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10/04/2025

Equação do coração

Cheguei ao balcão e esperei a minha vez. Percebi imediatamente que estaria demorada para chegar, pois havia apenas uma registadora para duas funcionárias, e um cliente que espalhara um rol de roupa a todo o comprimento e uma das senhoras registava peça a peça. Camisas de boa qualidade e trapos velhos. Uma toalha de banho esfarrapada em todo o rebordo, debotada ou só cansada da idade. Fiz um breve sinal com a cabeça à que iria atender-me, sussurrei, “Aquela toalha?”, ela olhou com o mesmo espanto para o pano, “Essa toalha é para quê?”. “Pra coser”, e depois um suspiro, quase um gemido infantil. Quem sou eu para julgar, se ainda guardo a minha toalha de praia do tempo que se perdeu pelos mares e muita dobrinha de carne me há-de ter secado?, quem sou eu, se ainda guardo a minha almofada do tempo da cama de grades? “Cada vez que estás doente, falas com mais sotaque. Porquê?”. Respondi por ela: “Saudades da mãe”, ela com os olhos molhados cravados nos meus, “Como é que ‘cê sabe?”, e logo um beicinho, “Faz três anos que não vejo minha mãe.”. “Fácil equação: começa a falar a língua materna cada vez que se sente fragilizada, criança de novo, a precisar de mãe”. 
“É isso mesmo, olha só…”, toda ela encolhida, de cabeça baixa, quando tive que virar costas e sair dali.

06/11/2024

A gata e ele

O meu menino azul, de olhos copiados do meu pai —, mas grandes, grandes —, que me olham, agora já só de vez em quando com aquela luz de deslumbramento que era plena quando no berço, começou há um par de anos a sacudir as peninhas e a abri-las em ensaio de voo, coisa que percebo pela maior escassez dos abraços primeiros, que vinham sempre depois das minhas tempestades. Disse um dia, há muitos meses, que queria ir de Erasmus, e eu atónita, como se ele ainda estivesse dependente da minha opinião, autorização ou dores muito maiores, perguntei, nunca saberei se a brincar: “A mamã pode ir contigo?”. Também nunca saberei, talvez nem ele, da seriedade da resposta: “Podes.” 

“A gata vai morrer de saudades tuas.”

Agora prepara afincadamente a candidatura para um mestrado longe de mim o suficiente para que não possa amparar-lhe alguma queda, pois imagino que sente as asas fortes e a desnecessidade das minhas mãos. Longe de casa, longe da gata. Há pouco avisou-me que vai para ficar, porque aqui não há nada.

Deita-se na cama, acabado de chegar do treino, a gata corre-lhe para cima do peito, ele afaga-lhe o dorso e ela fica num transe amoroso, a olhá-lo nos olhos, enquanto ronrona. É a imagem dele, pequenino, deitado sobre mim em êxtase perante a perfeição que já perdi. Diz ele exactamente o que penso naquele instante: “Não sei o que será desta gata quando eu me for embora.”

A gata vai morrer de saudades dele.


21/01/2023

Como uma filha

Não sei se tu és crente, filha,

diz-me, à laia de pergunta, aquela que é o legado mais precioso deixado pelo meu pai: uma tia, já velhinha, a quem abraço muito quando — dolorosa porque raramente — nos vemos. Vivemos à distância da primeira para a segunda capital do país, o que parece pouco, mas é muitíssimo, se considerarmos outras distâncias que não constam do mapa. 

Sou, tia — digo, mais para a sossegar, mas não mentindo completamente —, pelo menos, sou uma crente interesseira, pois é d’Ele que me lembro sempre nas maiores aflições, e se eu tenho tido algumas, ou até demais. Mas não me metam com padres, que isso já não dá para mim.

No Verão passado estivemos juntas, pude rever as minhas primas e apertar nos braços aquela que perdeu o único filho para a doença que me queria levar agora a mim. Foram demasiados anos sem poder fazê-lo, esperava dela alguma mágoa, interrogações várias, mas fui encontrá-la apaziguada com a vida, não conformada, mas também não revoltada. Certamente à custa de muita terapia, mas, fundamentalmente, resultado de uma educação de amor e de um carácter limpo e bem estruturado. Sei agora, pelo meu próprio exemplo, por que é que há pessoas que se afastam diante do sofrimento dos outros: ele é insuportável porque reflecte a possibilidade do nosso. Mas também sei agora que nunca mais somos capazes de esquecer esse adeus, se não tivermos a força gigantesca e a delicadeza da minha prima Teresa, mais rara que um diamante entre rochas.

