22/06/2019

Quão intencional/desastrada/aleatória

consegue ser a oferta de uma revista relativamente ao seu título de capa?


E um picador de gelo, não?

19/06/2019

Aprendam comigo, que eu não duro sempre. Só mole.

Pois, fui à Feira do Livro, e acabou por acontecer duas vezes: a primeira já estava assim mentalmente programada desde que o evento abrira as portas que não tem: à noite, rápido, rápido, direitinha à Dom Quixote para adquirir todos os meus Antónios* que pudesse carregar sem sobrecarregar a conta bancária, essa grande meretriz que emagrece sem grande esforço de forma absolutamente invejável. Trouxe apenas dois, não porque me faltassem as forças para mais, mas porque já expliquei. Ainda por cima, a casa onde habito habitualmente, ao contrário da alma que me habita a mim, não é grande, e qualquer dia estou deitada sobre livros, qual místico da cama de pregos, só que sem dor. A segunda vez que lá fui, fi-lo com tempo, apesar de o da Feira se estar a esgotar, pois fui no último dia. Percorri aquilo tudo de lés a lés, que é como quem diz, de cima a baixo e depois de baixo a cima. (Hã? Muita bom, não ter dado aquele enganozinho do "acima" e "abaixo". São muitos anos, isto.) Ora, conforme é sabido, a Feira admite apenas dois climas: ou chuva, ou um sol a pino que não dá para perceber. Deve ser da inclinação, ou então sou só eu que sofro. Como naquele dia estava calor e eu hei-de ter achado uma ideia brilhante ir de t-shirt preta e calças de ganga escuras, levei com a chapa grelhadeira todo o caminho, principalmente nas duas vezes que subi, tipo em escala ascendente, aquele passeio dos alegres intelectuais assim como eu. Portanto, enchi-me da canícula. 
Isto tudo para explicar um fenómeno da Química, que é praticamente uma metáfora da minha vida toda.
Acerquei-me ali de uma roulote que vendia beberagens, apercebi-me, enquanto esperava a minha vez, que havia umas palhinhas feitas de massa crua, e vai de pedir uma para enfiar na lata do Seven Up, isto tudo armada em ecológica da pegada verde. Vi a senhora tirar a dita lata do frigorífico, pelo que não foi agitada, sequer estava deitada (a lata, não a senhora), entregou-ma, e eu zás na argola daquilo. Abri a lata, tudo igual ao litro, e então meti a palhinha pelo buraco da coisa. E fssssssh, um vulcão de espuma sobre mim, que me atingiu a mala, os sapatos (o cinto não, porque não levava), o chão e um nico o orgulho. Era eu na Feira, onde todos se vão cultivar e pavonear, a segurar uma lata que cuspia espuma. Parecia do circo Chen, eu.
Portanto, recapitulando: massa fresca mais bebida com gás, é igual a festa da espuma.
Há uns anos, alguém descobriu um fenómeno semelhante com a Coca-Cola e os Mentos. Agora descobri eu este. Quase de certeza que o resultado é igual com qualquer bebida gaseificada e qualquer tipo de massa. Quando estiver aborrecida e sem nada para fazer, hei-de experimentar com massa de letrinhas e champanhe. Depois ponho-me no Youtube e fico rica, para poder ir à Feira para o ano, comprar todos os Antónios que ainda me faltam. 

* Lobo Antunes (claro).

17/06/2019

E os boomeranggers? ∞

Uma pessoa instagrama-se e descobre todo um novo mundo de possibilidades de estudos antropológicos associadas. Vocês não sei, mas eu, assim como nos blogs e na vida, tenho os meus guilty pleasures mais ou menos assumidos, pelo menos de mim para comigo: aqueles locais que frequento só para me irritar/ ver até onde é que o patético consegue esticar/ surpreender-me a níveis que desnecessitem de botox, pois o elevar de sobrancelhas e o abrir do olhar que tais publicações provocam, são coisas para perdurar por horas.
Assim, esquecendo agora as inenarráveis - que eu, apesar disso, tentarei descrever em poucas palavras apenas - imagens da tipa que acabou de se maquilhar na casa de banho do shopping e se fotografa ao espelho com as cabines de retrete e as ditas cujas abertas lá atrás, hoje apetece-me vir debruçar sobre a cena do boomerang com que o povo entope as suas stories. 
Eu já fiz boomerang. Fiz, e fiz, e hei-de voltar a fazer, de todas as vezes que o boomerang se justifique, ou seja, em que o micro-filme fique mais engraçado/ ilustrativo/ lógico usando essa "técnica". Se filmar alguém a subir três degraus, se filmar um movimento que se repete num sentido e no contrário (tipo passar a ferro), se filmar um salto de um gato, pode ficar com mais piada se recorrer ao boomerang. 
Mas eu quero, aliás, eu exijo perceber o que é que passa na mona das gajas (são quase sempre, não é? Ou sou só eu que não conheço instragrammers masculinos que se dediquem à tonta do infinito?) que filmam um prédio, aleatoriamente, e depois a gente fica a pensar se elas assistiram a um terramoto ou se é só o boomerang delas do dia? Ou a manita delas com um copo de cerveja, em plenos santos populares, a gente na dúvida se lhes está a dar um espasmo, e por que genitais não se lhes verte a bebida do copo. Ou as gajas a deitarem a língua de fora, aquilo numa cadência ritmada, não sei se sugestiva, mas em que uma pessoa até tem medo de deixar o seu gelado por perto, não vá aquilo chlep e lá se vai o dito coiso.
Olhem, todo um manancial de dúvidas, cuja única resposta há-de ser que já não tenho idade para estas coisas. Estou quase uma senhora.

16/06/2019

Foi tão blogger da minha parte, nem posso dizer que corri, só que curry

Tendo-me baldado ao ginásio, e como auto-penitência, fui correr. Sábado de manhã, cafeína na veia, nada de pesos extra, excepção feita a Ai-fostes e um leve mp 3 (sim, sou desse tempo, com a agravante de ter a playlist toda desactualizada), lá fui para o Estádio dar à perna, considerando a possibilidade de dar uma volta, caso conseguisse, e depois logo se veria se não daria a segunda já a andar. E deu-se o milagre: uma volta percorrida, confirmado que, efectivamente, o que custa são os primeiros quinhentos metros, iniciei a segunda, pensando que ó pá, mal sinta dor de burro/ cansaço extremo/ palpitações, páro mas é, que ainda me sinto demasiado jovem para faleceri e seria uma ironia sem ponta de pinta fazê-lo nesta circunstância em específico. Prescindi da música, para não me enervar, tendo preferido o som dos passarinhos e também dos carros da Segunda Circular, tive uma sorte imensa porque não havia mil mamãs empenhadas em ensinar os seus pequenos piratas a andar de bicicleta com rodinhas, nem outros entraves do género ao meu endurance, a não ser uma ou outra poia de cavalo deixada aleatoriamente pela G.N.R. Ainda assim, e apesar disso, fui-me dando alento, “Vai, gorda, tu consegues”, estou a gozar, dizia-me, “Não te esqueças que estás a menos de uma semana do Verão. Gorda”, sempre achando que a meio da segunda volta ia parar, mas é que as forças não me falharam e pronto, era preciso chegar a esta provecta idade para cumprir 5 quilómetros e 300 metros sem pausa em pouco mais de meia hora. 



Pode ser que nunca mais repita esta façanha, daí a necessidade e alguma urgência de a registar.
Para comemorar a minha micro-maratona, na qual fui a única participante, hoje abracei e beijei estes amores, com os quais pretendo, se não palmilhar milhas, pelo menos dançar muito e fazê-los fazerem-me muito feliz. 


(Na verdade, o meu amor ia para estes, mas o meu pé chato e parvo decidiu pelos outros.)




13/06/2019

Notícias do meu fungo

Está que é uma maravilha. 
Aguentei estoicamente duas idas à praia com ele à vela, eu toda maravilhosa da cabeça aos tornozelos, mas umas unhas dos pés que nem o Shrek. No entanto, isso também me fez descobrir o truque para o esconder, que é passar o verniz anti-fungo nas unhas antes da praia, que uma pessoa chega lá e as unhas ficam imediatamente cobertas de areia, qual glitter. Mas é chato, eu queria-as carmim sanguinário como toda a gente. Porque eu sou toda a gente. (Pelo menos, quando me interessa.)
Entretanto, liga-me a da farmácia, a avisar que a podóloga astróloga da unha do pé desistiu, não percebi se da profissão, se de mim, se do quê: não vem mais a Lisboa, uma vez que, desde que o bebé nasceu, tem muita dificuldade em vir uma vez por mês do Porto, e eu parva, "Mas então que idade é que tem o bebé?", isto por não me ter apercebido de a criatura ter dado à luz recentemente, não que tenha examinado mais do que a aparência que a coisa dá, mas por mera porém olímpica curiosidade, e diz-me a outra assim: "Sete anos". Ai, que estranha me sinto, que aos sete anos dos meus já fazia as contas aos netos, aos sete anos da mais velha já o mais novo tinha um ano e andava e tudo, mas há umas assim e outras assado. Directa para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes. 
Entretanto, fui à minha Filipa, mani e pedicure que sabe tudo acerca de funguices, e que me arranjou o pé, por assim dizer, pois, na realidade, pôs os dois num brinco, não propriamente. Fiquei tão feliz que ando desde aí com o pezinho à mostra, quer faça chuva, quer vente, quer façam temperaturas negativas, que é só o que falta por estes dias. A conselho de Filipa, devo esguichar lixívia para o dedo afectado das micoses. 
Já o médico das pernas, oráculo que consulto todos os meses vai para vinte e um anos (ou pensam que uma fêmea carrega quatro ventres de nove meses cada um sem sequelas vasculares?), receitou-me vinagre de vinho tinto. Espero que não seja para beber. Lá nos entrefolhos da consulta, perguntou-me o dia, a hora e o local exacto do meu nascimento, porque anda muito excitado a fazer cartas astrais das pessoas. Pergunto-me que mania esdrúxula terei quando chegar à idade dele. Eu, chique como sempre, sei tudo menos a hora ao certo, sei até coisas que não interessam, como o local exacto onde fui concebida - Avenida de Roma rules! - disse-lhe "uma hora qualquer entre o meio-dia e a uma, sei que nasci para almoçar", e, passadas umas horas, recebi por mail a minha carta astral, seja lá o que isso for. Ainda não abri, mais por desinteresse do que por medo, mas que las hay.
Em suma, caguei no fungo, isto não de forma literal, até por impossibilidade contorcionista, pelo que decidi escutar as doces palavras de Filipinha: "Os fungos tratam-se no Inverno". Boa, Pips, you rock. Estou contigo e não abro mão. Nem pé.


