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11/10/2021

Os animais falam connosco

Molly, registada Pequena Molly num momento de clara incapacidade de antevisão — pois veio a tornar-se um animal enorme —, iniciou um ritual mictório nos lavatórios das casas de banho, dando uso à caixa de areia apenas para a defecação, valha-nos isso. Assim, disse-me ela: “Olha para mim, estou doente.” Pela frequência e quantidades mínimas, rapidamente percebi que se tratava de algo parecido com (ou no mau caminho para) uma infecção urinária. Não precisa de me dizer que é inútil tentar metê-la na gateira para a levar ao vet, a menos que não me importe de ser mordida e arranhada a ponto de ficar sem as veias dos braços e, vá, um olho, com a garantia porém de que, ainda assim, não vou conseguir enfiá-la lá dentro. Compreendo, porque eu própria não o permitiria: aquilo é claustrofóbico e aterrorizador, além do que, o que se segue é uma (curta, é certo) viagem de carro, que ela detesta, e um ambiente estranho com gente igualmente estranha a mexer-lhe no corpo e a fazer-lhe “maldades” — tirar sangue, recolher urina, dar-lhe injecções, quando não — cúmulo dos cúmulos — cortar-lhe as unhas. Da última vez que lá esteve, após épico enclausuramento na caixa de transporte, em que saíram pessoas magoadas (ensanguentadas!) daquela relação, teve que ser metida na jaula das feras (don’t ask). Isto, apenas para ser vacinada.

Posto isto, dirigi-me à clínica, sem gata, expus o problema e trouxe para o lar um anti-inflamatório para senhora dona Molly tomar durante cinco dias, e ainda a marcação de uma consulta para análises e exames para amanhã, terça-feira, às 11:00 horas da madrugada. Já lá vamos.

Diz-me a gata, através de gesto e modo, que não toma medicamento algum, seja em cápsulas (mesmo que abertas e misturadas, nem que seja com filet mignon), em comprimidos desfeitos, ou em líquido. É óbvio que me grita, “Estás louca, queres envenenar-me?”. E então, por pesquisas nos meus já escassos e desgastados neurónios, cheguei à conclusão de que a única “guloseima” à qual ela não resiste de todo, é azeite. Portanto, agora toma todo e qualquer medicamento, desde que desfeito numas gotinhas desse ouro alimentar. Um dos amores da minha vida é, em suma, azeiteira.

A veterinária deu-me uma cápsula de calmante para dar à gata uma hora e meia antes de a levar à consulta. Resta-me apenas a dúvida se efectivamente lha dou, ou se a tomo eu. Melhor, talvez, será abri-la, misturá-la em azeite, e vai metade para cada uma. A minha parte também pode levar vinagre e orégãos, so help me God.


09/08/2021

Um membro da família

A primeira vez que a vi, apercebi-me de que algo se passava — ou não — com as patas de trás, misturadas numa confusão inerte com a cauda. Depois confirmei, quando a vi deslocar-se com a força das patas dianteiras, arrastando as traseiras e a cauda como se de um trio de serpentes mortas se tratasse. 

De resto, tudo normal: rosnando quando se sente ameaçada — vão lá entender-se os critérios dos gatos —, miando quando a intenção é comunicar com humanos. 

Conheci-lhe a dona uma destas manhãs, que se acercou, atenta à minha atenção, e me contou a história do pouco que sabe que aconteceu, num Português fluente cheio de sotaque do Leste da nossa Europa: foi à terra dela para ser sujeita a uma cirurgia, a gata desapareceu durante uns dias e o marido foi encontrá-la quase morta, provavelmente atropelada. O veterinário queria eutanasiar, ela não permitiu. Revelou-me, olhos e boca de cantos a resvalarem para mais uma de outras lágrimas que já terá deixado cair, a opção, que percebi muito criticada: "Fica sendo o meu bebezinho de colo". E, afinal, nem tem sido bem assim, o animal desloca-se à mesma velocidade a que o faria se tivesse as quatro patas vivas. A convivência com os outros dois gatos da casa — uma criança vivaça e viçosa e um macho sobranceiro e soberano — é pacífica, não tem consciência da sua diferença, eventualmente não guarda memória do acidente, anulou a limitação por instinto e necessidade. Com toda a certeza, não vive de um passado que já não volta, nem se angustia com um futuro menos promissor. (A racionalidade pode ser o maior entrave para a felicidade.) É amada, está cuidada, o pelo brilha de saúde e até de alegria. Disse-lhe, "Ela é tão bonita", e agradeceu como se lhe tivesse elogiado uma filha. "É um membro da família". (Se é, só quem nunca amou um animal é que não entende o que disse esta mulher.)

É verdade que, quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de animais. Não fui eu que inventei esta frase. Desta vez, também é verdade que, quanto mais conheço os animais, mais gosto das pessoas.




18/09/2020

Milu, a escrava do silêncio

Nunca tinha tido - ou sequer ouvido falar de - uma gata que não mia. Em quatro meses de vida, jamais o fez, donde se conclui que é muda. Comunicada esta espécie de preocupação - que, na verdade, constitui uma doce tranquilidade, uma casa onde o animal de estimação não emite qualquer som - à veterinária, recebi de volta um encolher de ombros, e a resposta "Normalmente, são as mães que ensinam os gatinhos a miar". Ora, esta mãe não ensinou a sua filha a miar, a abandónica. O máximo de sons que lhe ouvimos até hoje foi "iiiii" e "aaaa", muito baixinho. Não imagino como serão os cios desta m(i)udinha.

