15/07/2018

Começo a suspeitar que a fada dos dentes não existe

Fui ao dentista dos olhos bonitos, desta vez para que ele me colocasse um aparelho, que era coisa que já queria fazer para aí desde os meus onze anos, ou seja, há várias décadas. Ainda bem que esperei, pois, nessa idade, o senhor deveria ter deslargado os cueiros há pouco, e eventualmente não estaria preparado para me aparelhar a dentuça.
Aterrei os quartos traseiros na cadeira lá dele, recostei-me naquele misto de excitação com ansiedade, e abri-lhe a boca. Vai ele, e esclarece-me que só me iria colocar o arame de baixo, já que os de cima não necessitam, mas que sim, que mo porá na mesma, assim os que a natureza me implantou e assentam no maxilar móvel estejam alinhados. Eu um pouco desanimada, acho que até amuei um nico, pois lembro-me de ter fechado a boca para desenhar um beicinho. Mas passou-me logo, quando ele me perguntou se estava psicologicamente preparada para arrancar um dente da frente, eu que ia preparada psicologicamente era para meter os açaimes de cima e de baixo, mas que sim, pois então, se se trata(va) de um dente inferior, arranca lá o que te aprouver, desde que daqui a uns meses tenha o sorriso mais Kolynos da minha rua, que é para isso que aqui estou. Picou-me então as gengivas até se fartar, viu-se e desejou-se para pôr o dente a abanar, e depois, de alicate em riste, fez sair o 41 (foi assim que lhe chamou), coitadinho, até tive pena dele, tão saudável que estava que a raiz era exactamente dois terços do total do marfim. Para que eu não ficasse desdentada e a fazer vento a cada S e a cada F, pôs-me porcelana no entremeio, de modos que nem assim consegui ficar ciciosa e sibilante. 
Já com o freio novo, fui-me embora. Mas lembrei-me, à saída, que me faltava (literalmente) o meu dente, e então voltei ao gabinete e pedi-lho, com a desculpa da fada dos dentes. Ofereceu-mo numa caixinha própria e tudo, apesar de não ser azul, mas eu também não me sentia em condições de regatear.
Começo a suspeitar que a fada não existe, pois ainda não deu mostras disso, e já lá vão duas noites com o dente debaixo da almofada a moer-me os ossos. Chateia-me muito e volto a pô-lo no lugar dele.


13/07/2018

A ver se eu percebi

Pois, eu, acho mal. Não porque possa interessar-me ver o que quer que seja, num jogo de futebol, a não ser o próprio jogo, e, mesmo esse, depende. Olhem, depende dos fatos dos jogadores, da combinação em matchi-matchi da bermuda com a blusa mais o soquete e o téne, da harmonia entre os uniformes das duas equipas naquele todo com o verde em pano de fundo, enfim, depende de uma série de factores estéticos, e também externos, que em nada se prendem ou sequer agarram com as meninas da plateia. 
O que verdadeiramente acho mal na notícia, são muitas coisas, a saber:
1. Para já, a noção de bonito é olimpicamente subjectiva - uma vez que se prende com o sujeito, e aqui mais do que nunca -, e o que eu posso considerar bonito, para o meu vizinho da frente ou o de cima pode ser o horror, e gostos não se discutem. Por exemplos, eu era capaz de achar que estavam a filmar uma mulher bonita num estádio se me aparecesse no visor a Audrey Hepburn, que essa sim, era uma mulher bonita, tinha uma cara lindíssima. (Mesmo à gaja, dar um exemplo de beleza de alguém que já morreu. E que já não se pode defender.) No entanto, o Zé dos Anzóis, essa mítica figura, era ver a Malhoa no ecrã, e upa-upa. Portanto, enfim.
2. Logo a seguir, não se entende por que é que se evita filmar mulheres bonitas, e não apenas e tão-só mulheres. Qual é a piada de ver mulheres no futebol? É pela novidade? Hum, é que não. Já não estamos nos anos 60 do outro século, pessoas. Uma mulher no futebol, é como uma mulher no ginecologista, e Lili Caneças não diria melhor. 
3. Mas, contraditoriamente, que eu sou este poço, também acho chato que deixem de filmar as petizas futeboleiras, porque é assim: aquele é O momento delas, são os seus quinze minutos décimos de segundo de fama, para os quais se maquilham, vestem (?) a rigor, com vista a darem nas e encherem as vistas, batendo pestanas (postiças, ok, mas...?), batendo palminhas, fazendo momices, oh, pá, são tão fofas, é um bocado coiso tirarem-lhes isso...
4. Na mesma senda, não percebo que se filmem pessoas na bancada, independentemente de serem mulheres, homens, mais ou menos, ou um bocadinho de cada. Essa cena é altamente limitadora e também catalisadora. Já repararam na quantidade de gente que, ao perceber que tem o foco em cima de si, lhe cai logo uma lágrima? Há jogos cujas bancadas parecem autênticos museus com a obra completa do Menino da Lágrima, esse ícone. 


