19/01/2019

coração azul

A minha Mia está doente. Foi operada duas vezes nos últimos três meses, mas não ficou curada do mal que a tomou. Um novo caroço, tão pouco tempo após a segunda cirurgia, lançou-nos o alarme e também a suspeita. A veterinária é de opinião que “não devemos operar”, nós não queremos que ela seja novamente operada. Queremo-la viva e com qualidade de vida enquanto for “humanamente” possível. 
Entretanto, descobrimos-lhe, numa das peladas que tiveram que ser-lhe feitas (para colagem do adesivo para as dores), um coração azul.
Assim está o meu, a acompanhar-lhe estes dias, que podem ser semanas, meses, ou - numa perspectiva optimista que não quero largar -, anos dela.


Oceanos de plástico


Quanto a vocês não sei, mas eu pessoalmente apercebi-me apenas no Verão passado do flagelo que está a ser causado pela mera existência do plástico na biosfera, designadamente nos oceanos. Reconheço que algumas imagens terão sido manipuladas, com vista à dramatização-choque para a causa (esta, por exemplo), o que, se por um lado pode desacreditá-la, por outro não permite a sua camuflagem, porque outras existem que não deixam margens para dúvidas.
Na verdade, nem sequer me sinto capaz de escrever capazmente sobre este assunto, tamanho é o tamanho da minha ignorância, eventualmente proporcional ao tamanho da ilha de plástico que boia e navega nas águas do Planeta, que abrigaria certamente uma população de algumas centenas, senão milhares de famílias. Sem querer fazer piada com o assunto, mas parecendo que já faço, não me apetece um dia ir à praia e andar a nadar no meio do lixo dos outros (e meu), não me apetece que os meus filhos recebam de herança um planeta sujo, não me apetece que os meus netos sequer saibam o que é um golfinho, e já nem digo uma boa pescada no forno, que até podem vir a ser vegetarianos, pelo andar da carroça, ou do navio.
Esta semana, o Governo aprovou uma medida de redução de consumíveis de plástico em toda a Administração Pública, o que, não constituindo solução para já - uma vez que se trata de uma medida interna -, é um pequeno primeiro passo, e, como se sabe, é com passos de bebé que se iniciam as grandes passadas da vida.
Na minha ronda pela rua, onde reside a realidade imediata, apercebi-me, por exemplo, da mudança das palhetas de plástico em algumas máquinas dispensadoras de café, pese embora que os copos continuam a ser de plástico, ao invés de papelão, como poderiam ser; passei a recusar, em diversas lojas, o saco de plástico, solicitando um de papel, ou levando comigo sacos, de papel ou pano, e encontrei outras pessoas que fizeram o mesmo; vejo à venda o que já existe na minha casa, escovas de dentes de bambu.
Apercebo-me, pelo meu próprio exemplo, que esta mudança exige uma reeducação: carregar sacos não plásticos para as compras; ir à padaria pedir o pão em papel, ao invés da compra nas "ilhas" e nas estantes, já embalado; comprar a granel, em alternativa aos pré-embalados (fruta, legumes, frutos secos, etecetera). Dá um pouco mais de trabalho, perdem-se mais uns segundos, mas tudo isso é a compensação pelos segundos que não perdemos antes, e cujo resultado já está à vista.
Também me questiono se a substituição do plástico por madeira ou papel - que nunca poderá ser integral - não levará a uma desflorestação maciça, originando outro problema ao Planeta, de igual gravidade. O que julgo, na minha já assumida ignorância, é que será possível, pelo menos, tentar um equilíbrio na utilização de um e de outro. O plástico reutilizável ou utilizável por um período de tempo ad infinitum (materiais de construção, por exemplo), não me choca, e encaro-o como sendo mesmo necessário.
Em suma, assumamos que, sem o plástico, já não saberemos viver. Mas assumamos também que, com ele, e à escala a que nos habituámos, não conseguiremos de todo sobreviver.

