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21/07/2025

A mulher que podia ser minha mãe # 9

Ligo-lhe porque, da última vez que os vi, notei ambos muito preocupados, ela sob a forma de chiliques e suspiros, ele sob a forma de magreza — ainda mais do que antes — pronunciada, sem uma queixa, sem um desabafo. A idade avançou-nos a todos, passaram quase três décadas desde que os conheci. Atende-me aos ais, a voz dele suave e firme ali ao lado, a responder por ela às perguntas que eu fiz, que sim, que há um “oma” no corpo dele, vai fazer o PED, eu tento acertar-lhe o passo da descrição, PET, o temido exame que diz por onde é que o oma anda, se está circunscrito ou se já minou por todos os cantos. Ela entaramela a voz, está claramente anestesiada por auto-recriação que sei que faz, ele lúcido como um rapaz, apesar dos oitenta e sei lá. Sinto-a choramingar e lutar contra a perda de compostura, num óbvio acto de coragem “por ele, para não o assustar mais”, enquanto tresouço a voz dele a conformá-la do medo, das certezas — pois é médico — que terá por via de um mal que o assola a ele. Não há como construir uma estaca de sustentação feita de massa mole, quando a árvore começa a entortar com o tempo e o vento. Será ela que terá que se aguentar de pé e ainda fornecer forças para que a estaca não quebre.


27/10/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 8

Espero-a no hall, aparece desgrenhada e coxeante, cheia de sacos e pequenas coisas que vão caindo enquanto se dirige para a porta, eu vou apanhando, são as chaves, é um saquinho não sei com o quê, é o telemóvel, é um gancho de cabelo — azul claro, a combinar com o casaco de pele curtida —, abre a porta e entra, só depois eu, faz sentido, ela é que a abre, ela é que está manca, ela é mais velha, queixa-se das dores e da maçada que foi ter caído da cama por ter pisado a água que entornara de um copo, os ossos como esferovite, anca desfeita, pulso retorcido, seis horas de cirurgia, meses de fisioterapia, eu ai que para lá caminho, a quimioterapia também me deu de brinde essa condição de que nem se diz o nome, osteo quê?, acha-me belíssima de cabelo curto, até mais nova, fico a saber o truque, quais botox, quais boa alimentação, quais actividade física, quais felicidade, uma tesoura e cá está o elixir da eterna juventude, aproveito e queixo-me das unhas, parecem feitas de mortalha, uma desfaz-se todos os dias mais um bocadinho perigosamente em direcção ao sabugo — a que entalei quando andava na Infantil e nunca mais recuperou do susto de ter sido arrancada por uma porta —, essa e a gémea (até nas unhas se dão fenómenos gemelares), e então ela ilumina-se toda no momento em que lhe dá a epifania com a solução para o meu problema unguinal,

Sabe o que é que é mesmo bom para isso?

[Vai-me recomendar Onglinex em quatro, três…]

Umas gomas que se vendem no Jean-Louis David, em forma de ursinho, que são deliciosas, pena é que custem vinte euros cada caixinha, mas são óptimas.

Exangue.

(Também posso comer uma boa pratada de gelatina. Ou quaisquer gomas, mesmo que tenham a forma de uma píton. O princípio é exactamente o mesmo.)