Sabes, filha, eu rezo todas as noites e peço a Deus que me dê uma morte suave. Peço também pelas minhas filhas e por ti, não peço por mais ninguém.

[Nem pelos netos, nem pelos bisnetos?]

É que te tenho a ti como uma filha.

E aquilo caiu-me dentro do peito: a irmã do meu pai, que tanto mo lembra, agora é minha mãe, e isso faz um sentido tão certo que não contesto e agradeço toscamente, “Ai que bom, agora tenho outra vez mãe”.


07/06/2022

200 dias

Foram exactamente duzentos dias entre aquele em que, agarrada ao papel, na avenida cheia de trânsito no chão e aviões no céu, percebi que tinha chegado o momento de me fazer forte e enfrentar a fera, e ontem, quando o médico me tirou a cruz das costas, as correntes dos tornozelos e a corda da garganta, e me disse que estou livre, matei o monstro, a quimioterapia limpou-mo do corpo. 

Estávamos a lanchar, ela e eu, amigas desde os dez anos, já perdi a conta a quantas décadas tem esta amizade. Tínhamos o sol em cima, a luz toda só nossa, quando me lembrei de lhe mostrar em que pé está o meu cabelo. Levantei um dos lados de Natércia e os olhos dela logo marejados, eu sem cabelo, ou melhor, com um cabelinho pequenino, e de repente também sem chão, sem saber o que dizer, “O que é que foi? Ficaste comovida por veres o meu micro-cabelo?”. Agarrei as duas mãos dela, queria consolá-la do mal que tinha acabado de lhe provocar, e nisto ela dá-me a resposta mais bonita que podia ter dado: “Não, é que me lembraste muito o teu pai”.


11/09/2021

Onde andavas tu?

Em casa. Nesse tempo, eu era feita do material de uma bolha protectora. Tinha um bebé com um ano, que tinha acabado de almoçar e estava a deitá-lo para a sesta. Tinha uma menina com dois anos e meio, uma com quase cinco  — que tinha rachado os queixos dias antes e não parava de pular (ainda hoje, minha cabrinha Mimi) — e uma com quase sete. O mundo mudava lá fora, mas, não fora o telefonema de uma comadre das minhas, e não teria sabido de nada. Desconheço por quanto tempo mais duraria a minha ignorância, mas estou certa que, se soubesse o que sei hoje, nunca teria deixado rebentar a querida bolha.

(Curiosamente, o dia 11 de Setembro estava — e está — gravado no meu coração como a DPP de abertura e encerramento da minha maternidade.)


09/06/2019

estou de Junho

Trouxe-me há muitos anos o pai, que me nasceu neste mês, alguns antes de eu própria conhecer o mundo.
Trouxe-me o mar de Junho, os dias longos e as noites quentes de luar eterno.
Trouxe-me a confirmação de ser, para todo e qualquer efeito, uma mulher.
Trouxe-me, se puxar bem pela memória, o primeiro amor, tão fugaz que não o soube saborear na tonteira dos catorze anos. 
(Não sei como não nasci em Junho, eu. Nem sequer fui nele concebida.)
Depois levou-me o pai, assim como mo tinha trazido. Levou-me a mãe, não satisfeito, cravando-me uma orfandade permanente e defeituosa. 
Ainda tenho comigo guardados os olhos azuis do enorme bombeiro, feições cheias e rudes, tisnadas do sol e do fogo, cheios de mar de Junho para mim, A senhora sabe, a gente vê muita coisa todos os dias, mas isto... E a mão grossa dele sobre os bracinhos da minha mãe, chamando mansinho, quem sabe se também ele cheio dessa orfandade defeituosa que me veste desde aí, Avozinha...
Enquanto não purgar Junho, não saberei estar.

