15/07/2018

Começo a suspeitar que a fada dos dentes não existe

Fui ao dentista dos olhos bonitos, desta vez para que ele me colocasse um aparelho, que era coisa que já queria fazer para aí desde os meus onze anos, ou seja, há várias décadas. Ainda bem que esperei, pois, nessa idade, o senhor deveria ter deslargado os cueiros há pouco, e eventualmente não estaria preparado para me aparelhar a dentuça.
Aterrei os quartos traseiros na cadeira lá dele, recostei-me naquele misto de excitação com ansiedade, e abri-lhe a boca. Vai ele, e esclarece-me que só me iria colocar o arame de baixo, já que os de cima não necessitam, mas que sim, que mo porá na mesma, assim os que a natureza me implantou e assentam no maxilar móvel estejam alinhados. Eu um pouco desanimada, acho que até amuei um nico, pois lembro-me de ter fechado a boca para desenhar um beicinho. Mas passou-me logo, quando ele me perguntou se estava psicologicamente preparada para arrancar um dente da frente, eu que ia preparada psicologicamente era para meter os açaimes de cima e de baixo, mas que sim, pois então, se se trata(va) de um dente inferior, arranca lá o que te aprouver, desde que daqui a uns meses tenha o sorriso mais Kolynos da minha rua, que é para isso que aqui estou. Picou-me então as gengivas até se fartar, viu-se e desejou-se para pôr o dente a abanar, e depois, de alicate em riste, fez sair o 41 (foi assim que lhe chamou), coitadinho, até tive pena dele, tão saudável que estava que a raiz era exactamente dois terços do total do marfim. Para que eu não ficasse desdentada e a fazer vento a cada S e a cada F, pôs-me porcelana no entremeio, de modos que nem assim consegui ficar ciciosa e sibilante. 
Já com o freio novo, fui-me embora. Mas lembrei-me, à saída, que me faltava (literalmente) o meu dente, e então voltei ao gabinete e pedi-lho, com a desculpa da fada dos dentes. Ofereceu-mo numa caixinha própria e tudo, apesar de não ser azul, mas eu também não me sentia em condições de regatear.
Começo a suspeitar que a fada não existe, pois ainda não deu mostras disso, e já lá vão duas noites com o dente debaixo da almofada a moer-me os ossos. Chateia-me muito e volto a pô-lo no lugar dele.


13/07/2018

A ver se eu percebi

Pois, eu, acho mal. Não porque possa interessar-me ver o que quer que seja, num jogo de futebol, a não ser o próprio jogo, e, mesmo esse, depende. Olhem, depende dos fatos dos jogadores, da combinação em matchi-matchi da bermuda com a blusa mais o soquete e o téne, da harmonia entre os uniformes das duas equipas naquele todo com o verde em pano de fundo, enfim, depende de uma série de factores estéticos, e também externos, que em nada se prendem ou sequer agarram com as meninas da plateia. 
O que verdadeiramente acho mal na notícia, são muitas coisas, a saber:
1. Para já, a noção de bonito é olimpicamente subjectiva - uma vez que se prende com o sujeito, e aqui mais do que nunca -, e o que eu posso considerar bonito, para o meu vizinho da frente ou o de cima pode ser o horror, e gostos não se discutem. Por exemplos, eu era capaz de achar que estavam a filmar uma mulher bonita num estádio se me aparecesse no visor a Audrey Hepburn, que essa sim, era uma mulher bonita, tinha uma cara lindíssima. (Mesmo à gaja, dar um exemplo de beleza de alguém que já morreu. E que já não se pode defender.) No entanto, o Zé dos Anzóis, essa mítica figura, era ver a Malhoa no ecrã, e upa-upa. Portanto, enfim.
2. Logo a seguir, não se entende por que é que se evita filmar mulheres bonitas, e não apenas e tão-só mulheres. Qual é a piada de ver mulheres no futebol? É pela novidade? Hum, é que não. Já não estamos nos anos 60 do outro século, pessoas. Uma mulher no futebol, é como uma mulher no ginecologista, e Lili Caneças não diria melhor. 
3. Mas, contraditoriamente, que eu sou este poço, também acho chato que deixem de filmar as petizas futeboleiras, porque é assim: aquele é O momento delas, são os seus quinze minutos décimos de segundo de fama, para os quais se maquilham, vestem (?) a rigor, com vista a darem nas e encherem as vistas, batendo pestanas (postiças, ok, mas...?), batendo palminhas, fazendo momices, oh, pá, são tão fofas, é um bocado coiso tirarem-lhes isso...
4. Na mesma senda, não percebo que se filmem pessoas na bancada, independentemente de serem mulheres, homens, mais ou menos, ou um bocadinho de cada. Essa cena é altamente limitadora e também catalisadora. Já repararam na quantidade de gente que, ao perceber que tem o foco em cima de si, lhe cai logo uma lágrima? Há jogos cujas bancadas parecem autênticos museus com a obra completa do Menino da Lágrima, esse ícone. 


Então, aquilo é ou não é o efeito imediato da pressão mediática? Qual amor ao clube, qual quê, aquilo é a imagem para a posteridade, o momento das redes, apanhado na rede. 
5. Digam-me lá se esta medida da FIFA não pode originar dramas maiores do que o da simples filmagem das elegantes senhoras que se deslocam aos estádios? É que, a partir de agora, cada vez que a câmara apontar para uma mulher, ela vai poder considerar, automatica e justamente, que é consensualmente desonsiderada sensual e gira e bonita e demais predicados estéticos. Quer dizer, isto pode acarretar traumas e até aquelas coisas dos tribunais, como é que se chamam? Aquilo do direito à imagem, e assim. Eu, cá por mim, até acho que as mulheres que sejam filmadas, a partir de agora, não só podem passar a sentir-se feias, gordas, marrecas e desdentadas, como também devem considerar optar entre o que é que é melhor: ser assediada ou bullyingada?

Estão a ver por que é que eu não vou ao futebol? Era a câmara o tempo todo em cima de mim, nada de jogo, como naquelas transmissões que não pagam as licenças, sabem? E eu sem saber se era pela minha boniteza ou pela obediência às regras da FIFA, deixa-me cá ficar no lar, que eu não pago para ter mais traumatismos.

09/07/2018

orfandade

Esperava a minha vez na venda da fruta quando ela chegou com uma menina pequena pela mão. Somos vizinhas de rua há muitos anos, ambas temos quatro filhos e é tudo o que nos assemelha. Ela tem o cuidado de se demarcar pela distância e pela incapacidade de sorrir. Coloca a voz em modo snob, anasalado, arrastado nas primeiras vogais de cada palavra e um tom acima do necessário.
Olhou-me de cabeça baixa, os olhos pequenos em alvo disparando setas, por cima dos óculos, a testa numa persiana, e "Olá", seco. "Bom dia, Paula, está boa? Que bonita que é a sua Maria". Sem resposta, dirigiu-se à criança: "Espera, Maria, que somos já a seguir. A avó não te pega ao colo porque tem dói-dói". E eu para ali, cheia de contradições na cabeça, de entre as quais que não, que ela e a neta não eram as próximas a serem atendidas.
O funcionário da mercearia perguntou então quem estava a seguir, ela disse "Sou eu", e eu esclareci-a: "Não, Paula, não é a Paula que está a seguir, sou eu. Acontece que eu dou a vez à minha vizinha, tendo em conta...", eu num sorriso, derretida de parva que sou com uma criança, ela cheia de pedras no olhar, "Olhe, não é por ser sua vizinha, é porque as crianças têm prioridade", e lá se aviou, demorada e arrogante, enquanto as cinco pessoas que ali estavam à espera abriam bocas e olhos de espanto mudo e incapaz, e eu, toda órfã, engolia uma enxurrada de lágrimas feitas de brita pontiaguda, Mãe, mãe, mãe.

07/07/2018

Tantas vezes nos despedimos


mas nunca dissemos adeus. Nem daquela última vez, em que lhe senti o cheiro a mãe na pele branca e lisa, e me encolhi nessa certeza. Morria-se há tanto, desvanecendo-se, esfumando-se, dissipando-se suavemente. Não me morreu. Tenho-a nas árvores, tenho-a nas flores, tenho-a nos cheiros e nas cores do ar, tenho-a nos pássaros, tenho-a em todos os tons do Alentejo, tenho-a comigo nos fados, Pomba branca, pomba branca, já perdi o teu voar, tenho-a no meu reflexo, tenho-a toda dentro do coração - pequenina, e enorme.


