28/04/2017

Quando te chamam "uma personagem" e tu ouves um elogio com música de amor

Eu sou aquela pessoa que pretende ir até Belém, partindo, digamos, do centro da cidade, e faz uma passagem pelo Cristo Rei, por exemplo. 
Não sei que diabos tenho eu com a mania de atravessar uma ponte cada vez que me perco. Já uma vez fui parar a Alcochete quando apenas pretendia alcançar essa bela localidade que dá pelo nome de Prior Velho. 
(Isto, antes de conduzir, também não era melhor. Recordo com saudade e mágoa uma vez que fui parar a Benfica para uma entrevista de emprego, porque li qualquer coisa Calhariz.)
(Já nem sei que emprego era.)
(Nunca cheguei a saber, aliás.)
Enfim.
Na minha inesgotável e descendente carreira de UBERMomSCUT, ofereci-me compulsivamente para ir a Belém buscar um dos meus amores de perdição, cansada que estava ela de onze horas (leram bem, onze) de trabalho (mas calma, ó sindicatos, é trabalho esporádico), que lhe exigiu uns saltos altos aos quais aquele pezinho mais belo e mais bom (que fui eu que fiz) não está habituado. 
Meti-me pela avenida de Ceuta afora, cujo máximo de velocidade permitida parece uma anedota, mas vá que não me ri. Limitei-me a ir ali, em velocidade de cruzeiro avariado, a ver a bela paisagem que constitui o Casal Ventoso. Em chegando ao semáforo antes de seguir em frente, normalmente, tem que se parar o carro, porque parece que está sempre vermelho. E pára-me a boneca. Mas que palhaçada é aquela da falta de orientações que expliquem detalhadamente que quem vai em frente tem que se meter por aquele lado e quem vai para a ponte tem que se meter pelo outro? 
Suponhamos que me mantive à direita, feita bem comportada do trânsito, e isso pode ter valido uma volta de ida e volta pela Ponte 25 de Abril. (Vá que tinha combustível. Dízel, como dizem os taxistas.) Andava com saudades do mar, vi o rio. Cada um tem o que merece.
Dez minutos mais tarde, estava de regresso a Alcântara, mais uns quantos e atingi Belém. Fui dar com ela fermosa e descalça, com aqueles olhos lindos que se fazem numa linha quando ri (também fui eu que fiz), e ouvi aquilo que me pareceu um elogio:
- Ó mãe, tu és uma personagem. 
O tanto que nos rimos juntas valeu pelo engano, pelo combustível, pelo tempo perdido, que foi tempo ganho — amorosamente. 

27/04/2017

Quantas proibições vês?

Imagem recolhida no dia 25 de Abril
São demasiadas, concordo.

Quando fazes aos outros o que não gostas que te façam a ti

Coincidimos na aula de dança, coincidimos depois no balneário, coincidimos finalmente na saída do ginásio. Como uma sombra, assim mesmo, muito maior do que eu, ela esteve sempre quatro passos atrás de mim, coincidências que acontecem, como numa coreografia bem ensaiada. Tínhamos recebido a novidade de uma aula especial, extra-plano, com o triplo da duração das costumeiras, e ambas queríamos fazer a inscrição para o evento. Ela, enorme, possante, chegou ao balcão os tais quatro passos depois de mim, pelo que fui atendida em primeiro lugar. Disse ao que ia, que queria inscrever-me na aula especial. Ela encostou-se no outro extremo do balcão, à espera que chegasse a sua vez, atenta, porém impaciente. Enquanto era atendida, vi num relance que toda a linguagem corporal dela denunciava pouco tempo/paciência/vontade de esperar. Pareceu-me cansada e atribuí a cara fechada a isso mesmo.
A funcionária perguntou-me se queria a t-shirt alusiva ao dia e eu ai que sim. Perguntou-me de que tamanho, e eu "XS, então não se vê logo?", mas ela não percebeu a ironia e disse-me que não tinham XS, com as sobrancelhas elevadas ao nível da raiz do cabelo.
Nesse momento, ela começou a borbulhar, aquele ponto da fervura que não tarda à ebulição. Fitava-me fixamente, contrariada e suspirante. Imagino que terá rolado mentalmente os olhos várias vezes.
- Então o S, pronto. Vai-me ficar largo, mas depois mando apertar à costureira.
(Isto era uma piada.)
Quase a ouvia bufar, a três metros de distância, enquanto me lançava olhares de enfado e pressa. A outra escrevia no computador sei lá o quê, que também não atava nem desatava com a inscrição nem com a t-shirt. 
- Tem aí alguma para eu ver o tamanho? — Quis eu acelerar o processo, abreviando a agonia da minha companheira de aula. E não esperei a resposta, fui para o expositor das t-shirts, para confirmar.
- Pode ser o S, sim.
Os olhos dela em alvo, ou melhor, eu em alvo, os olhos dela em mira, chispando. 
Finalmente, explodiu, e avisou:
- Vou-me embora, venho cá amanhã. — Na voz a raiva, no andar a fúria.
Não se costuma dizer que "Nas costas dos outros vejo as minhas"? Pois, foi exactamente o que me aconteceu. Pude ver-me ali, em tantas circunstâncias em que simplesmente desisto, porque está uma chata a fazer o Mundo perder tempo.
Não me posso esquecer de que vamos dançar juntas. (E de que ela é muito maior do que eu, já disse?)

26/04/2017

"ó amor"

[Agora tudo a achar que LB, aquele ícone, vem para aqui a estas desoras fazer uma declaração pública de amor, e toca a clicar no post. Oh, wait, isto vai aparecer no feed.]

Este meu blog faz-me lembrar o senhor da papelaria ao pé da minha casa, que é um senhor que já morreu há, pelo menos, vinte e quatro anos, tantos quantos eu levo de moradora aqui nesta minha zona. Toda a gente já percebeu que o homem está morto, menos a mulher dele, pois continua a tratá-lo por "ó amor". Também deve haver alturas em que eu trato esta coisa por "ó amor".
A ver se não me engano e não trato o homem por "senhor blog", um destes dias. 


25/04/2017

Errar é desumano

Isto vem um bocado a propósito do post de ontem.
Perco a conta ao número de erros, enganos, lapsos, gralhas e artoadas no Português que vejo e ouço todos os dias. E é muito raro corrigir ou chamar a atenção, sobretudo se estiver em público. Reservo-me aqui para o blog, para a cobardia do anonimato que é um nick.
E logo eu, que tenho a PDM com a minha língua tão amada (não me refiro ao órgão), e que também erro? Incrível, também me engano. Também escrevo e digo coisas que só me dão vontade de me açoitar. (Tenho intimidade comigo para isso, nem sequer preencherei os requisitos do crime de violência doméstica.) Ainda outro dia, neste post, escrevi dizimação maciça em vez de dizimação massiva. Mea culpa, sei perfeitamente que maciço é uma qualidade de alguns materiais (e não, não fui ver à nettinha, porque, errrr... sei.) Também não foi preciso que alguém me mandasse mail a avisar do erro, ou pusesse num comentário. Simplesmente, como veio, o erro foi. Horas depois, deu-me aquele vaipe — ahhhhh! —, e corrigi, em pleno semáforo vermelho.
Diz que errar é humano. É. Fico, assim, muito mais descansada.
Mas persistir no mesmo erro é que já não é. É qualquer coisa de irracional, no sentido em que não existe um processo de raciocínio entre um engano e outro. É quase, regressando placidamente ao meu exemplo, como na violência doméstica: à primeira és vítima, à segunda já és cúmplice. Quando cometo pela segunda vez o mesmo erro, posso ser apenas uma pobre vítima cúmplice da minha própria estupidez.
Assim como errar sistematicamente, também não é nada humano. Lembra os bois, incapazes de entrar no curral, incapazes de largar as traves, embora elas até os aleijem de cada vez que lhes marram. 
Vem tudo isto também a propósito de gente que se engana e pede uma explicação, que lhe é dada totalmente de graça, sem smileys assim :) ou assim :P, sem qualquer espécie de emoção nas palavras, já para não entrar "ruído" no recado, e ainda se amofina que os outros são todos uns arrogantes e que julgam que sabem tudo e que nunca erraram, e o genitalinho a sete. 
Gostava de saber como é que estas pessoas um dia sequer conseguiram lidar com professores, há muitos anos, quando andaram na escola (andaram?). Também lhes chamaram arrogantes de cada vez que lhes foi dada uma explicação — aí já não totalmente de graça — sobre onde é que estava o seu engano e qual a melhor forma de o sanar?
Deve ter sido. Assim, de facto, ninguém aprende coisa nenhuma.
Ámen, porra.


24/04/2017

Lapsus linguae

Entramos juntas na loja onde tudo cheira tão bem que devia ser obrigatório. Estamos animadas e felizes por estarmos juntas, é domingo, dia de mais uma partida que eu quero adiar por me partir sempre um pouco a mim, daquele tanto de mim. Queremos uma vela aromática que transforme o quarto dela, lá longe, num espaço que, não podendo ser bonito, ao menos que seja cheiroso. Começo a juntar cremes no cesto, o do corpo, o da cara, o específico dos olhos, e o nosso entusiasmo contagia-se à funcionária, que começa a oferecer-nos amostras de cremes de mãos, de cremes anti-rugas, de cremes, enfim. Espalho ainda um deles, disponível no tester, pelos braços acima. Ela está esquecida da vida e quer também pôr nos dela. Lembro-a de que tem alergia a perfumes, mas o ânimo não lhe esmorece e faz aos braços o mesmo que me viu fazer aos meus. Mostra as manchas de pele seca nas articulações à senhora, e eu explico: "Tem pele atópica". Recebo então a resposta pronta e rápida de quem já viu muito, mas não tudo-tudo:
- Isso não é só pele atópica. Isso é também equizema.
Mas eu estou feliz, perfumada e contente com a quantidade de amostras que levo no saco. E não me apetece explicar que equizema não existe, e que a expressão pele atópica, já por si, significa a existência de um eczema (eczema atópico).
Não é verdade, este último parágrafo: não foi por não me ter apetecido que não corrigi a senhora. Foi porque ela era um poço de simpatia e não merecia. Nunca o faria, efectivamente. Afectivamente.


