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04/03/2024

Errare

Ainda não sei porquê e admito que nunca vou saber, meti-me um destes dias no supermercado. Já na fila para pagar, lembrei-me do bolo do caco, que não constava do meu cesto. Ali o abandonei e saí da fila, “Falta-me o bolo do caco!”, por acaso a pensar por que diachos se chama bolo àquele pão — já para não escalpelizar a palavra “caco” (monco? Burrié?) — e depois se chama pão àquele bolo de ló (e “ló” porquê? Por que não “dó” ou “lá”?) Pronto, já sei: devia estudar a etimologia das palavras antes de me meter aqui. Depois voltei para a fila, e “Ai, onde é que estão as minhas coisas? O meu carrinho?”. Estive mesmo para fazer um espavento, “Fui assaltada!”, mas depois lembrei-me que os bagulhos só são meus a partir do momento em que os pago. Foi quando percebi que estava na bicha errada. Enfim, só não erra quem não faz. 

Saí dali direitinha à loja de lingerie, entrei e disse à funcionária: “Olá. Eu sou a dos sutiãs.”. Isto porquê? Porque já entabulara diversas conversações telefónicas acerca daquela peça em particular, cor, tamanho, encomenda, já chegou, vou buscar, eu guardo. A pessoa, extremamente maquilhada (verde na parte não móvel da pálpebra, muito anos ‘70), respondeu-me assim: “Eu não sou daqui, sou de Odivelas.”. Curioso — pensei, pondo a cabecita de lado, como fazem as galinhas quando estão baralhadas (amiúde) — já não é a primeira vez que esta retro me responde isto quando a abordo. Será que diz o mesmo a todas as freguesas? Para a próxima, entro na loja e digo: “Eu não sou de Odivelas, sou daqui.” Só para ver o que é que acontece. 

Deslindado o imbróglio, chegámos à conclusão que as negociações que eu havia entabulado não haviam sequer tido lugar com alguém daquele espaço comercial, mas sim de um outro, para lá da Estefânia. Tudo culpas do Google, que uma pessoa põe “loja de x no lugar y” e o destravado apresenta-nos o lugar z. Não importa, a verdade é que estava tão empenhada na aquisição que me despedi da de Odivelas e determinei-me a zarpar Rosinha, minha canoa, até para lá da Estefânia. Acerco-me da viatura e deparo-me com um idoso, dentro do carro estacionado ao lado, a ver no telemóvel mulheres sem sutiã. É o mal de darem smartphones àquela faixa etária, coitados. Depois enganam-se e vão parar ao inferno, ou ao céu, ou lá o que é.


20/12/2023

Ainda existem mulheres honestas

Quem nunca? Eu já. Uma vez riscara meu boi na garagem, numa primeira septingentésima sexagésima terceira vez em que fiz a manobra e até já a executaria de olhos fechados, mas parece que a p. da parede nesse dia avançou em continência e boi foi raspar-se nela. 

Desta feita, encontrava-me na subida de uma rampa e tinha à frente cerca de três automóveis, todos com intenção de seguir em frente — visto que não tinham o pisca para a esquerda (única alternativa para além da de andar adiante) —, sendo que eu queria ir para a esquerda e eles não me desempatavam o caminho. Até onde a vista alcançava (quase nada, pois a curva à esquerda me tapava a visibilidade para o que de lá vinha), não havia carro nenhum em andamento na faixa oposta, vai de arriscar (haha, muito bem aplicado) a sorte (que, como é do conhecimento mundial, é olimpicamente ínfima) e arranco para a esquerda com toda a convicção e força que o acelerador me permitia, logo assim dei por desfeito o ponto de embraiagem. De repente, senti um abanão para os lados e ouvi o inconfundível ruído. Porém, ainda tive dois décimos de segundo para equacionar se não estaria a ser protagonista de um tremor de terra. Assim que percebi que dera com as portas direitas na chapa do carro que estivera à minha frente e que as paralelas e tangentes não são o meu forte, só mesmo as secantes, avancei um nico para não estorvar nem inquietar os que estavam lá para trás, saí de Rosinha já a pensar acordo amigável - seguro - documentos do carro - meus documentos - assunção da porra da culpa (sem usar o cilício, também não devia ser caso para tanto) - vamos a isto, que não há-de doer. Da viatura acometida, sai uma senhora a rir, e eu Ai tu queres ver que me saiu uma pior que eu? Tento acalmá-la? Dou-lhe um estalo para acabar com o histerismo? Chamo o 112 com uma jaula? Peço ali aos rapazes do hospital que vão buscar um dardo cheio de sonífero? Melhor não, a sorte vira-se sempre contra mim, vai na volta e o outro saía-me uma espécie de Tell sem pontaria, vinha de lá armado com a besta e eu ainda apanhava com a seta na testa como o do anúncio do "Fica quieto", "Ups". Estava eu perdida e sozinha nestes pensamentos, quando ela optou por explicar o gargalhedo, não fosse eu colapsar: "Minha senhora, já é a segunda vez que isto me acontece hoje". Convém confessar que eram apenas 10:30 da madrugada. Respondi-lhe: "Vá para casa, por favor, e só saia de lá amanhã". 

O lado esquerdo do carro dela estava todo riscado e amassado. Deitei dramaticamente as mãos à cabeça e perguntei: "Eu fiz isto tudo?". Honesta, podia ter aproveitado, "Não, isso já é de outras". Fui verificar o meu lado direito e havia riscas, sim senhor, mas nada de chocante, até se for fazer iguais do outro lado, parece que é um modelo diferente da marca. 

Concluímos que não havia nada a declarar, quais acordo amigável, quais quê, quase demos duas beijinhas e adeus e Boas Festas. Cada uma foi à sua vida, que a mulher tem mais com que perder tempo, quanto mais quando são duas. 

Homens? Era não ter avançado do local onde havia raspado, empandeirar o trânsito local e depois da cidade toda, era o acordo, era o telemóvel, era a identificação, era o telefonema para a companhia de seguros e para o amigo mecânico, era o croquis do sinistro, tudo muito sinistro. 


