06/04/2016

Encarem isto como uma fábula

Era uma vez uma pessoa.
Um dia, resolveu adoptar uma gatinha bebé, muito fofinha, tanto ao toque como ao olhar. E também cheirava bem, a sabonete, o que não é nada costume num gato. 
(O primeiro dono era bombeiro, e deve ter-lhe dado com uma ampulheta de Lux florzinhas antes de a entregar, como os ciganos engraxam as pilecas para as venderem como alazões.)
Ela miava como um bebé — um gato bebé, entenda-se —, e esse factor operou a conquista do quarto de cinco sentidos na pessoa. Portanto, ficou derrotada e feliz com a adopção.
Passados os primeiros três dias em casa, que dizem que são os que levam os gatos a adaptar-se, a gatinha fofinha içou as garras e os dentes e nunca mais parou de lhes dar uso no acto de rasgar: roupas, atoalhados, papel, caixas, e, suprema maravilha, a pele. Todas as peles da casa da pessoa, mas, muito em particular, a sua, dela, pessoa. 

Bom, deixemo-nos de rodeios, que isto de falar de mim na terceira pessoa também cansa e eu não sou o Papa: a gata é uma fera, odeia-me e ataca-me todo o dia. Todo o dia. Só não me ataca de noite, porque me enclausuro no quarto, qual freira na sua cela, em retiro espiritual (sendo que o meu é estritamente físico). Mesmo assim, pela manhã (não sinto nada a vontade de cantar), mal sente a porta abrir-se, entra em velocidade de rocket e são décimos de segundo até me aterrar na cabeça e tentar comer-me a pequena quantidade de miolos, ainda moles da sona.
Tenho chagas. Vou a qualquer local onde tenha que me despir — e a minha vida é feita desse veste e despe, pareço mesmo a parva da Barbie: drenagem linfática, cirurgião vascular, depilação, ginásio... está bom, ou querem mais? —, e toda eu sou arranhões, nas pernas, nos pés, nos braços, nas mãos. Tenho sempre que dizer, com uma cara muito compungida: Tenho uma gatinha nova... Todos os dias, ao passar minha coloniazinha pós-banho, tenho um novo ardor, faço um novo shhh, dou um novo saltinho. E depois, a tipa rasga-me os collants, já agora. Os que mais me custou ver rasgados foram uns que tinha acabado de estrear. Estavam lindos, e faziam-me linda. E ela zás, com aquelas unhas, a invejosa.
Entro em casa, tenho que me descalçar imediatamente, porque o bicho vê nos saltos altos um inimigo. Vê nas unhas encarnadas um inimigo. Vê nos cabelos ondulados um inimigo. Vê no meu telemóvel um inimigo (meu querido chico, solidarizo-me contigo).
Em resumo, agora a minha vida processa-se fechada no meu quarto. Estou numa espécie de prisão domiciliária, mas reduzida a uma única dependência. Estou em prisão celular. 

Soluções?
1. Dou-lhe com o borrifador?
2. Dou-lhe no lombo?
3. Dou-lhe liberdade incondicional?
4. Devolvo-a?
5. Trato as chagas e abstenho-me, estóica?
6. Tiro partido das feridas e passo a gostar, embebendo-as em muito álcool?
7. Vendo a minha história ao CM?
8. Vou ao Patriarcado dizer que sou santa e meter os papeis para a minha canonização?
9. Tomo calmantes?
10. Dou-lhe laxantes?
11. Dou-lhe calmantes e tomo laxantes?
12. Corto-lhe as unhas? (Já cortei. Ia ficando sem braços.)
13. Faço uma queixa na Judiciária por violência doméstica?
14. Levo-a a passear ao Jardim Zoológico?
15. Dou-lhe a conhecer o Canil Municipal?
16. Mudo de casa e não a levo?
...
17. Alguém?

20 comentários:

  1. Tem calma e espera.

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    1. Que ela cresça e seja esterilizada...
      Até lá, esfarrapa-me!

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  2. A da Uva também era assim... ou ainda é, não sei.
    Não percebo nada de gatos, excepto do meu gatito de duas pernas que não arranha, só ronrona mas tenho uma sugestão. Calça-lhe umas meias, quer dizer, duas... pronto quatro que é o mesmo que dizer dois pares. Ela vai deitar-se de patas no ar e ficar sossegada. (Eu fazia isso aos cães na casa da minha avó!!)

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    1. Sua magana. Os gatos e os cães passam-se (mais ainda) quando se lhes calça meias! :D

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  3. Cada vez que ela te vier para morder dá-lhe uma cacetada na testa, por cima do focinho, no meio dos olhos (nem precisa de ser com força, mas convém que ela sinta) e depois apontas-lhe o dedo e dizes com voz bem colocada "NÃO!"
    Ela vai detestar e vai aprender a ter medo de ti e da expressão e quando te vir mais virada já não vai atacar!