29/06/2018

Uma esfregona e um balde, debalde

Efectuando demarches com vista à contratação (também há quem diga 'contratualização'. Apetece-me atirar-me de caras a esse assunto, mas hoje não é o dia) de uma empresa de limpezas que me vá ao lar fazer uma, digamos, limpeza, e uma vez posta de parte a ideia de insistir naquela outra que revelou não querer nada comigo, encetei telefonemas.
Então, atendeu-me uma voz ensonada e roufenha, isto eram o quê? Umas onze e muitos da madrugada, que a mim nem me passa pela cabeça ligar para empresas antes dessas horas (pois, como se sabe, o pessoal entra às 10, isto, segundo o horário, mais coisa, menos coisa, liga o computa, vai tomar a bica à copa, troca dez dois dedos de conversa com a colega das fotocópias, abre o mail,  ri um bocado, chama o colega da frente para ver as anedotas que recebeu no mail, responde às anedotas com mais anedotas, e só depois pondera começar uma tarefa. Em não sendo sexta-feira, claro). E disse a voz o seguinte, ao atender:
- Hum.
- Bom dia. É da [empresa de limpezas]?
- Hum, hum.
- Fala [Linda Blue]. Preciso de uma limpeza de final de obra à minha casa e queria saber se os senhores estão disponíveis.
- Hum.
(A esta altura, já imaginava que havia ligado para alguém a quem fora interrompida uma necessidade fisiológica qualquer, ou para um sequestrado amordaçado, socorro!)
- Então... quer a minha morada?
- [aqueles 3 segundos de hesitação, que nunca se sabe...] Pode dizer.
E eu disse.
- E agendar dia e hora para ir alguém visitar o local e fazer um orçamento, quer?
[aqueles 3 segundos de hesitação, que nunca se sabe...]... Sim.
Agora estou sem saber que tipo de pessoa esperar. Ninguém? Um Yeti?

28/06/2018

Cometi um delito, fui indiciada, julgada, condenada, e até acho que estou a cumprir pena

Foi a primeira vez que usei a aplicação da Emel, e mais valia ter sido a última, que me deu uma daquelas sortes que valem um mínimo de 60 pacas, mas ao contrário, em que és tu - no caso, eu - que pagas.
A desculpa é sempre a mesma: muitas tarefinhas somadas, muitos horários para cumprir, muita coisa ao mesmo tempo, a acrescentar a outras preocupações e tristezas várias. Pode ser cansaço, pode ser só a falta de sol, pode ser o desânimo próprio do Outono (leram bem), mas a verdade é que não vi o sinal que indicava o lugar de estacionamento destinado a pessoas com mobilidade reduzida. Logo eu, que tenho o maior respeito por quem teve menos sorte que a maioria, que sigo a máxima "sabes como nasces, mas não sabes como morres", de entre outras filosofias de vida que me demovem de deixar o carro nesses lugares (medo da multa, por exemplo). Mas, naquele dia, deixei. Estava parada num semáforo, andava à procura de sítio para deixar o carro numa zona impossível (vermelha), olhei para trás e vi aquele oásis. Tão inocente estava esta criminosa, que até paguei o parquímetro e tudo. E lá fui à minha vida, descansada dela.
Vai na volta e tinha lá o envelope vermelho, que assim à primeira vista parecia uma carta de amor, aquelas que já ninguém escreve e que são ridículas. Afinal, era a notícia de infracção derivada da distracção. (Ainda acabo poeta popular, eu.)
Com alguma demora - cerca de um mês - lá meti sandalinhas ao caminho e dirigi-me à Loja do Cidadão, aquele local heterogéneo em que o povo se exalta amiúde, e que mata umas estranhas saudades do Arquivo de Identificação Civil e Criminal de Lisboa, que eu ainda sou desse tempo.
Chego lá, toda eu munida de documentos, o rapazola chama-me com um sinal de cabeça, à laia de engate (parece que "o sistema" tinha ido abaixo), e eu apresento-me, dizendo apenas a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade: que vou ali pagar uma multa. Sento-me no banco na cadeira dos réus, mas está tão quente da peida anterior, que me levanto logo e reclamo da falta de comodidades da dita. Vai ele e pede-me para verificar os documentos, e eu dou-lhe o papelote identificativo de Rosinha (que dantes se chamava livrete, mas agora não me apeteceu escrever a palavra documento outra vez). Pede-me a carta de condução e pergunto-lhe se é para me aplicar outra multa (há-de ter-se sentido investido numa autoridade que não tem, já vamos ver porquê), desta vez por condução sem carta. Diz que não, mas também não esclarece que não tem poderes para tanto. Pede-me, então, o cartão de cidadona, diz que para identificar o condutor, e eu já arrependida de não ter levado comigo uma dessas pessoas que têm carta mas não conduzem. (Esse serviço até no OLX se deve vender, e por menos de 60 europeus.)
Emite-me a nota de culpa, eu assino tudo, se não de cruz, pelo menos de olhos vendados (oh pá, metaforicamente, não é?), e ele avisa-me que terei, como pena acessória, menos dois pontos na carta, durante dois anos. Fico cabisbaixa, a simular o semblante do recém-condenado, mas tal deve-se sobretudo à ignorância dele. No entanto, cumpro o meu papel até ao fim e à risca: quando me pergunta se me tenho portado bem (no trânsito?), respondo: Lindamente. Claro que não lhe revelo a minha pequena irreverência diária (uma contramãozinha num parque de uma grande superfície, um amarelo que se me abre a dois metros de passar o semáforo e me grita "passa-me, se fores mulher!", uns 60 km/h na cidade. Mas quem não, que atire a primeira pedra. (Pronto, parou. Esta parte era só a brincar.)

27/06/2018

Eu tenho problemas com tudo # 32

Isto, quem se mete em obras, já sabe que enverga, consciente e simultaneamente, uma camisa de sete varas. No caso da minha, não sei por que obra e graça, a tal camisa não passou de cerca de uma vara - e provavelmente nem teria nenhuma, não fora a cena do nicho -, o que, nos dias que correm, bem posso levantar as mãos aos céus, limpá-las à parede, ou tudo menos deitá-las à cabeça.
Porém, uma obra, para ser tida e reconhecida como tal, tem que ter subjacentes as chamadas "derrapagens", que é quando o prazo de uma das empreitadas desliza, patina, e se estende ao comprido, exactamente como na patinagem artística. Também sei e reconheço que há incumprimentos de prazos por conta e risco do dono da obra, que muda de ideias a meio, que não cumpre, ele próprio, com a sua quota-parte (designadamente a dos pagamentos), que entra no delírio do mármore de Carrara, quando devia era meter vinílico, ou então entra no "já agora" (já agora, pintamos a casa; já agora, mudamos os interruptores; já agora, mudamos os puxadores), etecetera.
E depois, há as contingências, os imprevistos: o cano que estava podre, o rodapé que não se aproveita, o estore que mais vale deitar fora.
Mas explicai-me o pessoal que, não tendo nada a ver com obras, mas até tendo, poderia ganhar alguma coisa com elas, porém não quer. O que dizer de uma empresa de limpezas à qual me dirigi pessoalmente, disse ao que ia, pedi visita ao local para orçamento, ficaram com o meu contacto e, passados quatro dias, uma vez sem resposta, lá voltei, lá repeti o recado, lá me disseram que sim, que haviam de ligar-me a marcar a tal visita, só que, entretanto, passaram mais quatro dias e nem ó burro queres água? É este povo que atrasa não só as obras, como também o trabalho e a vida de toda a gente. (Parecem aqueles condutores que conseguem a grande habilidade de percorrer dezenas de metros a 20 km/h, pastando - melhor dizendo, apascentando - calmamente a sua vaca.) Vivem de quê, afinal? Mais uns que atiro directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.

