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04/12/2025

Ao sétimo dia, Deus descansou

Fui à missa de sétimo dia da mãe da minha amiga maior — embora seja pequeníssima —, e mais antiga — ela com dez anos, eu quase, quase a fazê-los —, já um pouco menos triste e desolada do que na semana anterior. 

Começou logo mal: tínhamos — ela e respectiva família, uma outra amiga (amiga de amiga, óbvio que logo ficámos amigas), uma estabanada que anda no mesmo ginásio do que eu — as primeiras dez aulas de dança, fê-las de calças de bombazine castanhas, cabelo num quico espetado derivados do ondulado cerrado do cabelo, que venho a saber pertencer ao mesmo local de trabalho da minha quase-irmã, e eu — ficado no banco da frente, como próximos da falecida. Quando o padre apareceu, nós, que éramos seis mulheres (e um homem) naquela fileira, proferimos um "Oooh!" em uníssono, tal e qual fôramos o coro da igreja, simplesmente porque o padre era giro que dói. Ele começou a rezar, assim com um ar blasé, julgo que não prestámos grande atenção ao ritual, mas até aí tudo bem. 

Veio o momento da comunhão, ao qual não comparecemos, pois já estávamos todas em pecado e nenhuma de nós recentemente confessada (e ainda bem para o padre, coitado, horas e horas de prosa em monólogo). Desde o Senhor Covid, mudaram alguns costumes na missa: o padre já não mete a hóstia na boca dos fiéis, e sim nas mãos postas em concha. Percebo o alívio dos padres nessa mudança, que deviam lavar as mãos com criolina no fim da eucaristia, e assim já só precisam de lixívia. Também mudou aquela parte do beijinho, que era uma nojeira, em criança deixavam-me as bochechas a escorrer baba e eu, tão educadinha, em vez de me limpar ao ombro do casaco, permitia aquele abuso de menor. Agora é um abracinho, mas não há cá esfrega-esfrega, é mais o abraço de lado, à americana. Os comungantes puseram-se em filinha-pirilau, todos a receber a hóstia nas duas mãos, até que veio uma jovem magrinha que se ajoelhou e recebeu o sacramento na boca. Uns passos adiante, vem outro jovem, vagamente abastecido de chichas, atira com os dois joelhos para o chão, pondo a língua de fora. A língua dele só era comparável a um bife da vazia, uma coisa enorme e larguíssima. Quase posso jurar que o padre se sobressaltou com tamanho naco de carne, capaz de matar a fome a uma família numerosa. Nesse momento, perguntei à do lado: "O que é aquilo?", e estoirámos as duas numa risada tão boa que acho que estamos perdoadas de pecados vários até à sétima geração. O mesmo não pensará a senhora que ia e vinha de tirar e guardar as hóstias, pois prostrou-se diante de nós, a anca toda para um dos lados, a mastigar a hóstia como se fosse um cowboy a mascar tabaco. Não a tememos. No fundo, e apesar de não abençoadas com o santo pão, talvez fôssemos das almas mais puras que ali se encontravam. 

Talvez.


07/10/2025

A pagadora de promessas

Findas que estavam umas mini-férias (na verdade, são todas mini, até as que duram meses, se é que isso existe) com a minha primogénita, escapadela que damos desde há quatro anos, fomos proceder ao check-out. Pedimos cartões para o comboio de acesso à praia e um lugar no estacionamento mais perto do cais, para que pudéssemos gozar mais meio dia de praia. Já tínhamos estacionado quando a criança me lembrou que eu deixara o almoço no apartamento. Por uma vez, não queríamos demorar no processo de ir a um dos restaurantes dali, pois tínhamos o tempo contado para fazer a viagem ainda de dia. Eu ai, que me esqueci no frigorífico, ela, ai, não faz mal, eu vou lá. Palmilhou dali até à recepção (muitos metros), da recepção ao apartamento (mais muitos metros), do apartamento à recepção (ainda mais muitos metros), da recepção até mim (tanto metro percorrido por causa da cabeça de ervilha da progenitora).