    Ao contrario dos cães, que se submetem e reconhecem alguém da casa como Alfa, os gatos são os Alfa da casa, não se submetem e só reagem ao medo! Portanto tens de a fazer ganhar medo da tua expressão! Senão, vais ser tu que vais ter medo dela!

    Educar um gato é como educar um puto selvagem...
    ...só lá vai com umas palmadinhas!

    :)

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    1. Eu já tenho medo dela.
      Já tenho tentado dar-lhe no focinho, mas levo 4 arranhões até conseguir chegar-lhe lá com as pontas dos dedos.

      :)

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    2. Antes de mais, queria pedir desculpa e que não me levem a mal por me meter aqui na vossa conversa. Com todo o respeito, é apenas a minha opinião, e vale o que vale.

      Com os gatos, é muito difícil que eles sintam medo. São exploradores por natureza e é muito complicado moldá-los sem que eles percam (ainda mais) o respeito ou o carinho pelo "seu humano". Bater até pode desencorajá-los, mas isso acontece a todos os níveis. Ou seja, deixa de te arranhar, mas vai deixar também de te mimar e de procurar a tua companhia. É por esse motivo que aconselham sempre um barulho ou um estímulo (como o borrifador) que ele não consiga associar ao dono. Desse modo, não só não te ganha aversão, como nunca sabe de onde pode vir, e estará mais cuidadoso em relação ao que não fazer para o despoletar. Se há coisa que os gatos também não gostam é de surpresas e imprevistos. O pior, realmente, é que isso não acontece de um momento para o outro, pois teimosia é outra das características que lhes assiste. Só resta ser mais teimosa que ela. E paciente. Muito paciente.

      (não sei se conheces o "my cat from hell" do Jackson Galaxy, mas tem uma grande variedade de sugestões para lidar com problemas felinos... deixo aqui alguns links :))
      http://jacksongalaxy.com/learn/
      http://jacksongalaxy.com/category/aggression-problems/
      http://jacksongalaxy.com/category/destructive-problems/

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    3. Obrigada, Ratinho.
      Faz favor, mete-te nas conversas sempre que te aprouver. E muito em particular quando é para ajudar.
      O toque no nariz não tem resultado, até porque, como disse ao C.N.Gil, nem lá consigo chegar, a maior parte das vezes. Portanto, o borrifador é a minha arma de eleição. Tenho ali um cor-de-rosinha, muito maneirinho, parece mesmo uma shotgun de menina. :)
      E vou ver os links todos que aqui deixaste, claro.

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  4. Tens uma bicha cheia de personalidade, é o que é :D
    De todas as opções, voto na 1. Quer dizer, para lhe dar com a água, não com o borrifador propriamente dito!
    Insiste, persiste e não desiste ;)

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    1. Merece um extintor de incêndios, a ferinha.
      Vou continuar, até ficar às tiras :)

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  5. Caramba! Acho que não tinha coragem de viver com um animal assim... Nem sei o que te diga, Linda!Gosto de animais mas a vida de alguém não pode transformar-se num inferno por causa disso.

    Beijo :)

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    1. Estou, verdadeiramente, às portas do inferno.
      O maior problema, nem o expus: é o quanto os miúdos gostam dela. Pudera, ela não os agride tanto...

      Beijo, Maria :)

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  6. nunca passei por nada tão selvagem :) mas sei que um borrifador faz milagres e refresca as ideias ao bicho. tenta, sem medos.

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    1. De manhã, hei-de encharcar a minha cama, mas a bela focinheira também há-de conhecer o gosto da água fria.
      :)
      A peste.

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  7. O que eu me ri!!! Eu não gosto de gatos, ou animais no geral. Não gosto, para mim, claro. Pimenta no cú dos outros é refresco :D
    Arranja um borrifador... potente!

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    1. É o que eu digo: vai de extintor ou de ampulheta, a ver se ela não se torna um gatinho manso.
      :D

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  8. A tua gata (já) dava um filme. Título ... é para já: 'o que fazer para me compatibilizar com a minha dona'?
    ;)

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    1. Devia ter escrito este post pela perspectiva dela, devia...
      :)

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  9. Não me leve a mal, querida Blue, mas o que eu já me ri, não com a história, que é séria, mas com a forma como a contou aqui. Eu voto no borrifador!

    Um beijinho e boa sorte :)

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    1. Eu não levo nada a mal, querida Miss Smile. Imagino que a transformei, por segundos, em Miss Laugh, e isso vale tudo :)
      O borrifador está no topo das votações, e parece-me que vai ser assim mesmo...

      Obrigada. Um grande beijinho :)

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