22/03/2016

Mesmo que eu quisesse escrever poesia,

não me deixavam. Até porque não sei. Não pesco da métrica, nem da rima. Não tenho em mim imagens bonitas o suficiente para as transformar em algo mais do que uma tosca prosa, de gente apressada, pouco alerta às coisas do mundo, demasiado atenta às singularidades irrelevantes do redor. 
Vem isto a propósito de ontem. Caiu uma granizada em Lisboa, que parecia um daqueles sumos que dantes se faziam nas falecidas croissanterias. Eu gostava do granizado de mentol. Era verde, o mais próximo possível de azul, e sabia a hortelã, que a minha Titi punha nas saladas de alface e as deixava a saber a brincadeiras da infância e a Alentejo no Verão.
O meu carro ficou com gelo branco no vidro da frente e no de trás, e, no meu percurso, todas as ruas haviam sido pintadas como uma imensa passadeira de peões no sentido transverso, resultado da passagem dos rodados sobre o manto branco.
(Cá está, clara e transparente, a minha falta de sentido poético, mesmo quando descrevo imagens que a Natureza me fornece: "manto branco" deve ser a descrição mais cliché para neve e geadas.)
Ia a chegar ao local onde exerço, quando senti um cheiro intenso a alfazema no ar. O gelo, o frio, a água, a brisa, em conluio, potenciaram aquele aroma, que se sobrepôs ao da cidade, insondável, indefinível e inconfundível.
Ia eu toda cheia de Alentejo no Verão e alfazema na alma, e tinha que me esbarrar com um terrestre, que disparou, na minha direcção, à queima-roupa:
- Cheiras tão bem.
Cheiras tão bem, disse o terráqueo. O terra-a-terra, que não pode adivinhar que eu sou portuguesa — o que nem na língua que falo transparece —, e, por isso, prefiro heróis-do-mar.
- Não é de mim, é da rua. Cheira a alfazema, por causa do gelo.
Incapaz de entender as minhas pré-congeladas palavras, insistiu o térreo:
- Não é, não. És tu.
E eu, gelando por dentro, arrancada à força de um dos únicos momentos de reconciliação poética a que me pude dar ao luxo nos últimos oitenta anos, pensei, claramente: Ⅎῶῗ#Ѿ@-se!

2 comentários:

  1. eu cá não sei de nada. as sílabas métricas metem-me medo. os terráqueos, alguns, também.
    boa noite, Linda.
    beijinhos,
    Mia

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    1. Já somos duas. Nos dois assuntos. O conceito de piropo devia ser alargado e abarcar as abordagens indesejadas, as melgas e os chatos todos do mundo.
      Boa noite, Mia.
      Beijinhos

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