11/03/2016

Saborosos disparates

Fomos os dois à rua, num instantinho daqueles só nossos, em que o mundo desaparece e fica só o céu que estava, com a luz que nos batia em cheio, apesar de a tarde já ir alta. Hoje doía-me um abraço que sonhei sem ter recebido, e então os olhos dele, que rasgam, imensos, de uma ponta à outra da cara, deram-mo quando lhe perguntei,
Olha lá, tu não achas que se vê que nós somos mãe e filho? Achas que parecemos namorados?,
e me respondeu,
Tu só dizes disparates.
(Até nisso parece o meu pai — Dizes tantos disparates, rapariga —, enquanto mergulhava os olhos do amor nos meus, todo a rir.)
Henriquinho.
Cortou o cabelo curtinho, a pente dois, e eu quis zangar-me, mas não tive forças, porque é preciso ter-se uma energia especial para contrariar o instinto de o encher de beijos. E eu não tenho. 
O carro tinha ficado suficientemente longe para termos tido que fazer um pequeno percurso a pé. Como sempre, eu ia de saltos. Mesmo assim, ele é agora mais alto do que eu, apesar de eu ser maior. Tinha refreado o impulso de lhe dar o braço, como faço quando me quero meter com ele, mas ele deu-me aquele abraço com os olhos, e toda a minha boa vontade social se esvaiu num suspiro de alegria.
Tu só dizes disparates.
O meu nariz no cabelo dele — tão curto, a picar-me —, a inspirá-lo, 
Minha cria...

6 comentários:

  1. Mamã babada :D adoro!

    :)

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    1. Pois sou, mas tenho tantos motivos :)

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  2. Quando te leio, vejo-me tantas vezes...

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    1. Acreditas que me acontece exactamente o mesmo quando te leio a ti?

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    2. Acredito! Sinto-me tão próxima da tua maneira de sentir, nesse amor pelos filhos, na forma de os conceber (não falo de procriação, entenda-se). Nas histórias tontas que contas sobre as coisas que te acontecem, sou tantas vezes eu. Nos disparates, eu também só digo (e faço)disparates!

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    3. Mas que grande elogio, Be. Obrigada, querida.
      Eu sou uma espécie de Bridget Jones, hiper-controlada, a quem basta chegar um fósforo quase apagado ao pé, que se detona tudo à volta.

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