Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens

20/09/2021

RESPECT

Se acharem que é spoiler, é não lerem # 15

Hum, não sei o que diga. Moí os ossos ao meu povo para que algum deles me acompanhasse a ver esta fita. Quase tive que ameaçar deslargar o lar para todo o sempre, cortar os pulsos (de um deles, não os meus) ou fazer greve de fome até ficar igual à Claudia Schiffer, mas em morena e bela. Está bem que podia bem ter ido sozinha, porém deu-me a birra e queria levar pessoas. Consegui convencer, através de suborno, uma única que se prestou e lá foi comigo. E, no final das contas feitas, apanhámos uma pastilha de duas horas e meia sem intervalo [carinho e amor para o legislador que permitiu o regresso do balde de pipoca à sala, pelo que pude permanecer desmascarada durante todo o filme, a chafurdar-me naquilo], a ponto de praticamente ter-me visto na contingência de ter que lhe pedir desculpas e de a indemnizar, para confirmar a óbvia conclusão de que, para se ter algum sucesso — e (consequente?) queda retumbante ao fim de meia dúzia de anos — no showbiz, há que abraçar as drogas ou ser-se naturalmente um bom borracholas. Parece que o plateau não é para sóbrios.



26/07/2021

Bem Bom
Se acharem que é spoiler, é não lerem # 14

Estranha forma de vida, esta agora.

Fui ao cinema na véspera do início da quarentena, e fui também no primeiro dia após confinamentos vários. Calhou ir às mesmas salas — Cinema City — e, de ambas as vezes, estar só minha companheirinha e eu. Honestamente? Prefiro assim. Nada de cabeçudos à frente, irrequietos do coice nas minhas costas atrás, faladores, gente que não se lava, hiper-perfumados, roedores do milho estalado, namorados excitados e idosos ressonantes. (Acho que não me esqueci de ninguém.) Eu também como pipocas, está bem? Mas tenho o cuidado de morfar aquilo tudo (chamar "pequeno" ao pacote menor é meramente metafórico, não é?) antes de o filme começar (pub indesejada e trailers à martelada em barda!) ou durante as cenas mais ruidosas (entendam o que e como quiserem) do filme.

Dessas duas vezes que refiro, pudemos escolher se queríamos publicidade ou não (adivinhem), trailers ou não (foi sim. Eu queria comer o bidon de pipocas, apesar de estarmos só as duas), e ambas queríamos relaxar as quatro pernas nas costas das cadeiras defronte.

Desta vez, sala só não cheia derivados das contingências: fila sim, fila não, interditadas com fita fluorescente, não fosse a malta não a ver no escuro; nas filas sim, espaço de uma cadeira entre ocupadas e não ocupadas, a menos que se tratasse de pessoas do mesmo agregado/ grupo. Eu acho uma cadeira pouco, devia ser a fila toda para uma ou duas pessoas, no máximo. Não que sofra de receios covid, porque isso já era, mas porque, no fundo, sinto que agora é que a cena social está correcta: antes do vírus, andávamos cá todos a roçarmo-nos uns nos outros, e aos dois beijinhos uns aos outros, um exagero de contactos físicos que (espero que) acabou. Éramos apresentados a alguém que nunca mais íamos ver e logo dois beijos? Não admira que o vírus tenha singrado até sangrar.

Quanto ao filme propriamente dito, que é o que nos traz aqui hoje: Bem Bom. Mais nada. Pode não ser aquelas coisas em termos de luz, imagem, som — cinema português, é um estilo como outro qualquer —, mas consegue o que parece impossível, que é devolver-nos os e aos anos 80's — excelente reconstituição histórica — e, de uma vez por todas, desfazer o boato com a Laura Diogo. Já veio tarde, é certo, mas mais vale do que nunca. Coisa para ter detonado uma banda icónica, quatro carreiras e quase uma vida. 

