10/12/2015

Desaceleração

Até tenho coisas para contar, se pensar bem. 
Parei, acelerando, e ainda não sei bem em que direcção. Ontem cheguei ao médico com 96 pulsações, quando o normal são 68, disse ele. E eu despreocupada, indiferente. O consultório fica num oitavo andar, mas eu não subi a pé. Perguntou-me a razão do disparo do meu coração, e eu disse-lhe Estou triste. A mulher dele é parva, quis por força impingir-me que alguém me desejou o mal e a praga caiu sobre a minha gatinha. Também tem a mania das mezinhas, para além das bruxarias. Disse que umas gotas de limão, metidas no café, fazem muito bem às dores de cabeça. Tinha dois limões na mão e estendeu-me um. E eu, que nunca tenho dores de cabeça, aceitei o limão e meti-o na minha mala amarela. Indiferente, nem quis saber se o limão se esborrachava contra o porta-moedas e as chaves e os mil telemóveis e pacotes de açúcar que trago lá dentro. 
Não tarda, estamos no Natal. Ainda não fiz compras, a não ser a de um livro para mim. A árvore foi comprada no dia 8, que é um dia especial cá em casa. Baptizámos duas crianças, nesse dia. É dia de Nossa Senhora da Conceição, que significa concepção, e houve uma altura em que eu era mais mística do que religiosa, e queria ser devota da Senhora da Concepção. Não sei porquê, uma vez que sempre concebi com uma facilidade invejável a silvas e a daninhas. Talvez quisesse fugir da Senhora das Dores. E acabei andando, durante muito tempo, mascarada de Senhora do Amparo, eu. Agora sou indiferente a isso. Este ano não quisemos aquela árvore monstra, de plástico carnavaleiro. Antevimos a Mel a tentar destruí-la, e agora não a temos. Por essa razão, também não quisemos montar a árvore falsa. Não combinámos, não trocámos uma palavra acerca do assunto, mas intuímo-nos e coincidimo-nos na escolha de uma árvore pequena, jovem e verdadeira. Fomos juntos ao Horto e trouxemos um abeto. Ficou muito bonita, a nossa árvore. Diminuta. Quando acabar o Natal, vamos pô-la na varanda onde a Mel brincava. Pode ser que sobreviva e, para o ano, seja uma árvore maior e mais alegre, também — o que, neste momento, também me parece indiferente.
A Mia anda pela casa a cheirar os lugares da Mel. Tem-na procurado, sem perceber por que é que não a encontra. Vai ao sítio onde ficavam as taças dela e vai ver dela debaixo da minha cama. De vez em quando, cheira o canto da minha cama onde ela morreu. Outras vezes, faz os percursos que ela fazia, pára nos mesmos sítios, e adopta as mesmas posições. Ao contrário do que sempre aconteceu, deixa-nos fazer-lhe festas, e anda atrás de nós pela casa, a fazer de Mel. Parece-me que está triste, mas isso sou eu, que tinha — ou tenho? — 96 pulsações por minuto. 
Tenho muitas — muitas — saudades da minha gata.

16 comentários:

  1. Eu compreendo-te. Tive um gato que nasceu em minha casa quando eu tinha 2 anos e a quem eu baptizei de Mickey! Morreu de velhice quando eu tinha dezanove...
    Foi meu companheiro durante toda a minha infância e juventude, companheiro de brincadeiras quando estava alegre, conforto e companhia quando eu estava triste!
    Ainda sinto saudades dele!

    :)

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    1. Mas olha que não tem sido fácil explicar isto às pessoas. Parece que sou meio anormal. E é sempre bom encontrar quem saiba o sabor das nossas dores e, é claro, também das nossas festas. Obrigada.
      :)
      Eu vou ter sempre saudades da Mel.

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  2. Deixo-te um abraço apertadinho. E um beijinho.

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    1. Obrigada, querida. Bem me confortam, que bem preciso.
      Beijinho abraçado para ti.

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  3. Caraças, que agora até chorei. :(

    Não deve estar a ser fácil, não. A tua menina tb já não é a mesma. Aparece-nos de olhar perdido e vazio. Está lá sem realmente estar. Estas feridas marcam muito e demoram a passar, ainda para mais nesta altura do ano.

    Muita força.

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    1. E é essa dor ampliada, multiplicada, projectada, que se faz tão grande. Ver o sofrimento deles faz-me sofrer vezes cinco. E depois tenho o meu. Dor sêxtupla.
      :(

      Obrigada, Ana.

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  4. Como apaziguar a falta se todos os objetos da casa a trazem constantemente à memória, não é?

    Um beijinho, querida Blue

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    1. É isso mesmo, Miss Smile. Neste momento, esse apaziguamento parece impossível. Ela está em todos os lados e não está em lado nenhum...

      Um beijinho grande, minha querida.

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  5. Compreendo perfeitamente essas saudades. Fazem parte da nossa vida e quando morrem, fica um vazio muito grande. Quando os meus gatos morrem, por vezes até me parece que os vejo , uma sombra , o movimento de qualquer coisa, parece-me o meu gato que morreu.
    E choro e sofro com a morte deles, não tenho qualquer problema em assumir isso.

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    1. Estou a passar, precisamente, por isso. Tenho chorado até me cansar, mas parece que nunca me canso. E também a "vejo", porque a procuro, em toda a casa. Faz-me uma falta imensa. E já não deixei de me preocupar com quem não entende. Eu também não entendo tudo...

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  6. Não sei o que escrever. Sei que, escreva o que escrever, a falta que sentes não vai diminuir. Um beijinho, companheira :(

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    1. Já escreveste uma coisa linda.
      Pois, nada diminui, nesta altura. Tu sabes. :(
      Obrigada, minha companheira querida.
      Beijinhos

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  7. LB,

    A mulher do médico não tem cura.
    96 pulsações em repouso ?
    Há que saber dar a volta ... é a única alternativa .
    Muito boa a troca da árvore antiga por nova e verdadeira.
    Nota-se que a Mel teve muita sorte por ter integrado o vosso espaço. Deve ter sido feliz e é apenas isso que convirá recordar agora.
    As restantes recordações/associações serão sempre tristes e só te provocam sofrimento.
    Beijo, L B !
    José



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    1. Foi mesmo,muito feliz. Era tão alegre, andava sempre a brincar.
      Obrigada, José.
      Beijo

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  8. Gostava tanto de ter o poder de te ajudar com palavras, mas nestas situações elas realmente não fazem muito :(
    O que te posso dizer é que não és "anormal" pelo que sentes, é precisamente o contrário, e quem não entende, olha, é certamente mais triste por nunca ter tido uma ligação dessas.
    A mim, o que mais me custou foi a sensação de estar presa num círculo vicioso... sentia-me triste pela ausência do bichinho, e ao mesmo tempo não tinha quem me costumava consolar e lamber as lágrimas, que era ele próprio. Vai abrandar, tu sabes, mas até lá sentes o que tiveres de sentir, choras, desabafas, tudo o que precisares. Deste lado há sempre uma mão, um abraço, um carinho, um beijo.

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    1. É isso, Ratinho. Eu digo "morreu a minha gatinha", quando as pessoas me perguntam o que é que tenho, e há quem fique a olhar para mim como se eu fosse esquisita, ou anormal.
      Entrar em casa e não a ver, é uma tortura. Estar em casa e não a ter ali, é uma dor tão funda... olha, choro. :(
      Obrigada, querida. És mesmo querida.
      Beijinhos para ti.

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