28/06/2015

Ainda não lhe devolvi o Mickey, Maria Barroso

Este post vai revelar qualquer coisa de mim, mas isso é indiferente, dada a importância do que me traz aqui hoje. Continuem a assumir, assim como eu faço, que eu tenho 84 anos, e não se fala mais nisso.

Maria Barroso era a directora do Colégio quando eu fiz o jardim de infância. Directora a sério, à antiga, num registo muito moderno, que nem hoje, volvidos tantos anos, se pratica: acompanhava os recreios, percorria as salas de actividades e de aulas, inteirava-se do bom andamento do Colégio, conhecia educadoras, professoras, funcionárias, e alunos, um a um. Nada lhe escapava, creio que muito mais por interesse genuíno no bem-estar das pessoas e no funcionamento da instituição, do que por quaisquer outros motivos de elevação pessoal. De resto, a filha, Isabel Soares, era, também ela, à época, educadora de infância, tendo sido minha educadora por um ano lectivo daqueles três que ali passei.

Eu era uma formiga desasada, quando entrei na infantil. Ainda hoje não sei ao certo o motivo, talvez por ser sempre a mais nova das turmas todas (aniversário em Novembro, ser Escorpião não são só coisas boas), a mais baixa, a mais magrinha, a mais tudo o que não era conveniente. Tudo me parecia tão gigantesco e intransponível, desde as pessoas — especialmente as da minha idade —, ao edifício, à distância a que estava de casa (que era Campo Grande - Entrecampos, mas explicar isto a uma criança de quatro anos?). E, se estar entretida na sala já me custava o suficiente para que me lembre até hoje, as idas ao recreio eram qualquer coisa de semelhante ao que sentiam os cristãos no circo romano. Pronto, está bem, é exagero. Mas eram picos de stress, dos quais me lembro com demasiada nitidez, assumamos todos que oito décadas passadas. Sei que não chorava, não berrava, não barafustava. Mas devia ficar num transe tal, que a solução que a directora encontrou, foi — julgo que esgotadas todas as tentativas das auxiliares, esgotadas — ser ela própria a acompanhar-me no recreio. 

E lá andávamos, de mão dada, recreios inteiros, a conversar acerca de tudo o que é possível uma senhora, com a vida cheia e a cabeça a mil, como ela tinha, na altura — marido deportado e dois filhos jovens — e uma criança de quatro anos, tímida ao limite, conversarem. 

A mão que não segurava a minha, segurava um porta-chaves com o rato Mickey, que eu adorava e ela também. Enquanto passeávamos pelo recreio, ela emprestava-mo, quase mo dava, de tão meu ele me ficava. Mas, tocada a campainha, acabada a nossa prosa, o Mickey voltava-lhe para as mãos, só voltando a ser meu no dia seguinte. 

Um dia, devia estar eu mais fragilizada ainda, porque a timidez é um poço sem fundo, e qualquer pretexto se torna motivo detonador de mais e maior insegurança, pedi-lhe o rato Mickey, mas, desta vez, dado, para sempre, meu. Lembro-me da recusa, depois da hesitação, por fim da pena com que o desatarrachou da argola e mo deu para a mão, sem devolução ao toque da campainha. Não sei se teria sido um presente, se tinha um significado especial, se lhe cortei o coração à custa do meu coração sempre cortado, naquela época. A idade e o meu estado de alma naquele local não me permitiam mais, senão aquele egoísmo, que foi guardar o rato Mickey, como uma preciosidade que me era devida. 

E tenho-o, guardado, sim,  cá. Já não é meu, porque nunca me foi devido, o que fui percebendo, ao longo dos anos, à medida que cresci e, com ou sem a ajuda dele, me libertei quase totalmente da timidez. Está comigo, a torcer — e não sabemos se a rezar — pela recuperação da sua dona. E para as mãos dela voltará, assim que se dê o milagre em quem já ninguém acredita, a não ser, só talvez, uma miúda tímida de quatro anos e, quem sabe, um rato Mickey de porta-chaves.



8 comentários:

  1. Há muitos, muitos anos, li o "Portugal Amordaçado", escrito pelo marido, a crónica do outro lado da cabeça a mil. Vendo o conjunto, torna tudo ainda mais raro, especial. Parabéns pelo magnífico texto: a minha memória de alguém que desde sempre julgava que conhecia (de longe, como a maioria dos portugueses) acabou de ser alterada, enriquecida.

    E um bom domingo, LP.

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    1. Obrigada, Xilre. São tempos que, somadas as peças todas, constituem um puzzle demasiado rico para que seja esquecido ou ignorado. De um modo quase assustador, nós fazemos parte dele.

      Um grande bom domingo para ti, também.

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  2. Muito obrigado por partilhares uma situação tão delicada, sensível.
    Que bem a descreveste!
    Beijinho, LP.

    PS - daqui, outro escorpião.

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    1. Ora essa.
      A memória nunca me trai...
      Beijinho, Observador.

      PS - Isto é uma raça muito especial.

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  3. Muito bonito , LP!
    A Maria Barroso é uma Senhora extraordinária !
    Ontém falei com uma sobrinha minha (tb ex-aluna do Moderno ) que a recordou com imensa ternura e carinho.
    Quanto à filha Isabel...
    O significado com a oferta do Mickey ,pode ter sido determinante para ti e na tua inclusão.
    Os bons professores são muito importantes ! Eu escolhi o meu caminho / minha profissão pelo incentivo ( identificação ) com um prof.de Ed. Física do Valsassina - Mário Begonha (e logo na 4ª classe , 9 / 10 anos).
    Acreditas ?

    Beijo,
    José


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    1. Acredito, sim.
      O meu percurso acabou sendo muito mais ditado pelos professores do liceu do que pela da primária, e, antes, do que se passou no JI. De qualquer forma, tiveram a importância que tiveram, e todas elas, umas mais do que outras, ajudaram à minha moldagem enquanto pessoa.
      Beijo.
      LP

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  4. LP, que texto tão bem escrito. É por essa sensibilidade que acompanha cada palavra que escreve que eu gosto tanto de si!

    Um beijinho e muito obrigada pela partilha

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    1. E recebo eu esse elogio de uma das mais maravilhosas contadoras de maravilhosas histórias da blogosfera! Ganhei a semana, Miss Smile, ganhei sim. Muito obrigada.
      E esse seu gostar é assim qualquer coisa de muito recíproco :)

      Um beijinho para si, eu é que agradeço tanta gentileza.

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