralizada e o conformada, justamente por, não sei se com justiça ou não, não receber comentários há bastantes dias, quando resolvi calçar a tairoca, meter a cestinha no braço e ir colher flores lá para as bandas dos comentários a aguardar moderação. E passavam eles dos vinte, môres. Vinte! Vós não me haveis abandonado à minha sorte macaca!
Vou agora publicar tudo, mas não tenho vagar, apesar da disposição e da vontade, para responder a todos neste momento. Mas fá-lo-ei, é irem espiolhando.
Os meus agradecimentos a todos, aos quais se juntam os meus pedidos de desculpas, em nome do coiso, que o problema é ele, não sou eu.
Cá beijinho a uma vossa criada. 

E aquele momento, também um bocadinho awkward, em que te sentes um génio, mas sabes que isso só vai durar cerca de dois segundos e poderá ser único na tua vida?

Éramos apenas oito, e mais o mestre. 
Súbita e inesperadamente, diz-me ele assim para mim:
- Dúvidas, tens?
E eu que sim, pois se toda a minha existência é uma redondinha e opaca dúvida, quem sou eu para não ser assaltada por nenhuma quando se trata de gramática? 
- Então, no imperativo, só quando é na negativa é que o verbo se mantém no infinito, porque na positiva é conjugado no tempo certo, não é?
Ao mestre só faltou levantar-se e bater-me [calma] palmas, aliviado e feliz porque nesta bela cabeça entrou uma regra; aos outros sete, só faltou terem que ir buscar os queixos aos sapatos. 
Subestimam-me. 

10/06/2018

And that awkward moment # 48

em que estás numa aula de dança, aquelas mesmas que têm fama de "não se suar nada" — e sim, antes que perguntem e eu não saiba como responder sem me enterrar, titubear ou enveredar pela mentira deslavada, esta pessoa humana maquilha-se antes da actividade, porque lá está, dançar feia e pálida e com cara de dia seguinte aos santos populares não está nos seus projectos mais longínquos, e, assim, colocou um pouco de iluminador —, e notas, através do espelho onde, no teu delirante imaginário, és uma dançarina exímia e de uma beleza avassaladora, que tens uma lâmpada acesa na testa? E é que ainda te ocorre que oh!, estás a ter uma ideia brilhante, pára tudo, mas o que é?, queres ver que são os números do Euromilhões?, a cura para a piolheira? o método cabal com vista ao definitivo irmanamento da meia desirmanada?, mas, afinal, é a cintilante luz provinda do teu suor, e a única ideia luminosa que poderias ter tido — não colocar o iluminador, passe a redundância —, não tiveste?

09/06/2018

Fato azul, com amor

Tínhamos que comprar toda a indumentária para ele levar vestida ao baile de finalistas. A mais clássica e "beta" que tinha - calças bege, camisa azul e sapatos de vela - não era apropriada para a ocasião, e constatámos com simulada preocupação e indissimulável alegria que teríamos que ir juntos às compras.
Eu sou assim uma espécie de homem nessa matéria: sei ao que vou, onde vou, e é muito raro perder tempo de pesquisas e buscas infrutíferas. Falta-me o tempo, falta-me a paciência e já sei que, se vou sem rumo, fico perdida nas lojas, como uma criança pequena que não sabe da mãe. [Tenho este trauma de infância, entrava nos armazéns com a minha mãe e perdia-a imediatamente.] Também nesse aspecto nos damos como Deus e os anjos. Ele, desconheço se por razões hormonais, mas o que é certo é que comigo também é assim, impacienta-se nas lojas, sobretudo se tiver que correr muitas e estiver mais do que dez minutos em cada uma.
Entrámos no Centro, fomos à loja que eu tinha sugerido - em alternativa àquela outra onde "os meus amigos compraram os fatos deles lá" -, consensuais na cor do fato - azul, está bem de ver - rumámos ao expositor dos fatos e ambos agarrámos naquele azul. À entrada dos provadores, tive que justificar que entrava com ele, "sou a mãe" (não fora dar-se o caso de ser alguma coogar assanhada, sem outro poiso onde explorar os recantos do menino.) (Enfim, tão distraída que estava a "polícia dos costumes" connosco, que não deu pelo casalinho que se enfiou num provador, com a desculpa de marcar as bainhas de umas calças ao homem, e por lá ficou, de cortina fechada, o tempo e para o que lhes apeteceu. Mas eu dei.) Escolhi-lhe o tamanho certo, que lhe caiu como uma luva, pagámos e saímos. A compra dos sapatos em nada diferiu deste esquema, a da gravata foi ainda mais rápida, com ele sempre a dizer "confio no teu bom gosto": escolhi-a sem ele, uma gravata cinzenta de pintinhas brancas só para "fugir" ao azul (noção que, aliás, desconheço).
No dia do baile, ele era o mais bonito. Não precisei de verificar todos os outros, um a um, para tirar esta óbvia conclusão. Ainda assim, quis levá-lo ao ponto de encontro do transporte que os levava a todos ao local do baile. À saída do prédio, dei-lhe o braço e fui sincera quando lhe disse: "Estás tão giro, agora é que toda a gente vai dizer que a velha sustenta o rapazola". Ele naquele sorriso que me aceita assim mesmo, desconexa e inconveniente, "Cala-te, que me estás a pôr nervoso", como se não estivesse já nervoso.
Vi meninas de vestidos armados até aos pés, cabelos armados cabeça acima, com colas e lacas insuportáveis, caras frescas inutilmente armadas em maquilhagens compactas até ao osso. Observei os outros rapazes e confirmei o que já sabia.
Depois contou-me que esteve no ranking para o melhor fato, mas perdeu a competição para o que levava a gravata mais ridícula (porque são adolescentes e faz toda a lógica eleger o mais feio no lugar do mais belo).
Guardo também para sempre os olhos dele, à saída do carro, enormes e lindos para mim, "Obrigado, madre".
Obrigada a ti, filho. Tu és (e serás) sempre o mais bonito.

07/06/2018

Candura

Ao longo de toda a arborizada rua, a cada dez passos, vejo pregado um pequeno cartaz, anunciando “Procura-se”, com a fotografia do que, à distância, me parece ser um papagaio. Aproximo-me para tentar perceber, e é quando verifico que, afinal, existe alguém neste mundo que, inconformado, procura o seu periquito perdido. 
Esta candura comove-me; esta crença espanta-me; esta esperança acalenta-me.
Dou por mim, dois dias depois, a sair para a rua e a perscrutar os céus, em busca do pequeno pássaro. Quem sabe uma coincidência, ele há golpes de sorte, pode ser que... O céu devolve-se vazio, mas eu não deixei de acreditar.
É que este amor, eu entendo.

05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

04/06/2018

Nutro uma espécie de miminho e manifesta admiração

pelo povo que - embora não lavando no rio e, consequentemente, não talhando com seu machado as tábuas do meu caixão - obriga a que exista uma fila à direita nas passadeiras e nas escadas rolantes (regra que não está escrita em lado nenhum), e a da esquerda lhes fique liberta, para que possam passar, veloz e atleticamente, “có-licença-có-licença”, nomeadamente quando, logo ao lado, existe uma passagem de escadas não rolantes, ou mesmo uma passadeira parada, por onde poderiam exercitar a musculatura e dar largas e compridas à tal da pressa. Por mim, que só não empato quando não posso, estaciono o carrinho do supermercado exactamente ao meio da passadeira, pois não há nada que me tire aquele bufar de impaciência na minha nuca. Cada um tem seus fetiches, e este é o meu.
(Devem ser os mesmos que atravessam em diagonal nas passadeiras. Ou que se metem pela direita, sem pisca, pisando o traço contínuo. Ou que tentam passar “subrepticiamente” à frente em todas as filas que apanham. Os outros que esperem, o Mundo que pare, porque eles têm pressa.)
(Mas que mal fizeram as mãezinhas destes entes para estarem sempre na forca?)