09/06/2019

estou de Junho

Trouxe-me há muitos anos o pai, que me nasceu neste mês, alguns antes de eu própria conhecer o mundo.
Trouxe-me o mar de Junho, os dias longos e as noites quentes de luar eterno.
Trouxe-me a confirmação de ser, para todo e qualquer efeito, uma mulher.
Trouxe-me, se puxar bem pela memória, o primeiro amor, tão fugaz que não o soube saborear na tonteira dos catorze anos. 
(Não sei como não nasci em Junho, eu. Nem sequer fui nele concebida.)
Depois levou-me o pai, assim como mo tinha trazido. Levou-me a mãe, não satisfeito, cravando-me uma orfandade permanente e defeituosa. 
Ainda tenho comigo guardados os olhos azuis do enorme bombeiro, feições cheias e rudes, tisnadas do sol e do fogo, cheios de mar de Junho para mim, A senhora sabe, a gente vê muita coisa todos os dias, mas isto... E a mão grossa dele sobre os bracinhos da minha mãe, chamando mansinho, quem sabe se também ele cheio dessa orfandade defeituosa que me veste desde aí, Avozinha...
Enquanto não purgar Junho, não saberei estar.

30/05/2019

Ela fala tanto # 27

A sem-nocite não tem limites.
Procurava eu um recipiente de loiça tipo pyrex, para aquecer comida no forno, e lembrei-me que tinha dois iguais, com desenhos diferentes, mas que havia um deles que já não avistava há bastante, pelo que perguntei por ele, olha a loucura. 
- Então, esse foi o que me bateu na cara e se partiu.
Pronto, o verbo partir conjugado na forma pronominal nunca é bom augúrio. 
Sinto no ar um cheiro a acusação.
- Como assim?
- Então, estava mal arrumado...
Um pivete a segunda acusação. Mal arrumado por quem?
- ... e caiu-me na cara.
Terceira acusação, um enxofre que não se pode.
- Ainda andei aí uns dias com a cara marcada. Não deu por isso?
Quarta? Fede.


Pá, não. Cansei de levar na corneta.
- Não, não dei por nada. Fiquei sem pyrex, portanto. 
[Olha a velhaca, que uma pessoa quase faz um traumatismo craniano, acidente grave de trabalho, por uma porcaria de loiça que não vale um c. e que ela há-de ter arrumado mal de propósito, amarga aqui as dores em silêncio e a gaja, além de não dar por nada, ainda lamenta o tareco, em vez de se preocupar com a pessoa, dar-lhe a baixa ou então pagar-lhe uma indemnização.]

29/05/2019

Agora o meu cartão de cidadão é uma folha A4

Então, lá fui ao serviço público da capital de distrito mais próxima da minha residência, suficientemente longínqua para que nem com binóculos visse as bichas que contornam quarteirões com vista à renovação do cartão de cidadão. Cheguei às 9 em ponto da madrugada, hora a que as portas se abriam de par em par. Porém, já entrei atrás de outros sete, julgo que regionais, que devem ter ali aterrado antes do nascer do astro: quase todos senhores de muitíssima idade, naquela faixa em que ainda levam bilhete de identidade (perpétuo) e só vão mudar porque algo na identificação se alterou, tipo o estado civil. Curiosamente, nenhum deles tirou senha prioritária. Mesmo o primeiro, e apesar de o ser, podia. E a terceira, bem mais velha do que a segunda, amorosa, de sapatinhos de fivela, a fazerem lembrar as sandalinhas inglesas das minhas meninas, quando era eu a decidir o que é que elas calçavam. 
Bom. Eu era a 8, portanto. Fiquei ali, cotovelos em cima do balcão, a assumir o semblante de sala de espera, enquanto apreciava o redor: pregado na parede, um calendário de uma funerária com a imagem de um pássaro a alimentar as crias no ninho; um homem de mangas arregaçadas, do casaco incluído, calças de ganga largas com um autocolante colado no rabo, mãos nos bolsos, falando alto, andando para lá e para cá e eu a começar a ficar nervosa; oito secretárias para os funcionários, seis que foram sendo ocupadas aos poucos, cinco mulheres, um homem, só dois a atender, as outras quatro extremamente ocupadas com o computador e papéis, todos da mesma idade, todos iguais: vários quilos acima do peso para o índice, todos de óculos, todos de uma concentração coordenada e pouco simpática. 
Fui atendida por uma das cinco, que não gostou de mim. Eu sei que ia num dia de bad hair, com cara de agarrada a precisar de cafeína, mas, essencialmente, acho que a endémica ficou azeda porque eu era uma forasteira. Pronunciou a bold sublinhado a palavra "Lisboa" e suspirou quando lhe disse que preferia ir ali buscar o cartão de cidadão do que ter que me meter nas filas da capital - e pronunciei a bold sublinhado "capital". Perguntou-me se queria ficar com a mesma fotografia (que tem nada menos que cinco anos) e eu respondi que Isso não me parece muito honesto, daqui a dez anos tenho na minha identificação uma fotografia com uma décalage de quinze anos, e ela, nauseada, mandou-me meter atrás de uma barraca de ferro e olhar lá para um óculo, só faltou gritar Não respire. À primeira chapa fiquei horrível, para além de descentrada, só se via uma parte do meu ombro esquerdo. Ela que isso não interessa, eu ai que era o que faltava, quero tirar outra, e lá reiniciei a sessão fotográfica. Contudo, não havia modo de ficar bem na fotografia, literalmente, pois o óculo ficava uns centímetros acima da minha testa, e, convenhamos, ninguém fica bonito a olhar de baixo para cima, com aquela subserviência, ainda mais se estiver aterrorizado, como era o caso, pela semelhança entre o cubículo e umas máquinas de RX com as quais fui confrontada em pequena, que ainda hoje me assusto só de me lembrar daquilo a espalmar-me contra a parede e não haver chinfrineira da minha parte que cessasse o processo. 
Depois a seca que me saiu na rifa não me quis medir, o que achei mal. É que foi a minha última esperança de entrar na velhice com alguma dignidade. Isto, porque tenho assente nos meus documentos identificativos desde para aí os dezassete anos, que meço 1,68 metros. É o que, efectivamente, acho que meço, mas existe a possibilidade de ter um dia dado a volta à cabeça a um funcionário do Arquivo, ter sido medida de saltos altos e lhe ter dito que não me retirava nem um centímetro por conta das andas. Bom, isto era segredo até hoje. Mas vamos acreditar que são 168 centímetros e que serão até daqui a dez anos. 
Às tantas, a pessoa desapareceu, foi lá dentro fazer não sei o quê, até pode ter sido cocó. Cônjuge entra na sala e pergunta-me qual era a senhora que me tinha atendido, e eu, sincera, que Não sei, hás-de reparar que têm um denominador comum, ainda não percebi se é sempre a mesma que vai mudando de roupa e de secretária. Penso que era uma destas. 
Então, uma lá do fundo da sala, grita na nossa direcção: Os senhores, é para divórcio?
Olha se fosse.
E, mesmo não sendo, não foi chato?
Não. Não me parece, pelo menos... Nos próximos cinco minutos, não de certeza.

27/05/2019

Ando indocumentada

É verdade: de há duas semanas para cá, ando ilegal. Tenho o meu bilhete de identidade de cidadão nacional, vulgo cartão de cidadão europeu, caducado. Passado da validade, mais ainda do que eu. Expirou (Santinho!). Tem sido a minha pequena irreverência, a minha rebeldia à maluca, o eu sentir-me um nico marginal, quase uma delinquente.
Aconteceu que a pessoa humana, tal como milhares de concidadãos e concidadãs, tinha uma data de apodrecimento do coiso para os meses de Março, Abril e Maio de 2019. As notícias que de lá vinham - provindas de quem tentou a renovação antes de mim - eram de algo de semelhante ao apocalipse elevado ao serviço público. Coisas com senhas que, afinal, não garantem a vez aos humanos, chusmas de gentes que se faz valer de prioridades muita malucas (ainda vou escrever um post sobre o trio que empurra o carrinho da criança elevador adentro e gozam todos da prioridade), funcionários que vão tomar café de meia em meia hora, tempos de atendimento para lá da morte lenta, filas gigantescas em caracol, em espiral e em linha recta, a darem a volta ao bilhar grande. 
E porque não me apetece baixar a varina três vezes (mínimo) no mesmo dia, ora porque vejo um velho com um latagão de 18 anos ao colo, ora porque me passo com o do balcão derivados à quantidade de vezes que ele interrompe o serviço para ir defecar, ora porque tenho um ataque de pernas inquietas e já ninguém me segura sentada, eu sei lá, toda uma vida de transtornos que só eu sei, decidi que amanhã madrugo, atiro-me da cama abaixo ainda quase de noite e percorro oitenta quilómetros de estrada, mas vou fazer o meu cartão novo a outra cidade deste país. 
(É claro que me preocupa o facto de chegar lá ensonada e depois andar dez anos - serão dez, sinto-o - com a mesma cara de bêbada olheirenta no meu documento. Mas tudo por deslargar a vida boémia em que ando há duas semanas.)
(E preocupa-me se me mandarem sorrir. Ainda tenho o meu aparelho, do qual não rezará a história daqui a dez anos.)
(E também me preocupa se me quiserem medir. E se encolhi?) (E se cresci?) (Não saberei lidar com tais mudanças.)
(E aquela cena da assinatura com a caneta óptica. Pareço uma analfabeta a assinar.) (Talvez assine de cruz.)
(Não vou ter tempo de lavar o cabelo antes de ir. Vai assim, deslavado, que se fornique.)
Era capaz de ser melhor dormir até à hora de sempre e depois enfrentar as bichas no sossego da minha cidade.