26/06/2018

finas fronteiras

Diz que tem um companheiro, mais novo que ela dez anos, mas não se alonga. Tanto me incomoda a postura, de solidão camuflada em autoestima exacerbada - falando de si mesma a cada frase, usando o "eu" para início de qualquer conversa -, como me enche de dó vê-la derreter-se por si abaixo. O excesso de maquilhagem e de produtos de cosmética derramam-na dramaticamente: o gel colocado sobre o curtíssimo cabelo perde força, a base espalha-se em ilhas pouco pacíficas pela cara afora, a tinta das pestanas solidariza-se em molhos empapados, o bâton, de um vermelho insuportável, ceifa trilhos ao redor dos lábios, atingindo-lhe os dentes sem piedade.
Quisemos marcar um almoço de grupo do qual ela também faz parte, trocámos contactos, e ela que não, que "Eu privilegio o contacto directo, eu gosto de falar com as pessoas cara-a-cara, eu prefiro assim", então tudo bem, faz lá como entenderes, desde que consigas lá chegar no dia e à hora combinados, e, se não, problema teu.
Puxou-me então de lado, sussurrando-me por entre a papa vermelha que já se lhe formava na boca: "Eu dou-te a ti o meu número. Mensagens e grupos, é que não gosto". Depois fez uma pausa, os molhos de pestanas pintadas de negro baixados, "É que o meu companheiro é muito ciumento, e já tive grandes chatices por causa disso".
Como é fina, a fronteira da violência.
Como é fina, a fronteira entre a vaidade e a solidão.

25/06/2018

Dúvidas que me assaltam à mão armada, logo assim pelas 11 da madrugada

(Rimou e é verdade.) (Quem rima sem querer, é amado sem saber.) 

Quando falo e o resultado daquilo que procurei transmitir é igual a zero, tal poderá dever-se a um destes factores:
1. Não me diz entender;
2. O meu interlocutor não me ouviu;
3. Falei demasiado baixo/ educadamente/ numa linguagem excessivamente elaborada, metafórica, indirecta, estrangeira;
4. Tenho problemas de dicção (dos quais nunca me apercebi);
5. Estou rodeada de pessoas com défice auditivo;
6. Quando eu falo, ninguém baixa as orelhas;
7. O meu interlocutor não compreendeu o que eu disse;
8. Não repeti vezes suficientes (naquela de água mole);
9. Talvez tenha que insistir ad nauseum, assim como se faz com as crianças, cujo lema é "Ralha-me, mas não me ignores";
10. Um pouco de todas.

23/06/2018

Cycling, uma experiência esmagadora

Na pendência do dia de ontem, fui-me a uma aula de cycling. 
Tudo isto, porque tenho a PDM que sou a mãe mais fixe do pedaço (constituído por meu lar), e não consigo dizer que não, incapacidade que detenho para aí desde que corrigi o vício, logo após ter aprendido a segunda palavra de todo o meu já extenso vocabulário. (A primeira foi "pai"; a segunda foi, exactamente, "não".)
À chegada, o instrutor perguntou aos cerca de quarenta da enorme sala, quem é que estava ali pela primeira vez. Só eu e outra levantámos o braço, mas, por alguma razão que não me assiste, ele só se acercou de mim para me dar explicações acerca do funcionamento da máquina (bicicleta — cujo nome é uma metáfora, já que não tem rodas — estática). (Há-de ter pensado, "Aquela senhora tem uma alta probabilidade de faleceri, deixa cá dar-lhe uma aula teórica, e assim isento-me já de responsabilidades".)
O ar condicionado estava avariado, o que, passe o pleonasmo, condicionou grandemente a minha performance. 
De resto, correu tudo mal. O selim é uma peça claramente congeminada pelo Cão, ou por um torturador profissional (que, como se sabe, são uma e a mesma pessoa), coisa para esmagar uma determinada zona do corpo da humana, a níveis olímpicos, tal e qual um esmagador de alhos. (Dei comigo a olhar para os meus companheiros de Volta e a temer pela masculinidade deles, se é que algum ainda a conserva.) Tanto que, nos momentos em que o instrutor mandava pedalar de pé, cá o ser era a primeira a elevar-se e a pedalar, ou sei lá a fazer o quê com as pernas e os pedais. 
Ao cabo de quarenta e cinco minutos de senta-esmaga-aumenta-a-intensidade-pedala-de-pé, e muitas gotas litradas de suor escorridas, a tormenta acabou e foi possível apear-me e até ser cínica e mentirosa, quando o mestre me ordenou/pediu/perguntou/afirmou, "Isto é para continuar", "Claro que sim", de cara deslavada e suada, e toma lá bacalhau.
Um dia, à chegada ao Purgatório, Alguém me perguntará: "E tu, filha, o que fizeste tu de bem?", "Ai, eu fiz cycling durante quarenta e cinco minutos para ser querida com uma filha". E certamente levarei dois merecidos pares de estalos, com a palma e as costas da mão, "Vai para o Diabo que te carregue, que isso é coisa para te fazer merecer o Inferno".
Vá que hoje não tenho dores. Devem estar reservadas para esse momento.

21/06/2018

Notícias da obra esperta

Vai de vento em popa, ou em proa, pois que ainda não está terminada.
Fizemos tudo como manda o figurino. Já não é a primeira vez que fazemos obras em casa, pelo que, desta vez, tivemos o cuidado de agendar, planear, escolher, encomendar, envolver arquitecto e projecto, contratar mestre de obras e equipa recomendadíssimos. 
O projecto, quanto à casa-de-banho, incluía a construção de um nicho, rente à banheira, para arrumos, de toalhas ou cosmética. Assumo aqui sem pudor - designadamente por se tratar da privada - que nunca fui muito amiga de nichos. Pode ser algum trauma de outra encarnação, mas é que é um vão em vão, um buraco, uma cena à parte do resto de uma divisão, sem porta e, quantas vezes, sem janela, que me causa uma claustro que anda rés vés com a fobia, para além da absurda inutilidade que constitui a coisa. Para que genitais serve um nicho, a não ser para meter umas plantas, eternamente infelizes, praticamente entaipadas? Eu sei que sou esquisita, mas é assim que vejo a cena.
Ainda assim, e pelo facto de ter trezentas mil merdas para decidir no espaço de um mês (fora todos os meses anteriores aos do início da obra, e as semanas que se seguirão no após), deixei que o nicho fosse adiante. Confesso que nem pensei muito sobre o assunto, como faço com quase tudo. Não. Há. Tempo.
Então, ontem à noite fomos de visita à obra, o ser humano entra na casa-de-banho (ou na ruína da que foi) (ou no que será a), e só não tem um stroke porque ó-pá-não-era-a-minha-hora: o nicho era um par de grossas paredes paralelas, com uma distância livre entre si de não mais de vinte e cinco centímetros (na qual eu guardaria, talvez, toalhas de bidé, objecto de culto traseiro que deixei de ter), e que, ainda por cima, furtava espaço ao cagadócio, que é, como se sabe, senão o, pelo menos um dos motivos principais pelo qual as pessoas têm casa-de-banho, pese embora o nome.
Olhem, mandei destruir o nicho.


19/06/2018

Onde é que está o gato?

Conformada com o facto de termos (todos, a união diz que faz a força) deixado de ter Primavera, num muito pouco alegre goes-around-comes-around, Inverno-Outono-Verão-Inverno-Outono-Verão, e assim sucessivamente, que não, a ordem dos factores não é arbitrária, e após ter amargado com a canícula do dia de ontem, suando as estopinhas e todos os outros tecidos que me envolviam (designadamente o de um muito famoso vestido de flores, que se mantém impecável ao nível dos vincos e rugas — ao contrário da pessoa humana — pelo facto de ter um nico de fibra na sua composição, e, por esse motivo, ainda me fazer suá-las mais), e ainda aliviada por dar a entender que isto hoje estão menos dez graus do que ontem, deu-se que tomei a se não dramática, pelo menos drástica resolução de envergar um vestido branco, a ver se afastava os raios, complementado, não encimado, pela bela sandália que imita a pele da cobra, e que também já aqui publicito desde os anais (desta coisa), eu feliz a fazer contas de cabeça — aquele conceito que sofre várias variáveis em se tratando de mim —, tentando chegar à conclusão de quantos anos é que as cobrinhas já levam, acho que vão para o quinto Verão, congeminando que — genitais! — cinco anos numas sandálias já faz delas uma peça do Museu de Arte Antiga, mas também um objecto de culto e comprovada amortização, quando ouço miar. Era um miar sob mim, um miar de gatinho bebé, um miarinho. À medida que continuava a andar, miau-miau debaixo dos meus pés. Antes mesmo de ter a veleidade de imaginar que havia gatinhos sob a calçada portuguesa, apercebi-me que uma das sandaletes agora mia. Não sei se a outra se vai solidarizar, e passarei a andar com dois gatinhos no lugar das cobras, se isto passa, se me habituo e deixo de ouvir, se virá uma mãe gata tirar satisfações com o meu pé um destes dias, ou se, de facto, e efectivamente, tenho um gato dentro, sob, sobre ou através da sandália. Mas está a ser animado, ter um animal de companhia constante, na rua inclusive.
Pronto, desculpem. No fundo, não tinha mais nada para dizer ao mundo, hoje. Nem nunca, na verdade.