Íamos nós até um bocadinho lampeiras por aí afora no comboio, quando eu olho para o escancarado saco dela e vejo o cartão a resvalar, ou melhor, a derramar como água para a areia que envolve a zona dos carris. Ainda estava toldada por aquela sensação de estar em dívida para com minha petiza. Pus-me então em pé e gritei: “Motorista!”, que era para o homem puxar do freio. Repeti e ele nada. Hei-de experimentar “comandante”, ou “vossa altiveza” quando lá voltar. Achei prudente não me atirar do comboio abaixo, não fosse aquilo agarrar-me pelos pés e cortar-me as unhas para lá do sabugo, ou assim. E a máquina avançava, avançava. Lembrei-me então que, pelo meio do caminho, aí a uns setecentos metros da partida, ela teria que parar, para dar passagem à do sentido contrário. E parou. E eu pulei do comboio e descalcei as chanatas. Então, desatei a correr pelo cimento e pedras com bolinhas até ao sítio onde poderia estar o cartão. Não estava, mas vislumbrei um varredor de areia ao fundo, corri para ele, estanhado, mil dentes — ou mil falhas? — “Ah, é você?”, a querer conversa parva, só lhe disse: “Saudinha” e zás, de volta. O meu vestido de flores e folhos, um jardim em movimento, os meus cabelos ondulados cheios de vida, palavra que nunca me custou tão pouco correr mais mil e trezentos metros. Sentia-me etérea e potente, capaz de todos os meus impossíveis. Provavelmente, alguém viu apenas uma idosa desvairada, descalça num pavimento inacreditável, eventualmente a ter um surto em bom. Eu vi o mar, mergulhei por necessidade animal e garanto que, se nesse dia não me nasceram guelras, então também já não vão nascer nunca.


18/12/2024

Eu tenho problemas com tudo # 39

Tinha um exame médico para fazer, para o qual, segundo a funcionária que me atendeu, devia ir com o intestino limpo, uma vez que, dessa forma, a senhora doutora vê melhor as imagens, sem nada que impeça. Perguntei: Blocos, calhaus?, rimos muito e desligámos. O exame não é intestinal nem estomacal, esta da tripa limpa é novidade, mas quero lá saber, façam-me o raio do coiso e não nos aborreçamos mutuamente.

Entro na farmácia, que frequento muito mais vezes do que gostaria, mas também é, e talvez por isso, um terreno meu, onde me sinto completamente em casa, verifico que estão quatro pessoas acercadas do balcão, duas são casal e já estão a ir-se embora, uma outra está a ser atendida e, num dos extremos, um senhor de idade, aparentemente à espera de alguém, enrolando em tubo um calendário de parede. Sou atendida na ponta oposta do balcão e digo a Jorge, pelo canto da boca: “Microlax, se faz favor”. Ele, exactamente da mesma forma, confirma: “Microlax?”. E eu, no mesmo tom: “Microlax. É que vou fazer um exame e tenho que levar os canos desentupidos, não sei porquê”. 

Nisto, o senhor que enrolava o calendário intromete-se no assunto e pergunta, alto e em excelente som, de modo a que se ouça, pelo menos, até à porta: “A senhora vai fazer um exame ao cocó?”. 

Considero que tenho muita sorte em ter um superpoder de improviso, encaixe, humor e abstracção, nomeadamente para o inesperado e o non sense. Primeiro gargalhei e imediatamente respondi, no mesmo tom: “Não senhor, não vou fazer um exame ao cocó”. Ana Teresa, aflitíssima, socorreu-me assim: “É para o teu filho mais novo, não é?”. “Não, é para o meu cão que, coitado, é muito preso. Não sei se é da trela ou das grades na janela”.