23/05/2019

Mensagens do cosmos # 2

Recebo-as eu amiúde. 
Por exemplo, outro dia fui à boutique ver em que é que paravam as modas - literalmente -, e deparei-me com uma blusa/t-shirt branca que eh, não era bonita nem era feia, mas, como estava cheia de tempo para perder, era fim-de-semana e nem sequer estava soalheiro, fui prová-la, isto em termos de vestir e remirar no espelho, que a fome não era assim tanta. Era uma rica peça de roupa, decote em V (eu costumo chamar-lhe decote em bico, mas há quem leve a peito) e um laçarote mais para o nó de marinheiro no vértice do V, passe a ventania deste pleonasmo que, não o sendo, já o parece. É importante dizer-se que ia acompanhada por uma das minhas crianças, que se dirigira a outro provador, pelo que ia salvaguardada pela possibilidade de solicitar uma opinião abalizada e, convenhamos, sincera. (Diz que é no fundo de uma garrafa que se encontra a verdade, mas eu continuo a defender que é na boca dos filhos.) Pois que acabara de vestir a blusa e tudo me parecia errado nela. Porém, como sou uma pessoa de uma modéstia retumbante, qual Carmelita Descalça, entendi que o problema era eu e não ela. Ainda assim e talvez por isso, saí do provador e perguntei, alto o suficiente para que a criança me ouvisse, "Olha lá, qual é que é o problema desta blusa?". Quem me deu a resposta foi a funcionária da loja, que ali se encontrava a dobrar roupas: "A senhora tem a blusa ao contrário, o laço é para trás". Então está bem, lá reentrei no provador e troquei a ordem à coisa. No entanto, troquei-a tão bem trocada, que a vesti do avesso, embora com o laço para as costas, toda contrariada e a sentir que algo estava muito errado naquela situação. Depois percebi: era o cosmos a dizer-me "Não leves isso, fica-te mal e é horrível."
- Então, não gostou da blusa?
- Ela é que não gostou de mim. Depois experimentei-a do avesso e ficava-me tão mal como com o laço para a frente.

19/05/2019

Eu tenho problemas com tudo # 38

Ultimamente só me acontecem coisas nojentas: já não bastava a caganeira, acompanhada ao violino por vomitório de jacto (haverá de outro tipo? Desconhecemos), depois a coccixada que, para além das dores, só me forneceu este neologismo, agora apareceu-me um fungo numa unha do pé. Isso, lestes bem: micose da unhaca, obviamente - porque Murphy é grande e a Karmen uma bitch - da unhona do polegar do pé. O que é pequeno e oponível na mão, e enorme e, vá, inoponível no pé. O "dedo gordo". (Sei lá, quem está em plena forma deve tê-lo fit.)
Há-de ter sido num daqueles dois banhos (não seguidos, enfim) que tomei no ginásio sem os chinelos, porque acho que há merdas que só acontecem aos outros. Not.
Vai daí, consultei uma podóloga (ainda a achar que o termo correcto é podologista, mas quem sou eu? Ninguém), qual astróloga do pé, que me escavacou a unha até mais não poder, pois encontrou a carne entretanto, caso contrário acho que ainda lá estava de pé em riste a assistir àquilo: pegou num instrumento eléctrico em tudo semelhante à broca do dentista, mas com uma lâmina na ponta, tipo mini moto-serra, e vai de desbastar até ao sabugo e até ao dedo propriamente dito. Se tivesse colocado um nico de dinamite sob a unha, o estrago não teria sido maior. E só não doeu porque eu ando a treinar para santa e não sinto as dores. Mas doeu até sangrar na alma: fui terminantemente proibida de pintar as unhas dos pés (pagam as nove por uma!) durante este Verão que se aproxima, ora tímida, ora alarvemente (parece um tango argentino, isto da metereologia), o que, de tão impensável que é, me coloca várias possibilidades de solução, a saber:
1. Ando o Verão todo de sandálias e meias, qual Maddie. Isto pode incluir as idas à praia. Aproveito e compro também uma daquelas t-shirts de ciclista todas em fibra e material reflector (que devem ser equivalentes a um escafandro, em termos de frescura), e ponho um daqueles bonés de abas nas orelhas, para disfarçar que não sou uma criança nórdica que não pode apanhar sol sem se grelhar toda;
2. Ando o Verão todo de sapatos fechados, a aguentar a tortura da prisão dos meus dez porquinhos, a grunhirem de agonia;
3. Ponho fita adesiva sobre a unha enferma e pinto tudo na mesma;
4. Compro unhas postiças para os pés (não há? Caramba, até sobrancelhas postiças deve haver, quanto mais unhas do dedão) e colo só aquela, porque o objectivo é poder sair à rua com a cabeça erguida;
5. Defeco (não literalmente) no assunto e adopto um estilo meio desleixado, meio wild, meio boho chic, forneço-me de sandálias daquelas que odeio e toda a gente adora e assumo a unha como um ponto positivo no meu outfit;
6. Defeco (não literalmente) no assunto, pinto as unhas todas, incluindo aquela, e saio para a rua com as minhas sandálias lindas e poderosas, eu própria Linda e poderosa, e amargo outro Inverno com umas dores que nem eu, santamaria Linda Blue, a trabalhar para santa desde 1900 e sabe Deus, consigo aguentar sem contorcer levemente o lábio inferior e denotar no semblante que chiça-penico.

12/05/2019

Chamando os bois pelo nome. Nespresso!

Dou-me mal ali. Não há vez, ultimamente, em que não tenha um dezaguisado. E o problema está lá, não sou eu. 
Se a minha vida não dava para o argumento de um filme de terror surrealista pejado de bizarrias, então também não serve para mais nada.
Verifico pela hora de entrada impressa na minha senha de vez que estou ali há dez minutos sem que as três pessoas que ocupam os três balcões de atendimento abertos tenham acabado o seu aviamento: um casal em que ela é neutra e ele é daqueles carecas que não têm cabelo (Lili Caneças, és grande!), mas têm pêlo espesso a partir da traseira da cabeça, que lhes desce nuca abaixo e se enfia pelos colarinhos quero lá saber até onde; um estrangeiro que tem milhares de assuntos a tratar na Boutique, a avaliar pelo modo reunite que adoptou; uma senhora entradota, magra, seca, estilo senhora dona marquesa, que degusta um cafezinho no próprio balcão de atendimento, que isso do bar é para a plebe (como a compreendo, titi). Bem, sou apenas chamada ao décimo-quarto minuto, e porque, entretanto, aconteceram duas desistências (suponho que de duas pessoas assim mais normais como eu, que foram deprimir em posição fetal / praticar harakiri para baixo do balcão do bar). A registar que, entre o décimo e o décimo-quarto minuto, o casal neutra-careca cabeludo acabou de ser atendido, e aproveitou a saída do funcionário para lhes ir buscar a encomenda lá àquele buraco/ mina/ paiol/ poço onde agora vão buscar os saquinhos, e desatou aos linguados, como se estivessem na sua alegre casinha, tão modesta quanto eles, em tudo lembrando Ordralfabetix, o peixeiro; o estrangeiro agarrou em dois sacos, um contendo uma máquina nova e outro milhares de cápsulas, e deu um bacalhau à que o atendeu; a senhora dona marquesa acabou de sorver a beberagem e pirou-se sem levar nada nem coisa nenhuma, sequer um peixe.
Nos entrementes, aparecera por ali um casaleco daqueles em que ambos usam mochila, montes de sacos de lojas e um petiz de quatro anos ao colo dela, aquele bebé que justifica a ainda e para sempre proeminente barriga, que passa por gravidez para quem não sabe. Tiraram senha de prioritários, ela passou o rapaz para os braços dele e ele desandou dali para fora com a justificação da prioridade pelo mão e pelo seu próprio pé. Ela foi atendida e ainda se deu à lata de ir beber calmamente a bica ao balcão da degustação.
Olhem, eu ia-me dando uma coisa. É claro que quem levou comigo foi o desgraçado que me atendeu. Tudo em voz suave, para não doer tanto e não perder a razão (estou uma senhora, eu):
- Contei dez minutos sem que mudasse a vez das três pessoas que já estavam a ser atendidas quando aqui cheguei. E há também aquela senhora do bebé enorme, que está a ser atendida com uma prioridade da qual não pode fazer-se valer. Garanto-lhe que, para a próxima que aqui vier, tiro senha de prioritária e ai de quem duvide da minha doença. Vou fazer como as malucas, que dizem que "a minha doença não se vê".
Pronto, e saí, para aí ao cabo de quinze minutos de ali ter entrado (sim, porque o meu atendimento leva um escasso minuto). Fica o aviso.