Na blogosfera como na vida # 4

Sem palavras.

(No entanto, escrevi três rascunhos. Quatro, se contar com um de ontem. Cinco, com o de anteontem. E seis, se contar com um que está na cabeça, sobre cantis, o plural de cantil. Ainda vou conseguir transformar esta coisa num amontoado de posts que nunca viram a luz do dia. Só a escuridão. Que tétrico.)

23/04/2017

Não há flores no meu caminho

(Sei que já dei este título a um post, mas gosto dele e aceitemos de uma vez por todas sem mais discussões nem dramas que o blog é meu, portanto posso repetir-me e trepetir-me até me cansar, sematepecer.)

Não há flores no meu caminho, mas há ciclistas — isolados ou em grupo — que, oh surpresa!, passam e desejam "Bom dia!"; há, logo de seguida, uma senhora gorda que me apita para que saia da ciclovia e ela possa passar de carro; há aquele algodão amarelo não sei de que árvore caído; há formigões (que ganham asas nos dias de chuva, como os invejo), bichos da conta, marias-café, lagartixas, caracóis, borboletas, abelhas e zângãos, melros, pardais, arvelas, até me esqueço dos pombos, às vezes um bando de papagaios, mais raramente uma águia que há quem afiance que é um falcão; há gente que anda, gente que corre, gente que passeia o bebé, gente que pedala, gente que passeia de traje desportivo, aos pares, aos grupos, sozinhos — como eu, que preciso de mim e do meu ritmo de marcha que respeite a minha passada, de corrida que pouco mais é do que marcha rápida (só não abano as ancas daquela maneira, acho eu), absorta na minha música, nos meus pensamentos e no que os meus olhos captam. E, por acaso, hoje ia a pensar que, se um dia começar a (só) correr, terei sempre que o fazer sozinha, exactamente pela necessidade que tenho de dar tempo ao meu tempo, e para evitar cometer alguma violência sobre um/a pretenso/a companheiro/a de esforços e suores: estou certa que seria alguém com 66,66666...% de hipóteses de apanhar uma bordoada, caso corresse mais depressa do que eu, e também se corresse mais devagar. Portanto, deixem-me lá ir sossegada, que eu não faço mal a uma mosca e até desvio caminho só para não pisar as cascas dos caracolinhos, coitadinhos. E as formigas, e não sei quê. Juro.



22/04/2017

Désanchantée, Mr. Blogger

Perdi a possibilidade de ler blogs em chico-smart na versão para telemóvel. Apenas me restou a versão para web, o que, em aparelhómetro daquelas dimensões, significa a cegueira total, ou então o ter que aumentar o texto e andar a puxá-lo para a direita e para a esquerda, se o quiser ler. Se, em posts pequenos, vá lá que não vá, nos meus lençóis de cama de casal torna-se uma saga impraticável que leva a pessoa ao enfado e à desistência. E eu pecadora me confesso, também gosto de me ler a mim. (Ainda ontem, por exemplos, corrigi uma gralha num post publicado há horas, em pleno semáforo vermelho.)
Não sei o que se passou, se a iniciativa partiu do Blogger, ou se é chico que ameaça o adeus à vida e eu finjo não perceber. Mas não apreciei. Fica aqui o meu voto de protesto, não sei contra quem, mas sei contra o quê. 

´tá-se bonito...


21/04/2017

uma gota no oceano

Tocaram-me à porta, como quem me toca no coração. Do lado de lá da placa de madeira que nos separava, a voz de um de dois, macia e delicada, anunciava a UNICEF. Ficaram felizes por saber que haviam batido à porta errada, pois que atrás dela encontraram uma pessoa já Amiga da UNICEF — designação que me enche de orgulho e tomara que maior paz —, o que fez cair pelo pó da terra a necessidade de convencerem mais uma a contribuir (o verbo ajudar faz-me tremer as penas). Porque ainda é preciso bater porta a porta — e quantas permanecem encerradas? —, pedir e mostrar as caras de quem foi socorrido pela UNICEF (os voluntários são quase todos antigas vítimas de flagelos) para que quem não é necessitado do básico (água e comida, não me refiro sequer a electricidade e gás, tão pouco a combustível e uma cama fofa) perceba que metade da população mundial vive abaixo da linha (que irónico, chamar linha a uma fronteira tão trágica) da pobreza. E que essa linha é uma corda grossa que agrilhoa o pescoço, da qual nenhum de nós está livre, bastando apenas estarmos no epicentro errado de uma catástrofe natural ou de uma guerra, para que a aparência de tranquilidade em que vivemos — nós, do lado de da linha — possa alterar-se de um minuto para o outro.  
Ainda tenho na memória os negros olhos do jovem que, um dia, me bateu àquela mesma porta e se apresentou como voluntário da UNICEF. Vinha propor-me uma contribuição mensal mínima para que todos os dias uma criança pudesse ser vacinada. Também guardei no coração o brilho aquático daquelas duas doces azeitonas, ao ver-me assinar os papeis sem um pestanejar das minhas, quando confessou "Eu também fui uma criança dessas, e foi a UNICEF que me salvou". 
Agora, com toda a celeuma à volta do tema "Vacinação - sim ou não?", questiono-me se um destes dias não serei vista como uma contribuidora para a dizimação massiva da população do lado de . Estou há anos a vacinar uma criança por dia. Passaram de mil as crianças que contribuí para vacinar. Pergunto-me ainda que alternativa apresentariam as facções anti-vacinação se singrasse entre nós, povos evoluídos e assépticos, a cólera, a diarreia, a febre tifóide, a febre amarela, só para início de uma conversa que não deveria ter que existir. Quero acreditar que passaram de mil as vezes que fintámos a doença e a morte, juntos, as crianças, a UNICEF e eu. E é dessa paz que falo ali em cima: não o apaziguamento das consciências, o deixa cá dormir na minha cama fofa sem pensar que há pessoas deitadas em chão de terra com a barriga vazia de alimento e cheia de subnutrição, e sim porque o caminho para a Paz se percorre com passos pequenos, é certo, mas firmes e perseverantes.
E eu sou apenas uma gota no oceano, mas também faço parte dele.


20/04/2017

Na blogosfera como na vida # 3

Para quando o emoticon rolling eyes no Blogger? Faz muita falta, nem que seja para resposta sem texto, quando já não há mais nada a dizer, como naqueles romances.

(A partir de hoje, com LB: é copiarem o endereço da imagem e colarem onde vos apetecer. É melhor que nada.)
Para quando gente que se manca e percebe que nem sempre o calado se calou porque consente no arrazoado, mas porque lhe entrou um neurónio em coma e está a prestar-lhe primeiros socorros? E que ter a última palavra pode não significar que se proferiu a mais certa, e sim que a discussão morreu de morte fulminante, porque: 
1. Não era aquele o ponto;
2. Não era aquele o lugar;
3. 1 e 2 juntos;
4. A paciência de um dos interlocutores entrou em esgotamento nervoso/cerebral;
5. 1, 2 e 4 juntos.

19/04/2017

Eu tenho problemas com tudo # 22

A indecisão foi qualquer coisa inventada pelas mulheres, já a outra com a maçã, mordo-não-mordo, dou-lhe-a-morder-não-dou, transformo-isto-numa-metáfora-para-todo-o-sempre-não-transformo...?
Se não, vejamos: sou literalmente compelida a entrar numa lojeca de bairro, que vende umas roupas ao estilo jamé-Salomé (sim, hoje estou bíblica) e uns acessórios tipo bugigangas. E digo "compelida" porque a criatura que está de serviço se encontra à porta, encostada à ombreira, vê o meu interesse relativo por uma pequena bolsa que está na montra — da qual preciso desesperadamente para meter coisas muito pequenas e dar largas à compulsão que me afecta desde a mais tenra infância. (Em miúda juntava todo o meu dinheirinho para comprar porta-moedas, e depois ficava sem ter o que meter lá dentro. E sim, sou uma pessoa normal) —, e chama-me para ver o interior da loja. Vou também atraída por uma coisa branca, qual luz (eu bem digo), pensando que é uma saia branca e gira, mas afinal trata-se de um par de calções daqueles que usam as senhoras da lota. Não sei se por isso ou porque era chata, a mulher colou-se-me ao corpo daquela maneira do futebol e do basquete, que era eu a ir do expositor dos trapos para a montra e ela sempre na minha cola a um ponto em que ponderei mesmo abraçá-la, mas sem a beijar. Uma coisa de não conseguir mexer-me, como nas lojas do xnês.
Se já tenho grandes dificuldades em perceber a mentalidade de quem acha que as fancarias que tem à venda são roubáveis, ainda maiores entraves ao conhecimento me suscita o que ocorre na mona de uma figura que me veio buscar à rua, me obrigou a entrar na loja, quase me arrastando pelos cabelos, praticamente me ameaçando sob arma de fogo, e depois me sujeita àquela tortura que envolve intimidade física, só para que não lhe leve dali sem pagar o artigo de três euros e meio. Ora, vá-se catar, se eu quiser sujar as mãos meto-me na Longchamp* ou na Tous*.