16/06/2018

Ainda não foi hoje que enlouqueci

Enquanto sentir vidros debaixo dos pés

Na verdade, não sabia que título pôr a isto. E também não tenho nada para dizer, vim cá só varrer os cantos, arejar a casa, ver se está tudo bem.
Mas é verdade que ainda não foi hoje que enlouqueci.
Casa em obras; a viver noutra casa; sem máquina da loiça; um estendal que não comporta uma máquina; empregada de férias [pronto, lá vou perder uma seguidora. Fazei como entenderdes, eu não posso fazer nada contra o facto de ter empregada e de ela, apesar de falar pelos cotovelos, pelos tornozelos e, em geral, por todas as articulações, me dar muito jeito], uma prova para fazer daqui a horas [umas 36, vá, com sono, refeições e trabalho de permeio], acompanhada da sensação certeza de que fui brindada à nascença pela ignorância, e que devia reprovar [aka, repetir a prova], se justiça existisse neste Mundo; trabalho com prazo a correr contra mim, qual locomotiva; depois da chuva em Junho, agora o vento; ontem, numa breve pausa que me impus, comi areia esfoleei os dentes.
Não sei mais de que me queixar para pintar este quadro de ainda mais negro. 
Enquanto sentir vidros debaixo dos pés, foi uma frase por mim proferida, a propósito de uma garrafa de vidro que se estatelou no chão desta minha agora cozinha [uma ou várias desgraças nunca vem/vêm só(s)], e passei a sentir a vidraria moída sob meus chanatos, daí a frase, que tanto gostei de ouvir a mim mesma, que equacionei até a possibilidade de escrever um livro com este título. Só não sei sobre o quê.

15/06/2018

Casa de azul

Era toda azul, a nossa casa. Não, faltavam - falhavam - o nosso quarto e o quarto das meninas, brancos. Toda em remodelação, toda em vias de ser pintada de novo, então de que cor?, mantemos tudo como estava?, mandamos pintar toda de branco? Que não, que queria o nosso quarto em azul, também. Não percebo uma casa azul, minha, um quarto branco, meu. 
Fui às tintas, vi cinza mesmo quase branco, vi bege mesmo quase branco, vi azuis. Então, casa toda branca e o nosso quarto azul? Ou toda branca? Ou toda azul, e os quartos brancos? 
O "meu" azul não existia na loja das tintas. 
Era branco-azul, lembra-se?
Não está no catálogo, não está no sistema, só faltou perguntarem-me se sonhei com aquele azul.
Vou trazer uma amostra, e os senhores fazem a cor, fazem?
Que sim, traga lá uma tampa da electricidade, qualquer coisa onde esse azul esteja (exista, sem ser na sua cabeça).
Eu queria tanto o quarto de azul. Não o quarto azul, não o quarto em azul. O quarto de azul.
Não percebo essa mania do azul.
Eu também não, mas gostava...
Seja, fica azul.
Vou ter a casa toda de azul, daquele mesmo azul com que sonhei e que, afinal, existe na loja, bastou levar uma coisa onde esse azul esteja
(Só o quarto das meninas se mantém em branco-branco. Mas isso não significa que toda a casa não fique de azul.)

12/06/2018

Daquilo de o Google não nos notificar dos comentários

Estava eu entre o desmoralizada e o conformada, justamente por, não sei se com justiça ou não, não receber comentários há bastantes dias, quando resolvi calçar a tairoca, meter a cestinha no braço e ir colher flores lá para as bandas dos comentários a aguardar moderação. E passavam eles dos vinte, môres. Vinte! Vós não me haveis abandonado à minha sorte macaca!
Vou agora publicar tudo, mas não tenho vagar, apesar da disposição e da vontade, para responder a todos neste momento. Mas fá-lo-ei, é irem espiolhando.
Os meus agradecimentos a todos, aos quais se juntam os meus pedidos de desculpas, em nome do coiso, que o problema é ele, não sou eu.
Cá beijinho a uma vossa criada. 

E aquele momento, também um bocadinho awkward, em que te sentes um génio, mas sabes que isso só vai durar cerca de dois segundos e poderá ser único na tua vida?

Éramos apenas oito, e mais o mestre. 
Súbita e inesperadamente, diz-me ele assim para mim:
- Dúvidas, tens?
E eu que sim, pois se toda a minha existência é uma redondinha e opaca dúvida, quem sou eu para não ser assaltada por nenhuma quando se trata de gramática? 
- Então, no imperativo, só quando é na negativa é que o verbo se mantém no infinito, porque na positiva é conjugado no tempo certo, não é?
Ao mestre só faltou levantar-se e bater-me [calma] palmas, aliviado e feliz porque nesta bela cabeça entrou uma regra; aos outros sete, só faltou terem que ir buscar os queixos aos sapatos. 
Subestimam-me. 

10/06/2018

And that awkward moment # 48

em que estás numa aula de dança, aquelas mesmas que têm fama de "não se suar nada" — e sim, antes que perguntem e eu não saiba como responder sem me enterrar, titubear ou enveredar pela mentira deslavada, esta pessoa humana maquilha-se antes da actividade, porque lá está, dançar feia e pálida e com cara de dia seguinte aos santos populares não está nos seus projectos mais longínquos, e, assim, colocou um pouco de iluminador —, e notas, através do espelho onde, no teu delirante imaginário, és uma dançarina exímia e de uma beleza avassaladora, que tens uma lâmpada acesa na testa? E é que ainda te ocorre que oh!, estás a ter uma ideia brilhante, pára tudo, mas o que é?, queres ver que são os números do Euromilhões?, a cura para a piolheira? o método cabal com vista ao definitivo irmanamento da meia desirmanada?, mas, afinal, é a cintilante luz provinda do teu suor, e a única ideia luminosa que poderias ter tido — não colocar o iluminador, passe a redundância —, não tiveste?

09/06/2018

Fato azul, com amor

Tínhamos que comprar toda a indumentária para ele levar vestida ao baile de finalistas. A mais clássica e "beta" que tinha - calças bege, camisa azul e sapatos de vela - não era apropriada para a ocasião, e constatámos com simulada preocupação e indissimulável alegria que teríamos que ir juntos às compras.
Eu sou assim uma espécie de homem nessa matéria: sei ao que vou, onde vou, e é muito raro perder tempo de pesquisas e buscas infrutíferas. Falta-me o tempo, falta-me a paciência e já sei que, se vou sem rumo, fico perdida nas lojas, como uma criança pequena que não sabe da mãe. [Tenho este trauma de infância, entrava nos armazéns com a minha mãe e perdia-a imediatamente.] Também nesse aspecto nos damos como Deus e os anjos. Ele, desconheço se por razões hormonais, mas o que é certo é que comigo também é assim, impacienta-se nas lojas, sobretudo se tiver que correr muitas e estiver mais do que dez minutos em cada uma.
Entrámos no Centro, fomos à loja que eu tinha sugerido - em alternativa àquela outra onde "os meus amigos compraram os fatos deles lá" -, consensuais na cor do fato - azul, está bem de ver - rumámos ao expositor dos fatos e ambos agarrámos naquele azul. À entrada dos provadores, tive que justificar que entrava com ele, "sou a mãe" (não fora dar-se o caso de ser alguma coogar assanhada, sem outro poiso onde explorar os recantos do menino.) (Enfim, tão distraída que estava a "polícia dos costumes" connosco, que não deu pelo casalinho que se enfiou num provador, com a desculpa de marcar as bainhas de umas calças ao homem, e por lá ficou, de cortina fechada, o tempo e para o que lhes apeteceu. Mas eu dei.) Escolhi-lhe o tamanho certo, que lhe caiu como uma luva, pagámos e saímos. A compra dos sapatos em nada diferiu deste esquema, a da gravata foi ainda mais rápida, com ele sempre a dizer "confio no teu bom gosto": escolhi-a sem ele, uma gravata cinzenta de pintinhas brancas só para "fugir" ao azul (noção que, aliás, desconheço).
No dia do baile, ele era o mais bonito. Não precisei de verificar todos os outros, um a um, para tirar esta óbvia conclusão. Ainda assim, quis levá-lo ao ponto de encontro do transporte que os levava a todos ao local do baile. À saída do prédio, dei-lhe o braço e fui sincera quando lhe disse: "Estás tão giro, agora é que toda a gente vai dizer que a velha sustenta o rapazola". Ele naquele sorriso que me aceita assim mesmo, desconexa e inconveniente, "Cala-te, que me estás a pôr nervoso", como se não estivesse já nervoso.
Vi meninas de vestidos armados até aos pés, cabelos armados cabeça acima, com colas e lacas insuportáveis, caras frescas inutilmente armadas em maquilhagens compactas até ao osso. Observei os outros rapazes e confirmei o que já sabia.
Depois contou-me que esteve no ranking para o melhor fato, mas perdeu a competição para o que levava a gravata mais ridícula (porque são adolescentes e faz toda a lógica eleger o mais feio no lugar do mais belo).
Guardo também para sempre os olhos dele, à saída do carro, enormes e lindos para mim, "Obrigado, madre".
Obrigada a ti, filho. Tu és (e serás) sempre o mais bonito.