Por outro lado, aquela mãe desnaturada também não deve ter amamentado como deve ser a sua cria, pois, para além de nos ter chegado muito magrinha, come tudo o que vê à frente (ração da Molly incluída, que é para gato adulto esterilizado): todo e qualquer alimento humano lhe serve de refeição, desde sopa a frango, passando por carne picada, legumes cozidos (beterraba incluída!), massas, todo e qualquer peixe - ou não fosse um gato (?) -, fruta, queijo, fiambre, e o top-mais-que-tudo de todos, o meu iogurte, que é só a coisa mais amarga de sempre (embora eu seja considerada, cá no lar, "a pessoa sem paladar e que não distingue as cores", portanto, eu posso). Quanto a Milu, tem que ser fechada numa divisão da casa (que não seja a cozinha) à hora das nossas refeições, pois, caso contrário, salta para a mesa e agride-nos os pratos, recusando a própria comida - que é própria, passe o pleonasmo -, com aquele ar de Maria de Lurdes, "Estes querem que eu coma comida de gato porquê? Comam-na eles!". Vá que não nos agride a nós (se calhar, por enquanto). 

Tem com a Molly a mais surpreendente e quase pacífica relação que algum dia pudéssemos imaginar que teria. Meteu na cabeça que a cauda da outra é um brinquedo/ presa/ companhia, algo que urge conquistar, pelo que dedica horas a segui-la, a espreitar, a escolher o melhor ângulo, a saltar na direcção do seu objectivo, felizmente para as duas até hoje por atingir. Gradualmente, a Molly tem vindo a desistir de lhe rosnar e nunca a perseguiu para a agredir. O máximo que fez foi dar-lhe uma sacudidela com uma pata, mas isso, convenhamos, só lhe faz bem, visto que, efectivamente, a mãe não lhe deu a educação mais básica, como vimos acima.


Ainda acabam ´migas gatas. (Hah, piada alentejana!)


De resto, Miluzinha foi a melhor coisa que nos aconteceu em 2020, logo a seguir ao voo que trouxe uma das minhas crianças de um Erasmus que não chegou a ser - mas que ainda durou quatro meses -, numa altura em que não havia aviões no ar, de todo. (Houve aquele, apanhado a muitos quilómetros do ponto de partida, após escalas de três comboios. Aleluia, irmãos!)

Não tenho muito mais para dizer, a não ser que apareci na televisão outro dia, mas é assunto que guardo para quando for seguro falar nele. Posso apenas adiantar que, como é óbvio, foi um momento de grande intelectualidade e beleza. 

Para qualquer dia, uma lição de Português bonito, que há muito não forneço aqui. Mas andam-se-me a trocar as órbitas com coisas que vejo publicadas un peut partout, designadamente ao nível da pontuação dentro e fora dos parêntesis e das aspas, numa arbitrariedade a raiar o chavascal, que já não se aguenta sem ter uma apoplexia ou, em alternativa mais saudável, partir a loiça toda. 

Pronto, adeus. E miau.


09/07/2020

Milu

Milu chegou às nossas vidas há quatro dias, e já no-las revolucionou de alto a baixo e de ponta a ponta. Na verdade, chegou no dia em que nasceu, pois da casa onde se deu o grande evento que foi a pequena coisa ver a luz, recebemos notícias e reportagem fotográfica com a frequência provável com que se processam todas as adopções felizes. Assim, veio da Figueira da Foz, sob um calor abrasador, e recebi-a com os meus enormes braços, que creio ainda terem crescido em comprimento naquele momento, tamanha é a pequenez da figurinha. Tem basicamente o comprimento de uma embalagem de champô. O nome já lhe foi posto algumas horas depois de se ter tornado residente cá do lar, mas até calhou bem começar por M, como são os de todas as fêmeas desta barraca, felídeas incluídas. (Lembro que, e por ordem cronológica, Mia - minha saudade querida -, Mel - ainda hoje dói de tanto que falta -, Molly, meu terror, minha boneca.) Ainda alvitrei Chica (Maria Francisca nas horas de mau comportamento), Benta (porque tem uma risca ao meio à Paulo Bento), Belém (por ter um olho à Belenenses), mas isto parece que é uma democracia musculada em que eu basicamente não mando nada, e Milu venceu, o que dá um jeito atroz para quando tiver que lhe ralhar, faço um nico de catarse e tudo, vai de Maria de Lurdes, que era o nome da minha professora primária, da qual, ao contrário de todos os (ex) meninos que conheço, que adoraram de paixão a sua primeira professora, o que também acontecia com os outros meninos da turma, eu sinceramente desgostava da senhora, que Deus tenha lá em descanso por muitos anos e bons, sem mim e sem os meus. Mas olhem, eu devia ser torta, ainda passei o primeiro período quase todo com cinco anos, a megera era uma anciã com voz tabaqueira e sinais pretos na cara, deve ter-me dado o medo (por na época ainda acreditar em bruxas, sei lá), ainda hoje me arrepio de me lembrar, mesmo agora, ao escrever estas linhas, toda eu sou fremências e tremeliques, o que é certo é que quando pulei para o liceu ela nunca mais me viu nem os dentes nem sequer a cor dos olhos nem nada. Fui, Marilu. (Ela também não gostava de mim, demasiado pequena, demasiado tímida, demasiado etérea lá para os vagares das dinâmicas do movimento da Escola Moderna.)
Mas pronto, venho hoje aqui apresentar Dona Milu, Maria de Lurdes nas horas de tropelia. 