* NMPPI, infelizmente.

18/04/2017

Jaguar

Comprou, em segunda mão, mas quem sabe em primeiro coração, um carro de marca cara, coisa para o encher e inchar de vaidade. Fez-se impante, soberbo, ufano daquilo. Assim percorre os passos naturais da chegada à meia-idade, necessitando de sinais exteriores de riqueza e status, para afirmar ao Mundo uma valia que, segundo aqueles cânones, deles deverá depender. 
Chega junto de meu Rosinha, minha canoa, coisa linda, coisa boa, ainda com dois mesinhos mal contados da vida, exclama Eh, pá, granda carro!, mal escuta quando lamento o risco que lhe fizeram de uma ponta à outra, e coloca os dois cotovelos na janela do passageiro, a cabeça dentro do carro. Sei que vai começar a feira de vaidades, ocorre-me que posso pregar-lhe um susto subindo um pouco o vidro, mas refreio a irreverência e dou-me ao sacrifício. Percebo que não aguenta nem mais um minuto sem falar na aquisição do seu orgulho, mas que tudo fará para disfarçar a pressa que tem em chegar ao assunto. Primeiro conta que foi não sei aonde, à neve, depois que veio de almoçar não sei aonde, ao peixe grelhado, e termina com:
- Já não cabemos todos no carro.
Tem três filhos, naturalmente que um carro comum fica lotado com cinco ocupantes. (O quarto filho é o filho do carro novo, eu que o diga.) Mas é-lhe fundamental à sobrevivência lembrar que o filho mais velho já tem uma namorada fixa, assim como ele foi namorado fixo durante doze longos anos da mulher com quem casou há vinte e seis, e essa longevidade, feita de antiguidade e resistência, lhe atribuirá, igualmente lá nos tais cânones, uma distinção em relação aos demais, uma espécie de voto de confiança de bonus pater familias.
- Tivemos que levar o Jaguar.
...

Já não cabemos todos no carro. Tivemos que levar o Jaguar
Isto, convenhamos, não existindo maiúsculas na linguagem falada, que imagem mental faz uma doce parola desavisada como eu?


17/04/2017

And that awkward moment # 24

em que recebes um sms da pessoa menos urbana (não quis chamar rural ao senhor, está bem?) que conheces, a dar-te conta do seu novo número de telemóvel — como se ele não constasse do remetente, mas acredite-se que ainda há quem desconheça certas e determinadas minudências tecnológicas (e eu até sou uma dessas personas, só que noutros sectores da high-tech) —, que inclusive te trata por menina e pelo teu petit nom, e, no fim, exactamente no fim da mensagem, assina... e coloca reticências a seguir ao próprio nome?
E tu, a quem aqueles três pontinhos dizem tanto por aparentemente nada dizerem, ris-te como uma tola.
(Que enigmático, Monsieur Marques...)



16/04/2017

Uma questão de ego


(Foi este o percurso que percorri e corri por duas vezes nos últimos quatro dias, perto do local para onde me desloquei a banhos de sol e mar. [Não costumo ir para lá, não volto para lá, não me procureis lá, não me achareis lá.] É uma longa recta de ciclovia, ladeada por um longo passeio de peões que, com sorte, não está pejado de carros estacionados.)
(Vá, vamos considerar que quem começa a andar não tem que, necessariamente, cair, mas é suposto dar primeiro passos de bebé, fazer pequenos percursos, dar umas pequenas corridas, e só depois ganhar calos nos pés, confiança, e deslargar-se a correr como se houvesse amanhã e nesse amanhã houvesse uma meta [a cumprir]). 

Por falar em metas, visando aquele objectivo de me melhorar a cada dia, ia eu pela estrada fora, bem sozinha — tal e qual o Capuchinho, mas sem a cesta —, encontrava-me sensivelmente a meio da recta, quando me apareceu, caído dos céus aos trambolhões, um cidadão espanhol que, surpreendentemente, só falava castelhano. Vinha montado numa bicicleta, qual cavalo alazão, e abordou-me com uma algarviada que me pareceu "Onde é que fica a farmácia?". Olho para a direita e vejo um quilómetro de recta. Olho para a esquerda e vejo um quilómetro de recta. Abro os braços em Cristo e elaboro mentalmente a resposta, no meu melhor espanhuelo: Siñor, por supuesto, la farmácia es equidistiante para la derecha e para la esquierda. Tanto le dá en Muente Guerdo ou en Vila Real de Santio Antiónio. Es mejor que pedales para lo lado que te apetieça, mas pergunto, à cautela, en claríssimo portunhol: A farmácia? E diz-me ele: No, pergunto se te llamas Marcia. Es muy parecida con una amiga mía, brasileña, llamada Marcia. 
(Caracoles. Então interrompe-se a walk-run a uma senhora para vir com esta conversa de [digam vocês], o estupor?)
Acho eu que não perdi a compostura, mas fui tão parva por não me ter lembrado de imitar o sotaque do Brasil: 
- Não, nem Márcia nem brasileira. E sua amiga, também não. 
E ala, com andar de antipática, que é assim um andar firme e certo que eu cá sei.
Ooooolé!


15/04/2017

Dou-Le o bloqueio mental

É loira, num tom um tudo-nada reforçado quimicamente, ou um tudo-tudo, mas o que importa isso, se é gira? De resto, como muitas loiras portuguesas, sofre de contraste denunciador no Verão, pois que bronzeia a pele uns tons acima do que tem no cabelo, lembrando o negativo de uma fotografia das que havia há muito, muito tempo, era eu uma criança, mas o que importa isso, se é gira? Já não é nova, ainda não é velha, é magra, seca, não é bela, mas o que importa isso, se é gira? E de uma simpatia quase contagiante, com um discurso que quase transmite confiança, fluente, esclarecido, quase esclarecedor. Usa e abusa da entoação de titi, a mááim (mesmo quando se refere à minha mãe, como se fossemos filhas da mesma), o pááii, os tzios, as tziáás, os ôçás. Uma pessoa embala-se naquilo e até acha piada, mas que diabo, o que é que passa pela cabeça destas pessoas, que montam um boneco tão frágil e que as fragiliza tanto? Mas lá segue, inebriada pela sua retórica imaginativa, que toda a vida viveu numa moradia destas (no luxo de Cascais), que os pais tinham uma assim, igualzinha, e juro que até ouço violinos a tocar. (Logo eu, que fico nervosa com violinos.) É gira, pode tudo, até mesmo ser a caricatura de si mesma.
Eu costumo dar-Le; 
Eu faço-Le; 
Eu vou-Le dizer uma coisa.
Não consigo ouvir mais nada de cada vez que ela assassina o H ao pronome. Bloqueio ali e fico Le-Le-Le-Le, ad infinitum. Hipnotiza-me. 
Gira, mas não tão gira que lhe possa perdoar um crime de lesa pátria.


Sumol lalanja



13/04/2017

Operação biquíni 2017 ad eternum

Hoje é aquele dia dos 365 em que uma mulher dava um braço pela sua invisibilidade: o primeiro dia de praia.
Não a rala o pêlo tresmalhado, a estria fluorescente, a celulite marota, o papo inoportuno, o derrame extemporâneo. Mas a cor com que se apresenta aos demais e também aos outros, é capaz de fazer deste dia tão azul o mais temido do ano. No entanto, o tom, sendo areia, embora não possibilite que uma pessoa se torne invisível, pelo menos permite a camuflagem, bastando, para tanto, que se estenda directamente no areal. Poupa-se um braço que, de caminho, também bronzeia.




12/04/2017

Eu tenho problemas com médicos # 24

Chego-lhe recomendada pela minha irmã. Sei, pelo apelido que tem, que, por sua vez, é irmã de um outro médico do meu coração, pediatra que foi dos meus filhos. Só isso já me merece simpatia. 
Faz-me esperar para lá do razoável, mas não me perturba a paz de estar numa sala de espera limpa, arejada e luminosa. Os outros doentes são pessoas de idade, tristes e queixosas. Não me atrevo a impacientar-me. 
Recebe-me, inexpressiva, estende-me a mão (os médicos dão-me beijinhos, as médicas apertam-me a mão. Faz sentido), sento-me e digo ao que vou. Pergunta-me quem a indicou, respondo que foi a minha irmã, digo-lhe quem é, mas não se lembra. Acho-a um pouco louca, sobretudo quando venho a saber que estiveram juntas nessa mesma manhã. (Eu gosto de loucos distraídos. Os outros, mais concentrados, enlouquecem-me.) Pede-me a história da minha vida cardíaca, e relato-lhe o rosário de amarguras que já vai em três gerações, por via paterna, tudo homens. Suspiro no fim, e digo: "Ainda bem que nasci mulher". Olha-me sem me ver, pergunta-me quantas vezes já fui operada e desfio outro rosário. Escreve, escreve, enche a ficha branca de texto corrido, distraída de mim, que observo o gabinete, distraída dela. Estão caixas de fichas de doentes dentro de um armário de portas de vidro, de A-D, de E-H, de I-L, e uma outra, em maiúsculas, MARIAS. Digo-lhe da coincidência de ser irmã do pediatra dos meus filhos, abre muito os olhos, mas, impassível, pergunta: "Então, conhece o meu irmão?". Fala tão baixo que eu julgo que se lembrou da minha irmã, e respondo: "Sim, do seu outro consultório". Ela deve achar-me louca, quando corrige, "Não, o meu irmão...". 
Saio com a certeza que vou parar à caixa das Marias, cheia de sorte por ter nascido mulher.


