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26/07/2021

Bem Bom
Se acharem que é spoiler, é não lerem # 14

Estranha forma de vida, esta agora.

Fui ao cinema na véspera do início da quarentena, e fui também no primeiro dia após confinamentos vários. Calhou ir às mesmas salas — Cinema City — e, de ambas as vezes, estar só minha companheirinha e eu. Honestamente? Prefiro assim. Nada de cabeçudos à frente, irrequietos do coice nas minhas costas atrás, faladores, gente que não se lava, hiper-perfumados, roedores do milho estalado, namorados excitados e idosos ressonantes. (Acho que não me esqueci de ninguém.) Eu também como pipocas, está bem? Mas tenho o cuidado de morfar aquilo tudo (chamar "pequeno" ao pacote menor é meramente metafórico, não é?) antes de o filme começar (pub indesejada e trailers à martelada em barda!) ou durante as cenas mais ruidosas (entendam o que e como quiserem) do filme.

Dessas duas vezes que refiro, pudemos escolher se queríamos publicidade ou não (adivinhem), trailers ou não (foi sim. Eu queria comer o bidon de pipocas, apesar de estarmos só as duas), e ambas queríamos relaxar as quatro pernas nas costas das cadeiras defronte.

Desta vez, sala só não cheia derivados das contingências: fila sim, fila não, interditadas com fita fluorescente, não fosse a malta não a ver no escuro; nas filas sim, espaço de uma cadeira entre ocupadas e não ocupadas, a menos que se tratasse de pessoas do mesmo agregado/ grupo. Eu acho uma cadeira pouco, devia ser a fila toda para uma ou duas pessoas, no máximo. Não que sofra de receios covid, porque isso já era, mas porque, no fundo, sinto que agora é que a cena social está correcta: antes do vírus, andávamos cá todos a roçarmo-nos uns nos outros, e aos dois beijinhos uns aos outros, um exagero de contactos físicos que (espero que) acabou. Éramos apresentados a alguém que nunca mais íamos ver e logo dois beijos? Não admira que o vírus tenha singrado até sangrar.

Quanto ao filme propriamente dito, que é o que nos traz aqui hoje: Bem Bom. Mais nada. Pode não ser aquelas coisas em termos de luz, imagem, som — cinema português, é um estilo como outro qualquer —, mas consegue o que parece impossível, que é devolver-nos os e aos anos 80's — excelente reconstituição histórica — e, de uma vez por todas, desfazer o boato com a Laura Diogo. Já veio tarde, é certo, mas mais vale do que nunca. Coisa para ter detonado uma banda icónica, quatro carreiras e quase uma vida. 

Se eu não adorava as Doce — era muito miúda, queria ser assim, mas não bem assim quando crescesse —, pelo menos sabia (e sei) as letras das músicas quase todas. E lembro-me bem da prequela das Doce, que foram os Gemini, com duas delas (Fátima e Teresa) e dois dos produtores (Tozé Martinho e Mike Sergeant). Nessa altura, a pessoa humana era uma criança em idade escolar, mas cantava com alguma solenidade aquilo do prazer que uma criança nos deu. E não percebia, como ainda não percebo, a estrofe o acordar de tristeza ao ver as horas passar e o jantar frio na mesa. Alguém explica isto? Não é preciso, falecerei com a dúvida, mas muito obrigada na mesma. 

20/07/2020

Na senda de "Sou só eu?" # 20

a quem o servidor de internet, de há dois meses para cá, assim do nada, como quem não quer o dinheiro a coisa, me manda uma mensagem a avisar de que os meus dados se encontram perto do fim, e que (mais ou menos por estas palavras, que eu não sou muito boa a não acrescentar um ponto quando conto um conto), se quiser continuar a navegar - deixando-me assim, perdida, no mar alto - devo pagar ora 5 ora 10 euros por um carregamento de não sei quantos gigas, isto logo a mim, que nem sei os litros de gasóleo que meto em Rosinha, quanto muito sei o que lá deixo em euros?
Vamos lá a ver se a gente se entende, Senhora Dona NOS: o vosso serviço é só péssimo. Tenho zonas da casa em que de todo não possuo net, em que basta deslocar-me para lá, que desapareço do radar. Se tiver - como toda a gente não adolescente - os dados ligados, o coiso desata a gastar-mos sem sequer me avisar, sequer uma notinha “Passou para o modo dados móveis”, como quando pomos o pé do lado de lá e ele nos dá as boas vindas ao Orange, ou outro citrino qualquer. Não se faz. Era agradável, mas compreendo que não o façam. Uma como eu zarpava logo da cozinha para a sala e, de lá, recta ao quarto, que é onde nettinha (e sonhos bons) é melhorzinha. 
Compreendo que terão tido um pequeno prejuízo com a quarentena, o povo ligado 24/24 ao preço de 12/24 (pelas vossas contas, erradas, como veremos). Quem tem um blog sabe que há muito mais visualizações aos dias de semana e em horas de expediente do que nos dias e horas não laborais. E as empresas prestadoras de internet viram-se, de repente, durante sessenta dias, na contingência de ter que dar o dobro por aquilo que consideram ser o mesmo preço. Errado, este raciocínio: nós, pessoas ligadas, pagamos 24/24, a vossa resposta é que é esta deficiência lamentável. E pior ainda é fazer recair sobre o cliente o prejuízo da empresa. Ganhai mas é juízo, prejuízos todos tivemos.
(E não, mudar de servidor não é solução, só mudam as moscas.)


