22/06/2017

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É por absoluta incapacidade minha — exclusivamente minha — que hoje — dia 22 de Junho —, sou incapaz de chorar os mortos de alguém, e é por isso que tenho passado o dia a rir, e é por isso que vou acabá-lo não sei como.
Amanhã já posso voltar a chorar os mortos de toda a gente.


Eu tenho problemas com médicos # 26

Fui ao dentista. Vergonhosa mas orgulhosamente, só vou uma vez por ano. Mentira, nem isso. Não preciso, nasci com dentes saudáveis, não há nada a fazer contra esta cruz, nem mastigando pedras, nem mastigando vidro (por acaso, nunca tentei). Desta vez, tinha uma prata — que eu ainda sou do tempo das amálgamas de prata (essas, sim, cheias de mercúrio, poluentes e sabe-se lá que mais outros perigos para a saúde pública em geral e para a do ser humano em particular) — rachada, que o dentista dos olhos bonitos achou por bem consertar, qual escultor, qual pedreiro. Para tanto, teve que me anestesiar a boca do lado esquerdo. O processo não foi minimamente doloroso, não fora o facto de me ter obrigado a ficar de boca aberta durante uma hora, o que me desmoeu o maxilar e por um nico não saí para a rua a parecer uma daquelas bonecas, só me faltavam mesmo os bracinhos no ar. No entanto, tanto o meu lábio superior, como o inferior, ao nível daquele lado, paralisaram a ponto de ter deixado de saber onde andavam, sequer se os tinha, ou se os deixara ir agarrados ao drone. Porque eu sei que foi um drone que ele me meteu boca adentro, e se andou a passear na minha cabeça, brrr-drrr-zrrr-prrr. No final da viagem, sentei-me, valentíssima e anestesiada até ao cerebelo, e desabafei: "Ufffa, ffftô fafffta de fftar calada". Depois levantei-me dali, lamentei não poder sorrir como deve ser (tipo de taxa arreganhada até aos molares — e já não até aos sisos porque já não os possuo), ele disse que não se notava nada (haha, boa piada, deve estar habituado ao povo que sai dali a sorrir só com metade da cara), e vim para a rua fazer figuras tristes (finalmente), porque quis beber água pela minha garrafinha, e, de facto, com meia boca, tal só é possível se também quisermos refrescar o colinho. 

(Por acaso, hoje não me apetecia esta coisa de me rir de mim, mas saiu isto, desculpem lá.)


20/06/2017

Estivemos todos tão perto

Nunca a expressão "calor assassino" me fez tanto sentido. 
A sala, arejada como possível, é o espelho de que algures, não muito longe, as brasas ainda encandescem, as chamas ainda lambem árvores, estradas, casas e, agora, gentes iguais a nós. Perdeu-se, sem deixar rasto, a noção de corrente de ar: não há como fazê-la, o que entra pelas frinchas é um bafo quente e impiedoso, um hálito demoníaco.
Estava aquela senhora velhinha, os olhos azuis numa aflição negra, pregados a pregos nas imagens, a atenção toda presa com ferros, suspensa por cinzas no cinzento do desconhecido, quando a enfermeira lhe chegou ao lado e lhe disse que não podia afligir-se assim. Foi num murmúrio daqueles que saem da alma das mães, que tanto e demasiadas vezes saiu da minha, que a ouvi responder, "Mas ele está lá metido naquele inferno".
Quando saí, debaixo de um céu azul que se fez cinzento como cinzas, olhei-o de olhos baixos e perguntei-Lhe outra vez: "Onde é que estás?".
Duas horas mais tarde, soube da morte do bombeiro e, se soubesse rezar, ter-Lhe-ia pedido que não fosse aquele. Como se aqueloutro não fosse, também ele, o filho muito amado de alguém.

19/06/2017

Remember my name


Recebi um presente bonito da Gina, do Dias duma Grafómana. Não fui a única, segundo aviso da própria, mas fui única no momento do flash, pois foi de mim, enquanto Blue, que ela se lembrou, ao disparar [verbo agressivo, que se aplica no contexto fotográfico, mas que se desenquadra nestas circunstâncias]. 
Blue está um pouco por todo o lado, não sei que moda se fez ou se sou eu que reparo mais, desde que adoptei este nick. 
Blue deveria estar muito por todo o lado. Muito mais do que está.
Hoje é o segundo dia de luto nacional, e faz falta muito mais azul. 

18/06/2017

"as mãos no fogo"

ou de como o alinhamento das notícias no cm continua a ser, ele próprio, uma tragédia

17/06/2017

sobrevivência

Ainda não são 10 da manhã e o termómetro já passou dos trinta há muito. A grande gaiola, contendo talvez duas dezenas de pássaros, está colocada junto à parede de um café, debaixo de um telheiro, mas o sol jorra-lhe adentro por toda a zona frontal. Apesar de tudo, parecem-me felizes. Há periquitos, bicos-de-lacre, canários e uma ave pequena, semelhante à rola (codorniz?), convivendo numa relativa e pacífica harmonia. Há muitos ninhos, muitas fêmeas a chocar, um periquito macho a alimentar duas crias que já estão enormes e têm bem idade para ter juízo. (Há pais que não vêem os filhos crescer.) Num poleiro, dois periquitos macho, ambos azuis, namoram, bonitos.
Reparo que não têm água para beber. O bebedouro está seco e existe uma taça de metal, igualmente vazia, no meio do chão da gaiola. O café abre dentro de minutos, mas, se ninguém se lembrar de ir imediatamente dar água aos animais, certamente morrerão todos, até porque nada me diz há quanto tempo estão sem beber. Tenho comigo uma garrafa de água de um litro e meio, que pode não chegar para um dia de praia de duas pessoas. Então, lembro-me que carrego também a minha inseparável garrafinha de meio litro. Abro uma portinhola e nenhum pássaro tenta a fuga. A minha mão entra na gaiola, puxa a taça, e encho-a de água até acima, ficando com menos de metade da garrafa pequena. Volto a colocar a taça e fico a assistir à alegria da sobrevivência, que também toma conta de mim.

xenoamor

O pai é japonês, a mãe é loira. Falam inglês entre si, língua que, provavelmente, descobriram como veículo de entendimento no topo da Torre de Babel. Ela é a japonesinha mais loira e mais linda que algum dia vi na vida. Calculo-lhe uns seis meses de idade e sei que não costumo errar por muito: já se senta muito bem e vocaliza monossílabos. No entanto, ainda está longe do tamanho e robustez dos oito meses, idade da pré-marcha. Acordo de manhã ao som dos sons dela e isso transporta-me para um tempo de saudades que não mais verei. É madrugada, mas era também de madrugada que os meus seis meses todos chamavam ma-ma. Nunca pesquisei sobre o assunto, pois sempre assumi como verdadeiro que a origem de mamã é mama, assim como de papá é papa. No entanto, para a minha japonesinha loira (que só não roubo porque nunca passaria por minha filha, que fique já aqui claro), cuja língua materna é aquela que os pais encontraram no topo da Torre, o que será ma-ma, que não seja mamma, entendível universalmente como mamã? Os bebés, eles sim, inventaram uma linguagem comum, espécie de esperanto, sem barreiras nem desentendimentos. E isto, com meia dúzia de palavras, mono e bissilábicas.

14/06/2017

É verdade que já não foi a minha primeira vez, mas caramba

Fui à praia. Já tinha ido este ano, mas não conta.
Até ia contente, a estrear um bik — embora, má ideia, branco sobre uma pele que ainda não é bege decente —, o percurso foi na paz, apesar de o estacionamento já ter envolvido algumas batalhas, porque eu acho sempre que o meu carro, assim como eu, não cabe em lado nenhum. Mas isso é problema meu. 
Bandeira amarela, mar de gentes a perder de vista, mas eu, ao contrário do carro — que tem a mania que não cabe em lado nenhum —, arranjo sempre lugar num cantinho qualquer invisível a olho nu, mas que, e talvez por isso, até oferece alguma invisibilidade à (quase) nudez em que me encontro. 
No caminho para o mar, meti o pé numa argola qualquer em forma de buraco, caí de gatas e doeu-me logo o orgulho, que ficou feridíssimo. Um joelho esfolado, sem dor, mas com ardor do mar salgado. (Se fosse o Cristiano Ronaldo, esse mesmo que agora parece querer povoar o Mundo mais do que eu, já estavam a accionar o seguro e a bombar na fisio, e cenas.) O pior foi a posição de rabo para o ar, ou melhor, para o povo. Então não podia ter caído no regresso, virada de frente para a plateia? Não, não podia. Isso era se fosse outra pessoa. 
Água gélida, mas o calor da vergonha ajuda à coragem, e vai de mergulhar. Tinha menos um brinco, quando emergi. Comprei-o em Olhos d'Água, uma localidade que o mais belo que tem é o nome. E também tem mar.
Crianças impacientes, pais desesperados. Uma miúda que quis porque sim jogar à bola nos escassos trinta centímetros que separavam a minha toalha da dos adultos que a acompanhavam. (Nunca percebo muito bem os parentescos de alguns grupos.) Uma outra que levou os pais ao limite, incapaz de lidar com os irmãos, e ainda se pôs aos berros, a chorar (?), porque, imagine-se, o pai a pôs de castigo. (Quieta e calada, deitada na toalha, olha a ofensa, olha a violência sobre a selvagenzinha.) Pus-me a pensar que "eles" dão muito trabalho quando são pequenos, mas nada se compara às guerras de nervos do final da infância e da pré-adolescência, que consegue ser mais requintada do que a própria adolescência. 