13/08/2022

Nunca fujas ao teu destino

Estava eu relativamente mal instalada no grupo do whatsapp da dança, no qual havia entrado apenas e tão-só para obter o nome de uma música — que adoro de paixão e é para aí a única coreografia que sei de cor sem erros, o que já faz de mim uma interesseira inescrupulosa —, onde me aborrecia com toda a solenidade, basicamente porque, sendo o mesmo constituído por dezenas de pessoas, as trocas de mensagens eram acerca de tudo menos do interesse comum, já não contando com os aniversários, em que era um dia inteiro de quadrinhos amorosos de parabéns, numa desordenada competição de quem é que conseguia o mais piroso, depois fiquei doente, abandonei as aulas e saí do grupo, um alívio sem precedentes, só comparável ao da satisfação de uma necessidade fisiológica premente, sete meses de paz e sossego, e depois voltei. Voltei, e voltei a dançar, e devo ter ficado tão excitada com essa volta que a minha vida deu, que pedi a uma das administradoras [olha a cagança] que me incluísse de novo no grupo, ela assim fez, e eu, sejamos honestos, aguentei-me lá… quatro dias. Desta vez, já não havia necessidade de alguém fazer anos, estava rigorosa, diária e definitivamente instituída a parolice no grupo, por conta não sei de quem, ou de quens — a pessoa entra, baila e sai, não conhece nomes, não associa caras, não nada, sabe apenas que há a alta, a gira, a que dança bem, a gorda, a antipática, e já sabe muito —, todos os dias gifs cheios de glitter a desejar um dia bom, bonecos a brilhar, corações a explodir de tanto amor, my eyes, my eyes, não posso desver tanta saloiada, então saí outra vez, desta feita para não mais voltar, o problema és tu, não sou eu, podes ficar com o carro, a casa, as jóias, os putos, mas nesta barraca de farturas não fico eu.



Estava eu descansada da minha vida, livre de gifs com ursinhos e outros bichos cheios de amor para me dar, quando, de repente, a mulher que podia ser minha mãe — que, relembro, deu um olímpico trambolhão e partiu não sei quantos ossos, ao nível do fémur e do pulso, mas, que eu tenha sido informada, nenhum no crânio — desata a mandar-me diariamente bonecada semelhante à anteriormente descrita, os bons dias, a frase lapidar, a lição de vida, as protecções divinas, tudo muito cheio de brilhantinhos e corações e sopeiradas assim. Vejo-me compelida a responder-lhe com um singelo porém assertivo coraçãozinho, em sinal de “gostei”, só para não a ofender, quando, efectivamente, “não gostei”, isto de ser uma pessoa educada é um fardo excessivamente pesado, que faz da pessoa uma conformada e hipócrita, quando a minha vontade era correr tudo ao coice, socorro, tirem-me deste pesadelinho!

Preciso de uma explicação do cosmos: porquê?


 

28/06/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 7

Estatelou-se ao comprido no chão de casa, desfez o colo do fémur em mil cacos e o pulso direito em três ou quatro. Escorregou em água, entornada de um copo que não viu cair. 
Escreve-me então um relato mais semelhante a um relatório, ou a um relambório de amarguras, embora pouco amargurado: duas mensagens de whatsapp com vinte linhas cada uma, logo seguidas por quinze fotografias e um filme, antecedendo estes mais duas mensagens igualmente semelhantes à espada de Dom Afonso Henriques. As fotografias retratam as várias fases da queda plus hospitalização, plus pós-operatório, plus já em casa. Não sei eleger a melhor ou a pior de todas: ela de óculos de sol na cama do hospital, ela na cadeira de rodas, solitária, num corredor, ela em casa de camisa de noite tigresse. O filme é a filmagem do momento em que os bombeiros a retiram pela janela de casa — mora, obviamente, numa moradia —, para evitarem ter que pôr a maca na vertical e passar os corredores todos desde o local da queda até à rua com a múmia senhora em pé, ou, quem sabe, de cabeça para baixo, não fosse ela soltar-se das amarras e esfarelar mais um fémur. Perguntei quem filmou, diz que foi um genro (of course, quem perderia um prato destes com a sogra, que ponha o dedo no ar, no nariz, whatever).
Isto não tem piada nenhuma, é apenas mais uma prova de que a minha vida dava uma longa metragem de m. Mas fiquei a meditar nas razões que levam alguém a encher a caixa de conversação — e a dos pirolitos — de outrem com tão profusa informação (?). E também no quão desimportantinha sou, pois nem uma simples pergunta a saber de mim a mulher me dirigiu. E ainda bem, porque ser a vedeta da doença é o papel que pior me assenta em todo o elenco.