05/05/2020

Coisas que o vírus maléfico me ensinou até agora [actualização #4]

21. No primeiro dia de gradual desconfinamento soltou-se-me ainda mais a língua. Ali no espaço de duas horas, arrumei três pessoas, que acredito ainda estarem a remoer raivas contra mim neste momento. Senhora Dona Madame pegou ao serviço e vinha descansada e fresca, com as nuancezinhas em dia, após quarenta e cinco dias de pausa laboral. Havia discutido as férias via telefone, "Eu só não vou trabalhar porque vocês [rolling eyes, minhas avós não sobreviveriam a isto] não querem", de modo que levou uma sabatina daquelas que eu, mole, em vinte e dois anos, lhe dei o quê? Vá, umas cinco, talvez a contar com esta. Retirei-lhe as férias de Junho (pelos Santos, não há pachorra) e deixei as de Agosto em suspenso (ou suspense, como diriam os estrangeiros). É quer, quer, não quer, conhece bem o caminho da porta. Pá, e não me forniquem com a merda dos direitos, que eu é que sei da minha barraca; Depois fui ao correio e predispus-me a enfrentar uma bicha de uma hora. Estava a mandar mensagens pelo meu telemóvel e tenho atrás uma tipa, não sei se a ler o que eu escrevia, se só a querer levar na corneta. Quando lhe disse: "Temos que manter a distância de segurança", não é que a flor amuou? Pôs-se a três metros, aleluia, croma; Ao cabo daquele tempo todo de espera, já sem posição para estar de pé e quando era eu a próxima a ser atendida, vem de lá uma asinha e coloca-se ao meu lado, "A senhora desculpe eu estar aqui, mas é que sou prioritária e vou entrar a seguir". Bom, o fdp do karma anda a tourear-me. "À minha frente, não entra de certeza. Não quero saber qual é a sua prioridade, mas, se insistir nesse argumento, chame a Polícia, que eu explico aos polícias por que é que não a deixo entrar. Prioritários somos todos, estamos todos em risco, portanto, por mim, pode ir para o fim da fila, ficar aqui à espera que alguém a deixe passar, ou ir sei lá para onde". E pronto, entrei a minha vez, e nenhum polícia veio atrás de mim;
22. A Natureza segue o seu incondicional curso, indiferente às transmutações provocadas e sofridas pelo Homem. Num dia faz calor de Verão, no dia seguinte uma ventania ciclónica. É para ver se percebemos que há elementos que não dominamos, por mais asneiras e remendos que façamos;
23. Não gosto deste novo léxico, e espero esquecê-lo e deixar de o usar o mais rapidamente possível: vírus, pandemia, cuidados intensivos, ventilador, máscara cirúrgica, viseira, luvas, contaminação, quarentena, confinamento, contingência, e isto só para começar. Que falta de assunto por que todos fomos contaminados;
24. Com algumas variações, os gatos não apreciam a companhia dos humanos 24/24. Na verdade, são eles os donos das casas, onde permitem que as suas pessoas também vivam. Nos primeiros dias de quarentena, a minha gata andava ansiosa, inquieta, incapaz de fazer aquelas sestas que são a nossa inveja. E, como qualquer gato, tem uma muito peculiar forma de impedir o trabalho a partir de casa. Quem tem gatos e usa computador sabe do que falo (às vezes até acho que não só o formato, mas também o estímulo que provoca nos gatos é responsável pela designação do rato, hardware);
25. Não sei se actualizarei mais esta coisa dos ensinamentos que o vírus me trouxe. Vinte e cinco está de bom tamanho. Faço algum sacrifício, no sentido em que tenho que retirar um bocado da minha vida, em vir aqui. O blog não me faz falta. A blogosfera também não, salvo uma mão mal cheia de blogs que ainda leio. E ela vai continuar, mesmo sem ele/ mim. Provavelmente, como o vírus.


02/05/2020

Coisas que o vírus maléfico me ensinou até agora [actualização #3]

(Escrevo-vos enquanto pinto as unhas dos pés. Não exactamente ao mesmo tempo, porque só tenho duas mãos para repartir entre o teclado e o verniz, apesar de os pés também serem dois. Já pus o primário. Parece que amanhã fará um tempo veranil, e quero estar condicente.)

16. Diz que o fumo do tabaco afasta o vírus. Eu até acho que afasta tudo, incluindo melgas, piolhos, carraças e outros parasitas indesejados. Mas dá-se que não consigo fazer um axioma com esta suposta presunta verdade. Assumamos que o vírus é A, o pulmão humano é B e o tabaco é C. Então, A ataca B; C defende B de A; mas se é sabido que C também ataca B, temos A e C a atacar B, e, no entanto, C a atacar também A; C protege então B de A, atacando-o; porém, não protege A de B. 
[Pausa para a primeira demão.] [E para respirar.]
Moral da história: os pulmões lixam-se sempre. Há que optar pela forma como;
17. A pessoa que fica atrás de mim nas filas jamais respeita a distância de segurança mínima de um metro. Mesmo quando a que está à minha frente avança um nico, e eu aproveito para criar aquele metro entre a de trás e eu, lá vem ela, quase a esfregar-se em mim. Note to self: mandar vir da internetinha uma essência de catinga a feder para passar em meu cangote antes de me entrosar na bicha;
18. Depois das cabras no Reino Unido, dos javalis em Barcelona, dos búfalos em Nova Deli, e por aí afora, apareceram passarinhos novos no meu bairro durante o confinamento. Já tínhamos pombos (poucos, mas sim), gaivotas, pardais, melros, papagaios, poupas, arvelas, lá de onde em onde um falcão, agora apareceram por aqui rabirruivos-pretos. Parecem pardais, mas têm uma cauda maior, castanha, com a qual batem castanholas. Isto só pode significar que os animais não gostam de pessoas e de carros. Porque se assustam, é certo, mas não há forma eufemística de dizer isto, é não gostar, é viver mal com, é viver melhor sem. Dá que pensar sobre o que é que estamos a fazer com o planeta onde vivemos;
[Pausa para a segunda demão.] [E para pensar.]
19. Isto está a ser uma poupança em champô e em tinta para o cabelo: não o sujo tanto, não o lavo tantas vezes, não precisa de ser pintado com a mesma frequência porque debota menos;
20. O foco dos confinados não devia ser, ao invés de emagrecer - que é só estúpido, se a pessoa está trancada em casa, idealmente a maior parte do dia (e, a menos que tenha um jardim a perder de vista ou viva num monte alentejano, ou ainda numa ilha deserta, não tem espaço/ oportunidade/ vontade de se pôr feita estúpida a emagrecer, isto se não estiver com uma daquelas abençoadas neuras/ dores de corno que suprimem o apetite, só a mim nunca me calha uma dessas) -, dizia eu, ao invés de emagrecer, apenas não engordar? O meu foi um bocado esse, e já falo no passado porque amanhã já era: não pus um grama, ou, como diria o povo, "uma grama". O que é que ajudou? Vá, eu conto: umas aulas de dança online com muito pouca convicção, um mínimo de uma vez por semana uma corridinha, e jamais - repito -, jamais, alapar o codril no sofá. Muito estendal, muito ferro, muito esfregão, muito fogão. Livros lidos esta quarentena: zero. Isso engorda que se farta. Sim, mesmo os de receitas light e cenas.