20/08/2022

Travão de mão, travão de pé, travão de dedo

A frota do lar, se contabilizadas todas as viaturas de que já fomos alegres proprietários, tem variado alguma coisa em termos de tamanho, em função do número de elementos que compõem la famiglia. Quando começámos, éramos dois e um Y10, que ainda aguentou uma petiza — embora muito mal, já que a cadeirinha não cumpria o efeito de concha em caso de embate ou travagem brusca, tão curta era a distância entre os bancos da frente e os de trás (parecia um avião, sim. Ou o Coliseu dos Recreios) —, mas já não aguentou duas, e, assim, fomos indo ao mercado automóvel de cada vez que esta barriga se enchia de vida. No último, ricos em sonhos filhos e pobres em ouro, tivemos que enveredar pela via da segunda mão no volante, que é como quem diz, dos usados. E, assim, tivemos a primeira de três monovolumes de sete lugares (o sétimo era conhecido por “o lugar da sogra”, que ficava à porta e era, idealmente, para ser usado sem cinto de segurança em percursos com curvas muito apertadas. Calma, não estava destinado à minha mãe). A última que tivemos, aqui designada por “o camião”, resolveu falecer o ano passado, assim do nada, a meio do nada, ou seja, de uma autoestrada. 

Sejamos francos: já nunca andamos os seis no mesmo carro em simultâneo, pelo que o arranjo do camião — que ficava mais dispendioso do que o valor de mercado dele — era mais um capricho (bastante meu) do que uma necessidade. E, assim, entrou para o parque automóvel desta barraca o primeiro carro com travão de dedo.

Enquanto condutora do camião, não posso dizer que tenha tido grandes dificuldades em utilizar o travão de pé: o carro destravava-se com uma alavanca mais ou menos escondida, como a do combustível, e travava-se com aquele quarto pedal à esquerda, que nos exige um alongamento ao nível da correspondente perna, mas que é um stretching que só faz bem. No entanto, tal sistema não só é perigoso por ser tão fácil destravar o carro — e ele há crianças muito irrequietas e imaginativas —, como também é impossível a qualquer passageiro travar o carro no caso de o condutor (inadvertidamente…) o deixar destravado. Por acaso, nós fomos muito mais neuróticos com os filhos do que os meus pais foram connosco: iam tomar um café à Pastelaria Roma, enquanto nós ficávamos as duas a apitar até endoidecermos um quarteirão inteiro.

A mais recente aquisição automóvel tem, como já disse e nunca é demais repetir, travão de dedo: carrega-se num botão e trava, carrega-se outra vez no botão e destrava. Se a possibilidade de os passageiros poderem travar o carro está resolvida, a de as crianças o destravarem não está. Nem para elas, nem para humanas como eu. Aquilo ora acende uma luz quando trava, ora apaga a luz não sei quando. E é que nunca me lembrei de ir verificar ao painel se aquele P estava aceso. Parava o carro, carregava no botão, dava assim uns abanões para a frente e para trás e era desta forma que achava que sabia se o boi estava manso ou não. Outro dia abanei-me no banco e ele não se moveu. No entanto, deixei-o destravado. Vá que foi num plano sem inclinação. A partir desse dia, nunca mais lhe toquei, não vá ele dar uma de touro mecânico. Tenho minha Rosinha e somos muito felizes a gente as duas.

Conclusão: que prejuízo e que espaço ocupava a velha trave do travão de mão para andarem com invenções destas? Já só falta inventarem o travão de testa, se é que me faço entender. Vou fundar um movimento qualquer, #naoabrimosmaodotravaodepuxarparacimaeparabaixo.



23/04/2022

Destravada

Tínhamos como intenção, minha Rosinha e eu, estacionar num parque de estacionamento de um supermercado, lado-a-lado com o carro de outro condutor que acabara de fazer a mesmíssima manobra. E assim fizemos. O senhor saiu da viatura dele, foi ao porta-bagagens remexer não sei em quê, quando me apercebi de que o carro dele estava a andar sozinho, recuando na sua direcção. Curiosamente, o homem também deslizava para trás, numa óbvia impossibilidade de ser colhido pelo próprio automóvel, como se ambos estivessem em cima de um tapete rolante, ou a fazer moonwalk, sempre à retaguarda. Mas o que é que o neurónio louro/ ansioso/ incapaz de raciocinar algo que não seja sempre A tragédia, processou logo? “O homem vai aqui morrer esmagado pelo próprio carro à minha frente e eu não terei movido uma palha para o evitar”. Mais nada, isto logo pela manhã, quase madrugada, eram umas 10:30. Então, vai de reagir, como faço sempre nas situações de pânico (mesmo naquelas que não são, como se verá pelo exemplo desta), valha-me ao menos isso, que não sou dessas que “ai, eu paraliso”, ou seja, “mais um mono para carregar se houver um incêndio, estúpida”. Bati no meu próprio vidro, já que não conseguia abri-lo (motor desligado), tentei apitar (motor desligado), e, quando tomei a decisão que considerei certa — abrir a porta e gritar-lhe que tinha o carro destravado —, já o homenzinho podia estar falecido sob sua máquina, mas ao menos eu tentara salvá-lo e isso, parecendo que não, conta pontos não sei aonde. Mas não, ele continuava a mexer no interior do porta-bagagens, recuando à medida exacta em que o carro dele recuava. 

Percebi, nesse momento, que era eu quem tinha o travão de mão desligado e que Rosinha avançava, felizmente sem que houvesse qualquer obstáculo à nossa frente, caso contrário lá se teria ido com os porcos mais um pára-choques (que é para isso que eles servem, literalmente).

Moral da história? Acho que não há. Pus um chapéu sobre Natércia, para me disfarçar de Greta Garbo, ainda me cruzei várias vezes com o senhor nos corredores do supermercado, ponderei desculpar-me com a seguinte frase: “Afinal, a destravada era eu”, mas o ar atónito da figura de cada vez que me encarava era tal, que deixei para uma próxima.


22/09/2021

Às vezes, também eu vivo no limite

Rosinha, minha canoa, transmutou-se, por motivos não óbvios, mas vários, num carro partilhado do lar que acolhe estes ossos que agora aqui escrevem. Meu boi envelheceu drasticamente, talvez nem seja possível arranjar-lhe novo dono, encontrando-se apenas à espera que um meteorito venha dar-lhe paz, o que pode nunca vir a acontecer, pois está jazendo na garagem.

