24/02/2016

Eu tenho problemas com tudo # 11

Por motivos que até a razão desconhece (cá está uma simples fórmula de começar a relatar um episódio desinteressante, sem ter que lhe explicar os porquês — a vós e a mim própria), fui dar comigo numa palestra sobre motivação. 
Começou logo bem, tendo em conta que cheguei magistralmente atrasada, por ter feito uma das minhas confusões com o horário do início — achei que começava duas horas mais tarde (e também não me posso esquecer de tomar os comprimidos para a memória). Quando fui avisada do meu atraso, somei-lhe o percurso de nove quilómetros pejadinhos de semáforos, e vá que consegui chegar exactamente a meio da palestra. A minha pontualidade é hispano-britânica, tem estes dois extremos: ou chego na hora exacta, ou, quando me vejo irremediavelmente atrasada, entro em modo llega quando llega, e relaxo de tal forma que sou capaz de já só aparecer para bater as palmas da apoteose (e agradeçam-mas, que podia nem ter ido).
Foi bom ter chegado no primeiro minuto do resto daquela seca. 
No palco, uma mulher loira gritava palavras e frases de ordem, vestida com uma gabardine da Zara (eu sei, porque tenho uma igual), e botas altas de carneira bege: Tu consegues, Só depende de ti, A diferença entre o bom e o óptimo é um tiquinho assim (e fazia o gesto do Danoninho, sei lá se patrocinada), enquanto projectava uns powerpoints muito queimados, com mais frases motivacionais, em vários estilos de word art, e, a sobrepor-se, a legendagem em espanhol da música Imagine, com imagens de fundo de John Lennon e Yoko. 
Eu sou demasiado crítica e estúpida para me sentir motivada com este tipo de inputs. Dêem-me um gelado do Santini (brigadeiro e pistachio, sff), dêem-me uma boa gargalhada, dêem-me um bom texto para eu ler, e ter-me-ão motivada para percorrer montanhas e derrubar caminhos (óié). 
No entanto, motivei-me: agarrei-me a chico, o smart, e, juntos, atravessámos o tempo que faltava para a palestra acabar.
No preciso momento em que a loira chamou a plateia para o palco, para partir placas de madeira com uma só mão (numa de provar tu-acreditas-tu-és-capaz), e acorreram cerca de cem pessoas ao chamamento da guru, icei o códril da cadeira onde há pouco o havia assentado, e fui-me, por temer que chegasse a minha vez de partir a tábua, e também não me estava a apetecer parti-la só em duas, e só em cima daquele estrado.
Fui a última a chegar, mas, em compensação, também a primeira a sair. Extremamente motivada para não voltar a cair em esparrelas destas

8 comentários:

  1. Quando terá sido a última vez que te terei dito o quanto amo o que escreves? Estou em falta, seguramente...
    Filipe das coisas...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Chefe, nunca disseste, na verdade. Por isso mesmo, não entraste em falta. A partir de agora, é que talvez.
      Mas muito e muito obrigada.

      Eliminar
  2. Mas como?
    Como é que foste aterrar numa coisa dessas?

    Essas coisas são como o Melhoral: Não fazem bem nem mal!

    Para mim, a melhor motivação que há para o trabalho - há outras para outras coisas da vida - é o patrão chegar ao pé de mim e dizer que me vai dar um aumento (coisa que diga-se, nunca vai acontecer e talvez por isso a minha motivação manter um nível constante... LOL)

    Fora isso, sticks and stones may break my bones, but words...

    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olha, porque sou uma totó incapaz de dizer que não a algumas pessoas, ou de dizer o décimo não seguido.

      Estas palestras de discussão semântica costumam dar-me sono, mas meteram o Imagine estupidamente alto (e com péssimo som). Mas também já não me levam com patuá.

      :)

      Eliminar
  3. Tenho um absoluto desprezo por esse tipo de palestras, discursos, livros que pretendem ensinar-nos os caminhos para a motivação!

    Beijocas, Lindinha azul :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu também tenho, também tinha, e com mais fiquei, Maria :)

      Beijocas, Maryou :)

      Eliminar
  4. Ir a merdas dessas só obrigada ou paga a peso de ouro (eu tou gordinha,sim).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É que nunca mais, nem que seja o Papa a pedir-me para ir (se for o Papa, mais depressa não vou. Pronto, o bispo).
      (Devia exigir o meu peso em ouro, sim. Dessem-me três dias para comer as bolachas que eu cá sei, antes da pesagem.)

      Eliminar