Em resumo: estacionamento difícil, bandeira amarela, mar de gente, queda, brinco perdido, ambiente incomodativo.
Cômputo geral: valeu tanto a pena. 


13/06/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 50

Ponham-se no meu lugar.
Faz de conta que foram ao supermercado e compraram um queijo manchego. Chegaram a casa e o queijo não estava no saco das compras. Assumiram imediatamente que: 
1. O queijo caiu ao chão, ainda no supermercado, uma vez que vós não usastes carrinho nem cesto, e levastes as compras nas mãos, qual polvo;
2. O queijo ficou esquecido na plataforma, depois de pago.
Sabeis que não vos apetece voltar lá só por causa de um bocado de queijo.
(Tenho a protestar junto da administração do LIDL, aquela coisa de ter que se pagar parque para compras de valor inferior a vinte euros. Já uma vez tive que comprar uma saca plástica porque a minha conta era uma piada de € 19,94, e vá que os dez cêntimos da saca me pagavam largamente o parqueamento.)  
A cena do parque de estacionamento, do elevador, das filas intermináveis no LIDL, etecetera, é o bastante, assim a priori, para vos demover de lá ir reclamar um queijo esquecido, e, ainda assim, com uma alta probabilidade de ninguém se lembrar e vos mandarem chatear o Camões, ao invés de estarem ali a empatar quem trabalha. 
Olhem, não fui. 
Passou-se um dia. Cheios de coragem, fostes verificar a conta e, realmente, havíeis pago a coisa.
Passaram-se dois dias. Foram dois dias de calor, em que o interior do carro atingiu temperaturas de, vá, quarenta e alguns Celcius. (Então em Fahrenheit, upa, upa.)
O queijo apareceu no chão do carro, quarenta e oito horas volvidas sobre o seu desaparecimento. Um pouco derretido, molinho, mas impecável dentro da embalagem. 
Diz na etiqueta que é curado. E velho. 


Assumindo que está ainda mais curado e obviamente mais velho, a grande questão que se agiganta de per si no momento, é: se fossem vocês, comiam o queijo? E se não fossem?

12/06/2017

Ambrósio, [hoje] apetece-me algo [diferente] # 2

Encontrei-a um dia, quando andava perdida. Trazia com ela todos os cabelos desfiados, o olhar pregado a pregos, carregado de tinta negra, ensopada de desgosto, e dizia por todos os gestos que tinha muita vontade de morrer. Só parecia ainda não ter decidido de quê — se de frio, de fome, de calor, ou de sede. Talvez tivesse que ser de uma necessidade básica, que lhe sumiam as forças para que fosse de algum modo épico ou trágico, e não havia uma causa natural que lhe pudesse valer naquela aflição. No peito alojara-se um amor maior, que a consumia da carne ao osso, dos olhos ao coração, do andar à respiração. Nesse dia eu estava médica, e não lhe disse, para que não tivesse esperanças infundadas. Mas percebi que ela estava a morrer-se de coisas muito incorpóreas e incuráveis, uma espécie de desalma — de saudades, de tristeza, de amor desamado. 

A minha pegada ecológica de hoje

Abri a porta de Rosinha, minha canoa, e entrou comigo lá dentro uma mosca. Conduzi-nos às três até Cascais, com o ar condicionado no máximo, drivados da canícula. Deixei Rosinha ao sol durante uma hora e meia e depois voltei, um pouco temerária daqueles estofos de poli-pele (ou peli-pole, ou poli-poli, ou peli-pele, já não me lembro bem dos termos utilizados no stander aquando da aquisição, mas lembro-me que me soou extremamente bem em Fevereiro). Aquilo é coisa para fritar numa polme as pernas quando nos sentamos nos assentos, caso não estejamos a usar calças. Lá dentro haviam de estar uns quarenta e cinco graus à sombra e a mosca saiu a jacto. Nem tive tempo de me despedir da minha companheira de viagem (Zica). Espero que se dê bem com as moscas de Cascais. Teria sido pior se tivesse entrado num avião e fosse parar a um país estrangeiro. Conformei-me com a ideia de que quem não quis regressar a Lisboa foi ela. 

(Por aqui se afere como vai a minha vida, cheia de interesse blogosférico.)
(Por aqui se afere como vai a minha vida blogosférica, cheia de interesse.)
(No entanto, consegui dizer que minha Rosinha tem ar condicionado, estofos naquilo da poli e até faz viagens na A5.)


Adenda ao post anterior

Esqueci-me destes dois personagens:

Por que é que aquele deita a língua de fora cada vez que levanta os alteres? Já não lhe basta ter uma barba gigantesca para que pareça que a vai lamber, cada vez que faz o esforço. Parece um boneco de molas, tipo aqueles frades. 
[Por acaso, foi bonito: levantava os alteres, deitava a língua de fora; baixava os alteres, metia a língua para dentro.]
Coitada daquela miúda, tem o braço cheio de varizes grossas. Ou está sujo de tinta azul? Ai, espera, é uma tatuagem. A Vénus de Botticelli. (Tudo a ver com o cabelo preto e liso dela.) Podia tatuar a de Milo no outro braço. Haha, boa piada, a Vénus de Milo num braço.
[Este ser humano que ora digita merece o Hades. Não, que não há-des.]

11/06/2017

Esforço mental

Naquela passadeira está uma grávida, a caminhar. Vai ter uma menina. 
[Tenho sempre a mania que é uma menina que está dentro das barrigas. No meu caso, só falhei uma vez em quatro.]
Como é que ela aguenta a peruca no ginásio? Aquilo quase nem dá para fazer rabo-de-cavalo...
[É um fenómeno no qual tenho vindo a reparar: as mulheres negras usam perucas de cabelo liso — geralmente, preto —, que hão-de ser suportáveis em muitas ocasiões, mas, no ginásio, a fazer esforços, e com o calor que tem estado...?]
O médico mandou estas duas exercitarem-se, e elas vêm juntas, já exaustas antes de começarem, para não desistirem antes da primeira vez. 
[O "mal" nem está tanto na postura com que chegam. O semblante de quem já atravessou o corredor da morte é assim qualquer coisa de tirar o fôlego a quem já o está a perder de cansaço.]
Socorro, vai rebentar a variz àquele senhor!
[Se já me custa perceber que as mulheres aguentem as pernas com varizes — mas o espírito de sacrifício, próprio do género, pode explicar alguma coisa —, num homem não entendo de todo. Pois, se eles gemem à mínima dor, que se torna insuportável e excruciante em menos de um pum, que direi de varizes? Ah, o medo da operação, é verdade. Podem morrer da anestesia, e cenas.]
Olha que miúda tão gira, e corre tão bem. Não sendo magra, tem um corpo tão bonito. 
[Miúda mesmo, uns vinte anos de idade. (Conforme sabeis, eu não chamo miúda a mulheres dos trinta para cima. Cá preconceitos.) Haja exemplos de pessoas que, não tendo o esqueleto todo à vista, são bonitas, harmoniosas e manifestamente saudáveis.]
Aquele musculado-depilado-bronzeado não pára de olhar em volta, porque precisa de ser visto.
[Este tipo de prototipo deixa-me nervosa. E falam alto, e fazem a comunidade saber que ontem não foram à praia, e hoje também ainda não, dando a entender que estão em síndrome de abstinência da manutenção do seu ar plástico.]
Coitado do jovem, tem a t-shirt tão suada e ainda agora começou. Terá problemas de sudação? Serão as hormonas? Digo-lhe daquilo do botox? 
[Claro que não digo nada. São as hormonas. E eu não sou mãe dele.]
Olha, aquela deu em chicotear o chão com um par de cordas pesadíssimas. Não pode com uma corda pelo rabo, quanto mais içá-las. Sou tão má. 
[Às vezes, os PTs arranjam exercícios tão inúteis quanto parvos. A mim ninguém me põe de gatas nem a dar pulinhos ridículos, quanto mais a agarrar duas cordas da grossura de uma jibóia e sovar com elas o pavimento. Mas isto, cada uma sabe de si.]

