30/10/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 18

Sou tão grave.
Tinha um almoço profissional, em que o interesse era meu. Percebem?
Era eu quem ia vender a imagem. Não literalmente, que já nem idade para essas coisas tenho, mas acho que me fiz entender.
Eu sou mas é aquela pessoa que vai pedir um autógrafo ao seu ídolo, tropeça aos pés dele, cai, parte os dentes da frente e ainda enche a criatura de sangue e baba e ranho e, com alguma pontaria, alguns bocadinhos de dente.
Também não posso dizer que passei a manhã toda a arranjar-me. Mania que sou naturalmente bela, depois dá neste desconchavo.
Nem posso dizer que a pessoa em questão seja de reparar em minudências, embora o problema não fosse ao nível do dedo mindinho.
E devo confortar-me com a ideia de que não rasguei os collants de alto a baixo, que é, talvez, a imagem perfeita da decadência da sociedade ocidental.
A minha única preocupação, nestas coisas e nas outras, é que não haja nada em mim que desvie a atenção do meu interlocutor para o que não interessa: um vestido de cor berrante, uma maquilhagem histérica, um dia de bad hair, um caco a querer saltar de um nariz impuro que, isso sim, seria o fim da macacada (e o meu), passe o pleonasmo. Assim, fui discreta, fui limpinha, coloquei o meu sorriso número três — sou-simpática-competente-esperta-e-inteligente-ó-ai-ó-linda — e fui. Fui e, no caminho, dei dois puxões no vestido cinzento e amarfanhei o casaco preto, a suspeitar que me sentia demasiado too much, sem saber se para menos ou para mais. Pinto os olhos e esqueço-me sempre da boca. Quero que me olhem nos olhos. Mas também pode significar que nunca serei uma senhora das a sério. Os cabelos colam-se-me ao bâton mal sopra um ventinho e isso incompatibiliza-me com tudo o que seja lip.
À entrada para o restaurante, caem-me os meus cherry tomatoes ao chão: apercebo-me que tenho uma unha por pintar. De vermelho. Ao menos que fosse de bege. De transparente. Não. De vermelho.


Pânico. 
E soluções possíveis:
1. Tenho um verniz na mala? — Não.
2. Volto a casa e dou uma pincelada no raio da unha? — Não tenho tempo.
3. Arranco a unha? — Isso dói.
4. Amputo o dedo? — Logo o polegar oponível, que me distingue dos macacos? E depois, o que é que me distingue, se nem os amendoins sou capaz de parar de comer?
5. Passo o almoço todo de dedo na boca e digo que estou cada vez mais femme enfant terrible? — Boa ideia, para afugentar a pesca (estou a tentar deixar as carnes).
6. Adopto um comportamento hipster e digo a palavra hipster de três em três minutos, em auto-referências? — Tão boa como a anterior.
7. Se ela me perguntar se esta é a minha unha enteada, digo-lhe que sim, e faço um mini-teatro com as outras nove a maltratá-la e a mandá-la varrer as cinzas da lareira — Não sendo muito original, sempre é divertido, e pode ser que resulte, designadamente para angariar fundos para mim, no final da actuação.
8. Cago nisso (não literalmente) e armo-me em mainstream o tempo todo que durar o almoço, evitando evidenciar a unha sem cor. E também que me caia um naco de peixe das beiças despintadas, ou me saia uma inconveniência das minhas — Foi o que fiz.
O facto de o dedo polegar ser oponível permite-nos uma série de posições à mesa que evitam que se veja a unha. Aprendi isto hoje.
Isso, e a usar a mão esquerda para quase tudo, desde besuntar o pãozinho com manteiga de alho até puxar o cabelo para trás. Em não tentando as duas em simultâneo, corre tudo bem.
Correu tudo bem. Digo eu.




18 comentários:

  1. Respostas
    1. Nem sequer encontro explicação para estes fenómenos...

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  2. Tenho a unhaca do mindinho com 3 cm de comprimento.
    Dá para almoçarmos juntos?

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    1. Se me palitares os dentes, vou pensar e depois dou-te uma resposta.

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    2. Estava mais a pensar em tirar-te os macacos do nariz.

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    3. Adjudicado. A mim aborrece-me a higiene das fossas. E sempre temos assunto.

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  3. Linda, tu tens arte.
    "besuntar o pãozinho" já é muito bom, mas too much é mesmo a escolha deste copo com requintes de masseur facial para a partilha desta tua nova aventura no planeta Terra.
    Pode ter sido do pânico?

    assumindo que me aceites o comentário,
    el Shark

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    1. O copo é ilustrativo da sit. Não ia desatar a tirar fotografias durante o almoço à minha girafa de cerveja, não achas? Algum problema com meu copinho blue? Masseur facial?

      Shark, tubaralhas-me.

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  4. Acho que devias ter entalado o dedo na porta do carro e ficavas com a "unhaca" preta. Era sem dúvida a melhor opção.

    Beijos

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    1. Olha, não me lembrei dessa. Ainda pensei foi em entrapá-lo e dizer que o tinha partido. Mas depois saltava-me o trapo, que é bem o género...

      Beijos

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    2. Isso podia dar a ideia que pões o dedo onde não deves. Estragava-te a reputação.
      O negro até ficavam com pena de ti. Pontos a favor. ;-)

      Beijos

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    3. E, dessa forma, parto-o?
      Credo.

      :)
      Beijos

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    4. Não precisas de partir, só deixar negro ;-)

      Beijos

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    5. Ah, muito menos doloroso! :)

      Bjs

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  5. Olá LB,
    A idade não perdoa ... :)
    Mas foi verdade ? Sonho ?
    Há coisas que ...
    Que mais irá acontecer ?
    Grande LB !
    Nunca tinha visto...mas nem fica mal .

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    1. Qual idade, esgrouviado?
      Xô! :P
      Fica mal, sim, vê-se logo que foi falha :)

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  6. farto-me de rir com os teus posts! :)

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