23/11/2017

And that awkward moment # 41

em que, totalmente à toa, desencadeias uma reacção em cadeia, que se te contagia, e parece que, numa sala cheia de adultos, é possível que a concentração e o saber estar vão com os porcos em menos de um pum?
Aquilo do efeito dominó.
Alguém lê uma frase em Italiano, vengo in treno.
Em vez de treno (comboio), lê trenó
(Até aqui, tudo bem, toda a gente se engana, e ninguém se ri dos erros de ninguém.)
Mas a parva da mulher diz, Pai Natali, Pai Natali! [Bicha do Demónio, aos 03:03']
Depois, foi o fim do mundo (não em cuecas, vá lá). Começou na miúda — é mesmo uma criança, tem vinte anos — que estava ao meu lado esquerdo. Contagiou-se à outra que estava à nossa frente. Depois fui eu. A seguir, a que estava à minha direita. Foram largos segundos em que parámos tudo o que estávamos a fazer, para nos podermos encostar nas cadeiras, agarrar a cabeça, limpar as lágrimas, respirar fundo numa tentativa de acalmia e retomar, e rir até doer. E uma sala cheia de gente, parada, à espera que aquilo nos passasse. 
Eu, que nunca fui corrida de uma sala de aulas, estava a ver que era desta. Nunca é tarde para coisa nenhuma. 


21/11/2017

It's my party and I didn't cry (yet)

Desde os quinze anos que afirmo pia e solenemente que todos os dias acordo ora com quinze ora com oitenta anos. Se os oito já foram há alguns, e para os oitenta ainda faltam bastantes, hoje pude dar-me ao luxo de acordar com os tais quinze, ou, pelo menos, com qualquer coisa de muito aproximado deles. 

20/11/2017

mmmmm, esta sensação de acordar ao domingo # 2

(Por acaso, é segunda-feira, mas já tinha usado este título e não tenho ideias para melhor. Portanto, adapta-se.)

Ou melhor, de acordar à segunda-feira com aquela macaca típica, aproveitar a onda de felzinho da hora e do dia, e livrar-me de uma carraça daquelas que já não há cu que aguente.
Pois, foi hoje.
Diana desentendeu-se comigo por eu me ter desentendido com ela. Trocámos mais mensagens de azedume, no momento em que ela, depois de ter marcado encontro comigo por mais perdi-lhes a conta algumas três vezes, desmarcou, adiou em cima da hora, enfim. 
Poupo-vos a apenas duas partes do diálogo travado via sms, mas que é composto por 22 screenshots de miminhos, que, lamentavelmente, acabam naquele tonzinho de ameaça que me põe toda louca e me leva a praticar estes revezes.


    

Além disso, Diana teve a pouca sorte de me bombardear Ai-fostes com chamadas (de atenção) várias, a última das quais às 01:32 da madrugada. E que só não me acordou, porque eu já cá ando há muito ano e tinha o som do coiso desligado, zzzzz.
Vai daí, e mesmo assim, acordei a horas decentes com uma mula de um tamanho que quase não me deixava espaço na cama, liguei-me à máquina, escrevi um mail para a Avon de coisa de doze linhas, contando com a minha assinatura, arrefinfei-lhes com os 22 screenshots, e dei uma de vítima, gemendo-me que, caso as ameaças continuassem, chamava a polícia.

Olhem, um silêncio que dói (nos ouvidos). (Cheira-me que nunca vou ter o desprazer de conhecer o pai da dita.)
(Mas pronto, e à cautela, se eu aparecer esfaqueada, degolada, estripada e ou esfolada numa qualquer valeta desta cidade, já sabem: foi o pai de Diana, ao tentar obrigar-me a ficar com uma m. de um enrolador de pestanas térmico que eu encomendei a uma empresa que responde pelo nome de Avon e me despachou este emplastro, que eu recambiei para a proveniência. Ó.)


19/11/2017

imperfeita transposição

Enquanto crianças, temos dificuldade em perceber algumas frases que nos dizem os adultos, às vezes a mãe, normalmente a mãe. A minha teve sempre uma linguagem muito metafórica, muito poética, e com ela aprendi quase tudo o que se relaciona com o coração. Até uma certa idade, não entendia capazmente tudo o que me dizia, mas sei que fixava como máxima, retinha como lei, guardava como tesouro, nem imaginando que, mais tarde — tão mais tarde quanto agora, tantos anos volvidos —, iria perceber todo o alcance daquilo que, naquele momento, me parecia quase enigmático. 
Assim foi com o desabafo "Tomara que todas as vossas dores passassem para mim". Era um espanto, era uma magia extraordinária, porém injusta, que imaginava ser possível, e se revelava impossível, aquela que a minha mãe desejava para as dores das filhas. 
Percebi muitos anos mais tarde, quando tive os meus próprios filhos, e os vi magoados, doridos, inferiorizados, perdidos. Percebi, de forma cruel e, nesses momentos sim, liminarmente injusta, a impossibilidade de operar essa transposição, a de tomar para mim tudo o que os amachucava e adoecia. Restou-me, nessas horas, a mera e pequeníssima tarefa de os apaziguar, de os defender, de os tratar — e, às vezes, nem isso, pois não era das minhas mãos sem dom que poderia sair o "milagre". 
Agora queria transpor para mim uma dor dessas grandes, que nos tomam a vida de súbito, de alguém a quem quero tão bem. Porque sei o quanto ela dói, porque sei passar por ela, porque tenho uma cicatriz igual à ferida que se abriu agora naquele coração de quem tanto amo. E, no entanto, o único "milagre" que pode sair das minhas mãos, é, mais uma vez, o de apaziguar.
Tomara que a tua dor passasse para mim, querida gandi

17/11/2017

dignidade

Fui encontrá-lo muito velhinho, tolhido pela doença que o definha há mais de vinte anos, cruel e sarcástica, de roer músculos e ossos, de deixar a cabeça intacta. Contra todas as expectativas, continua bonito, a mesma proporção perfeita em todos os quadrantes do rosto, o mesmo sorriso impossível, que a doença proíbe, o mesmo sentido de humor dos Natais da minha infância no Porto, a mesmíssima alegria por me ver chegar. Acho que nunca o tinha abraçado tão longamente, nunca lhe tinha dado tantos beijos, mesmo somados todos aqueles que lhe dei ao longo da minha vida inteira. 
Meu tio, meu querido tio. 
A afinidade é aquela espécie de parentesco que acontece por adopção, e essa pode acontecer por via do coração. Marido da irmã do meu pai, meu tio, meu querido tio do coração. 
Não me viu crescer, sequer envelhecer, perguntou se eu tenho vinte anos, numa quase gargalhada sem vestígio de confusão — elogioso, amoroso, íntimo. 
Depois, aquela sopa que teimava entornar para fora da tigela, derramando-se pelo prato afora, aquela colher que não chegava cheia à boca, e a minha hesitação — num daqueles momentos em que qualquer decisão que tomemos será forçosamente a decisão errada —, logo seguida da pergunta sussurrada,
Tio, quer que eu faça isso?
Quis evitar a todo o custo o verbo "ajudar", que tanto me consome. 
Num silêncio sem olhar, sem qualquer movimento de cabeça, ouvi dele, no mesmo tom quase mudo,
Não, filha. 

15/11/2017

Espero que não haja câmaras de filmar naquela sala

Carrego carinhosamente comigo, há três dias, um torcicolo. Ainda assim, ao primeiro dia de dores escruciantes, meti-me numa aula de GAP. A parte do A deste feliz e bem engendrado acrónimo — abdominais — pode ter constituído dos momentos mais dolorosos de toda a minha passagem por este planeta azul. Tudo sem um ai, que eu posso ser portuguesa, mas ainda sou uma senhora. 
Felizmente, o volume da música estava muito alto, e a instrutora tinha um microfone agarrado à cabeça. 