22/11/2022

Qualquer dia metem-me uma camisa de forças

Foi a segunda consulta com o dentista dos olhos bonitos desde que acabei os tratamentos. Isto, para explicar por que é que fui lá duas vezes no espaço de um mês e meio: havia-me queixado de que um dos dentes de baixo estava a sair do lugar onde os ferros que ele me pôs o tinham colocado e ele disse-me que me ia pôr um bracket. Por acaso, estudei a questão no Google, a ver se percebia como é que se prende um único bracket e não tirei conclusão nenhuma, pois tal possibilidade nem sequer existe. Mas siga.

(Eu sou aquela pessoa que tirou o aparelho semanas antes de começar uma pandemia a nível mundial e se viu obrigada a usar máscara.)

O dentista tinha-me pedido que levasse todos os aparelhos de contenção que tivesse em casa, e eu assim fiz: levei os três que parti (e ele desistiu de me fazer o quarto, ao contrário de cônjuge noutro sector) e o do branqueamento, todos muito aconchegados numa caixa bonita e cor-de-rosa que alguém no hospital se viu obrigado a oferecer-me em tempos, quando estive internada com covid e me deitaram o aparelho para o lixo. Após pé de vento (meu) e buscas intermináveis (delas) no lixo do pequeno-almoço de um piso inteiro, sei lá se misturado com fraldas, lá apareceu o meu aparelho, que eu só sei que era mesmo o meu porque me servia. Entretanto, fora desinfectado, a acreditar no que disse a responsável que mo devolveu. Mas siga.

Ia aqui a vítima de todos os improváveis muito bem a caminhar no passeio, cai-lhe a m. da caixa para o chão, abre-se e espalham-se todos os aparelhos na calçada portuguesa. Que contratempo, andar ali de rabo para o ar a pescar transparências de plástico, uma em cada ponta do passeio. Isto que sirva de exemplo aos donos dos cães: por piedade, apanhem sempre os dejectos dos vossos bichos, porque pode vir uma idosa e deixar cair a placa em cima de um.

Chegada à cadeira do dentista, ele pede a Sónia “Compósito” (que mais não é do que Supercola-3, passe a publicidade) e desata a espalhar cola em cinco dentes de baixo. Dos meus, entenda-se. Nisto, toca o telefone e ele faz o que nunca fez: vai para a sala ao lado atender. (Passarinh@ nov@?) Senti tanta liberdade que resolvi fechar a boca, não ia ficar ali feita boneca insuflável à espera que ele voltasse. Foi o horror: o “compósito” colou-se-me aos dentes de cima, por dentro, e à língua. Além disso, sabe a quê? Supercola, gasolina, benzovac? Sei que, no pânico, clamei por Sónia, só assim a mexer os lábios, que imediatamente me socorreu, qual bombeiro, de aspirador e jacto em punho, e me aspirou, enquanto ejectava água, os dentes e a língua. Quando o dentista regressou à sala, estava eu de língua de fora e Sónia (que, como sabem, tem o desejo inconfesso de me assassinar através da aspiração das minhas amígdalas) de aspirador em punho a aspirar-ma. 

(Acho que, sem querer, criei uma nova dieta. Vou registar a patente.)

Saí de lá com os cinco brackets e pedi elásticos cor-de-rosa: laço rosa, de Outubro rosa.


29/12/2021

Eu tenho problemas com médicos # 26

Logo havia de me sair à rifa um oncologista giro. Ou melhor, assim como o dentista, com uns olhos bonitos. O resto, enfim, a máscara mascara, mas não há-de piorar o todo. Ainda por cima, gosta de mim: acredita na minha cura, exulta quando vem um exame bom — o resultado do PET deu direito a um meio abraço (desses em que cada pessoa dá só um braço, portanto, um abrá), o que, no meu caso, foi difícil corresponder, já que o humano goza para aí de 1,90 metros de lonjura e não me pareceu bem trepar por ali acima —, que se ri das minhas piadas estafadas e quase inconvenientes (e sim, utilizei a imagem do “parto da vaca” para descrever a resolução da obstipação), enfim, só falta mesmo tratar-me de graça. Hah, não quero. Basta que me trate com graça. Ave Maria.