03/06/2018

Não é não

A não aceitação de um não, apelidando quem o profere de burro e ignorante é um estádio da evolução humana próximo dos três anos de idade, em que a criança só consegue entender o seu próprio não como algo definitivo, reservando para o não dos outros um carácter temporário ou provisório.
Por mim, durmo muito mais descansada se souber que sou “governada” por um legislador que, não se achando capaz de se pronunciar sobre um determinado assunto, designadamente se se tratar de algo mais debatido nas redes e na blogosfera do que nas comissões, simplesmente não o faz.
Burrice e ignorância não será antes nunca ser capaz de sair das birras dos três anos, não aceitando um não tal como ele é? Um não.


30/05/2018

Duas linhas paralelas que se encontrarão no infinito

Era uma vez um homem que, pouco depois dos quarenta, sofreu um acidente muito grave, que o atirou para uma cama de hospital, num coma que parecia não ter fim. A mulher, médica, persistiu na ligação de todas as máquinas que lhe suportaram a vida durante quarenta dias, contra todas as perspectivas, contra a vontade de todos os colegas que observavam o marido, contra a lógica científica. Uma familiar, em visita, ouviu o seguinte comentário de um para outro: "Mas o que é que ela quer mais? O homem está morto!". E, dessa mesma "morte", um dia o homem "ressuscitou" e ainda sobreviveu mais vinte anos, sem sequelas, fazendo felizes mulher e filhas, e mãe e irmãos, e cunhados e sobrinhos, e sendo feliz, também ele. A tal morte, quando veio, não adveio em consequência do acidente.
~
Era uma vez uma senhora, passados que haviam sido os noventa anos, frágil como um passarinho, que caiu doente com uma doença que de nenhum cuidado seria, não fora o factor idade, o factor debilidade física, o factor indiferença pelo mundo. Contra todas as perspectivas, contra a opinião de médicos, de ombros encolhidos e a palavra "idade" a cada suspiro, contra a lógica científica a que o pequeno corpo recusou obedecer, a senhora recuperou e, apesar de (não há melhor metáfora, daí o pleonasmo) frágil como um passarinho, saiu do hospital para viver ninguém sabe quanto mais. 
~
Estas são as histórias do meu pai e da minha mãe, assim ordenadas por uma mera opção cronológica. 
Esta é a minha opinião sobre a eutanásia. Baseia-se apenas em — dirão alguns, pobre — experiência pessoal. Nem sequer tem influência religiosa — com aquela base "o que Deus deu, só Deus pode tirar", pois que, contra-argumentando comigo própria, também por uma lógica estritamente científica, se fui eu que dei vida aos meus filhos, também só eu... É que não. 
Não sou fundamentalista em relação a coisa nenhuma. Mas não consigo estruturar ideias inteligentes e forma(ta)das quando o assunto é amor.


25/05/2018

L'enfer, c'est les autres

Estou sentada com um monitor à frente, num quadrado pequeno a televisão, a emitir notícias, o espaço restante ocupado pelas letras e números das senhas de vez, que a voz do altifalante grita a cada três segundos. Estou ali há tempo suficiente para já ter contabilizado e também para ter habituado o ouvido e, sobretudo, a cabeça.
Um homem novo trá-la pelo braço e senta-a ao meu lado, "Aqui, ao pé desta senhora", apesar das inúmeras cadeiras vagas à minha volta. Isolei-me numa ilha — isola, em Italiano — exactamente para poder enlouquecer sozinha, sem que os outros malucos me aborreçam ou interrompam. Ela é muito idosa e conheço-lhe os sinais da demência nos traços. Traz um chapéu impermeável enterrado na cabeça, apesar do sol que brilha logo ali ao lado. Toda miudinha, pergunta-me, de chofre: "Olha lá, o que é que já roestes?". Respondo o que me vem à cabeça atormentada: "Olha, estou aqui em jejum". E, logo a seguir, "Eu não sou eu". Ela dá uma pequena gargalhada e diz: "Ah, pois não. Estou a confundir-te com a outra. Então não és tu?". "Não.", mas não me apetece rir nem sorrir, e então ficamos assim mesmo. Daí a pouco levanta-se e vai amparar uma mulher, que lhe cai nos braços como uma criança, tonta e perdida, demasiado grande para fazer dela suporte. 
Talvez aquela fosse eu, talvez a outra fosse a minha mãe. 


20/05/2018

The girl next door # 16

Íamos pela rua que é nossa, de mãos dadas como amigas que somos tão, amizade esta nascida há pouco, mas já de cimento e pedra e cal. 
Agora ela vai-se embora, num regresso sem vontade mas necessário, ficará um oceano a separar-nos (como se existissem oceanos capazes de um impossível desses). Deve ser por isso que nos abraçamos à chegada e à despedida, mesmo que vamos só ali ao café, para ela chorar das dores que o amor lhe trouxe — e a que eu chamo Teoria do Sapato Apertado, uma das muitas que inventei nesta vida —, mas também, convenhamos, é para isso que as amigas vizinhas servem. Digo eu.
Cruzamo-nos então com outra vizinha, que me olha, me estranha, e, quando a cumprimento de "Olá, estás boa?", confessa que, à distância, não estava a conhecer-me. Expliquei que esta era eu ao natural, sem maquilhagem, uma osga verde de cabelo espetado, por contraponto com aquela Bratz girl a que todos estão mal habituados, porque tinha vindo da praia há pouco e ainda só houvera tempo para o banho e-e. Pergunta-me, a propósito de praia: "Estavas chateada?", e era eu agora a surpreendida, "Não, porquê?". Explicou então que, um dia, lhe dei o melhor conselho que já recebeu na vida: "Estás chateada? Vai para a praia. Chateaste-te com o teu marido? Vai para a praia. Os miúdos estão insuportáveis? Vai para a praia. Tens a cozinha desarrumada? Vai para a praia." 
De facto, devo ser uma pessoa bastante previsível. E translúcida. Mas, convenhamos, sou também um poço de sabedoria da treta, que, no fundo (desse poço), é a que mais falta faz às pessoas humanas. Sou uma opinion maker, uma verdadeira influencer. Estou no trilho certo para me transmutar na genuína blogger. Mas sei que ainda sou apenas uma crisálida.
(Tenho que começar a dar consultas, para começar.) (E a cobrá-las à bruta.)

18/05/2018

Voar

Por esta razão que me assiste, e que já aqui explanei bastamente, tem-me vindo à memória a minha primeira viagem de avião, mais conhecida por baptismo de voo: foi de Lisboa ao Funchal, tinha eu quatro anos de idade, e foi na TAP, que ainda não era Air Portugal, era mesmo "só" Transportes Aéreos Portugueses, sem mais mimimis em estrangeiro. 
Naquele tempo, a pista do Funchal tinha pouco mais de um quilómetro e meio de extensão, parecia a pista de um porta-aviões. Não sei como é que nunca se lembraram de incorporar uma catapulta naquilo. Mas isto sou eu a falar agora, que já lá vão muitos anos, e, na altura, nada me fazia impressão, nem sequer as alturas. 
O meu baptismo aconteceu no avião mais mítico de toda a História da aviação comercial (quanto mais não seja porque foi o meu primeiro): o Caravelle. 