Imagino o que pensam de mim, em compensação. 
O que é aquilo?

10/06/2017

Eu tenho problemas com tudo # 25

Havia de ter tirado o retrato à máquina, que era para agora não vir para aqui falar de cor. Ao invés, vou mas é gamar duas imagens à nettinha, que isto também já não dá para tudo.
Ontem fui confrontada com os novos parquímetros da EMEL, e ó, se não são novos, são-no aos meus olhos, e é isso que conta neste coiso. 
Eu ainda sou do tempo em que a pessoa botava a moeda, lia lá na janelinha até que horas é que podia estar descansada sem bloqueador e ou multa, aquilo expelia um papel, e cada um ia à sua vida descansado dela. 

Então havia lá coisa mai linda do que estas máquinas
com ar de República Democrática? 
Depois, lá se puseram com as mariquices da electrónica e inventaram máquinas mais bonitas, mas, tal como dita o preconceito em relação à beleza das mulheres, também mais estúpidas. Ou que têm o dom de fazer com que uma pessoa como eu, sempre desesperadamente à procura da ligação-Terra, se sinta um calhau com olhos.

Era assim quase igual a esta, mas em melhor: tinha um
teclado. Leram bem — um teclado. Não teria sido má ideia
escrever este post directamente na coisa.
Estes novos parquímetros são temperamentais. Vamos supor que queremos estacionar durante um euro e meio. Uma pessoa tenta inserir a primeira moeda e a máquina não deixa. Não abre a goela, que é como quem diz, não solta o travão da ranhura. Naquele ecrã, que com o contraluz é ilegível, existem quatro possibilidades — que correspondem aos quatro botões amarelos —, que não chegamos a conhecer, pois, lá está, não conseguimos lê-las. 
Naturalmente apreensivos, mudamos de máquina, pois até equacionamos que aquela está escangalhada dos nervos. 
Então, a cena repete-se na seguinte. Mas, supreendentemente, há um momento aleatório, após termos carregado em todos os botões e experimentado mesmo o tal teclado, em que a ranhura se abre. Atiramos lá para dentro uma moeda, e ela cospe-a. Voltamos a tentar, e ela retém-na, mas fecha a ranhura. E nós queremos meter mais uma moeda. Só que isso já a bonita não deixa. Então, fazemos sair aquela moeda retida, lá através do botão vermelho, e, receosos de que no-la engula e já não nos deixe pôr mais outra, o que é que fazemos? Pomos uma de valor superior, para prevenir a possibilidade de ela só aceitar uma moeda de cada virada. Parece mesmo uma slot, só que com a diferença de não dar trocos nem jackpots. 
Foi assim que deixei quatrocentos mil réis dois euros — [!!!] — na chula proxeneta agiota, ontem. 

09/06/2017

Post about posts

Não sei se com as outras pessoas que têm blogs acontece o mesmo que comigo, mas não só os rascunhos se multiplicam a uma velocidade estonteante, como também tenho sempre o rascunho rascunhado, o rabiscado que nunca vê a luz do dia, que é como quem diz, que nunca salta para outros olhos que não os meus: o que é editado vezes sem fim, alterado, limado, podado, acertado e nunca parece estar bem — bem, ou com requisitos mínimos para ser lido sem ter cara de lixo logo ao primeiro minuto de publicação. Acontece mesmo gostar dele, mas não ter coragem, paciência, tempo ou disposição para o parir, e então ali fica em gestação dias, semanas, meses, até que um dia é apagado como se nunca tivesse existido. São 93, neste momento, a contar com este, que também já foi começado hoje de manhã. Fiquei aqui a ler um outro, que está rascunhado há vários dias, escrito com o meu próprio sangue, guardei e fechei o computador. Ser cada vez menos anónima tem destas coisas: a liberdade, senão literária, pelo menos linguística, a da expressão escrita pura e dura, perde-se numa proporção tão grande que, o que sobra do que se pode dizer sem ficar a parecer, é uma ínfima parte da criação, é um quase nada de nós. Nem as metáforas nos podem valer.

(yey, também consigo escrever um post-pastilha-pastelão)


08/06/2017

Ela fala tanto # 15

E outras vezes tão pouco.
O que fazer a uma pessoa que trabalha na tua casa há dezanove anos, que já viu nascer — não literalmente — dois dos teus filhos, que é (quase) mais um elemento da tua extensa família, e que amua? 
Se já não é a Miss Simpatia, e anda de carona fechada na rua — queixando-se que os vizinhos não lhe dão boa tarde, pois pudera, se os meus vizinhos são praticamente todos mal educados, diante daquele semblante, até eu, que pareço uma candidata à Câmara, preferiria virar a cara para o outro lado —, a facilidade com que amua, e assim fica por dias seguidos, é coisa para me fazer sentir não a mais na minha casa, mas com ganas de a pôr a menos a ela. 
Por exemplo, hoje: disse-lhe que não passasse a ferro uma t-shirt que tenho, decote em barco, que o ferro fez com que ficasse decote em navio porta-aviões, um autêntico desassossego, cai a manga, cai o decote, cai nas costas, cai tudo, e só não revela nada de importante porque, ou só alargou no decote ou é muito estúpida (refiro-me à t-shirt). Já ficou de cara torta, porque dizer-lhe que o ferro deu cabo de uma t-shirt é o mesmo — para ela — que dizer-lhe que fez de propósito para me dar cabo dela, por maldade, inveja, ou sei lá o quê, de uma porcaria da Zara* que me custou 5 euros. 

Imagem obviamente gamada
Eu digo: Estas blusas — porque tenho mais duas semelhantes — não podem ser passadas a ferro, menos ainda com ele tão alto. Esta já está com o decote alargado a um ponto que não posso voltar a usá-la. Ou então, isto deve-se à qualidade Zara. 
E ela ouve: Estragaste-me esta blusa, que foi caríssima, porque, de maldade, ligaste o ferro no máximo, só para eu não voltar a usá-la, logo esta, que é a minha preferida e me fica tão bem.
É que só pode. Ainda, parva, lhe dei a dica da falta de qualidade da roupa da Zara — quando disse qualidade Zara, era uma ironia! — para a desculpar de uma culpa que ela, obviamente, tem — canso-me de lhe dizer que não use o ferro no máximo para tudo —, e ainda a tenho de bezerra durante os próximos dias — que, no caso presente, serão só dois, a contar com hoje: outro dia avisou-me que, para a semana, vai de férias durante uma semana inteira, e eu caí para o chão — não literalmente, também —, indecisa entre o pânico e o alívio. Devia ter amuado, era o que era.

* ninguém me paga para me calar

07/06/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 6

Tornei-me proprietária de um biquíni belíssimo, cuja marca escuso de esconder, porque é mais do que evidente, mas não é isso que me traz aqui, porque ninguém me paga para isto. Não sei se foi porque, alapado àquele, veio outro, igualmente detentor de uma beleza estupidificante, a verdade é que me foi oferecida uma garrafa térmica daquelas, assim, como hei-de explicar?, térmica. 



Havia de dois tamanhos e em quatro padrões, mas eu encrencei que havia de trazer igual ao padrão de um dos biks, e por isso trouxe a mais pequena, que era a última, e era a de exposição, mas era aquela e era aquela e a menina queria, e acabou-se. (As outras eram um bocado feias. Havia uma de camuflado da tropa, há-de ser para quando uma pessoa vai para a semana de campo, poder beber água ou absinto, às escondidas dos camaradas, no meio do matagal.)
É claro que, logo após estes embates estetico-estratégicos, qualquer pessoa entra em meditação profunda. E é que dei comigo, no caminho de regresso daquele afã que tinha acontecido no provador (quatro partes de cima e quatro partes de baixo, o ser humano já não vai para novo e estão muitos graus de temperatura atmosférica), a pensar que, na verdade, a almejada garrafinha só me trará problemas. Porque:
1. É igual ao biquíni, mas eu não uso o mesmo todos os dias (ou não fora eu uma verdadeira blogger), portanto, o matchi só se dará uma vez lá de quando em vez;
2. Só tem capacidade para meio litro, o que, num dia como hoje, marcha em cerca de alguns minutos;
3. Dita-me a já vasta experiência que a tampa destas garrafas é uma pequena prova de nervos (e os meus são bastante frágeis), porque o raio da rosca tem pacto com o Cão e, uma vez desenroscada, é preciso fazer uma concentração mental extremamente cuidada e esperar que os astros se alinhem, para que as riscas da rosca se reencontrem e a garrafa fique fechada;
4. Se descurarmos a higiene da garrafa por mais de dois dias, ao terceiro dia podemos afirmar com alguma propriedade que já metemos a boca numa ETAR;
5. A higiene da coisa inclui escovilhão, detergente e água quase a ferver, fora um par de mãos (não vai à máquina) que se preste ao serviço.
Acho que trouxe para casa uma carga de problemas, como diz o povo. O melhor é ir para a praia e esquecer-me da garrafa na arrecadação, ao lado de uma colecção delas, que um dia serão vendidas na feira da tralha, ou recicladas no ecoponto amarelo.
Mas não é linda?