16/01/2019

Na senda de "Sou só eu?" # 19

a quem acontece haver pessoas que simplesmente desaparecem do radar da vida, sem deixar rasto, a não ser o da surpresa, do silêncio e da ausência? No bom sentido, quer dizer, é pessoal que não deixa saudades, mas, enfim, eclipsa-se sem uma explicação, sem que haja um motivo, nem que seja vago, sem uma briga prévia, uma pequena luta física, nada!?
A mim, sim, acontece. Admito que sou uma bruta, e reconheço que até sou bastante directa (quando não me dá para ser a ameba proteus que tudo aguenta, sem sinais à vista de um dia explodir), digo o que sinto (que é muito pior do que dizer o que penso, mas joga a meu favor que sinto muito mais do que penso), não costumo socorrer-me de mimimis. A questão, porém, é a de que o povo que me desaparece das vistas e corta relações comigo é, regra geral, povo sem razões de queixa da minha pessoa humana. Ou então, eu sou a cínica distraída, que piso com meu salto agulha Prada em todas as sensibilidades, sem me aperceber, e as pessoas ofendem/ enxofram/ magoam.
Agora há pouco foi a que até me tem uma afinidade, que começou por se esquecer do meu aniversário. (Sim, crianças, fiz anos em Novembro e não vos disse nada. Em compensação, vós haveis-me dado tratamento recíproco). Em, vá, uns trinta e picos anos de convívio (mais ou menos forçado, é certo), nunca tal havia ocorrido, pelo que lhe telefonei a perguntar se estava chateada/ havia algum problema/ o que é que se passava. Mais franca e directa do que isto, só se lhe fosse bater à porta com um maço de kleenexes e uma chibata para me autoflagelar, caso se justificasse. Que não, que não havia nada, que estava tudo bem, que beca-beca. Toda a rir, muito parva, quando lhe perguntei por que é que não me deu os parabéns, ai, que me esqueci, ai, que mudei de telemóvel e perdi as datas todas, ai, que cabeça a minha. 
Só eu para levar com estas drogadas da insinceridade.
Depois fiquei à espera que me desejasse as Boas Festas, mas acho que também perdeu essas datas com a mudança de telemóvel, pois nem um sms para amostra. É certo que também eu poderia ter-lhas desejado, mas dá-se que estava expectante e eu, quando estou expectante, sou assim: muda, só à espera que o inimigo se mova.
Pronto, mais uma.
Bom, de qualquer modo, sei-a tranquila, pois disseram-me, que eu nunca vi, que bate no peito ao domingo, naquele transe lá dela, a proferir as palavras mágicas que tudo limpam, "Por mea culpa, por mea tão grande culpa". Quanto a mim, também estou em paz, mesmo não cumprindo o tal ritual.
Este post foi escrito:
1. Sem patrocínios;
2. Porque tenho uns quarenta chouriços para encher até ao dia 5 de Abril;
3. Porque não tenho assuntos que interessem aos marcianos;
4. Sem mágoa, sem dor, como aqueles partos Lamaze;
5. Por mera curiosidade, pois gostava mesmo de saber o que é que passa na cabeça dos que me despedem sem justa causa. (Olhem, ide.)


15/01/2019

Alguém?


Está perdido/ abandonado (que é o que parece, visto que não traz coleira), meigo e habituado a pessoas, sem hipótese de ser entregue a canis de acolhimento (já tentámos todos), sem possibilidade de registo no encontra.me.org (simplesmente impossível fazer login nessa coisa), e, no vet, a informação que obtive, foi a de que fazem a leitura do (possível) chip, mas, não o tendo, ou não encontrando o dono, não podem ficar com ele. Já passou umas noites ao relento (este relento destas últimas noites), com certeza o da noite passada, tapado por mantas fornecidas pela minha casa e de uma vizinha, que estavam encharcadas hoje de manhã.
Sei muito bem que não posso salvar o mundo, mas sei também que ninguém pode impedir-me de tentar.