24/06/2020

As minhas [quase invisíveis] pegadas

Parece que, afinal, Street é uma fêmea. Já desconfiávamos, devido ao tamanho do corpito, à delicadeza de gesto e modo, ao susto por qualquer movimento por perto quando vinha saciar a fome na taça diária que lhe deixamos, faz agora um ano. Provavelmente, Juliana será um macho, apesar de ser também um animal pequeno: muito mais atrevida, muito menos dependente da ração diária, umas vezes aparece, outras, quase todas, não. A novidade é agora isso mesmo: Street faz-se acompanhar por um gatinho aí com oito semanas de vida. Comem da mesma malga, serão com certeza parentes. Não me apercebi de a ter visto prenhe, eu que a vejo todas as noites, para confirmar que se alimenta. Não falhou um só dia a taça, desconheço se pariu algures e veio, mesmo assim, alimentar-se no pós-parto, para poder amamentar a sua cria com alguma qualidade. E também não é muito vulgar uma gata dar à luz apenas um gatinho. Prefiro pensar que o adoptou, ou que o resto da ninhada encontrou outro poiso, ou então que ainda é demasiado frágil para se aventurar a percorrer as ruas com a mãe, à noite, até onde sabem que encontram alimento. É uma cria toda preta, apetece-me chamar-lhe Night, para manter uma certa coesão anglo-saxónica nos nomes familiares, e também alguma assexualidade facilmente adaptável a ambos os géneros.
- Eu bem vos avisei [que vocês iam acabar a alimentar uma família de gatos]. - Diz-nos ele, com aqueles olhos cheios de verdade e amor, depois de ter visto o gatinho pela primeira vez. 
Tenho que pensar numa solução para o tipo de ração que lhes passo a deixar: a mãe não pode comer comida de bebé, a cria não pode comer comida de adulto. De resto, temos igualmente um pombo a alimentar-se da taça, todos os dias o mesmo, que baptizámos de Anastácio. Faz a sua vida de pombo durante todo o dia, mas espera com manifesta impaciência pela refeição quando a tarde se aproxima do fim (provavelmente, as minhocas estão em dieta), e, por isso, é sempre o primeiro a inaugurar a taça. É estranho pensar que um pombo come comida de gato, que, por sua vez, se alimenta de aves, atum, salmão, frango, e todos os eteceteras escritos na embalagem. Depois de debicar uns quantos croquetes de ração felina, volta a ser pombo até ao dia seguinte.
Entretanto, Dona Molly vigia todas estas démarches, derramada no parapeito da janela, curiosa e sobranceira, exigindo, no final, ração nova da sua, ainda que tenha a taça cheia. Ou há democracia ou... E ela prefere a segunda hipótese.
Ontem tinha um besouro na casa-de-banho, preso por encandeio numa das lâmpadas do tecto. Fomos buscar um banco para lá chegar, um copo e um papel, recolhemos o bicho para dentro do copo, o papel a fazer de tampa até à janela, onde lhe devolvemos a liberdade. 
Talvez a incapacidade crescente para tirar uma vida, acompanhada da necessidade de criar mais vida correspondam à justa medida em que a minha própria estimativa perde dimensão. Seja qual for a explicação para o fazer, a verdade é que me dá um gozo imenso pensar que contribuí para que um curso natural não tenha sido interrompido. 
Como quando vou correr, que tenho o máximo cuidado para não pisar as formigas que atravessam, indiferentes, inocentes, inconscientes, a pista.


18/03/2020

Street

No Verão passado apareceram na minha rua dois pequenos gatos, talvez com quatro meses de vida. Nessa altura, ainda tinha a minha Mia viva, ou seja, tinha duas gatas em casa, pelo que não me passou nem de longe pela cabeça adoptar mais um, quanto mais, mais dois. De qualquer modo, achámos - porque nem sequer foi iniciativa minha - por bem deixar um pouco de alimento e água aos gatinhos, que, como todos os animais de rua, pareciam precisar. Os dias foram passando, depois as semanas, os meses, e nós sempre a deixar um bocadinho de ração, latinhas, pescada de sobras nossas (o que eles se pelam por peixe cozinhado!). Um dos gatos é preto com malhas brancas, desconheço se é um macho, mas recebeu o nome de Street, que dá para todos os sexos, enquanto o outro, tigrado com mais de duas cores, certamente uma fêmea, foi "baptizado" de Juliana (don't ask). De resto, Juliana tem vindo a engordar de tal forma que, ou muito me engano, ou qualquer dia dá frutos (Coisinha, Clavícula, Meu Óculos e Gil Prada, tudo nomes possíveis para a ninhada que se anuncia). 
É ao cair da noite, pelas 19:30, que desço à rua e vou deixar a refeição dos "meus" gatinhos. Esta era, até há pouco, uma hora sossegada, com menos gente e movimento de carros. Agora todas as horas são de um sossego inquieto, mas Street - que é muito mais fiel à refeição do que Juliana - não sabe nem sonha o que se passa no mundo, e é a essa hora que me espera, os olhos como duas lanternas acesas, metido debaixo de um carro, ali perto da caldeira da árvore onde costumo deixar-lhe o sustento. 
Espero que, sendo decretado o estado de emergência, abram excepções como em França: alguns trabalhos, compras básicas, assistência a idosos, passeio de animais e prática de desporto, desde que não em grupo. Porque eu, garantidamente, e pontualmente às 19:30, vou descer até à rua para alimentar meu Street, e, quem sabe, a sua companheira Juliana. Nem que tenha que vestir o traje desportivo, nem que tenha que alugar um cão. 

