28/12/2015

Ainda bem que penalizam o piropo

Eu já andava a estranhar o decréscimo de piropos à minha figuraça quando passava numa obra dessas da construção civil. Mas, com o advento da crise (associar as palavras advento e crise na mesma expressão, reconheço que é de valor, embora também reconheça que não fui eu que inventei) e a paralisação da construção de casas, ainda pensei cá para com o fecho éclair que só podia ser por isso. Numa de no money, no funny — no obras públicas e privadas, no piropo ordinário. Depois, começou a provocar-me comichos na peluquera que os piropos, básicos ou elaborados, salvo raras e honrosas excepções (penumbra, dias de chuva intensa, ocasiões em que se encontrava na área outra fêmea, mas em jovem), de todo não surgiam — e foi quando me ocorreu que, de duas uma: ou o que havia decrescido era o meu sex-appeal, apesar das negas veementes e das bocas ordinárias que o meu espelho continuava a berrar-me diariamente, ou o que havia decrescido era a capacidade de discernimento da macheza deste país e arredores. Agarrada com unhas e dentes (que, graças ao senhor, que é o doutor dentista, e a mim mesma, estão óptimos e de boa aparência) a esta última teoria, que era a que me assentava como um vestido feito à medida, sosseguei o ânimo e travei o ímpeto de sair para a rua a questionar directamente os transeuntes sobre os motivos pelos quais já não me amandavam bocas e convites vários. Que fique claro que sempre menosprezei, enquanto piropo, aquela cena de desatarem a soprar à passagem da presa, traumatizada que fiquei por ter assistido a uma resposta a um sopro desses, Acaba lá de esvaziar a lata, que é para eu te dar com ela na tromba!. Por acaso, acho que deviam começar a pensar na Lei da Resposta ao Piropo, como forma de salvaguarda dos direitos do piropeiro, que, se não o pudesse isentar de responsabilidades no acto de piropar, ao menos que lhe servisse de atenuante no crime piropeiro, ou, quem sabe, mandar para o xadrez a bruta que assim lhe respondesse a um piropo (ainda que sob a forma de sssssssssss).

Digamos que a Lei do Piropo começou logo com a aparência de um grande sapo, nunca feito príncipe, no momento em que foi apresentada pelo BE na rentrée política de 2013, por ir baptizada de "Engole o teu piropo". Eu, por acaso, sou uma pessoa que, nas questões sexuais debatidas em público, ainda não consegui sair dos dez anos de idade, e, por isso, vejo logo imensas maldades neste título. 

Mas, agora a sério: era preciso que os portugueses não percebessem nada de leis para acreditarem que esta nova Lei do Piropo mais não é do que um... pirete. 

Diz o artigo, que vai ser acrescentado ao código dos cães (porque todos os seus artigos começam por quem):

Crime de importunação sexual
Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.

Pronto, é isto: quem importunar outra pessoa — mas depois o legislador tem o cuidado de especificar, exemplificando —, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual.

Onde é que fica o piropo, neste texto? No verbo importunar? Eu confesso que há bastantes coisas, diariamente, que me importunam, e não é isso que faz delas crimes. 
OK, esperemos, sentados, pelas primeiras sentenças. 
E oremos, irmãos, para que não haja mais juízes capazes de proferir, ou sequer pensar, na expressão macho ibérico.

18 comentários:

  1. Hormonas calientes !

    https://youtu.be/eTh6EeaZDDQ

    ;)

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    1. Hahahahahaha, estão tão pouco habituados que quase nenhum se vira ou, sequer, pára!

      :D

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  2. Vai ser uma risota, ai vai vai.

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    1. A questão é que há muitas leis redigidas com os pés, para calar algumas bocas. E depois, obviamente que são ineficazes, porque até foram feitas para o serem...

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  3. Aqui para os meus lados caiu em desuso por força da emigração. Faz-me pena, principalmente pelo direito de resposta. É lamentável que acabem com tradições tão dignas da nossa via pública.Arranjem uma brigada de costumes, por favor. Até lá, vai ser difícil penalizar. Mas é muito gratificante pensar que bastam umas linhas, umas diretivas, e se acaba com uma imbecilidade enraizada.
    Fico por aqui.
    Boa noite, Linda.
    Beijinhos,
    Mia

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    1. Esta é a velha questão de que se conseguem mudar hábitos, mas nunca mentalidades.
      Se, por força da ameaça de uma punição, um hábito deste tipo mudar, já não será nada mau. Mas o texto da lei parece-me tão mal conseguido, que a sua eficácia será igual a zero.
      A mentalidade, essa, não muda assim...
      Boa noite, Mia.
      Beijinhos

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  4. Esta é a consequência de se ter banalizado o piropo.
    Apesar disso, discordo da ideia da penalização.
    Tenho que ler a lei para preceber se existe equilíbrio ou se vai tudo 'comer pela mesma medida'.

    Bom dia, Linda. Acho que chamar Linda a uma pessoa não é passível de castigo :)

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    1. Eu discordo veementemente, porque a palavra "piropo" (ou a ideia subjacente a ele, que não consta da letra da lei) tem, como a maioria doa termo portugueses, diversos sentidos. Há piropos bonitos de se ouvir, há javardices que deviam ser tratadas a criolina na boca de quem as larga. E é tudo posto ao mesmo nível, na óptica de quem condena (refiro-me à praça pública, claro).

      Bom dia, Observador. :)
      Eu não me sinto nada ofendida. E tu, achas que Observador pode ser considerado um piropo? :)

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    2. Observador ... se fôr um bom observador tem direito a piropo ;)

      Piropos, há-os bem interessantes e que dá gosto ouvir. Que não são proferidos por gente medíocre. E aqui está toda a diferença.

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    3. O que faz da pessoa "medíocre" é, exactamente, o modo como expressa o seu apreço. Ninguém nasce medíocre...

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  5. "Não cures de emportunar, que nom podes ir aqui" já dizia o anjo de Gil Vicente

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    1. O respeito pelo espaço vital do outro :)
      (Mas essa é mais uma noção absolutamente abstracta e subjectiva, por se relacionar com o sujeito...)

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  6. Não acredito que um dia alguém seja preso por causa de um piropo :P mas, estamos cá para ver ;)

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    1. Nem eu. Acredito que o piropo surgirá em concurso de crimes, num somatório com outros que atentem contra a integridade física ou moral da vítima, mas nunca como acto isolado...
      :)

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    2. Acho mto complicado fazer aplicar a lei, de facto. Se outras, q me parecem bem mais fáceis, raramente o são...

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    3. A mim cheira-me tanto a manobra de diversão...
      Hão-de estar para subir os preços todos.

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  7. Estou a ficar preocupado com os papagaios!
    Quem não se lembra das tascas lisboetas com o respectivo papagaio que já fazia parte da mobília?
    Papagaios geralmente finos ... bastava passar uma loira e toca a assobiar alto e a bom som ...e os dixotes...impropérios da melhor qualidade ...
    Irão ver o sol aos quadradinhos?
    É cada problema!

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    1. Eu não me lembro, por exemplo. De resto, nunca fui loira, portanto nem poderia lembrar-me! :D

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