Então, aquilo é ou não é o efeito imediato da pressão mediática? Qual amor ao clube, qual quê, aquilo é a imagem para a posteridade, o momento das redes, apanhado na rede. 
5. Digam-me lá se esta medida da FIFA não pode originar dramas maiores do que o da simples filmagem das elegantes senhoras que se deslocam aos estádios? É que, a partir de agora, cada vez que a câmara apontar para uma mulher, ela vai poder considerar, automatica e justamente, que é consensualmente desonsiderada sensual e gira e bonita e demais predicados estéticos. Quer dizer, isto pode acarretar traumas e até aquelas coisas dos tribunais, como é que se chamam? Aquilo do direito à imagem, e assim. Eu, cá por mim, até acho que as mulheres que sejam filmadas, a partir de agora, não só podem passar a sentir-se feias, gordas, marrecas e desdentadas, como também devem considerar optar entre o que é que é melhor: ser assediada ou bullyingada?

Estão a ver por que é que eu não vou ao futebol? Era a câmara o tempo todo em cima de mim, nada de jogo, como naquelas transmissões que não pagam as licenças, sabem? E eu sem saber se era pela minha boniteza ou pela obediência às regras da FIFA, deixa-me cá ficar no lar, que eu não pago para ter mais traumatismos.

09/07/2018

orfandade

Esperava a minha vez na venda da fruta quando ela chegou com uma menina pequena pela mão. Somos vizinhas de rua há muitos anos, ambas temos quatro filhos e é tudo o que nos assemelha. Ela tem o cuidado de se demarcar pela distância e pela incapacidade de sorrir. Coloca a voz em modo snob, anasalado, arrastado nas primeiras vogais de cada palavra e um tom acima do necessário.
Olhou-me de cabeça baixa, os olhos pequenos em alvo disparando setas, por cima dos óculos, a testa numa persiana, e "Olá", seco. "Bom dia, Paula, está boa? Que bonita que é a sua Maria". Sem resposta, dirigiu-se à criança: "Espera, Maria, que somos já a seguir. A avó não te pega ao colo porque tem dói-dói". E eu para ali, cheia de contradições na cabeça, de entre as quais que não, que ela e a neta não eram as próximas a serem atendidas.
O funcionário da mercearia perguntou então quem estava a seguir, ela disse "Sou eu", e eu esclareci-a: "Não, Paula, não é a Paula que está a seguir, sou eu. Acontece que eu dou a vez à minha vizinha, tendo em conta...", eu num sorriso, derretida de parva que sou com uma criança, ela cheia de pedras no olhar, "Olhe, não é por ser sua vizinha, é porque as crianças têm prioridade", e lá se aviou, demorada e arrogante, enquanto as cinco pessoas que ali estavam à espera abriam bocas e olhos de espanto mudo e incapaz, e eu, toda órfã, engolia uma enxurrada de lágrimas feitas de brita pontiaguda, Mãe, mãe, mãe.

07/07/2018

Tantas vezes nos despedimos


mas nunca dissemos adeus. Nem daquela última vez, em que lhe senti o cheiro a mãe na pele branca e lisa, e me encolhi nessa certeza. Morria-se há tanto, desvanecendo-se, esfumando-se, dissipando-se suavemente. Não me morreu. Tenho-a nas árvores, tenho-a nas flores, tenho-a nos cheiros e nas cores do ar, tenho-a nos pássaros, tenho-a em todos os tons do Alentejo, tenho-a comigo nos fados, Pomba branca, pomba branca, já perdi o teu voar, tenho-a no meu reflexo, tenho-a toda dentro do coração - pequenina, e enorme.