Imagem palmada da nettinha

O Caravelle era, precisamente, o avião da capa da Anita (aquela a quem agora chamam Martine, mas que será para mim, para sempre, simplesmente Anita), o que ainda o elevou [hah!] mais aos meus olhos, quando, mais tarde, tivemos esse livro em casa (e do qual ainda hoje conservo um exemplar). 

Imagem palmada da nettinha
Lembro-me de ter feito uma viagem absolutamente tranquila, lembro-me de a minha irmã chorar porque as asas não batiam como as de um pássaro, lembro-me de a nossa mãe lhe mostrar os flaps a mexerem, e de ela chorar ainda mais porque, afinal, as asas batiam, mas lembro-me sobretudo de recebermos ambas livros para colorir e lápis de cor, e de termos ido à casa-de-banho e termos trazido de lá tudo o que apanhámos à mão, de sabonetes pequeninos a toalhetes perfumados, e depois nos termos ido confessar à hospedeira, que, para além de nos ter absolvido com uma boa gargalhada, ainda nos ofereceu estiletes limpa-cachimbos, para fazermos pulseiras. E o que me lembro de as hospedeiras terem uma farda belíssima, desenhada por Louis Féraud — eu tinha um caso de amor com aquele pompom do chapéu de coco, e com os apliques dos sapatos! —, que me fazia jurar um dia vestir uma assim e sair a voar como elas. A vida dá tantas voltas. E loopings.

Tudo meu, exposição no MUDE, 2015

Mas lembro-me, acima de tudo, que nunca mais voei tão bem.

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)

15/05/2018

(Auto)promessa cumprida

Assim como todos os caminhos vão dar a Roma, também é verdade que existem duas formas de chegar à Catedral de São Pedro: uma por fora e outra por dentro. 

À chegada à Praça de São Pedro, não faltam guias que se autoproclamam oficiais, pagos pelo Vaticano, fiscalizados pela Polícia, que está mesmo aqui ao lado, e nisto cai quem quer. Segundo exaustiva (porque a mim tudo me exausta) explicação do que nos calhou em sorte, a entrada para a Catedral, feita directamente pelo percurso do Museu e da Capela Sistina, é mais directa, evita que se andem oito quilómetros e que se fique na fila que circunda a Praça de São Pedro (com mais de um quilómetro de perímetro, ou a matemática me falha agora), o que é possível se despendermos mais 21 euros, a acrescentar aos 31 que já largámos para entrar no Museu. 

[Aprendi a fazer panorâmicas, agora ninguém me agarra!]
E também já tenho um pau de selfie, socorro!
[Hei-de experimentar a panorâmica em pau de selfie!]
Ora, ide pastar, por razões várias, de entre as quais a pelintrice: 1. Não é verdade que se andem oito quilómetros entre a entrada do Museu e a Praça de São Pedro (nem quatro para cada lado); 2. Não imagino o que é visitar a Catedral no mesmo dia em que se visita o Museu e a Capela. Quando cheguei à Capela, estava tão farta de andar em corredores estreitos, a subir e a descer escadas, envolvida numa massa humana suada e fotógrafa, que, se me metessem na Catedral naquele momento, tenho a certeza que entrava em transe religioso (ou outro qualquer); 3. Os 21 euros vão para um guia que consegue que a visita se transforme no dobro da duração, ou seja, que passe de duas para quatro horas. E isso, naquelas condições, para mim não dá. 
Portanto, o que fizemos, foi: Museu e Capela num dia, Catedral noutro.
Também não é verdade que a visita à Catedral seja completamente gratuita. Isso está dito e escrito por todo o lado, mas é a brincar. Acontece que o povo peregrino é sujeito ali ao sobreaquecimento dos mióis enquanto espera na fila para entrar, e depois, chega lá dentro e está por tudo, não querendo dar por perdido o tempo que ficou na fila. Quando não chove, deve estar sempre sol (errrr) na Praça de São Pedro, pois que praticamente não existem zonas de sombra. E isso pode determinar as opções, uma hora e meia depois de fritura craniana. Aquilo, entra-se e ah, maravilha!, vai-se para outra fila, por mais meia hora. É quando se começa a ver avisos de que nos estamos a dirigir à cúpula, para o que temos duas opções: ou pagamos dez euros e vamos de elevador (nem quero imaginar o pitol), ou pagamos oito euros e subimos 551 degraus (o que, segundo eles, equivale a 45 andares; o que, segundo eu, equivale a 27 andares; o que, segundo me parece, significa que os degraus são para gigantes). Ora, 551 degraus, ainda que fossem liliputianos, ao fim de duas horas de espera em pé, só se fosse para salvar a vida a um filho. Vi-me e desejei-me para sair da fila (correntezinhas por todos os lados, guardas a cada três passos), mas saí, que a cúpula da Catedral me interessa zero vista por fora: tenho vertigens, as alturas estoiram-me os ouvidos, vistas bonitas sobre a cidade já eu trazia do Fórum Romano, e a ideia de subir aqueles degraus todos, por corredores estreitos — e depois ter que os descer! — alapada a gente suada, olhem, desculpem a franqueza, mas nem que tivesse que simular um desmaio para me livrar da filinha pirilau. 
Assim, vi a cúpula por dentro, cumpri um dos meus objectivos de vida, que foi ver la Pietà, e saí de lá feliz e contente.



14/05/2018

Aterrada

No sentido aeronáutico do termo, desde anteontem, mais precisamente.

Roma vê-se a pé. É totalmente plana, fazem-se quilómetros sem que as pernas dêem por isso. A aplicação da senhora dos passos deu 62 quilómetros em seis dias, o que dá uma média de não vou dizer, porque se faz de cabeça. Tranquilo. Só ao quarto ou quinto dia é que se começa a refazer as voltas, pela necessidade de abrandar o ritmo.
Anda-se por passeios que não existem, a não ser nas avenidas, com os carros a fazerem-nos tangentes e a apitarem-nos nas passadeiras, que são uma verdadeira anedota se não tiverem semáforo: a ideia é atirarmo-nos para a frente, e eles que parem (porque param). O trânsito é um caos absoluta e polidamente organizado: todos conduzem "colados" ao da frente, ninguém dá prioridade a ninguém — nem mesmo à polícia, que eu vi com estes que o forno há-de cremar —, a entrada nas rotundas é igualzinha àqueles carrosséis das feiras, todos apitam a todos, mas acho que é mais numa de "vou passar". E passam. Fazem loucas tangentes e nenhuma secante. Não acredito que haja batidas nem atropelamentos em Roma. É impossível, no meio de tanto caos.

Não voltei cheia de estereótipos, "os italianos são assim", "os italianos são assado", talvez porque Roma é tão turística, que não é fácil encontrar um italiano vero. Posso dizer o que acho da massa populacional que povoa as ruas — muitos franceses, espanhóis e brasileiros —, dos bangladeches das flores e dos brinquedos luminosos e ruidosos, dos indianos do pequeno comércio, da chinesa da loja de recuerdos, dos romenos à porta dos monumentos (de cara e mãos tapados, nem que fizessem 30 graus), mas dos italianos nem tanto.