Depois, acontecem episódios destes: pessoa humana liga a ignição de Rosinha, toda lampeira que vai dar um giro, e lê o sinal de falta de combustível. Havia emprestado a viatura a uma das crianças durante a manhã, ou melhor, um dos consortes havia feito uso do bem comum. Quando aquele sinal se ilumina, costuma carregar lá no botão que avisa quantos quilómetros ainda pode percorrer sem ficar apeada de colete reflector vestido e ar compungido numa qualquer estrada da vida. Digamos que deu 0. Zero. Dava para, tipo, minha gente, zero. Zero mais zero, é igual a zero. Podia, em suma, ligar o motor e ficar dentro do carro estacionado, à espera que ele se desligasse naquilo a que os antigos chamavam o peido mestre. 

Raciocinando soluções, ir buscar um jerrican de gasóleo era qualquer coisa de impensável: as quatro bombas mais próximas, equidistantes, todas a mil e quinhentos metros: uma a direito, duas a subir, outra a descer. Três mil metros de saltos altos não me pareceu fazível, pelo que se está mesmo a ver qual das quatro escolhi: se tudo falhasse, era destravar Rosinha e weeeee, lá vai disto. Pois, porque empurrar a coisa, lá está, de saltos altos, nem falecida, quanto mais a vender saúde. 

Enfim, ar condicionado desligado, vidros abertos, um quilómetro e meio de rezas e algumas promessas — nomeadamente, “Apagas-te agora e nunca mais levas Evologic” —, transgressão muito bem efectuada com vista a atalhar caminho, lá levei Rosinha até à manjedoura com tranquilidade. Para ela, porque a pessoa condutora ia nuns nervos tais, que desconhece ainda hoje como é que não entrou em auto-combustão, agravada pela profusão, no local, de combustível, passe o pleonasmo.

Ainda não foi desta que estreei o colete (tamanho XXL, não acho normal. Terei que lhe fazer uns ajustes e personalizá-lo com um cinto, ou assim), nem tive que adoptar aquele semblante de vítima do infortúnio.


27/08/2021

United Colors

Ando a sentir-me posta à margem, de lado, ou de parte, escolhei: está agendada uma actividade muito gira, lá nas aulas de dança que frequento — cada vez com menos gás (não metano) —, à qual não comparecerei, e porquê? Porque não quero. Só que sinto esta exclusão: todas muito excitadas, a pagarem um pequeno balúrdio por uma t-shirt que nunca voltarão a usar, eu de mona à banda, só à espera que o momento publicitário acabe o mais rapidamente possível — o instrutor reza sempre a mesma missa antes, a meio — no meio do nada — e no fim de cada aula, que vai ser muito giro, que nos outros anos foi muito bom, mas

mas que vamos sair de lá muito sujas, e isso, para mim, é o turn off, é o gatilho para acabar de vez com a minha vontade de festa. A actividade envolve tintas em pó, uma espécie de Color Run, mas a dançar, I am sorry mas perdi a pica só de me imaginar toda cagada de verde e amarelo a entrar em Rosinha, minha canoa, e depois a deixar um rasto colorido até à minha porta, fora o banho com palha de aço a que teria que me sujeitar ao fim de um dia de estafadeira a chacoalhar o quadril. Já não há cu.


27/11/2020

€ 0,10

Posso ter uma incompatibilidade genética com parques de estacionamento que não possuam via verde (essa mesma que encrava na Ponte 25 de Abril, dado que o povo se enfileira por ali, na gula de ir mais depressa que os outros todos, e dela sai à última da hora para a devida cabine com portageiro que lhe pertence, deixando atrás de si uma grande série de automobilistas genuína e compreensivelmente furiosos. Para quando separadores de cimento nos acessos à Ponte, e quem se enganasse, paciência, mamassem com a multa, que era para não serem distraídos/ chicos-espertos?) (Fica a dica, oh, senhores das Finanças, que tão bem sabem criar razões para autuar.)

Isto deu-se aqui há cerca de dias. Entrei no parque do Alvaláxia, que está até hoje a decidir se vale a pena ter uma forma de cobrança do estacionamento um nico mais expedita. Enquanto não, faz-nos retirar um bilhete à entrada, a pagar à saída numa das caixas que para ali há. De notar que o acesso pela rua se faz directamente para o - 2, caso não queiramos entrar por cima e descer em caracol uma data de andares, chegando enjoadas ao nosso destino. Como eu sou dessas, que até as rotundas me nauseiam, entrei pela do - 2. Retirei o meu bilhete, fui lá à minha vida, e demorei tão pouco que a máquina de pagamento me cobrou quarenta cêntimos (mesmo assim, um furto!). Meti-lhe uma moeda de cinquenta pela goela, ela disse-me por escrito que devia sair em não sei quantos minutos e não me cuspiu o troco. 

Olhem, passei-me. Quer dizer, devo ter-me passado, a avaliar pelo que se passou a seguir. 

Primeiro, arrefinfei um murro na máquina, a ver se ela acordava, ou me saía um jackpot, qual slot machine. Mas nada. 