05/05/2019

as pessoas nunca morrem

Tremiam-lhe os olhos enquanto as mãos, marejadas, retiravam e voltavam a colocar a capa do telemóvel, e me explicava que a China morria agora todos os dias, por conta de um carcinoma na pata dianteira. Vi-a ver partir a mãe, depois o pai, de seguida um irmão, saga que lhe veio de herança trágica da avó, que casou já órfã e com dois irmãos sepultados, e ficou viúva e grávida do segundo filho - que, efectivamente, era o quarto, ou não tivesse oferecido dois anjos aos céus - aos vinte e sete anos. Por alguma razão que não se explica mas eu alcanço, esmagam-na mais do que todas as outras as saudades do pai, e eu sei que é possível porque não sei o que fazer à desmesurada falta que me faz todos os dias a minha Titi e também a minha gata, logo eu, que me morro de saudades do meu pai e agora também da minha mãe. 
A cadela tem que ser abatida, inglório porém caridoso ponto final no sofrimento em que claramente já está. Passo-lhe a mão no focinho enorme e perfeito, dou-lhe um elogio à bela coleira cor-de-rosa e suspiro que também eu, “tenho uma menina lá em casa assim, que, mais tarde ou mais cedo...”, só que também se me mareja a garganta e afogo o final da frase com uma espécie de pensamento positivo: “Era a cadela do teu pai, vai para o pé dele, serem felizes”. A cadela afasta-se de mansinho, e ela então pergunta-me: “As pessoas nunca morrem, pois não?”. “Não.”
Não, as pessoas nunca morrem.


SEM AR MAR SEA SER MÃE


A combinação de letras, que forma a composição de palavras mais bonita de toda a cidade.


14/03/2019

se eu fizesse uma tatuagem

era à esquerda de mim, sobre a pele que cobre toda a área que fica entre a primeira e a quinta vértebras, o gradeado que protege como pode o coração, e pedia para me pintarem o contorno de um avião, e, dentro dessa linha, o número 8668, que é o exacto número de quilómetros que me separa da maior parte de mim, e isto sei porque agora, por uns dias demasiado largos, por temporadas futuras que não saberei contabilizar em horas, estarei aqui em estilhaços de mãe, aguardando que me volte sã, salva, e de novo minha. Há quem diga que os filhos são do Mundo, são da vida, oh!, que acertadas palavras que nenhuma mãe sente - os filhos são nossos, gerados e dados à luz por via directa deste que agora eu tatuaria de bom grado, assim isso ma trouxesse de volta mais depressa.


22/02/2019

o amor também pode ser de barro

Recebi da delicadeza das suas mãos, pelo Natal, a melhor de todas as prendas, a mais preciosa de toda uma já longa vida, vindo mesmo suplantar todas as bonecas, todos os jogos, todas as roupas mais ansiadas: o presépio da casa dos meus pais, que tanto e sempre amei. Um presépio em três peças, um São José e uma Nossa Senhora ajoelhados, ele num transe amoroso, com uma das mãos levantada quase ao nível da cara, ela em contemplação materna de um Menino Jesus gordinho e cabeludo, adormecido numas confortáveis palhas de granito. Por imperdoável ignorância minha, por serem as três peças tão pesadas, por estarem pintadas pelo artista que as assinou com uma tinta granitada, assumi sem pensar que o agora meu presépio era feito de granito, e não de barro, como efectivamente é. 
Porque as saudades matam, porque todos os dias nos morrem os pais, foi por necessidade, egoísmo ou pura vaidade, que mantive o presépio em cima de um móvel desde o Natal, com a intenção de assim ficar todo o ano. Mas a gata mais jovem, mais pesada, mais irrequieta, fez resvalar a Nossa Senhora pelo móvel até ao chão, onde o manto se fez em três bocados e mil cacos. 
De nada adiantaram as minhas lágrimas, choradas julguei eu que às escondidas — porque o pudor, o orgulho, a vergonha e, principalmente, a necessidade de encasulamento me tomam inteira nestas horas —, sufocada por dúvidas, se era melhor colar, se era melhor arranjar um bom restaurador, e ausências várias, se me saberia bem um abraço, mesmo que só um braço por cima do ombro, umas cócegas para me fazer rasgar um sorriso imperfeito, uns beijos nos olhos, cheios de borrões negros. Foi quando ele surgiu com aqueles olhos grandes de amor, retirou a peça da caixa onde eu a deixara e se sumiu assim, qual anjo, voltando pouco depois, com ela colada, as fissuras à mostra, os recantos um pouco desencontrados. E isso, mesmo sem abraço,  sem cócegas, sem beijos nos olhos, fez-me rasgar o tal sorriso imperfeito, e perceber que, se o amor não puder ser de granito, pode muito bem ser de barro, que é tão igualmente indestrutível. 