Se eu não adorava as Doce — era muito miúda, queria ser assim, mas não bem assim quando crescesse —, pelo menos sabia (e sei) as letras das músicas quase todas. E lembro-me bem da prequela das Doce, que foram os Gemini, com duas delas (Fátima e Teresa) e dois dos produtores (Tozé Martinho e Mike Sergeant). Nessa altura, a pessoa humana era uma criança em idade escolar, mas cantava com alguma solenidade aquilo do prazer que uma criança nos deu. E não percebia, como ainda não percebo, a estrofe o acordar de tristeza ao ver as horas passar e o jantar frio na mesa. Alguém explica isto? Não é preciso, falecerei com a dúvida, mas muito obrigada na mesma. 

26/10/2019

A herdade

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 13)

Após insistências várias, algumas com cariz ameaçador, cá venho então falar do filme "A herdade", antes que me esqueça de tudo.
Pode parecer que não, mas gostei bastante, pelo menos das partes que vi, por estar acordada. Vá que pestanei um nico ali aos minutos 122 e 157. Ninguém manda aos realizadores portugueses fazerem filmes de duas horas e três quartos, quando a história até se contava em menos de metade e ficávamos todos felizes na mesma, designadamente pessoas como eu, que sofro daquele síndrome das pernas inquietas, razão pela qual, se estou parada num sítio muito tempo, sou acometida de um ataque de pernas, dá-me o ó-ó e depois só mesmo xonando-as é que me sossegam os membros inferiores. 
Por outro lado, ainda não percebi a cena dos grandes planos do pessoal de costas, é uma grande falta de educação para com o público, mas estamos na missa ou quê? Começo a pensar que os planos de costas estão para o cinema português como o nu frontal está para o cinema francês: é um estilo. Mas achei escusado e um crasso erro histórico a cena em que o Joaquim, capataz, encarregado num monte alentejano - o que nunca é dito, mas a paisagem não engana, embora tentem enganar-nos com a léria dos arrozais - aparece de mãos nos bolsos, de costas, claro, a menear a peida como uma flausina. Isto é impossível alguma vez ter acontecido no Alentejo de 1973. Assim como é impossível que o carro do dono do monte seja um Mercedes dos anos sessenta do século passado, mesmo que ele fosse um coleccionador, apreciador de clássicos: naqueles terrenos, ninguém se deslocava de clássico. Isto, é claro, se não considerarmos que a marca deu uma achega para esticar o filme até às quase três horas. 
Enfim, fora estes pequenos lapsos que só as atentinhas ao que não interessa como eu é que reparam, o filme tem uma história bem conseguida, cheia de verdades, lembranças e algumas subtilezas (a paternidade daquelas crianças, toda trocada), tem uma fotografia muito razoável, e interpretações francamente boas. Albano Jerónimo, que não tem culpa de ter um nome de merda, mas que se revela gigante (em sentido estricto, o homem tem quase dois metros). Interpreta um proprietário de bem com Deus e o diabo, mas de mal com a vida, de um blasé mais actual do que pertencente à época, mas que faz valer a pena o filme, especialmente na cena em que dança com a cunhada. 
Não sei se já disse que gostei, mas também não me apetece ler aquilo tudo lá para cima. Ide ver (o filme), se fazeis o favor.

12/08/2019

Algumas informações acerca da pessoa humana, que, embora possam ser inúteis, terão certamente algum interesse ao nível de stalking, esse desporto paraolímpico