[Top coat gel effect e é deixar secar. Amanhã meto as unhas de fora.]




29/04/2020

Coisas que o vírus maléfico me ensinou até agora [actualização #2]

11. Convenhamos: a máscara é como a touca de natação: não fica bem a ninguém. Quanto aos homens, não sei, e até admito que passem a usar rímel (os que ainda não usam) e a depilar convenientemente as sobrancelhas (os que ainda não o fazem). Já nós, temos como aceitável tudo o que é graxa e tinta para intensificar o olhar - seja lá o que isso for -, o que nos dá, nesta fase em que nos encontramos, total liberdade [oh, precioso termo!] para lhe dar com a genuína maquilhagem saudita - ele é rímel, ele é eyeliner, ele é lápis, ele é a sombra, ele são purpurinas e glitters até mais não podermos carregar, vale tudo menos tirar (os) olhos, vai ser cá um bollywood! (Ai, já sei que a Índia e a Arábia Saudita não são o mesmo país, desenervem-me.);
12. Existe uma guerra surda entre o pessoal do pijama/ fato de treino e o pessoal que se veste como adulto normal e minimamente equilibrado. Outro dia andava a navegar - salvo seja - pela única rede que frequento, que é o Instagram, e deparei-me com um comentário de alguém que criticava as pessoas que todos os dias se vestem "normalmente" (vulgo, com roupa de sair à rua), ao invés de se alaparem num pijama ou fato de treino, e acrescento eu, quietinhas, a deprimirem, em posição fetal a um canto da cozinha, enquanto se babam, sem distinguirem o dia da noite, quanto mais os dias uns dos outros. Claramente, são pessoas que não trabalham. Não estão a fazê-lo a partir de casa nem dentro de casa. Não há uma casa-de-banho para limpar, uma gaveta para arrumar, uma cestada de ferro para engomar. Portanto, o objectivo maior será relaxar, não fazer nada, aborrecer-se e infernizar a vida aos outros, por falta de ocupação. Tudo isto de pijama, ou fato de treino;
13. Há gente muito paranóica, que, ou muito me engano, ou já era antes da pandemia, e agora apurou sentimentos e método. Por exemplo, a menina que me traz o sushi todas as semanas: telefona-me quando chega à minha porta para me obrigar a descer - ela não pode subir, o meu elevador e escadas estão impregnados da virose, é tudo um nojo, um perigo, uma repelência; eu desço e o panorama é sempre o mesmo: ela vem, magra de nervos, toda tapada e de luvas e de máscara (até aos óculos); estica o braço o mais que pode e entrega-me o saco com a comida usando as pontas dos dedos: travamos sempre o mesmo diálogo: "Quer que desinfecte o multibanco?" [a máquina vem forrada a papel aderente, que deve estar um nojo], "Não, eu vou lavar as mãos a seguir", as sobrancelhas dela espetadas na raiz do cabelo até ao fim do nosso encontro; afasta-se, mete-se no carro e são cinco minutos até arrancar, imagino que a desinfectar tudo, a ela mesma, ao carro, nuns nervos, numa angústia que mais valia ir tratar antes que ouça alarvidades como as do Trump e as leve a sério;
14. Então, a praia vai ser condicionada e limitada? Olhem, eu não vou. Um Verão branca, mas é ver a coisa pelo lado bom: não envelheço mais um bocado, não contribuo para o carcinoma, não gasto em protector solar nem em biquínis caríssimos, não enfrento bichas absurdas por um lugar onde, quantas vezes, e por mais que seleccione a praia, tenho que aturar a celulite das outras, os guinchos dos infantis dos outros, as frases lapidares naquele Português-valha-me-Deus, "Trouxestes o comer?", e merdas. Está óptimo. No entanto, pago para ver as fardas dos fuzileiros e dos polícias que vão patrulhar a coisa (já para não falar na falta de contingentes para o efeito, mas parece que disso ninguém fala. Ou vão formar mais uns quantos até lá?). Será de botas? Será de sunga? Bermudas? Fica a questão fracturante;
15. A nouvelle vague de velhos que não se sentem velhos e afirmam a confinação como uma forma de coerção, ou coisa assim. Vamos lá a ver uma coisa, meus velhos: é certo que, ao pé dos vossos pais, na faixa dos 90, vós sois uns petizes. Porém, não é lá porque os vossos 70 estão mais próximos dos 60 do vizinho - que também já faz parte de um grupo de risco, porém sente-se um jovem - que não deixais de estar em risco. Ninguém vos quer amarrar a casa, toda a gente vos quer proteger. Apenas. Perceberam a minha Matemática? Nem eu, é sempre a mesma coisa. 

Esta porra hoje não me deixa justificar os parágrafos, e eu tenho mais o que fazer do que ficar aqui a insistir, tende lá paciência, que eu também já não vou para nova.

23/04/2020

Coisas que o vírus maléfico me ensinou até agora [actualização]