Tirei milhares de fotografias, mas poupo-vos às mais privadas.
Deixo aqui apenas algumas em alternativa — por serem alternativas, lá está —, que, se é para verem monumentos, basta clicarem no google imagens, ou comprarem postais.

Isto foi à partida, um sinal dos céus de que ia tudo correr (voar) bem
[Cada um interpreta os sinais como lhe aprouve]
Isto foi à chegada, idem


Por falar em lojas diferentes:




Krida Frida, anche qui?
Isto achei giro, à porta de uma casa-de-banho
(Fotografei para vos mostrar, chiu)
Isto são as figuras em que se põem (alguns) turistas quando chove


Agora, um breve momento idiossincrático:





Nunca fui à Suíça, mas até parece
Ao quarto dia, os pés gritam misericórdia em qualquer língua
Vou fazer desta placa um mantra muito meu (e do meu blog)
É verdade, a parola que me habita fotografa a chegada a Lisboa e bate palmas ao piloto,
aliviada de, em breve, o ver pelas costas

Pronto, agora que já dei o ar da minha graça e vos preguei uma seca das boas, vou alinhavar um texto acerca do que foi a minha ida à Basílica de São Pedro.
Até depois.



09/05/2018

Já cá estou há dois dias e o Papa ainda não me viu

Seria assaz prazeroso relatar-vos ao pormenor as minhas demarches e as minhas marches (13 km ontem + 13 hoje, ora pega!) a Roma, la città del’amore, dei gatti e dei monumenti, mas isto, através de Ai-fostes, torna-se uma epopeia que ninguém merece, pelo que terão que aguardar pelo meu regresso à boa Lisboa, prego-vos.
Hoje fomos ao Vaticano e fomos assaltados por um colarinho branco, que nos levou 8 euros por dois cafés. Depois seguimos para a validação dos bilhetes (31 euros cada), onde, para além de nos terem solicitado mais 21 pacas por cada um para termos “direito” a um guia (que falava tudo menos Português, aquela língua de trapos de indígenas do sul daquele continente), o qual obviamente declinámos, ainda ME foi explicado que teria que entrar na Capela Sistina com os ombros tapados. Todo este fusuê porque esta aqui levava uma t-shirt de mangas à cava, embora de gola, quase à padreco. Foi divertido, ficar a reparar na quantidade de paios à mostra a circularem à minha volta, enquanto os meus hiper-eróticos ombros se escondiam debaixo do blusão de ganga e eu percorria o Museu do Vaticano inteirinho a suar as estopinhas e a própria ganga. Cansei de ser sexy.
Depois chegámos à Capela Sistina, mas agora já estou com os polegares tão exaustos quanto os cascos, e a minha vida não é só isto, por isso fica para a próxima, se Deus e eu quiser(mos).


07/05/2018

Sobrevivi

a uma noite de cinco horas, que até para mim, insomne assumida, é pouco; a uma viagem de quase três horas metida num avião; a quatro (quatro!) avisos de turbulência, que, convenhamos, quando chegam, já aquilo abana tudo com o povo e eu lá dentro, fazendo lembrar o comboio da Beira Alta nos idos anos da minha avó; a um pequeno-almoço tomado às 6 da madrugada, com almoço de sandocha às 13:30 (14:30 locais), sem nada de permeio, a não ser um quadradinho de chocolate (kudos para a hospedeira que me ofereceu “algo para beber?”, provavelmente para testar se eu tinha um “drinking problem”, piada privada que só quem assistiu aos “Aeroplanos” percebe. Com aquela agitação aérea, era bem capaz de comer Cornettos com a testa, quanto mais beber cenas); a uma viagem de quinze quilómetros desde o aeroporto, no trânsito de acesso ao centro de Roma.
É isso, sono a Roma, ragazzi!
Agora vou viver o meu jetlag em paz, que isto aqui é mais uma hora, e, parecendo que não, faz diferença (horária, pelo menos).

06/05/2018

fada do bem

Inspirada pela NM, ou, mais concretamente, pelo seu Baby, lembrei-me de um desenho feito pelo meu também mainovo, quando ele tinha também quatro anos, e ainda também aquando da comemoração do Dia da Mãe. Calhou-me, numa pequena peça de teatro no Jardim de Infância, o papel de Fada do Bem, pelo que me vesti a rigor, varinha mágica na mão, tiara na cabeça, e assim me apresentei em palco o melhor que podia e sabia, a fazer magias das boas. Depois, ele desenhou-me de Fada do Bem, e eu guardei o desenho no coração para o resto da minha vida.


Hoje ainda era cedo, quando ele se levantou da cama. Recebi dele o primeiro abraço do dia, bordado a beijos e a palavras que me saem encadeadas de emoção, Ainda bem que vieste, filho. E eram de cristal líquido os olhos dele quando desfizemos o abraço, esse mesmo que nunca, efectivamente, se desfará. 
Fez-se homem, entretanto, o meu bebé. Já não lhe caem continhas transparentes dos olhos lindos que herdou do meu pai. Ficam ali suspensas, iluminando-o daquela felicidade com tristeza que é a do amor.
_________________
Não há nada que eu possa escrever hoje, ou algum dia, que supere isto.
Não há nada que eu possa dizer ou escrever hoje, ou algum dia, que explique a honra que sinto ao ler isto.
Obrigada, Miss Smile, por toda a amizade e simpatia. Aceite ser, como claramente já é desde o "início", também uma das mulheres da minha (blogo)vida. Desejo-lhe a si, e a todas as mães, um dia muito feliz. 


04/05/2018

Murphy, deves-me mais uma!

Saio de Cascais e verifico que o conta do gasóleo de Rosinha me dá para 46 quilómetros. Sei que estou a 30 do meu destino, que é a distância entre uma boa parte do meu coração e a minha vida. Faço aquela viagem uma vez por semana — e não mais por impossibilidade absoluta —, assumo que 46 me dá para estacionar nas calmas e ainda ir à bomba mais próxima, assim haja vagar e tempo. É essa corrida contra ele, ou a minha inultrapassável preguiça que me levam a meter-me a caminho, matemática certa, imprevistos não ponderados. 
O conta vai baixando e ainda não cheguei à A 5, mas está tudo controlado, penso eu, logo insisto. Tomo a autoestrada feita de prata pelo sol do meio-dia, que me aquece Rosinha, e a mim por inteiro. Tenho o ar condicionado desligado e começo a sentir que não vai ser possível chegar a Lisboa com a temperatura a subir àquele ritmo. Penso,
Mais vale ficar sem gasóleo à chegada do que morrer de calor,
ligo o ar, que me bafeja um hálito quente demoníaco para a cara, mas não ponho a hipótese de parar em Oeiras, porque 
o gasóleo vai dar
E também,
Quanto mais depressa chegar, mais cedo acaba esta agonia,
e toca de acelerar Rosinha. Faixa da esquerda, pisca-pisca-pisca, numa ultrapassagem infindável. Mas o conta baixa a níveis que me fazem suspeitar da possibilidade de o combustível não esticar até à minha porta. Passo para a faixa do meio, para poupar nas rotações. O conta estabiliza, já passei Oeiras, tenho para 14 quilómetros e o optimismo regressa. Mantenho-me atrás de uma fileira de carros que persistem nos 80 km/h, e penso,
Mais vale ficar sem gasóleo do que morrer de tédio,
e sigo, de novo pela esquerda.
Estou a passar a última bomba, a mil e duzentos metros de casa, quando recebo um telefonema de trabalho. Isso distrai-me do conta, que já tinha baixado dos 10, largos metros antes. Quando acaba o telefonema, estou a quatrocentos metros de casa e tenho gasóleo para 3 quilómetros. Chego à minha rua com 2. Não encontro lugar para estacionar, dou uma volta ao quarteirão e, quando paro, tenho gasóleo para 1 quilómetro.
É o momento em que se me acabam as forças e entro em desespero, pois sei que não chego a bomba nenhuma com três gotas de combustível. Concluo que não sei viver no limite.
[Felizmente, tive filhos. E uma delas, valente, pegou em Rosinha e levou-a à bomba. Contou-me depois que nem teve que desligar o carro: assim que parou para abastecer, ele simplesmente "morreu".]