Segundo, carreguei no botão de pânico ajuda e o senhor que estava lá dentro falou comigo, educadamente, assim que lhe transmiti a minha agonia. Não referi que eram dez cêntimos, disse apenas que a despesa eram quarenta e tinha posto uma moeda de cinquenta. Ele é que fez a matemática, que eu já não me encontrava em condições de semelhantes raciocínios. A senhora está a falar para uma central, mas vá ali à recepção, que o meu colega lhe dá os dez cêntimos. Portanto, o homem está trancado numa lata com, basicamente, o tamanho dele, a fazer cálculos matemáticos, e diz que fala da central. Tive vontade de lhe responder que daqui falava do Pentágono, mas para formas geométricas estranhas já bastava o sítio onde me encontrava, conforme veremos a seguir. Perguntei então onde é que era a recepção, ao que ele me respondeu: O estádio é redondo [eu, por acaso, julgava que era oval, mas ele lá deve conhecer um campo de futebol redondo, tipo praça de touros, mas em maiorzinho], mas se a senhora for pela sua esquerda, chega lá mais depressa. Mas tem que ir até ao - 1. Então, porque nunca me passou pela cabeça desistir dos meus dez cêntimos, meti-me a caminho. Apanhei o elevador, pois escadas viste-las, que demorou uma eternidade a chegar e outra eternidade a subir. Alcancei o piso - 1 e toca a andar pela esquerda. Andei, andei, andei, gastei solas e energias, mas sempre com aquele mantra a girar-me na bola: Dez cêntimos são vinte mil réis, e isto não deixa de ser uma questão de princípio. Havia vislumbrado uma placa a dizer "RECEÇÃO", que foi, no fundo, o que me deu alento para continuar a minha demanda. (De salientar que levava as minhas botas mais altas.) Depois percebi que a tal placa era única, quando continuei a andar sem qualquer tipo de orientação sinalética. Ao cabo de, sei lá, talvez duzentos metros a passear no parque, avistei um barraco iluminado, com montra de vidro, acerquei-me e verifiquei que não estava nenhuma pessoa lá dentro, assim à vista. Havia uma porta ao fundo e então tive uma esperança, vinda dali. Por isso, bati no vidro, mas não apareceu ninguém. Bati segunda vez, e foi quando presumi que o senhor responsável por aquele métier devia estar a fazer cocó. Presumi também que já não devia ter muitos minutos para gastar do meu cartão de estacionamento já pago, e não teria tempo para esperar que o senhor limpasse o rabo. (Será que o homem era o mesmo da caixa de pagamento, o tal que dizia que estava a falar de uma central?) (Ou um avisou o outro, Olha, vai aí uma senhora extremamente bela maluca por causa de dez cêntimos, tu mete-te nas p.?) Coloquei o cartão numa máquina de pagamento e sobravam-me quatro minutos para sair do parque sem me multarem/ prenderem/ penhorarem o carro. Iluminei-me com o seguinte pensamento: "Que se forniquem a merda dos dez cêntimos" e dei corda à bota até Rosinha, que me esperava impávida e azul. Saímos do parque mesmo à pele de termos que pagar um rim por causa de dez cêntimos, ou de um princípio estúpido que me tinha assaltado à mão armada o neurónio sobrevivo minutos antes. 


13/11/2020

Insondáveis cá meus

Arre, égua, que não ponho aqui os sapatos de salto alto há um mês, precisa e literalmente. 

Então, outro dia fui comprar coisas e deixei Rosinha, minha canoa, num parque aberto ao exterior e às intempéries da vida, daqueles que têm uma coluna dispensadora de cartões à entrada e uma caixa de pagamento à saída, que antecede outra coluna, onde devemos esfregar o cartão num coiso óptico, para que a cancela abra e possamos sair dali para fora (e também onde se deu este bocado da minha vida, que é dos tais que porra, gostaria de pensar que nunca ocorreram, quanto mais vir para aqui registá-los para a posteriori). Isto é de uma ginástica mental que havia de ser elevada a modalidade olímpica.

Bom, paguei o valor que a caixa de pagamento me indicava (local onde há poucas semanas tivera um desaguisado com uma senhora pedinte, a propósito de estar com a máscara na boca, quase dentro dela), meti-me em Rosinha, dirigimo-nos para a cancela, abri o vidro, meti a manita de fora, fiz tudo como manda o figurino, mas não, porque as bruxas me andam no encalce, e nada pode ser assim tão linear na minha existência: deixei cair o cartão para o chão. Pronto, travão de mão, porta aberta, Rosinha a piar, pi-pi-pi, eu fora do carro, o terror: no chão, cerca de dez bilhetes, todos iguais ao que havia de ter sido meu e eu, inadvertidamente, deitara fora. Neste momento, claro que Murphy interveio e obviamente que já havia dois carros atrás da minha canoa. Fiz sinal ao de trás, que havia perdido o bilhete e não sabia qual deles era o meu - isto tudo em linguagem gestual, aquele senhor que acompanha a senhora ministra e a senhora directora-geral é um menino ao pé de mim -, mas o homem estava, sei lá eu, aflitinho para cagar, cheio de pressa, e começou logo a bufar, o que só piorou a minha situação, por me ter deixado assaz enervada. Para já, fiquei logo desgrenhada, ou a sentir-me assim. Era casaco para um lado, cabelos para o outro, a mala a tiracolo (pois que a experiência me diz que jamais volte a sair da canoa sem levar as chaves comigo), e os dez bilhetes no chão, todos iguais. Pus-me então a experimentá-los um a um, enquanto vociferava contra a minha vida. Apercebi-me que quase metade (cerca de quatro, portanto) estavam molhados e colados ao chão, derivados à chuva que caíra não sei quando. Mesmo assim, experimentei esses lá no sensor óptico, muito moles e a ameaçarem rasgar-se, uma deprimência pegada pegajosa. No entanto, não havia tentativa, reza ou força mental hercúlea que elevasse a p. da trave para eu sair dali. O de trás sugeriu-me aos berros que fizesse marcha-atrás (para os cerca de cinquenta centímetros que iria conseguir para a manobra, caso ele se esborrachasse contra o de trás dele) e fosse pedir ajuda à caixa de pagamento, e eu desesperei. Já tinha experimentado todos os bilhetes que estavam no chão, nenhum abriu lá o Sésamo, e pensei que ir falar para uma máquina, naquele momento da minha vida, seria o equivalente a pedirem-me para me lançar de para-pente sobre o mar de Dezembro. Entrei em Rosinha, dei aquele suspiro de quem já nada espera que não seja mais um montinho de merda, olhei para a minha mão esquerda e tinha lá um bilhete. Experimentei-o, só naquela, e ele abriu a cancela. 

(Não, não tive sempre aquele bilhete na mão. Foi precisamente com a esquerda que apanhei todos os bilhetes do chão e os experimentei no sensor. De duas, uma: ou aquele foi o último que apanhei e ainda não o tinha experimentado, ou - muito mais provável - quem me abriu a cancela foi o senhor que está fechado dentro da caixa de pagamento, porque o meu bilhete, simplesmente, foi engolido por Nárnia.)

27/05/2020

Até as moscas me mudaram!