11/04/2017

Isto é como se, de repente [qual me oferecessem flores, qual quê!?], eu ficasse detentora de um super-poder

Tenho comigo uma fotografia do meu cunhado, talvez com oito anos de idade (ou nove, ou dez, o que é que isso interessa?), vestido com umas calças de xadrez e uma camisola de riscas largas, em que não só os padrões gritam my eyes, my eyes!, como também as cores berram umas com as outras. 
Tendo em conta que ele não tem nenhuma fotografia minha de kilt e de meias até aos joelhos — e que aquela vez em que mana e eu usámos saias azul-cinzento, cravejadas de barquinhos, com blusas de riscas, não conta, até porque ele não sabe, mas vocês sim —, sinto que tenho um novo poder, embora não saiba bem qual, sobre ele, de cada vez que me fizer ficar nervosa. 
(Qual chantagem, qual carapuça, lá vêm os juristas de serviço.)


Gosto cada vez mais da Rua Cor-de-rosa

Isso faz de mim uma blogger faishionerer? 
Faz.

Fazei zoom nos gatos e no beija-flor. São belíssimos

(Muito à vista a falta de gás para elaborar textos?)

09/04/2017

A hierarquia da ciclovia

Agora que frequento uma ínfima parcela do que é uma ciclovia, apercebo-me de realidades. Aquele tapete vermelho foi feito a pensar nos ciclistas.
Pronto, hoje acordei assim, reencarnada em LP. La-Pa-lis-se.
Acontece que aos ciclistas assiste uma soberania sobre a cena, que dá o que pensar a pessoas como eu, que se limitam a calcorreá-la como se daquela de Los Angeles se tratasse, com a única diferença de que não vamos burlescamente despidas nem perigosamente calçadas.
Já me havia dado conta de que os ciclistas mal toleram os corredores que, convenhamos, dentro das cidades simplesmente não têm onde praticar a sua actividade se não for ali. Ou alguém acha possível que se possa correr convenientemente na calçada portuguesa, que é um desafio para os saltos altos tornozelos? Com pessoas com vários ritmos, idades e credos, carros estacionados, empata-[preencham vocês] e lesmas a passar a todo o momento? 
Ele não são todos, mas há muito quem se escarranche na bicla, se coloque na ciclovia, e se adone dela como se, de facto, ela fosse um exclusivo qualquer, lavrado no cartório da sua imaginação. E é, não deixando de ser, sim senhores. De si e de todos os companheiros de pista, desde que alçados sobre duas rodas que não tenham motor acoplado. No entanto, a atitude de enfado, a impaciência e até repulsa que alguns manifestam por quem mais ocupa um cantinho da pista (parecendo que enfrentam multidões!), fazendo alguns questão de praticar o quase-cicloatropelamento (crime que inventaram e que há-de chegar ao Código Penal, so help us God), é que é de assinalar e louvar. 
Com isto, nasceu também, de parto natural, a soberania dos corredores sobre os caminhantes. Ora bem, mas foram eles que me incentivaram a mim, e a tantos como eu, a começar a correr dar uns sprints umas corridinhas! Vejo passar um, e, se é dos tais que me ultrapassa já danado (porque posso estar a obrigá-lo a contornar a minha imensa figura e a perder um cagagésimo de segundo lá na m. da aplicação dele), já só me apetece correr atrás, alcançá-lo, ultrapassá-lo e travar de repente, catrapum.  
Pronto, tudo isto, no fundo, se resume a um boneco.


08/04/2017

A pessoa pratica agora walk-walk-run-walk-walk-run-walk-walk......................................

Não inventei nada, imprimi-lhe foi outra cadência. O run-walk-run existe há muito, a pessoa só o (des)dinamizou. 

Arranquei-me da cama e depois de casa, pouco passava das dez da madrugada, já toda dopada de cafeína para a veia, ala. 
Hoje ia determinada a correr uns metros, para além da caminhada, e fi-lo. Assim: ora agora corre duzentos metros e não te deixes estafar (senão paras e comes uma sande de coiratos impregnada em chantili ou vais esbornegar-te num Mc desta vida), ora agora andas quinhentos até teres outra vez essa fúria de fugir do sofá e da trash tv que te faz tão bem à alma e tão mal aos glúteos. E assim sucessivamente. 
A música é fundamental nestes percursos. Como nada na minha vida pode ser mainstream, possuo um aparelho de som que já terá uma cópia no Museu de Arte Antiga, denominado mp3, e uns auriculares de que só funciona o esquerdo, sofrendo o direito de intermitências e ou gaguez. Por acaso, devia isolar-me melhor do mundo, para não ouvir nem ver (devia ir vendada) certas e determinadas coisas que só atrapalham à imensa concentração de que uma atleta carece: um maluquinho à janela de um primeiro andar, a mandar-me beijinhos com a mão, e depois, uns metros adiante, um jardineiro de muito boas cores àquela hora (do sol, que mais?), interrompendo o meu raciocínio com um enfático bom dia!. Ora, eu temo jardineiros. Diz que quem matou foi o mordomo, mas eu aposto sempre no jardineiro. 
Reparai, então, na minha ingénua, porém bem intencionada playlist, completamente em modo aleatório: 
- Dei-me início ao som de Locomotion. (Sim, Locomotion, no original, Little Eva.) Que melhor melodia para iniciar uma boa marcha do que Locomotion? 
- Já em pleno esforço de corrida, Suburbia. (Sim, Suburbia, Pet Shop Boys.) Que melhor melodia para incentivar a continuação da coisa, Let's take a ride and run with the dogs tonight
- E, numa das partes de caminhada, Walk in the park (Sim, Walk in the park, Beach House)? 
- Então e marchar para casa ao som de Come on Eileen (sim, Come on Eileen, Dexys Midnight Runners, nem de propósito)?
(Sou tão 80's.)
(Também tenho para lá umas quantas porcarias que adoro ouvir, e gostos não se discutem. Juro que quando passou esta tive ganas de parar e kudurar um nico a marcha-corridinha, oi-oi-oi.)
Em resumo, correu bem — literalmente. 

07/04/2017

Quatro anos

Só agora me lembrei que este coiso e eu fazemos quatro anos de existência. Vamos lá a ver se aguentamos, no mínimo, até às bodas de madeira.



Objectivo biquíni - Dias 3, 4 e 5 et ad infinitum et magis ultra

Pus-me nos cascos, meti-me nas tamanquinhas e desatei a andar, como naqueles milagres. (Foi o meu milagre de Natal, só que atrasado. Ou antecipado, huquéres?)
Não gosto de correr — não sei se já disse mais de mil e seiscentas vezes —, e gosto de comer. Entendo que preciso de me mexer, o ginásio preenche-me cada vez menos (e chateia-me ir lá todos os dias), os dias estão belíssimos, toca mas é para a rua, dia sim, dia não. Nos nãos, lá vou malhar como um Comando. O meu plano de treino é para brutos, mas eu também nunca disse que sou meiga.

É isto tudo x 2, fora a elíptica e o remo.
É a doer, e para doer.
Dói-me tudo.

Também não gosto de andar. Levar uma hora e meia para fazer cinco quilómetros é um desespero para uma impaciente como eu. Estou a ponderar alternar corrida com marcha. Não gosto de nenhuma, mas, desta forma, avio as duas mais depressa e não se fala mais nisso. 

Estou a beber o dobro ou o triplo da água que bebia antes, o que, para mim, significa entrar em pré-afogamento e por pouco não chamar o nadador-salvador (num registo spé-tia, Salvadoooor!). Por outro lado, tripliquei também, não o saldo da minha tia em Marrocos, mas a quantidade de vezes que vou à casa-de-banho por dia. Estou sempre aflitinha. Apertadinha, sabem? Isto assim não pode continuar — literalmente: ontem só parei a caminhada porque já não aguentava mais do esfíncter, embora as pernas ainda dessem para mais uns largos quilómetros metros. Tenho que passar a ir de fralda, como o Donald (aquele pato, não esse que tem a fralda na tola), ou então algalio-me. Não me admiro que os maratonistas façam pernas abaixo, porque eu, por um décimo do percurso e a andar, apetece-me fazer o mesmo. 
(Tenho um Caminho para fazer este ano, se estou neste preparo ao fim de cinco quilómetros, serão dezasseis idas à casa-de-banho/árvores/atrás de uma moita/tacho/tupperware/copo de bebida vazio?)
Bom, não interessa. 
Interessa que eu ainda não:
1. Subi à balança — sei perfeitamente que Roma e Pavia não se fizeram num dia, quanto mais um monumento;
2. Comi uma única amêndoa — afasta de mim esse cálice, pai, senão eu é para a desgraça e emborracho-me;
3. Desisti quando todas as minhas vozes me gritam Não aguento mais! — há um sargento dentro de mim [not literally, hey] que me grita ainda mais alto Maricas! 
4. Parei quando vem aquela tontura do esforço vais-morrer!
5. Morri — acho.


06/04/2017

Apetece-me comemorar um dia nacional com o respeitoso e devido atraso

E, como não sei fazê-la, desta vez divido o texto para parecer que é o que não é.