14/11/2019

lágrimas de suor

Começou a corrida e eu levava os olhos cheios de água, vinda não sei de que esforço, ou seria da alma que se arrasta por estes dias, que até nem chovia.
Carcinoma das maminhas, tinha dito a veterinária há um ano. E ela bem, recuperada das duas cirurgias quase seguidas, magra, silenciosa como só um gato sabe ser. De um dia para o outro, ainda mais magra, ainda mais silenciosa, o ser gato levado a um extremo insuportável. 
Está maior, o tumor dela. Por isso, também por ela, fomos correr no domingo. Quando a Ciência avançar para umas, terá igualmente um braço que alcance as outras. Fiz o melhor tempo de sempre, não parei para andar, para descansar, para pensar - mais ainda -, sequer para chorar. A alegria de ter concluído a corrida sem percalços nem dores no corpo esteve sempre atravessada por aquela farpa que transporto no coração, eu no meu e os outros cinco nos deles. Ainda assim, não adianta camuflar com demais explicações: estou velha, estou extremamente velha, sou aquela ridícula que adoece cada vez que lhe morre ou adoece um animal de estimação. Diz agora a veterinária que devemos - como se se tratasse de um dever tout court, e não de algo que, implícita e naturalmente, sairia de nós - dar-lhe todo o mimo, todas as guloseimas que ela aceite. E também que devemos - esse, sim, um dever a cumprir ninguém sabe muito bem como - preparar-nos para a deixar partir
Não sei fazer essas preparações, e recuso-me a tentar, sequer. Não considero nem quero fazer mais nenhum luto, seja ele antecipado ou em tempo real. Ao invés, encho-lhe a boca com a cortisona receitada, o corpinho com festas, a cabecinha com beijos. E, contra tudo o que é normal - ou não fosse eu - rejubilo com todos os pequenos progressos, quando come bem, quando dorme tranquila, quando esgatanha alguma coisa, desconsiderando a evidente reacção à medicação, subestimando que o tempo corre implacável, numa corrida cuja meta será toda ela de lágrimas, enchendo-me de uma coisa qualquer a que nem admito chamar esperança.

05/03/2019

"Vamos para casa, menina"

Faz hoje dez anos que nasceu a minha Mia. Sei a data com precisão porque a dona da mãe mo disse, quando a fui buscar, com vinte e quatro dias de vida. Foi um absurdo, que reconheci quase imediatamente, tê-la trazido tão pequenina, mas ela não morava aqui ao lado, teríamos de voltar dali a duas semanas, tudo parecia conjugar-se para que eu tivesse tomado a decisão por outras cinco pessoas indecisas, pegando-lhe e segurando-a junto ao peito, "Vamos para casa, menina". E assim veio, minúscula, perdida, mal sabendo andar, tomando biberon de três em três horas, quando não menos espaçados. 
Culpa minha, ou porque seria sempre assim, nunca a senti feliz, nunca lhe vi uma atitude de alegria ou gozo pleno de bem-estar, como vi nas outras duas gatas que, uma, tivemos, outra, temos. Desconfiada, agressiva, ressentida, muito em particular nos primeiros anos. Escolheu uma humana para ela, de entre as minhas três filhas, apesar de, com o passar do tempo (e a esterilização?) ter amansado gradualmente, até se ter tornado uma senhora, com toda a altivez, independência e sobriedade que isso implica. Hoje já não trepa para o topo dos armários, não se recosta a dormir na parte mais alta dos roupeiros, junto ao tecto, não caminha pelos varões dos cortinados ou pela parte superior das portas, naquela elegância ímpar da magríssima jovem ginasta da trave olímpica. Reveza os seus dias entre o pequeno caixote de papelão da sua eleição, contendo uma manta macia, e suficientemente perto de um radiador, as suas idas à casa-de-banho, às taças e a uma torneira específica da casa, única por onde bebe, algumas incursões pelos cantos da casa, especialmente se banhados por sombras, a janela maior, a cama da humana eleita e várias perseguições à Molly, que pesa, seguramente, o dobro e tem menos de um terço da idade dela.
Sabemo-la doente, com a vida a prémio, em contagem decrescente. Mas não é essa a realidade efectiva de todos nós, mesmo que saudáveis? Não tem qualquer sinal de mal-estar, o último caroço não cresceu nem mudou de configuração, a patinha não inchou, ela não coxeia, não se mostra incomodada nem dorida. Tem dez anos, são cinquenta e seis em humanos. Percebo-lhe os enfados, as faltas de paciência, os dias de morrinha, por me perceber a mim própria quase assim. Não é uma desistência, é uma espécie de desvontade. 
Quero para ela o que lhe desejei hoje, ao enchê-la de festas e beijos na cabeça: "Só mais dez, por favor, por favor, por favor!". 