14/11/2017

Era só um enrolador de pestanas térmico

Se a minha vida não podia ser tão mais simples, um mar de rosas ou um campo de papoUlas ao vento, verdejandes e carmesantes, esvoaçando pólen alergeno em toda a sua dimensão e capacidade? Podia, mas já não era eu.
Num exercício conjunto, vamos todos supor que eu quis, um destes dias, vir a ser possuidora de uma coisa estética, agora não interessa para aqui o quê. Ora, o normal, seria adquiri-la, experimentá-la na minha cobaia preferida — OK, eu — e, eventualmente, vir aqui para o buraco rasgar-lhe elogios vários, ou, quem sabe, descoser-lhe críticas ferozes. Na loucura, dava uma de blogger a sério, fazia um tutorial e explicava os meus porquês para tão arrojado passo.
Ao invés, deu-se início a mais uma novela por episódios em que consiste esta minha existência.

Ep 1 - 27 de Outubro: Farta de procurar pelo produto em dois ou três mil sites, cliquei na Avon*. Inscrevi-me no coiso, dei a minha ficha toda, para lhes dar oportunidade de encherem a minha caixa de mail com spam, e pensei que tinha feito a encomenda. Recebi então um mail lá da firma, afirmando-me que a minha encomenda tinha sido direccionada para a revendedora mais próxima da minha região. (Que é Lisboa, a pequena Lisboa, tipo a capital do país.) Isto, após ter sido informada de que a minha zona não tem revendedora disponível. (Eu percebo. Portanto, moro nos arrabaldes do epicentro.)
Ep 2 - 2 de Novembro: Apresenta-se-me, através de sms, Diana, a revendedora — que, afinal, existe, ou foi entretanto nomeada —, a querer saber se eu sempre quero a encomenda. Respondo que não, uma vez que não pretendo intermediários naquela compra (só para não lhe dizer que não estou disposta a levar mais uma seca nesta vida e ver-me obrigada a comprar mil produtos que não vou usar, só para que uma carraça me deslargue o pé), que passe bem. Resposta de Diana: Onde é que me encontro consigo para a entrega? É claro que trocámos miminhos a partir daqui, andámos à briga via sms, fizemos as pazes e acordámos a entrega para quando ela tivesse o produto consigo. Nos entrementes, diz que tem "passe da Carris", sugiro-lhe uma estação de metro junto a mim, responde que isso já é "muito longe". (E sou eu quem mora nas cucuias.)
Ep 3 - 12 de Novembro: Diana informa-me que já tem o artigo. Pergunto se quer combinar a entrega. Diana não responde.
Ep 4 - 13 de Novembro: Diana quer encontrar-se comigo. Combinamos local, depois de nos desentendermos mais uma vez — porque Diana desconhece em absoluto onde fica a cidade de Lisboa —, mas não hora. Insisto. Diana não responde.

Pergunta para queijinho: este negócio não vai acontecer, pois não?
Pronto, era só para saber se vou continuar a enrolar as pestanas com aquela bodega que parece uma tesoura que me vai cortar os olhos ao meio, e ainda me deixa as pálpebras de cima cheias de feridas da alergia ao níquel.
Beijinho bom, obrigada.

* Ninguém me paga para me calar

13/11/2017

Ela fala tanto # 19

E ainda me surpreende, ao fim de vinte anos de relação.

Conta-me do marido, recentemente desempregado. História cheia de cabelos e rabos presos, que, quando questiono para clarificar/ ajudar/ tentar resolver, esquiva-se para outros mil assuntos que estão sempre mal presos na manga e saem como cerejas. Que a filha também não encontra trabalho, que passa os dias em casa, que nem as tarefas domésticas mais básicas cumpre. (Isto, dito por outros termos, que envolvem uma taça de cereais no chão da sala um dia inteiro.) É tudo em cima das costas dela, exclui deste fardo o filho, que é a melhor coisa que lhe aconteceu na vida (isto, dito por outras palavras, que é um miúdo que não chateia, está lá na vida dele), apesar, digo eu, de já ter perdido dois anos do percurso escolar. 
- Outro dia estava cansada, telefona-me a minha Tatiana a pedir para lhe comprar um gel para refrescar os pés. 
Eu pensei que ela estava revoltada porque, numa casa em que vivem quatro e só entra um ordenado pouco mais do que mínimo, um gel para refrescar os pés deveria ser, talvez, a última das prioridades. 
- Eu ainda lhe disse, Ó Tatiana, eu estou cansada.
Eu pensei que ela disse à sua Tatiana que estava cansada para se esquivar, reforçando a evidência da impossibilidade de lhe comprar um gel para refrescar os pés.
- Ainda por cima, levei que tempos a encontrar o gel, que havia lá uma data deles, todos iguais, e ela queria um especial. 
Eu não pensei. Morri.
- Ela precisa daquilo, porque os ténis lhe aquecem muito os pés, e aquilo é tudo ténis de 70 euros o par.
Já nem precisava deste golpe de misericórdia. Mas olhem, ressuscitei e posso ter sido acometida de um bocadinho de Tourette, porque saiu-me isto assim:
- Eu só gostava de saber o que é que passa pela cabeça de uma pessoa que não trabalha nem estuda, não faz nada o dia inteiro, tem o pai desempregado, e telefona à mãe, que é a única pessoa que sustenta a casa, a pedir um gel para refrescar os pés. 

Fica a questão. 

12/11/2017

De onde se denota que LB é uma pessoa extremamente informada e também fala de assuntos

Só que depois há uns senhores que escrevem para a Televisão, colocam na mesma frase as palavras "corpo" e "sepultura", e pronto, temos o caldo entornado, ou o pensamento bloqueado num único momento da notícia (provavelmente o menos relevante).



Quem é que guarda o guarda?

Hoje ia lá nos meus pensamentos, conduzindo Rosinha por esta cidade azul afora, quando, à entrada de uma rotunda, após abertura do sinal verde, ouço uma sirene, paro, e me passa a mota de um senhor PSP do Trânsito, feito parvo a sorrir-se para mim, tipo a achar-se, por me ter feito parar quando eu ia na minha mão, tipo a gozar o prato de ter, basicamente, usado da sinalização de emergência por não estar para ficar parado no semáforo vermelho, como lhe competia, a alargar ainda mais o cu gordo.
Fiquei revoltada. 
Sei perfeitamente que não se deve tomar o todo pela parte, e que o todo é igual à soma das partes, e que, as duas máximas juntas não formam um axioma em si mesmo considerado, tendo em conta que uma é que é, ela sim, um axioma, sendo que a outra é apenas uma regra de convívio social, ou coisa assim. [Não sei por que é que escrevi este parágrafo.]
Mas acontece que ainda há menos de quarenta e oito horas, noite escura das seis da tarde, indo eu, indo eu, a caminho de sei lá eu, sabendo que havia de virar à esquerda ali pela Defensores de Chaves em direcção à República, mas errando cabal ou tangencialmente na transversal para o fazer, eis que me apercebo de estar a praticar a contramão, no momento em que visiono os faróis brancos de uma comunidade automóvel apontados na minha direcção, e, simultaneamente, um sinal de proibido, também a apontar para mim. Nesse mesmo segundo, surgiu-me do céu, caído aos trambolhões, o quê? Nada menos do que um polícia! Hã? Sou ou não sou a maior vacuda do pedaço? Mijinha fora do penico, zás, Senhor Lei logo ali a dar por ela (por mim, no fundo). Conformada com a possibilidade de levar uma multa das boas para casa, deitei-lhe para cima aquele sorriso com mil significados — de entre os quais já-fiz-merda-e-sei-o —, e não é que o agente autoritário se transformou subitamente em polícia sinaleiro [oh, pá, tenho tantas saudades...], se prostrou no centro do cruzamento, mandou parar o trânsito de um lado, depois do outro, só para a menina fazer a manobra e voltar para a sua mão? 
Portanto, cada um faz o que quer. Com prejuízo ou benefício da pessoa humana. 