13/01/2019

Unhas de felicidade

Foi na fase final de uma incursão a Norte, estava eu a quatrocentos quilómetros de casa, com uma hora de vida disponível, sem vontade de ficar no carro feita agarrada a Ai-fostes, sem pica para mais um museu, quando me lembrei que era bom despachar a manicura, já que, no dia seguinte, tinha vida para viver que necessitava das mãos arranjadas, e ainda tinha a viagem pela frente e a perspectiva de chegar incapaz de roer a unhas, quanto mais de pintá-las. Postas todas estas condicionantes, entrei em três lojas de nails, que toda a santa terrinha tem, pelo menos, dez, mas, umas porque tinham a agenda cheia, outras porque não lhes apetecia, apenas à quarta tentativa consegui vez.
Entreguei as mãos a uma mulher feliz, o que constatei sem esforço através do viço do olhar negro, sob a espessa franja preta. Pegou nelas e perguntou, num sotaque acentuado sem margens para dúvidas geográficas, se eu tinha raízes dali. Por motivo que desconheço, falei-lhe de Barcelos, omitindo o Porto, quando estava a meio caminho entre uma e outro.
Limpou o verniz que restava nas minhas unhas com acetona pura (nada de tira-verniz sem acetona), não mas mergulhou na clássica tina de água morna, e, comentando que estavam "bem direitinhas" - desconhecendo que as corto com corta-unhas e que recebo veementes protestos da manicura a que pontualmente recorro pelo ziguezague em que lhas apresento -, pegou numa lima de metal (nada de limas de cartão) e assim as acertou sumariamente, para as deixar todas do mesmo tamanho (curto, quase pelo sabugo, que mais do que isso é capaz de me deixar nervosa até aos dentes), nada de alicate de pontas para as peles das raízes (usou uma peça metálica bifurcada, que eu pensei que me ia arrancar os dedos, mas é que não - ainda os tenho), nada de limar a unha por cima, "para tirar a gordura da unha", nada de aplicar uma camada de base protectora, foi directamente um verniz vermelho-sangue-vivo como eu gosto, apenas uma camada, nada de duas, nada de top coat, "este verniz seca rapidinho". E foi meia-hora de conversa feliz que ali aconteceu, à espera que o "rapidinho" secasse, pois os tempos não são iguais em todos os pontos do país nem do mundo, nem os relógios andam à mesma velocidade em todos os lugares. As pessoas felizes, efectivamente, não sentem o tempo a passar, precisamente porque ele não passa por elas.
As minhas unhas, essas - pese embora a falta do tira-verniz, da tina de água morna, da lima de cartão e da outra da superfície, do alicate de pontas, da base e do top coat, ou talvez por isso tudo junto -, ficaram maravilhosamente bem cuidadas, cobertas com uma grossa camada da jovialidade própria do tempo que se recusa a passar.

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11/01/2019

Note to self, como diriam os estrangeiros

Nunca coser à máquina rigorosamente por cima do alinhavo. Depois é extremamente exaurante  retirá-lo. A paralela perfeita, de cerca de meio milímetro, salva muitos nervos, muitos dedos, e permite o reaproveitamento das linhas, que estão pela hora da morte. 

(E não, isto não é um post encriptado ou metafórico, com uma indirecta qualquer para alguém. É a pura e a dura da verdade, provinda de alguém que desgastou cerca de várias horas a arranjar na máquina de costura três pares de calças e ainda teimou no mesmo erro em que dá quedas há anos.) (Solicitaram dez euros por cada par à criança, lá no atelier dos arranjinhos.)
[Este foi o dia em que LB, para além de falar de si mesmíssima na terceira pessoa - como os concorrentes daquele programa casadoiro que, porquê, meu Deus?, já acabou -, não só assumiu publicamente que é proprietária de uma máquina de costura - posso dizer a marca? Já faliu -, como também que é possuidora de uma sagaz e olimpicamente útil prenda doméstica, que é a exímia arte de manuseamento e pedaleira daquele engenho.]
(Efectivamente, dá-se que tenho para aqui uns chouriços para encher, desde o momento em que me apercebi que tenho 2952 posts publicados até agora mesmo - 2953 com este, quando ele vir a luz, como os iluminados, e isto se não me falha a matemática -, e tomei hoje como uma das minhas resoluções de ano novo o atingimento dos 3000 aquando da perfeitura dos seis - ou são sete, hom’essa? - anos cá do buraco, lá para Abril que vem, ainda este ano.)

Vivendo e aprendendo

Portanto
Ou seja
À conclusão
Então
Em suma
Resumindo, eu sou heterossexual e, por isso, ou apesar disso, ou concomitantemente com isso, estou deprimida.
Não.
Eu estou deprimida e, por isso, ou apesar disso, ou concomitantemente com isso, sou heterossexual. 
E, se me tornar homossexual de hoje para amanhã, ou de ontem para hoje, isso significa que estou numa fase maníaca de algo semelhante a uma bipolaridade.
Ou, se hoje entrar numa fase maníaca de algo semelhante a uma bipolaridade, torno-me homossexual.
Correctos, estes meus raciocínios?
Chiu. Quem disse foi a psi da pacotilha, inquisidora a quem se entrega um microfone e se fazem entrevistas.
Também posso ter sido metida numa cápsula do tempo e fui parar à medieval época das bruxas.