05/05/2019

as pessoas nunca morrem

Tremiam-lhe os olhos enquanto as mãos, marejadas, retiravam e voltavam a colocar a capa do telemóvel, e me explicava que a China morria agora todos os dias, por conta de um carcinoma na pata dianteira. Vi-a ver partir a mãe, depois o pai, de seguida um irmão, saga que lhe veio de herança trágica da avó, que casou já órfã e com dois irmãos sepultados, e ficou viúva e grávida do segundo filho - que, efectivamente, era o quarto, ou não tivesse oferecido dois anjos aos céus - aos vinte e sete anos. Por alguma razão que não se explica mas eu alcanço, esmagam-na mais do que todas as outras as saudades do pai, e eu sei que é possível porque não sei o que fazer à desmesurada falta que me faz todos os dias a minha Titi e também a minha gata, logo eu, que me morro de saudades do meu pai e agora também da minha mãe. 
A cadela tem que ser abatida, inglório porém caridoso ponto final no sofrimento em que claramente já está. Passo-lhe a mão no focinho enorme e perfeito, dou-lhe um elogio à bela coleira cor-de-rosa e suspiro que também eu, “tenho uma menina lá em casa assim, que, mais tarde ou mais cedo...”, só que também se me mareja a garganta e afogo o final da frase com uma espécie de pensamento positivo: “Era a cadela do teu pai, vai para o pé dele, serem felizes”. A cadela afasta-se de mansinho, e ela então pergunta-me: “As pessoas nunca morrem, pois não?”. “Não.”
Não, as pessoas nunca morrem.


SEM AR MAR SEA SER MÃE


A combinação de letras, que forma a composição de palavras mais bonita de toda a cidade.


29/04/2019

Só hoje, já fui

A personificação da preguiça — aquele animal que sabe viver, designadamente porque o faz de cabeça para baixo, o que me parece lógico e acertado —, ao acordar, isto é, ao aperceber-me que, desta vez, que era para aí a enésima da noite, era para me levantar da cama;
Mãe: fui mãe, hoje. Mas mãe a sério, quando a ouvi chamar-me, aflita, Mãe... É que me trata pelo meu nome. Não que ache desrespeitoso, eu também não chamava mãe à minha mãe. Era mamã, ou então um petit nom cá nosso. Não que me faça diferença, mas é que me soube bem ouvir assim Mãe..., apesar de saber que foi na aflição, e, por isso, aquilo me ter disparado o coração como um tiro. E então fui mãe, num pé me pus ao pé dela. Sou tão egoísta ou tão desvalida, que hoje tenho andado todo o dia a ouvir aquela música Mãe...
Transportadora e entregadora de bens alimentares: estou farta de ir ao supermercado. Por maior que seja a encomenda do mês, passadas duas semanas já não-há-nada-para-comer;
Cozinheira: das minhas mãos têm que sair coisas que se possam comer;
Costureira: continuo a fazer coisas com as mãos e a máquina de costura;
Senhoria: e chata, também. Um aborrecimento, rendas atrasadas;
Prima: consolei a prima pela morte da cadela dela. Percebo-lhe a dor, a minha Mel faria hoje oito anos e já não faz. Nem fez cinco, nem seis, nem sete, assim como não fará nove nem dez. E continua a doer;
Profissional na minha área: apercebi-me de que fiz merda e até lágrimas me chegaram aos olhos. Nem o cansaço, nem o "só não acontece a quem não faz" — tangas de justificação para a incompetência — explicam um errozinho que é como um grão de areia numa engrenagem. 

Até ao final do dia, ainda serei mais não sei quantas pessoas, resta saber em quantas delas eu serei eu.


Dumbo

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 12)

(Assim se afere a quantidade de assuntos que sinto ter para tratar aqui no buraco ultimamente. Venho dar notícia - nem sequer spoilar - de que vi um filme infantil. Há mais de quatro semanas, ou por aí. Sei que ainda não tinha desmanchado o rabo.)

É que não é spoiler. Não venho cá fazer a sinopse, sob pena de afectar vossas excelsas sinapses. (Gostei de encafuar na mesma frase as palavras sinopse e sinapses, apesar de algo forçado.) (Também gostei de ter conseguido usar a palavra excelsas.) 
Venho cá mesmo só dar esta opinião muito pessoal: o mais extraordinário no Dumbo, não é o facto de ser um elefante que voa, e sim o de ter olhos azuis. Nada que não se tivesse visto já no boneco da Disney, mas que parece absolutamente fantástico quando transposto para um elefante "a sério". Lá voar, ainda vá que não vá, agora, olhos azuis num elefante!?
De resto, o filme é muito bonito. Podeis ir ver, à confiança. E levar crianças, se vos aprouver.

24/04/2019

O problema é se o verniz é recente e de má qualidade

Eu também acho que cada um deve fazer ao seu dinheiro aquilo que quiser. 
Aceito e acredito na liberdade de escolhas e sei que cada qual deve viver tranquilo com a defesa dos seus valores. 
Sou pessoa suficientemente crescida para acreditar que há coisas que tocam mais de perto uns do que outros: desde que fui mãe, fiquei mais sensível à causa das crianças; desde que tive uma mãe velhinha, fiquei mais sensível à causa dos velhinhos; desde que tenho gatas, fiquei mais sensível à causa dos animais. (Não me dêem flores. Por favor. Não aguento mais tanta sensibilidade.)
Também já sou adulta o suficiente para saber que o Mundo em que vivo só não é uma merda porque estou do lado bom, civilizado, com água potável a sair das torneiras e rodeada de gente que, mais ou menos, respeita as mulheres (quando não as mata). Mas também suspeito que vivo rodeada de patos-bravos, pois até ouço um grasnar de vez em quando. Só isso me explica que seja tão necessária a afirmação do valor Cultura (e História?) (e Tradição?) — que, efectivamente, não existe enquanto tal —, agigantando-o sobre o valor Vida. Deve ser por ser da vida dos outros que se trata. Pergunto-me o que seria de nós, pequeno país do sul da Europa à beira-mar plantado, se fossemos um destes dias brindados com um qualquer desses caprichos da Natureza. Quem nos acudiria? E que prioridades teria o tal mundo de gentes superiormente cultivadas sobre a nossa salvação?
Eu também acho que cada um deve fazer ao seu dinheiro aquilo que quiser. Reafirmo, a ver se me convenço disto. 
No limite, ou muito antes dele —, ainda que haja pessoas a morrer de fome, de sede, de frio, de epidemias —, pode sempre rasgá-lo, fumá-lo, metê-lo pelas veias, pelo nariz, ou num orifício qualquer que lhe apraza e lhe seja prazeroso. Ninguém tem nada a ver com isso. Porque, ao que parece, neste Mundo em que eu vivo, nenhum de nós tem uma obrigação Moral — e, antes dessa ainda, uma obrigação Afectiva — para com o próximo. 
Afinal, pensando melhor, não sei se estou do lado bom do Planeta. 



22/04/2019

Fardos de palhinhas

Foi giro, ter recebido, em plena festa regional, uma "palhinha ecológica". O Mundo preocupa-se com o flagelo do plástico, designadamente dos sacos de compras, cotonetes e palhinhas que, não num futuro próximo, mas num presente actual, poluem os oceanos, comprometendo a sobrevivência das espécies - e, convenhamos, a humana por arrastão.
A dita palhinha mais não é do que um tubo feito de uma guloseima com sabor a morango, que, na realidade, não poderá ser usada mais do que uma vez. Gaba-se de não transferir o sabor para a bebida, e imagino o que será beber água por ali: acredito que a água me saberá a água - apesar de inodora, incolor e, principalmente, insípida -, mas a palhinha que a transporta em direcção à minha boca me saberá a morango, ou outro gosto qualquer que lhe tenham injectado na fábrica de doces. Eu, por mim, confesso que comi a minha palhinha sem a ter experimentado numa bebida, por isso esta opinião vale o que vale: zero.
Então, solução para a palhinha reutilizável? 
A madeira ou o bambu não parecem ser. Sendo, como são, materiais naturais, são igualmente mais atreitos a fungos, e ponha o dedo no ar quem quer um fungo ao nível gengival, com todas as consequências que daí possam advir para a dentuça. 
Para quem não possa viver sem palhinha e lhe faça toda a diferença beber sem ela (designadamente as crianças e alguns adultos imaturos ou apenas desconfiados da higiene dos copos), tenho para mim que a solução está no alumínio (material cuja reutilização é infinita, para além de permitir a sua higiene a altas temperaturas), ou no cabo de uma caneta Bic. 
(Um dia, que não estará muito longe daqui, vamos todos parecer o tontinho da aldeia, sendo que o próprio terá um comportamento socialmente irrepreensível, por contraposição.)
Já agora, as palhinhas só se chamam assim porque quando eu era pequenina antigamente, nos primórdios, aquando da sua invenção, eram feitas... de palha! Se regressássemos a esses belos tempos, o problema das palhinhas desapareceria no acto, pois bastaria a cada restaurante/bar possuir um jerico nas traseiras, que ele tomaria conta dos fardos, ao fim do dia. Agora a sério: palhinhas de palha. Não são poluentes, são biodegradáveis, e, ainda que, por absurdo, vão parar aos oceanos, haverá um qualquer peixe-burro que aprecie aquilo. Isto, admitindo que não se desfazem e integram o ecossistema, passando a fazer parte da composição da areia. 
Isto hoje foi de génio.

21/04/2019

Diz que não há duas sem três

E isso é algo que pode gerar controvérsia e preocupação em meu âmago.
No espaço de uma semana, dei uma queda que por pouco não me fracturou o cóccix e tive uma gastroenterite. Sei agora que, pelo menos a primeira, me desalinhou os chakras, pois a pancada foi no primeiro deles e realmente sinto em mim todo o desequilíbrio que isso provocou. Senão, vejamos: ontem besuntei-me com condicionador capilar, julgando estar a fazê-lo com hidratante corporal. Pois, hoje foi a vez de me lavar com champô. Tudo por culpa e conta de embalagens iguais.
Pergunto-me o que pensará toda a minha - eventual, porém - pilosidade corporal que sobreviveu a depilações mais ou menos radicais. No mínimo estará... confusa...?
O que se segue?
Um inadvertido flic-flac à rectaguarda com dupla pirueta e triplo mortal encarpado (com óbvia e expectável aterragem forçada em decúbito dorsal)?
Uma lavagem dentária com supercola 3?