Pois bem, ando arredada. Já toda a blogobola deu por ela, não negueis.
Ocupo uma boa parte do meu tempo numa actividade altamente gratificante, não tanto em termos financeiros - é que nasci para rica, mas parece que não vai acontecer -, mas de ficar feliz com o resultado. Que me sai das mãos, que me dá largas à imaginação, que me diferencia e destaca muito mais do que isto aqui. Ainda por cima, não tenho que me exibir, me fazer maior, me revelar culta e bela: sou eu e o meu trabalho. Quanto melhor o fizer, mais terei para fazer. Uma suave bola de neve, toda ela algodão doce. Meti-me no Instagram, numa de divulgação, e tem sido uma revelação antropológica: o Mundo está perdido. Já recebi todo o tipo de propostas, mas é que todo. As mais indecentes têm sido as das parcerias. Nova definição de "parceria", urgente, senhores da Porto Editora: situação em que alguém que trabalha é colocado por alguém que não trabalha, em que o primeiro fornece gratuitamente ao segundo os seus produtos/serviços, a troco de nada, ou de promessas de divulgação [seja lá o que isso for].
Entretanto, comprei uma máquina de costura nova, porque a minha Rabugenta deu o peido mestre. Agora sou a feliz possuidora de Belinda, a Escrava do Silêncio. Continuo, portanto, a atribuir nomes próprios às minhas coisas. Eu sei que se chama personificação, também andei à escola e estudei Português (atentamente, acrescente-se). Deve ter uma explicação qualquer, que não encontro nem quero saber qual é.
Tenho ido a concertos (Mark Knopfler - afinal a acústica do Altice Arena não é má, os técnicos de som de Eltoninho é que não prestam - e Barclay James Harvest) e também ao cinema (destaques para o novo "O Rei Leão" e "Adeus, Professor", apesar de este último ter sido um tudo-nada desilusão, porque eu ia para me emocionar e não aconteceu. Sou uma pedra. Tenho uma pedra no lugar do coração, melhor dizendo).
Agora corro e já não detesto correr. Faço cinco quilómetros uma vez por semana, sempre no mesmo dia, sempre à mesma hora, sempre no mesmo lugar (Estádio Universitário). Em querendo assistir à paródia, é passarem ali 24/24 durante 7, e é possível que, se virem passar uma obesa velha, seja eu. A verdade é que me custa cada vez menos correr, sinto-me muito mais toni, mas acho que não estou. O importante é o sentir, como diria Francineide Carandiru.
Também tenho dançado bastante. Pela primeira vez em vários meses, consegui acertar todas as coreografias de uma aula de Aeróbica, e isso desacertou-me o relógio mental para a grande dúvida que ainda persiste: foi uma aula mais simples ou passei o patamar dos passos pedidos?
Quanto a férias, são uma realidade que não revelo se ainda para lá vou, se já cá estou, se já lá fui. Desculpem, tenho que ter o meu espaço reservado uma vez na vida, e acontece que esta posta já está de bom tamanho.

29/04/2019

Dumbo

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 12)

(Assim se afere a quantidade de assuntos que sinto ter para tratar aqui no buraco ultimamente. Venho dar notícia - nem sequer spoilar - de que vi um filme infantil. Há mais de quatro semanas, ou por aí. Sei que ainda não tinha desmanchado o rabo.)

É que não é spoiler. Não venho cá fazer a sinopse, sob pena de afectar vossas excelsas sinapses. (Gostei de encafuar na mesma frase as palavras sinopse e sinapses, apesar de algo forçado.) (Também gostei de ter conseguido usar a palavra excelsas.) 
Venho cá mesmo só dar esta opinião muito pessoal: o mais extraordinário no Dumbo, não é o facto de ser um elefante que voa, e sim o de ter olhos azuis. Nada que não se tivesse visto já no boneco da Disney, mas que parece absolutamente fantástico quando transposto para um elefante "a sério". Lá voar, ainda vá que não vá, agora, olhos azuis num elefante!?
De resto, o filme é muito bonito. Podeis ir ver, à confiança. E levar crianças, se vos aprouver.

23/02/2019

Assim nasce uma estrela

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 11)

É que não é. Ainda não vi o filme. Na verdade, escrevo este post:
1. Porque tenho chouriços para encher até ao dia 5 de Abril, e terão que somar 3000;
2. Porque me apetece.
Mas também, e fundamentalmente, porque, a espaços e amiúde, esta música me povoa as sinapses.
Desconheço completamente a história (e, já agora, não me spoilem a mim), mas também, estou-me nas tintas, porque pretendo ver o filme, nem que vá sozinha (eu e as minhas pipocas insonoras).


(Não percebo que esta Gaga tenha recebido minino Bradley de cuecas.)
(Também não percebo como é que é feita a distribuição lá na criação. A este mocinho não bastava já ser giro que dói, para ainda cantar desta maneira? Não havia necessidade. Por exemplo, minino Ryan Gosling é tão bem apessoado e dança mal que é um mimo. E isso não o faz ficar mais feio.)
(Não percebo o que é que ele vê na Irina, já agora.)


LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam20

30/12/2018

Girl

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 10)

Filme belga, sublime e maravilhoso, visto numa sala que faz parte de um espaço cultural condenado à morte para aí desde o meu nascimento (o velho Teatro Monumental, agora salas de cinema agonizantes, e grande amor de Laura Alves), com uma interpretação ímpar de Victor Polster e também de Arieh Worthalter, que põe o dedo em várias das nossas feridas e preconceitos, que são uma e a mesma coisa, por vezes.
Oscar para melhor filme estrangeiro, já! E, de caminho, melhor actor estrangeiro. Já agora, pena que não exista a categoria de melhor actor secundário estrangeiro. É criarem-na, especialmente para este. 

11/11/2018

Separadas à nascença? # 2


Anna Chlumsky, actriz de O meu primeiro beijo e Sara Sampaio, modelo

(Estava ontem a ver o filme, pela segunda vez na minha vida - e diz que não há duas sem três, portanto, lá para os meus 95 confirmamos este ditado -, e eis senão quando, aquando do intervalo publicitário, me surge assim, vinda do nada, dona Sampaio, provocando-me, por um lado, um pequeno susto, e, por outro, esta epifania, e também confirmando que, de facto, o criador tem momentos iguais aos meus, de uma falta de inspiração, criatividade e originalidade avassaladoras.) 

04/03/2018

Lady Bird

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 8)

Não sei o que me deu no ginete este ano, que vi montanhas sem vales de filmes nomeados para receberem a estatueta com a figura do Sr. Oscar. 
Que dinheiro mais mal empregue. Estou a brincar, não paguei nada para o ver, pois que ainda não estreou em Portugal e, a horas da distribuição dos prémios, já não estreia antes deles. Saquei-o da nettinha, portanto, a única coisa que posso pagar por tê-lo visto é uma pena de prisão por pirataria informática, que chique!
O filme está nomeado, de entre outros a que ninguém liga (melhor director, hahaha), para os prémios de melhor actriz principal e melhor secundária. Vai spoil: o papel principal é o de uma miúda chata, em plena crise da adolescência, e o secundário é o de uma mãe chata de uma adolescente chata, um papelote tão simples que até eu o conseguiria interpretar. E também está nomeado para melhor filme. Hahaha.

[Tragam-me mas é as fatiotas e as perucas da passadeira vermelha, que isso é que merece Oscars em barda.] 

25/02/2018

I, Tonya

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 7)

Ide ver.
Just do it*.
(Pessoalmente, não tenho qualquer memória dos factos relatados no filme. You know, I was too much occupied having babies.)
Sala cheia, minha criança era a mais nova (coincidentemente, da mesma idade que a protagonista), depois uma mulher à nossa frente, logo a seguir eu própria. Dá para imaginar a brancura do panorama até à tela, já que ficámos na última fila? Alguém saberá explicar-me o fenómeno?
(Ainda assim, e por que não?) ide. Já disse?

*NMPPI, nem é pub encapotada

21/02/2018

A temática da pipoca

ou

De como ser civilizadamente incivilizado

Em relação à pipoca, mesmo ninguém tendo perguntado qual é a minha sensibilidade, acordei hoje com uma imperiosa e irreprimível ânsia de explicá-la, para que não restem dúvidas. 
A pessoa é, como todo o Humano, condicionável, embora não chegue aos pés às patitas do canito de Pavlov. Derivados que vai ao cinema, ainda está metida na bichona para comprar bilhetes, e já as glândulas lhe gritam "Ó pchhht, ó! Não te esqueças da pipocada!". Tanto que, portanto, quando alcança a caixa de pagamento, já nem se lembra de qual o filme que pretende visionar, nem tão pouco o horário dele, mas sabe que quer um pacotinho, um pacote ou um pacotão das doces ou das salgadas.
(Não existe frase nenhuma na língua portuguesa que fique chique com a palavra "pacote" à mistura, daí que ainda meti ali à pressão o diminutivo e o aumentativo, a ver se disfarçava, mas nem sei se não piorei. Siga.)