Rosinha, minha canoa, foi ao senhor doutor bate-chapas, espécie de pediatra onde deposito a confiança do saber que não domino, com vista à revisão dos não sei quantos quilómetros. Ia sujo e desleixado, vítima de um quase abandono de dar dó, por conta e (sem um único) risco de uma quarentena e anteriores meses de preguiça minha. Até uma teia de aranha - cuja autora há muito que emigrou para outras paragens, onde pudesse largar mais saliva e apanhar outros insectos - entre o vidro traseiro e o aileron, a minha pobre canoa azul já tinha. Debaixo do pedal do acelerador, jazia há semanas uma folha de Outono, sei lá se do já saudoso e inocente 2019. 
Bom. Vou atalhar nesta descrição, não vão vir vozes, daquelas que têm sempre o carrinho todo estupendaço, para aqui dizer que não se admite e que eu sou é suja.
Quando fui buscar Rosinha, todo ele luzia à sombra da oficina, de banhinho tomado e cara lavada. Aspirado por dentro, um cheirinho a desodorizante de dar gosto, parecia uma menina da vida. Porém, pá, a minha vida nunca pode ser perfeita. Foi entrar no bote e aperceber-me de uma mosca. Duas moscas. Três moscas. Um enxame. Já iniciara a marcha e já me encontrava a rolar na estrada. Eu e as moscas, à boleia de Rosinha como aqueles parasitas no lombo dos hipopótamos. Abri uma janela, depois outra, e consegui expulsar, a golpes de pano do pó, algumas delas. Mas zzz, duas mais persistentes. Determinadas a viver comigo, no meu carro, qual roulote pelos litorais, surfando e rindo para a vida, segundo me pareceu. Transportei as duas até casa, e sei isto, pois mais tarde, quando voltei a sair, ainda me zumbiam aos ouvidos e me atacavam olhos, nariz e boca, à vez. Uma delas só saiu cerca de oito quilómetros depois. A outra, já só consegui expulsá-la junto ao rio. Estimo que façam amigas novas. Eu não posso tudo e já fiz a minha parte na pegada ecológica em só as ter sacudido com o meu paninho cor-de-rosa, ou seja, em tê-las apeado (ou esvoado) borda-fora sem um arranhão ou amolgadela (mesmo no ego), devolvendo-lhes a liberdade para irem pousar em paz nos milhares de cocós canídeos que por aí há à discrição em todo o lado, mas não em Rosinha. Convenhamos.


03/02/2020

Sobe, sobe, balão, sobe

Fui mandada parar Rosinha, minha canoa, em plena via. O senhor agente bateu-me (não literalmente) uma quase imperceptível continência (não urinária) e proferiu: "Boa tarde, senhora condutora". Eu lá titubiei uma resposta, creio que em devolução aos votos dele, e obedeci quando me solicitou gentilmente a documentação toda, minha e da viatura. Tinha, naturalmente, um papel/cartão em cada canto da casa/carro, parte na malinha, parte no porta-luvas, algo na bolsa lateral da porta do passageiro, ainda algo pespegado no vidro da frente, como manda a lei. Depois de ter verificado tudo com uma minúcia meio simulada, meio efectiva, perguntou-me se algum dia soprei no balão, embora eu considere que deveria ter-me antes perguntado se algum dia me submeti ao teste de alcoolemia, por uma questão de rigor técnico e terminológico. No entanto, e uma vez que compreendi o alcance da questão, respondi a verdade: que não. Vai ele e convida-me a fazê-lo, e eu, por acaso pouco dada a experiências inovadoras, saí do carro e percorri com ele os trinta metros que nos separavam da improvisada banqueta, onde se encontravam mais agentes vestidos de igual a ele e um pequeno aparato de aparelhos de medição e tubos de plástico descartáveis. Nunca tinha andado na rua lado-a-lado com um polícia, mas até nem correu mal, dado que, pelo menos, o homem não me algemou. Lá chegados, apercebi-me da presença de uma senhora, assim com idade para ser minha mãe, que acabara de ser vítima da mesma sorte, ou seja, já soprara no balão e estava a arrumar os papéis todos numa bolsinha de plástico, enquanto recebia o seguinte elogio: "É a primeira pessoa que nos aparece aqui com os documentos todos certinhos e organizados". Logo me insurgi suavemente, ripostando: "Então e eu? Não tinha os meus também...?", ao que recebi como resposta: "A senhora não tinha a bolsinha". Note to self: comprar/fazer/roubar, enfim, arranjar uma bolsinha florida, almofadada e maricas para a documentação de Rosinha. Então, foi-me explicado que deveria soprar lá para o tubinho que encaixava na máquina medidora, deveria ouvir um apito e, quando deixasse de o ouvir, deveria também parar de soprar. Eu, armada em boa, ainda argumentei estar sem fôlego, pois fora correr cinco quilómetros nessa manhã, mas tal só veio aumentar a confiança nos agentes de que eu faria uma boa prestação, pelo que me abstive e pronto, calei-me e soprei. E soprei com uma força tal, já o apito se esvaíra há que segundos, que o agente teve que me arrancar o cigarro plástico da boca, não fora, sei lá, avariar a geringonça, tudo isto ao som mental de Sobe, sobe, balão, sobe, da brava Manuela, apesar de o coiso parecer tudo menos um balão, e assemelhar-se mais a um aparelho de medição de tensão arterial, daqueles que eu ando para fazer explodir cada vez que uso. E o meu resultado, vergonhoso ou não, foi zero, ponto, zero, zero. Um autêntico zero à esquerda, bastante sóbrio, parecendo que não. Uma frustração a registar: condutores como eu, cujo resultado seja igual a zero, deveriam receber um balãozinho de hélio, pá, tipo prémio de consolação pela sobriedade. Ou então, uma coisa um nico menos infantil: uma largada de balões por cada sóbrio que se descortine no trânsito. Ainda vou chagar o ministro da Administração Interna com esta ideia. 