10/11/2017

Eu tenho problemas com tudo # 29

Sei que entrei naquele parque de estacionamento ainda não eram 4:30 da tarde. 
Tirei o bilhete à entrada, não só porque não havia Via Verde, como também porque, ali, as duas primeiras horas são grátis, e estacionei Rosinha. Fui à minha vida e voltei. Entre tirar o bilhete e voltar ao carro não passaram mais do que quinze minutos. 
O bilhete não estava na mala, naquela bolsa específica onde sempre os ponho, já por causa das coisas. Não estava na outra bolsa. Não estava na do fecho. Não estava entalado no porta-moedas. Não estava misturado com os mil papeis e o lixo todo do interior da mala. Não estava no tablier. Não estava no chão do carro. Não estava no tecto do carro. Não estava neste Mundo. Como um anjo alado, fora-se. Sumira-se no ar.
No ar, também o meu suor. Passei, então, ao Plano B: despejar a mala. Porque tinha que ser na mala que o tinha posto. Vi bloco a bloco, agenda a agenda, papel com anos a papel com anos, e nada. Parei para respirar, saí do carro, tentei raciocinar as possibilidades várias para explicar aquele sumiço. E também as que se me apresentavam, caso não encontrasse o bendito: qual é a tarifa máxima diária — que é o "preço" do bilhete perdido, conforme sabeis —, tendo em conta duas horas grátis? Quis multiplicar zero por zero, para não piorar a minha situação, mas piorei. Sabia perfeitamente que: 
A. Encontrava o cartão;
B. Não encontrava o cartão:
    i) Pagava a tarifa máxima diária;
    ii) Fazia uso de eyelash power e o responsável lá se compadecia e abria a cancelinha;
  iii) O responsável era uma mulher, pagava a tarifa máxima e ainda era enclausurada numa catacumba qualquer, despojada de todos os meus bens e raciocínio lógico.
Meti-me corredores afora, a pé, até à entrada do parque, pensando na possibilidade de o ter deixado cair quando o retirei da coluna. Mas também não estava lá. 
De volta ao carro, despejei a mala pela terceira vez, procurei de novo, liguei a lanterna de Ai-fostes, procurei em todos os recantos possíveis e imaginários — esses mesmos, que proporcionam posições à pessoa de uma elegância digna de registo fotográfico —, mas o c. do bilhete não apareceu. 
Toda eu era suor, desânimo, raiva e vontade de chorar de abandono e frustração e tudo o que assiste a uma mulher nestas horas. (Ninguém nos dá o nosso devido valor.)
Desisti. Há sempre um momento, em todas as lutas, em que o guerreiro, por mais bravo que seja, baixa os braços. Se não há, devia haver. Eu baixei os meus ao fim de quinze minutos de enfardar pancada.
Arrastava-me, pesarosa, para o gabinete do segurança, quando vi um bilhete no chão, a uns cinco metros do meu carro. Hora de entrada, 16:24.
Se não era o meu, passou a ser. Naquele momento, perdera todo o civismo, e tinha como único objectivo de vida sair daquele parque. Se fosse outro o dono daquele bilhete, paciência, pusesse-se ele de rabo para o ar dentro do carro dele, e tratasse de encontrar outro bilhete, de outro avoado da vida. 
Depois até segui as setas que indicavam a saída, mas, quando alcancei a rampa para subir para o exterior, elas estavam desenhadas em contramão. Posso ter saído pela entrada, sim. Mas saí. 


09/11/2017

Story of my life

Aquele cliente que demora a pagar.
Depois pede um acerto no trabalho. Coisa de nada, apenas uns pormenores de formatação de um documento do Word. [Vamos acreditar que existem pessoas que não sabem formatar um documento do Word/ não têm tempo para formatar um documento do Word/ ocupam uma posição demasiado elevada (nomeadamente a atender telefones, receber clientes à porta e servir cafés na sala de reuniões) para formatar, assim à toa, um documento do Word].
Recebe o trabalho reformatado.
E não paga.
Depois pede segundo acerto, que afinal não era bem aquilo, que a primeira versão [por mim acabada e por ele tentada alterar] é que estava bem, mude aqui, mantenha ali, tanta cocozice, só faltou mandarem-me meter em Comic Sans, a ver se eu me ria um nico, ha-ha, essa foi boa. 
E continua sem pagar.
A pessoa emite a factura, só naquela.
Passam semanas. 
Pede a terceira modificação, desta vez uma adenda.
Adendei tudo, mandei tudo adendado, e ainda adendei a pertinente pergunta Para quando?
Vou esperar sentada, que isto parece a história do meu biquíni, ou a das calcinhas amarelas, que vem a dar no mesmo, só que com requintes de malvadez. 

(Eu sou aquela pessoa que tem a mania que é esperta, mas que um dia cai de boca no conto do vigário. Como, aliás — a ver se me consolo —, a grande maioria dos portugueses.)

06/11/2017

A Minha Paixão

Fui ver ‘A Paixão de Van Gogh’. 
É só para saberem.

Não faço link para o trailer, porque recomendo vivamente a quem ainda não viu o filme que faça como eu fiz: não vi nada, fui “às cegas”, e a surpresa foi muito maior e melhor. [Pronto. Agora tudo a googlar ‘a paixao de van gogh trailer’.]
Também vos digo que não vão se:
1. Sois epilépticos (a sério);
2. Não gostais de desenhos animados;
3. O Movimento Impressionista vos impressiona;
4. Não considerais cinema tudo o que saia da comédia romântica norte-americana;
5. Preferis comer pipocas de microondas. (Por acaso, não comi. E tive a sorte de assistir numa sala civilizada.)

05/11/2017

Cuidado com os acrónimos

Ora, se eu já estava moída da minha musculatura por ter ido quarta, e por ter ido sexta, o que é que fui lá fazer ontem? 
Quis experimentar uma modalidade, que dá pelo nome de GAP, meia horinha, pareceu-me coisa de bom tamanho, rápida e intensa. 
Mal sonhando que GAP é o acrónimo de glúteos, abdominais e pernas, hahaha. Ha. Ha. Ha.
O instrutor, daqueles magros cheios da genica, gritou ao microfone que puséssemos caneleiras, que havia de um e de dois quilos, "Eh, turma, tudo a pôr de dois quilos!", vai a esperta, não querendo ficar atrás não sei de quê, e leva as de dois quilos lá para o colchão. À cautela, porque o seguro morreu de velho e a providência ainda cá anda, levei também as de um quilo, dando a entender que ia pôr todas. Mas pus "só" um par: o de dois quilos, ya. 
Lembro-me das frases gritadas, "Turma, levanta a perna!", "Agora insiste, turma!", "Agora pequeninos, lá em cima!". Só faltou chamar-nos "Seus maricas". Lembro-me também de ter arrancado uma caneleira, porque (ainda) sentia a perna a arder em flamas até à cintura, e de ele ma ter recolocado à força. Depois puxou-me a perna para cima e, quando a largou, ela caiu, inanimada e desorientada.
Hoje acordei e falecera. Partes de mim — glúteos, abdominais e pernas, designadamente — feneceram talvez de noite. Não estou sequer capaz de subir para o passeio, quando atravesso a rua. Pondero andar só pela estrada. Desconheço todo o mecanismo envolvido no acto de subir escadas. E de descê-las. Uma simples ida à sanita, urinar, digamos, é tarefa que me recuso a cumprir. Não me interessa, prefiro rebentar.
Como se não bastasse, hoje fui meter-me a zumbar uma hora, e depois mais outra hora nos alongamentos. Não tenho um único músculo inteiro, nem sequer nos maxilares, drivados daquele esforço. Tenho torcicolos por todo o corpo. 
Hoje odiei toda a gente graciosa e elástica. 
Para a semana há mais (caneleiras de um quilo em cada chispe e já gozam).


04/11/2017

Tenho medo

A Uva e a Filipa (não sei se por esta ordem, mas foi por esta que as li) já disseram tudo o que me vem atravessado na garganta, no peito, no coração, nos últimos dias. Não tenho muito mais a acrescentar, a não ser aquilo que sinto em mim. Este medo de, um dia, acordar e ser mãe destas pessoas:

Daqueles ali ao fundo

Ou desta

Daqueles, que continuam ali

Ou deste palerma

Daqueles mesmos, sempre os mesmos.
Quantos são, mesmo?

