10/04/2025
Equação do coração
06/11/2024
A gata e ele
O meu menino azul, de olhos copiados do meu pai —, mas grandes, grandes —, que me olham, agora já só de vez em quando com aquela luz de deslumbramento que era plena quando no berço, começou há um par de anos a sacudir as peninhas e a abri-las em ensaio de voo, coisa que percebo pela maior escassez dos abraços primeiros, que vinham sempre depois das minhas tempestades. Disse um dia, há muitos meses, que queria ir de Erasmus, e eu atónita, como se ele ainda estivesse dependente da minha opinião, autorização ou dores muito maiores, perguntei, nunca saberei se a brincar: “A mamã pode ir contigo?”. Também nunca saberei, talvez nem ele, da seriedade da resposta: “Podes.”
“A gata vai morrer de saudades tuas.”
Agora prepara afincadamente a candidatura para um mestrado longe de mim o suficiente para que não possa amparar-lhe alguma queda, pois imagino que sente as asas fortes e a desnecessidade das minhas mãos. Longe de casa, longe da gata. Há pouco avisou-me que vai para ficar, porque aqui não há nada.
Deita-se na cama, acabado de chegar do treino, a gata corre-lhe para cima do peito, ele afaga-lhe o dorso e ela fica num transe amoroso, a olhá-lo nos olhos, enquanto ronrona. É a imagem dele, pequenino, deitado sobre mim em êxtase perante a perfeição que já perdi. Diz ele exactamente o que penso naquele instante: “Não sei o que será desta gata quando eu me for embora.”
A gata vai morrer de saudades dele.
21/01/2023
Como uma filha
Não sei se tu és crente, filha,
diz-me, à laia de pergunta, aquela que é o legado mais precioso deixado pelo meu pai: uma tia, já velhinha, a quem abraço muito quando — dolorosa porque raramente — nos vemos. Vivemos à distância da primeira para a segunda capital do país, o que parece pouco, mas é muitíssimo, se considerarmos outras distâncias que não constam do mapa.
Sou, tia — digo, mais para a sossegar, mas não mentindo completamente —, pelo menos, sou uma crente interesseira, pois é d’Ele que me lembro sempre nas maiores aflições, e se eu tenho tido algumas, ou até demais. Mas não me metam com padres, que isso já não dá para mim.
No Verão passado estivemos juntas, pude rever as minhas primas e apertar nos braços aquela que perdeu o único filho para a doença que me queria levar agora a mim. Foram demasiados anos sem poder fazê-lo, esperava dela alguma mágoa, interrogações várias, mas fui encontrá-la apaziguada com a vida, não conformada, mas também não revoltada. Certamente à custa de muita terapia, mas, fundamentalmente, resultado de uma educação de amor e de um carácter limpo e bem estruturado. Sei agora, pelo meu próprio exemplo, por que é que há pessoas que se afastam diante do sofrimento dos outros: ele é insuportável porque reflecte a possibilidade do nosso. Mas também sei agora que nunca mais somos capazes de esquecer esse adeus, se não tivermos a força gigantesca e a delicadeza da minha prima Teresa, mais rara que um diamante entre rochas.
Sabes, filha, eu rezo todas as noites e peço a Deus que me dê uma morte suave. Peço também pelas minhas filhas e por ti, não peço por mais ninguém.
[Nem pelos netos, nem pelos bisnetos?]
É que te tenho a ti como uma filha.
E aquilo caiu-me dentro do peito: a irmã do meu pai, que tanto mo lembra, agora é minha mãe, e isso faz um sentido tão certo que não contesto e agradeço toscamente, “Ai que bom, agora tenho outra vez mãe”.
07/06/2022
200 dias
Foram exactamente duzentos dias entre aquele em que, agarrada ao papel, na avenida cheia de trânsito no chão e aviões no céu, percebi que tinha chegado o momento de me fazer forte e enfrentar a fera, e ontem, quando o médico me tirou a cruz das costas, as correntes dos tornozelos e a corda da garganta, e me disse que estou livre, matei o monstro, a quimioterapia limpou-mo do corpo.
Estávamos a lanchar, ela e eu, amigas desde os dez anos, já perdi a conta a quantas décadas tem esta amizade. Tínhamos o sol em cima, a luz toda só nossa, quando me lembrei de lhe mostrar em que pé está o meu cabelo. Levantei um dos lados de Natércia e os olhos dela logo marejados, eu sem cabelo, ou melhor, com um cabelinho pequenino, e de repente também sem chão, sem saber o que dizer, “O que é que foi? Ficaste comovida por veres o meu micro-cabelo?”. Agarrei as duas mãos dela, queria consolá-la do mal que tinha acabado de lhe provocar, e nisto ela dá-me a resposta mais bonita que podia ter dado: “Não, é que me lembraste muito o teu pai”.
11/09/2021
Onde andavas tu?
Em casa. Nesse tempo, eu era feita do material de uma bolha protectora. Tinha um bebé com um ano, que tinha acabado de almoçar e estava a deitá-lo para a sesta. Tinha uma menina com dois anos e meio, uma com quase cinco — que tinha rachado os queixos dias antes e não parava de pular (ainda hoje, minha cabrinha Mimi) — e uma com quase sete. O mundo mudava lá fora, mas, não fora o telefonema de uma comadre das minhas, e não teria sabido de nada. Desconheço por quanto tempo mais duraria a minha ignorância, mas estou certa que, se soubesse o que sei hoje, nunca teria deixado rebentar a querida bolha.
(Curiosamente, o dia 11 de Setembro estava — e está — gravado no meu coração como a DPP de abertura e encerramento da minha maternidade.)
05/12/2019
de como a ausência pode ser tão permanente como a presença
09/06/2019
estou de Junho
05/05/2019
as pessoas nunca morrem
14/03/2019
se eu fizesse uma tatuagem
22/02/2019
o amor também pode ser de barro
28/12/2018
um abraço de (minha) mãe
03/12/2018
Da minha janela vejo a minha mãe
Vem-me à memória que me contava dos dias em que, ao passear-me no carrinho, eu ria para tudo. Dava como exemplo as folhas das árvores a mexer ao vento, e os meus pequenos braços agitando-se de contentamento, ao ritmo dos galhos e das folhas, numa dança serena entre duas inocências semelhantes. Assim está a árvore vermelha agora, acenando-me os braços acolhedores, vestida com o vestido vermelho da minha mãe.
23/11/2018
saudades vivas
17/10/2018
Agora nunca mais morria uma mãe
24/09/2018
Bola prá frente
09/09/2018
~
12/08/2018
Dancei, mãe
19/07/2018
podia ser (a) minha mãe
19/03/2018
o odor do amor
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.