26/12/2018

Ano Novo: uns batem tachos, outros batem pratos

Literalmente.
Andava exausta dos meus pratos da loja do sueco, AKA IKEA**, todos lascados, a porcelana a estalar e a aparecerem-lhes filamentos negros, qual mapa dos rios do nosso bom Portugal, todo um desassossego de cada vez que iam ao microondas, iam assim e voltavam assado, para além do que superaquecia a loiça e a comida mantinha-se fria. 
Pus-me, então, nas tamanquinhas, e dirigi-me à Vista Alegre*, VA para os amigos. Cheia da PDM, quis do phyno, mas, não alcançando o spéxique, optei pelo bom e velho Sagres. Portanto, doze de cada: rasos, sopa e sobremesa, só para as primeiras necessidades. Ali chegada, apercebo-me de que são três sacos grandes, cada um com três caixas, uma vez que os pratos são embalados aos quatro e quatro. (Isto parece um problema de matemática do primeiro ciclo.) Também considerei que, tendo em conta que havia deixado Rosinha a cinquenta metros dali, era capaz de ter que fazer um esforço para o qual talvez não fosse preparada, pois que nem aquecimento fizera. Ainda assim, avaliei o peso aos sacos, e afirmei, peremptória, que sim, que era capaz de os carregar até à viatura. Um jovem franzino que ali havia chegado há menos de nada perguntou-me se queria ajuda, ao que lhe respondi que não senhor, "Muito obrigada, eu vou tentar, e, se aos vinte e cinco metros verificar que não sou capaz de chegar ao carro, volto para trás com os sacos e aceito então a sua ajuda", hahaha, muita gargalhada, e eu ala que se faz tarde com os trinta e seis pratos pendurados dos braços, para aí vinte e quatro num e doze no outro, se não me falha a matemática. 
Teria talvez percorrido uns quinze ou dezasseis metros e um dos sacos começou a rasgar-se ao nível da alça. (Note to self: ir à VA reclamar da qualidade dos sacos deles **.) Aproveitei para pousar os três no chão e descansar três segundos, passe o pleonasmo. Não sei se pelo cansaço ou se sou mesmo assim, devo ter achado que, se pusesse o saco que se estava a rasgar num só braço e os outros dois no outro, o esforço era menor para o que se estava a rasgar, e então não se rasgava tanto. Eu também tenho os meus momentinhos louros. Claro que rapidamente percebi que o raio do saco se ia soltar da alça até ao carro e eu ia partir a loiça toda no meio da avenida. Outra vez no chão os três sacos, resolvi meter o rasgado debaixo do braço e os outros dois na mão do outro braço, mas tal também não se revelou possível, pois num deles estavam os pratos rasos, que são os maiores, que são os mais pesados, e eu não ando no ginásio há décadas para ganhar músculos desses. Pronto, resumindo: o rasgado ficou na sovaca, um dos outros na mão desse braço e o outro na outra mão. 
Conduzi com o máximo cuidado até casa, evitei colisões e curvas acentuadas, e chegaram os trinta e seis lindinhos inteiros e perfeitos.
Estava a pô-los na máquina, que isto dos pratos é como comprar cuecas, dei uma traulitada com um deles e lasquei-o. Copo meio cheio? Ao menos não foi um raso. Copo meio vazio? Podia ter sido um de sobremesa. 
Anyway, enchi-me de nervos e de cola, porque achei que a Supercola 3**, aquela cola que é cuspo nos materiais e sutura cirúrgica na nossa pele, me resolveria o assunto. Não resolveu, tenho os dedos cheios de cola e Ai-fostes não me reconhece a impressão digital. (Criminosos, escutai-me, que eu não duro sempre: quereis criminar sem deixar impressões digitais no local? Supercola 3 nas pontas dos dedos e nunca mais ninguém vos agarra.)

* NMPPI
** Ninguém me paga para me calar


21/12/2018

A pessoa humana a fazer um esforço homérico para preservar o espírito

e vai dar com um farolim traseiro de seu boi partido, mais risco na chapa, mais amolgadela, sem que conste papel algum de assunção de culpas, com o contacto do respectivo. Sim, apesar de ter Rosinha, minha canoa, vai para dois anos, ainda mantenho meu boi, que perfez a linda idade de dezoito anos, mas que vai servindo às minhas crianças condutoras. 
Isto já foi ontem, mas ainda se me preserva o espanto, a revolta, o desalento, que eu sou um nico rancorosa nestas cenas da filha da putice, e levo algum tempo a digeri-las. 
Estimo que quem fez tamanha maldade a meu boi vá despender na farmácia tanto quanto eu no arranjo (ainda por cima, é proibido circular com um carro naquelas condições, só nos falta sermos multados pela m. que outros fizeram), mas que não seja em preservativos, cremes para a cútis ou chuchas: que seja mesmo em pomadas para a micose, a candidíase, a clamídia, a gonorreia, enfim e etecetera. 
(Eu não pensei isto, eu não disse isto, sequer o escrevi.)
Estimo que se fornique. Mas que não seja um momento prazeroso.
(É Natal, é Natal, tudo bate o pé...)
Fónix.

13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


28/08/2018

As voltinhas do Marão

Se nunca fizesteis a estrada entre Gestaçô e Mafômedes [sim, temos nomenclatura que nem Mr. Google, essa fera da estratosfera do pináculo do conhecimento conhece], não sabeis o que é A adrenalina. Quais Space Mountain Mission 2, quais bungee jumping, quais comboio fantasma da Feira Popular de mil novecentos e poucos. 
São só vinte e dois quilómetros. É só contornar a serra. 
É só penhasco de um lado e abismo do outro.
(Hipótese A: riscas o carro; Hipótese B: cais do barranco, tu e a viatura.)
Parece a ilha da Madeira, naquele belo e sinuoso percurso entre o Funchal e Câmara de Lobos, só que o dobro da extensão. 

Tipo isto. 
Diz que a imagem pode estar sujeita a direitos de autor
(Eu digo que o autor se despencou)

Mas de noite. Cerrada. E com subidas, sei lá, também não fui buscar o transferidor, mas para aí de uns 35 graus. Se passamos de uma altura de 443 metros para uma de 817, fazei vós as contas, que eu ainda estou muito nervosa.
E às curvas e contracurvas, algumas de 360º, a subir (uuhuuh, tão bom para quem enjoa), mesmo a dar a ideia de que estamos a voltar para trás, o que tomara, a partir de certa altura do percurso. Não há iguaria que justifique correr semelhante risco de vida. [Pronto, enfim, se a Mealhada fosse ali, fechava os olhos ao perigo — desde que não fosse ao volante — e lá ia na mesma.]
E depois, zero iluminação. O bote em primeira velocidade e ligados os máximos, o máximo!
O ser humano ia de passageiro. À ida, tinha o precipício à direita e a parede de rocha à esquerda. Morri de pânico, é certo. Não me lembro do que jantei lá na tasca. Acho que nem comi, diante da perspectiva do regresso. Sei que bebi um tinto do Douro, e isso pode ter contribuído para que, à vinda, tenha basicamente pensado "que se lixe o carro" perante o rochedo, e "heh, isto voa", considerada a possibilidade da queda na ravina.
Não caí, mas também não me apanham lá outra vez. [A menos, obviamente, que Pedro vá ali montar mais um Leitões.] Sequer gozei da vista que dizem maravilhosa sobre o Marão, derivados ao breu, mas, agora que penso nisso, ainda bem, pelo que me é dado observar nas imagens de Mr.: depois daquilo, e ver-me toda rodeada por rocha, não, muito obrigadinha, que para Heidi já basta a outra.