Ou deste, do pull overzinho ao ombro

Daquele, da calça bege,
ou deste, da fralda de fora

que agora até aparece a compor a toilette

Desta grande maluca do Halloween,
ou deste casaleco, todo aninhado para o espectáculo

Tenho medo de um dia acordar e ser mãe da conivência, do silêncio, da compactuação, do conluio, que são, afinal, todos irmãos da cumplicidade e da co-autoria. Desculpados pelo medo, impassíveis e, no limite, indiferentes. 
Este meu medo é todo ele egoísmo, é todo ele reflexo, é todo ele hipotético: então e se o rapaz que está a ser espancado fosse o meu filho? Era assim, era com "gente" desta, a assistir e a filmar?
[Crucificava-os.]
[Um por um.]
[Com as minhas próprias mãos.]


03/11/2017

Nova noção de "treino"

Se a pessoa for ao supermercado de manhã e carregar para o carro oito quilos de compras, e depois carregar o mesmo peso do carro para casa; se for fazer uma prova de esforço à tarde; se for dançar durante uma hora à noite, pode considerar-se que treinou três vezes durante o dia?
Ou nenhuma?


Metas que eu atravesso

Uma hora e quatro, eu não disse?

À frente de um verdadeiro pelotão

01/11/2017

Foi assim que aconteceu

Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia. 
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser. 

31/10/2017

O que é que eu fiz???

Agora a sério, o que é que eu fiz, que me voaram daqui três ou quatro seguidores nos últimos tempos?
Ando a ser ainda mais controversa/ enigmática/ irascível?
Menos interessante/ sedosa/ brilhante?
A concorrência esmaga-me/ trucida-me/ electrocuta-me?
Está mesmo tudo a ir embora da blogobola? [Socorro, não quero ficar sozinha a pregar!]
O que é que explica que os seguidores diminuam, mas as visitas aumentem? [Stalkers?]


(Por falar nisso, tenho para aqui um seguidor que entra e sai, e fica e vai-se embora, e volta e torna — que mais não é do que o milésimo nick de uma senhora lá do sul, que perde demasiado tempo a criar bonecos para saber em tempo real quando é que eu posto posta nova. Mulher, eu já percebi há qu'anos que esse senhor és tu. Se queres vir a correr cá ler quando há coisinhas novas, sem teres que criar mais outro perfil, faz assim: segue em anónimo, boa? Assim, eu nem fico a saber que tu és tu e que passas cá a vida. De nada, vai em paz.)


Ponham-se no meu lugar # 3

Ela arranja-me as unhas de duas em duas, de três em três semanas, dependendo, subjectivamente, das (minhas) luas e, objectivamente, do crescimento das faneras. Portanto, não trabalha para mim, mas também não trabalha comigo. É assim um híbrido.
Pediu-me que lhe visse uns papeis lá do local, pois parece que lhe andam a comer folgas, não só por não lhas proporcionarem, como também por não lhas pagarem. E eu, ai que sim, manda-me lá isso, enquanto ela limava, podava carnes com o alicate e me metia as mãos no forno. No fim, como sempre, paguei o trabalho dela e ainda a agraciei com uma moeda redonda. 
Pim, pim, pim, dezoito notificações no whatsapp, e vai a gulosa e depara-se com nada menos do que dois textos corridos ecrã afora — num Português relativamente ininteligível, dado que ela não é portuguesa —, e mais dezasseis fotografias de documentos. 

Vamos lá a ver: 
1. Ela presta-me um serviço;
2. Eu pago-lhe o serviço;
3. Ela pede-me um serviço;
4. Obviamente, não mo pagará;
5. Ela trabalha para sobreviver;
6. E eu?
7. Hã?
8. Trabalho para aquecer?
9. É uma terapia ocupacional?
10. É suposto fazê-lo de graça, qualquer coisa que me levará, no mínimo, duas horas a analisar e a rasgar uma opinião minimamente capaz?

Pôxa.


30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


E o teu primeiro blog, qual foi?

Aquele que te fez ler, e ler as postagens até ao início dos primórdios dos primeiríssimos tempos, e reler, e esperar pelo próximo post, e rir e chorar com o autor dele, e ter uma curiosidade imensa em saber quem estava atrás das palavras, e, no limite, te deu o clic e te fez pensar "Eu também sou capaz de uma coisa assim"?

O meu foi Mulher à beira de um ataque de nervos (vão-se lá perceber os meandros das nossas pesquisas, os acasos dos nossos meandros). Não foi há tantos anos quantos os blogs mais antigos e sobreviventes já contam, mas, ainda assim, foi há muitos anos, talvez nove ou dez. Era o blog de uma jovem mamã, com um filho pequeno, a quem nasceram entretanto mais duas filhas, a última das quais em casa. Lembro-me de ter rido até às lágrimas com um post sobre calças saruel ("Socorro, tenho o pipi descaído", foi só a melhor descrição daquela peça de roupa), e de ter chorado até às lágrimas com a tristeza da perda de um dos gémeos. Um dia, a autora partiu para o Dubai, fechou o blog e nunca mais o reabriu. Espero, sinceramente, que esteja bem e feliz, porque é daquelas pessoas que merecem mesmo.
Depois deste, atrás deste, em consequência deste, vieram o Salsifré Desgraçado e O piston é a cabeça do homem
E depois, outros e mais outros — uns que ficaram, outros que foram ficando, outros ainda que se foram (porque fecharam; porque eu os fechei). Assim como, certamente, o meu fica e depois também se vai. 
Então e o teu? Qual foi o do tal clic?



29/10/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 4

Fui para praticar run walk run, mas limitei-me ao walk, dado que a multidão era compacta e os caminhos demasiado estreitos e sinuosos. Não lembra ao menino traçar um percurso que inclui degraus, pedras soltas, raízes de árvores que levantam o piso, estacas de madeira, etecetera. É uma vergonha que uma zona como a do Parque das Nações, excelente para caminhadas e corridas, esteja desleixada àquele ponto. Eu vi uma senhora cair, já que estamos a falar nisso. E sim, tropeçou na calçada, elevada pelas raízes. Isto não quer dizer que considere o percurso da Avenida da Liberdade melhor do que este, mas quer dizer que este é só péssimo, não sei se já disse.
Ainda assim, foi muito bom. Melhorei o meu tempo, embora desconheça como é que ainda levei mais de uma hora. (Suspeita-me que são as outras que não me deixam passar, e estragam-me os tempos.)


Tenho que treinar mais, está visto. A ver se, da próxima, chego aos 59 minutos. 

Pontos altos do evento:
1. A aparição do Tony Carreira, aquele mito da plagiação, que eu, sinceramente, ainda não percebi quem é que ele tanto plagia. Não conheço uma única melodia dele, e, eventualmente, nenhuma de nenhuma das vítimas dele. Fez um playback mediano, imitando-se a si mesmo, foi medianamente aplaudido, saiu como entrou: médio;
2. A cruel dificuldade em pronunciar os LL de um apresentador, que insistiu por três vezes em chamar ao palco um senhor de nome Luís Lopes. Acredito que não fui a única que me lembrei de Felisberto Lalande, aquele boneco delicioso do Herman José;
3. Um polícia, sabem? Um daqueles senhores da PSP, que estava a meio do percurso a sorrir para as fêmeas todas, e que mereceu apupos, piropos e gritinhos vários. Só criminosas;
4. Este sol. O mini-bronze que foi possível imprimir na pele, quase em Novembro. Este azul;
5. (but not least) A recolha de cento e dezassete mil e não sei quantos euros para pesquisa/ tratamento/ prevenção/ combate do mal, que é cancro — tem esse nome — e ainda mata.  

Já o disse aqui uma vez, e repito: não me chocaria que o lema da campanha fosse "Quem tem mamas, tem medo". 
A sério. Ainda agora estou para perceber o ar de falta-me-a-pachorra de algumas pessoas, à passagem das participantes da Corrida. Mulheres incluídas, claro.