06/06/2017

Eu tenho problemas com tudo # 24

Não sei se sou só eu, e se calhar até sou, porém acontece que com a minha peculiaridade já eu me habituei a lidar, mas custa-me muito sentir-me realmente lavada com essas espumas de banho em gel que agora aí se vendem com cheiro a comida. A de chocolate é coisa para só ter cheirado uma vez na vida, por curiosidade daquelas que matam os gatos, mas depois ele há uma panóplia extremamente variada de aromas que, oh tormenta!, se hão-de transformar em sabores, ou não fôramos nós um pouco gatos, lá está, e não tivéssemos uma irreprimível vontade de nos lambermos após uma banhoca que nos põe a pele a cheirar a tais odores. Vai do jasmim e manga ao leite e amêndoas, passando pelo leite e mel, coco [vá, sem circunflexo], laranja, pistachio e magnólia, frutos vermelhos, oliva [azeitona? Really?], iogurte e mel, framboesa, baunilha, romã, papaia, kiwi e uva, e já me cansei. Mas também não posso deixar de referir o já velho aveia, mas que raios, aveia? Uma pessoa lava-se com aquilo e, na verdade, não se sente lavada. Mas quem é que quer ficar a cheirar a um cereal que regula o intestino, pejadinho de glúten? Hum? 


Para quando o aroma brócolo e couve roxa? Ou o pepino e [era engraçado, mas não é esse que vou sugerir a combinar] beringela? Ou couve-flor e beterraba? Será o passo seguinte, o gel de banho aroma a pezinhos de coentrada? A favas com chouriço? A salmão à lagareiro?
Oh, senhores das marcas, se sois tão amantes da Natureza, ficai-vos pelo pinho, eucalipto, rosas, jasmim e outras florzinhas igualmente cheirosas. Se quereis ser originais, ide até ao jacarandá — que tem feito as alegrias visuais nesta cidade de tapetes lilases pintada e carros barrados a cola de contacto com aquela frágil flor lilás —, ou até às ervas aromáticas, que tão bem cheiram. Mas, por favor, desisti de nos tentar fazer cheirar a mosto, a moagem, e, em geral, a tudo o que engorda e ou nos põe a cheirar a comida. 
Mais vale uma pessoa não se lavar, se é para isto. 


05/06/2017

Feira do Livro a um domingo é bom para pagar uma promessa

Tinha mesmo que lá ir ontem. Havia um evento muito importante, ao qual não podia faltar, nem que chovessem picaretas, canivetes, cats and dogs. Este ano, ano de todas as surpresas e fugas à regra, não vai chover durante a Feira, apostamos um jantar? Diz que Feira do Livro sem chuva não é Feira, mas olha, este ano não há. Uma ventania de arrancar os dentes pela raiz, mas lá chuva é que nada. Não sei como é que ainda não começaram a voar livros e o céu não se fez de papel com letras. (Ai, que imagem tão blogger, vou já registar.)

Não só não há chuva, como também não há mapas da Feira propriamente dita — nem desdobráveis, que uma mulher que se preze não sabe ler, nem em forma de cartaz (pelo menos, em número suficiente, tipo um a cada dois metros). Ou melhor, há uns mapas, mas apenas dizem onde se come, onde se bebe, onde se defeca e onde se muda a fralda à petizada.
Também não há balcão de informações, ou então está muito bem camuflado sob as ervas. A pessoa adentra-se no recinto e, se se perde, está irremediavelmente desaparecida do Mundo para quase todo o sempre, tipo Deserto do Kalahari. Assim estive eu ontem, por cerca de meia-hora. (E foi um sarilho tão grande sair do labirinto humano-barraqueiro e ser encontrada por quem eu procurava, que está decidido que, para a próxima, vou de tocha na cabeça.) Se vai à procura de uma editora, não sabendo muito bem (nem muito mal, na verdade) onde é que ela se encontra, primeiramente é sugada pela compacta multidão que sobe e que desce o Parque a passo de funeral, incluindo carrinhos de bebé e crianças dos mais variados tamanhos pela mão. Procura a dita editora, sob o sol a pino entranhando-se-lhe pelas vistas, indecisa entre tentar ler as mensagens que chegam a chico-smart a cor-de-rosa | Onde estás? | Estás no lado oposto da Feira | Eu disse-te lado esquerdo |, ou meter os óculos de sol pela cara afora, evitando cegar de excesso solar ou de raiva incontida. Vê uma placa a indicar "Informações", cuja direcção vai dar a nada [I'm on the road to nowhere], e pondera desistir de tudo e tornar-se sem-abrigo.
Também não vi um único encarregado-funcionário-nadador-salvador de apoio aos perdidos e não achados (como o ser humano que ora digita), para uma pessoa pedir socorro-acudam-ó-da-guarda, ou então guinchar que está perdida.
E, nas diversas barracas, ninguém sabe onde fica o que procuramos, provavelmente porque também não sabe onde está.
Igualmente, não há casas-de-banho em número suficiente: do lado esquerdo de quem desce, há apenas uma, junto ao Marquês de Pombal, o que torna a aflição algo de mais agudo épico trágico, caso se tenha entrado pelo alto do Parque. É correr, minha gente, é fazer pela vida, preferencialmente por detrás das barracas, senão já não ides a tempo, que aquilo ainda são uns bons seiscentos metros. E depois, ainda ides dar com uma filinha pirilau à porta da das senhoras. Hah, boa piada.
Outra coisa que também não há ao domingo: gente que compra livros. Ele é cerveja, ele são hambúrgueres, ele é ginja de Óbidos. Mas livros, propriamente ditos, isso já não. Vêem-se passar muito poucas pessoas com sacos na mão, a generalidade do povo simplesmente não pára nas bancas. Sabem que vão à feira, mas não sabem que vão à Feira.

Conselhos de borla: evitem o fim-de-semana; levem sapatos baixos, garrafa de água, óculos de sol, protector solar, pára-vento e, para os mais prevenidos, o guarda-chuva (por causa das picaretas). Quanto ao mapa e ao penico, pois, também não posso tudo, que eu sou só uma e vocês são muitos — que é o que eu digo aos meus filhos.


03/06/2017

And that awkward moment # 28

em que estás a acabar de almoçar num local onde os donos do espaço te conhecem e tratam por tu, pedes, para sobremesa, umas cerejas, que ele garantiu estarem daqui [e fez aquele gesto tão português de quem acaricia/repuxa/arranca o bolbo], ele traz-te as cerejas, lindas, escuras, gordas, suculentas, acompanhadas de cubos de gelo, aquilo tudo muito estético e apetecível, e, quando te põe o prato à frente, profere a seguinte frase: Arrebenta com o pacote de açúcar?


Assim.
Arrebenta com o pacote de açúcar.
Isto, tendo em conta que nunca pus nem vi pôr açúcar nas cerejas — nem mesmo naquelas mais branquinhas —, foi coisa para me ter feito parar a boneca. Tornou-se-me impossível desligar da frase, por mais que incluísse as duas últimas palavras: as quatro primeiras já eram suficientemente confusas, inesperadas, descontextualizadas. Matava-me a curiosidade de lhe perguntar o significado, por muito que se tivesse tratado de um engano, ou por muito encriptada que fosse a expressão, mas abstive-me, e lá comi as cerejas, calada, baralhada, mas vertendo lágrimas daquelas boas, que uma mulher também não é de ferro. 