créditos para uma das minhas crianças, a humana da Mia

29/01/2019

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 18

Imagina que se dá o momento em que metes a chave na fechadura, ela dá duas voltas lá dentro - e, com isso, te apercebes de que não está ninguém em casa -, entreabres só um bocadinho - porque sabes que as gatas têm aquela mania de ir passear para o patamar das escadas (serão só as minhas que manifestam este fremente desejo de fugir do lar?) e depois é um sarilho grande para convencê-las a voltar - e sai-te a jacto, ligeira e silenciosa - na verdade, com um "prrr" - a Molly, logo escadas acima. Nem pousas a mala, nem despes o casaco, corres atrás dela, mas oh, engano!, ela sobe mais uns quantos degraus, por isso mais vale ficares cá em baixo a praticar psicologia felina, "Anda cá, vamos para casa, Molly!", mas o bicho nada, nem desce nem sobe mais (vá lá...), olha-te apenas por cima do ombro com aquela desconfiança e soberba, do alto dos seus olhos azuis de gelo, como quem diz "Vai tu, daqui não saio, I've got stuff to do upstairs", ainda tentas a solução radical, que é fechares a porta de casa, como se faz às crianças teimosas, "Olha, ficas aí, que eu vou para casa. Adeus", mas depois lembras-te do dia em que ela ficou mesmo e, passadas duas horas (cálculos muito por alto), o vizinho de cima veio perguntar-te se o gatinho que tinha lá à porta a miar, e ao qual já havia dado leite e pão aos pedaços (e a lontra devorou como iguaria sem igual) não seria teu, e, aflita com a repetição do episódio (se bem que ela talvez não, vai-se a ver e curtiu da refeição alternativa), voltas a abrir a porta e sai a Mia, não a jacto, mas igualmente ligeira, e efectivamente silenciosa, sem "prrr".
E ficas sozinha no patamar, tu e as tuas gatas que, por acaso, se detestam. Não se odeiam, mas não se dão, o que equivale quase ao mesmo.
A Mia dirige-se para a escada que sobe, encara com a Molly, e os dois rabos fazem-se num comovente e lustroso pompom. Uma das duas, ou as duas, assanha-se para a outra, e tu pensas que é capaz de ser melhor saíres da jaula, e os leões que se entendam, pois, se for para ficares sem cara, mais vale ires para o lar e esqueceres o dia em que quiseste adoptar gatos. Já não te bastavam quatro filhos nascidos no espaço de seis anos, para ainda te ires meter noutros trabalhos quase semelhantes.
Mas depois, gostas delas. Uma é parva, a outra está doente, porém gostas das duas na mesma medida. E então, raciocinas. Com a Mia, tudo é mais fácil, quanto mais não seja porque pesa metade do que pesa a outra fat, que é agressivíssima e só a ideia de lhe pegares já te arrefece o sangue-frio. Pegas nela por baixo, com cuidado para não lhe magoar a barriga, e carrega-la para dentro de casa, sob protesto (a assanhar-se, aqueles "rugidos" dos gatos), feita manifestante activista e rebelde sem causa. A repetição da fuga para fora de portas é bastante rara, por isso podes descansar de uma.
Dona parva continua estática, sem vontade ou iniciativa de sair do degrau onde se instalou a mirar a paisagem. Não é por acaso que os suricatas se chamam assim. Ponderas o truque do papel amachucado em forma de bola, o truque do boneco dela (um pinguim vestido de Pai Natal, don't ask) atirado para dentro de casa, mas sabes que, cada vez menos, se deixa enganar, e isso pode ser uma perda de tempo que a fará subir mais degraus. Então, lembras-te do truque dos gatinhos a miar, sabes que é um golpe baixo, mas que resulta em pleno: "Gatinhos a miar" no Google, Ai-fostes com o som no máximo, e esperar. 
Lá veio ela, percorrendo todos os cantos à casa até eu desligar aquilo, sei lá se para brincar, ou então para se assanhar também para os gatinhos que procurava e não estavam em lado nenhum.



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam35

19/01/2019

coração azul

A minha Mia está doente. Foi operada duas vezes nos últimos três meses, mas não ficou curada do mal que a tomou. Um novo caroço, tão pouco tempo após a segunda cirurgia, lançou-nos o alarme e também a suspeita. A veterinária é de opinião que “não devemos operar”, nós não queremos que ela seja novamente operada. Queremo-la viva e com qualidade de vida enquanto for “humanamente” possível. 
Entretanto, descobrimos-lhe, numa das peladas que tiveram que ser-lhe feitas (para colagem do adesivo para as dores), um coração azul.
Assim está o meu, a acompanhar-lhe estes dias, que podem ser semanas, meses, ou - numa perspectiva optimista que não quero largar -, anos dela.