28/10/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 59

Por isso, amiúde, vou sozinha.
Queria, ou precisava, de substituir os meus sapatos de salto pretos, Cubanas* de meu coração, marca que, pelo menos para o meu pé e para a minha cabeça, este ano não fez nada de jeito. [Diga-se que eu estou para a Cubanas* como estou para a Fly London*: em cinquenta pares, encontro um pelo qual me apaixono para o resto da vida (deles).] 
Pesquisei na nettinha, encontrei o que queria — confortável e bonito — na Hush Puppies*. Só mesmo eu para acreditar que uns sapatos tão altos, apesar da compensação, possam ser confortáveis. Sômalouca. 

Assim mesmo, avancei para a grande superfície, sabendo a priori que a marca tem uma loja numa das pontas de um dos corredores. Entrei na Geox*, sem perceber que não estava na Hush Puppies*, obviamente que não encontrei o que procurava, escolhi qualquer coisa de semelhante, obriguei a antipática seca senhora a ir buscar-me quatro pares diferentes, e lá vim, porta fora, vá lá que não com eles calçados. Por acaso, tenho a dizer em minha defesa que não errei por muito, porque a Hush Puppies* é, de facto, na ponta do corredor, simplesmente na outra ponta. Já estava no carro quando fui acometida por um daqueles flashes-oh-oh, era uma luz, era uma voz que me dizia Hush hush Puppies, hush, hush... [ao som de Ice ice baby, estão a ver?]
E foi assim que, voltando à superfície, no espaço de quinze minutos, comprei os sapatos que queria — lindos e, obviamente, não confortáveis, o que não significa desconfortáveis, não sei se me faço entender —, troquei os outros por umas sabrinas (após ter obrigado a antipática seca senhora a trazer-me mais quatro pares) e despejei a carteira por uns tempos largos. 


Já recuperada, porém, hoje, derivados do calor, sou ser humano para ir ver de uns botins, que isto, parecendo que não, não tarda aí a neve, e não quero estar desprevenida. 




Entre les trois, mes pieds balancent
Dêem-me lá uma opinião, pf.

* NMPPI

27/10/2017

Eu tenho problemas com tudo # 28

Quase em Novembro, e o assunto ainda na ordem do dia.
Era uma vez um biquíni, lindo de faleceri [ponto positivo], que parecia azul no online, pese embora seu padrão fosse de ramadas. Porém, assim como existe padrão de leopardo em azul e em rosinha, a pessoa considerou seriamente a hipótese de alguém mandar estampar ramos de sei lá o quê em azul-azul-da-cor-do-céu. Depois dessa, ponderou ainda outra questão, que se prendia com o valor monetário a despender no dito [ponto negativo], mas a paixão assolapava-a e clic no coiso, clic no tamanho, clic até ao fim. Anunciava quatro a cinco dias para a chegada a meus braços, a mim toda, mas é que nem levou 48 horas a que tal acontecesse [ponto positivo]. O entregador era a besta do costume [ponto negativo], mas o querido bebé caiu-me que nem uma luva [ponto positivo]. Afinal era verde, ao contrário do que “dizia” a imagem [ponto negativo], mas eu amei-o como se fosse azul [ponto positivo]. Quando o estreei, apercebi-me que o chumaço de uma das copas bailava dentro dela, criando uma ilusão de tumulto/ caroço/ bolso cheio de rebuçados numa das minhas meninas [ponto negativo]. Dirigi-me ao local (escritório?) onde se processam as vendas, isto estávamos a 19 de Setembro, expus a minha mágoa, mostraram-me outro exemplar igual com vista à troca, apesar de o meu estar usado [ponto positivo], que, no entanto, tinha o mesmo defeito na copa oposta [ponto negativo]. Deixei o meu telemóvel, email, só faltou deixar as medidas B-C-A, após promessa de arranjo ou devolução do dinheiro [ponto positivo]. E as semanas passaram-se, sem um único contacto [ponto negativo]. No dia 11 de Outubro, mandei um mail para os serviços da marca [não usam telemóvel, ora pega lá outro ponto negativo], perguntando pela saúde do meu biquíni. Recebi resposta dois dias depois (!?) [ponto negativo], dizendo que não era ali, era noutro sector, pois aquele não vendia biquínis (oh, wait!, não é no mesmo local? Não recebem no mesmo computador? Ai, que parva que eu sou, afinal há a sede em Miami e uma célula no Rio de Janeiro), e que, portanto, tinham reencaminhado para a morada certa. Um bocado farta de esperar, meti-me nas tamanquinhas e falei a um contacto comum (o raio da merda disto tudo é que o Mundo é um berlinde, e lá está, aquela cena da Teoria dos Seis Graus de Separação, olha, aqui eram só dois), e, nem de propósito, no dia 16, recebi um mail da responsável pela marca, comunicando-me que o bendito fantástico tinha ido para arranjo, qual bota nova a precisar de meias solas [ponto neutro].
Estamos a 27. [Ponto negativo.]
Isto, com sorte, ainda o uso este ano. [Lágrimas de sangre.]

Também contei mais negativos, se a matemática não me escapa.



Ainda na senda do post anterior

Socorro, mamã, pensei melhor e não quero ser blogger!

25/10/2017

Post interdito a machos # 5

Expliquem-me, por favor, como se eu fosse superiormente inteligente — que eu aguento — esta (já não assim tão) nova (mas...) moda das pestanas postiças, das extensões de pestanas, enfim, daquilo. 
Vamos por partes: eu sei, e ainda me lembro, que também, embora por uma única vez, permiti que me colocassem extensões de pestanas. Foi há três anos, eu era demasiado jovem, foi um desaire, foi um mau passo que dei na vida, foi uma questão de boa educação — não negar uma prenda de aniversário —, foi uma curiosidade que não matou a gata, e, já que falamos nisso, ainda bem que arrependimento não mata. Porém, em minha defesa tenho a afirmar que, para além de todas as desculpas esfarrapadas para o ter feito, ainda tive o discernimento de solicitar a quem mas colocou que procurasse que o resultado final ficasse o mais natural possível. 
Agora, na actualidade, o que se assiste amiúde, é ao quê? Mulheres com um par de vassouras/ capachos/ tapetes da entrada/ pêlos daqueles nas pálpebras, de fazer corar de vergonha virginal a traveca de Almada. Umas há que não usam qualquer maquilhagem, e zás, um par de piaçabas em cada olho. A sério, o que é que aquilo significa? (Eu tenho pestanas?) Qual é a intenção? (Não precisar de pôr rímel?) Onde é que pretendem chegar? (A um olhar penetrante/ enigmático/ cabeludo?). 
Isto, parecendo que não, é coisa para dar azo a diálogos do seguinte teor: outro dia fui a uma loja e fui atendida por uma pestanuda-postiça. A funcionária que procedeu ao pagamento era uma outra,  e perguntou-me se tinha sido atendida pela Raquel. E eu "Pois, não sei. Era a das pestanas"; E vai ela: "Postiças"; E vou eu: "Sim, extensões"; E vai ela: "Falsa"; E vai ainda: "Era lourinha?"; E vou eu: "Falsa". Então, o que é que se conclui desta história toda? A Raquel é loura falsa e usa pestanas falsas. Fake Raquel.

24/10/2017

Vinte e um, meu amor

Agora que penso nisso — como se fosse possível nunca ter pensado —, foste o primeiro nascimento de gente a sério a que assisti, e logo acontecido em mim. Se calhar, já não te lembras, mas vieste num dia de sol e luz, e eu, que andava iluminada há nove meses de amor por ti e de ti, fiquei deslumbrada no momento em que surgiste, tão bonita como eras já quando aparecias na ecografia, tão minha como te sentia desde a caneta com duas risquinhas anunciando a boa-nova.
Vou ter outra menina
comuniquei ao Mundo, e assim foi, e assim fiz.
Filha mulher
os brasileiros é que sabem o Português correcto na hora da poesia.
Filha mulher.
Ainda hoje acho que foi por eu ter querido assim que vieste assim, linda, saudável e robusta, de coração inteiro e alma boa. Não queria que fosses diferente, nem num milímetro dos teus tantos. Só peço à vida todos os dias que sejas sempre feliz, e que ela te seja branda e clemente, e que nunca te arrede desse caminho tão bonito que escolheste para ti.
Para mim, guardo apenas a certeza de que o amor que trago dentro, há muito mais de vinte e um anos, é o mesmo que trarei até ao fim dos meus dias. E, depois deles, eternamente, inalterado.


