13/04/2016

No meu tempo é que era

Queria contar isto sem que parecesse o que não é. Mas, se calhar, é.
Eu andei uma vez de metro e paguei três viagens.
Já andei muito de metro na minha vida. Ainda sou do tempo em que vínhamos compactadas contra os tarados sexuais todos da cidade de Lisboa e do país inteiro, num percurso de quatro estações que, em matéria de valentia, apneia e autodefesa, equivaliam a vinte de agora. No meu tempo é que era. E o sovaco era a sério, era da t-shirt de alças, do pêlo farto e molhado, da mão apoiada no estribo e aquilo ali, em todo o seu esplendor, nos nossos adolescentes narizes. Nem cegos havia, por não conseguirem circular nos comboios. Estavam nas estações principais (Rotunda e Rossio), e cantavam fados tristes, com vozes bem colocadas e metálicas de tão longo alcance, que nos seguiam até descermos para a plataforma.
Nessa altura, a linha do metro fazia um V, em que uma das pontas desenhava um Y. Começava em Alvalade, descia ao Rossio, subia de novo até ao Marquês, e depois desentroncava para Entrecampos ou Sete Rios. Mais nada. Ir de Entrecampos a Alvalade — que, a pé, são dez minutos —, significava uma viagem pela linha toda, passando pela Baixa. 
Já nessa época, via-me e desejava-me ardentemente para decorar o diagrama da rede, mas, como percorria uma parte todos os dias, devo ter interiorizado aquele percurso, e não me perdia lá dentro. Até mesmo porque não podia: a quantidade de perigos que ensombravam os corredores mineiros do metro naquela época, não dava largas à luxuosa possibilidade de alguém ali se perder, ainda menos  em se tratando de uma rapariga. 
Depois o metro cresceu e eu também. Durante alguns anos, voltei a servir-me dele todos os dias, num percurso muitíssimo maior do que o dos tempos de liceu, que voltei a interiorizar para que não me enganasse, embora os tais perigos de antigamente se tenham praticamente dissipado: aumentou a iluminação e a vigilância, e diminuiu a minha vulnerabilidade. E também a minha capacidade para decorar o  tal esquema da rede.
Faz de conta que eu queria ir do Marquês aos Restauradores, que foi o que aconteceu. Paguei as duas viagens — aquela que pretendia fazer e a seguinte, Restauradores-casa — e invalidei uma. Pus-me a estudar o esquema, para descer as escadas certas, e oh: para um lado, Odivelas; para o outro, Rato. Ah, está bem, entrei na porta errada. Típico. Saí pelo torniquete e ah, é aquela. A que estava em frente. Invalidei outra viagem e oh: para um lado, Rato; para o outro, Odivelas. 
Duas viagens ao ar, para perceber que estava na p. da linha errada. 
No meu tempo, o Marquês chamava-se Rotunda e só tinha uma linha, a tal que desentroncava num Y. Mas ninguém se enganava. Os corredores eram escuros, sinistros, cheiravam a urina com amoníaco, e, quando se começava a chegar à superfície e já havia alguma luz natural, os ciganos vendiam sweat-shirts com defeito, chamavam-nos Olá, linda, venha ver!, e os cegos cantavam Povo que lavas no Rio, talhando com seus machados as tábuas de todos os caixões. Às vezes, aparecia a polícia, os ciganos recolhiam tudo numa trouxa, saíam a correr em todas as direcções de todos os YY que os corredores também escreviam, a gritar Olha a bófia! Deixa passar quem trabalha!, e nós deixávamos, porque era verdade.
No meu tempo é que era.

4 comentários:

  1. Pois...

    ...eu tb ainda sou desse tempo!
    Estamos a ficar "vintage"!

    :)

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  2. E eu já estou a chegar ao tempo em que no tempo é que o tempo era feliz (acho que foi isto que li um dia, algures)

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    1. Aquela fase da vida em que éramos felizes e não sabíamos, também eu :)

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