Estava ali uma rosa de pano,  
castanha e linda, a rosa tombada.
Era falsa, por não ser verdadeira,
e ali jazia à má sorte no passeio.
Nem as pedras da calçada a choravam,
nem o pó da terra nela se ficava,
nem a sujidade a abandonava.
Peguei-lhe com cautelas,
sem espinhos, ela,
sem dor,
não a cheirei por sabê-la inodora,
não a quis para mim, por senti-la ilusória,
não acreditei nela, por vê-la castanha,
pois castanha não é rosa nenhuma sendo genuína.
Mas qui-la minha, sem a querer absolutamente,
dei-lhe casa, fiz-lhe lar.
E, amorosamente, finquei-a num vaso de pedras sem calçada,
descalçadas, descalças.
Falsas.


05/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 14

Ou tu?
Onze da noite, tocam-me à campainha e vou atender. Do outro lado da porta, visiono, através do óculo, a vizinha de cima, aflitinha. 
(Por cima mora um casal sem filhos, com idades próximas da minha. Ele é um desportista ferrenho, joga ténis e tem muita vaidade na sua aparência. [No entanto, enche-me a varanda de beatas.] Quando vem de jogar, raquete na mão e calções curtos e vincados, todo ele é salamaleques e meneios, primorosamente educado, dando passagem, partilhando o elevador, desejando boa tarde com precisão cirúrgica. Sempre que o vejo passar naquele preparo, atraso o passo e, subitamente, interesso-me pelas árvores, pelos cães, por qualquer coisa no tablier. Ela é uma figura apagada, há-de ter sido bonita, de olhos claros, magra e grisalha, descuidada e triste. Uma vez por outra, ouvem-se gritos lá em cima. Só ele grita. Também se ouvem saltos altos a bater no soalho, mas ela não usa saltos. Há qualquer coisa de Norman Bates dentro da minha cabeça — ou em cima? — que me inquieta um niquinho.)
Abro a porta e diz-me ela que tem um gatinho à porta de casa, que não sabe de quem é, que já lhe deu de comer, mas ele não se cala e andam, ela e o marido, desesperados a bater a todas as portas do prédio (que são nada menos do que trinta e sete), a ver se encontram o dono. 
Eu só olho para trás, chamo Molly!, a tonta não me aparece e lá vou escadas acima, O gato é uma gata. É branca?; Sim, branquinha; Mas tem malhas castanhas?; Sim, manchinhas. [Tudo em inhos, pequenininhos, tanto sufixinho para uma gorda daquelas que parece uma leoa atravessada de pantera branca. Vá, eu não disse isto.]
E lá vou dar com a fugitiva, que me foge casa adentro do Norman vizinho, e eu atrás dela, Bates Motel adentro. Aparentemente, ele já tem montada uma comissão de inquérito com staff e comités de investigação: está ao telemóvel, ouço-o dizer Ah, bom, parece que encontrámos o dono [mas esta gente tem algum problema com os géneros?] do gato [aloha!], vou desligar para poder falar com o dono [hey, man, subsiste alguma dúvida para além da minha saia?], já te ligo. 
Pego na fugitiva, entre o envergonhada quando ouço Ela está aqui há, pelo menos, meia-hora (e faço mentalmente as contas para hora e meia), o aliviada por ela estar bem, o ciumenta por ela estar tão bem e o frustrada porque ela é uma peste e bem podia ir viver para outro lar, que isto de ter arranhões novos todas as semanas (e já foi todos os dias) também enfraquece o sistema imunitário (e o amor). Era a brincar, esta última. Nós odiamo-nos, mas eu encho-a de beijos de cada vez que ela não está a ferrar-me o dente. 


04/04/2017

Sempre Mulher, eu e elas


Cá estou para, num registo muito blogger, relatar a minha participação na Corrida Sempre Mulher:
Aos primeiros cinquenta metros da caminhada, já me arrependia de ter envergado uma legging preta, pois que o sol me sovava violentamente o pernil, e isso era coisa para aleijar. Mas, ao som de "Because I'm happy", que estereofonava no ponto de partida, lá segui, levemente frustrada pelo facto de não haver um tiro de partida que troasse pelos céus dos Restauradores, profundamente conformada por ele também não ter sido disparado para as atletas da corrida. Afinal, tratava-se de uma corrida amigável, como aqueles jogos de futebol, cá agora tiros.
Ainda assim, foi em modo fortemente atleta que dei início à caminhada da minha vida. Provavelmente, já terei feito outras maiores, mas não (ainda) com o significado desta. O cancro da mama já me levou gente, alguém insubstituível para os meus filhos, e eu não quero que me leve mais ninguém, nem a ninguém mais.
O ambiente da caminhada é de festa e alegria, transversal a mulheres de todas as idades, pelo menos até aos setenta e muitos, desde os poucos meses (muitos carrinhos de bebé), algumas ainda com o cabelinho curto, algumas com o lencinho, algumas com a peruca, mas todas com a mesma força de que só assim, juntas, venceremos o monstro. Muitos homens e rapazes, uma ou outra cadeira de rodas, cães também, mas todos com a t-shirt da união, muito ruído de vozes e gargalhadas, nem um único palavrão ao longo de todo o percurso, nem a palavra tenebrosa que nos moveu a todos para ali, nem um ai. E éramos mesmo dez mil. A avenida ficou pintada de cor-de-rosa até perder de vista, que se perde ao longo de um quilómetro.
Enquanto se sobe a Avenida da Liberdade, acompanha-se bem o ritmo da multidão, mas uma vez na Fontes Pereira de Melo, e depois na Avenida da República, já só apetece acelerar. Se, por um lado, não me atrevo a pensar em participar na corrida — pelo menos sem antes treinar bem —, por outro, a caminhada é uma pasmaceira a partir de meio. Vou sugerir à organização uma competição intermédia para preguiçosas e impacientes como eu: a da corridinha.
Mesmo assim, atingi o tempo record (porque nunca tinha participado em nenhuma) de uma hora, dezanove minutos e cinquenta e seis segundos.


Na verdade, foi um nico menos, mas tive que parar, ligar chico-smart, ligar a câmara, disparar, enfim, nesse procedimento todo posso ter perdido cerca de nove segundos.
Dei por bem empregue aquele tempo, resta-me agora competir com o meu próprio resultado, numa próxima, e atingir os meus mínimos olímpicos. Além disso, vim de lá com uma cor linda.
(Nota mental: equacionar uma caminhada destas aos domingos de manhã, em substituição de uma ida à praia. Chumbo por chumbo, bronzeia na mesma...)

03/04/2017

And that awkward moment # 23

em que entras no supermercado, é-te distribuído um saco para ajuda à Cruz Vermelha, perguntas à senhora, de uma simpatia que só dá vontade de lhe dar logo beijinhos, o que é que está a fazer mais falta, ela te responde "Coisas para bebés", e parece que te ligaram um chip bebés-bebés-bebés, lá marchas para o corredor dos bebés, enches o saco — fragilíssimo e pequeníssimo, por sinal — até romper (true, true), [tanta coisa para se armar em boazinha e vir para aqui dizer que dá aos pobres e aos desvalidos], fazes as tuas compras, para teu lar, nas quais se inclui uma palete de doze rolos de papel higiénico, passas tudo na caixa expresso-rápida-saiam-me-da-frente, sais feliz, porém carregada como uma mula, numa mão a malita, a palete de papel higiénico e o saco para a Cruz Vermelha, na outra o sacão com as tuas compras, diriges-te hesitante, derivados aos pesos e volumes, à senhora, e ela estende-te os braços para te ajudar, dizes que É o que está no braço esquerdo [Reconhece que foste tu quem a induziu em erro!], ela recolhe o saco da dádiva, coloca-o no carrinho onde estão alguns mais, e depois pousa as mãos na tua palete?
Este é, precisamente, o momento em que tens que dizer:
- O papel higiénico é lá para casa, que estamos a precisar muito.
E fazes uma cara a condizer.
...
...
Tipo essa.


01/04/2017

Mentira do dia

Abril, águas mil.

Ó-ó.

(Este post levou-me cerca de 5 segundos a escrever. Depois queixo-me.)

31/03/2017

Objectivo biquíni 2017 - Dia 2

ou

Eu já não tinha problemas que me chegassem


As minhas sextas-feiras são todas 13

Acho que já não é a primeira vez que ponho este título num post. Ou então, foi noutra encarnação. (Quando eu era galinha e escrevia soberbamente, como um rouxinol.) (Sou uma poetisa perdida, inacabada e desperdiçada.) (Um dia serei descoberta, como o caminho marítimo, e esmagada por homenagens póstumas e chatérrimas, já as minhas cinzas terão passado o almofariz da última penitência.)
(Que lúgubre.)
Hoje não acordei assim. 
Mas é verdade que se dá um fenómeno qualquer às sextas da minha vida, que nunca são casual friday, nem yey weekend. Parece que já acordo de mona e com a mosca (em cima da mona). 
Sempre gostei mais das quintas-feiras, mesmo quando andava na escola, e ainda que me calhasse um horário escravizante (como são todos naquelas idades, incluindo os dos dias em que se juntam educação física com trabalhos manuais com desenho) (ai já não há disso? Mas havia, chiu.), dizia eu antes de me perder na frase, que as quintas é que é, a véspera da véspera, o falta pouco, o ainda não cheguei ao rabo do gato. 
Então olhem, como singra e sangra a falta de assunto, e eu também tenho as panelas ao lume e a roupa a corar ao sol aqui na casa da pradaria, deixo-vos com uma melodia que hoje me canta cá na tal mona, pois é a que acompanha os alongamentos nas aulas de dança, e eu considero muitá fixe, e honi soit. 
Boas sextas para todos. E boas sestas igualmente, que quem me dera a mim. 