02/06/2017

Selinho Blog em Bom — as escolhas de Blue, Linda Blue

se é "selinho", é selinho até ao fim

Tenho muita pena de não poder pregar com aquele autêntico alfinete-de-peito — da criação altamente rephynada de inigualável Palmier — na lateral da minha alegre casinha, tão modesta quanto eu. Fá-lo-ia do lado esquerdo, pelas óbvias razões de ser aí que pulsa o que de melhor há em mim, apesar de os médicos não concordarem. (E também algumas pessoas não médicas.) No entanto, soube, após informação dada pela Mirone a dúvida alevantada pela NM, que apenas os eleitos pelo mentor deste mega movimento, Pipoco Mais Salgado, o podem fazer. 
Entrementes, há que escolher qual seria o meu blog, se o desgraçado fosse um Blog em Bom. Ora bem.
...
...
Se o meu buraco fosse um Blog em Bom, perguntam-me vocês e questiono-me eu sem cessar, desde que ontem a Nê me pôs nesta alheira.
Então,


seria este.
Ai, não posso? Mas quer dizer, este é à minha medida, é o único que eu consigo escrever, umas vezes com sangue, outras (quase todas) com suor, muitas com lágrimas (de riso e tudo).
OK, escolho outro. 
Também podia ser o da minha irmã. (Queríeis link? Olha...) Mas fazia-me sentido, para já porque não a homenageei no Dia dos Irmãos (sorry, sis, acho que tive um dia daqueles, mas gostei muito da tua singela homenagem às irmãs). E depois, porque ela tem um blog mesmo em bom: leve, alegre, sem os meus dramas de merda de vez em quando.
Acho, sem certezas, que também não se pode nomear quem nos nomeou, à laia de Casa do Big Brother, porque aqui não sai ninguém desta Casa, a menos que pelo próprio blogopé. Estás safa, Nê.
Vá, como não me apetece dar mais de mim do que já dei até agora, vou falar a sério: eu só queria escrever como a minha flor, eterna madrinha deste nick Linda Blue desde que ele existe. A forma como entrelaça as palavras rasga-nos o coração em mil bocadinhos bons, e depois, artisticamente, volta a pô-los todos no lugar, sem deixar marcas das que doem quando o coração se escaqueira. 
Quanto aos cinco, vou ali ao meu reader e já volto. Estou a tentar não repetir nomeados, o que não é fácil. Parece que nos movemos num blogoberlinde, e quase todos os que lá tenho já foram escolhidos por alguém. É no que dá chegar sempre tarde às festas. Já só posso rir-me do final da anedota, não porque lhe ache piada, mas porque as gargalhadas dos outros me contagiam como a praga. 

[Passado um bocado]

Só devia escolher homens, para ser original. 
[Ai eu já pensei mandar pintar o céu 
Em tons de azul, pra ser original 
Só depois notei que azul já ele é 
Houve alguém que teve ideia igual]
Mas isso já eu sou, mesmo não fazendo nada por isso.
Então, vá:
https://desabafosemrodape.wordpress.com/
http://www.diariodopurgatorio.com/
http://porquehojemeapetece.blogspot.pt/
https://naomudesnunca.wordpress.com/
http://carenciasefectivas.blogspot.pt/
(Safaste-te de boa, Piston.)
(E tu também, Caladinho.)
(E também tu, Mr. Peixinhos.)


Ainda antes do post do selo

Apercebi-me agora que ontem publiquei o meu dois milésimo quingentésimo post. Dois mil e quinhentos. Só para que conste. 

01/06/2017

Respeita a criança

Fui à Feira do Livro no Dia Mundial da Criança.
Ela levou-me, como se fosse minha mãe. Como não tem idade para ser, é minha filha. 
Cheguei ao recinto cheiinha de vontade de fazer chichi. Disse uma, disse duas, disse três, até que ela protestou, e com muita propriedade: "Que horror, mulher, pareces uma criança. E eu ainda nem comecei as colónias". (Porque ela é monitora de colónias de férias, de entre outras valências que tem, minha rica menina, e atura os filhos dos outros como ocupação sazonal remunerada.) 
Comprei três livros, como uma pessoa extremamente erudita, que vieram juntar-se a mais uns quantos da colecção Baby Blues. 
Consegui fazer chichi num contentor muito limpinho, e depois deu-me a fome. Havia muitas coisas para comer, que me lembraram a Feira Popular, que era a coisa que eu mais adorava [era o vinho, meu Deus, era o vinho], só que, em vez de cheirar a sardinhas, cheirava a hambúrgueres de vaca, iguais aos que a minha mãe fazia. (Isso e leite creme, eram as únicas coisas que a minha mãe sabia cozinhar, minha querida mamã.) Apeteceu-me um pacote de pipocas e escolhi um que tinha umas quantas coradas de cor-de-rosa, porque os olhos também comem. (E não engordam, ao que parece.) Entornei uma parte do pacote para o chão e para dentro da mala e fiquei tão desconsolada que a senhora me deu outro. Nunca vou saber usar carteira de senhora sem que me aconteçam mil desastres e esquecimentos com ela. Não sei como, nunca fui roubada.
Sentei-me muito direitinha numa cadeira, a ouvir umas senhoras a falar, enquanto me dava o vento pela venta sem pêlo e via as pessoas crescidas a passar, todas com um ar muito sério ou então curioso. 
Voou ao meu lado um balão azul, mas não o fui apanhar, porque me lembro muito bem do barulho que os balões fazem a rebentar e tenho medo. 
Que saudades da minha chupeta. Usei-a até entrar no liceu.

Viciada em bebés # 3

Eram um macho e uma fêmea, tidos como irmãos de adopção por terem nascido em datas próximas. Eu, que sou toda Eça, antevi-lhes uma relação feliz e eterna, e em nada fraterna, mas isso sou eu, que ainda acredito. Ele corria, desenfreado, pela sala, escondendo-se nos cantos, de toda a gente — nomeadamente de mim, que o perseguia para o agarrar e mimar —, de si mesmo, da sua sombra e da própria cauda, numa atitude tão típica dos gatinhos. Ela, bastante mais pequena, apesar de ter nascido apenas três dias depois, dormia, desenfreada também, enrolada numa rodela, numa atitude tão típica dos gatos. Mesmo assim, quieta, a contrastar obviamente com o irmão/futuro namorado, era uma lufadinha de ar fresco em todo o enorme espaço, tão pequenina. Exigiu-me o meu egoísmo que a pegasse com as mãos, nos braços, para sentir o corpinho junto da minha cara, nem que, para isso, tivesse que a acordar. Raptei-a um pouco do ninho que formara entre as ancas de uma senhora e de outra, aconchegada de almofadas, calor e afecto, e senti-lhe o tamanho, o peso sem peso, um montinho de pequenos ossos, pêlo, garras e bandulho de bebé. Inspirei-a e devolvi-a ao sono e ao berço, consolada.



30/05/2017

Quando, inadvertidamente, vences um preconceito

Isto ainda na senda do post anterior.
Não, é que não existe nada mais badalhoco — a seguir à tramp stamp e ao mindinho espetado — do que ir para a rua de cabelo molhado. 
Oh, sou tão sensual...
Oh, lavei-me...
Oh, eu de t-shirt molhada ainda sou mais hot...
Depois da tal molha, fiquei, em plena rua, com o cabelo encharcado (e a t-shirt e a saia, as pernas, os braços, e só não os pés porque tinha calçado sapatos). Tinha estado a dar-lhe com o babyliss, tinha um ondulado mesmo fixe, ficou uma nheca tão perfeita. 


29/05/2017

Onde passaste tu parte da chuvosa tarde dominical de ontem, LB?

Olhem, nem vos conto.
Havia homens rechonchudos com calças skinny e t-shirts a revelarem as pancinhas e as man boobs. E outros de calções de banho, pólo da feira e téne.
Havia mulheres cujas borregas transbordavam dos sutiãs. Algumas, tatuadas.
Havia crianças com sapatos de fivela e uma flor na ponta, os pezinhos espremidos por meias de renda branca.
Havia avós com mini shorts de ganga e chinelo raso tipo Havaiana.
Havia avôs muita porreiros que se ajoelhavam no chão para ficarem ao nível das netas e já não conseguiam reerguer-se. [Opção de vida? Dores articulares? Karma? Praga minha?]
Era um sarau, e isto é o que acontece quando a professora não dá só aulas na cidade, mas também se estica para a periferia.
Isto é o que acontece quando a pessoa sai daquilo a que o povo chama zona de conforto, que é o núcleo da civilização. 
Depois apanhei uma molha monumental e passou-me tudo. 

28/05/2017

Eu tenho problemas com médicos # 25

Eu ainda era do tempo em que os médicos exerciam Medicina.
Venho para dizer mal. Venho para deitar fora, purgar, drenar, expelir coisas más que há em mim. Devo estar na fase da raiva.
Vou contar uma longa história, que não interessa para aqui se na primeira, na segunda, na terceira ou em que pessoa do singular, de tão singular que ela é.