6. Só nesta provecta idade é que aprendi a lavar as mãos. Antes desta pandemia, aparentemente, não sabia que é preciso levar o tempo de um abecedário/ música dos parabéns/ 30 segundos (ou são 30 minutos?), lavando-as tantas vezes quantas as que tocamos em alguma coisa. Tipo sempre. E que devemos lavar o entre-dedos, a ponta das unhas, as costas da mão, o dedo polegar (aquele maroto que limpa o rabo, coitado), e a mão toda, no seu geral, hasta la muñeca, como dizia o vídeo que me ensinou a mim. Eu cá por mim, acho que devíamos lavar até ao cotovelo, como os cirurgiões. Ou até à sovaca. Já agora, incluindo-a. Pois olhem, não vão mais longe, que não é em vão que o afirmo: já passei por uma bicha de gente, toda ela mascarada e enluvada, mas em que o pitol a azedo de alguém (basta um!) perfumava toda a zona onde se encontrava o ajuntamento de gentes separadas por um metro ou dois entre sis;
7. A máscara faz um calor de ananases, faz comichões na face, provoca claustrofobia e não há arame nasal que a segure em narizes pequenos. Fala-vos uma vítima da dita. Ora não se prende e desce boca abaixo, ora não se prende e enfia-se olhos adentro. Para quando uma máscara especial pessoas sem nariz? Fica a dica para o nicho;
8. Eu não tenho vizinhos fixes. Ninguém vai à janela bater palmas, cantar a ópera, sequer fazer uma escandaleira a pôr o cônjuge nas putas. Isto é uma desanimação. Fora a miudinha de cima, que tem para aí um ano e meio e passa os dias aos berros, e o de baixo, que tem um fato completo, com máscara e boné, pendurado na varanda (cruzes, credo, cada vez que saio para o passeio higiénico/compras/correr, apanho um susto, julgo que está um enforcado por baixo da minha varanda), nada se passa neste monstro de cimento que me dá tecto. Queres ver que tenho que ser eu a chegar-me à frente - à fachada principal, claro -, brindando-os com um faduncho, "Povo que lavas no rio"? É vê-los a despejar garrafas no vidrão, mas lá a serenata é que não sai;
9. Os carros precisam de andar. Não é só pela questão de não perderem a bateria, é por tudo. Os pneus vão abaixo, muito tempo parados no mesmo sítio. (Até ganham ervazinhas e florinhas bravas, fica ali uma bonita composição floral.) Se não querem dar uma volta ao quarteirão, não vá o vírus agarrar-se aos pneus e depois entranhar-se nas solas dos sapatos e logo a seguir entrar-vos boca adentro, ao menos andem para a frente e para trás com o carro no lugar onde está parado. Isto aprendi recentemente, por isso achei melhor partilhar, antes que fiqueis com os vossos pneus quadrados. Por acaso, ali numa perpendicular à minha, alguém deixou um carro (mal estacionado) há seis ou sete semanas, há-de ter a grata surpresa quando voltar. Bem feita, para aprender a pôr o carro dentro dos contornos. Aquilo é coisa para me provocar o TOC cada vez que vou à janela;
10. Não ver notícias é uma grande libertação. Aposto em como a minha tensão arterial melhorou bués. Depois daquilo do 25 de Abril/ 1 de Maio e das interdições nas praias, resolvi meter a cabeça na areia (não literalmente, com muita pena minha), a ver se consigo não me tornar uma pessoa revoltada com o Mundo.

20/04/2020

Coisas que o vírus maléfico me ensinou até agora [em forçosa actualização, na senda de "vivendo e aprendendo"]

1. A internet é uma porcaria. O wi-fi, melhor dizendo. Falha quando chove; falha quando o vizinho está a usar (quando sou eu a usar, a do vizinho também falha? Creio firmemente que não); falha quando me afasto do router; falha porque sim;
2. A minha empregada é necessária, mas não indispensável. Isto deve ser verdade para todos os cargos de chefia deste mundo. Neste caso em concreto, dá-se que eu faço, imodestamente, tudo - rigorosamente, tudo -, melhor do que ela. Cozinho melhor, passo melhor a ferro, limpo melhor (nem quero lembrar-me dos gonelhos de cavelo que encontrei em todos os cantos da minha casa, que me sobe uma rabia de me arrebentar com uma têmpora) (as casas-de-banho limpas por mim ficam um nojo de limpeza, de dar ganas de lamber as latrinas), faço camas como uma enfermeira, e, convenhamos, não massacro ninguém com aquela conversa de beca-beca-ad-nauseum;
3. Fazer exercício em casa é uma tanga desmotivante, mesmo com a titcha do lado de lá. O meu escape actual é ir correr para a rua, como os malucos. Hoje fiz uma aula de dança e acho que foi a última desta saison. Até agradeci à p. da net ter falhado algumas quatro vezes durante aqueles 45 minutos de seca;
4. Se eu fosse velha - ou ainda mais velha do que já sou -, também ia para a rua passear as peles. Levei alguns dias a perceber a lógica, mas é só esta: quem está na recta da meta e tem pouco a perder, prefere arriscar o pêlo e, lá está, a pele, do que ficar a morrer-se, sozinho ou com outro velho, em casa. Imaginemos que esta coisa, ou semelhante, acontece de novo daqui a dez ou vinte anos. A mim, ninguém me enclausura, escrevam isto. Eu já escrevi;
5. Aquela cena dos cumprimentos com dois beijinhos sempre foi inútil e, agora percebemos da pior maneira, prejudicial. Sobretudo com pessoas que acabámos de conhecer. Mas que raio, logo dois beijinhos? De agora em diante, e para sempre, levam um bacalhau dos meus, e, e, que já é contacto físico a mais. A p. da vénia que algumas pessoas estão a adoptar também não me agrada. Parece uma chinesice e dessas já basta o que basta. (Não percebo que não se possa chamar "vírus chinês" àquilo, que não venham logo as comadres e as virgens todas ofendidas, que é pró-Trump e merdas. Aliás, acho que foi para aí a única coisa bem dita que o homem alguma vez disse na vida. Também já ouvi dizer que todos nós (exceptuando os cesariados como os meus filhos todos) viemos da vagina das nossas mães, e temos um nome próprio. Está bem, não veio da China, veio da Chona. Chatos. Enquanto andarem com salamaleques desses, em que tudo é fobo e fóbico, aquilo que é necessário fazer (embargos, multas, fronteiras efectivamente fiscalizadas) não é feito, e temos outra vez a chinesada toda a comer bichos não controlados sanitariamente). Vai um wave-bye e já vai de bom tamanho. Quem não gostar, que se fornique, mas meta a mão no bolso e os beijinhos lá onde achar melhor.

Pronto, já falei muito, pareço a outra com o beca-beca-ad-nauseum. O resto fica para a próxima. Cá beijinho é o caraças, vai um wave-bye à chegada e à partida. Tornei-me rude.