07/06/2018

Candura

Ao longo de toda a arborizada rua, a cada dez passos, vejo pregado um pequeno cartaz, anunciando “Procura-se”, com a fotografia do que, à distância, me parece ser um papagaio. Aproximo-me para tentar perceber, e é quando verifico que, afinal, existe alguém neste mundo que, inconformado, procura o seu periquito perdido. 
Esta candura comove-me; esta crença espanta-me; esta esperança acalenta-me.
Dou por mim, dois dias depois, a sair para a rua e a perscrutar os céus, em busca do pequeno pássaro. Quem sabe uma coincidência, ele há golpes de sorte, pode ser que... O céu devolve-se vazio, mas eu não deixei de acreditar.
É que este amor, eu entendo.

05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

04/06/2018

Nutro uma espécie de miminho e manifesta admiração

pelo povo que - embora não lavando no rio e, consequentemente, não talhando com seu machado as tábuas do meu caixão - obriga a que exista uma fila à direita nas passadeiras e nas escadas rolantes (regra que não está escrita em lado nenhum), e a da esquerda lhes fique liberta, para que possam passar, veloz e atleticamente, “có-licença-có-licença”, nomeadamente quando, logo ao lado, existe uma passagem de escadas não rolantes, ou mesmo uma passadeira parada, por onde poderiam exercitar a musculatura e dar largas e compridas à tal da pressa. Por mim, que só não empato quando não posso, estaciono o carrinho do supermercado exactamente ao meio da passadeira, pois não há nada que me tire aquele bufar de impaciência na minha nuca. Cada um tem seus fetiches, e este é o meu.
(Devem ser os mesmos que atravessam em diagonal nas passadeiras. Ou que se metem pela direita, sem pisca, pisando o traço contínuo. Ou que tentam passar “subrepticiamente” à frente em todas as filas que apanham. Os outros que esperem, o Mundo que pare, porque eles têm pressa.)
(Mas que mal fizeram as mãezinhas destes entes para estarem sempre na forca?)

03/06/2018

Não é não

A não aceitação de um não, apelidando quem o profere de burro e ignorante é um estádio da evolução humana próximo dos três anos de idade, em que a criança só consegue entender o seu próprio não como algo definitivo, reservando para o não dos outros um carácter temporário ou provisório.
Por mim, durmo muito mais descansada se souber que sou “governada” por um legislador que, não se achando capaz de se pronunciar sobre um determinado assunto, designadamente se se tratar de algo mais debatido nas redes e na blogosfera do que nas comissões, simplesmente não o faz.
Burrice e ignorância não será antes nunca ser capaz de sair das birras dos três anos, não aceitando um não tal como ele é? Um não.


30/05/2018

Duas linhas paralelas que se encontrarão no infinito

Era uma vez um homem que, pouco depois dos quarenta, sofreu um acidente muito grave, que o atirou para uma cama de hospital, num coma que parecia não ter fim. A mulher, médica, persistiu na ligação de todas as máquinas que lhe suportaram a vida durante quarenta dias, contra todas as perspectivas, contra a vontade de todos os colegas que observavam o marido, contra a lógica científica. Uma familiar, em visita, ouviu o seguinte comentário de um para outro: "Mas o que é que ela quer mais? O homem está morto!". E, dessa mesma "morte", um dia o homem "ressuscitou" e ainda sobreviveu mais vinte anos, sem sequelas, fazendo felizes mulher e filhas, e mãe e irmãos, e cunhados e sobrinhos, e sendo feliz, também ele. A tal morte, quando veio, não adveio em consequência do acidente.
~
Era uma vez uma senhora, passados que haviam sido os noventa anos, frágil como um passarinho, que caiu doente com uma doença que de nenhum cuidado seria, não fora o factor idade, o factor debilidade física, o factor indiferença pelo mundo. Contra todas as perspectivas, contra a opinião de médicos, de ombros encolhidos e a palavra "idade" a cada suspiro, contra a lógica científica a que o pequeno corpo recusou obedecer, a senhora recuperou e, apesar de (não há melhor metáfora, daí o pleonasmo) frágil como um passarinho, saiu do hospital para viver ninguém sabe quanto mais. 
~
Estas são as histórias do meu pai e da minha mãe, assim ordenadas por uma mera opção cronológica. 
Esta é a minha opinião sobre a eutanásia. Baseia-se apenas em — dirão alguns, pobre — experiência pessoal. Nem sequer tem influência religiosa — com aquela base "o que Deus deu, só Deus pode tirar", pois que, contra-argumentando comigo própria, também por uma lógica estritamente científica, se fui eu que dei vida aos meus filhos, também só eu... É que não. 
Não sou fundamentalista em relação a coisa nenhuma. Mas não consigo estruturar ideias inteligentes e forma(ta)das quando o assunto é amor.


25/05/2018

L'enfer, c'est les autres

Estou sentada com um monitor à frente, num quadrado pequeno a televisão, a emitir notícias, o espaço restante ocupado pelas letras e números das senhas de vez, que a voz do altifalante grita a cada três segundos. Estou ali há tempo suficiente para já ter contabilizado e também para ter habituado o ouvido e, sobretudo, a cabeça.
Um homem novo trá-la pelo braço e senta-a ao meu lado, "Aqui, ao pé desta senhora", apesar das inúmeras cadeiras vagas à minha volta. Isolei-me numa ilha — isola, em Italiano — exactamente para poder enlouquecer sozinha, sem que os outros malucos me aborreçam ou interrompam. Ela é muito idosa e conheço-lhe os sinais da demência nos traços. Traz um chapéu impermeável enterrado na cabeça, apesar do sol que brilha logo ali ao lado. Toda miudinha, pergunta-me, de chofre: "Olha lá, o que é que já roestes?". Respondo o que me vem à cabeça atormentada: "Olha, estou aqui em jejum". E, logo a seguir, "Eu não sou eu". Ela dá uma pequena gargalhada e diz: "Ah, pois não. Estou a confundir-te com a outra. Então não és tu?". "Não.", mas não me apetece rir nem sorrir, e então ficamos assim mesmo. Daí a pouco levanta-se e vai amparar uma mulher, que lhe cai nos braços como uma criança, tonta e perdida, demasiado grande para fazer dela suporte. 
Talvez aquela fosse eu, talvez a outra fosse a minha mãe. 