Fui criada a respeitar a profissão de médico como a todas as outras, mas mais ainda por ter vários na família, e, no limite (da gestação), por ter saído de dentro de uma. Naquele tempo, os médicos olhavam para um doente, faziam-lhe umas perguntas, observavam com olho clínico (literalmente), auscultavam, mandavam tossir, respirar fundo, palpavam, e simplesmente diziam o que o doente tinha, receitando de seguida. Não tinham tecnologia de ponta nas pontas dos dedos, nem internet que lhes valesse, apenas muita sabedoria acumulada e um especial dom, que era o de ter os olhos nas pontas dos dedos: encontravam, pelo tacto, o busílis da questão no corpo dos seus doentes. Claro que também havia quem corresse vários médicos até lhe ser feito um diagnóstico. Mas eram, geralmente, casos raros, casos no início dos sintomas, casos demasiado graves para que se pudesse alvitrar uma hipótese sem certezas sobre ela. Uma das minhas avós já tinha sido consultada por dois ou três médicos que não atinavam com a doença de que ela sofria, até que bastou a um pedir-lhe que caminhasse para lá e depois para cá, nos escassos metros da sala do consultório, para lhe fazer o diagnóstico. Era um professor da faculdade, no tempo em que para se chegar ao doutoramento e à cátedra não se pagava dois anos de propina a uma faculdade. Acediam os melhores dos melhores — por mérito, trabalho, dedicação e valor.

Agora é diferente. Uma pessoa cai de gaiato numa urgência hospitalar, onde lhe são feitos exames e análises e perguntas, primeiro na triagem, pelo enfermeiro, depois por um médico não especialista que, por sua vez, encaminha para o especialista que ele entende — e que, oh, surpresa!, não tem a especialidade ideal para aquele caso. Paga a urgência, paga exames e análises. Marca consulta com o médico indicado na urgência, vai à consulta, mas oh, que bonito!, o médico não se sente capaz de fazer um diagnóstico taxativo, sem antes mandar fazer mais exames, mais análises, preferencialmente dentro do mesmo hospital. Paga consulta e lá vai disto, faz exames, faz análises, paga exames, paga análises. Volta à consulta, e oh, inesperado!, o médico não faz diagnóstico nenhum, porque suspeita que aquilo não é do foro dele, e então manda para outro colega, de outra especialidade. Paga consulta, e marca consulta para a tal outra sumidade. Amarga uma hora e meia de espera na sala para que sua altíssima digníssima especialista declare que não pode fazer um diagnóstico diferenciado (diante de uma ressonância magnética), porque é necessário consultar outro especialista, ainda mais especializado, dentro do mesmo hospital, que, após exame ainda mais detalhado, com certeza (sem certezas) fará um diagnóstico decisivo. (Ao que parece, não andaram na mesma faculdade, não tiraram a mesma especialidade.) (Por exemplo, já não há ortopedistas que nos conheçam os ossos um a um: agora há o especialista do joelho e, dentro dessa especialidade, o especialistíssimo do menisco. Assim como já não há neurologistas que nos conheçam o sistema nervoso dos pés para a cabeça: há o especialista da tontura e do desmaio, há o especialista do tique nervoso na pálpebra esquerda. E só esse nos pode valer.) De tão agarrada ao computador que fui encontrar a dita senhora, quase posso jurar que a vi, enquanto murmurava "hum-hum", a consultar o Google. Podia bem ter ficado em casa (ela também), que teria sido mais em conta e não teria perdido duas horas e meia da minha preciosa vida. 
Até ao diagnóstico, e enquanto não, anda uma família inteira com o credo nas mãos e o coração na boca, porque uns senhores resolveram brincar aos médicos (ou aos comerciantes, decidam-se) sem nos terem perguntado se também queríamos participar no recreio, com um intuito qualquer, que deve passar por encher os cofres do hospital que, por sua vez, lhes paga um ordenado de miséria. 
O que é que está mal nesta história? 
Tudo. (Designadamente a minha cabeça.)

26/05/2017

Ambrósio, [hoje] apetece-me algo [diferente]/

Posso muito bem ter enlouquecido de cançassu

Desde que a cor das unhas mudara que sabia que se iniciaria ali o processo de transmutação. A seguir arrancaria o cheiro do perfume do pescoço, o tom do cabelo voaria para além da linha do horizonte, o riso dobrado quebraria num som opaco. Apanhou todas as migalhas de si que ainda sobravam e meteu-as no bolso para dar mais tarde aos cães. Engoliu inteiras três tâmaras de saudades, à força de oito lágrimas e meia, sufocou até à dor da alma quando a sentiu expirar, olhou para trás e viu-os, meteóricos, desaparecerem como sabão no chão da tristeza. Trancou a porta maior do coração com um estrondo fininho e deixou-se sugar pelo Mundo, com ele partido.

25/05/2017

Vou amar este homem para sempre # 2

Perdoem-me os que o podem fazer, forçada a esta ausência forçada [metida no buraco mais escuro de um trabalho que não acaba, mas ao qual vejo a luz ao fundo], mas sempre com meus môres no pensamento, e com ganas de partilhar o que de melhor ouço nos coisos. 

23/05/2017

Desamor

Ouço o choro daquele bebé e ainda me distraio a interpretá-lo. É vício, é hábito, é treino que nunca perdi. Está aborrecido, cansado, com frio. O ar condicionado está ligado, mas arrefece as extremidades de um menino — presumo que é um menino pela cor com que está vestido — de pouco mais de um mês. A mãe, muito jovem, muito linda, gordinha e loura, abana-o no colo à medida que ele solta gritinhos, e ele solta gritinhos à medida que ela o abana, numa dança que parece não ter outro fim que não seja o do aborrecimento mútuo. Ao lado, o pai, ausente, e o filho mais velho de ambos, distante. Os cerca de oito anos e a sanduiche que tem na mão não lhe permitem mais senão manter-se fora daquela sala de espera, que até eu, que já multipliquei por tantos os meus oito anos.
A mãe tenta o leite, tenta a chucha, tenta virar o colo impaciente, mas o choro não cessa. Abstenho-me, obviamente, de lançar mão de ajuda. Quem sou eu senão alguém que criou bebés há demasiado tempo para saber de que choram eles?; e por pudor; e porque as crianças precisam de chorar; e porque as mães também. Assisto, assim, impávida e pouco serena, ao pedido da mãe ao indiferente pai, que lhe passe um toalhete. Ele entrega-lhe uma embalagem inteira, ela já não dispõe de mais mãos livres para retirar apenas uma, desespera-se de solidão, chama-lhe parvo e ele explode numa raiva muda entre dentes, "Chata, porra! Tu és uma chata, caneco". 
Saem os quatro quando são chamados para a consulta de um deles, passa diante de mim o que foi um dia um casal, e pergunto-me há quanto tempo é que aquelas duas pessoas se amaram, a ponto de porem outras duas no Mundo.


22/05/2017

Em repeat


Ela fala tanto # 14

Aparece-me mais tarde, esbaforida e sonora, necessitada de desabafar como um balão cheio de hélio preso por um fio, e desata. Confirma que chumbou no exame de Código da Estrada, que foi fazer juntamente com a filha e o cunhado, que já conduz há anos sem carta e lá foi pela quarta vez. [E eu que sei, e eu que sei, cruzo-me com eles todos os dias...]. A filha muito nervosa, ai, Tatiana, tu acalma-te, mas ela a ter um ataque de ansiedade, o ar a faltar-lhe [porra, pá, só eu não tenho ataques chiques, à frente de toda a gente], e eu, inconveniente, depois de me ter dito que a filha também chumbou, pergunto se estava nervosa antes ou depois do exame, pois que antes, não se conseguia acalmar, ai, ó Tatiana, tem calma, filha, e ela lá se acalmou quando começou o exame. 
- Acho que o que me tramou foi aquela da cedência de passagem numa rotunda.
E dou comigo a pensar, "Olha o azar, chumbar por uma. Mas a fasquia tem que ser posta em algum lado, se não fosse na quarta errada, era na quinta, e haveria sempre quem chumbasse". 
- Errei cinco, e a minha Tatiana também.


[O cunhado passou, conseguiu errar apenas em três questões.]

21/05/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 3

Cá suei mais uma camisola. A máquina da roupa também não pára. 

eu sei que já mostrei a cara, mas não me apetece todos os dias, tá?