23/10/2017

Mãozinha boa

Vinha de fato de natação vestido, chinelos de borracha, touca, e trazia um bebé embrulhado num lençol de banho, cuja ponta lhe cobria a cabeça. Pousou-o na bancada, constatei que era um menino e avaliei a idade para cinco meses. No momento em que a criança olhou para mim, abriu os olhos muito pretos, esticou o corpinho num espasmo de alegria e soltou um grito, ao qual respondi, "Olá!". A mãe perguntou-me, então: "Está muito frio aqui para eles, não acha?", ainda vestida com roupa molhada, saída de água destemperada, o corpo num arrepio, preocupada em aquecer o filho. Com receio de parecer o tipo de pessoa que mais me enervava quando tinha os meus pequeninos — os sentenciadores da verdade absoluta, os sabichões da pedo-puericultura, designadamente aqueles que nunca tiveram filhos —, mas levada por um impulso irreprimível, sugeri, "Veja as mãozinhas. Se estiverem quentes, ele não está com frio", mas, em vez disso, toquei eu na pequeníssima mão, que se agitava na minha direcção, afaguei-a breve e levemente, envergonhada pelo abuso, mas preenchida de vazios vários, comuniquei "Ele não tem frio, tem a mãozinha boa. Isto é tudo genica", pois ele continuava numa agitação, dobrando gargalhadinhas de bem-estar e alegria genuína, contagiosas — que me contaminaram no silêncio que me impus, arrumando a roupa suada da dança no saco. Disse adeus à mãe e adeus ao filho, deixei que a porta do balneário batesse nas minhas costas com estrondo, e voltei.


20/10/2017

Por mais que olhe, continuo sem perceber

SIC Notícias, 18.10.2017

E não, o mau gosto não é meu.

Tranquilidade

Tinha andado todo o dia arredada, lá na sua vidinha ocupada de afazeres vários e tantos, agenda lotada de minudências e maiorências, tudo muito alheador e incapacitante de se actualizar. No telefone sobredotado, de vez em quando uma notificação, as redes a ferver, ai, as redes, por tudo e por nada movidas a sangue e suor, havia de ser assunto de lágrimas, já vejo, já vejo, agora não posso, ó Gabriela, despache lá isso, que eu tenho pressa, levo o verniz a secar pelo caminho, abano as mãos ao pé do ar condicionado do carro e ficam boas até sair, já na garagem. Estou aqui farta de receber mensagens, castigam-me pelo sms, pelo whatsapp, pelo face, até no insta já tenho coisas, diz que arde tudo lá para longe, e eu aqui sem saber.
Passagem breve pelo cabeleireiro chique do centro, no supermercado, mesmo ao lado, estão a pedir comida e artigos, passa rápido, senão ainda vêm atrás dela, só quer ir comprar a espuma do cabelo, sem ela é como se estivesse nua, não pode sair assim para a rua. 
No fofo do roupão branco, banho morno tomado até aos cabelos, refeição leve deixada preparada pela outra — como é que ela se chama? Sei que também tem um nome de novela brasileira, acho que é Simone, ou é Elis? Cantora, então, mas brasileira, pois —, tem que ser leve, pois leve é a vida e o Mundo é dos magros e daqueles que não precisam de comida, comer é coisa de pobre. Plasma ligado, as notícias dizem o mesmo que as redes, morreu outra vez tanta gente, o fogo levou-lhes a vida, os pais, os filhos, a casa onde moravam. Ouve falar de luto nacional, o segundo em quatro meses. Mas que aborrecimento. E agora? 
Tem que dizer alguma coisa a esse Mundo, não vá passar por insensível, ou, pior que tudo, ignorante. 
Abre a página virtual, cola-lhe a bandeira do país, não verifica se está graficamente correcta, mas o que é que isso interessa, se o que interessa é, apesar de tudo, o pesar? Ao lado, cola-lhe a fita do luto, escreve a frase que nunca nada diz, mas lhe parece dizer tudo, "Não há palavras", pois não há palavras precisamente para quem não as encontra por não as procurar na alma, desliga o PC e adormece, finalmente em paz.

19/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 9

Que cada chamada para a NOS requer uma preparação mental a níveis olímpicos, porque acontecem várias coisas, eventualmente tudo, menos um telefonema?
1. Ligo e aguardo; atende-me uma gravação, feminina voz animada, que me dá as boas vindas à NOS, e me apresenta diversas opções, de entre as quais "falar com um assistente", que é a que escolho, e aguardo; a gaiata logo me avisa que "o atendimento por um assistente terá um custo até ao máximo de um euro, dependente do seu tarifário (?)", e aguardo; A Voz avisa-me que [para além de pagar até ao máximo de um euro, dependente do meu tarifário], a minha chamada vai ser gravada [suspiro de alívio, porque já se sabe, antes escutada do que ignorada] e aguardo;
2. Metem-me Freddie Mercury aos brados pelos ouvidos adentro. Diz que So don't stop me now | 'Cause I'm having a good time, having a good time | I'm a shooting star leaping through the sky, e aguardo;

   

metem-mo em repeat, só aquele nico da canção, danço um tico, morre-me o Teco de pancada, e aguardo; desconheço qual o critério quanto à escolha da música — embora a adore —, quanto à passagem [minutos 00:00:30 a 00:00:48, porquê aqueles 18?], quanto ao repeat da cena, e aguardo; é uma pastilha/injecção/tratamento de choque que se repete, em repeat, um mínimo de dez vezes [enquanto o assistente, do lado de lá, acaba o café/cigarro/serradura na colega, e A Voz me avisa que estou à espera há 55 segundos e me dispõe a possibilidade de desligar, ou ligar 8 e aguardar — hahaha — que me confirmem o número (?)], só não corto os pulsos porque o assistente não faz uma aparição presencial, e aguardo;
3. Sou atendida pelo assistente, que se identifica, mas que, em cem por cento das vezes que falamos, tem o som do telefone tão baixo, ou fala tão baixo que pondero se não estará a comunicar-se comigo a partir das catacumbas lá do call center; identifica-se, por isso, com um nome inaudível, invariavelmente David (?), Paulo (?), João (?) + Simões (?), Matos (?), Silva (?), ou algo rápida e facilmente esquecível, mas que, de toda a maneira, não ouço; identifico-me igualmente e ele reclama que não me ouve, solicitando-me de forma enfática/ impaciente/ imperativa que fale mais alto; digo-lhe ao que vou e começa por me perguntar se já li a minha factura; mau; ponho-o a explicar-me os tintins todos, um por um; ouço cerca de 50% daquilo que sussurra, apesar de me ter enfiado numa câmara de silêncio/ sala de emissão de rádio/ bidon fechado à chave;
4. Pergunta-me em que mais pode ser útil [suspiro de alívio porque a tortura está no fim]; respondo que em mais nada, porque já foi muito inútil.



16/10/2017

The girl next door # 13

Depois admiro-me que me riscam o carro. 
A sério, esgotei a paciência para gente parva. Não sei se é o Mundo que está contra mim ou se sou eu que estou contra o Mundo.
No andar abaixo do meu mora uma louca. Já falei dela aqui. E aqui. E, pelos vistos, também aqui
(Se calhar, ando a falar demasiado nela.)

Recebi isto:


E este ano ela leva com isto:


Pronto, é só. 
(Havemos de ter desenvolvimentos.)