O verdadeiro e real problema da coexistência pipocas/ sala de cinema começa desde logo: o próprio pacote (mau) está preparado para fazer de nós equilibristas, cujo desafio é flutuar sobre o soalho, entrar na estreita porta, subir a escadaria do anfiteatro, na penumbra (ou já às escuras, para os mais destemidos), acertar com uma fila de cadeiras cuja letra está (temporariamente?) invisível, passar por dois ou três cidadãos que já se encontravam sentados sem tropeçar em nenhum deles, e sentar-se no lugar certo, que tem o número — onde? onde? — nas costas das cadeiras da fila em frente (!), tudo isto sem deixar cair uma única pipoca. Para os mais arrojados, o nível acima é passar toda esta agrura sem-comer-nenhuma-pipoca-pelo-caminho. Isto, sob pena de, ao deixar cair uma delas, sermos sujeitos ao olhar da total rejeição do povo em geral. E nada de tentar apanhar essa que caiu, pois potenciareis a cascata de metade do pacote (errr) em direcção ao solo, que é o que acontece desde que aquele senhor descobriu que os corpos têm atracção para lá.

Caso estejamos num cinema NOS, e a seguir àquele spot que nos ordena que deixemos a sala limpa — numa altura em que o nosso calçado já contactou com uma cama de milho estalado, profundamente soldado às nossas solas, e que fará as delícias dos insectos quando dali sairmos —, prossegue então a saga da pessoa que se quer civilizada, porém gulosa (e, como já vimos, condicionada), que é a de morfar uma embalagem (agora fui linda) de pipocas inteira sem um único com o mínimo ruído possível. Então, truques: 
1. Esperar pelos momentos em que o som está mais elevado, designadamente o do tal anúncio da NOS, emitido, conforme sabeis, em níveis decibélicos para lá de bélicos. Esse é o momento perfeito para, exactamente, meter pazadas de pipocas boca adentro, todas em simultâneo, prevenindo, assim, todos os momentos posteriores, em que é menos provável que consigamos fazê-lo (assumindo desde já que não estou sozinha neste flagelo);
2. Aproveitar os momentos musicais, de estrondos, de exterior (motas, carros, aviões, comboios, vale tudo, mesmo até tirar olhos) e gritos, para roer ruidosamente mais umas quantas. Atenção aos momentos de choradeira na tela, que ficam muito mal se acompanhados do rrr-rrr-rrr típico do processo ruminante. Já se a choradeira se der na plateia, é fartar, vilanagem, até mesmo porque os homens fazem sempre o favor de se assoarem (ruidozíssimamente) nessas alturas;
3. Tirar proveito dos breves instantes em que o povo tosse, o povo se engasga, o povo gargalha, o povo faz ruídos indistintos. Tudo se aproveita para mais uma pipoquinha na goela;
4. Chupar as pipocas como se fossem rebuçadinhos duros, duros. Não dá jeito? É verdade, mas tem a vantagem de o processo de ingestão de cada uma delas se tornar tão moroso que: a) É uma poupança; b) É uma dieta;
5. Assumir o intervalo como o momento áureo para tirar a barriga de misérias.
Se todos os anteriores falharem, e a fome enegrecer a níveis catastróficos, é sermos criativos, e provocarmos, nós próprios, o momento musical, o estrondo, o grito, o ataque de tosse, a sufocação, a choradeira, o assoar estrepitoso. Nos entrementes, é ruminar mais umas quantas das ditas.

Julgo ser meu dever ainda chamar aqui a atenção para o flagelo que é o som do esgatanhar das unhas no fundo do pacote (ai), que chega a ser mais enfartante do miocárdio do que o mastigar do milhinho em pufes. Digo isto porque ainda me ando a tratar de uma vez em que coincidi ao lado de uma mulher que passou exactamente toda a sessão — eu repito, TODA a sessão — a raspar nos fundilhos lá do pacote (hohoho) dela, coisa para fazer inveja a qualquer gato enfiado na sua própria caixa de areia. Desconheço se a escavação lhe trouxe a descoberta de algum tesouro, mas a mim deixou-me a comprimidos para os meus nervos até hoje. O que fazer, na circunstância de o nosso pacote (tão doce) chegar ao fim e ainda lá termos umas quantas pipocas? Olhem, esperem por chegar a casa, a ver se poupam o resto dos mortais a essa condição, evitando, assim, que faleçam. Geralmente, o que fica para o fim são bolas de milho não estalado, que vos partem os dentes, e é muito bem feita se isso acontecer, caso persistam em esgaravatar nas profundezas da embalagem (☺).