10/01/2019

vulnerabilidades

Creio que nunca me tinha apercebido da existência de uma câmara de aflição na sala do veterinário, até ontem. Talvez porque eu própria ali tenha entrado assustada e apreensiva, carregando a minha cabeça a abarrotar de fantasmas, as pulsações latejando em todos os sentidos, a respiração desacordada num susto. Na véspera tínhamo-nos apercebido de um novo caroço na axila da Mia, e o pânico pela recidiva (ou nunca cura) da doença havia voltado. Era igualmente o momento de fazer o raio-x de despiste de metástases, pelo que a deslocação ao consultório tinha dupla razão de ser. 
Não sosseguei a alma quando a veterinária analisou o caroço e disse apenas não gostar nada da consistência dele. Fez punção, colocou o conteúdo em três lamelas e preparou tudo para enviar para análise de laboratório no mesmo dia. A Mia portou-se como uma senhora, sem um ai, sem um rosnado, sem uma tentativa mais radical de se libertar de tantas mãos - as minhas incluídas - que a prendiam. 
Esperava a revelação do raio-x quando ouvi soluços na sala de entrada. Dirigi-me para lá em ânsias e vi uma mulher adulta com qualquer coisa de bastante pequeno nas mãos, postas em concha fechada, como que numa oração. Quando as entreabriu, ouvi-a explicar que "ele põe três ovos por mês, este mês ainda não pôs nenhum, costuma ficar assim paradinho quando põe, mas nunca como hoje". Percebi então que se tratava de uma fêmea, apesar da referência no masculino, de um pequeno papagaio verde. Levado às pressas para a sala de cirurgia, para ser posto a soro e oxigénio, deixou assim para trás a dona inconsolável. Ainda ensaiei uma tosca tentativa de alento, mais em busca de convencimento próprio, com um inseguro "tenha calma, vai ver que não é nada", quando nem sequer nas minhas palavras acreditava. Calei-me imediatamente, pois as lágrimas dela contagiaram as minhas e precisava de manter as forças para o que viesse a seguir.
Revelado o raio-x, a veterinária deu-nos a única notícia boa daquela visita: pulmões "limpos", por ali não há "nada". No entanto, insistiu na muito provável "maldade" do caroço. Aguardamos uma semana, de credo nas mãos e coração na boca. 


06/01/2019

Normal e não normal

No antro-pináculo de fast food, que também frequento a espaços a cada passos largos mais alargados - apesar de, em meu favor, alegar que apenas consumo a refeição, dita lá por eles, veggie -, encontrava-se logo ali ao lado uma família, constituída por pai, mãe e filha adolescente. As duas tagarelavam animadamente sobre não sei bem o quê, por não ter prestado atenção, um tudo-nada desconcertada com o facto de, contrariamente ao que já vai sendo habitual e visualmente poluente, não estarem agarradas aos respectivos telemóveis. O pai daquela família, calado, ausente delas, observando mais ou menos com desinteresse o redor, mãos nos bolsos, acabada que estava a refeição dele. Então, finalmente, tocou o aparelho da rapariga, que trocou algumas breves frases com a que vim a perceber ser uma interlocutora, e, ao desligar, virou-se para trás e comunicou a uma menina, não mais de nove anos, que se encontrava empoleirada num banco alto, absorta num pequeno computador colocado sobre um balcão: “Gabi, a tia manda-te os parabéns”, ao que ela respondeu, sem retirar os olhos munidos de óculos do ecrã, tão-só, tão só, “Okay”.
“Okay? Olha-me o desprezo desta!”, comentou a que talvez fosse a irmã mais velha, entre o surpreso e o divertido. 
A criança, essa, não moveu sequer uma pálpebra, concentrada que estava na comemoração dos seus nove - máximo, dez - anos.