11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


04/05/2018

Murphy, deves-me mais uma!

Saio de Cascais e verifico que o conta do gasóleo de Rosinha me dá para 46 quilómetros. Sei que estou a 30 do meu destino, que é a distância entre uma boa parte do meu coração e a minha vida. Faço aquela viagem uma vez por semana — e não mais por impossibilidade absoluta —, assumo que 46 me dá para estacionar nas calmas e ainda ir à bomba mais próxima, assim haja vagar e tempo. É essa corrida contra ele, ou a minha inultrapassável preguiça que me levam a meter-me a caminho, matemática certa, imprevistos não ponderados. 
O conta vai baixando e ainda não cheguei à A 5, mas está tudo controlado, penso eu, logo insisto. Tomo a autoestrada feita de prata pelo sol do meio-dia, que me aquece Rosinha, e a mim por inteiro. Tenho o ar condicionado desligado e começo a sentir que não vai ser possível chegar a Lisboa com a temperatura a subir àquele ritmo. Penso,
Mais vale ficar sem gasóleo à chegada do que morrer de calor,
ligo o ar, que me bafeja um hálito quente demoníaco para a cara, mas não ponho a hipótese de parar em Oeiras, porque 
o gasóleo vai dar
E também,
Quanto mais depressa chegar, mais cedo acaba esta agonia,
e toca de acelerar Rosinha. Faixa da esquerda, pisca-pisca-pisca, numa ultrapassagem infindável. Mas o conta baixa a níveis que me fazem suspeitar da possibilidade de o combustível não esticar até à minha porta. Passo para a faixa do meio, para poupar nas rotações. O conta estabiliza, já passei Oeiras, tenho para 14 quilómetros e o optimismo regressa. Mantenho-me atrás de uma fileira de carros que persistem nos 80 km/h, e penso,
Mais vale ficar sem gasóleo do que morrer de tédio,
e sigo, de novo pela esquerda.
Estou a passar a última bomba, a mil e duzentos metros de casa, quando recebo um telefonema de trabalho. Isso distrai-me do conta, que já tinha baixado dos 10, largos metros antes. Quando acaba o telefonema, estou a quatrocentos metros de casa e tenho gasóleo para 3 quilómetros. Chego à minha rua com 2. Não encontro lugar para estacionar, dou uma volta ao quarteirão e, quando paro, tenho gasóleo para 1 quilómetro.
É o momento em que se me acabam as forças e entro em desespero, pois sei que não chego a bomba nenhuma com três gotas de combustível. Concluo que não sei viver no limite.
[Felizmente, tive filhos. E uma delas, valente, pegou em Rosinha e levou-a à bomba. Contou-me depois que nem teve que desligar o carro: assim que parou para abastecer, ele simplesmente "morreu".]

08/03/2018

Ser mulher

também é isto: a pessoa é fiel detentora de uma viatura automóvel, que responde pelo nome de Rosinha, minha canoa, que, por sua vez, possui uma coisa debaixo do banco do passageiro da frente, à qual não consegue atribuir um nome. Trata-se de uma espécie de caixa de metal, não sendo, no entanto, uma caixa, uma vez que não tem tampa. Porém, tem uma abertura, numa das faces, por onde tudo entra e fica. E, quando digo, tudo, quero significar, exactamente, tudo. Qualquer miudeza que caia da mão direita do condutor, ou de qualquer mão do passageiro-pendura, enfia-se pela lateral dos bancos, e eclipsa-se para lá. A dita abertura da dita coisa é bastante pequena, pelo que não permite a entrada de uma mão, e, quanto a dedos, estamos conversados, pois só entram ali dois ou três, impossibilitando-os de alcançarem o fundilho, transformando qualquer busca numa sessão de contorcionismo inútil. Já para lá refundi acessórios do cabelo, a chave de abertura do telemóvel, as costas do telemóvel — que recuperei com um palito de sushi, um torcicolo, três cãibras e um esgotamento nervoso —, dinheiro (sim, comprovei-o hoje, mas não sei afiançar a quantia certa), e só o Criador saberá o que mais. 
Então, aqui há dias, enfarpelada com um sobretudo alapado ao torso e todo abotoado à frente, e, num largo gesto, não de abnegação, como é meu apanágio, mas sim de impaciência — porque outra das características peculiares de Rosinha é a de que o cinto do passageiro fica a bater tac-tac-tac quando ele sai de Rosinha —, na tentativa, em pleno andamento, de esticar o referido cinto, hei-de tê-lo feito com tal convicção que, assim me estiquei para a direita em diagonal, assim me saiu a jacto um dos botões do casaco, mas isto com uma violência tal, que dei graças ao cosmos de não me ter acertado numa das vistas. Ao invés, disparou lá para o canto, entre a porta e o banco, e nunca mais o vi. 
Estou, aliás, convicta de que, debaixo daquele banco, está Nárnia. É toda uma outra dimensão, um verdadeiro universo paralelo. As coisas, simplesmente, incorporam de alguma forma alternativa, saem do radar, desintegram-se. 
Mayday.
Estou farta de procurar a m. do botão, e ele não aparece. Já fiz pesquisas dentro e fora do carro, já usei a lanterna, já tirei fotografias ao interior (tenebrosas, irreais e indecifráveis), já subornei o rapaz para que tentasse por sua conta, já só me faltou enfiar-me, eu própria, lá dentro e transformar-me numa ameba proteus. Ainda agora, fiz a enésima tentativa e, após um momento Carochinha, em que encontrei vinte cêntimos (será o botão, transmutado?) e mais três arranhões nos dedos, o coiso não apareceu. Deve estar, feito parvo, a rir-se de mim, lá com o mundo de cenas, de entre objectos e, quem sabe, animais, que já foram ali parar antes dele. 
E não, não adianta equacionar a solução do botão sobresselente, que esse deve existir, mas eu também o extraviei algures, para uma qualquer caixa lá do lar, onde repousam todos os botões extra que a roupa nos fornece, e deve estar cheia deles, pertencentes a peças que eu já nem sei quando e por que é que comprei. Ou então, juntou-se ao outro, e vivem agora, felizes para sempre, em Nárnia, metamorfoseados em unicórnios. 
Chiça.