15/04/2020

Já me cheira a pedincha por todos os lados

Eu não sei vocês, mas sinto no ar um fedor a pedincheira que já me, se não assusta, pelo menos irrita um nico. Depois dos lares de idosos, das casas sem internet, das crianças sem computador, das pessoas que não sabem fazer uma máscara (alguém tem noção do preço dos tecidos e dos aviamentos?) (fazer uma máscara fica caro, fazer cem máscaras fica caríssimo, alô!, nem toda a gente tem capacidade financeira para pagar tecido + elásticos + linhas + electricidade da máquina de costura + tempo - mínimo 1/2 hora para cada uma -, tudo multiplicado por 100 ou 200, que são 50 ou 100 horas de trabalho, mas está tudo doido, ou eu é que estou a ver tudo do avesso?), o pessoal que não pode ir fazer as próprias compras (tenho uma vizinha que se ofereceu para ir às compras pelos idosos do prédio - que, afinal, é só uma, que sai de máscara, luvas, gorro até aos óculos, sobretudo e calças, e lá vai ela, e lá vem ela, um saco cheio em cada mão e ainda um garrafão de 5 litros de água, what the fuck?) (bem sei que não posso julgar o geral pelo particular, mas isto é o que eu vejo e eu sou como Tomé, o santo), agora são os PTs dos ginásios que, nos primeiros dias de quarentena, deram aulas gratuitas no Instagram e, de um dia para o outro, se passaram para algo que responde pelo nome de Zoom, cujo acesso é pago para se beneficiar das ditas aulas. Ora, vamos lá a ver: não são eles funcionários de um ginásio que uma pessoa paga mês após mês, e que até suspendeu as mensalidades enquanto se mantiver fechado, e que continua a pagar-lhes o ordenado, e que dá aulas online à borla e para toda a gente que a elas queira aceder, ainda que não esteja lá inscrito?
Também não sei se sou só eu, mas tenho como premissa que a caridade começa dentro de portas. Que é lá isso de sair para se ser voluntário num lar de velhinhos, deixando um acamado em casa (também já vi acontecer)? Tenho muita pena de todas as pessoas, mas mais pena tenho dos meus filhos, que não pediram para nascer. E, seguramente, não vou tirar da boca deles para distribuir por não sei quem, porque, ó pá, caiam mas é na realidade: isto é um estado de emergência com duração nunca antes vista = calamidade pública = guerra. Ninguém - onde me incluo - sabe o dia de amanhã. E amanhã não terei cara para recusar a mão estendida a um filho com o argumento de que dei tudo "para Portugal". 
Já agora, e a mim, quem é que me estende a mão? 
(Para início e fim de conversa, nós dois criámos quatro pessoas - duas ainda por acabar de criar - sozinhos, sem qualquer tipo de ajudas daquelas da creche paga pelos avós ou outras benesses do mesmo género. Portanto, sou esta recalcada que aqui me apresento hoje. Cruel, mas justa, lá dizia a capa do disco do Rod.)


13/04/2020

primogénita

Nasceu em primeiro lugar, quem sabe se por acaso ou então por haver desígnios. Chegou pequenina, uma “amostra de gente” que se manteve assim mesmo até hoje - e até sempre, disso já terei certamente uma certeza. Em tanto me traz a minha mãe de volta, no tanto de melhor que tinha, até nisso do tamanho em altura e leveza, ambas medíveis com pouco mais de meia-dúzia de palmos, impossível medir-me eu aos palmos com qualquer das duas. Eu sempre demasiado grande perto de uma e de outra, infinitamente pequena se com elas comparada. Tantas vezes invertemos os papéis, sobretudo quando o horizonte se estreitou e os amanhãs da minha mãe foram deixando de existir. Deve ser isso o envelhecimento, essa troca inadvertida, suave e natural, em que um dia somos filhos dos nossos filhos, numa eterna dança que eles também dançarão um dia com os filhos deles. Talvez por isso mesmo, nestes dias de tempestade, em que as boas notícias tardam em chegar e são raras como milagres, quantas vezes ao pedir-lhe numa lamúria quase infantil, "Dá-me os números bons", foi ela, pequenina, os olhos enormes que perscrutam este Mundo inteiro e ainda o outro que é só dela, as duas mãozinhas agarradas aos meus braços, tão séria, tão mamã, "Hoje tivemos uma taxa de aumento de quatro por cento". Acredito fervorosamente que aqueles olhos enormes e aquelas duas mãos pequeninas interferem, lá naquele outro planeta que ela também habita, nalguma fórmula secreta de inversão da tal tendência, pois todos os dias, protectora, cheia de candura, toda ela feliz, me vem trazer os números bons.

09/04/2020

Assintomáticos, essa raça maldita

E agora é isto: quem não tem sintomas, pode estar infectado, mas não (se) manifesta. É assim uma espécie de advogado do diabo, um portador anónimo e silencioso das más notícias - que, como se sabe, convém assassinar. 
Portugal tinha, até ao dia de ontem, 12.565 infectados. Se lhes somarmos os 196 curados e subtrairmos esta soma aos cerca de dez milhões que somos, vemos que temos nove milhões, novecentas e oitenta e sete mil, duzentas e trinta e nove pessoas que, de duas, uma: ou não estão infectadas (e isso será a grande maioria), ou então são suspeitas/ assintomáticas/ possivelmente infectadas/ a abater, pois - parvas - estão convencidas da sua imunidade/ impunidade/ sorte macaca, mas que, no fundo, andam cá a infectar meio mundo (a outra metade dos não infectados/ assintomáticos como eles), e isso fá-los merecer a desconfiança, a repulsa, a fuga a jacto, a nova agorafobia. Agora, já.

[Eu, assintomática me confesso, também vou desenvolver uma fobia chique relativa a todas as pessoas que viraram a cara e manifestaram a sua repugnância pela pessoa humana por estes dias. Coprofobia.]