20/04/2019

Não mudes nunca (nem conseguirás)

É o que me digo com frequência amiudada quando me contemplo ao espelho.
Praticamente seis anos após o episódio do óleo de duche que besuntei como óleo pós banho, do qual ainda guardo memória (essa capacidade tão pouco selectiva que só retém tralha, lixo e supérfluos), e a minha pele também haveria de guardar (pois esteve a isto assim - um naco de nico - de fritar ao sol da cidade), hoje foi o dia em que espalhei por toda a cútis condicionador do cabelo (que acho que serve para o condicionar, seja lá o que isso seja, Pavlov explicaria), ao invés de hidratante corporal.
Desta feita, tenho como desculpa que os frascos são iguais e eu, para não variar sequer em ré menor, não li os rótulos. 

Nem tinha porquê, uma vez que, não usando condicionador, desconheço o trajecto que o dito fez até se alojar no meu nécessaire de fim de semana. Um ser humano quer reduzir o volume na mala, atira-se aos frascos que traz dos locais onde se hospeda por vezes, e dá nisto. O que é certo, é que ali apareceu e eu, após cobrir praticamente toda a pele corporal com aquilo, e verificar que estava a ficar toda branca, não estranhei. Há cremes muito esquisitos. Já uma vez comprei um protector solar que era azul. As minhas crianças pareciam strumpfs quando eu terminava a tarefa. Hoje só me questionei quando resolvi passar o mesmo creme na cara e verifiquei a minha assaz semelhança com Pierrette, a chorona.

17/04/2019

au revoir, ma Dame. au revoir, madame

De cada vez que me lembro que a Catedral ardeu em parte, lembro-me que morreu a Dina. (Assim, com artigo definido, como se a conhecesse de algum lado.) Não sei explicar que espécie de associações esdrúxulas faço com alguma frequência, mas também não é nada que me surpreenda e digamos que até já estou habituada. Mas perder duas referências, ou melhor, duas "certezas", em tão pouco tempo, desestrutura-me um bocadinho de cada vez.
Agora deve ser hora de todos nos lembrarmos da(s) vez(es) que visitámos a Catedral e o significado que teve ela para nós. Quanto a mim, visitei-a já adulta e com todos os filhos nascidos, numa época próxima do Natal, pelo que o presépio estava montado, embora ainda sem Menino Jesus, pois não era nascido em Novembro. Já havia estado em Paris antes, mas numa idade em que as Galerias Lafayette, a loja da Elle e a Benetton eram as minhas únicas prioridades em Paris. Louvre, Pompidou e a Catedral eram para ser vistos por fora, quais agora meter-me em filas e pagar bilhetes para ver obras de arte. Cada coisa a seu tempo. Ah, mas subi à Torre Eiffel. De elevador. De qualquer maneira, quando entrei pela primeira vez na Catedral, já a conhecia pormenorizadamente por obra e graça das prodigiosas mãos Disney que desenharam cenas como esta para o filme de animação (quase nada) infantil O Corcunda De Notre Dame, que eu visionara para mais de trinta vezes. Ou, se calhar, mais de o dobro disso.



Mas Dina morreu e isto não me sai da cabeça. Tens na pele um travo a laranja e no beijo três gomos de riso, haverá lá coisa mais bonita que se possa dizer cantando a alguém? Bem sei que não foi ela que escreveu o poema, mas o que é que isso interessa, se o cantou daquela forma que jamais ninguém? Morreu, e a sua morte foi tão apagada das redes como se não tivesse ocorrido. As pessoas têm medo de ser conotadas. Dina era bissexual, toda a gente a julgava - na verdadeira acepção do termo - homossexual, e isso cria aquele incómodo ao povaréu, que tem medo de ser rotulado de lésbico (homens incluídos...?) se assumir que gostava de ouvir Dina cantar. Uma coisa não muito diferente do que se passou com António Variações. Em 1984. Agora tudo lhe presta altas homenagens, imagino que Dina as receberá também daqui a trinta e cinco anos. 
Pode ser uma espécie de espírito de contradição, desta necessidade de estar sempre a remar contra a maré, de nacional porreirismo, ou apenas de burrice teimosa, mas olhem, se há sofrimento pequenino quando me lembro de uma perda e de outra, certamente que o da morte de Dina se me agiganta muito mais dentro do peito do que o do incêndio na Catedral parisiense. O Mundo que me desculpe este meu mundo.

13/04/2019

Eu cá não sou supersticioso

Esta noite sonhei que a Estrada da Luz estava cheia de serpentes, jibóias, anacondas, víboras, pítons, enfim, cobras. Não, eram mais serpentes, grandes e grossas, e o carro passava por cima daquilo tudo, indiferente.
Agora vou meter-me à estrada. Just saying.
Adeus.

11/04/2019

Intemporal vida

Então as duas senhoras, uma já entradota, essa espécie de definição aplicada a quem anda pela casa dos sessenta, a outra seguramente com idade para ser sua mãe, ambas me medindo com invisíveis fitas métricas e olhos perscrutantes, vaiando-me de "minha senhora" a cada pausa, haviam-me dito que, umas portas adiante, três ruas para trás, descendo ali uma parte da calçada, iria encontrar um senhor de muita confiança, que amola tesouras, e não é desses de andar na rua com a roda, a anunciar chuva, que se paga uma fortuna e fazem um serviço que é uma vergonha e depois não temos a quem nos ir queixar, porque eles desaparecem, "na chuva", acrescentei eu mentalmente. Isto porque tinha dito a uma das duas ou a ambas, acho que ao calhas, que tinha a minha tesoura de vinte e seis anos, mais velha que qualquer dos meus filhos, a deixar de fazer o que lhe compete, que é cortar. Por isso é que lá fui bater à porta aqui há umas semanas, que é como quem diz, muni-me do mapa mental, o crosquis descritivo das duas, e fui lá dar. Há lugares assim como aquele, em que o tempo muda de lugar, e em que qualquer retrato que deles tiremos ou façamos será sempre intemporal: impossível identificar-lhes o ano, sequer a década. Assim era aquele, tanto podia ser hoje como na minha mais tenra infância, perguntei-me à chegada se já existia ali há duzentos anos, e tal e qualzinho. Havia guarda-chuvas, bengalas, facas e tesouras um pouco por todo o lado, e o espaço, algo amplo e não muito diferente dos antigos sapateiros - anteriores a umas fabriquetas chiadeiras de chaves coloridas que não servem em fechadura nenhuma e me preenchem de raspão a visão periférica -, era praticamente todo ocupado pela presença de um senhor, também ele intemporal, e seus vivos olhos atrás de grossas lentes, que me recebeu com um "bom dia, menina", sem medições nem distâncias inúteis. Comprometeu-se então a ter-me a tesoura fina, afinada e afiada para dali a sete dias, e foi também por isso que voltei passavam já dez sobre esse dia, e o que é facto é que a tesoura não estava pronta. Riam os olhos quando me confessou que, entretanto, fora operado às cataratas, como se isso não fosse já previsível naquela outra data, e riram os meus quando me pediu meia-hora para proceder à magia da afinação, combinada dez dias antes e atrasada agora por três, contas feitas assim por alto. E foi assim que voltei para casa com o assunto resolvido, é certo, mas também com a certeza de que há pessoas e lugares em que a vida é intemporal - sem temporais.

10/04/2019

Hoje acordei magra

E então fiz a coisa mais blogger que me ocorreu no momento, que foi tirar uma autoselfie, em clara blogger-influencer-position, para mais tarde ou mais cedo recordar o momento, quiçá irrepetível. 


Perdoe-se-me a cara de desenterrada, que se deriva do facto já sobejamente conhecido e aqui publicitado, o cabelo em (ainda maior do que é costume) desalinho, mas lavara-o há pouco e ainda não lograra dominá-lo, o cenário dantesco em que ainda se encontravam os aposentos da magra - e já muito cortei eu, poupando-vos ainda à visão dos pés por arranjar, pois até cortei ali uns cotos -, mas também não possuo um elevador que me faça as vezes de estúdio fotográfico, o xnelo e tudo e tudo o mais. Mas deu-se que temi que a visão que estava a ter de mim mesma fosse fugaz como uma fuga de gás metano, e dei-me rapidamente à frugalidade da chapa, não fosse mais tarde ser acusada de algum delírio sem provas da efectiva magreza de que estava a ser protagonista. Neste momento, por exemplo, em que já almocei uma papa de arroz, uma banana e um iogurte, estou muito mais gorda, apesar de mais gira, pois o cabelo já tomou formas de gente e substituí o xnelo por umas meias muito confortáveis que vieram parar cá ao lar por obra e graça do espírito santo (não são de ninguém, ninguém as quer, provavelmente roubei-as inadvertidamente no ginásio, assim como me nasceu um sutiã na gaveta uma vez). 
Está bem que me desapareceu o rabo, mas, em compensação, desapareceu-me também a barriga. E, no fundo dos fundos, quem é que precisa de um rabo se, quando bate com ele no chão, lhe fica a doer da forma como ficou o meu, como se não houvessem nalgas nem amanhã?
Portanto, confirmo o que já suspeitava há uns anos a esta parte gaga: nada como uma caganeira em bom para nos pôr na linha. Quais dietas io-io, quais doutores da sabedoria endócrina, quais comprimidos do milagre, quais fechar a boca e passar fome. Era eu ser uma mulher de Ciências e isolava mas era o vírus da gastura, patenteava a coisa e vendia-o que nem pãezinhos. E depois comprava frascos. Frascos!
Está feita a minha quaresma, aleluia, irmãos.

(enviado por uma filha, algum dia tenho esta imaginação?)


