22/02/2016

Parábola das mãos

Era uma vez uma mulher que, embora não fosse cozinheira profissional, cozinhava sempre. Nunca havia sido ensinada nas artes culinárias, não gostava especialmente de cozinhar, mas, porque havia que se alimentar, a si e à sua grande família, fazia-o com a maior dedicação que as suas pouco hábeis mãos conseguiam alcançar. Apesar da evidente falta de dotes para o ofício, por amor ou por não terem termo de comparação (que é o que, muitas vezes, reforça o amor), a verdade é que o resultado que apresentava, diariamente, à mesa, era alvo de aplausos e ovações várias, mãos unidas em batidas sucessivas, homenageando as exímias mãos da mulher, as mãos da fada que produziam semelhantes iguarias, a cozinheira de improviso, mas de mão cheia que, dia após dia, se revelava naqueles pratos. 
A mulher recebeu, então, o cognome de A melhor cozinheira do mundo.
Mas um dia perdeu a mão: os condimentos deixaram de se ajustar aos paladares; os pratos deixaram de saber bem; as tentativas de variação e apuramento revelaram-se goradas. Os cozinhados d' A melhor cozinheira do mundo perderam o saber, perderam o sabor, e, com eles, perderam o melhor tempero, que é o amor.
Mudos os aplausos, destituída do título d' A melhor, a mulher perdeu as duas mãos: caíram por desuso, como qualquer corpo estranho, rejeitado pelo organismo.

— Fim —

13 comentários:

  1. Xiiiiii

    ...só por isso?

    Caneco! As minhas já teriam sido perdidas à bué...

    (sim, que eu não sou o melhor cozinheiro do mundo...
    ...ou sequer um cozinheiro...
    ...sou um gajo que atira cenas para dentro de cenas ao lume e reza para que saiam minimamente decentes para serem deglutidas...)

    :)

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    1. Era uma parábola, vocês nem me deixam ser erudita! :)

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    2. Oooops! Lamento! Sabes que sou um gajo directo...

      LOL

      :)

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  2. Camarada Gil, isso não se faz à menina Blue.
    Devemos deixá-la ser erudita :)

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    1. Incrível, realmente.
      :)

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    2. Páh, yáh, mas ela tem que se lembrar que tem leitores com um QI muito reduzido, como por exemplo, eu!
      Parábolas não são aquelas coisas que se punham nos telhados para apanhar canais estrangeiros que não se percebiam?

      :)

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    3. Ainda ligas?
      Eram paranóicas, essas :)

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  3. Que o Pantagruel esteja contigo.
    Linda, às vezes há milagres. Não desesperes. Já não há estrelas no céu, estarás tu a pensar...anima-te.
    Parábola. Cuidado que a Matemática também as possui; olha a diretriz! Não te distraias. :))

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    1. Eu espero um milagre de São Pantagruel, como pão para a boca.
      É verdade, nem me tinha lembrado das parábolas matemáticas. Tenho a mania que sou uma mulher de letras. E de palavra :)

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  4. Ah! já agora, como ando em modo sanguessuga, sou capaz de te enviar um papel selado com um pedido, que, espero tenha diferimento, para transcrever este teu texto, lá no meu guichet, com a tua assinatura, claro, pois, também eu, perdi a minha estrela "miquelina" há um tempo a esta parte.
    Beijinhos,
    Mia

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    1. Fá-lo, Mia. Te garanto que a honra é minha.
      Beijinhos

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    2. Muito obrigada. Quando voltares a ler o que escrevi, fá-lo de olhos fechados...cada calinada na pontuação...

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    3. Eu também entrei nesse comboio, não te preocupes...
      Os teus textos são perfeitos.

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