Mais um pormenor, de somais importância: os pacotes (é a última, juro) de pipocas têm uma espécie de fundo falso, que se desmancha se tentardes fazer do paralelepípedo um cilindro. (Sei isto, porque já tentei, e correu extremamente mal.) Não dá para brincar às formas geométricas com aquilo enquanto cheio, sob pena de despejardes todo o conteúdo rumo aos vossos próprios pés. Solução? Andar sempre com uma pá e uma vassoura na mala. Eu, pessoalmente, não ando, mas o pincel do blush também dá.
Estou farta de escrever, desculpem lá a extensão desta prelecção.

19/02/2018

15:17 Destino Paris

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 6)

Conclusões:
1. Não há rapazes maus. É transversal ao "mundo civilizado" a desadequação das escolas em face das diferenciações do humano;
2. Mães solteiras não são menos capazes do que mães casadas. Só envelhecem mais cedo;
3. A carreira militar ainda faz dos homens, homens;
4. O mais giro de um trio, quando são todos miúdos, não é necessariamente o mais giro dos três em adultos;
5. Roma é belíssima;
6. Deve ser uma granda moca viajar no TGV; 
7. Há cenas nos filmes que, de tão inúteis que são, caso fossem retiradas, não só os encurtavam um bom quarto de hora/ meia-hora — o aparecimento das duas personagens femininas (Lea e Lisa) tem exactamente zero contribuição para a narrativa, e, à parte equilibrar (?) um tudo-nada os dois géneros no elenco, e, eventualmente, compor o ramalhete com duas mulheres bonitas, não serve para mais nada. (Dá que pensar que Mr. Eastwood terá feito alguma(s) cedência(s) para que aquelas duas entradas ocorressem) —, como também ganhavam em ritmo, lógica, anti-dispersão do espectador (então se for de um tipo como o meu, que até uma legenda mal colocada provoca o bloqueio), interesse, história com pés e cabeça (e não cheia de longos braços), etecetera;
8. Há terroristas com um azar dos genitais (felizmente);
9. Viajar, hoje em dia, é perigoso — Isto, no sentido estrito, de efectuar uma viagem, aquela deslocação do ponto A ao ponto B. Nunca sabemos quando nos tocará. Não devemos, ainda assim, deixar de viajar, tal como não podemos fechar-nos em casa para evitar sermos atropelados só porque lá não passam carros;
10. Quero ir a Roma, ainda este ano. È bellissima, já disse?


15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

12/02/2018

The Post

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 5)

Check.

Tom Hanks cada vez melhor. I mean, em todos os aspectos. Fica-lhe bem a pele bronzeada (e quando está com a sua cor natural), fica-lhe bem o grisalho, fica-lhe bem o corte à anos 70, fica-lhe bem la panza (deve ter metido uma almofada, apesar dos evidentes quilos que "pôs" para este papel), fica-lhe bem a camisa arregaçada, ficam-lhe bem as rugas.
Meryl Streep confirma que continua a ser a melhor actriz do Mundo. Já vi filmes com ela (lembro-me de "Um grito na escuridão") que eram uma pastilha enfiada num empadão de batata mole, e que, só por ela, era possível visionar sem ter um ataque de bruxismo.
As notícias são, de facto, o primeiro rascunho da História, como diz o (sempre presente) marido morto da protagonista: the first rough draft of history. A História, não a história, já que history e story não são uma e a mesma coisa. 

Conclusão: gostei.