08/04/2020

Se está no jornal online, está na net, é porque é verdade

Diz o jornal, pela pena de quem não conheço (porque não conheço toda a gente do mundo?), mas também não se apresenta ou sequer identifica como autoridade do assunto sobre o qual escreve, mas que imagino que saiba com certeza e não porque ouviu para aí dizer, que o dernier cri da crise actual é ir para a rua (quando já não pode mesmo deixar de ser) de mangas compridas. 
Depois do cabelo apanhado e das unhas curtas, devemos, pois, sair com os braços tapados. Como se o clima permitisse outra alternativa. (Humanos era um rapaz que frequentava o meu liceu e que andava todo o ano, rigorosamente todo, de manga curta. Admito que seja porque existem Humanos neste caótico mundo que aparecem este tipo de recomendações.) Por outro lado, ou ainda deste, ando a ficar um tudo-nada saturada deste tipo de conselhos quanto à indumentária, comportamento e hábitos, designadamente porque ninguém mos explica e ou apresenta estudos que comprovem o coiso. Bem sei que tudo isto é novo, prognósticos só no fim do jogo, mas é que eu sou aquela teimosa/ asna que necessita de explicações e razões de lógica para tudinho o que sejam ordens, comandos, conselhos e outras vidências mais ou menos evidentes.
A manga cumprida é exactamente para quê? Para que o vírus não se aloje nos braços e não trepe por eles acima até às fossas? Então e por que é que não é “obrigatório” o uso de calças? É que, pela mesma ordem de raciocínio, ele pode escalar pernas acima, tronco acima e, imediatamente antes de morrer de cansaço, encafuar-se boca adentro. Ou nós somos seres que tanto mexem na cara como nos braços? Também não mexemos nas pernas? 
Portanto, podemos usar saias/ calções, mas lá braços à mostra é que não. Como uma autêntica ida ao Vaticano. (A mim, o senhor da bilheteira mandou-me tapar os ombros expostos por uma manga cava que até era com gola alta, e eu, de calças, suei as estopinhas com o blusão vestido lá dentro, mas eram as brasileiras a passarem por mim de coxas à mostra, que isto uns são filhos.) Já a coisa do rabo-de-cavalo me pôs assim meditabunda. Esse é um penteado que 1. As mulheres usam quando têm o cabelo sujo. (Pá-tá-bem, é para o ginásio e a praia e o campo e a montanha. Mas é, principalmente, o recurso chamado “não tive tempo/ paciência para lavar a crina, hoje vem mesmo a galope”.) 2. As mulheres evitam, por razões de segurança, quando vão a algum lado sozinhas à noite. Agora passou a ser recomendado, calculo que para que levemos menos vezes as mãos à cara. (E nada de cofiar as barbichas e as bigodaças, seus Pais Natais.)
Em resumo, a ver se já percebi o outfit ideal para enfrentar o animal: rabo-de-cavalo, máscara, mangas compridas, luvas, mini-saia (pode ser, chiu!) ou shorts. E não esquecer de deixar os sapatos à porta, do lado de fora, e meter a roupa toda que se usou na rua, na máquina de lavar, imediatamente, a 60º, o que, como se sabe, não esteriliza nada, nem mesmo se fosse a 90º, pois o que esteriliza os tecidos é a água fervente, borbulhante, enfim, a 100º.
Querem esterilizar a roupa eficazmente e sem essas trabalheiras todas? Dona Linda, uma criada ao vosso dispor, recomenda: passem-na a ferro quando chegarem da rua, se a ideia é acabar com a raça do bicho. São 150º, não há beri-beri que lhe resista. Ou metam tudo no forno, pode ser a 200 ou 220º. E boa sorte com as fibras, as lãs e os sapatos. Mas que resultará, ai disso não duvidem. Ainda por cima, agora já está na net, porque eu pus. Portanto, é verdade.

02/04/2020

E para as da retaguarda, não há palmas?

A nós, mães, que estamos num confinamento desigual, arriscando a vida todos os dias, indo ao epicentro do risco comprar alguma coisa que faz falta e não pode esperar um mês (porque as compras online deixaram de fazer face às necessidades de casas cheias de pessoas que comem todos os dias, quatro vezes por dia) (e não, nem todas as casas têm um frigorífico industrial e uma despensa de restaurante) (e sim, a fruta e os legumes querem-se frescos, impossível comprar para um mês, ou dois, ou três, e não, também não haveria espaço para tanto) (e não, ninguém aguenta enlatados e enfrascados todo um santo período de semanas que sabe-se lá quantas mais), enfrentando pequenas (vá lá...) multidões munidas de sua máscara, de tal modo protegidas se sentem que não se coíbem de se aproximar bem menos do que um metro, munidas que estão da sua infalível armadura, subestimando que nós, desmascarados (não uso, ainda não usei, Deus me livre de mais essa. Não encontro à venda, as que me arranjariam por especial favor são a preços pornográficos e duram o tempo de um fósforo, prefiro acreditar na DGS, que são propícias a uma falsa sensação de protecção), não temos outro escudo que não seja o divino e ou a nossa capacidade de permanecer em apneia e ou escapar ao bafo/perdigotos, já para não falar do tossicar tão português, da catarreira cigarreira ou do espirro para a dobra do braço. 
E quando, bravas, regressamos da batalha, sorridentes e vitoriosas porque ainda ignorantes do desfecho da guerra que vamos travando, ao que ainda poderá ser o nosso porto de abrigo, àquela que era a designada com algum desprezo pelos aventureiros desta Terra, a zona de conforto, o perímetro de segurança, processamos tudo - refeições, um bolo de iogurte, uma mousse de chocolate, sumos de laranja com laranjas a sério -, arrumamos, limpamos, lavamos, mimando, fazendo crer a normalidade, para que uns possam trabalhar, outros ter aulas, falar com os amigos no computador ou então jogar, para que não tenham necessidade nem vontade de sair de casa, e ainda arranjamos um bocadinho para dançar ou fazer uma ginástica patética, cujo objectivo é apenas nenhum (não engordar por abandono do ginásio? Estar em forma no próximo Verão? Ocupar a mente?), ou então só não enlouquecer.
A nós, quem é que nos bate palmas? 
Talvez ninguém, talvez porque não precisemos. De qualquer maneira, estamos invisíveis, na tal linha de retaguarda, demasiado ocupadas a salvar vidas, arriscando a nossa própria.