03/05/2018

Fobia chique

A dias de enfrentar a minha maior fobia, concluo, simpaticamente, que, para além de aquela ser a maior, é também a única. E retiro esta conclusão exactamente do facto de me ter dado ao trabalho de estudar, se não todas, pelo menos a grande maioria das fobias conhecidas, reconhecidas e tipificadas na Wikiseca. Se eu — valente — destemo aranhas, ratos, baratas, e assim animais em geral, tidos e estabelecidos como assustadores [por exemplo, não tenho medo de leões, pois que não convivo habitualmente com eles], está visto que também não me aquecem nem arrefecem grande parte dos indutores que a lista da Wiki apresenta.
Destaque para:
- Ablutofobia: medo de tomar banho, fobia da qual sofre uma considerável percentagem dos passageiros dos transportes públicos; 
- Anatidaefobia: medo de ser observado por patos. (Não metas mais tabaco nisso, não); 
- Estruminofobia: medo de morrer defecando. (É pores a fralda); 
- Hexacosioihexecontahexafobia: medo do número 666. (Olha, eu só não tenho essa, que também me parece muito realista, mas apenas porque nem saberia dizer o nome dela); 
- Hipopotomonstrosesquipedaliofobia: medo de palavras grandes. (Esta, tenho um bocadinho, sobretudo se estiverem mal escritas). 
Oh, pá, pronto, e depois vai por ali abaixo, numa lista interminável de disparates e caraminholas que não cabem na cabeça de ninguém, quanto mais de pessoas. 
Pronto, reconheço que existe uma boa parte da lista que torna impossível a autoavaliação, dado que não estreito com as situações que podem provocar a fobia em causa. Mas com a maior parte da lista, posso viver descansada, já que não me toca. 
No entanto, e talvez por isso mesmo, sinto que a minha fobia é uma fobia chique, pois só pode ter medo de andar de avião quem, efectivamente, anda de avião. E isso é chique. Chiu.
Vá lá a ver se eu tenho medo de andar de riquexó, ou de nadar no Ganges, no meio das latas. Nada. Tudo em phyno.

29/04/2018

LB dá uma de blogger e faz perguntas a si mesma:

E tu, LB, o que fizeste tu hoje, para comemorar o Dia Mundial da Dança?

Oh.
(Mas aviso já que fiquei muito triste e desapontada com Mr. Google, que comemora o aniversário 253 de todos os poetas desconhecidos, os 174 anos sobre a descoberta do pum azul e o dia em que passam 691 anos sobre a invenção da roda, e hoje, logo hoje, não foi capaz sequer de pôr, nem que fosse, um bonequinho piroso a dançar, lá na sua página inicial. Cá se fazem.)

27/04/2018

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 14

Chegou smart cap — doravante denominada chica-smart —, a touca de natação especialmente dedicada a cabelos compridos, aquela que, se não fará com que o ser humano fique mais belo, e não menos hiper-estranho do que fica com qualquer outra quando a envergar, pelo menos será a garantia de que a bicha não ameaçará saltar a cada segundo, durante todo o tempo de permanência no charco. Multiplique-se isto pelos 50 minutos a uma hora que dura a coisa, e veja-se, assim, o número de vezes que é preciso agarrar o crânio com ar de ai-Jesus, enquanto para ali submersa.



Dediquemos agora um pouco do nosso precioso tempo a prognosticar qual será o passo seguinte a percorrer, em toda esta problemática da indumentária piscinal, tendo em conta dois factores: 1. A natural insatisfação do femedo; 2. Aqueles momentos em que, não tendo mais nada para inventar, inventamos mais um pequeno nada. É que me parece que está prestes a nascer o terrível e inultrapassável momento aquático em que a pessoa, aborrecida com os salpicos, ou com outra coisa qualquer, mas porque o rímel à prova de água lhe exponencia as pestanas assazmente, entende serem prementes, inadiáveis e imperiosos uns óculos especiais para pestanas compridas, quiçá com umas caixas mais côncavas, tipo aqueles peixes.


26/04/2018

Barreira linguística # 2

Vamos supor que entras para comprar um rímel à prova de água com a escova curva, e te deparas com uma vendedora que quer que compres uma máscara, que pode não ser à prova de água, com a escova plana.

Entro e peço, por favor,
- Um rímel à prova de água.
Chama a colega, chefe de loja/ mais habilitada/ mais capacitada para me vender o que eu não quero comprar/ tudo junto.
- Máscara de pestanas. — Corrige a altíssima — Queira acompanhar-me ao expositor.
E lá vou, tic-tic-tic, até à grande placa negra, onde se expõem tintas e truques para nos enganar (e podermos iludir-nos de que enganamos o próximo, seja lá ele chegado ou distante) em relação à passagem do tempo, ou àquilo que nunca tivemos (boas cores, pestanas longas, pele de pêssego, olhar profundo, profundamente enigmático). 
- É esta a nossa máscara waterproof. — Anuncia (corrigindo um anglicismo, mas usando um estrangeirismo inútil), enquanto me apresenta a solicitada escova empapada em tinta negra.
- Eu queria com a escova curva. Tem algum assim?
- Não, só este. — E eis que começa a quebrar-se-lhe a curta paciência, o que percebo pelo ligeiro baixar de braços. Ainda assim, insiste:
- Mas esta escova é muito boa, proporciona o alongamento da pestana. 
Quando se trata de estética, tudo passa a ser conjugado no singular: o pêlo, a pestana, o pé, a mão, a raiz, a cutícula. Quanto aos restantes, acho que não, mas, se apenas tivéssemos um pêlo ou uma pestana, imagino que nenhuma de nós se daria a trabalhos de arrancar, ou pintar, alongar, enrolar. 
- Mas eu queria curva, nada como uma curva para me enrolar as pestanas. — Teimo.
- E tem mesmo que ser à prova de água? — Muda ela de estratégia.
- Tem. 
- É que temos aqui uma máscara com a escova curva, mas não é à prova de água.
- Mas eu quero à prova de água.
Não quero explicar-lhe que vivo o drama puramente feminino da touca horrível + fato-de-banho assustador, e preciso imperiosamente de levar pestanas que se vejam para dentro de água.
Negócio não feito, não desfeito.