30/03/2017

Vai ser tão blogger da minha parte

Como toda a blogger que se preze*, inscrevi-me numa corrida. É claro e transparente, além de cor-de-rosa, que não vou correr-correr, pois que essa tarefa está reservada às bloggers-bloggers, e eu sou assim mais mais-ou-menos.
Já fui lá a correr, passe o pleonasmo, buscar o meu kit e, efectivamente, pagar a inscrição. Quero dizer, fui a andar, pelo menos desde o metro até ao recinto. Isto, numa de ir treinando. É que não sei se já disse, mas vou caminhar, quais correr. Penso que é do domínio público que eu detesto correr, por isso só me resta a versão do percurso em caminhada, eu e as 9999 outras Micas todas. Além disso, e como a vida é feita de opções, entre ser a mais velha de toda a corrida e a mais nova de toda a caminhada, mon coeur n'a pas balancé, e optei. 
Como tenho muito com que me ocupar, deixei a inscrição para a última da hora, pelo que a possibilidade de o fazer online já estava cancelada quando tentei. Por essa razão, paguei também o preço mais alto para poder participar, o que é sempre pouco para a causa a que se destina: mamas. 
Quem tem mamas tem medo. E isto não é uma piada. 
Bonito e cor-de-rosa o momento em que a menina chamou, de uma fila de trinta, "Inscrições de última hora!", e vá que fui a única que abandonou a fila, indecisa entre o ar compungido e o ufano. Assim, acerquei-me, tendo-se seguido a amável discussão acerca do tamanho da minha t-shirt. Andámos ali, não literalmente, entre o xs e o 12 anos, não porque eu seja pequena e magra, mas porque as t-shirts são grandiosas e mega. A diferença maior eram uns quatro centímetros na altura, por isso decidi trazer a de 12 anos, que eu quero lá saber se a t-shirt bate na virilha ou bate na cintura e sempre tenho oportunidade de voltar a sentir-me uma petiza por umas horas. 
Agora só falta programar convenientemente o matchi do outfit, que me cheira que vai ser o calção preto e rosa e o téni nos mesmos tons, depois suo-me toda na aula de aeróbica pré-caminhada e, no fim, tiro uma pic, mesmo à blogger, com aquele ar exaurido do povo que corre a sério, estafada e feliz para o retrato da posteridade.
(Escusam de me procurar lá no meio, pois seremos milhares, todas vestidas de igual.)
(Os homens também podem participar na caminhada, e há sempre uns grandes queridos que acompanham, e outros que correm no espaço reservado à caminhada — on fait le trottoir —, mas esses são os que levavam uma rasteira e não se falava mais nisso.)
Vá, a andar.


* Povo: tenho visto mais ou menos frequentemente por aí, escrito prese. Não. É que não existe. Nem o verbo prender tem um condicional tão mau. 

29/03/2017

And that awkward moment # 22

em que te diriges ao teu banco, cheia da segurança e da soberba, animada pela intenção de solicitares que te passem um pequeno pecúlio que amealhas há coisa de quatro anos para a conta à ordem, sentas-te do outro lado da mesa onde está o amigo bancário, todo sorrisos, cheio de cartazes "Aqui consigo", achas uma graça imensa à utilização do duplo sentido do termo consigo — pronome e verbo —, estendes o cartão, explicas sumariamente, já quase a palitar os dentes, que queres passar o porquinho mealheiro para o porta-moedas, e ele te diz, assim, a seco, Tem cá dez euros?
Dá-se-te o flash, reconsideras toda a tua vida, pensas em emigrar ali num instantinho, morre-te um pequeno sonho nas mãos, brotado da boca do bruto, ponderas regurgitar, autopunes-te (dizendo-te mentalmente "Em casa conversamos", já de chicotinho mental na mão) por saberes que, no processo daquela tua poupança, algo falhou, e sabes que foste tu (não terás assinado alguns papeis que o banco te mandou para casa...?), engoles litradas de saliva, antes de pedires, voz falsamente firme:
- Olhe, passe-mos para a ordem, não vá isso rebentar os cofres com o juro acumulado. 
Vai ele e passa-te 10,05 em euros, sendo que 0,05 correspondem ao tal juro. 
Cá agora perdi a pose. Ainda lamentei:
- Olhe que pena não ter posto antes 15 euros. Agora tinha um juro de 0,075, e estou para saber como é que o banco me dava meio cêntimo. 
Ele achou tanta piada que me estendeu um bacalhau. 

28/03/2017

Vencê-los pelo cansaço

Ligo para o apoio ao cliente, onde já me conhecem de ginjeira, mesmo não sendo eu de Óbidos. Tenho uma reclamação a fazer, como aliás acontece amiúde.
- Continente online, muito bom dia, fala o [Tiago, Ricardo, Daniel] [Silva, Sousa, Botas], em que posso ser útil?
- Bom dia, fala [Linda Blue]. É o seguinte: eu fiz uma encomenda online no dia 12, tinha um vale de 15% de desconto em cartão, com prazo para ser debitado entre o dia 13 e o dia 19, inseri o cupão no final da encomenda, fiz tudo bem, fechei a encomenda depois de escolher o horário de entrega e agora a encomenda não me chega a casa.

[clic.]

Volto a ligar, atende-me outro [Paulo, Miguel, Vítor] [Ferreira, Oliveira, Celeste].
- Bom dia, fala [Linda Blue]. Já disse ao seu colega ao que venho, mas acho que vou ter que repetir tudo.
- ...
- É o seguinte: eu fiz uma encomenda online no dia 12, tinha um vale de 15% de desconto em cartão, com prazo para ser debitado entre o dia 13 e o dia 19, inseri o cupão no final da encomenda, fiz tudo bem, fechei a encomenda depois de escolher o horário de entrega e agora a encomenda não me chega a casa. Ainda por cima, uma encomenda a ser feita a 12, com entrega a 13, e se o crédito só pode ser debitado a partir de 13, logo aí encontro-me numa desvantagem, tendo em conta que, se me fazem a entrega a 13, não posso ir a correr ao supermercado gastar o crédito logo a 13, ou seja, fico com menos um dia para gastar o meu crédito. De toda a maneira, vou gastá-lo até ao dia 19, assim ele me caia na conta, nem que seja em panos do pó, só que a questão agora nem é bem essa, é mesmo o facto de não só não ter a encomenda em casa como também, e aparentemente, os 15% ainda não constarem do meu cartão. Não me diga que me fizeram o que fizeram no Verão passado, que também tinha 15% em cartão, e depois o vosso sistema brecou à última da hora e eu vi-me e desejei-me para reaver o meu crédito, e digo reaver porque ele é meu. Foram telefonemas e mais telefonemas, acho que falei com os seus colegas todos, e consigo também, de certeza, que o seu nome não me é estranho, mas primeiro que mo creditassem foi um caso sério, até nem sei se chegaram a creditar, porque nem dei por ele nas minhas contas. É que eu gasto tanto, mas tanto, que já nem sei a quantas anda o meu saldo, até posso nem ter sido eu a gastá-lo, porque toda a minha família tem cartão, e anda sempre tudo a rapar de lá o saldo, antes que ele desapareça. Quer ver o que é que se passa, por favor? 
[Paulo, Miguel, Vítor] [Ferreira, Oliveira, Celeste] deve ter ido cortar os pulsos antes de me responder.
(Já me inseriram o saldo; já o gastei.) 

27/03/2017

O primeiro beijo de Rosinha, minha canoa

Ia eu nervosa e não segura, titubeante e periclitante, pois que me dirigia a um local onde já fui infeliz.
Sabem aquela que diz a milenar sabedoria chinesa, "Nunca voltes a um local onde foste muito feliz"? É em parecido, mas ao contrário.
Também já lá passei horas boas, boas horas. Mas aquele parque de estacionamento tira-me do sério e não me põe no risonho, simplesmente evoca-me uma vez que ali recebi uma má notícia, sentei a criança no carro, coloquei-me diante do volante e desfiz-me a mim mesma num choro irreprimível e irrepreensível. Isto de ser mulher é uma tragédia em infinitos actos, que só quem passa por elas é que coiso.
Assim, abordei o mesmo parque, tantos anos volvidos, apesar de tantas vezes que ali estive entre uma e esta outra, mas algo pode ter-me toldado a vista, o livre pensamento e as sinapses. Avistei um lugar disponível, apontei a frente de Rosinha — eu, que estaciono sempre de rabeta, à velho, como me ensinaram na escola — e trás, deu-se o ósculo bem dado, beijo mal furtado, frutificado com uma amolgadela na frente esquerda de minha canoa, riscos suaves no desgraçado que ali estava ao lado. 
Chorei. Uma mulher não é de ferro, nem seus nervos, menos ainda de aço, ainda que inoxidável. Pode chorar, que não enferruja. A mulher pode. 
(Estou fadada para os prantos naquele sítio.)
Contactada a dona da vítima daquele suave toque com tão trágicas consequências, assinada a declaração amigável (ficámos legalmente amigas), dizia ela, feliz proprietária de um carro riscado, é certo, mas também de um mega-telemóvel, ensombrando chico-smart que se me falece todos os dias um pouco nas mãos, à custa das sevícias a que o sujeito, que Cá dentro tenho "o talho"; Eu estou sempre no talho; Tenho câmaras no talho, e vejo tudo o que lá se passa por aqui. (E apontava para a máquina poderosa, que me encolhia a mim e a chico, não bastando a nossa minha humilhação pelo estrago operado nas viaturas, ainda de maquilhagem denunciadora do desgosto.) O pináculo atingiu-se no momento em que me perguntou se podia tirar uma fotografia à declaração assinada, e me vi no achincalho de ter que dizer assim: Eu tiro, mas não vai perceber-se nada, esta câmara está aos tremeliques, o telemóvel anda a querer avariar, e vai ela e responde o seguinte: Deixe estar, que eu digitalizo com o telemóvel. Pois, não percebi por que é que queria que eu fotografasse uma cena que ela podia digitalizar. (E, se calhar, amandar para o talho, também.)
Estou capaz de me fazer vegetariana, vegan, herbívora, ruminante, fundamentalista da erva.
Uma pessoa farta-se de ser assim.

