04/10/2015

Fui-me à boca da urna

Negra, medonha, fria, seca, sem lábios, com mil dentes, que mastigaram o meu voto até o transformarem num bolo alimentar de papel, ou em nada, lá misturado com tantos, que fará a não diferença que é a indiferença ali no meio — e nunca acreditei na máxima da gota de água no oceano. 
Fui toda vestida de preto, calhou assim, porque o preto me calha à sorte e à má sorte quando preciso de me esconder nas sombras e o sol se esconde de mim. Ou tenho a mania, como se o sol me ligasse alguma coisa, coisa suficiente para jogar comigo às escondidas. Também sou um bocado dramática, e posso ter sido urso noutra encarnação, que mal vejo o céu toldar-se com as cinzas do Verão ardido, apetece-me enfiar-me de cabeça numa gruta, mesmo que estreita e escura, só para não ter que passar pelos intervalos da chuva, e menos ainda por ela. 
Disse quem me viu sair da secção de voto que eu levava, ou trazia, cara de condenada, e era isso mesmo: venho de lá sempre com a sensação de ter feito uma grande asneira, como quando, em miúda, metia os dois pés, calçados, dentro do balde de lavar o chão, só que agora já não tem graça, porque ninguém vai ralhar comigo. 
Preciso de sol.

4 comentários:

  1. Também fui votar... mas com a sensação de que ia ficar tudo na mesma.

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    1. Horrível. Sem sol nenhum no horizonte.

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  2. Podia fazer aqui um ensaio das idiossincrasias portuguesas, mas não ia valer a pena. Por mais tempo que passe, há algo entranhado que não deixa ser diferente , e exigir a diferença.
    A mim, ainda me preocupa mais o cenário internacional. Não gosto do que vejo e do que ouço.
    Boa semana, Linda Blue.
    beijinhos,
    Mia

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    1. Os 40 anos do outro senhor, que era "A outra Senhora", marcaram definitivamente um país que só admite, há 41 anos, o ping ou o pong.
      Nem eu. Já tenho medo de ler notícias.
      Boa semana, querida.
      Beijinhos, muitos.

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