15/10/2017

Momentinho louro # 5

Acabei de dançar e preciso de um duche. Estou no balneário do ginásio novo, aquilo parece-me tudo um luxo perto do outro, onde estive — também a dançar — anteontem. [Não consigo decidir entre um e outro, aquela cena do coeur balance.] Tenho espaço, tenho ar, não preciso de esperar que alguém passe, ou pedir licença para passar. O duche é simplesmente excelente [tenho que fixar a marca, mas ainda não foi hoje. De qualquer maneira, NMPPI.]. Para accionar a água, carrega-se num botão redondo, e aquilo cai como uma chuvinha, só que quente e a pedido, não é como a outra chata, que faz tanta faltinha nas hortas. O gel de banho cheira a limão, e isso para mim é o bastante para gostar dele, que fácil que sou. Está dentro de um dispensador, que tem um botão quadrado, onde se carrega, e aquilo cai como uma nhanha perfumada. Portanto, o duche processa-se numa alternância carrega-no-botão-do-duche-carrega-no-botão-do-dispensador, um-sim-um-não. Só apetece ficar, e ficar, e ficar até derreter, ou até fartar da brincadeira com os botões. Lavo-me uma vez, não me apetece ir embora dali, nada me chama para fora, e tomo a resolução de me lavar segunda vez. (Aquilo é tudo à vara larga, tanto faz que gaste mais ou menos gel e água, pago o mesmo, e sempre compenso os que pagam ginásio e não vão lá.) E pode ser a ganância, ou a preguiça, que me condenam a este estado miserável de troca de mãos. 
...
Estou ensaboada, quero carregar no botão da água.
...
Acho eu que carrego, mas a água não brota.
...
Carrego segunda vez, e nada de água.
...
(É muito mau se confessar que ainda tive dois segundos da minha vida em que achei que tinha havido um corte de água, exclusivamente na minha cabine?)
...
...
A parede cheia de gel de banho.
(Chiu.)

14/10/2017

Diz que chove na próxima segunda-feira

Haverá vários tipos de registo do femedo, então:
1. Olá, eu já tinha tirado as botas do armário, e estava a pelar por usá-las;
2. Olá, eu ainda estou em negação, e, apesar de ter lido a metereologia,  não resisti a arriscar a sandália/ sapato com furinhos/ ténis de lona;
3. Olá, eu sou a pessoa prevenida/indecisa: sapatos fechados, manga curta. Dá para tudo;
4. Olá, eu sou a que respeita o calendário dos anos 70 do século passado, e o Outono já começou há três semanas. Assim, visto-me outoniça, e aguenta e não chora, como diria aqueloutro;
5. Olá, eu sou livre, e é só dar-me na tola e visto mangas curtas em Janeiro e gola alta em Agosto, porque isto é como o Natal e porque a mulher pode. 

13/10/2017

Eia, o canil que vai ser...

Ou alguém pretende levar o gato para o restaurante? A chinchila? A piton?
Espero que esteja prevista uma compensação, que pode ser em espécie, no caso de o bicho abocanhar (ou afocinhar?) um naco do meu naco. Ou do meu cordon. Ou da minha perna de borrega.
Qualquer dia, voltam a fumar-nos para cima. E não reclamamos, senão ainda nos soltam os cães. Literalmente, pois.

Hoje vi a minha Titi

Estava a televisão ligada na missa de Fátima, ela pôs-se de pé, as mãozinhas pequeninas, muito juntas, numa fé e numa certeza inabaláveis por eternas, a cabecinha branca levemente inclinada, os olhos atrás de óculos grossos e pesados, de onde em onde fechados, fervorosos, e juro que pequei porque a invejei, e juro que pequei porque matei saudades da minha Titi, quando na verdade estava a matar saudades da minha mãe, mas a Titi também foi minha mãe, e queria só ter um bocadinho, mesmo que pequenino, daquela fé, que me fizesse acreditar que um dia ainda vou voltar ao colo dela, já que da barriga não lhe saí, minha Titi, minha Titi.


LB, aquela pessoa que devia ser proibida de se aproximar de um televisor

Palavra que estava para aqui sossegadinha a jogar um jogo no meu Ai-fostes, porque adoro viver no limite e não me conformo de não fornicar a bateria do coiso em menos de um pum, ou de um fósforo, o que for mais rápido.
Por razões que não me assistem, aquilo da televisão estava no canal que dava o espectáculo dos bovinos. Tenho medo destas exibições, tanto porque acho que vai acontecer uma desgraça no minuto seguinte, como porque me encho de peninhas do touro, do cavalo, do cavaleiro, de todos os forcados, desde o cara ao rabejador, passando pelos ajudas, ai, quem me acode? Ainda por cima, nesta corrida vai pegar o filho da minha prima, não sei como é que o coração dela aguenta, se fosse com o meu, amarrava o rapaz à perna da cama e dava-lhe duas nalgadas, chiu com a violência doméstica, só quem é mãe é que sabe, e maior violência é a besta contra os meninos, nem quero pensar, eu nem com calmantes me acalmavam.
Então, um senhor explicava uma parte histórica da corrida à portuguesa, e resolveu usar a expressão “na luta contra os tuberculosos”. Já eu ria, dos nervos, já eu perguntava a uma das queridas o que é que ela achava que o senhor queria dizer, já ela me respondia “Ele queria dizer ‘a luta contra os tubérculos’”, e eu, que sou uma fácil e ela é tão assertiva naquele humor ultrafino, olhem, ainda me ri mais, mas continuo a afirmar que também sou extremamente nervosa, sobretudo quando me maltratam a língua.
Ainda não refeita, praticamente rarefeita, eis que vem outro e fala no “panorama taurino”, e então era ver-me desfeita no gargalhedo, só a imagem mental já é muito boa.
Vou mas é pjê uó-uó, como eu dizia quando era pequenina e nunca devia ter deixado de ser.
Também não quero ver a pega do primo, a ver se não me esqueço de lhe dar duas nalgadas e de o amarrar ao pé da cama, da próxima vez que o vir.

09/10/2017

Tenho medo de me gabar, porque é já hoje e eu não quero.

Oh, wait, já fosteS, Ai-fostes

A minha relação com Ai-fostes está prestes a completar três meses e ainda não o deixei cair ao chão. Disse bem, ao chão, pois pelos ares já ele me caiu das mãos e depois voou, qual pássaro doido, só não tendo aterrado de papo porque o agarrei antes disso, parecia eu uma basquetebolista da WNBA, mas em bom, porque vá que não me deu para o encestar, ou mesmo afundar.
No entanto, hoje, após ter escrito o comovente parágrafo anterior, fui dar com ele falecido. E não havia botão, alfinete no buraco da gaveta do sim, ligação à corrente, súplicas e ou lágrimas [já não me lembro bem, mas acho que não cheguei a tanto. Fiquei-me pelas súplicas sob a forma de vernáculo intranscritível num espaço com o nível intelecto-cultural deste aqui assim] que o acordassem para a vida. Corri com ele nos braços e questionei uma bela rapariguinha que, por acaso, fui eu que fiz, se já lhe tinha sucedido o mesmo, ao que ela me respondeu, extremamente calma, que sim. Que tal se deve ao sobreaquecimento e que, provavelmente, eu havia abusado muito dele. [Palavras dela, sic.] Ora, pois que não. Tinha-o quietinho, a dormir uma sesta, pousado sobre um leito, só faltava a mantinha para o tapar e a chupetinha. De repente, do mesmo nada com que se fora, ressuscitou, eu quis gritar "É o milagre de Natal!", mas, tal como nos pesadelos, embargara-se-me a voz e então segui a minha vida.
Foi o primeiro susto com Ai.
Ai, espero que tenha sido o último. A sério, estávamos tão felizes...

07/10/2017

Se o Outono fosse meu [Actualizado]

(não haverá vez nenhuma que leia este título que não me lembre da música ‘Coração de papelão’. Daí a inspiração para a primeira frase deste texto.)

mandava-o enfeitar de azul, ou talvez o pintasse eu com os olhos, abatia-lhe com alguma dó e nenhuma piedade um tudo-nada a luz intensa, fazia-o desde o branco-azul das paredes da minha casa, em tons de madrugada, até ao cobalto da noite sem fim, quando enfim cerrada, ou podia bem deixá-lo cair no azul-negro das trevas de noites maiores e de dias de horas pequenas, não acertaria o relógio em Outubro nem o paladar de castanhas tão castanhas em Novembro, os pássaros não partiriam fugidos para outro sol, o mar não avivaria a revolta em fúria, as folhas não fariam mantos esquecidos por abandono, as lareiras permaneceriam em flor por falta de calor de madeira. Quem sabe se, com um Outono assim, tingido de azul, aquele outro outono, que é o da vida, não chegasse jamais. 