26/03/2017

A hora mudou e eu

perdi a coragem para escrever. Perdi a vontade, morreu-me qualquer coisa na ponta dos dedos, algo no entusiasmo, tudo na alegria. Foi uma morte súbita, daquelas do coração, imprevista, chocante, um dia está tudo bem, no dia seguinte morreu de morte morrida. Impede-me de me impelir às palavras, desliga-me o ímpeto, esvai-me os assuntos. 
(Até tinha alguns, o do homem de Barcelos que matou 4+1, diz que este 1 é aborto, eu acho que não, mesmo não sendo fundamentalista pro-vida. Então aborto não é a interrupção voluntária de uma gravidez? Onde é que está ali a voluntariedade? Haveria muito a dizer sobre aquele caso, mas também deixou de me apetecer. Não percebo por que é que o pasquim de serviço ao sangue chama ao homem o Monstro de Barcelos, assim mesmo, com maiúsculas no substantivo que devia ser adjectivo. Pode ser alguma associação de ideias com o filme do momento. Bem triste, já agora. Não há Bela naquela história. Só senãos, nenhuma feição.)
(As gatas continuam a dar-se mal uma com a outra; cada vez que se juntam, há briga de gatos cá no lar; a Mia tem oito anos, a Molly tem um, uma não se dá ao respeito, a outra é tonta dos chifres e não sabe o que isso é.)
(O meu computador está farto de chuva. Está de greve de produtividade, trabalha ao ralenti.)
(Diz que Março é Inverno só de manhã. Só me apetece chorar.)
(E que Abril, águas... ai, por favor.)
(Hoje fiz uma aula de dança em que éramos só duas, com a titcha três, mas ela não conta. A outra era uma senhora de idade chamada Narcisa, mas sem vaidade nenhuma. Avisou logo que não sabia dançar, e era mesmo verdade. Tinha pestanas postiças e um eyeliner carregadíssimo, e mais nenhuma maquilhagem. Eu, de maquilhagem completa, saia de dança, a sala toda só para mim — e para ela, vá —, rodopiei como um nenúfar ao vento, feita parva. Ou um narciso, enfim. A meio da aula ocorreu-me que a Narcisa e eu fazíamos um pandã perfeito para uma aula da terceira idade. Mais valia irmos para a hidroginástica. Ou para o Pilates, que lá é que se gemem as dores das costas e dos joelhos e de sei lá mais de onde raio é que pode haver dores daquelas.)
(Eu desisti do Pilates há muitos meses. Toda a gente menos eu tinha uma espondi, uma artri, uma mazela qualquer, e isso fazia-me sentir expulsa da caixa.)
Como agora. 
Tantos assuntos da treta, tanta falta de ânimo para os transformar em coisas saborosas. (Eu sei que consigo, modéstia à parte. Narcisismos de lado.)
Parava de chover, e eu talvez ressuscitasse. 

23/03/2017

Se o estupor não quer desmoralizar-me mais, então não sei o que quererá em alternativa...


Portanto, para Mr. Blogger é possível que haja quatro comentários em dois posts meus de hoje, e zero visualizações em cada um deles. 
Portanto, para Mr. Blogger é possível quatro pessoas — se não contar com as minhas respostas — comentarem sem terem sequer aberto os posts. 
Está certo.
Cão. Vá-se catar.

Please don't go

A sério que se me foi outro seguidor? Quer dizer, uma pessoa anda nisto vai para quatro anos (só neste blog, pois que já não era virgem quando o iniciei), vem aqui diariamente espremer-se toda, vê-se aflita para arranjar fregueses, mais um ou menos um fazem-lhe toda a diferença, e ainda há quem se vá embora?
Granda lata.
Adeus. Só faz falta quem cá está.

Vou adoptar a verve das empregadas domésticas: 
Vou-me embora, minha senhora, não aguento mais.
Ninguém me paga para isto. (Ah, a tal sigla NMPPI!)
Estou cansada de ser injustiçada.
Eu também tenho os meus direitos.
Vou para onde me tratem bem.
Vou-me queixar ao sindicato.
Também serve a dos amantes enxofrados, que é praticamente igual:
Vou-me embora, não aguento mais.
O problema és tu, não sou eu.
Nem sequer foi bom enquanto durou.
Vou ser feliz para outro lado.
Vou partir para outra.
Tu não me mereces.

Ando mesmo a ponderar fazer um manifesto, ameaçar acabar com isto tudo, armar a puta como uma drama-queen, bater a porta com a máxima violência de que seja capaz, partir a loiça toda e também partir, literalmente, para nunca mais voltar, que isto assim também já chateia. 

Eu interajo com os peões

Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. Está também a alcançar a dita uma adolescente cabisbaixa, atitude corporal safoda-caguei, headphones na tola, claramente sem pretender ligar ao sinal vermelho diante de si. Naquela de sou-o-peão-que-se-impõe-e-se-agiganta-tu-paras-para-eu-passar-eu-sou-forte-e-eterna, bem se vê que não viu imagens de Tiananmen. Nem apito, nem nada, impeço-a só de avançar no momento exacto, faço-lhe um gesto "Acorda", e a bruta faz-me um pirete, atravessando mesmo no vermelho, depois de Rosinha passar. 
(Eu não abri o vidro; eu não apitei; eu não devolvi a fineza.)

~
Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões daquelas em que o verde é simultâneo para o trânsito e para as pessoas, com aviso luminoso amarelo de passagem de peões. Estou, obviamente, parada, pois encontra-se um grupo de três ou quatro pessoas no passeio com manifesta intenção de atravessar. Passa um rapazola, diz para a petiza que o acompanha "Está verde", diz-me "Está verde...", com um encolher de ombros irónico, eu sorrio e respondo, com um encolher de ombros conformado, "Pois, já vi". E ele devolve-me o sorriso. 
(Simples, assim.)

~
Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. No passeio, com intenção de atravessar, um casalinho de crianças enamoradas entre si. Ela põe os dois pezinhos na estrada, ele chama-lhe a atenção, eu abrando e digo "Oi?". Ela sorri, envergonhada pela leve irreverência, e recua. 
(Se eu podia tê-los deixado passar? Podia, mas a minha função neste Mundo é a de educar as gentes. E as mães dos dois haviam de me agradecer ter-lhes dado o pequeno ensinamento que é: respeita os outros, se quiseres ser respeitado.)


22/03/2017

eu acho que estive lá

estava uma mulher ao meu lado, segura pelo que foi a cintura — não presa nem amarrada — ao cadeirão onde estava sentada, para que não se levantasse dali e saísse a correr, como se isso fosse possível, dada a fragilidade das pernas e de toda ela. Repuxava as calças de malha para cima, expunha as meias de lã grossa e a magreza da velhice, e murmurava, os olhos pregados nos meus, 
ai meu pai, ai meu pai
e isto foi no dia a seguir ao Dia do Pai, ainda eu não tinha recuperado da falta do meu nesse e nos outros dias todos. 
Antónia, Antónia
e depois dirigiu ainda mais o olhar perdido para o meu, acertando-me em cheio,
ó Ana,
e eu, que sou parva, cantei-lhe baixinho
ó Ana, ó Ana, senhora minha mãe vou já.
no outro extremo um homem lia um livro sobre OVNIs, já há semanas que o vejo agarrado àquilo, suspeito que não passa da mesma página, que pode ser a única que está impressa em todo o livro, o homem estuda com afinco enquanto me faz sentir a mim um extraterrestre.
continuo a arranjar as mãos tão amadas, que me ficam lindas nas minhas, intuo que no tempo que dura aquele bocado a minha mãe é a pessoa mais lúcida daquele espaço todo, embora me repita
és tão linda,
e, quando esse tempo acaba, verifico que as minhas mãos envelheceram enquanto ele durou, mas deixei-lhe as dela pequenas e frescas como as de uma criança. Primaveris. 


Quantas coisas erradas contém esta mensagem?


Várias. Muitas. Todas. Mas a principal, para taradinhas como eu, é o E no lugar do I, no verbo flirtar, que vem directa e irremediavelmente do inglês. 

(A pessoa sente que arrisca a própria vida para tirar estes flashes, que, apesar da sua parca — e parva — qualidade, custam bastante a conseguir. E nada de reconhecimento.)