10/01/2019

vulnerabilidades

Creio que nunca me tinha apercebido da existência de uma câmara de aflição na sala do veterinário, até ontem. Talvez porque eu própria ali tenha entrado assustada e apreensiva, carregando a minha cabeça a abarrotar de fantasmas, as pulsações latejando em todos os sentidos, a respiração desacordada num susto. Na véspera tínhamo-nos apercebido de um novo caroço na axila da Mia, e o pânico pela recidiva (ou nunca cura) da doença havia voltado. Era igualmente o momento de fazer o raio-x de despiste de metástases, pelo que a deslocação ao consultório tinha dupla razão de ser. 
Não sosseguei a alma quando a veterinária analisou o caroço e disse apenas não gostar nada da consistência dele. Fez punção, colocou o conteúdo em três lamelas e preparou tudo para enviar para análise de laboratório no mesmo dia. A Mia portou-se como uma senhora, sem um ai, sem um rosnado, sem uma tentativa mais radical de se libertar de tantas mãos - as minhas incluídas - que a prendiam. 
Esperava a revelação do raio-x quando ouvi soluços na sala de entrada. Dirigi-me para lá em ânsias e vi uma mulher adulta com qualquer coisa de bastante pequeno nas mãos, postas em concha fechada, como que numa oração. Quando as entreabriu, ouvi-a explicar que "ele põe três ovos por mês, este mês ainda não pôs nenhum, costuma ficar assim paradinho quando põe, mas nunca como hoje". Percebi então que se tratava de uma fêmea, apesar da referência no masculino, de um pequeno papagaio verde. Levado às pressas para a sala de cirurgia, para ser posto a soro e oxigénio, deixou assim para trás a dona inconsolável. Ainda ensaiei uma tosca tentativa de alento, mais em busca de convencimento próprio, com um inseguro "tenha calma, vai ver que não é nada", quando nem sequer nas minhas palavras acreditava. Calei-me imediatamente, pois as lágrimas dela contagiaram as minhas e precisava de manter as forças para o que viesse a seguir.
Revelado o raio-x, a veterinária deu-nos a única notícia boa daquela visita: pulmões "limpos", por ali não há "nada". No entanto, insistiu na muito provável "maldade" do caroço. Aguardamos uma semana, de credo nas mãos e coração na boca. 


03/01/2019

Ninguém tem nada a ver com isso

Deixo o carro mesmo ao lado da loja de produtos para animal, numa pequena reentrância que faz a via, exactamente para cargas e descargas do supermercado. Não estou a impedir a passagem a nenhum carro, embora obrigue a que todos os que o façam entretanto, tenham que fazer uso de mais cautelas, pois a passagem está mais estreita. Não pus os quatro piscas porque não vou demorar mais do que quinze segundos - vou buscar o saco de areia para as caixas das minhas gatas, que está pago - e porque ninguém tem nada a ver com isso. Estou a sair do carro e já um casal de alguma idade para ter juízo está, dentro do seu carro, ao meu lado, claramente em protesto pela situação em que deixei o meu. Respondo que "Vou ali buscar a areia do gato, é um saco com quinze quilos, quer carregar, que eu estaciono bem o carro e vai o senhor lá buscá-la?". Digo "gato" e não "gatas" porque ninguém tem nada a ver com isso. Antes de eu entrar na loja e de eles se afastarem, ainda me apercebo de que ela se ri e gesticula, ridicularizando-me. Curiosa, a diferença de atitude de alguns homens, quando vão acompanhados da esponja e quando não. (E também vice-versa, mas essa não é agora a questão.) Gostaria que elas se transformassem em mosca (menos morta do que actualmente são) e pudessem assistir, por uma só vez, durante breves segundos, às enormidades que os esponjos engravatados e encasacados são capazes de dizer, quando elas lhes soltam a rédea e, por consequência, a língua. Mas também ninguém tem nada a ver com isso.

25/12/2018

Ainda não bebera uma gota nem duas de álcool e já confundira várias ideias

Então, partilhava eu aqui no meu salão, que a minha gata foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda se encontra em convalescença da última, quando travei o seguinte diálogo com um senhor com quem partilho uma afinidade:
LB - Foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda está a convalescer da segunda, que foi há pouco mais de duas semanas.
SCQPUA - Mas eles duram muitos anos, para aí uns vinte.
LB - Esta, não sei se durará tantos, com um carcinoma...
[Momento em que se gera alguma confusão, agora visto a esta distância.]
SCQPUA - Agora parece que é moda, toda a gente tem um.
LB - Pois, parece que está provado que uma grande percentagem da população terá um, mais tarde ou mais cedo.
(Esta minha mania de lançar números aleatórios quando não conheço a percentagem exacta, nem estou muito certa do que digo. Mas tenho em meu favor que SCQPUA também não escutou com atenção o que eu afirmei.)
SCQPUA - Lá na minha terra, toda a gente tem um.
[LB a considerar a possibilidade de existir um fenómeno endémico na terra do SCQPUA.]
LB - Ai sim?
SCQPUA - Sim, até há quem tenha dois ou três...
[LB assaz consternada com a existência de uma população inteira com semelhante pouca sorte.]
SCQPUA - ... cães.