23/04/2018

Negócio da Choyna

Então. Pedro Choy forrou as carruagens do metro cá da cidade com uma pobre pub, que é esta:


A pessoa estarrece e estaca diante da visão, não da magreza, não da beleza, não necessariamente por esta ordem, da menina, mas sim do seu braço esquerdo, que se nos apresenta à direita da imagem. Então, questiona-se se Choy possui o segredo (do Oriente, calma) de praticar o Photoshop no corpo de quem lho entrega para que lho emagreça. E se é suposto ficar-se assim, com a zona do pulso mais larga do que a do cotovelo. Seja lá como for, declaro aqui que não quero saber o segredo de P.C., assim como não quero que ele me aplique Photoschoy. Ainda prefiro o cotovelo mais largo do que o pulso, à antiga.

22/04/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 56

Era estar menos atenta, e já não dava por estes diálogos:
- Olha, alguma de vocês percebe alguma coisa de Francês?
- Não, porquê?
- Porque está ali uma senhora que só pede por cus-cus-cus-cus...

Por acaso, depois fiquei a congeminar nisto: quando uma pessoa come couscous, e lhe fica presa uma única bolinha entre os dentes, como é que exprime a sua lamúria? Tenho um couscou [cuscu] preso no dente? Ou Tenho um coucou [cucu] preso no dente

[Hã, e o esforço para escrever posts sem conteúdo a que me tenho votado ultimamente, ninguém louva?]

21/04/2018

💗 Bumba


Se quereis perceber um pouco mais do meu ponto de vista, eu estou TODA! um pouco ao minuto 01:00, até ao minuto 01:50.
Execrável, tits.

20/04/2018

Na blogosfera como na vida # 3

A estupefacção. 
Ou então, apenas, 
Quando não tens nada para dizer ao mundo, encriptas e eis um post.


19/04/2018

o que é normal

Saímos todos do mesmo metro, tão iguais uns aos outros. Chegada a pequena multidão ao cimo das escadas, foram saindo alguns, depois de validarem o seu bilhete, abrindo a cancela de acesso à luz. Já de outras vezes o havia visto sair do comboio, naquele mesmo horário, e sei que me chamou a atenção, logo após a sua evidente trissomia, ainda que de costas, a sua autonomia, a sua alegria, a sua liberdade. Imaginei que viria da escola, para a escola, para a sua vida, enfim. Houve então uma mulher normal — no sentido de vulgar, sem quaisquer sinais distintivos, nem alta, nem baixa, nem velha, nem nova, nem magra, nem gorda, nem mal nem bem vestida. Talvez apenas isso, banal — que lhe fez sinal, apontando a cancela, pedindo-lhe que, com o seu passe, lha abrisse. E ele, gentil, assim fez, não desfazendo o sorriso que rasgara aquando da abordagem. Ela, agora sim, vulgar, seguiu caminho, sem um agradecimento, sequer a devolução do sorriso bom dele. E então, ele ficou para cá da cancela, o passe a recusar-se dar-lhe duas saídas seguidas, preso na sua ingenuidade, vítima da sua própria bondade. 
Não fui eu que o salvei da estupidez das pessoas, pois logo se acercou dele uma senhora, também ela normal — mas, essa, sim, caracterizável em vários quadrantes: pequena, com a magreza da escassez e do desfavorecimento, negra de outro continente onde sei que a partilha do pouco ou nada existe, vestida de vestes humildes —, que, pegando no seu passe, o picou com uma entrada e, logo de seguida, a saída, para ele.
Fiquei então a pensar que prefiro pertencer a este lado das pessoas normais, e que não, nós não somos todos iguais. A bem de todos que não somos. 


18/04/2018

Post interdito a machos # 8

(Porque só uma mulher pode entender todo o conteúdo que segue.)

Estávamos numa aula aquática, já havíamos sido sujeitos a todas as sevícias de que os monitores se haviam lembrado, e, nos últimos quinze minutos, ainda tiveram a peregrina de nos mandar sugerir fazer um jogo de futebol (polo, ou lá o que é). 
Já noutro post denunciei que a água da piscina nos dá cabo do verniz, seja ele gelinho ou quentinho manicure normal. Começo a suspeitar que lhe deitam gotas de tira-verniz, assim como desmaquilhantes vários, do dos olhos ao facial. Uma pessoa entra qual bailarina aquática — se descontarmos a touca do Demo e o fato-de-banho abaixo de péssimo —, e sai transfigurada em si mesma, com mais dez anos em cima das peles. É como mergulhar no Grande Tanque de Elixir da Eterna Velhice.
O jogo decorria na sua (a)normalidade, apesar de as duas equipas estarem claramente desequilibradas: uma delas — que, obviamente, não era aquela que me calhou — tinha dois homens, e não eram eles dois elementos quaisquer. Eram dois tubarões lá para os seus trinta e picos, com uns cabedais de meter respeitinho fora de água, quanto mais lá dentro. Acho que ganharam a partida, e só não tenho a certeza porque os instrutores, feitos treinadores-árbitros-fiscais-de-linha, boicotaram grande parte dos golos que a equipa adversária havia de ter marcado, desviando a baliza no último momento. 
Mas não é isso que interessa agora aqui. O que vim contar foi o grande momento que protagonizei, e que só não foi de puro fair play porque se deu com uma das minhas companheiras de equipa: lá no meio da confusão aquática, a bola do nosso lado, perto da baliza adversária, e, portanto, numa fase do jogo que requeria alguma atenção acrescida da minha parte, ouvi a senhora mais idosa que se encontrava em campo (capitã?) a gritar:
- Perdi uma unha!
É claro que nem me passou pela cabeça levar o aviso ao pé da letra (até porque se tratava de uma unha da mão), pois, naquele relance que dirigi à mão da senhora, percebi que se tratava de uma unha postiça. Acerquei-me dela, certifiquei-me da cor das restantes nove (um castanho-bordeaux, fácil de encontrar na transparência-azul da piscina) e, qual baywatch da unha tresmalhada, anunciei:
- Vou procurá-la, já lha entrego.
Ela sem acreditar, assim como eu. 
O que é facto é que a unha passou por mim a nadar, fazendo piruetas em direcção ao fundo da piscina, toda ela num parafuso bonito de se ver. Tentei apanhá-la, mas a libertária continuou no seu passo de natação sincronizada até ao chão. Pus-lhe um pé em cima, agarrei-a com os dedos (nós somos tão primatas...), levantei o pé e eis-la. A senhora quase chorou, interpretem como quiserem.
O jogo não havia parado, e terminou passados minutos, acho que empatado. 

17/04/2018

Notícias de Bernardo, o meu passarinho

Com a morte de Bianca, minha bico-de-lacre, perpetrada pelas minhas que se quiseram ternas e se fizeram cruéis e desajeitadas mãos, adveio também a viuvez de Bernardo e a minha viuvez de passarinhos em casa.
Havíamos combinado há um tempo que só saberia definir se fosse procurar no tempo, que, uma vez sozinho um dos passarinhos, ela viria buscar o outro, levando-o para outra gaiola — e como me faz sentir ainda mais cruel e desajeitada do que as minhas mãos esta palavra — maior, mais solarenga, com mais companhias. Assim fez, um dia depois de ter tido eu que sepultar a fêmea com as tais mãos, de carrascas a coveiras. Ele chilreava como nunca desde que a solidão havia tomado conta da gaiola, num requiem de desgosto e procura, e então, num gesto que simulou quase perfeitamente a abnegação que não sentia, e mal dissimulava a verdade da minha cobardia em assistir ao sofrimento dele, que passou a ser nosso, deixei-o ir, dorida e aliviada.
Sei-o agora feliz, aninhado nas noites no mesmo poleiro que outra fêmea igualmente desagasalhada de macho.
A minha casa está mais vazia por estes dias. Tal como acontece no coração das pessoas, assim ficam as casas quando nelas se cala o canto de passarinhos.