21/03/2017

O problema não sou eu, são eles

A geladaria tem todas as mesas ocupadas, excepto uma. Ainda me encontro a pagar o que vou consumir, pelo que não ocupei essa mesa, que considero — pelos vistos, mal — que apenas será minha quando estiver servida. Entra um grupo e senta-se, ocupando-a, antes de fazer o pedido. Pergunto à funcionária (que está francamente maldisposta, quem sabe se por estar a trabalhar a um domingo, e que já maltratou duas meninas diante de mim), se pode ser assim, chegar e sentar antes do pedido. A mulher tem um ataque, ruboresce e enfatiza-se toda: "A sala é livre, cada um senta onde quer". Ocorre-me a súbita vontade de me sentar atrás do balcão, aos pés dela, impedindo-a de trabalhar.
~

Entro na farmácia, peço Ben-u-ron e a ajudante pergunta-me para o que quero aquele medicamento. Procede exactamente da mesma forma se eu for lá comprar pensos rápidos ou uma chucha. São ordens, aquela desculpa-caldeirão onde tudo cabe. Respondo que é para a eventualidade de ter febre e dores musculares. "E quem é que lhe receitou o medicamento?". Pergunto-me se inquirirá da mesma forma para uma chucha, mas digo, calmamente: "Ben-u-ron? O médico...?". Mas ela é detective da bata branca e quer falar. "Qual médico?". Perco a paciência, a tal que é curta, e atalho: "Se não quiser vender-me Ben-u-ron, eu posso ir a uma das mil farmácias e parafarmácias que existem aqui à volta". 
~

O vendedor do Barclaycard* vê-me surgir ao fundo do corredor e a linguagem corporal dele diz-me que me vai abordar pela enésima vez desde tempos que não contei. Fico nervosa por constatar que a escolha é feita em função da apresentação da "presa": nos dias em que me visto safoda, sou ignorada; nos outros, é um martírio de pedincheiras. Contorno o stand pelas costas, estou quase a safar-me dele, quando me apanha no fim do atalho. Lá se me escoa a curta, e vai de indagar: "Se me viu ao longe, viu que eu contornei o stand para o evitar, percebeu que eu não quero o cartão que está a vender, o que é que o leva a tomar uma atitude dessas?". Deixo-o a rosnar um "Antipática", ou lá o que é. 
~

Na loja onde compro os collants, que toda a gente sabe qual é, tenho sempre, sem excepção, problemas de comunicação. Estou a ponderar seriamente tomar um calmante — ou um relaxante muscular — cada vez que tiver que lá ir. Exemplo: peço collants pretos, opacos, tamanho M, com compressão. Existe algo mais específico do que isto? Na Calzedonia*, sim. "Mas por que é que quer levar esses e não estes que estamos a promover agora, que têm função push up, a malha é muito mais bonita e o conforto não se compara?". Apetece-me sentar no chão a espernear, a gritar como uma criança birrenta e malcriada, "Mas por que é que não posso levar os collants que quero levar? Eu quero os meus collaaaaaaants, mamãããããã!".



* Ninguém me paga para me calar.

20/03/2017

Isto é melhor do que ler uma ¡Hola! inteirinha (e não faz tanto mal)


Hoje canta-me isto na jukebox mental. (Até eu preciso de uma paciência extrema para me aturar.)

(Trazido na mala de regresso de Erasmus de uma criança minha.)


Com os copos

Este post também se podia denominar 
ou então,
Pois, mas não chama. Chama-se como me apeteceu no momento em que digitei o título, com vista a atrair freguesia, que o movimento anda fraco, ninguém me liga, sou tão pequenina e já me dói a barriga. 
Até podia chamar-se
Era só ter-me lembrado.
(Eia, agora, tudo a vir cá ler, a achar que LB, aquele ícone, se emborrachou e veio cá contar...)

Não sei se alguém se lembra da celeuma aqui alavancada com aquilo dos copos do Continente*. Até veio cá uma azeda destilar, o que me deu para mais de demasiadas visualizações, e a porcaria do post que daí resultou é dos mais vistos de sempre. (Imagino que a própria se finou de alguma maneira, inquinada e seca, com o dedito ET cravado na tecla F5.)
Eu, por acaso, e como gasto lá na mercearia do Titio Mimi, acabei — tudo sem querer! — preenchendo o equivalente a seis cadernetas, que me valeram doze copos, para os quais tive que despender mil, novecentos e vinte euros, apesar de, na conta final, me terem surgido uns apenas modestos cento e vinte euros e não tenha pago rigorosamente euro nenhum. (Não sei se estais a acompanhar.)
A minha escolha voltou-se para os copos de água, pois que sou assim destas modéstias e não me pareceu, à cabeça, que os de vinho ou os de gin me fizessem assim uma falta inadiável no enxoval.
Apesar de ter passado a gozar de uma angústia nova, derivadas da perspectiva de se me partir um, aqueles doze copos fazem-me muito feliz: são de uma beleza redonda e oval, ficam sempre transparentes, independentemente do número de vezes que se lavem na máquina, e, sobretudo, são musicais. As minhas refeições passaram a ser acompanhadas ao xilofone, que é aquele som que sai da minha unhaca quando lhes bato com ela no vidro que diz que é cristal. (A ver se não musico com muita força e não me vai parar um deles ao chão, lagarto, lagarto.) Enquanto eles durarem, dura também a alegria de os ter. (Redundante? E redondo oval, também.)



*NMPPI

19/03/2017

The girl next door # 8

Perdi a conta a há quantos anos mora ela aqui no megatério onde eu também. Talvez uns três, contra os meus três e mais vinte sobre os dela. Vejo-a passar, quase diariamente, a passear o caniche que teve o infortúnio de ter nascido com uma raça caricata, mas que defeca abundantemente o pouco relvado que nos envolve a todos, e que ela, por qualquer motivo que me escapa, não consegue limpar. Sozinha, passada da meia-idade, gorda, as mãos ocupadas com um pouco de nada: a trela e o cigarro. Muitas vezes me questionei por que diabos me olhava com antipatia, me recusava o cumprimento de boa tarde, me virava a cara. Na minha imensa modéstia, imaginava que eram lá coisas de gaja, cenas malucas de mulher sozinha, que até queria, mas já perdeu a esperança numa família, em filhos, num corpo que nunca teve. 
Percebi ontem, quando ela me bateu à porta, munida de dois "homens" — um esquizofrénico que nunca abriu o bico por se encontrar numa fase catatónica, e outro que era igual a ela, porém careca —, para me confrontar, com péssimos modos, com o facto de eu ter o meu carro pretensamente mal estacionado na garagem do prédio. Expliquei-lhes que tinha o carro dentro dos recortes, mas a fúria dos dois era tanta que estavam cegos e, pelos vistos, também surdos: o careca apontava o dedito no ar, o catatónico cada vez mais hirto, ela gritava coisas como "Qualquer dia dou uma mocada no seu carro e estou-me a cagar", e eu esclarecia-a de que tinha acabado de cometer um crime de ameaças, e com testemunhas, por força de eu ter pelo menos três filhos maiores de idade. Entretanto, surgiu uma mulher escanzelada e eles já eram quatro — e nós apenas dois, numa clara desproporção —, a gritar que a irmã estava no seu direito, e que iam chamar a polícia e que iam dar parte e que nós havíamos de pagar bem caro o estado em que o carro da irmã se encontra e téu-téu-téu, que a irmã é uma pessoa muito civilizada, mas que isto já é demais.
E agora questiono-me se os problemas de cada um, como são estas cenas malucas de mulher sozinha, que até queria, mas já perdeu a esperança numa família, em filhos, e num corpo que nunca teve, não podem ser o detonador de um ódio dirigido a um alvo certo, cuja bomba pode explodir a todo o momento, sob um argumento qualquer, com consequências mais ou menos imprevisíveis. E de quantos ódios desta natureza não seremos todos objecto, sem sabermos, sem termos contribuído em nada para isso, a não ser pela nossa mera existência, que será coisa que — vá lá, minha senhora... —, não conseguimos controlar, a menos que façamos a vontade ao doido e nos matemos. 
Mas isto já sou eu a extrapolar, e a tentar perceber, na minha imensa modéstia, os componentes químicos do cérebro da minha vizinha.

18/03/2017

Jardins secretos

Tinha que fazer tempo, como um fabricante de incorpóreos para que tantas vezes somos fadados, perto do equivalente a ter paciência, ou ganhar coragem, e que há-de ser qualquer coisa que só o Criador, ou quem pôs, mais ou menos aleatoriamente, tudo neste lugar desarrumado, sabe o que significa. Tinha deixado uma criança a fazer exame de código da estrada, a mesma que me parece que nasceu ontem — ainda tem bochechinhas, bolinhas de Bichat, e agora já fez a parte teórica, qualquer dia guia —, e eu não dei por esse tempo passar. (Hei-de tê-lo fabricado em excesso ou em defeito, que me voou, naquela corrida intangível que só ele.) Andei uns largos metros até me afastar suficientemente de Chelas, onde nenhum café me parecia poder oferecer o café, e fui sentar-me numa improvável esplanada à sombra, praticamente vazia de gentes, mas cheia de mim e da minha companhia única. Do nada, surgiu uma rapariga e seu cachorro saltitante, lembrando-me que o planeta é o Terra. Nunca bebo aquela marca de café, tinha a trinta metros à minha disposição aquela de que gosto mais, mas não me movi dali, desfrutando de um daqueles insólitos momentos de pura felicidade, em que o Mundo até pode dar-se ao luxo de acabar no instante seguinte, que eu iria com ele, completamente feliz, sem passado e, sobretudo, sem futuro.