Começou logo bem, aquando do levantamento do kit. Acerco-me do guichet e pergunta-me a menina o primeiro e último nome. Digo-lhos, de vulgares que são, e ela encontra mais não sei quantas homónimas. Pergunta-me ano de nascimento, encontra 95 contemporâneas. Pergunta mês, mais não sei quantas. Pede-me o dia e, mesmo assim, encontra outra — homónima, nascida exactamente no mesmo dia que eu. Qual é a probabilidade de isto acontecer, qual é? Comigo, 100%. 
Depois, começar, começar, foi pelas 10 da madrugada de hoje, quando dei por mim a correr para o autocarro que transportava as atletas para a partida, a 5 quilómetros da meta. Deixei Rosinha no parque da Fundação Champalimaud, porque tenho a PDM e o parque é limpinho e grandioso. Lá chegadas, fomos despejadas para cima de mais milhares de femedo que corre contra qualquer coisa que o valha. Na verdade, nós, mulheres, corremos contra muros vários todos os dias, não apenas nestes alegóricos. (Hoje não sei que dia é, mas fui na mesma.)
Também somos distratadas e descompreendidas. Só isso explica que nos tenham afinfado, logo à partida, com o Emanuel em cima de uma daquelas pontes de atravessamento a cantar "Nós pimba", imediatamente a seguir a termos passado a barreira de uns mocetões musculadíssimos que nos estavam a borrifar de protector solar, mas eu cá fugi-lhes, por já ter posto em casa, e mais gordurosa era capaz de deslizar até à meta, e depois era desclassificada por doping ou o genital.
Estranha corrida esta, por ser tão eufemística: não havia pista de corrida, sequer alguma separação temporal nos momentos da partida, entre quem corria ou andava. Foi chato para as atletas, que tiveram que ultrapassar a multidão compacta de gajedo que vai para a farra e o trololó. Para mim, foi óptimo, embora, tanto quanto dei por isso, tenha sido a única desvairada que fez walk-run, e tenha aproveitado os momentos em que havia passeio ou estrada livre para dar umas escapadinhas à manada. Parecia aqueles tontinhos que vão a pastar a vaca na autoestrada e, de repente, devem prender o salto do sapato no acelerador, que uma pessoa deixa de os ver (ou então, ganham invisibilidade).
Ao longo do percurso, fomos brindadas com garrafinhas de água — eu emborquei três e ainda trouxe mais uma, dou sempre prejuízo à casa — e mais música: um palco com um jovem a trautear "I'm walking on sunshine" (à torreira da canícula, se faz favor) e uma mulher grávida a entoar "It's raining men, hallelujah" (quem sabe se à espera de um rapaz, e daí...).
Na meta, recebemos tantas coisas que precisava de dez mãos para não deixar cair metade delas, como deixei: um geladinho, um saco com leite, mais água e uns papéis, uma banana (ai, o potássio, sou tão atleta, sou tão hipster), uma medalha, três panfletos não sei de quê, que já jazem no ecoponto e até podiam ser um prémio em dinheiro, mas olha.

19/05/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 49


Logo eu, que costumo entreter-me a tirar o perfil de cada um, em função das compras que leva no carrinho.
Que tipo de pessoa se dirige expressamente — com pressa e com intenção — a uma grande superfície comercial para comprar isto?



1. Alguém guloso e também limpinho;
2. Alguém com desejos e também com cheiros na privada;
3. Alguém com um TOC relacionado com os sentidos do paladar e do olfacto;
4. Alguém com um TOC azul, que tudo o que compra tem embalagem azul;
5. Alguém que faz estranhas misturas;
6. Alguém sem nada para fazer;
7. Alguém que trabalha muito e precisa de desopilar em minudências;
8. Alguém que vai receber uma pessoa importante em casa e também se esqueceu de encomendar, na última compra, os benditos desodorizantes;
9. Alguém sem assunto sobre o que escrever, a quem lhe morre o blog sob os dedos todos os dias mais um niquinho/sobre assuntos-assuntos, não apetece de todo?
10. ~~~~~~~~~~

Tudo eu.

17/05/2017

1 + 10 = 11

Não é esse o assunto?

Ah, era uma mnemónica...

Com cerca de mil pedidos de desculpas pela (zero) qualidade da imagem, mas ela foi tirada:
1. Por chico-smart, em pré-falecimento;
2. A uma distância que até admira que se leia alguma coisa;
3. Por sobre os movimentos basculantes e circulatórios de uma elíptica.

E a hora, hã? Eram 11:11. Vá que não eram 11:10. 

Eu tenho problemas com tudo # 23

- Hohem hão hahou a hua hon-ha.

Existe uma pessoa que trabalha num espaço comercial junto da minha área de residência que fala assim: das vinte e duas letras do alfabeto (eu conto com o K, o X e o Y, porque sou moderna), diz apenas as vogais, ou seja, suprimiu da sua linguagem verbal (a escrita não lhe conheço, portanto dou de barato) nada mais, nada menos do que dezassete letras, se é que a matemática agora não me falha também. Algumas sílabas, entoa-as com uma única consoante, mas não a correcta para entremear as vogais correspondentes, fazendo recurso constante do H, não aspirado como o dos ingleses, mas expirado como só ela.
Nem imagino se fosse ao contrário, e tivesse suprimido as vogais.
Nem imagino como dirá palavrões.
Nem imagino quando se constipa, e não consegue expirar o H.
Assim, por exemplo, se quiser dizer Existe uma pessoa que trabalha num espaço comercial junto da minha área de residência que fala assim, diz Eihihe hua hehoa he ha-aia hum ehaho huhehial huho ha hiha áhea he hehihêhia he haha ahim.
E não é que se faz entender perfeitamente?
Sempre, menos desta vez. Criou-se, finalmente, uma barreira linguística entre ela e eu, fascinada que ficava sempre a ouvi-la falar sem consoantes e muitos HH.
Isto é um suponhamos: entro lá no local, acerco-me do expositor frigorífico onde ela labora, e preparo-me para desbobinar alface-abóbora-cenouras-couve-flor-nabo, mais ou menos por esta ordem aleatória, e vai ela assim para mim, naquilo que eu entendi:
- Ontem não pagou a sua conta.
Ó pá, esqueci-me. Mas também era escusado aquele mau modo, à frente de toda a gente. Parecia que eu tinha feito de propósito. Passei por caloteira, e, puxa!, magoei.
- Oi? — Respondi no meu melhor português. E depois girou-me a seguinte frase na cabeça: "Hoha, há! Henho ahi a ehha eh-hehun-ha há hinhe e huaho ahos, hunha heihei ahi hehuha hon-ha hoh hahah e hohe, huhe he eh-hehi uha húhiha hez, hazem-he hoho hahah hoh hahoheiha". Mas travei-me, traduzi-me mentalmente e proferi: "[Porra, pá!] Venho aqui [a esta espelunca] há vinte e quatro anos, nunca deixei uma conta para pagar e só hoje, porque me esqueci uma única vez, fazem-me logo passar por caloteira".
A comunicação entre nós bloqueou naquele momento, por assumida incapacidade minha para perceber o azedume, especialmente provindo de alguém que sempre tratei bem.
Acho que nunca mais nos vamos entender, ehá hihto.


16/05/2017

And that awkward moment # 27

em que entras num restaurante para jantar e o empregado de mesa se embeiça apaixona desesperadamente por ti? E depois é todo um manancial de situações absurdas, em que é ele a querer transmitir os seus sentimentos através dos olhares penetrantes com que te estupra, e és tu a tentar jantar em paz, fintando com imenso jogo de cintura toda a abordagem por ele perpetrada. 
Traz-te queijo à mesa, perguntas se é de Nisa — porque também não podes ficar calada, e há situações que o diabo que te habita tem ganas de fazer render —, e ele responde "Não, é do Alentejo". Mas o vinho é tão bom, parece mesmo pomada para a garganta que não te dói, que dás um daqueles suspiros que achas que só tu ouves, mas que ecoam pela sala como se alguém tivesse ligado o ar condicionado no máximo dentro da tua cabeça. E o homem fica ainda mais perturbado. Diz Murphy, esse grande estupendaço, que quando alguma coisa está mal, ainda pode piorar. Claro que sim, boi.
Estás acompanhada, pediste dois cafés, e ele aparece-te do nada, ou então do tecto da sala, com duas chávenas na mão, a perguntar: "Os cafés, são para quem?" — o que te dá logo aquela vontade de responder "São os dois para mim, baby".
[A reminiscência que ele me veio trazer. Quando os miúdos eram pequenos, numa remota época em que o mais novo ainda se sentava em cadeirinha elevatória — cadeira de papa, tecnicamente falando —, não foi uma nem duas vezes que se acercou da mesa uma figura com duas chávenas na mão, a perguntar para quem eram os cafés. E de todas, a acompanhar candidamente o queixo caído, tiveste vontade de responder "Para os dois mais novos, a ver se sossegam".]
(Um dia vou dar largas ao Tourette agrilhoado em mim, e só respondo o que me der na venta. E no vento.)
Há depois um momento — que não vou contar aqui —, talvez derivado da enervadeira que o homem te provocou, em que despejas uma parte do vinho sobre ti mesma, ficando o teu vestido (que é obviamente branco) cravejado de nódoas cor-de-tintol, aquele tom indisfarçável que grita à populaça com que te cruzas até ao carro, "Bêbada!", quando não estás. Mas é claro que os saltos altos e a p. da calçada de paralelepípedos redondos te negam qualquer negação dessa aparência sóbria.
Empregado estupidamente apaixonado - 1; LB - 0.
(O amor tudo vence.)