27/03/2020

Das idiossincrasias - das dos outros e das minhas

Nesta fase coronoviral, queria escrever um post por dia, mas o desalento e a ocupação constante com mil coisinhas mo impedem.
Realmente é bem verdade que a roupa não se passa sozinha, ao contrário desta aqui que vos tecla. Estou a brincar, raramente me passo, por isso é que ando sempre com os olhos raiados de sangue.
Agora a sério, não me tirem o ferro de engomar. Há muitos anos que é o meu escape, o meu momento zen, cada um tem o seu. Antes isso do que enveredar pelas drogas adentro. 
Tenho conseguido continuar a maquilhar-me religiosamente (não num sentido literal), vestir-me como em dias de normalidade, apenas desci do salto e ando rasa ao chão, ora de ténis, ora de sabrinas. Em compensação, há dias vi a minha vizinha da frente de pijama, em plena rua, como se estivesse em casa. Uma completa inversão de valores.
Tenho ido correr dia sim, dia não, o que, não sendo famoso, também não é mau. Faço corridas curtas (3,5 km), que me sabem pela vida. É esquisito correr por ruas vazias em pleno dia, cruzar-me com a senhora da farmácia, com o carteiro, com a vizinha que vai às compras, e agora ser tudo diferente, acenamos à distância, apreensivos, nervosos, acho que até tristes.
Quando se anda na rua de dia, parece que se entrou na quinta dimensão: tudo fechado, poucas pessoas a circular. Assim que cai a noite, é tal e qual como quando se sai de casa às quatro da manhã. O silêncio e a inércia pairam no ar, mesmo que sejam sete e meia da tarde. 
Noto que os automobilistas estão ainda mais agressivos, sobretudo com os peões na passadeira. Desconheço se é porque têm uma ilusão de impunidade, se lhes cresce a raiva do "go home" (como se eles estivessem em casa), ou se é algum jogo novo, tipo electrónico, mas com pessoas a sério, "corre ou morres".
Por falar nisso, preciso de estudar afincadamente o fenómeno dos automobilistas com máscara. Por vezes, vai mesmo o casal completo, dentro do carro, os dois de máscara. Não estão no seu habitáculo "esterilizado"? Não vivem juntos? Não comem da mesma malga? Tende mas é juízo e deixai as máscaras para quem efectivamente delas precisa.
Já agora, se a DGS recomenda o uso de máscaras apenas a quem está infectado, e ainda que quem está infectado deverá obrigatoriamente permanecer em casa catorze dias, quem são afinal aqueles cinquenta por cento de transeuntes que andam mascarados pelas ruas? 
(Muita gente que não lava os dentes e nos poupa, assim, ao seu fétido. Bem hajam.)
Vi uma senhora de idade na televisão, os cabelinhos muito brancos, afirmando que não senhora, não está em risco. "Para além de ser diabética, não tenho mais nada, graças a Deus".
Queria ir dar sangue, porque recebi uma mensagem do IPS, mas a minha tensão arterial diz-me que nem pense, e isso tem sido mais um motivo de frustração, a acrescentar aos restantes. Numa ida à farmácia, li na porta que os hipertensos também são um grupo de risco e apeteceu-me ter um ataque de nervos. Depois li "Soraia, está a ser filmado", e lá me acalmei, apesar de não me chamar Soraia. Só após um curto raciocínio percebi que se tratava do verbo sorrir e até sorri. Ou já estou chanfrada da marmita, ou a precisar de uns óculos de sombra. 
Uma pessoa que, diante da fila (exterior) da farmácia queria que existissem senhas de vez, com o argumento que "de manhã havia, por isso achei que agora também devia haver". E então, encostou-se a um muro a desabafar o quão incrível considerava que houvesse gente que vai à farmácia por tudo e por nada.
Por falar nisso, pessoas que vão à farmácia acampar desabafar: para quando uma multa? Uma pena de prisão não remível?
Tenho fé nos portugueses, mas só de segunda a sexta. Ao fim-de-semana julgam que estão de férias e são multidões junto aos rios e oceano. Vão claramente contribuir para medidas de restrição ainda mais apertadas, talvez assim nem vejamos o mar, todos nós, este ano.
Tenho a capoeira a metade, dois dos meus pintainhos estão fora. Embora saiba que estão bem, e que, em ambos os casos, foi a melhor solução, isso é assunto para me doer em, pelo menos, metade do coração.

20/03/2020

Hoje está a chover

O dia de ontem foi tão extenuante que nem pau para escrever tive. Esta noite dormi nove horas de seguida, coisa que não me sucedia desde que nasceu o meu mais novo, vai para décadas, assim no plural, não tarda. Tinha-me levantado, altas horas da madrugada, e feito uma aula de zumba, isto ainda antes de me lavar. Depois pareceu-me pouco e fui para a varanda dar no ferro, que é como quem diz, abdominais, braços, glúteos e alongamentos. Devo ter exagerado em alguma das coisas, que hoje sinto a excruciante. Deus me livre de tossir. Mais logo retomo a actividade física. Agora preciso de tratar do intelecto. Aguarda-me na box uma sessão de telelixo.
Entretanto, pintei o meu cabelo, era o que faltava deixá-lo encher-se daquelas nuances descoradas, mas agora sou a Elsa do Frozen, ou quê? 
À tarde fui à farmácia, mas tive o cuidado de escolher a mais longínqua do bairro relativamente ao lar, para poder desfrutar não sei de quê. Constato que os donos dos cães, que agora surgem do chão como cogumelos, são mais do que os próprios (donde se conclui que o mesmo cão é diariamente passeado, pelo menos, uma vez por cada elemento de uma casa), e também deixaram, definitivamente, de apanhar as poias dos seus animais, agora que "ninguém vê". Portanto, a mentalidade não mudou nada.
Em contrapartida, a rua cheira a rua. Cheira a árvores, a flores, a vento, a pedras agora molhadas, no lugar do aroma a combustível queimado, alcatrão e pneus. Ainda assim, não sei o que prefiro. Sou demasiado urbano-dependente para apreciar ambientes bucólicos por mais de três dias, ainda para mais a este preço.
Ao fim da tarde baldei-me a outra aula de dança* e fui caminhar (a minha companheira de corridas está desancada de um mau-jeito que deu no ballet) uns quilómetros largos, a aproveitar enquanto não me ferram em casa como se eu fosse uma criminosa. Apesar de tudo, isso ainda é menos deprimente do que sair e só ver gente mascarada e diabólica, e a fugir de se cruzar connosco como se fôssemos todos leprosos carregássemos a cruz que efectivamente carregamos. 

*@dianaxana7, não sei colocar links do Instagram, é procurarem. Esta menina merece o Mundo, está fechada em casa, a dar 4 aulas por dia em directo da sua varanda.