20/05/2018

The girl next door # 16

Íamos pela rua que é nossa, de mãos dadas como amigas que somos tão, amizade esta nascida há pouco, mas já de cimento e pedra e cal. 
Agora ela vai-se embora, num regresso sem vontade mas necessário, ficará um oceano a separar-nos (como se existissem oceanos capazes de um impossível desses). Deve ser por isso que nos abraçamos à chegada e à despedida, mesmo que vamos só ali ao café, para ela chorar das dores que o amor lhe trouxe — e a que eu chamo Teoria do Sapato Apertado, uma das muitas que inventei nesta vida —, mas também, convenhamos, é para isso que as amigas vizinhas servem. Digo eu.
Cruzamo-nos então com outra vizinha, que me olha, me estranha, e, quando a cumprimento de "Olá, estás boa?", confessa que, à distância, não estava a conhecer-me. Expliquei que esta era eu ao natural, sem maquilhagem, uma osga verde de cabelo espetado, por contraponto com aquela Bratz girl a que todos estão mal habituados, porque tinha vindo da praia há pouco e ainda só houvera tempo para o banho e-e. Pergunta-me, a propósito de praia: "Estavas chateada?", e era eu agora a surpreendida, "Não, porquê?". Explicou então que, um dia, lhe dei o melhor conselho que já recebeu na vida: "Estás chateada? Vai para a praia. Chateaste-te com o teu marido? Vai para a praia. Os miúdos estão insuportáveis? Vai para a praia. Tens a cozinha desarrumada? Vai para a praia." 
De facto, devo ser uma pessoa bastante previsível. E translúcida. Mas, convenhamos, sou também um poço de sabedoria da treta, que, no fundo (desse poço), é a que mais falta faz às pessoas humanas. Sou uma opinion maker, uma verdadeira influencer. Estou no trilho certo para me transmutar na genuína blogger. Mas sei que ainda sou apenas uma crisálida.
(Tenho que começar a dar consultas, para começar.) (E a cobrá-las à bruta.)

18/05/2018

Voar

Por esta razão que me assiste, e que já aqui explanei bastamente, tem-me vindo à memória a minha primeira viagem de avião, mais conhecida por baptismo de voo: foi de Lisboa ao Funchal, tinha eu quatro anos de idade, e foi na TAP, que ainda não era Air Portugal, era mesmo "só" Transportes Aéreos Portugueses, sem mais mimimis em estrangeiro. 
Naquele tempo, a pista do Funchal tinha pouco mais de um quilómetro e meio de extensão, parecia a pista de um porta-aviões. Não sei como é que nunca se lembraram de incorporar uma catapulta naquilo. Mas isto sou eu a falar agora, que já lá vão muitos anos, e, na altura, nada me fazia impressão, nem sequer as alturas. 
O meu baptismo aconteceu no avião mais mítico de toda a História da aviação comercial (quanto mais não seja porque foi o meu primeiro): o Caravelle. 

Imagem palmada da nettinha

O Caravelle era, precisamente, o avião da capa da Anita (aquela a quem agora chamam Martine, mas que será para mim, para sempre, simplesmente Anita), o que ainda o elevou [hah!] mais aos meus olhos, quando, mais tarde, tivemos esse livro em casa (e do qual ainda hoje conservo um exemplar). 

Imagem palmada da nettinha
Lembro-me de ter feito uma viagem absolutamente tranquila, lembro-me de a minha irmã chorar porque as asas não batiam como as de um pássaro, lembro-me de a nossa mãe lhe mostrar os flaps a mexerem, e de ela chorar ainda mais porque, afinal, as asas batiam, mas lembro-me sobretudo de recebermos ambas livros para colorir e lápis de cor, e de termos ido à casa-de-banho e termos trazido de lá tudo o que apanhámos à mão, de sabonetes pequeninos a toalhetes perfumados, e depois nos termos ido confessar à hospedeira, que, para além de nos ter absolvido com uma boa gargalhada, ainda nos ofereceu estiletes limpa-cachimbos, para fazermos pulseiras. E o que me lembro de as hospedeiras terem uma farda belíssima, desenhada por Louis Féraud — eu tinha um caso de amor com aquele pompom do chapéu de coco, e com os apliques dos sapatos! —, que me fazia jurar um dia vestir uma assim e sair a voar como elas. A vida dá tantas voltas. E loopings.

Tudo meu, exposição no MUDE, 2015

Mas lembro-me, acima de tudo, que nunca mais voei tão bem.

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)

15/05/2018

(Auto)promessa cumprida

Assim como todos os caminhos vão dar a Roma, também é verdade que existem duas formas de chegar à Catedral de São Pedro: uma por fora e outra por dentro. 

À chegada à Praça de São Pedro, não faltam guias que se autoproclamam oficiais, pagos pelo Vaticano, fiscalizados pela Polícia, que está mesmo aqui ao lado, e nisto cai quem quer. Segundo exaustiva (porque a mim tudo me exausta) explicação do que nos calhou em sorte, a entrada para a Catedral, feita directamente pelo percurso do Museu e da Capela Sistina, é mais directa, evita que se andem oito quilómetros e que se fique na fila que circunda a Praça de São Pedro (com mais de um quilómetro de perímetro, ou a matemática me falha agora), o que é possível se despendermos mais 21 euros, a acrescentar aos 31 que já largámos para entrar no Museu. 

[Aprendi a fazer panorâmicas, agora ninguém me agarra!]
E também já tenho um pau de selfie, socorro!
[Hei-de experimentar a panorâmica em pau de selfie!]
Ora, ide pastar, por razões várias, de entre as quais a pelintrice: 1. Não é verdade que se andem oito quilómetros entre a entrada do Museu e a Praça de São Pedro (nem quatro para cada lado); 2. Não imagino o que é visitar a Catedral no mesmo dia em que se visita o Museu e a Capela. Quando cheguei à Capela, estava tão farta de andar em corredores estreitos, a subir e a descer escadas, envolvida numa massa humana suada e fotógrafa, que, se me metessem na Catedral naquele momento, tenho a certeza que entrava em transe religioso (ou outro qualquer); 3. Os 21 euros vão para um guia que consegue que a visita se transforme no dobro da duração, ou seja, que passe de duas para quatro horas. E isso, naquelas condições, para mim não dá. 
Portanto, o que fizemos, foi: Museu e Capela num dia, Catedral noutro.
Também não é verdade que a visita à Catedral seja completamente gratuita. Isso está dito e escrito por todo o lado, mas é a brincar. Acontece que o povo peregrino é sujeito ali ao sobreaquecimento dos mióis enquanto espera na fila para entrar, e depois, chega lá dentro e está por tudo, não querendo dar por perdido o tempo que ficou na fila. Quando não chove, deve estar sempre sol (errrr) na Praça de São Pedro, pois que praticamente não existem zonas de sombra. E isso pode determinar as opções, uma hora e meia depois de fritura craniana. Aquilo, entra-se e ah, maravilha!, vai-se para outra fila, por mais meia hora. É quando se começa a ver avisos de que nos estamos a dirigir à cúpula, para o que temos duas opções: ou pagamos dez euros e vamos de elevador (nem quero imaginar o pitol), ou pagamos oito euros e subimos 551 degraus (o que, segundo eles, equivale a 45 andares; o que, segundo eu, equivale a 27 andares; o que, segundo me parece, significa que os degraus são para gigantes). Ora, 551 degraus, ainda que fossem liliputianos, ao fim de duas horas de espera em pé, só se fosse para salvar a vida a um filho. Vi-me e desejei-me para sair da fila (correntezinhas por todos os lados, guardas a cada três passos), mas saí, que a cúpula da Catedral me interessa zero vista por fora: tenho vertigens, as alturas estoiram-me os ouvidos, vistas bonitas sobre a cidade já eu trazia do Fórum Romano, e a ideia de subir aqueles degraus todos, por corredores estreitos — e depois ter que os descer! — alapada a gente suada, olhem, desculpem a franqueza, mas nem que tivesse que simular um desmaio para me livrar da filinha pirilau. 
Assim, vi a cúpula por dentro, cumpri um dos meus objectivos de vida, que foi ver la Pietà, e saí de lá feliz e contente.



14/05/2018

Aterrada

No sentido aeronáutico do termo, desde anteontem, mais precisamente.

Roma vê-se a pé. É totalmente plana, fazem-se quilómetros sem que as pernas dêem por isso. A aplicação da senhora dos passos deu 62 quilómetros em seis dias, o que dá uma média de não vou dizer, porque se faz de cabeça. Tranquilo. Só ao quarto ou quinto dia é que se começa a refazer as voltas, pela necessidade de abrandar o ritmo.
Anda-se por passeios que não existem, a não ser nas avenidas, com os carros a fazerem-nos tangentes e a apitarem-nos nas passadeiras, que são uma verdadeira anedota se não tiverem semáforo: a ideia é atirarmo-nos para a frente, e eles que parem (porque param). O trânsito é um caos absoluta e polidamente organizado: todos conduzem "colados" ao da frente, ninguém dá prioridade a ninguém — nem mesmo à polícia, que eu vi com estes que o forno há-de cremar —, a entrada nas rotundas é igualzinha àqueles carrosséis das feiras, todos apitam a todos, mas acho que é mais numa de "vou passar". E passam. Fazem loucas tangentes e nenhuma secante. Não acredito que haja batidas nem atropelamentos em Roma. É impossível, no meio de tanto caos.