14/12/2018

Cada vez mais convencida de que David Lynch escreveu o guião da minha vida, e não há como sair deste registo

Não sei se sou eu que sou uma nervótica, ou se realmente tudo vem ter comigo, mas deu-se que fui à veterinária com a minha gata, mais uma consulta pós-operatória, oito dias após a segunda mastectomia em dois meses e meio, e ia nervosa. Ando sempre um bocado, na verdade, ora por isto, ora por aquilo, mas sou pessoa para (achar que estou a) disfarçar extremamente bem. Ainda outro dia o médico do coração ia tendo um enfarte quando me mediu a tensão e me tomou o pulso.
Há três dias, apanhei uma seca tremenda de uma hora e meia - haveis lido bem - de espera lá no médico dos bichos, porque cheguei e tínhamos dois cães à nossa frente e aquilo funciona por ordem de chegada. A vet estava na sala de cirurgia a operar um iguana, o que ainda demorou meia-hora até começar a atender os fregueses expectantes, de entre os quais minha boneca e eu. Entretanto, apareceu uma figura muito obesa e lenta de gesto e modo, que disse que ia buscar o Jaime, vai a funcionária e pergunta: "Ah, o camaleão?", e ela corrigiu, em voz roufenha e ameaçadora (eu, pelo menos, assim a senti), "Não, é um dragão", e não é que me vieram várias imagens mentais à mente, nomeadamente a de uma princesa presa na torre de um castelo, ao som do gingle do Dragon Ball (e depois o David Lynch é que é o transtornado)?
Hoje até fomos de manhã, para atalhar. Quando chegámos, estava só um cão à nossa frente, e fomos mandadas esperar num gabinete, sei lá porquê. Até achei bem, sempre estávamos isoladas e podíamos dialogar em paz, sem que alguém nos julgasse esquizofrénicas. Só que a espera durou quinze minutos, e, perdida a paciência para esperar mais um que fosse, vou-me à funcionária e questiono se aquilo ainda está muito demorado, porém ela responde-me o óbvio, que eu já sabia, que "a doutora está em consulta com o cão". Então, pus-me a prestar atenção à conversa da consulta, e era sobre bolçar, vomitar na cama por causa da tosse, mudar lençóis a meio da noite e cansaço diurno, e eu vá que a memória não me falha para nada dessas coisas e compreendi que falavam dos filhos, a dona do cão e a vet. Pode dizer-se que estava passada da marmita quando, ao fim de meia-hora de espera e, pelo menos, um quarto de hora de tereréu sobre crianças que se vomitam, a última que referi entrou no gabinete e, que grande lata, me pediu desculpas. Respondi, agastada, que fora tempo a mais de conversa pediátrica, e ela diz-me assim para mim: "Sabe, às vezes as pessoas precisam de desabafar". Mas liquidei-a com um cáustico "Pois olhe, eu não. Quando preciso de desabafar, não vou ao veterinário". Ela há-de ter percebido que eu estava nervosa e não me pôs a deu trela. Tratou da minha bicha maravilhosamente, e eu saí mais tranquila. 
(Teve que drenar líquido de um papo que formou entretanto - duas seringas cheias - e voltou a tomar anti-inflamatório. Não tirou nenhum ponto - que são alguns quinze - e prolongou o antibiótico de dez para quinze dias.) (Não são excelentes notícias, mas também não são más.)
Recebeu um barretinho de Pai Natal de prenda, pus-lho para a pic, mas é o que se vê: minha Mia odeia merdas.) (Eu adoro-a, mesmo - e sobretudo - assim.)


07/12/2018

Velhotinha

Foi operada pela segunda vez em menos de três meses, a minha Mia. Assim como uma mulher tem duas mamas, as gatas têm duas enfiadas de maminhas, e, para cada uma, é necessária uma cirurgia diferente. E, assim como não há duas gravidezes iguais, ainda que na mesma mulher, parece que também não há dois pós-operatórios semelhantes no mesmo animal. 
Ou será do abat-jour?
Foi quase uma imposição, em jeito de pedido, que não lhe pusessem o chapéu sem copa. Da outra vez, ela ia morrendo de stress - sob a forma de apatia - enquanto teve aquilo amarrado ao pescoço. Pensámos que era da anestesia, pensámos que eram dores, pensámos que era tudo junto, mas, afinal, era só o cone que a estava a angustiar/revoltar/contrariar. 
Veio para casa sem o plástico na cabeça, só com o seu vestidinho fashionerer. Embora chateada com a vida - olhos em alvo, não-me-toques, deslarga-me-pá -, tranquila, sem rosnanços nem miaus doloridos. Foi operada ontem de manhã, teve alta ao fim da tarde, e hoje já foi à areia e já petiscou gourmet. (Só quando lhe fazem maldades é que permitem comidas chiques, lá no vet. De resto, só aquela ração que cheira a escorbuto.)
A vet lembra-me constantemente que ela "é velhotinha". Não diz "velhinha", não diz "velhota", não diz "velha". É velhotinha.
Eu vejo-a sempre com três semanas, como da primeira vez que lhe peguei. Ainda assim, perguntei, só para confirmar aquilo cuja resposta me deixou mais ou menos na mesma: "Quanto tempo ainda a teremos?".
"Há gatas que duram seis meses, há outras que duram muitos anos."
Eu quero a segunda, se faz favor.


03/10/2018

Carta à minha gata

Querida gata:

Escrevo-te esta carta sabendo que nunca a lerás, pela circunstância de seres analfabeta e, previsivelmente, assim permaneceres até todo o teu sempre. Mas preciso de dizer-te algumas coisas e dá-se, do meu lado, a contingência de não saber falar a tua língua, embora já vá entendendo a tua linguagem. Por esses dois motivos, espero que percebas, pelo menos, uma pequena parte do tanto que tenho para te dizer.
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em  tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".