16/04/2018

Dúvidas que me assaltam à mão armada com alguma frequência # 5

Gostaria atrozmente que alguém me explicasse esta nova moda de andar na rua com o telefoninho deitadinho na palma da mão, e a falar na direcção da ponta de cá, que é aquela que fica mais próxima do pulso. 
Em tudo me lembra aquilo um reclame que dava no televisor quando eu era garotita (já não me lembro a o quê, mas não me chocaria se fosse a conservas enlatadas), que era o do beijo nos quatro dedos, depois estendidos para a frente, e, por fim, soprados nas pontas. Ouvia-se então uma vozinha cantada, que trinava "sex appeal!". 
Depois as coisas evoluíram, todas adquiriram um nome técnico, e a isto passou a chamar-se blowing kiss.


Assim anda actualmente o povo, com seus aparelhos em pose de sex appeal, ou, se preferirdes, blowing kiss. É porquê? Têm medo do cancro no cérebro (?), e acham que assim o evitam, preferindo não encostar o telemóvel à orelha? Falam para a mão, na verdadeira acepção da expressão? E como é que ouvem quem está do lado de lá da "linha"? Com auriculares? E não têm medo que o cancro no (tal) cérebro lhes entre pelo fio? Ou põem o interlocutor em alta voz? E nós, que estamos literalmente de fora, temos que ouvir o que se passa nestas vidas? Porquê? Não é precisa toda uma estratégia, cada vez que vão falar, ou alguém lhes liga, para ligar o fio, colocar o telemóvel naquela posição de equilíbrio precário, a ocupar uma das mãos (elas não são só duas?), e, assim, estabelecer uma conversação? De que é que falam? Quando a chamada termina, sopram o telemóvel? E ele cai? Isto um dia vai chamar-se blowing mobile phone? Qual é a cena?
Não consigo dormir.

15/04/2018

para Sempre Mulher

Com mais um ano de idade biológica no lombo, lá fui para a Sempre Mulher, (ainda) na modalidade caminhada de lazer, mas, desta feita, fiz o grande feito de ter feito o mesmo percurso em menos 32 (trinta e dois!) minutos do que no ano passado: caminhada avenida da Liberdade acima, corrida na Fontes Pereira de Melo até ao Saldanha, caminhada até à João Crisóstomo, e de regresso ao Saldanha, corrida na Fontes Pereira de Melo, caminhada no Marquês, corrida na avenida da Liberdade até à meta. 
Por este andar, para o ano vou ao lado das atletas de alta competição, e ainda as ultrapasso. Isto, numa linha de raciocínio perfeitamente lógica: se no ano passado fiz o mesmo percurso em 01:19:56, e este ano em 00:47:59 (o raio do cronómetro espeta-se sempre nos cinquenta e tais quando eu vou a passar, só para o galo), isto quer dizer que, para o ano, a minha marca pode ser 00:15:57, mais segundo, menos segundo, certo? Certo. A Matemática tem destas coisas, e nunca falha. 


O tempo apresentou-se de feição, pois choveu todo o percurso, o que, parecendo que não, refresca, à medida que se sua. Por outro lado, este ano foi comigo não uma, mas sim duas filhas, o que foi duplamente divertido. Para a próxima, levo as filhas todas que tenho (ou não me chame Linda Blue e assim elas anuam), e aí, sim, para além de triplamente divertido, seremos tantas, que seremos imbatíveis e inultrapassáveis. 


12/04/2018

da conformação diante da morte

Fiz o que fiz sempre, da mesma forma suave e macia: tirei o passarinho da gaiola, após várias fugas de grade em grade, com a intenção de lhe cortar as unhas. Nos bicos de lacre, as garras compridas podem significar a morte, pois fazem com que fiquem presos no poleiro, numa grade, no comedouro, às vezes durante a noite, e, incapazes de se libertarem, ali ficam até morrerem. Segurei-a — era a fêmea — cuidadosamente, e ela fez o que fez sempre: primeiro debateu-se ligeiramente, depois deixou-se ficar, à espera que a minha manobra terminasse. Cortei uma unha, senti-lhe a tranquilidade no pequeníssimo corpinho, e foi quando cortei a da outra pata que lhe veio a morte, muda e queda na palma da minha mão. Fui eu que a matei, e isso mata-me também a mim. Tirei-lhe a vida num lapso de décimo de segundo em que a terei apertado um pouco demais. 
Não me perdoo agora ter-me conformado imediatamente com a morte dela. Não tentei sequer  uma massagem cardíaca, simplesmente pousei-a, em prantos inúteis, em cima da bancada da cozinha. Sou dada a momentos em que não podia ser mais estúpida, e é esse irremediável que me torna assim, conformada. 
Recebi palavras de conforto e um abraço precisado, e depois saí sozinha de casa, com ela metida numa caixa bonita, que me deu a Maria, minha grande criança sensível, sensibilizada. Corri o bairro em busca de um local bonito e sossegado, onde fosse pouco provável a passagem de cães. Mas apenas encontrei árvores feias, as mesmas que se põem lindas nesta Primavera que tarda, e zonas escuras. Chovia para lá de mim, quando abri um buraco fora do céu e a entreguei à Terra, depositando-a na terra, numa paz de dar dó.


10/04/2018

Para além de tudo o resto, ainda aerofóbica

Tenho a comunicar ao povo — a toda a população terráquea em geral — que, daqui a vinte e sete dias, vou viajar de avião. Estou, por isso, em contagem decrescente, à espera que, a todo o momento, me dê o stroke, que é o strike das sinapses.
A única novidade deste facto, se já vos haveis apercebido, é que não me encontro preparada. É certo que ainda não comecei a sonhar com o assunto, pelo menos que me lembre de manhãzinha. Também ainda não comecei a tomar calmantes, nem ninguém mos botou na sopa, que eu tenha dado por isso. Ao contrário, tenho visto vários episódios de "Mayday! Desastres aéreos", para saber como é que tudo se processa, e, especialmente, se já mandaram arranjar as avarias, percalços e cenas possíveis (das tolas do piloto e co, inclusive) que geraram aquelas situações, ou se é preciso ser eu a fazer a checklist à entrada do pássaro, do género, "Verificaram os quatro motores? E o combustível? O peso das malas no porão? Os antecedentes psiquiátricos do chauffeur? Ele fala e percebe perfeitamente Inglês? Quem é que está ao serviço na torre de controlo? Todos dormiram horas suficientes? Ó menina, se isto for a cair, pode avisar-me com uma antecedência mínima de três a cinco minutos, para eu poder mandar uns quantos whatsapps? Onde é que fica o pára-quedas? E o colete? Como é que é a posição fetal, mesmo? Posso ir já descalça? E com a máscara do oxigénio? Se calhar, sento-me aqui no chão, mesmo ao pé de uma saída de emergência. Isto não tem um atalho, para ser mais rápido? Pergunte lá ao condutor se não podemos voar baixinho e devagarinho, mas que mania das alturas! Olhe, aquele senhor tem uma mochila esquisita. Na verdade, todos os passageiros têm uma cara esquisita. Já viu aquele, a dormir? Acha normal? Vocês hoje não tinham uma greve? E os controladores, também não? E os que transportam as malas? Os da pista, que usam aquelas raquetes? Alguém? Acho que me esqueci de qualquer coisa no carro. Dói-me a barriga. Quero a minha mãe!".
Outro dia, estava a desabafar com uma querida cheia de paciência, que, naquele Português lá dela, aconselhou assim:
- 'Ocê toma umas e outras antchis dji embárrcá. Já vai alhégrinha, assim si cáirr, 'cê neim dá porr nada. Acórrda lá do outro lado numa alégria, só pérguntando ondji é qui 'tá.
Mais sugestões (um pouco mais sóbrias)?