28/12/2018

um abraço de (minha) mãe

Conhecemo-nos quando eu precisei dos serviços dela, começámos por uma relação cliente-prestadora, mas acabámos, logo de início, numa infindável amizade de confidências e gargalhadas. Anos volvidos sobre esse primeiro encontro, vi hoje a mãe dela pela primeira vez. Atravessou há dias o oceano que a separa agora sempre, e talvez para sempre, da filha, que mal viu em dez anos, numa única vez de breve visita. Surgiu-me no corredor de casa, pequenina e afável, o cabelo muito branco e a doçura que só o olhar das mães consegue reflectir, e fiquei desde esse momento sem saber quem tomou a iniciativa de abrir os braços a quem, não me lembro se abracei ou fui abraçada, foram uns frágeis braços que me tomaram inteira, fui eu que me enleei, cingindo-a como minha, e houve um momento em que ela me disse baixinho, "Deus te abençoe, filha". E eu sei - porque senti - a minha mãe enlaçada comigo, connosco, naquele abraço.

03/12/2018

Da minha janela vejo a minha mãe


Tenho diante de mim uma árvore vermelha, que me acompanha e me sorri enquanto trabalho, toda ela vestígios da mãe que é minha. Lembra-me em tudo um vestido vermelho que lhe via há muitos anos, e a enchia de festa interior, que a fazia flutuante e a punha a dançar e a rir, como se a única alegria da sua existência pudesse advir daquele vestido. Traz-me os melhores dias da mãe que será sempre minha, os dias da felicidade, os últimos da infância. A árvore flutua e dança e quase a vejo rir para mim. Imagino a alegria infantil da minha mãe se a visse, aquele êxtase quase religioso pelas dádivas da Natureza, também ela mãe, o ar suspenso numa aflição abençoada pela graça gratuita ali vivente.
Vem-me à memória que me contava dos dias em que, ao passear-me no carrinho, eu ria para tudo. Dava como exemplo as folhas das árvores a mexer ao vento, e os meus pequenos braços agitando-se de contentamento, ao ritmo dos galhos e das folhas, numa dança serena entre duas inocências semelhantes. Assim está a árvore vermelha agora, acenando-me os braços acolhedores, vestida com o vestido vermelho da minha mãe.

23/11/2018

saudades vivas

Calhou-me ao lado, cada uma sentada diante do seu espelho, no salão onde, através do cabelo, entramos para transformar a cabeça. Pediu para cortar curtinho, um cabelo que já de si não tinha muito por onde cortar mais. Cara redonda, olhos vivos, pescoço largo, havia qualquer coisa de infantil nesta conjugação, e também na voz timbrada, de sotaque cerrado do meu Alentejo, quando disse,
Já lá vão quatro anos, e sinto tanto a falta dele. Estou sempre a pensar Será que ele ia gostar disto?, Será que ele não ia gostar disto?... Hoje venho fazer uma coisa diferente,
explicou-se, pela mudança de curto para mais curto. 
A cabeleireira afastou-se por segundos, e foi esse o meio tempo para que, sem tirar os óculos, baixasse um quase nada a cabeça e, exactamente como uma criança desgostosa, fungasse, soltasse um soluço, e, quem sabe, pensasse Será que ele ia gostar disto?

17/10/2018

Agora nunca mais morria uma mãe

Desde a perda da minha, do núcleo estreito que são as minhas relações sociais, já saíram desta vida outras quatro mães. 
As mães deveriam adquirir imortalidade efectiva — não essa, a da memória, totalmente metafórica — no momento do nascimento dos filhos. Isto seria uma espécie de garante, se não do aumento, pelo menos da preservação numérica da população mundial. Depois eram livres de entregar a sua imortalidade aos filhos, assim que o achassem conveniente e necessário. O Mundo seria muito melhor, e tudo seria mais justo e harmonioso. A cada filho, uma imortalidade renovada, uma possibilidade nova de abnegação. Não creio na existência de mães que não o fizessem sem pestanejar, assim a vida dos seus filhos corresse perigo. Caso contrário, à mais ínfima hesitação, merecido seria que a sua mortalidade fosse restabelecida, no imediato momento em que a dúvida as acometesse.