05/02/2018

Call me by your name

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 4)

Amei. Muito, muito. 
É daqueles filmes que cada um adora pelos seus motivos: uns pela história, outros pela beleza da imagem, outros pela música (uma banda sonora de gritos), outros por tudo junto, se calhar outros nem sabem bem porquê. Eu, simplesmente, entrei no cenário, naquele Verão de 1983, naquela casa incrível, naquele aborrecimento versus euforia que é ser-se adolescente no Verão, naquela luz que existe para além das nossas questões e das nossas dúvidas. Bom, eu vivia claramente nas calmas num sítio daqueles. Não só a casa, mas toda a zona envolvente, e com aquele pessoal que ora fala Inglês americano, ora fala Francês, ora fala Italiano (que são para aí, para além do Português e do Portuñol, as únicas três línguas que eu entendo e falo qualquer coisa que se ouça). E os dois protagonistas, tão giros! Pronto, não queria nada com eles (vamos pôr assim as coisas), mas uma pessoa gosta de lavar as vistas sem ser com essas micelares que as bloggers dizem para as outras pessoas usarem.
Muito, muito boa, a recriação da época: as pulseiras da amizade, os relógios electrónicos Casio, as calças de ganga que se chamam actualmente mom fit — pudera! —, os ténis One Star, os cabelos escadeados e encaracolados, o pessoal a fumar constantemente, tudo, rigorosamente tudo, a bater certo, ao contrário do que é costume neste tipo de evocações de determinados períodos, em que se faz uma grande confusão entre os anos 80 e 90. 
Itália é bellissima, tenho mesmo que lá ir.
Não digo mais nada, senão ainda sou acusada. 


Não sabia qual das músicas é que havia de escolher, vai esta. É tudo bom.

23/01/2018

Três cartazes à beira da estrada

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 3)

Por acaso, não venho para aqui contar o filme. Felizmente, sou daquelas pessoas que não sabem contar filmes. Assim, livro quem comigo priva de altas secas (ou há dúvidas quanto ao aborrecimento de ferro que são os relatos de filmes/férias/nascimentos/doenças?) (Hah, já cá faltava a irreverente a abanar isto tudo logo pelas 9 e picos da madrugada.) (Toca a descolar dos leitos, mandriagem!)

Essencialmente, venho falar do papel da Mildred Hayes, ou da exímia representação da actriz Frances McDormand. Muito pouco conhecida do pequeno público que é o nosso, imagino que o mesmo se passa nos Estados Unidos, pois, por pesquisa pouco exaustiva, basicamente se encontra este enorme talento no filme 'Fargo', dos idos 1996. 
Esta gigantíssima mulher tem sessenta anos, não fez uma única plástica (ou, se fez, foi "corrigida", maquilhada, para este filme), aguenta duas horas de exposição solar sem maquilhagem (ou, lá está, tão bem maquilhada que parece não estar), e esse "pormenor" é o que transmite em pleno o drama, a raiva, a revolta, a luta, e depois o quase apaziguamento, a conformação, a aceitação das coisas como elas são. 
Provavelmente, a partir de agora vê-la-emos mais vezes, nos próximos dois, quatro anos. Tal como aconteceu com Octavia Spencer, a partir de "As serviçais". Vimo-la depois em "Elementos secretos", podemos vê-la agora numa m. de ficção científica, "A forma da água", que, a avaliar pelo trailer, só se aproveita mesmo a presença dela (e também a música que se ouve no início do trailer, que, ou muito me engano, ou é Glenn Miller). Embora muito mais nova do que Frances McDormand, terá, provavelmente, um tipo físico — chamemos-lhe assim — que não se adapta a muitos papeis, e isso, como sabemos, é demolidor em Hollywood. 


Isto não é um conselho, é uma ordem: ide ver. 
(Ah, se tendes filhas, preparai o estômago + coração.) (Isto foi spoiler?)

06/01/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 11

Hoje venho insurgir-me.
Cada vez que vou a um cinema NOS, para além de ser brindada com três ou quatro trailers — pequena tortura que chega a ser boa, pois fico com mais alguns filmes na lista "obrigatório" ou então na lista "não esquecer de não ver" —, mas aos quais não consigo fugir, uma vez que tenho vergonha (respeito ao próximo) e medo (posso ter a certeza que o chão que está à minha frente é plano, que ela é anulada por aquela outra certeza de que no próximo passo vou tropeçar/ meter o pé em falso num degrau/ cair num fosso estreito e fundo até ao centro da Terra, qual Alice, "Adeus, Dinah!") de entrar às escuras, sou igualmente agraciada com esta coisa:


