11/02/2015

Sabem aquela aflição para chichi que uma pessoa até dança?

A mim acontece-me ter igual, mas para chorar.
Há dias em que está tudo bem, mas apetece-me chorar.
Assim como fazer chichi, é uma necessidade absolutamente fisiológica. Só que há dias em que tenho vontade, mas não tenho motivo nenhum. Como uma infecção urinária, que aquilo sai aos pinguinhos dolorosos, mas nunca se dá uma boa mijadela, daquelas que uma pessoa até dá um suspiro bem gemido (desses, sim. Só pensam nisso).
Até pode ser hormonal, mas a mim irrita-me a explicação pelas hormonas que se dá para qualquer estado de alma nas mulheres, por isso procuro sempre outra qualquer. Não gosto de conclusões redutoras, "os homens são todos iguais", "estás com o período", tudo assim tão compartimentado, como se nós, pessoas, pudéssemos ser só branco ou preto. 
Chorar é uma chatice, porque borra o rímel. É uma grande despesa, tendo em conta que eu não posso usar um rímel do supermercado, porque tenho olhos sensíveis. Não fumo, não uso óculos nem lentes, mas os meus olhos picam e choram sem mágoa quando ponho um rímel que não seja da perfumaria. 
Já sei que podia não usar rímel. Mas não.
E também, não é esse choro que me faz falta. Não preciso de lavar os olhos com este soro natural. Preciso de lavar a alma, de expurgá-la. 
Fui sempre assim, portanto, não estou a viver uma fase. Lembro-me que, há muitos anos, vi um filme que se chamava "A última emissão", que se passava numa estação de televisão e era uma grande merda. Mas tinha uma personagem principal, que era eu. Do nada, sentava-se na cama, chorava desalmadamente, enxugava-se e continuava, como se nada fosse. Eu também sou assim, preciso daquele banho, de vez em quando. Depois passa-me, geralmente. Ou então, não. Há dias em que fico no banho todo o dia. Choro as minhas desgraças, depois as alheias, a seguir as da Humanidade toda. Chego ao fim do dia com a cara num bolo, os olhos com dois pneus sobresselentes, mas a alma purificada. Depende dos dias, posso também só tomar aquele chuveirinho, limpar-me e ficar fresca.
O passar dos anos e a experiência, a tal madre-mãe-madrasta de todas as coisas, foram-me trazendo facilitadores de tarefas vários, que são aquilo que as outras pessoas chamam "bengalas", mas que, na realidade, são autênticas cadeiras de rodas para valer à nossa natural preguiça e livrarem-nos de ter que as cumprir. Assim como o abre-garrafas nos saca a carica do gargalo e evita que partamos aquilo tudo com os dentes (e ainda os dentes), arranjei eu um facilitador de tarefas com "O meu pé de Laranja Lima" nos dias em que me apetece chorar e não consigo. 
Eu sei que ainda não tinha doze anos quando vi o filme pela primeira vez. E chorei até secar. Depois peguei no livro e chorei tanto que a minha mãe teve que mo esconder. Anos mais tarde, já adulta, voltei a ler o livro e, desgraçadamente, percebi a metáfora lá contida. E não há vez nenhuma, desde essa data, em que leia o livro, veja o filme, ou conte a história a alguém, que não me salte um soluço tão sentido, que creio que descobri, desta forma mais ou menos empírica, a tampa que destapa a minha necessidade agrilhoada de extravasar não sei o quê, que não me dói nada.