03/01/2019

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 60

Estou tranquila, a fazer o meu pagamento nas caixas de self-service, 
(não é verdade, estou sempre a mil, simulando tragicamente mal uma calma que não possuo nem me possui a mim)
quando a senhora encarregue daquela área engraça comigo, vá-se lá perceber porquê,
(uma pobre mulherzinha, cheia de nervos e pressa para ir sabe-se lá onde, tipo coelho da Alice, as compras pic-pic-pic na leitura óptica, a máquina a encravar, "Por favor, aguarde pela assistente", "Olhe, por favor, diz aqui para aguardar, não sei o que é que esta tem hoje, acho que embirra comigo, talvez devesse mudar de máquina, esta minha vida é um desassossego, mais valia ter ido para a fila, que era capaz de me despachar mais depressa", a assistente a vir em socorro, a tocar numas quantas teclas e a máquina a respirar fundo)
(ou sou eu?)
"Por favor, continue a sua compra"
(Tão educada, a máquina, começa todas as frases por "por favor")
"Por favor, insira o seu cartão"
("Por favor, não saia sem pagar")
e vai a assistente e oferece-me uma garrafa de um litro e meio de água, daquela marca que devemos evitar nos velórios [a piada não é minha], porque "um senhor pagou-a e não a quis levar, tem aqui um pequeno defeito na tampa", "Ai, dê cá, a cavalo dado não se olha o dente", mal eu ainda sabia o quanto havia de me arrepender desta mania de seguir os ditames dos ditados. 
Saco cheio até transbordar, na outra mão mais uns itens - dois sacos de Doritos (don't ask), uma embalagem de postas de salmão para o jantarinho do lar, um saco de cenouras (que eu até parece que tenho coelhos em casa, vão-se aos quilos, mais valia ter uma horta na varanda) -, e a garrafa grátis sob um dos braços, vulgo na axila. 
Havia percorrido o quê? Cerca de quatro metros e meio, mais centímetro, menos centímetro, quando me apercebo de que estou a tomar um duche em público, apesar e sobretudo de ter um sobretudo vestido sobre o vestido. A garrafa jorrava placida e candidamente algumas gotículas sobre a minha manga, e eu, incapaz de parar, pousar as tralhas e deitar fora a magana, desci toda a rampa de acesso ao carro com a estúpida a cuspir-me o casaco todo, tendo lá chegado com a manga encharcada, porém a garrafa inteira. Coloquei-a de pé no chão da viatura, mas ela desmaiou logo ao primeiro arranque, e babou-me o tapete de Rosinha. Então, pu-la no encaixe próprio para garrafas, copos e sei lá mais que cilindros que minha Rosinha tem, só que ela deu uma pirueta nos ares numa curva acentuada, e atirou-se para a parte de trás do carro, tendo-me então molhado um dos tapetes traseiros. Foi quando decidi não lhe mexer mais até chegar ao lar, não fosse ela inundar-me o vidro da frente por dentro, e o limpa pára-brisas não ser capaz de me resolver o assunto, uma vez que acho que está colocado do lado de fora. 
Enfim, cheguei com menos meio litro de água dentro da garrafa, poças por todo o lado e a manga do casaco molhada. 
Moral da história: quando leres ou ouvires "grátis" em algum lado, foge a sete pés. Esse cavalo não tem dentes, e ainda te morde o rabo.


Ninguém tem nada a ver com isso

Deixo o carro mesmo ao lado da loja de produtos para animal, numa pequena reentrância que faz a via, exactamente para cargas e descargas do supermercado. Não estou a impedir a passagem a nenhum carro, embora obrigue a que todos os que o façam entretanto, tenham que fazer uso de mais cautelas, pois a passagem está mais estreita. Não pus os quatro piscas porque não vou demorar mais do que quinze segundos - vou buscar o saco de areia para as caixas das minhas gatas, que está pago - e porque ninguém tem nada a ver com isso. Estou a sair do carro e já um casal de alguma idade para ter juízo está, dentro do seu carro, ao meu lado, claramente em protesto pela situação em que deixei o meu. Respondo que "Vou ali buscar a areia do gato, é um saco com quinze quilos, quer carregar, que eu estaciono bem o carro e vai o senhor lá buscá-la?". Digo "gato" e não "gatas" porque ninguém tem nada a ver com isso. Antes de eu entrar na loja e de eles se afastarem, ainda me apercebo de que ela se ri e gesticula, ridicularizando-me. Curiosa, a diferença de atitude de alguns homens, quando vão acompanhados da esponja e quando não. (E também vice-versa, mas essa não é agora a questão.) Gostaria que elas se transformassem em mosca (menos morta do que actualmente são) e pudessem assistir, por uma só vez, durante breves segundos, às enormidades que os esponjos engravatados e encasacados são capazes de dizer, quando elas lhes soltam a rédea e, por consequência, a língua. Mas também ninguém tem nada a ver com isso.