09/04/2018

regressado

Chegou-me inteiro. Vinha sujo, queimado de um sol que eu nem sabia ter havido, rouco e cheio de frio pelos calções abaixo. Trazia "vontade de comida a sério", cansado de hambúrgueres sempre iguais e cereais secos. Na pequeníssima mala, toda a roupa suja, meticulosamente dobrada. Nos olhos adornados de olheiras, o brilho da idade da inocência, umas vezes perdida, outras tantas intacta.
Lavou os dentes, tomou banho, comeu comida de casa e adormeceu, tornando-se, num breve segundo, de homem rude e exausto, em criança tranquila e apaziguada.
Poucas horas depois, perante as notícias que davam conta do acidente com a camionete de finalistas, partida lá do mesmo sítio de onde ele veio, veio também o inevitável impossível de não me colocar na pele dos pais do João, de não sentir uma imensa compaixão por duas pessoas que, tal como nós, passaram toda a semana com o coração nas mãos, esperando pelo regresso do filho que, no último momento, não aconteceu. Não posso nem quero imaginar o tamanho da dor daqueles pais. Mas consigo perceber o alcance dela, assim como a dimensão da tragédia nas vidas de uma família inteira.
Foi com esse aperto no coração que entrei no quarto azul e o constatei adormecido. Fui espreitá-lo, confirmá-lo em casa e nas nossas vidas, como se assim o pudesse garantir.
Chegou-me inteiro, o meu menino.


08/04/2018

Eu tenho problemas com tudo # 31

Na aula Acqua de hoje, cheguei à conclusão que isto não pode continuar: o raio da touca de natação anda para me saltar crânio fora, e perco demasiado tempo precioso, que posso usar em movimentos braçais, só a ajeitar aquela porra, a puxá-la na direcção da cara, a repuxar as raízes do cabelo até à dor excruciante (dá-se que sou, em linguagem povina, "arrepeladiça", e ai de quem me faça cafuné, que tem inimiga fisicamente violenta garantida), tudo um enfado, um fado, enfim, se é que me faço entender. Já experimentei pôr uma em cima de outra (licra + silicone), já experimentei pôr só a de silicone, mas, não bastando o ar de extraterrestre com que um humanóide fica, ainda temos a saga da touca que ameaça debandar. Assim, saí da piscina e rosnei para quem me calhou no percurso que "Vou mas é comprar uma daquelas toucas que têm um cinto de orelha a orelha, porque não aguento mais isto". Parecendo que não, acaba por ser uma aula duplamente cansativa (embora duvide que me consuma o dobro das calorias), e eu já não tenho idade para estes números. 
Já no lar, voltei a desabafar o drama touca deslizante, e foi quando uma das minhas bebés me esclareceu que o problema não sou eu, é ela (touca): toooodas as toucas são demasiado pequenas para quem tem cabelo comprido. 
E fez-se-me uma espécie de luz, pois já ponderava a possibilidade de, subitamente, me ter tornado cabeçuda, ou de a minha caixa craniana inchar com a água, qual soja, qual liofilizado. Eu bem olhava à volta, e parecia-me que as cabeças dos outros nadadores eram, grosso modo, do tamanho da minha, mas sei lá, tudo é possível, já que sou tão atreita a fenómenos. 
E deu-me a criança que gerei a conhecer esta maravilha:


Claro que vou ter uma, não é isso que está aqui em causa.
É que, entretanto, lembrei-me que a água da piscina também me anda a fornicar as unhas. As vinte unhas. Já experimentei ir para lá de gelinho, e, porque estou de mão e pé submerso um ror de tempo, o verniz deu em levantar placas, separando-se das unhas num divórcio feio de se ver. Hoje já fui de verniz normal, e também trouxe duas meio descascadas. Então, lembrei-me que deve haver umas luvas de natação. E umas meias. E que, se não há, vou inventar, vou patentear, depois apresento no próximo Shark Tank e fico rica, feliz e gira para sempre. Entretanto, a mulherada vai para a piscina de luvas, meias, o fato de banho mais feio da parada, a bendita touca, algumas de óculos de natação (que também são aquele arraso de beleza), mola no nariz, e assim está criado todo um novo conceito de nadadora: a sereia-anti-tusa.
Quem é amiga, hã?

07/04/2018

Os 5 anos do coiso

Foi há cinco anos que escavei este buraco onde me escondo. Lembro-me que era um domingo de tempestade, se não literal, pelo menos literária. Sei que chovia, fora e dentro de mim, e daí adveio a imperiosa necessidade de brotar. Assim, amontanhei-me e pari este espaço, como quem pare um rato.
Havia de fazer uma retrospectiva, num registo trágico, ou então cómico, que são para aí os dois caminhos que, como boa Escorpiosa que sou, sei trilhar. Mas dá-se que não aprecio particularmente nada que comece pelo sufixo retro, a não ser retrosaria (por causa dos alfinetes, aka ironia), pelo que vou abster-me, como aquelas pessoas que não sabem o que querem à boca das urnas. 
Também não estou na mood de fazer um apanhado, geral que ele seja, do que é, neste momento, manter o coiso, pois isso poderia ferir susceptibilidades, e a mim já me bastam as minhas feridas para lamber, que me dão uma trabalheira só em salivação, quanto mais as dos outros.
Em último, não vou homenagear ninguém aqui e agora, reservando tais tributos para o momento e local certos, e hoje it's my party and I cry if I want to. Nem vou deixar indirectas a quem não me grama, nem a quem finge que não me lê e depois se denuncia à vara larga, nem a quem me deixa aqui comentários anónimos (muito mal) disfarçados de amigáveis, pois que sou demasiado directa para isso, e estimo, com fervor religioso, que se forniquem.
Só não me apetece ser querida e fofa (🙄), muito menos captadora de seguidores [incrível, ao fim de cinco anos, e 2783 textos que me saíram dos bons e maus fígados, ter conseguido angariar cem seguidores. Deve haver, cá na blogobola, poucas com este dom, hã?], designadamente porque esta noite dormi poucas horas e estou com os níveis de inspiração abaixo de zero. Isto, obviamente, partindo do pressuposto que haja vezes em que sequer vêm à tona. 
No entanto, quero agradecer a quem cá vem com alguma frequência, ou porque escrevi alguma coisa com (os) pés e (pouca) cabeça, ou porque pus um título que é uma esparrela (caso do da viagem de finalistas) e caem aqui ao engano, mas que me aumentam o número de visitas diárias uma ou outra vez, e isso, sei lá porquê — já que sou bruta —, aquece-me o coração.