09/04/2019

Encontrei o Zezinho!

Mr. Google, após aturar-me pesquisas por “boneco de chiar bebé borracha vintage” e outras mais ou menos perversas deste género, desistiu de devolver-me caraças assustadoras e Vitinhos vários, para me ofertar a imagem do verdadeiro Zezinho, exemplar não único dos nossos zezinhos.




08/04/2019

Já não bastava o coice que me autoinflingi nos quartos traseiros

Estava aqui a degustar um iogurte simples com açúcar e uma banana - das poucas iguarias que são permitidas a uma pessoa nas minhas circunstâncias -, após ter almoçado um puré de cenouras composto apenas por cenouras e duas colheres de arroz branco composto apenas por arroz branco, quando me pus a pensar nos zezinhos. 
Os zezinhos foram dois bonecos de borracha que a minha irmã e eu tivemos, oferecidos por alguém, talvez a mãe do primo Zeca, e que, isso sim, é certo, por serem muito parecidos com ele, foram ambos baptizados com esse nome, sem maiores buscas por originalidades ou diferenciações. Os nossos zezinhos eram iguaizinhos um ao outro, apenas diferindo nas cores do cabelo - o da minha irmã era loiro, o meu era ruivo - e do debrum do almofadão, um azul, o outro verde. De resto, estavam ambos deitados de lado, com a cabeça pousada no almofadão debruado, um dedo (creio que do pé) na boca (o que muito me aborrecia, pois não conseguia pôr chucha nenhuma ao meu) e a fralda branca a tapar as partes pudendas, mas que, apesar dela e sob ela, se presumia a presença e prova de um sexo masculino. Enfim, nós demos por garantido que os zezinhos eram dois meninos e, se não havíamos perdido tempo a encontrar-lhes nomes que os diferenciassem, menos ainda nos preocupámos com o género dos bonecos. E, já que eram integralmente de borracha, almofada incluída, entendemos por bem fazer deles nossos brinquedos de banho, que, na época, era comunitário, quantas vezes não com a cadela também, já que a alternativa que apresentávamos era a de não nos lavarmos de todo. Ora, os zezinhos tinham um pipo atrás das almofadas, que era por onde entrava água, que depois saía de esguicho. Conforme é sabido comummente, nada mais fantástico para uma criança metida numa banheira do que um boneco que esguiche. É claro que, à força de tanto entrar e sair água dos corpos dos zezinhos, um dia mais tarde encheram-se de bolor e foi-lhes o fim. Acho que se desfizeram, a borracha tem esse grande sentido de oportunidade. 
Assim estou eu há três dias, a esguichar por cima e por baixo tudo o que ingiro, seja água ou outra coisa qualquer mais sólida (mesmo que seja gelo, portanto), e só não apresento uma imagem mais gráfica de todo este cenário porque, parecendo que não, ainda sou uma senhora, e ele há limites. No entanto, um pensamento ilumina-me as horas mais negras: "É desta que fico magra". 
Vá lá a ver se não me encho de bolor e não me desfaço em pó.

05/04/2019

O coiso faz seis anos

Nem de propósito, este buraco completa hoje a linda idade de seis anos. Criado numa tarde de tempestades várias, designadamente atmosférica, aqui o eis, de passando de cerca de dois mil dias depois, três mil e tal postas após. Está um menino, qualquer dia vai para a escola aprender a ler, e, muito mais importante, a escrever.

(Este post foi directamente escrito de Ai-fostes, mas convenhamos que podia ter sido escrito com os pés, de costas para o teclado ou de cabeça para baixo - ou tudo em concomitância -, que contava na mesma para as estatísticas, ou não? Mr. Blogger defeca-se para a qualidade dos conteúdos, apenas a permanência, assiduidade e quantidade interessam para o cômputo, digo eu.)

04/04/2019

Cóccixada

Não existe uma fórmula correcta para contar isto. Ando para vir aqui desabafar há dois dias, desde a ocorrência, e não me sai um intróito que não pareça outra coisa, se vos confessar que caí da cama. A verdade nua e crua é que estava vestidíssima, foi a meio do dia, tudo assim muito pouco erótico. Fazia companhia a uma filha doente, deitei-me ao lado dela enquanto esperávamos o médico, e nem de repente, nem com a desculpa de atender o telemóvel, nem nada, apenas porque tinha que ser, virei-me para o lado e não me falhou o chão, antes pelo contrário: falhou-me a p. da cama, e olhem, deu-se. O trambolhão. A traulitada. Pois, não sei explicar. Tombei de maço, quedei-me no soalho, até me pareceu que a cama se elevou um bocadinho só para que eu caísse de mais alto. Eufemisticamente falando, bati fortemente com o cóccix no chão. A base da coluna. A cauda equina. O horror, a dor excruciante, o ridículo do sofrimento ao nível da rabeta. De que me servem as nalgas se depois, quando mais preciso delas, se encolhem, cobardes, e permitem que o osso se amarfanhe desta forma contra o pavimento? Deixei de ver a luz, o que, convenhamos, parecendo que não, é sempre bom sinal, o desmaio a advir, as pernas num formigueiro de térmitas, ai tu queres ver que vou ser a entrevadinha do bairro, que vai ter que explicar-se para todo o sempre que caí da cama e dei com a peida no chão?, mas como me apeteceu chorar e o meu organismo não consegue fazer tudo ao mesmo tempo, já não me apaguei, dei uma boa chorada e, quando o médico chegou, estava fina, apesar de ter a maquilhagem borrada e um andar um bocado estranho, quadril alçado e um tudo-nada coxinha.
Desde aí, dói. Dói andar, dói subir escadas, dói dançar, dói correr, dói a pessoa sentar-se, dói mais ainda quando se levanta. 
Mas quem é que nunca desceu do salto, quem foi? Ah, pois é. 


31/03/2019

< 40'

Foi o meu resultado de hoje na Corrida Sempre Mulher. Não interessa se faltavam dois segundos, ou dois minutos, ou mesmo dez, a verdade é que o relógio ainda não tinha dado os 40 minutos desde o início da prova. 
É que hoje corri todo o percurso, com excepção de trinta metros na Fontes Pereira de Melo (depois de ter subido a Av. Liberdade inteira) e trinta segundos para beber água, já no regresso. 
Tenho a certeza de que nunca corri tanto, em tão pouco tempo, em toda a minha vida. Nem quando jogava à apanhada ou ao toca-e-foge (na verdade, cansava-me, distraía-me, não me lembro de esgotar muito tempo nem forças só a correr), nem mesmo quando a professora de Educação Física, no liceu, nos punha a correr "o quadrado" (espécie de castigo corporal de avaliação, creio que inventado por ela, a ser aplicado no primeiro dia de aulas de cada ano lectivo), que consistia em dois quilómetros à volta de um dos campos de jogos, mas que eu aldrabei de todas as formas possíveis e inimaginadas.
Mas hoje até me apeteceu ir buscar uma medalha, ou um troféu daqueles que, não sei porquê, só mandam fazer três. Ao menos uma menção honrosa para senhoras de idade que se superam e superam mais umas dezenas de mulheres mais novas, mais magras, mais treinadas, ou tudo isso junto? Nada. Uma barra de cereais - que, obviamente, já marchou - e uma garrafa de água, e vai-te. 
Ilações retiradas desta corrida e a reter:
1. Com todos os defeitos que possa ter (início da prova numa subida, mas, lá está, final numa descida), continuo a preferir este percurso ao da Expo;
2. A avenida da Liberdade nunca mais acaba. É mesmo mais comprida a subir do que a descer, só pode;
3. A avenida Fontes Pereira de Melo nunca mais acaba;
4. A avenida da República nunca mais acaba, mas vá que o percurso da prova a corta ao meio;
5. Atingir o Marquês de Pombal e achar-se que "agora começa a Fontes Pereira de Melo" é uma doce ilusão, pois a rotunda nunca mais acaba;
6. Atingir a rotunda do Saldanha e achar-se que "agora começa a avenida da República", é uma doce ilusão, pois a rotunda nunca mais acaba;
7. Quando se desce a avenida da Liberdade e, ao quarto quilómetro, se vê a meta ao fundo, é uma doce ilusão, pois a meta está longíssimo e a avenida, basicamente, nunca mais acaba, já disse?;
8. Indumentária ideal: a que levei hoje - calças que não caiam pelas pernas abaixo, t-shirt justa (optei pelo tamanho 12 anos, pois, aquando do levantamento do kit - na véspera, ou seja, ontem -, já não havia XS, que eu não vestiria, nem S, e o M permite o baloiçar de tudo à vista de todos, logo, compromete-me a performance, tamanha é a preocupação/vergonha), sutiã de alta sustentação (há uns excelentes no Decathlon*, € 3,50), cuecas tanto faz, qualquer coisa para a cabeça se estiver sol (um bandana serve, eu não aceitei o boné da corrida, porque fazia publicidade a um fiambre e eu tenho uma imagem a defender), o mínimo de pesos possível (já basta o próprio);
9. Não ir para a borga na véspera (tipo ontem, mas era um jantar de aniversário ao qual não podia mesmo faltar);
10. Negociar com a organização o adiamento por uma hora do início da corrida, de cada vez que haja mudança de hora para Verão (se é que esta saga vai mesmo continuar). Menos uma hora de sono, para quem se deitou tarde, é meio caminho andado para que (se) corra mal. And still... Sou a maior, pazinhos, esta vitória sobre mim mesma já ninguém me tira! 

(Agora, para ser e vir a sentir-me uma blogger a sério, acho que já só me falta fazer daqueles micro clipes, que acabam a parecer longas metragens, com todas as ofertas que recebo em casa, integralmente filmados com a mão direita e em que a esquerda tem que abrir caixas e desdobrar roupa sozinha, numa ginástica entre o trágico e o cómico. Já ando a treinar, calma, apesar de, não sei porquê, ainda não ter recebido ofertas nenhumas.)