18/03/2020

Street

No Verão passado apareceram na minha rua dois pequenos gatos, talvez com quatro meses de vida. Nessa altura, ainda tinha a minha Mia viva, ou seja, tinha duas gatas em casa, pelo que não me passou nem de longe pela cabeça adoptar mais um, quanto mais, mais dois. De qualquer modo, achámos - porque nem sequer foi iniciativa minha - por bem deixar um pouco de alimento e água aos gatinhos, que, como todos os animais de rua, pareciam precisar. Os dias foram passando, depois as semanas, os meses, e nós sempre a deixar um bocadinho de ração, latinhas, pescada de sobras nossas (o que eles se pelam por peixe cozinhado!). Um dos gatos é preto com malhas brancas, desconheço se é um macho, mas recebeu o nome de Street, que dá para todos os sexos, enquanto o outro, tigrado com mais de duas cores, certamente uma fêmea, foi "baptizado" de Juliana (don't ask). De resto, Juliana tem vindo a engordar de tal forma que, ou muito me engano, ou qualquer dia dá frutos (Coisinha, Clavícula, Meu Óculos e Gil Prada, tudo nomes possíveis para a ninhada que se anuncia). 
É ao cair da noite, pelas 19:30, que desço à rua e vou deixar a refeição dos "meus" gatinhos. Esta era, até há pouco, uma hora sossegada, com menos gente e movimento de carros. Agora todas as horas são de um sossego inquieto, mas Street - que é muito mais fiel à refeição do que Juliana - não sabe nem sonha o que se passa no mundo, e é a essa hora que me espera, os olhos como duas lanternas acesas, metido debaixo de um carro, ali perto da caldeira da árvore onde costumo deixar-lhe o sustento. 
Espero que, sendo decretado o estado de emergência, abram excepções como em França: alguns trabalhos, compras básicas, assistência a idosos, passeio de animais e prática de desporto, desde que não em grupo. Porque eu, garantidamente, e pontualmente às 19:30, vou descer até à rua para alimentar meu Street, e, quem sabe, a sua companheira Juliana. Nem que tenha que vestir o traje desportivo, nem que tenha que alugar um cão. 

17/03/2020

Filhos sem Deus

Ainda tudo isto vai no início e já a tristeza a querer tomar conta de mim. 
(Tenho que, urgentemente, começar a fazer ginástica cá no lar. Sair à rua, neste momento, é mais angustiante do que ficar em casa.)
Nunca pensei viver estes dias, nunca imaginei o meu paraíso à beira-mar plantado devassado desta forma. O máximo que equacionei foi, remotamente, um terramoto na minha cidade. Uma guerra impossível. Um ataque terrorista improvável. Esta coisa de não sabermos para onde nos virarmos (se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come - como se diz no Brasil), por não haver um canto seguro e todos parecerem mais tenebrosos, nunca algum dia considerei. 
Ouvir que vamos ser milhares de infectados e não teremos ventiladores para todos; que a selecção se fará dos mais velhos para os mais novos - tenho medo, pessoas, tenho tanto medo. Sem motivos pessoais (porque, infelizmente, já me restam tão poucos velhinhos), mas por prever então uma espécie de eutanásia passiva. Depois dos mais velhos, quais se seguem? Os doentes crónicos? Os deficientes? Os gordos? Os pobres? Qual vai ser o critério, então?
Aqui há uns dias, que agora me parecem longínquos, num supermercado ainda sem contingentes, mas já com mais gente do que o normal para o dia e hora, passava por mim um jovem casal como outro qualquer, não fora o pormenor de serem ambos deficientes: ele empurrava um andarilho, a imperfeição das pernas desenhando um perfeito S, ela empurrava o carrinho das compras, e, a avaliar pela divergência do estrabismo e todo o semblante, muito provavelmente teria uma limitação cerebral. E foi quando ela o chamou para que desse opinião sobre um artigo, 
Oh, amor,
que senti o coração transbordante, agora num aperto doloroso. 
Porque não existe um deus capaz de seleccionar sem cometer injustiças atrozes, estou hoje a perguntar-me pelo destino deste amor, se a mão implacável, o dedo aleatório, tiver o capricho de - através daquela outra mão que dita quem vai e quem fica -, apontar na direcção de um destes dois seres humanos.

16/03/2020

A pessoa humana metida na bolha

Estou a fazer um esforço de reclusão. Qualquer dia imponho-me uma farda, um horário rigoroso de alvorada e recolhimento, autoflagelo-me caso prevarique (a mera chegada à porta do elevador, por exemplo) e crio mesmo uma solitária, para me castigar de atitudes mais rebeldes.
No entanto, anteontem fui correr para o Campo Grande (sim, eu era aquela gira dos calções pretos - comprei-os há dias e era urgente estreá-los, ainda que chovessem gatos e cães, como na Inglaterra). Ontem fui caminhar uns poucos quilómetros, dei uma volta ao Estádio Universitário (sim, eu era aquela gira) pelo perímetro mais alargado, tudo em nome do anti-ensandecimento. Não é que eu seja uma pessoa muito arruaceira, mas a ideia da clausura forçada desinquieta-me. Tenho planos para me entreter, alguns deles sem piada nenhuma a partir do dia em que dê carta de alforria à minha empregada (tipo amanhã) (é que acho que ela não pode trabalhar a partir de casa) e passe a ter que cumprir as tarefas domésticas quase todas, qual cigarra. Tenho a casa reduzida a quatro elementos (eu sou um deles), uma porque foi de Erasmus e não quer voltar agora (apesar de estar confinada a uma residência universitária e com a faculdade fechada; outra porque já foi fazer ninho para outras paragens), dois ainda a trabalhar, um a ter aulas online, isto à conclusão: quem é o sortudo do designated shopper, quem é? Ah, pois, então se posso encostar a barriga ao fogão e as ancas à vassoura, também posso ser eu a mula de carga vacuda que vai às compras, caso isto dê para o estado de emergência (que vai dar). 
De resto, tenho mantido as minhas rotinas higiénicas e estéticas, embora verifique que, ao terceiro dia, o povo já está a desmazelar-se, alinhando no fato de treino em alternativa ao pijaminha. Qualquer dia não se barbeiam nem se depilam. E não se lavam. Tipo Robinson Crusoe.
O ginásio fechou, portanto só me resta ir buscar o colchão à arrecadação, os alteres e as caneleiras e ir para a varanda gemer, isto assim que o tempo permita, que só me falta apanhar uma constipação só para chegar ao Verão fit-not-fat. Pronto, e se, por um absurdo que ainda não está fora de questão, este ano não puder pôr os dois pezinhos na areia, hei-de poder pôr na varanda. Nem que vá buscar a caixa de areia da gata, mas isto assim é que não fica. E tudo menos flácida.
Vá, pronto, também vou ler mais e ver mais filmes. Calma.