Não voltei cheia de estereótipos, "os italianos são assim", "os italianos são assado", talvez porque Roma é tão turística, que não é fácil encontrar um italiano vero. Posso dizer o que acho da massa populacional que povoa as ruas — muitos franceses, espanhóis e brasileiros —, dos bangladeches das flores e dos brinquedos luminosos e ruidosos, dos indianos do pequeno comércio, da chinesa da loja de recuerdos, dos romenos à porta dos monumentos (de cara e mãos tapados, nem que fizessem 30 graus), mas dos italianos nem tanto.

Tirei milhares de fotografias, mas poupo-vos às mais privadas.
Deixo aqui apenas algumas em alternativa — por serem alternativas, lá está —, que, se é para verem monumentos, basta clicarem no google imagens, ou comprarem postais.

Isto foi à partida, um sinal dos céus de que ia tudo correr (voar) bem
[Cada um interpreta os sinais como lhe aprouve]
Isto foi à chegada, idem


Por falar em lojas diferentes:




Krida Frida, anche qui?
Isto achei giro, à porta de uma casa-de-banho
(Fotografei para vos mostrar, chiu)
Isto são as figuras em que se põem (alguns) turistas quando chove


Agora, um breve momento idiossincrático:





Nunca fui à Suíça, mas até parece
Ao quarto dia, os pés gritam misericórdia em qualquer língua
Vou fazer desta placa um mantra muito meu (e do meu blog)
É verdade, a parola que me habita fotografa a chegada a Lisboa e bate palmas ao piloto,
aliviada de, em breve, o ver pelas costas

Pronto, agora que já dei o ar da minha graça e vos preguei uma seca das boas, vou alinhavar um texto acerca do que foi a minha ida à Basílica de São Pedro.
Até depois.



09/05/2018

Já cá estou há dois dias e o Papa ainda não me viu

Seria assaz prazeroso relatar-vos ao pormenor as minhas demarches e as minhas marches (13 km ontem + 13 hoje, ora pega!) a Roma, la città del’amore, dei gatti e dei monumenti, mas isto, através de Ai-fostes, torna-se uma epopeia que ninguém merece, pelo que terão que aguardar pelo meu regresso à boa Lisboa, prego-vos.
Hoje fomos ao Vaticano e fomos assaltados por um colarinho branco, que nos levou 8 euros por dois cafés. Depois seguimos para a validação dos bilhetes (31 euros cada), onde, para além de nos terem solicitado mais 21 pacas por cada um para termos “direito” a um guia (que falava tudo menos Português, aquela língua de trapos de indígenas do sul daquele continente), o qual obviamente declinámos, ainda ME foi explicado que teria que entrar na Capela Sistina com os ombros tapados. Todo este fusuê porque esta aqui levava uma t-shirt de mangas à cava, embora de gola, quase à padreco. Foi divertido, ficar a reparar na quantidade de paios à mostra a circularem à minha volta, enquanto os meus hiper-eróticos ombros se escondiam debaixo do blusão de ganga e eu percorria o Museu do Vaticano inteirinho a suar as estopinhas e a própria ganga. Cansei de ser sexy.
Depois chegámos à Capela Sistina, mas agora já estou com os polegares tão exaustos quanto os cascos, e a minha vida não é só isto, por isso fica para a próxima, se Deus e eu quiser(mos).


07/05/2018

Sobrevivi

a uma noite de cinco horas, que até para mim, insomne assumida, é pouco; a uma viagem de quase três horas metida num avião; a quatro (quatro!) avisos de turbulência, que, convenhamos, quando chegam, já aquilo abana tudo com o povo e eu lá dentro, fazendo lembrar o comboio da Beira Alta nos idos anos da minha avó; a um pequeno-almoço tomado às 6 da madrugada, com almoço de sandocha às 13:30 (14:30 locais), sem nada de permeio, a não ser um quadradinho de chocolate (kudos para a hospedeira que me ofereceu “algo para beber?”, provavelmente para testar se eu tinha um “drinking problem”, piada privada que só quem assistiu aos “Aeroplanos” percebe. Com aquela agitação aérea, era bem capaz de comer Cornettos com a testa, quanto mais beber cenas); a uma viagem de quinze quilómetros desde o aeroporto, no trânsito de acesso ao centro de Roma.
É isso, sono a Roma, ragazzi!
Agora vou viver o meu jetlag em paz, que isto aqui é mais uma hora, e, parecendo que não, faz diferença (horária, pelo menos).

06/05/2018

fada do bem

Inspirada pela NM, ou, mais concretamente, pelo seu Baby, lembrei-me de um desenho feito pelo meu também mainovo, quando ele tinha também quatro anos, e ainda também aquando da comemoração do Dia da Mãe. Calhou-me, numa pequena peça de teatro no Jardim de Infância, o papel de Fada do Bem, pelo que me vesti a rigor, varinha mágica na mão, tiara na cabeça, e assim me apresentei em palco o melhor que podia e sabia, a fazer magias das boas. Depois, ele desenhou-me de Fada do Bem, e eu guardei o desenho no coração para o resto da minha vida.


Hoje ainda era cedo, quando ele se levantou da cama. Recebi dele o primeiro abraço do dia, bordado a beijos e a palavras que me saem encadeadas de emoção, Ainda bem que vieste, filho. E eram de cristal líquido os olhos dele quando desfizemos o abraço, esse mesmo que nunca, efectivamente, se desfará. 
Fez-se homem, entretanto, o meu bebé. Já não lhe caem continhas transparentes dos olhos lindos que herdou do meu pai. Ficam ali suspensas, iluminando-o daquela felicidade com tristeza que é a do amor.
_________________
Não há nada que eu possa escrever hoje, ou algum dia, que supere isto.
Não há nada que eu possa dizer ou escrever hoje, ou algum dia, que explique a honra que sinto ao ler isto.
Obrigada, Miss Smile, por toda a amizade e simpatia. Aceite ser, como claramente já é desde o "início", também uma das mulheres da minha (blogo)vida. Desejo-lhe a si, e a todas as mães, um dia muito feliz. 


04/05/2018

Murphy, deves-me mais uma!

Saio de Cascais e verifico que o conta do gasóleo de Rosinha me dá para 46 quilómetros. Sei que estou a 30 do meu destino, que é a distância entre uma boa parte do meu coração e a minha vida. Faço aquela viagem uma vez por semana — e não mais por impossibilidade absoluta —, assumo que 46 me dá para estacionar nas calmas e ainda ir à bomba mais próxima, assim haja vagar e tempo. É essa corrida contra ele, ou a minha inultrapassável preguiça que me levam a meter-me a caminho, matemática certa, imprevistos não ponderados. 
O conta vai baixando e ainda não cheguei à A 5, mas está tudo controlado, penso eu, logo insisto. Tomo a autoestrada feita de prata pelo sol do meio-dia, que me aquece Rosinha, e a mim por inteiro. Tenho o ar condicionado desligado e começo a sentir que não vai ser possível chegar a Lisboa com a temperatura a subir àquele ritmo. Penso,
Mais vale ficar sem gasóleo à chegada do que morrer de calor,
ligo o ar, que me bafeja um hálito quente demoníaco para a cara, mas não ponho a hipótese de parar em Oeiras, porque 
o gasóleo vai dar
E também,
Quanto mais depressa chegar, mais cedo acaba esta agonia,
e toca de acelerar Rosinha. Faixa da esquerda, pisca-pisca-pisca, numa ultrapassagem infindável. Mas o conta baixa a níveis que me fazem suspeitar da possibilidade de o combustível não esticar até à minha porta. Passo para a faixa do meio, para poupar nas rotações. O conta estabiliza, já passei Oeiras, tenho para 14 quilómetros e o optimismo regressa. Mantenho-me atrás de uma fileira de carros que persistem nos 80 km/h, e penso,
Mais vale ficar sem gasóleo do que morrer de tédio,
e sigo, de novo pela esquerda.
Estou a passar a última bomba, a mil e duzentos metros de casa, quando recebo um telefonema de trabalho. Isso distrai-me do conta, que já tinha baixado dos 10, largos metros antes. Quando acaba o telefonema, estou a quatrocentos metros de casa e tenho gasóleo para 3 quilómetros. Chego à minha rua com 2. Não encontro lugar para estacionar, dou uma volta ao quarteirão e, quando paro, tenho gasóleo para 1 quilómetro.
É o momento em que se me acabam as forças e entro em desespero, pois sei que não chego a bomba nenhuma com três gotas de combustível. Concluo que não sei viver no limite.
[Felizmente, tive filhos. E uma delas, valente, pegou em Rosinha e levou-a à bomba. Contou-me depois que nem teve que desligar o carro: assim que parou para abastecer, ele simplesmente "morreu".]