15/05/2017

Podia bem ter sido eu a escrever isto [tivesse eu talento]


Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar
Antes de ti só existi
Cansado e sem nada para dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois

14/05/2017

mmmmm, esta sensação de acordar ao domingo

espreguiçar a beleza numa cama confortável, olhar para o telemóvel, ler os mails, constatar que hoje salta fora mais um seguidor e ahhhhh, poder virar-me para o outro lado — exactamente aquele para o qual durmo melhor...



13/05/2017

Dia dos 3 FFF

Fado, futebol, Fátima.
Nunca como hoje.

Meu Benfiquinha querido, vê lá se consegues façanha igual à minha

Tetra, môr, nada menos do que quatro. 


E ainda vamos ao penta!

And that awkward moment # 26

em que recebes uma caneca da Dory pelo Dia da Mãe — e nada é por acaso, a peixa azul só não é a minha personificação porque não é uma persona, talvez seja eu que sou a personificação dela —, resolves fazer o teu primeiro chá nela, e passada meia-hora, alguém pergunta De quem é este chá?, e te vês compelida a responder
...
...
...
Esqueci-me?

Palmei da nettinha, sim.
(Vinde cá prender-me, ora vinde.)

12/05/2017

Em modo tolerância

comigo; com tudo; contudo; com a água; com a chuva; com a vida; com o destino; com a sorte (maldita); com o fado.


Nem de propósito, nem por acaso, a Teresa Borges do Canto tirou-me as palavras e as lágrimas da boca. 

11/05/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 57

Vejo coisas.
Já não se pode frequentar provadores das lojas de roupa feminina, que se é logo sujeita a estas provações. Olhem-me lá para estas duas.

E a manita esquerda da mocinha da direita, hã?
Am I interrupting?

(Eu agora era uma pessoa com uma visão artística do mundo e chamava a meu retrato "O abraço" ou "A dança". Assim como não sou, dou-lhe o nome "Granda sentido de humor, caixeirinha!", ou "Queres falar?".)

Estive mesmo para ir abraçar-me a elas, mas depois senti-me um bocado a mais. Tipo aquela do "Um é pouco, dois é bom, três é demais". 

08/05/2017

Ando tão farta do anonimato


Antes que o assunto arrefeça e, efectivamente, (mais) ninguém se mate, ou a comunicação social decida se se trata de um mito urbano — ou rural —, tenho a declarar à blogobola que, também eu, jogo Baleia Azul todos os dias

Aliás, se pensar nisso bem a fundo, não afundo em disparate nenhum, pois que chego à conclusão que até posso ter sido eu a inventar o jogo da Baleia Azul, blogosfericamente falando. 
Todos os dias — todos! — tenho a minha "hora de cortar os pulsos", que é aquele momento em que vou consultar/espreitar/invadir um blog ou dois, com o mesmo desvelo e amor do ódio de estimação, mas em profundo. Então, golpeio-me.
(Calma, claro que não é nenhum dos que frequento publicamente e que fizeram parte da minha lista da barra lateral — que apaguei, mas refarei —, pois estas coisas fazem-se na privada, na calada, na cobarda.) (Com limites, já que nunca comentei em nenhum deles. Se o fizesse, seria com este meu perfil azul e belíssimo, uma vez que, quando parto para o estalo, gosto de dar a cara. Tenho a mania que sou vertical, ou lá o que é.)
Vocês, se calhar, não fazem isso, mas eu sou assim, quase toda psicobólica, e preciso de me enervar um bocadinho todos os dias. Sento-me ao computa, ou abro os ditos no telemóvel, e pronto, purgo a raiva, a neura, o ataque de fúria que não tive e contive (alguns há cerca de vários anos). É o meu corte de pulsos diário, a minha caixa de gritos, o meu boneco de pancada.
(Muito obrigada a todas as que alimentam esses espacinhos de catarse e psicoterapia gratuita.)
Conforta-me a ideia de que haja quem faça o mesmo com este meu coiso. Sirvam-se, que também é para vocês que escrevo assim. Cá abraço apertado. (Não.)

(este gif roubei da nettinha, que eu não sou loira nem tão nervosa.)

07/05/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 2


De manhã, Corrida do Dia da Mãe. É claro que fui caminhar, por todas as razões que me são inerentes, e ainda mais pela de que tenho um pé todo desmontado, não tivesse abusado da dança (ou ela de mim), de maneira que fui, literalmente, coxear quatro quilómetros, mas cheia da corage. Levei exactamente o mesmo tempo que uma das minhas bonecas a correr dez quilómetros: uma hora e quatro minutos.
Eu gosto é da festarola, vou para me divertir, porque sou uma divertidaça-estupendaça, caturreira.

 
(Ô xenti, fiquei pelando por um sambinha...) 

Como sou demasiado etérea para algumas coisas, consegui perder-me no percurso, e tive que voltar atrás uns metros para me meter pelo intrincado caminho que levava até à meta. Lá chegada, encontrei um grupo de rapazes que pertenciam ao movimento Abraço Gratuito. (Espero que não sejam parentes dos do Abraço à Borla, organização que suponho que desapareceu, quem sabe se por, um dia, um deles se me ter dirigido com um cartaz onde estava escrito ABRAÇO HÁ BORLA e eu lhe ter gritado "Ahhh, tens um erro ortográfico no cartaz!", escapulindo-me dos braços dele.) Hoje foi diferente, nada parecia errado, por isso demos um abraço, jovem desconhecido e eu, e ele desejou-me um dia feliz, com aquele sotaque do norte que metade das minhas costelas reconhecem e vibram, canudo.

 

Cada um tem a mãe que merece?

Pela hora do almoço, e porque agora frequento casas-de-banho públicas leve, levemente, como quem chamam por mim, derivados de beber muito mais água do que antes e, eventualmente, ter a bexiga mirrada de tantos anos de camelice, fui dar com uma menina, com quatro anos ainda incompletos, a fazer cocó, perfeitamente sentada numa sanita pública, profundamente sozinha, com a saia e as cuequinhas puxadas até aos sapatos. Convenhamos que a louça sanitária destas casas-de-banho deve ser a zona mais limpa de todo o recinto, já que ninguém, no seu juízo perfeito, e se tiver mais do que quatro anos e for acompanhada por uma adulta, ali se senta. Diz-me a criança, mal entro: "Fiz cocó", e aquilo invadiu-me de ternura, porque o instinto é uma chatice que nos atinge sem pré-aviso nem dó. Perguntei-lhe pela mãe, e ela respondeu, literalmente, "Não está comigo", e deu um enorme arroto. Aquela menina era coisa para uma pessoa ter vontade de meter na mala e levar para casa. Procurei a mãe nas outras cabines, mas nada. Ajudei-a a sair da sanita e, naturalmente, ela pediu-me que a limpasse. ("Tenho o rabo sujo".) Não só limpei, como também a vesti. Enquanto o fazia, ela disse-me: "A minha mãe é muito gira". "Que bom que deve ser, ter uma mãe gira", respondi à toa, pasmada com o tempo que já havia decorrido desde que a mãe-gira não havia sentido a falta da filha-mais-uns-segundos-deste-amor-e-levo-a-para-casa. "Sim. E é mágica", continuou ela, o que me pôs a pensar que de certeza, pois só uma mágica está tantos minutos sem saber de uma filha daquela idade sem se preocupar ou sequer lançar o alarme no restaurante. Foi quando entrou uma mulher alta, farta, cabelo preto e frisado, óculos de massa grossos, e exclamou, tranquilamente: "Ah, estás aqui...". Ao fim de, seguramente, dez minutos.
(Dez minutos de desaparecimento de uma criança minha com aquela idade, e até a aviação civil já estaria a sobrevoar o restaurante.)
(Mas eu sou diferente.)


Post em tempo surreal

Mãe

06/05/2017

unhas amarelas

Entrei, pontual e opaca, eram as horas combinadas e marcadas no compasso da agenda, um bocado de vazio naquele meu bocado de vida.
Peguei nos mostruários, sabendo de antemão que era vermelho o que queria ter nas mãos, encostei um amarelo aos dedos, disse ela
Ah, não, amarelo não, minina. Minina não vai pôr amarelo,
e eu que não, que era uma vontade não bem minha, um desejo incontido de experimentar,
mas já passou.
Pus o dedo indicador debaixo de outro amarelo,
Então e este?,
ela convicta nada convencida,
Ah, não, minina.
Estás triste, minina?, ela a perguntar-me enquanto me tingia as unhas de vermelho-pouco-amarelo.
Podia ter optado por um sorriso amarelo, podia, sim, podia, pois. 
Não,
e dei-lhe o meu melhor vermelho-inverosímil.