07.10.2017


[post escrito por amizade à Mia, que escreve a partir do seu Sofá Cinzento, extremamente azul. Aconteceu este por via de um telemóvel, pelo que aguarda serenamente a chegada a máquina mais capaz, para que seja possível a colagem de todos os links e algumas imagens de que ele carece.]

(Corrente com outros elos, para além do inicial da Mia, no Impontual, no Outro Ente, e, porque me pareceu mesmo, na Loira. Se me falta alguém, pf apedrejem-me.)

06/10/2017

Mesmo não querendo cabular

Numa sala de aulas em forma de U, faço parte de uma das pontas. O professor, insegnante, encontra-se ao meio. Pergunta, pela ordem do lado onde me encontro, qual o mês em que siamo nati. A menina que está ao meu lado responde como lhe parece, a mim parece-me que ela sabe tanto (pouco) como eu, pois ele corrige, Marzo. Digo Novembre, ao calhas, ele acerta-me a pronúncia. Corre a sala toda, em dezasseis só eu sou novembra. A seguir, pergunta o dia do mês a cada um, uns melhor, outros nem por isso, cada qual atira o que e como sabe e pode. Desta vez, tenho tempo de ir ao tradutor, procurar no livro de apoio, puxar pelo raciocínio ou alguma memória auditiva, mas não o faço. Serei a penúltima, e já não a segunda a ser questionada. Estou tranquila com a minha ignorância e estou ali para aprender, não para camuflar ou aldrabar. Prefiro improvisar a simular que sei o que não sei. Ainda assim, desaflige-me a secreta esperança de haver algum vinte e um. Ninguém gosta de se enganar, ainda menos em público, mesmo que a falta de conhecimento seja uma premissa no lugar onde se encontra e a humildade seja uma coisa muito bonita. Cada um dos outros diz um número, oh, diabo!, são trinta e uma possibilidades e parece que Novembro e a data de 21 são o pináculo da raridade. Fui feita entre o Carnaval e o dia dos namorados e essa ideia diverte-me e sossega-me, sabe-se lá porquê. Está a chegar a vez do meu companheiro do lado direito, todos disseram o número do seu dia de nascimento, o professor acertou a língua a quase todos. Já não tenho escapatória, até que ele, simplesmente, responde: 
- Vinte e uno. 
- Ventuno. - Esclarece o mestre. - E tu, Maria?

02/10/2017

Aquela meia branca

Andar de metro à hora morta tem a vantagem de haver sempre onde sentar. Os cheiros não nos invadem. Não está abafado. A população é heterogénea. Já não se vêem estudantes, empregados de escritório, mulheres da limpeza. Também há menos pedintes.
A escolha do lugar é aleatória, quando metade está disponível. Tenho só o cuidado de não ocupar nenhum dos reservados, embora estejam os quatro livres. Foi o acaso que ditou que me sentasse à frente dele. Na verdade, pus-me na sua diagonal, uma vez que ele estava junto ao vidro e eu perto do corredor. Não percebo que alguém — a não ser pela necessidade de se encostar — escolha o lugar da janela no metro. Não há nada para ver, nem a multidão do cais tem algo de interessante que mereça dar mais dois passos para lá e outros dois para cá, só para alcançar o posto de vigia do vidro.
Sei que o olhei de esguelha, que é o soslaio, por ter esta já velha mania, tanto quanto eu, de observar os outros. Deve e pode ser por isso que tenho um blog.

Na verdade, não tenho nada de interessante para relatar num espaço público, a não ser estes meus assuntos-não-assunto. As estatísticas do meu blog falam por si. Estou quase a morrer, como morria muito nos primeiros dois anos disto. Só que agora, como nessa altura, não estou triste. Tive, no somatório destes quatro anos e meio, talvez um ano e meio ou dois de 'ribalta' na blogobola, escrevendo praticamente todos os dias, geralmente textos enormes, como este vai ficar. [Até vou fechar a caixa de comentários, para que isto não pareça o que não é: um pedido de miminhos. Este blog é também o meu muro, não só de lamentações, mas também um muro puro e duro, que eu tenho vindo a escrevinhar de uma ponta à outra, e cujas paredes, muitas vezes, se erguem diante de mim ao ponto de se tornarem intransponíveis.] Pode ser o tamanho dos meus posts que me derrota e me derruba, mas não há volta a dar-lhes, nem a mim, que misturo não-assuntos com pseudo-assuntos, faço associações de ideias que nem eu percebo como, e ninguém — às vezes nem eu própria — tem paciência para ler. Também eu sou leitora, e sei que é assim.


Também podia vir aqui relatar como foi o acto de ter ido votar (não o meu voto, naturalmente). A cena do cartão de eleitor. O desespero de ter telefonado para o 3838, como quem liga o 112, para me darem o bem-fadado número. O raio do chip do cartão de cidadão que não diz esse número, e, de toda a maneira, ainda que o dissesse, teria que existir um leitor magnético, eu teria que saber um outro código de acesso, e tudo seria (ainda) muito mais complicado. Por isso, prefiro vir para aqui falar do homem com quem viajei hoje no metro. O homem era velho e magro, e o que me chamou a atenção nele foi, em primeiro lugar, as meias. Trazia um fato cinzento de bom corte, novo, impecavelmente engomado, mas luzidio, quase luminoso. Do colarinho alvo, imaculado, saía, estrangulada, a cabeça, mas muito vermelha. Dali se estendia uma gravata primorosamente esticada, mas vermelha. Do bolso da lapela brotava um lencinho branco, de seda natural, mas às bolas vermelhas. Os sapatos eram mocassins de camurça castanha, mas tinham um debrum preto, e eram de pala curta. Deles transbordavam dois pés calçados em duas meias. Mas eram brancas. 

Escrevi este post ao longo de três horas diferentes do dia. Comecei-o de manhã, escrevi mais umas linhas depois de almoço, e termino-o agora, sem saber por que é que o escrevi.
Sei que o homem se há-de ter convencido que a minha incapacidade para desviar o olhar daquelas meias podia ser uma espécie de fascínio. [E até era, senhor, e até era.] Vai daí, começou a esticar o pernil na direcção dos meus pés, que, como já disse, estavam na diagonal dele.
Felizmente, a viagem acabou, antes do confronto. Impossível explicar-lhe em duas palavras, que, para além de todas as outras razões que me assistem na vida, jamais eu poderia olhar para um homem de meias brancas com bons olhos. Só conseguiria dizer
meias
brancas
.


01/10/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 58

Não preciso de psicoterapia porque tenho sempre a quem recorrer quando estou mais aflita dos meus nervos.











Depois disto, efectivamente acerquei-me da mesa dos doces. Porque uma mulher pode estar morta de pernas inquietas, de aborrecimento e de outras incapacidades várias, mas lá para se anafar mais um niquito, está sempre capaz.
Entretida que andava a digitar em Ai-fostes (isto é tudo uma tristeza derivada da cultura ocidental, escrevam o que vos escrevo), e por não estar a utilizar a minha visão plena mas apenas a periférica, deu-se que achei, às tantas, que encontrara o homem no meio da sala. Coloquei-me atrás dele, sempre digitando no coiso, e, no momento em que ele saiu para ir para o jardim, fui atrás e, muito chegada ao ouvido dele, disse assim: "Faltam é guardanapos, para uma pessoa limpar os beiços". [Vá lá que não sou de dar apalpões e dizer obscenidades.] Só quando ele, entre o surpreendido e o divertido, me foi buscar uma molhada de guardanapos, é que percebi o engano, mas também era impossível desfazê-lo, uma vez que a semelhança entre um e outro se fica apenas pela cor do cabelo, e conjecturas acerca da minha sobriedade/falta de visão/distracção imperdoável, não haviam de faltar. Portanto, fui confundir cônjuge com o único colombiano — pequeno, moreno, todo vestido de preto, casaco de napa, cabelo ondulado quase a dar nos ombros, que não me surpreenderia se me perguntasse se não preferia aos guardanapos uma linha narina acima — existente num lugar com, pelo menos, mais setenta homens. E estava sobriíssima. À seca e a seco.