01/03/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 6

É primeira vez que vamos ver-nos desde que. Carrego, enfiada na cabeça, Natércia, com a qual ainda não decidi que tipo de relação tenho. Sei apenas que não é de ódio, talvez porque atravesse — pessoalmente e como ser humano desta Terra — uma fase em que quero estar longe de tal registo. Mas também ainda não é de amor, como confessei outro dia à comadre que lhe deu o nome, tornada, deste modo, madrinha de uma cabeleira, assim como de uma filha das minhas.

A mulher abre-me a porta, escancara os olhos miudinhos em clara e simulada surpresa, abre também os braços e exclama: 

- Está tão linda!

Ao fim de três meses (contando apenas desde o diagnóstico) disto, já só sorrio para dentro quando alguém me diz que estou bonita. Ainda que também o exteriorizasse, pessoas como ela talvez não captassem esse sorriso, com a desculpa da máscara. Mas, na verdade, devo ter perdido pelo caminho a capacidade para que os olhos acompanhem a reacção. De qualquer modo, habituei-me a elogios físicos desde que sei e que sabem que tenho cancro. Agora sou linda: de peruca, com as pestanas a metade e cor de vela, mas linda. Por acaso, estou com uma pele maravilhosa, lisa como a de uma criança, não só porque toda a penugem voou pelos ares, como também porque sou militar com a hidratação e bebo chá rigorosamente todo o dia. E sim, devia dormir algaliada, ou de fralda. As minhas noites são mais belas do que os vossos dias. Micçamente falando, claro.

Abre-me também os braços, para os quais me dirijo sem reservas — na ingénua ilusão de que nunca se recusa um abraço —, quando me trava subitamente, me agarra as duas mãos com a força das unhas compridas a cravarem-se nas minhas palmas, os anéis nos meus nós, e esclarece:

- Isto ainda não dá para abraços. 

Entendo. Está preocupada com a segurança dela, e existe uma infinitésima possibilidade de eu lhe transmitir um vírus que, apesar de bi-vacinada, pode matá-la. Como é estúpida, a estúpida da vida.

- Sabe, estou muito doente. Até já tive que ir a um psiquiatra, que me fez tão bem… Acertou-me a medicação,

[que pena que não tenha sido o passo]

tirou-me muitas dúvidas que eu ainda tinha, e agora sinto-me bem, mais leve, muito melhor.

Sabe, estou muito doente. 

À saída, desejei as melhoras, votos que ela não devolveu, não sei se sorri para dentro ou para fora, e atravessei a porta, desabraçada e linda.


30/10/2021

A mulher que podia ser minha mãe # 5

abre a porta para eu entrar, verifico que já estão duas pessoas sentadas, pergunta-me se quero um café, agradeço e digo que não, mas ela começou agora o espectáculo, precisa de interagir, precisa de uma explicação: “A sua tensão arterial, como é que está?”, pois não lhe chega um mero “Já tomei”, “Não me apetece”, “Por hoje já chega”, para o que, de resto, nem me deu tempo. Respondo que está boa, agora que só tomo um café por dia — a minha grua —, talvez um destes dias nem isso, assim como assim já só como relva, capaz de me meter na meditação e abraçar uma religião alternativa. Entro para o gabinete e ainda a ouço dizer para as duas sentadas: “Esta [e diz a minha profissão oficial, que, aliás, não exerço, mas que, para o caso, é indiferente: ela sofre de dependência de falar, sobretudo necessita de se engrandecer através do poleiro social a que considera ter ascendido por se dar com. Estou profundamente convicta de que, se suspeitasse que eu era operária numa fábrica de bonés ou costureira, não só me ignoraria olimpicamente, como também não me apresentaria a todas as pessoas que ali entram como se eu fosse distintíssima em alguma coisa, criando-me embaraços irrecuperáveis, ou fosse a única pessoa do mundo que tirou aquela m. daquele curso — ainda se fosse Física Quântica, ou Engenharia Aeroespacial —, que nem a mudar uma fralda me ensinou] anda muito nervosa, e, por isso, agora só toma um café por dia”. 