25/09/2018

Notícias da minha gata

Depois de ter sido operada na passada quinta-feira, a minha Mia voltou para casa com um vestido cor-de-laranja e um cone abat-jour chapéu sem copa, transparente. A vet achou por bem vestir-lhe o tamanho 1, já que Dona Mia é uma gata light e slim, e qualquer outro ficaria grande aos seus abundantes (em ossos e pêlo) 2,880 Kg. 
(Sim, é extremamente magra; e sim, foi esterilizada; e sim, é ansiosa e vomita com alguma frequência; e não, não tem mais nada, a não ser agora caroços nas maminhas que ainda não tirou, e já basta de sustos e medos.)
Deu-se que na primeira noite pós-operatória, a safadinha conseguiu tirar o vestidinho e arrancar o chapéu, tendo ficado com os pensos à mostra e à mão, meio caminho andado para arrancar tudo até à costura, e, quem sabe, a própria também. Repusemos-lhe tudo como antes, ela não voltou a tentar tirar, mas foi ficando cada vez mais inactiva, mais quieta, mais triste. Esteve exactamente quarenta e oito horas sem comer, sem beber (e Lisboa abafava), sem ir à areia. Até que, no sábado passado, de volta à vet, tirou os pensos, mudou de vestido (para o tamanho 0, que a vet costuma vestir a coelhos) para um cor-de-rosa com debrum cinzentinho (também havia azul, mas achei que a minha menina ficava muito mais fashionerer em rosinha), tirou o chapéu e, autorizada a comer guloseimas (Agora vale tudo, disse a vet, embora não tenha permitido chocolate, à minha pergunta. Então, não é tudo), comeu comida mole das latas, bebeu água e já foi à casa-de-banho dela. E a toma do antibiótico passou a ser uma guerra de nervos e garras entre humanos e felina. 
Tudo muito melhor, em suma. Mas quero, em muito breve, voltar a vê-la como ela é e sempre foi: tímida,  nervosa, soberana, sobranceira. Uma rainha com medo do trono. 


21/09/2018

Mihinha

A Mia, minha gata mais velha, foi operada ontem. No sábado demos com um caroço numa maminha, no domingo fez análises e ficou marcada a cirurgia para quatro dias depois. Tirou as maminhas todas de um lado, daqui a quatro ou cinco meses, já com dez anos, tira as do outro. 
A minha Mia nunca teve bom feitio, nunca foi o gato dócil que era a Mel, uma vez mordeu-me a ponto de me deixar uma cicatriz na perna, sempre odiou estranhos, nunca se enroscou nas visitas. Mas também não pediu para ir para a nossa casa, chegou-nos com três semanas, foi alimentada a biberon, tudo por um imperdoável capricho meu. E pode ter sido isso que fez dela desconfiada, insegura, ansiosa. 
(Adoro-a.)
E quebra-se-me o coração vê-la assim, ainda mais sabendo que vai acontecer de novo daqui a meses. 
Não sei como se mede o tamanho do amor que se tem a um animal, mas não deve haver uma régua, sequer uma balança fiel.




06/09/2018

Outra vez os excrementos

Esta noite tive pesadelos — o que me acontece com uma frequência assustadora [buuuuu!], embora sofra da felicidade de praticamente nunca me lembrar do que sonho, daí que não viva assustada, e que o meu coração vá aguentando, melhor ou pior —, por isso posso falar sobre o que me apetecer, designadamente acerca de moncos. Ou melhor, a bela história de um monco meu.
(Sonhei que me morria a gata que é doida. A que é mais doida das duas. Morria bebé, esmagada como um pombo que vi ontem no asfalto, parecia que pertencia ao alcatrão. Depois toquei-lhe com as pontas dos dedos no coração e ela insuflou e mexeu-se. Mas eu tinha um passarinho ao colo, embrulhado num lenço de pano para não ter frio, e ele morreu asfixiado.)
(Freud talvez não soubesse, os manuais de interpretação ainda menos, mas eu sei muito bem o que quer dizer cada troço do meu pesadelo.)
Eu sou uma pessoa que nunca se assoa e raramente se constipa. Quando sim, só me constipo de uma narina, sofro de constipações unilaterais, ou assimétricas. Pode ser por isso que fabrico moncos em quantidades subaproveitadas, mais valia montar uma fábrica de isqueiros, que pedra não faltaria.
Ou então, podia montar um atelier de bijutaria alternativa. Colares com três voltas ao pescoço, e cenas.
Ontem, ao deitar, extraí um deles. Já me enroscava no sono, não me apeteceu levantar-me, pousei-o na mesa de cabeceira e a minha cabeça na almofada. (Vá que não troquei.)
Hoje de manhã, a que fala tanto pegou no pequeno rochedo, pousou-o delicadamente na palma da mão e perguntou: "O que é isto?".
E eu, qual criança mentirosa, estremunhada com a recente confusão com os meus bichos mortos, vou de responder: "É uma pedra. Tinha-a no sapato, não quis metê-la na louça do pequeno-almoço porque depois ia para os canos, e então pu-la aí, para me desfazer dela quando fosse para a rua."
Adorei a cara dela, hoje.