*NMPPI


29/03/2019

magro, seco, bronzeado

Podia ficar dias a fio no átrio das chegadas do aeroporto - mais rico, talvez, em histórias ricas do que o das partidas -, que teria, dessa forma, sempre o que contar, assuntos sobre os quais escrever. 

Ela era alta, corpulenta, e imaginei que apenas por esse motivo calçasse sabrinas, uma vez que destoavam no vestido de corte clássico, apesar de largo, folgado, camuflante. Dava por ali passos miúdos, inquietos, incapazes de sossegar. Sob o vestido vermelho revelavam-se-lhe palpitações de sangue quente, descontrolado, numa espera de quem desespera sem saber se alcança. Ele chegou no avião que veio de África, desceu a rampa trazendo apenas uma mala de cabine a rolar pelo chão - denunciando uma curta estadia por lá ou por cá -, e era magro, seco, bronzeado do sol. Aproximaram-se em silêncio, e nesse silêncio proferiram uma palavra muda cada um, talvez olá, chegaram-se os lábios e tocaram-nos ao de leve. Ela um pouco maior do que ele - talvez por isso o calçado tão raso -, maior também em opulência e palpitações de espera, fez menção de o abraçar de saudades, mas ele era todo magreza, secura e bronze: permitiu os braços dela em torno, o nariz dela no pescoço, sei lá que lamentos, alívios ou promessas ao ouvido, e permaneceu estático, um braço na asa da mala, o outro nas asas da falta de paixão. E lá seguiram, lado a lado, como dois ocasionais, ela em tudo muito maior do que ele.



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#done

25/03/2019

Não está fácil escrever o penúltimo antes dos 3000

Não está fácil decidir o assunto do 3000.º

Este aqui tem como título Martim Moniz rules

Apetecia-me vir para aqui armada em boa, pois há muito tempo que não o faço, e isto já se sabe: um blog sem litros de baba por autoestima, sem um exagerozinho narcisista, a dar a entender que somos jovens e belos e inteligentes e bem sucedidos, tudo a um tempo, não é um blog a sério. E eu ontem fui correr. Tenho que me preparar para a corrida Sempre Mulher do próximo domingo e tinha, ao todo, o dia de ontem para os treinos, a ver se melhoro o meu último tempo, apesar de já não me lembrar qual foi. Bom, achei que ia desfalecer aos primeiros passos, mas, talvez porque recentemente cafeinada, correu bem, corri bem. Uma volta completa ao Estádio Universitário, que devem ser dois quilómetros e meio, mais cerca de quinhentos metros a andar, mais outros dois de corrida. Pronto, foram quase cinco quilómetros a correr, pelo que acho que estou mais que preparada para a maratona do dia 31.
~
Voltei a ter aulas de Jump, quem me apanha com aquelas botas nunca mais me agarra. É.pura.felicidade. O cansaço é tanto, ao fim de dez minutos, que não se pensa em mais nada, nem mesmo naquelas comezinhices de o-que-é-o-jantar-?. Acaba por ser uma actividade intelectual, em suma.
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Levei uma cornada de uma amiga. Ando há dias a matutar sobre isto. Já chorei um bocadinho e tudo. Ou melhor, aproveitei um catalizador qualquer e este assunto da amiga - que, afinal, não devia ser, eu é que confundo tudo e percebi mal -, foi na cheia, literalmente.
~
Outro dia dei uma porcaria de umas moedas que tinha no porta delas a uma malabarista, do semáforo da Praça de Espanha. Daquelas que atiram pinos, maços e marretas pelos ares, sei lá se são malabaristas. Fico sempre fascinada, quando me calha o primeiro lugar no semáforo, sem perceber como é que nunca acertam num pára-brisas, no meio de tanto objecto atirado aleatoriamente. Ela era lindíssima, tinha os cabelos encaracolados e os collants rotos. Disse-lhe, "Desculpa, é tão poucochinho", e ela recebeu os cacos com uma espécie de vénia e respondeu, "É de boa vontade, chega perfeitamente". Fui-me embora feliz, tenho sempre medo/esperança de reencontrar o velhinho que vendia nougats naquele mesmo semáforo e que uma vez o taxista que me levava tratou mal. Tratei eu mal a seguir o taxista e comprei nougats ao senhor, mas porra, a ferida já lá estava. É uma vontade de lhe dizer, "Olhe, desculpe aquele dia, o homem era um bruto, mas nunca comi nougats tão bons como os seus". Nunca mais o vi, mas vejo-o de todas as vezes que cruzo aquele semáforo.
Contribuí com uma merreca para a UNICEF Moçambique. Tive vontade de repetir "Desculpa, é tão poucochinho". Na volta não recebi uns olhos belíssimos a garantirem-me "É de boa vontade, chega perfeitamente", e isso anda a fazer-me mal.
~
Fui ao Martim Moniz ver das molas de que precisava, por sugestão da Izzie. Uma pessoa entra noutra dimensão desde que sai do metro. E ainda noutra a cada loja onde entra, a pedir indicações específicas de onde encontrar aquilo assim. O que vale é que levava uma, para amostra, porque ali ninguém entende nada do que uma pessoa diz. Finalmente, quando se atinge o armazém de retrosarias, meu santo Deus, Alá, olá, olá!
E sim, é preciso tão pouco para me fazer feliz! Obri-ga-da, babe, you rock!

1 euro cada 20, vieram 200, seriam 200 euros
lá no outro magano, muáháháhá!



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#jasofalta1earesponsabilidadepesa


22/03/2019

A pessoa humana também se engana (e rima, ainda por cima) (again)

Este post é assim uma espécie de errata: onde se lê Singer, leia-se antes Singer.
A realidade é que o ser é livre de se enganar, hom'essa. 
Em relação ao post anterior: o Singer que vi no Car S.O.S. não era nada um Porsche. Era um clássico inglês, o Singer - marca, não modelo. Mas também se mantém quase tudo o que disse em relação ao Porsche, com a excepção de ser norte-americano. Mas até o nome do seu inventor era Singer, portanto encaixa tudo na perfeição e faz de conta que estes dois últimos posts não existiram. Mas contam na mesma. É que, a brincar, a brincar, lá enchi mais um chouriço.



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#jasofaltam2

Da fonética das coisas

Sempre ouvi chamar às máquinas de costura Singer, Sinjér, e assim sempre me referi a elas, sem nunca me questionar se era assim que se dizia. Até que outro dia estava a assistir a um episódio de Car S.O.S. e calhou-me o Porsche Singer na rifa, isto não literalmente, mas em termos de visualização. Dá-se que o programa é inglês, pelo que, de cada vez que disseram o nome do modelo do carro, pronunciaram sempre Singuer.
Cantor. 
Já estudei na wikiseca [fui linda, não vim para aqui dar bitaites sem antes marrar a liçãozinha] e as duas máquinas (de coser e de conduzir) não têm nada a ver uma com a outra - o que não seria nada de inédito, basta que nos lembremos da Yamaha com os pianos e as motas -, a não ser o facto de o inventor de uma e um dos engenheiros de outro serem ambos norte-americanos e terem, por coincidência, o mesmo apelido - Singer - para além do que o último foi mesmo vocalista de uma banda.
[Vai-se a ver e a tradução mais correcta de Singer é Silva.]
Acrescento eu que, provavelmente, tanto quanto ao nome da marca como ao do modelo, alguém um dia considerou que os seus motores emitiam um ruído semelhante ao de uma melodia. [A minha Singer, neste momento, ruge como um leão, deve estar a precisar de óleo nas juntas. Ou pistons novos.]
Toda a minha vida foi uma mentira.



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#jasofaltam3

21/03/2019

Negócio da China

Necessito de desabafar.
Sou, a partir de hoje, apologista do Portexit. Vou fundar um movimento para que Portugal abandone a União Europeia. Tudo por causa de umas molas de plástico vindas da China, onde custam quase cinquenta vezes menos do que aqui no Estado Membro. Isto significa uma diferença, com lucro de 5.000 % para quem as vende cá, right?

Ora, então: precisei de umas molas de plástico, com a aparência de botões, que se aplicam através de pressão, com uma espécie de alicate/agrafador. Cada mola destas é composta por quatro peças, duas com o formato de um botão liso, mais um macho e uma fêmea.
(Isto é importante para se perceber a dimensão da minha revolta.)
A retrosaria vende-as a € 0,25 cada uma, mas eu necessitava de centenas. Tipo cem, ou assim. 
Ebay com ela, € 4,00 cada cento e cinquenta. Portanto, o retroseiro tem uma margem de lucro de perto de cinco mil por cento. Está certo. 
Chegaram-me ao lar impecáveis, usei que me fartei, até precisar de novo. 
Precisei de novo, por ter gasto as cores mais usadas - cor-de-rosa, branco, azul-bebé -, voltei a encomendar do Ebay, porém a data de entrega não se compadecia com a minha pressa.
Entro na retrosaria - que a minha modéstia, mas, principalmente, falta de memória, não me permitem revelar o nome, mas é ali para Alvalade, sei apenas que o nome começa por Casa da e acaba em Costura -, peço dez de cada, o homem senta-se à mesa e começa a separar as peças às quatro e quatro, para perfazerem, cada quatro, uma mola, e, quando já havia separado as trinta que eu pretendia, diz-me assim:
- Faço-lhas a sessenta cêntimos, porque costumo cobrar um euro.
Eu logo incrédula, sem perceber que conta era aquela. Sessenta cêntimos cada quê?
- Cada mola, porque costumo cobrar a € 0,25 cada parte da mola - diz-me o deslavado.
Ou seja, eu ia predisposta a gastar € 7,50 euros e a criatura fazia-me o especial favor de me cobrar € 18,00 em vez de € 30,00, ou não me falhará jamais a Matemática.
- Mas eu compro-as aqui por € 0,25 cada uma, aumentaram assim tanto? - Eu ainda a achar que podia haver um engano. Mas não, segundo ele, enganou-se foi quando mas vendeu a esse preço.
- Olhe, então enganou-se duas vezes. É claro que não levo nenhuma, prefiro esperar que cheguem da China. - E mostrei-lhe a página com a minha encomenda.
Só não lhe chamei gatuno porque ainda sou uma senhora.
(Chamo agora, no recesso e na cobardia do meu espacinho.)
Gatuno!
(Vá roubar para a estrada, mazé.)