Não ando, mas fico.



29/09/2021

A mulher que podia ser minha mãe #4

chega, visivelmente nervosa, à entrada de um dos quatro elevadores do edifício. Na cabeça dela, vem atrasada, como o senhor coelho da Alice maravilhosa, sempre com pressa sabe-se lá para quê. Estou acompanhada por duas filhas, já somos três no elevador — cuja capacidade é de oito almas despenadas —, em não me falhando a matemática da contagem pelos olhos, adquirida ainda anteriormente à efectuada pelos dedos. Hesita se entra connosco, 

Já estão três, comigo quatro —, o miolinho a começar a fritar.

Sim, mas a capacidade é de oito, ainda que vá com metade, quatro é razoável.

Três mais um, é igual a quatro; oito a dividir por dois, é igual a quatro —, claramente que se trata de um raciocínio paralelo com uma qualquer fórmula utilizada na Física Quântica, percebo no pestanejar miudinho, nas reviravoltas dos globos oculares, no murmúrio quatro, somos quatro, que toda ela é combustão, enquanto seguro a porta, entre o incrédula e o expectante. Põe um pé dentro do elevador, Podemos ir juntas, já nos conhecemos há tantos anos, e é no momento em que liberto a célula que ela bate em retirada, Não, é melhor não, e se dirige para outro elevador.

Pareceu-me daquelas situações em que alguém vai apanhar um avião e, por alguma razão, não embarca, e depois a coisa despenha-se. Só não percebi muito bem se era suposto, para que todo aquele episódio fizesse alguma lógica, qual dos elevadores despencar-se, o nosso ou o dela. 

E depois o maluco sou eu.


06/09/2021

A mulher que podia ser minha mãe #3

quis calçar-me uns sapatinhos todos rotos e eu não deixei. Tinha acabado de chegar e vinha cheia de excesso de informação, como sempre, mas, naquele dia, eram gritos que saíam de toda ela: leggings de flores garridas, top rosa salmão e casaquinho rosa cerise em cima, brincos e óculos de sol de plástico vermelhos, e a máscara, isso é que eu não perdoo, a máscara bordeaux, cirúrgica, descartável. Expliquei que os sapatinhos, com que ela pretendia vestir as minhas sandálias para as proteger do vírus, tinham furos dos saltos dos sapatos de outra mulher, e que, por conseguinte, aquilo era uma falta de higiene. Ficou maluca, destravou a língua, argumentou que os lava com lixívia e álcool-gel, que os manda vir do estrangeiro, que, caso tivesse que dar um par a cada pessoa que ali entrasse, teria que acrescentar cinco euros à conta. Depois fiquei maluca eu, respondi-lhe que essa lavagem fica mais cara do que comprar pares novos, que se vendem no chinês de Alvalade, e que, para a próxima vez, levo um par comprado lá por mim.


04/09/2021

A mulher que podia ser minha mãe #2

pergunta-me, à chegada e à queima-roupa, se estou grávida. Fica imediatamente atarantada com a minha não sei se exagerada incredulidade, de tal forma que não respondo. Levo um vestido de corte império, que me faz napoleónica e bonapártica, mas também barriguda. Posso igualmente estar com os enchidos cheios, mas não será de ar daquele que sai intempestivamente (porque eu sou uma senhora e não faço essas coisas), ou, sendo, há-de sair integralmente por cima (discretamente, minhas mini-narinas afora, em ventinhos paralelos), se Deus quiser e o discurso de absurdas desculpas dela não continuar ao ritmo alucinante que já leva no embalo. Afirma agora  que estou mais magra, eu que a balança diz que não, e lembro-me que aquele mesmo vestido tem catorze anos e ainda cá mora. Nunca perguntes a uma gorda nem a uma multípara cujo filho mais novo tem vinte e um anos se está grávida. Efectivamente, nunca perguntes.