19/02/2018

Se o meu carro falasse

A mim calhou-me na rifa — ou veio acoplada, mas que é intrínseca, disso não hajam dúvidas —, aquando da adopção plena de Rosinha, minha canoa, uma senhora que vinha dentro da caixinha do GPS, com a qual tenho uma relação de (podemos afirmá-lo) amor-ódio. Se, por um lado, fico nervosa quando ela abre o bico para chamar "Á-quinta" à A5, "Dois circular" à Segunda Circular, se conjuga o verbo percorrer desta forma: "percórra quinhentos metros" [vá lá que não tem que dizer a mesma frase em gramas], se me manda virar em sítios onde está alegremente plantado um sinal de proibido [deve ser parente de algum examinador da condução, ela], e se me ralha quando eu não obedeço, "recalcular a rota" [um miminho, não usar o gerúndio "recalculando", ou o presente do indicativo, mas na primeira pessoa, "recalculo"], por outro, estou a gostar muito dela, a usá-la sempre que preciso (que é quase sempre, dado conhecido que é, por empirismo, o meu inexistente sentido de orientação, mesmo até dentro do meu próprio bairro, e não vão sem resposta se achais que é exagero, pois só ao cabo de mais de uma década de viver na minha rua, que não terá mais de cinquenta metros de lonjura, achava eu dantes, é que descobri que há por ali mais um bocado, com outros cem metros, que também é da minha rua, muito me admira é que nunca me tenha perdido nela, em sentido estrito e não figurado). 
Em suma, gostava muito que a senhora do GPS, para além de se calar quando eu estou parada num semáforo vermelho (às vezes, tem mesmo que ser), também tivesse uma função, que era dizer-me "já está verde", naquele cagagésimo de segundo que dista entre abrir o semáforo e o fdp que está atrás apitar o cláxon lá dele. Isso é que era. 

02/02/2018

A meta dos 20.000

Rosinha fez ontem um ano de matriculado, embora só tenha chegado às minhas (delicadíssimas!) mãos no dia 8. Ao contrário do que era previsto e seria expectável (diz a ciência automobilística que uma viatura a diesel — adoro esta expressão. A diesel, cá beijinho — só é rentável desde que faça vinte mil quilómetros por ano), não atingiu a meta dos 20.000. Se os primeiros 10.000 foi fácil atingir (em menos de cinco meses), estes outros estão à distância de 1700, que, se quiser ver minha canoa a render, terei que fazer no espaço de seis dias. 
Já dei muitas voltas a um quarteirão hoje, em busca de um lugar para o estacionar. Passo-me. E passo fases:
1. A crédula: Vou procurar ali mesmo à porta, às vezes tenho uma sortezinha. É que não. Caso contrário, em vez de estar aqui a teclar tristemente, estaria a meter os paios no Pacífico, ou noutro charco qualquer;
2. A incrédula: Olha, aqui à porta não há. Nem na rua toda, até onde as vistas alcançam. Pois. E estão todos com ar de abandonados, irão criar daninhas junto aos pneus, pó de terra que tornará os vidros opacos e, nos pára-brisas já sem borrachas, vários anúncios deslavados de 'Compro o seu carro';
3. A destemida: Vou procurar ali na paralela;
4. A temida: Olha, também não há. Vou, talvez, para todas as perpendiculares, apesar de já estar a duzentos metros do meu destino e a desvairada do GPS não se calar que vai recalcular a p. da rota;
5. A zangada: Fo**-se, que nem um para amostra
6. A delirante: Olha ali! Ah, uma garagem... | Ali! Um lugar para deficientes... | Espera, ali está um! Oh, mas não consigo encolher o carro (chamo o mecânico, e peço-lhe que traga a motosserra?) | Calma. Isto vai. Está ali um... oh, não, é só meio lugar, o outro meio é passadeira. | Porra para estes gajos que não sabem estacionar com o pensamento posto no próximo!;
7. A desesperada: Vou atirar com isto para cima de um passeio e que se fornique. A multa é quanto, mesmo? Um par de botas? Dois biquínis? Isso em tofu e seitan equivale a quantas refeições? E em bagas de goji? [Eu sou uma genuína blogger, cá agora assumir que me pelo por um leitãozinho da Mealhada.]
8. A racional: Vou-me botar prantada ali à esquina, e espero que saia um carro do lugar que me pertence já por direito
9. A descarada: Espera aí... se aquele carro, cujo condutor até se encontra lá dentro, avançar dez centímetros, talvez o meu caiba atrás, junto àquele bocado de passeio sobrelotado de prevaricadores. Senhor! Ó senhor! Importa-se de chegar um niquinho à frente? Arre égua, que o meu fica com a rabeta toda de fora, mesmo com os, vá, oito centímetros que o indisposto avançou. Muito obrigada, afinal não dá, o carro é muito grande ou o lugar é muito pequeno, passe bem [PQP];
10. A sobredotada: Já não saio da esquina, mazé. Nunca fujas ao teu destino. Fico no cruzamento de duas, e espero que apareça alguém de chave na mão. Foram o quê? Dois minutos. 
Isto tudo para dizer que, apesar de todos estes pesares, ainda não atingi os 20.000. Tenho seis dias para lá chegar, já disse? Estou capaz de ir à Mealhada. Precisam de alguma boleia?


02/12/2017

- Olá, Cesário Azul!

- Olá, troca-tintas!

Fui ao ginásio, e depois à bomba, e consegui demorar por lá quase tanto tempo como aquele que durou uma aula flash, que uma pessoa entra, sofre duramente durante minutos e, quando acha que já não aguenta mais, aquilo acaba. 
- Bomba 6, x de gasóleo evologic. 
- Gasolina?
- Não, gasóleo.
Paguei e apostei comigo mesma que a mangueira do gasóleo não ia dar pinga.
Ganhei a aposta e voltei atrás. Não devo ter demorado um minuto entre ter saído do posto de abastecimento e ter ali regressado. 
- Eu disse-lhe gasóleo.
- Gasolina?
Mau. Rosinha tem aquele ar chique, é alimentado a filet mignon, mas parece que não pode ser a gasóleo. 
- Gasóleo.
Felizmente, esta pessoa não é gasolineira. Ter-me-ia enchido o depósito de gasolina. Iria igualmente passar um bocado de seu sábado laboral a aspirá-lo logo de seguida, ou quando Rosinha tivesse um stroke, metros adiante. 
Suponho que é a mesma que escreve os avisos daquele posto.