Quão cravejado de erros está este raciocínio, pois se fosse possível a uma mãe fazer a entrega da sua imortalidade a um filho doente, então regressaria à sua condição de simples mortal, e, consequentemente, voltaria a poder acontecer a nada simples morte de uma mãe.

Custou-me mais do que os outros, este último adeus que fui dar a uma mãe. Na verdade, ia acompanhar uma filha minha, que, por sua vez, ia acompanhar a amiga, filha daquela mãe a quem íamos dizer não vás. Ou melhor, não vais. Para sempre ficarás, mãe desta filha ainda demasiado incapaz de não te ter aqui. (Não sei se existe uma idade para se ficar sem mãe.)
Sei que a vi chorar nos degraus, e depois junto do corpo da mãe. Os meus olhos picavam quando tivemos que desenlaçar o abraço em que ela, enorme e muito magrinha, por momentos pequenina, me soluçou no ombro. Pedi-lhe apenas que me deixasse dar-lhe um beijinho, e assim fiz, acariciando-lhe o cabelo louro de seda. Retraí o instinto, que me impelia a dizer-lhe que, quando precisasse de mãe, lhe podia dar um bocadinho, daqueles tantos que ainda tenho, e me sobram nas mãos, nos bolsos, no regaço, no colo, nos dois ombros — mesmo que inundados de soluços e lágrimas —, nos ouvidos, nas noites de insónia e medo, e, em geral, no coração. Calei o impulso, envergonhada da minha própria soberba, lembrando a velha máxima mãe há só uma, e saí do local, investida da minha simples condição de simples mortal.

24/09/2018

Bola prá frente

Coincidência — ou sei lá se talvez não — é ouvir no mesmo dia, com meia-hora de diferença, em dois locais totalmente distintos da cidade, mas exactamente pelo mesmo motivo, a expressão 'bola prá frente'.
Tratada e assinada a papelada necessária por motivo da morte da minha mãe, estou a levantar-me da cadeira onde me havia sentado, quando o funcionário que acabou de me atender me aconselha: Bola prá frente.
Deixo-o para trás e vou ao cemitério. Preciso de tratar de mais uma questão burocrática, que não é urgente, não fora a urgência de desapertar o coração, indo ver os meus pais.
À saída, cruzo-me com algumas pessoas que ali ficaram a conversar, depois de terem ido deixar alguém, que não sei quem nem porquê, mas imagino. Avalio o tamanho do grupo, as idades, a ausência de lágrimas, o despojamento, e sei, ou ponho-me a adivinhar, que terá sido uma pessoa de muita idade, ou tão doente que a morte lhe sobreveio à vida como um alívio seu e dos seus. Não faço julgamentos, who am I to judge? Não sei para o que estou guardada, e, na verdade, também não quero saber. É quando ouço um dos elementos do grupo dizer para outro, eventualmente mais enlutado, mais próximo do falecido: "Agora é bola prá frente". Há algo que me tranquiliza quando percebo que não me vou cruzar com alguém que esteja a chorar. O meu primeiro impulso é sempre socialmente inaceitável, e, por isso, prefiro seguir caminho para a vidinha, deixando a morte — e uma considerável parte da minha vida — para trás. A bola, essa, é prá frente, dizem eles na sua imensa sabedoria futebolística. Seja qual for o tamanho da perda e a dimensão do desgosto.



09/09/2018

~

Talvez ao longo de uma longa vida, todas as pessoas se desdobrem em várias; talvez só assim entenda e aceite que perdi todas as minhas mães — e foram tantas — de uma vez, numa orfandade multiplicada por inúmeras, que nem sei por qual hei-de começar a chorar primeiro. Eu própria fui todas elas enquanto filha, primeiro acabada de chegar, depois criança, mais tarde adolescente, a seguir eu própria mãe, fazendo da minha mãe, mãe, mulher, a senhora que foi sempre, e depois avó. Faltam-me todas, mas, paradoxal e egoistamente, falta-me mais do que todas a última, falta-me precisamente a que já não estava, dependente — ou mais independente do que nunca — e ausente, entregue, e tão mais minha. Do que nos sobrou nos últimos anos, daquele ténue vestiginho de mãe, é o que me faz verdadeiramente uma falta esmagadora. Se pudesse fazê-la regressar, quem sabe não optaria por recuperar — paradoxal e egoistamente — a minha última mãe.