Meu coração se revoltara sem raiva. “Que quer esse homem que me pega no colo?” Ele não é meu pai. Meu pai morreu. O Mangaratiba matou ele. Papai tinha me seguido e viu que os meus olhos se encontravam de novo molhados. 
Quase se ajoelhou para falar comigo. 
— Não chore, meu filho. Nós vamos ter uma casa muito grande. Um rio de verdade passa bem atrás. Grandes árvores e tantas, que serão só suas. Você pode fazer, armar balanços. 
Ele não entendia. Ele não entendia. Nenhuma árvore deveria ser tão linda na vida, como a Rainha Carlota. 
— O primeiro a escolher as árvores, será você. 
Olhei os seus pés, os dedos saindo dos tamancos. Ele era uma velha árvore de raízes escuras. Era um pai-árvore. Mas uma árvore que eu quase não conhecia. 
— Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima. Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá. 
Agarrei-me soluçando aos seus joelhos. 
— Não adianta, Papai. Não adianta... 
E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei como um morto: 
— Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima. 

Vou só ali buscar uma toalha de banho, já aqui volto.

17 comentários:

  1. Companheira, estás mesmo precisada!

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  2. Já percebi tudo.
    Também choro. Estou a chorar.
    O Meu Pé de Laranja Lima foi-me oferecido pela minha mãe há muitos anos atrás, era eu uma miúda.
    Aquele livro é a minha mãe.
    É lindo.
    Foi escrito para fazer chorar.
    Há também pessoas que nascem para esse propósito.
    Fazer-nos chorar.

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    1. Mas não posso ser eu que te faço chorar a ti, rapariga.
      Enxuga-te, por favor, e guarda o livro.
      Dói-me o dobro pensar que é uma autobiografia.
      Dói-me o triplo imaginar que está cada vez mais perto o corte do meu pé de laranja lima.
      Pode ser uma semana, como o do Zezé, um mês, um ano ou dois, mas o machado está pronto, e é essa imagem que me faz doer assim.

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  3. Caramba LP, que poder é esse que tens com as palavras?
    Deixar assim uma pessoa com os olhos inundados de lágrimas, prestes a borrar o rímel que não é à prova de água, não se faz. Não se faz, ouviste?

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    1. O meu também não é à prova de água, mas aguenta-se firme. Tem que justificar o preço...
      Ai, a minha vida, vocês tramam-me :)
      Vou começar a procurar parcerias que cheguem a todas, pode ser? Só rímeis bons.

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    2. Sim! Podes começar pela Benefit, cujo rímel é excelente. Não custa tentar :)

      Se conseguires ficas autorizada a pôr a malta a chorar, deal?

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    3. Deal. Enquanto me mantenho pobre, à cautela, vou tentando a parceria com a Kleenex, que deve ser mais fácil :)

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    4. Concordo com a Lado B, também já fiquei aqui aflita, também a chorar.

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    5. Chiu. Estás proibida. Mando eu. Tu ainda és muito pequenina para essas coisas.
      Cá colinho, Pandy.
      Mas eu dou-te um rímel bom, na mesma :)

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  4. Tão confusa que ela está.
    Tinha aqui uma catrefada de coisas para dizer mas varreu-se-me tudo. Fiquei assim a modos que entre a introspecção e a vontade de urinar. Que sensação esquisita, tanto que 'arrebenta' com um 'home'.

    Já que aqui estou, aproveito para te perguntar porque é que o meu coiso não consta entre os coisos que chafurdas.
    Não há cú que aguente ;-)

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    1. Ela quem? Jesus, o que é que fizeste contigo mesmo? E também já falas na terceira pessoa? Agora danou-se.

      Lá para o Carnaval, penso no teu caso.
      Vou pegar numa vassoura e tratar desta casa, hi-hi-hi-hi.

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    2. Terceira pessoa do singular. Ouvi dizer que és única eheheh

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    3. Denuncia essa fonte, pela tua rica saúde. Blasfémias!

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    4. Não gosto de denunciar, prefiro anunciar :-)

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  5. Chorei sempre quando li o livro, três ou quatro vezes e com o filme também.

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    1. E eu, que fiz as duas leituras?
      Primeiro, na infância, a pobreza e a tristeza do Zezé.
      Depois, já adulta, aquela metáfora da árvore com o Portuga...
      Aquilo mata-me.
      Não posso falar nisso, sequer.

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