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#jasofaltam4

18/03/2019

Enchia os seis chouriços que me faltam para os três mil em menos de um fósforo

(Por falar nisso, ainda agora comprei um chouriço. Vou fazer empadão de batata para o jantar, e não conheço nenhum bom empatata sem uma boa chouriçada. Mas este não conta para o cômputo.)

Tenho variadíssimos temas para posts, todos eles de um interesse olímpico, mas depois, oh.
Senão, vejamos:
1. Descobri hoje que os dois dentes da frente são os dentes 21 e 11, o que configura a minha data de nascimento e são, hossana, os meus dois maiores dentes (no sentido do comprimento, subentenda-se). Cosmos, o que queres dizer-me? Vou um dia perdê-los? Vou, claro, mas isso já sei. Basta-me sobreviver até ao momento em que eles caiam por si, ou então em que dê uma boa carolada com eles na linha da frente (que é onde, aliás, estão colocados) e os fracture;
2. O quão mal se escreve no nosso país. A capa da revista Sábado desta semana é um pequeno exemplo;

A formulação correcta é "Como podemos proteger-nos".
A acção está no verbo proteger, não no verbo poder.
Anos a serrar este presunto. Anos.

3. O quão mal se fala neste país. Dizer a ela é tão popular que quase parece correcto. Ou Vou com vocês. Curiosamente, não oiço ninguém dizer Vens com nós, ou Vou com tu. Mas está bem;
4. Uma das minhas idas à Nespresso**, sempre épicas. Um funcionário que se engana na encomenda e ainda me põe à espera que ele vá anular a minha factura junto do colega (acho que ele não sabia/não tinha competências delegadas para tanto). E ainda me faz assinar a anulação/emissão de outra;
5. A alegria de estrear um vestido de flores num dia de Inverno com cheiro a Primavera. Custou 20 euros em outlet, promoção da promoção, preço de loja 190 pacas. Da Globe*;
6. As minhas dúvidas entre uns Gazelle* cor-de-rosa e uns Stan Smith* com o tornozelo rosinha. Tudo Adidas*, logo eu, que sou team Nike*. Decidi pelos segundos e vou ser feliz com eles.

Estão a ver? Então não são tudo assuntos fracturantes? Pelo menos o primeiro, é, ou tem uma possibilidade, mínima que ela seja, de vir a ser. Mas depois há algo que me trava, e me impede de vir para aqui desenvolvê-los como merecem. Ligo o computa, cheia de sede ao pote e fogo à peça, e há ali um momento em que not. Depois desligo e não penso mais nisso.
Parecendo que não, desta forma talentosa, lá enchi mais um.


*NMPPI
**Ninguém me paga para me calar




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#jasofaltam5

15/03/2019

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 15

Comprei uma tesoura nova. A minha já tinha (e tem, graças a Deus, longe vá o agoiro, salvo seja três vezes, lagarto, lagarto, o diabo seja surdo) vinte e cinco anos, daqui a pouco vinte e seis, já havia cortado papel - erro! - algum cabelo - o que amola as tesouras, porém corta o cabelo em diagonais imperfeitas, é todo um mundo de franjas tortas -, de maneiras que já me roía mais os dedos do que cortava tecidos, e vamos assumir de uma vez por todas que eu sou dada à prenda doméstica, ao lavor feminino (calem-se as vozes dos histerismos feministas, mas também dos misóginos, cada um é para o que nasce, e deixem lá ficar os homenzinhos com os parafusos e as porcas, embora haja elementos como aqui a escritora de renome que vão a todas, ele é berbequim, ele é máquina de costura, não me metam um motor à frente, que vai tudo à frente, passe lá o pleonasmo, imagine-se este dom aplicado a um corta-relva ou a uma retroescavadora, tanto terreno por desbravar, tanta pomba assassinada), por isso era cortar panos todos os dias e, a cada um que passava, mais calejado o dedo médio da mão direita, parecia um tarado sexual destro, que era onde assentava a argola da tesoura, ainda por cima de inox, e eu tão alérgica, que também tenho cá os meus salamaleques de gaja.
Está bem que podia ter mandado amolar a velha e cansada tesoura, e vou-o, mas apeteceu-me esta mudança, deixem-me cá ter os meus caprichos mundanos.

(*)

Então, adquiri esta maravilha da técnica da desunião, linda e blue, aros de plástico - e até uma ceninha para poisar o dedito indicador, se reparardes -, com uma lâmina de fazer inveja à Rita Capadora lá do meu Alentejo. 
E estou feliz desde então, sendo que pretendo passar um fim-de-semana em grande estilo podador, aparador e trinchador com a minha nova boneca. 
(Chiu, pá... fogo.)

(*) Sim, temos noção - meu editor de imagem, meu fotógrafo particular e eu - que esta pic tem tudo para dar errado, uma vez que a posição do punho é tudo menos anatómica para quem tem uma tesoura, ainda por cima óptima, na mão. Foi todo um debate entre nós três, tirámos dezenas de chapas, e a produção é que decidiu por esta, porque, por um lado, viam-se as unhas quase bem pintadas, a pulseira de plástico, o cenário de barras a condizer com tudo, uma luz perfeita, enfim, toda uma mise en scène que convinha não desperdiçar. (Mentirosa é a prima e casou-se.)



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#jasofaltam6

14/03/2019

se eu fizesse uma tatuagem

era à esquerda de mim, sobre a pele que cobre toda a área que fica entre a primeira e a quinta vértebras, o gradeado que protege como pode o coração, e pedia para me pintarem o contorno de um avião, e, dentro dessa linha, o número 8668, que é o exacto número de quilómetros que me separa da maior parte de mim, e isto sei porque agora, por uns dias demasiado largos, por temporadas futuras que não saberei contabilizar em horas, estarei aqui em estilhaços de mãe, aguardando que me volte sã, salva, e de novo minha. Há quem diga que os filhos são do Mundo, são da vida, oh!, que acertadas palavras que nenhuma mãe sente - os filhos são nossos, gerados e dados à luz por via directa deste que agora eu tatuaria de bom grado, assim isso ma trouxesse de volta mais depressa.


12/03/2019

Dúvidas que me assaltam à mão armada logo assim pelas 9 da madrugada

Ainda não percebi tanto fuzuê com aquele "programa" novo da televisão, aquele do quem quer casar com a carochinha sob a forma de incapazes amachados com a mãezinha de permeio - do qual ainda não vi um único episódio (sequer sei se deu mais do que um, tamanho o impacto), mea culpa - tanto nervo óptico, tanto nervo central, tanto ai-Jesus, quando...
...
...
oh, pá...
...
...
... quando, na semana anterior...
...
até me custa continuar...
... tivemos o Roast do Toy, coisa mais ordinarinha, mais sem piada, mais destituída de conteúdo, mais sequer incapaz de provocar tanto nervo ciático. 
Será que a explicação está num esquema mental altamente intrincado do género: ataca o gordo, antes que notem que tu és marreco?

[Só cá para nós, o tal "programa", para além de todas as coisas visíveis e invisíveis, teve um péssimo sentido de oportunidade (ou não...): na semana do Dia Internacional da Mulher, really? Pronto, conclui-se que há gente que gosta de tourada.]



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#jasofaltam8

10/03/2019

Manual de como se ser uma má vendedora (aos olhos de esquisitas como eu)

Véspera do Dia da Mulher, entro na loja que vende imitações muito razoáveis de perfumes - ou melhor, de águas de colónia, mas essa discussão não é agora para aqui chamada -, para encher dois frascos, ambos para homem. 
Mas é assim, esta vendedora de fragrâncias, inebriada pelos alcoóis cheirosos que a envolvem, ébria de horas seguidas dominada pela doce aromática de seu lagar: excessiva, altiva, demasiada. Fiz o que faço sempre, nem mais, nem menos: entrei, desejei boa tarde, disse ao que ia, sem hesitações, sem espinhas, sem inflexões na voz.
Sei que as funcionárias destas adegas são treinadas para vender, impingir, massacrar, vencer pelo cansaço. Esquecem-se é que existem pessoas que treinam igualmente, durante décadas seguidas, a rebater argumentos, a atalhar conversas inúteis, a não se deixar arrastar por estratégias de venda mais ou menos agressivas, enfim, a perder o respeito pelo trabalho delas, por tão invasor do perímetro alheio.
Queria mais de mim, esta vendedora. No entanto, escolheu vários caminhos, todos eles enganados, para me atingir o coração de consumista: por diversas vezes, saiu-lhe um "você", imediatamente corrigido para "a senhora" (chumbaste na formação, não conseguiste retirar Chelas da rapariga); falou sempre dois tons acima do necessário, até que, a certa altura, pensei que ia mesmo começar a gritar-me (Chelas não sai da rapariga); no auge da cena, falou-me de um desconto qualquer porque no dia seguinte era Dia da Mulher (oh, pá, vá lá... Chelas); amuou e passou a tratar-me de modo, aí, sim, brusco, quando percebeu que a minha cena era encher dois frascos lá com o líquido e sair de seguida, vá lá que após pagar (Che-las).
Se calhar, para cada má vendedora, Deus fez uma má compradora, tipo o ditado da panela e da tampa para ela. Eu, então, sirvo na perfeição - ou não - para uma infinidade delas.



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#jasofaltam9