12/08/2018

Dancei, mãe

Hoje acordei infeliz e dancei, mãe. Não dançava há dois meses. Não era capaz de me mexer ao som da música, as pernas tristes, a anca infeliz, já para não falar dos braços, um desalento de dar dó. Estava à espera do dia em que acordasse contente e tivesse vontade de dançar, mas o dia não veio e hoje fui assim mesmo. 
(Não para me alegrar, não para espantar a tristeza - como se ela permitisse uma coisa dessas -, mas para lhe dar largas e deixá-la voar comigo.)
(Ela é volátil.)
Tenho sonhado consigo, mãe. A mana sonhou todas as noites desde que nos vimos pela última vez
(que saibamos)
agora sou eu que sonho. Revezamo-nos a cuidar de si, outra e mais outra vez. 
Quando tomei duche, havia manchas de sabonete em forma de coração aos meus pés. 
(Muitas gotas de água, também. Nem todas saíam do chuveiro, pelo que me pareceu.)
Não sei interpretar estes sinais que a vida me dá 
(são sinais ou eu estou maluca?)
mas acho que era outra vez Alguém a dizer-me que estivesse descansada, que sossegasse o coração
(esta pedra)
que a mãe está bem.
E que eu pare de sonhar, também.

19/07/2018

podia ser (a) minha mãe

Saímos da padaria, ela à minha frente, uma muleta num braço, um pequeno saco, com um pãozinho lá dentro, na mão do outro. Pretendeu descer os dois degraus que a separavam do passeio, apoiou o braço que levava o saquinho num murete logo ali ao lado, pôs o pé da muleta no primeiro degrau e o saco caiu ao chão. Desviei dois passos do meu caminho que havia de ser feito com duas pernas saudáveis até um carro confortável, e segurei-lhe o braço sem muleta, dizendo Vamos descer juntas, pois que sempre me deixou desconfortável o verbo ajudar. Assim fizemos, alcançámos o passeio em segurança, entreguei-lhe o saco que, nem quero imaginar, seria o jantar dela, até que ela disse, Que Deus lhe dê tudo o que a senhora desejar, e eu debati-me entre duas verdades íntimas e, se calhar por isso, dolorosas, Já deu -, pensamento posto nos meus filhos -, Já tirou também -, pensamento posto nos meus pais. É esta a lei da vida, dizem, e eu aceito, quem sou eu para contestar leis, ainda mais se forem dessa tal vida? Fiz o pequeno percurso até ao carro de cabeça baixa, envergonhada de mim, dos meus pensamentos, da minha heresia ou da minha descrença. Ela seguiu, desapareceu logo, talvez se tenha refundido com a calçada ou com o ar, posso tê-la sonhado, quem sabe não ando a delirar de saudades, se ela podia ser minha mãe.

19/03/2018

o odor do amor

Houve aquele momento em que ele pediu que, de olhos fechados, nos lembrássemos das três mais remotas recordações da nossa infância. Não preciso de fechar os olhos para saber que todas as que trago guardadas em mim há mais tempo estão ligadas ao olfacto: tenho comigo o cheiro da minha mãe, da sua pele branca e lisa, orvalhada de um perfume desaparecido há muitos anos, dando-me que pensar se esse não terá sido também o ponto da sua partida. Conservo intacto o cheiro do meu pai, dos abraços com braços pequeninos e de cabeça encostada às pernas dele, ao abdómen, mais tarde ao coração, e a passagem neles da certeza de que tudo estava bem e de estar num abrigo que jamais me faltaria. Ficaram-me outros tantos odores só meus, do mar da Costa, dos pinheiros carregados de resina, da lareira no Alentejo, das azeitonas nos alguidares de barro, dos tarros de cortiça, da casa da minha avó no Porto, dos móveis passados a óleo de cedro da minha Titi, das sardinheiras da sua varanda, dos lápis de cera e dos pincéis na escola, das sardinhas na Feira, e do vento, que nunca mais cheirou da mesma maneira. Todos são irrepetíveis mas eternos, se calhar por serem meus, apesar de eu já não ser aquela mesma. 
E os olhos do meu pai. Havia também neles um odor de desvelo e entrega, que era o odor do amor.
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.