03/05/2018

Fobia chique

A dias de enfrentar a minha maior fobia, concluo, simpaticamente, que, para além de aquela ser a maior, é também a única. E retiro esta conclusão exactamente do facto de me ter dado ao trabalho de estudar, se não todas, pelo menos a grande maioria das fobias conhecidas, reconhecidas e tipificadas na Wikiseca. Se eu — valente — destemo aranhas, ratos, baratas, e assim animais em geral, tidos e estabelecidos como assustadores [por exemplo, não tenho medo de leões, pois que não convivo habitualmente com eles], está visto que também não me aquecem nem arrefecem grande parte dos indutores que a lista da Wiki apresenta.
Destaque para:
- Ablutofobia: medo de tomar banho, fobia da qual sofre uma considerável percentagem dos passageiros dos transportes públicos; 
- Anatidaefobia: medo de ser observado por patos. (Não metas mais tabaco nisso, não); 
- Estruminofobia: medo de morrer defecando. (É pores a fralda); 
- Hexacosioihexecontahexafobia: medo do número 666. (Olha, eu só não tenho essa, que também me parece muito realista, mas apenas porque nem saberia dizer o nome dela); 
- Hipopotomonstrosesquipedaliofobia: medo de palavras grandes. (Esta, tenho um bocadinho, sobretudo se estiverem mal escritas). 
Oh, pá, pronto, e depois vai por ali abaixo, numa lista interminável de disparates e caraminholas que não cabem na cabeça de ninguém, quanto mais de pessoas. 
Pronto, reconheço que existe uma boa parte da lista que torna impossível a autoavaliação, dado que não estreito com as situações que podem provocar a fobia em causa. Mas com a maior parte da lista, posso viver descansada, já que não me toca. 
No entanto, e talvez por isso mesmo, sinto que a minha fobia é uma fobia chique, pois só pode ter medo de andar de avião quem, efectivamente, anda de avião. E isso é chique. Chiu.
Vá lá a ver se eu tenho medo de andar de riquexó, ou de nadar no Ganges, no meio das latas. Nada. Tudo em phyno.

29/04/2018

LB dá uma de blogger e faz perguntas a si mesma:

E tu, LB, o que fizeste tu hoje, para comemorar o Dia Mundial da Dança?

Oh.
(Mas aviso já que fiquei muito triste e desapontada com Mr. Google, que comemora o aniversário 253 de todos os poetas desconhecidos, os 174 anos sobre a descoberta do pum azul e o dia em que passam 691 anos sobre a invenção da roda, e hoje, logo hoje, não foi capaz sequer de pôr, nem que fosse, um bonequinho piroso a dançar, lá na sua página inicial. Cá se fazem.)

27/04/2018

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 14

Chegou smart cap — doravante denominada chica-smart —, a touca de natação especialmente dedicada a cabelos compridos, aquela que, se não fará com que o ser humano fique mais belo, e não menos hiper-estranho do que fica com qualquer outra quando a envergar, pelo menos será a garantia de que a bicha não ameaçará saltar a cada segundo, durante todo o tempo de permanência no charco. Multiplique-se isto pelos 50 minutos a uma hora que dura a coisa, e veja-se, assim, o número de vezes que é preciso agarrar o crânio com ar de ai-Jesus, enquanto para ali submersa.



Dediquemos agora um pouco do nosso precioso tempo a prognosticar qual será o passo seguinte a percorrer, em toda esta problemática da indumentária piscinal, tendo em conta dois factores: 1. A natural insatisfação do femedo; 2. Aqueles momentos em que, não tendo mais nada para inventar, inventamos mais um pequeno nada. É que me parece que está prestes a nascer o terrível e inultrapassável momento aquático em que a pessoa, aborrecida com os salpicos, ou com outra coisa qualquer, mas porque o rímel à prova de água lhe exponencia as pestanas assazmente, entende serem prementes, inadiáveis e imperiosos uns óculos especiais para pestanas compridas, quiçá com umas caixas mais côncavas, tipo aqueles peixes.


26/04/2018

Barreira linguística # 2

Vamos supor que entras para comprar um rímel à prova de água com a escova curva, e te deparas com uma vendedora que quer que compres uma máscara, que pode não ser à prova de água, com a escova plana.

Entro e peço, por favor,
- Um rímel à prova de água.
Chama a colega, chefe de loja/ mais habilitada/ mais capacitada para me vender o que eu não quero comprar/ tudo junto.
- Máscara de pestanas. — Corrige a altíssima — Queira acompanhar-me ao expositor.
E lá vou, tic-tic-tic, até à grande placa negra, onde se expõem tintas e truques para nos enganar (e podermos iludir-nos de que enganamos o próximo, seja lá ele chegado ou distante) em relação à passagem do tempo, ou àquilo que nunca tivemos (boas cores, pestanas longas, pele de pêssego, olhar profundo, profundamente enigmático). 
- É esta a nossa máscara waterproof. — Anuncia (corrigindo um anglicismo, mas usando um estrangeirismo inútil), enquanto me apresenta a solicitada escova empapada em tinta negra.
- Eu queria com a escova curva. Tem algum assim?
- Não, só este. — E eis que começa a quebrar-se-lhe a curta paciência, o que percebo pelo ligeiro baixar de braços. Ainda assim, insiste:
- Mas esta escova é muito boa, proporciona o alongamento da pestana. 
Quando se trata de estética, tudo passa a ser conjugado no singular: o pêlo, a pestana, o pé, a mão, a raiz, a cutícula. Quanto aos restantes, acho que não, mas, se apenas tivéssemos um pêlo ou uma pestana, imagino que nenhuma de nós se daria a trabalhos de arrancar, ou pintar, alongar, enrolar. 
- Mas eu queria curva, nada como uma curva para me enrolar as pestanas. — Teimo.
- E tem mesmo que ser à prova de água? — Muda ela de estratégia.
- Tem. 
- É que temos aqui uma máscara com a escova curva, mas não é à prova de água.
- Mas eu quero à prova de água.
Não quero explicar-lhe que vivo o drama puramente feminino da touca horrível + fato-de-banho assustador, e preciso imperiosamente de levar pestanas que se vejam para dentro de água.
Negócio não feito, não desfeito.


23/04/2018

Negócio da Choyna

Então. Pedro Choy forrou as carruagens do metro cá da cidade com uma pobre pub, que é esta:


A pessoa estarrece e estaca diante da visão, não da magreza, não da beleza, não necessariamente por esta ordem, da menina, mas sim do seu braço esquerdo, que se nos apresenta à direita da imagem. Então, questiona-se se Choy possui o segredo (do Oriente, calma) de praticar o Photoshop no corpo de quem lho entrega para que lho emagreça. E se é suposto ficar-se assim, com a zona do pulso mais larga do que a do cotovelo. Seja lá como for, declaro aqui que não quero saber o segredo de P.C., assim como não quero que ele me aplique Photoschoy. Ainda prefiro o cotovelo mais largo do que o pulso, à antiga.

22/04/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 56

Era estar menos atenta, e já não dava por estes diálogos:
- Olha, alguma de vocês percebe alguma coisa de Francês?
- Não, porquê?
- Porque está ali uma senhora que só pede por cus-cus-cus-cus...

Por acaso, depois fiquei a congeminar nisto: quando uma pessoa come couscous, e lhe fica presa uma única bolinha entre os dentes, como é que exprime a sua lamúria? Tenho um couscou [cuscu] preso no dente? Ou Tenho um coucou [cucu] preso no dente

[Hã, e o esforço para escrever posts sem conteúdo a que me tenho votado ultimamente, ninguém louva?]

21/04/2018

💗 Bumba


Se quereis perceber um pouco mais do meu ponto de vista, eu estou TODA! um pouco ao minuto 01:00, até ao minuto 01:50.
Execrável, tits.

20/04/2018

Na blogosfera como na vida # 3

A estupefacção. 
Ou então, apenas, 
Quando não tens nada para dizer ao mundo, encriptas e eis um post.