Eu tenho medo. 
Primeiros: não percebo por que é que elevam o som a níveis de decibéis capazes de estoirar com os miolos da pobre assistência. 
Segundos: não percebo por que é que me tratam por tu no anúncio, se não andámos juntos na escola, não temos a mesma idade, nem somos todos bloggers. Enfim, se não nos conhecemos de lado nenhum.
Terceiros, quartos, quintos e tudo o resto: porquê o rugir de leão do dinossauro, que come e morde tudo? E as ordens, imperativas, aos gritos, de comportamentos elementares? "Desliga o telemóvel e mantém o silêncio!"; "É proibido filmar e fotografar!"; "Mantém a sala limpa!"; "Respeita as normas dos cinemas NOS!" [ou não antes as normas básicas de civismo?]; "Podes comprar o teu bilhete nos kiosks (?), na app.m.ticket (?), em cinemas.nos.pt (...), ou na tua box (?)".
[Por acaso, esta versão que encontrei no youtube ainda acrescenta "I'll be back!". Vá que nunca me apercebi disto ao vivo, lá na sala. Pois, porque ainda não estava bem clara a ameaça exterminatória].
Depois sai um helicóptero (militar?) a voar, o homem grita-me "Bom filme!", e eu fico capaz de começar a chorar alto, a chamar pela minha mãe, "Mamã, tenho medo, quero ir para casa!", mas incapaz de prestar atenção aos primeiros cinco minutos do filme, tal é a aceleração que me leva o músculo. A sério.

29/12/2017

(O meu problema, no fundo, é que sabia que, um dia, ia esquecer-me de pôr título num post)

(hoje foi o dia)

O meu problema é ver a realidade não como ela é, mas como ela deveria ser. Por isso, a imperfeição sobressai. Como um nariz no meio de uma cara.

Hercule Poirot, in Um crime no Expresso do Oriente.
(As palavras não foram rigorosamente estas, mas sinto que se trata de um mal do qual eu também sofro amiúde.)


Check. Vale muito o bilhete.

04/12/2017

Coco

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 2)

É porem um filme da Disney (Pixar, neste caso) em cartaz, e lá me têm. Tenho aprendido mais com filmes supostamente infantis do que com aqueles que são destinados a adultos (não esses, canudo!). Nunca mais vou crescer, e nem sei se quero. (Lá está outra dúvida com que me debato estóica e diariamente.)
Captei a mensagem principal — que a verdadeira morte se dá quando nos esquecemos dos nossos mortos, ou quando formos esquecidos pelos nossos vivos —, mas não a secundária (se é que ela existe, mas eu, lá está, ando sempre à procura da segunda e da terceira leitura de todas as coisas). Ia na expectativa de encontrar um filme algo metafísico, que me explicasse o que existe para lá do fim, apesar de não ter grandes crenças pessoais acerca do assunto, e alguma quase certeza de que a morte é isso mesmo: pois, se é para as plantas e para os animais, quem somos nós (?) — outra dúvida das boas — para considerarmos que connosco será diferente?
Afinal, não. Parece que existe uma morte após a morte, para além de nos encontrarmos todos — em esqueleto, com peruca e roupa, pois que há-de ser importante aquecer os ossos (sem corrente sanguínea, atente-se) e esconder as partes pudendas, que, em rigor, já não existem — num lugar entre o sinistro e o festivaleiro, com a idade com que fenecemos, ou seja, onde é possível encontrarem-se um pai jovem e uma filha muito velha. Se já a ideia de ir para o Céu me aterroriza levemente, esta de ir parar a um lugar onde todos somos só ossos, sem chicha nem peles [o mal que hão-de ficar os meus cabelos em cima deste esqueleto lindíssimo] [eh, pá, 'pera lá, pára tudo! Nunca mais terei que me preocupar com o que como? Hummm...], mas também onde desaparecerei (dolorosamente, diga-se) ao fim de algum tempo, assim que cá na Terrinha se esqueçam de mim — o que poderá demorar o tempo de um fósforo —, também não sei se me agrada. O melhor é continuar a ser como sempre fui, pode ser que a sorte me faça a vontade, e o Hades também há-des.

(De qualquer forma, vale muito a pena. Lá quanto a tratar-se de um filme de Natal, maiores dúvidas se me agigantam, mas isso também posso ser eu, cartesiana duvidosa.)