Recebeu-me na véspera de Natal em consulta, exactamente como se fosse o dia mais vulgar do ano. Vesti um vestido preto de flores cor-de-rosa, zero elastano (este pormenor interessa lá mais para a frente), com um pequeno fecho a apertar de lado, sapatos de salto alto, e levava na cabeça o ainda meu cabelo, lavado e encaracolado como um pufe. Era a minha roupa de Natal, não para ir fazer análises (em jejum…), teste de covid e ida ao médico. Mas ia vaidosa, apesar de esfomeada, uma vez que não tive tempo de tomar o pequeno-almoço entre tantas démarches. 

Só nunca imaginava eu ouvi-lo dizer “Sente-se ali”, apontando com a cabeça para a marquesa, “que eu quero vê-la”. Era a segunda consulta pré-tratamento, na primeira não tinha havido mais do que diálogo, então achei que aquela iria ser igual. Bem mandada, sentei-me na dita e fiquei a sorrir, quietinha. Pode ter sido da hipoglicémia. O médico a olhar para mim e eu sentada na marquesa, a sorrir atrás de uma máscara cor-de-rosa. Devo ser parva.

Teve, então, que apontar para o peito e explicar que tinha que mo observar. Foi aí que me fiz cara, explicando que tinha que despir o vestido todo, uma vez que não era desses de baixar pelo decote até à cintura. Em suma, não tive outro remédio senão ficar de collants, sentada na marquesa, estúpida e nesnudada. Nunca acerto com a merda da indumentária, já para as festas é o mesmo desassossego. 

Hei-de experimentar o fato-macaco, fecho eclair à frente e tudo. Festas incluídas.


19/10/2021

Gostaria muito de ser diferente, e não esta troca-o-passo que sou

Um bocadinho também troca-tintas, mas isso agora não é para aqui chamado.
Tudo começou porque tinha o cartão de entrada no ginásio no porta-luvas de Rosinha e não me lembrei de o meter no saco quando saí do carro. Estava a uns bons cento e cinquenta metros do recinto, saltos altos, eu toda proa a abanar a popa até lá. Só à porta me apercebi da falta do cartão, pedi à entrada um de empréstimo, lá o jovem foi imediato na prestação, mas também naquilo que entendi como uma praticamente óbvia ameaça, elucidando-me de que iria ficar “penalizada” por não sei quanto tempo, impossibilitada de marcar aulas, atirada para a valeta dos utentes de segunda categoria, só faltou dizer-me que teria que ser praxada na sala de treino, encher flexões com um gorilão suado e tatuado às cavalitas até suspirar os pulmões para um tapete. Eu ai que não gosto de ameaças, sei inclusive que configuram um crime p.p. no Código dos Cães (assim conhecido porque todas as normas começam pela palavra “quem”), olho para o relógio e restam-me uns impossíveis (sobretudo com aquelas tamancas calçadas) doze minutos para chegar ao carro e voltar. Acometida por uma luminária, calço meus ténis (ou sapatilhas, chiu), arranco o vestido mesmo à super-herói, dou graças ao Senhor por já ir equipada por baixo, isto tudo a um tempo, fecho o cacifo com o cartão do ginásio e dou corda aos sapatos, que é como quem diz, saí e voltei como se tivesse tomado aquela bebida do boi encarnado: velocíssima. No regresso, de tal qualidade fora o sprint, ainda me sobravam quatro minutos até a aula começar, que aloquei mentalmente para ir fazer um bom chichi, encher a garrafa de água e ir aquecer os tornozelos e as nalgas para a sala. 
Entreguei o cartão ao balcão, e foi aqui que me forniquei. Não sei o que é que me passou pelo presunto, mas achei, com certeza, que o cacifo ia adivinhar que o meu cartão era o correcto para o abrir, apesar de o ter fechado com um outro. E é claro que não abriu. 
Lá corri de volta à portaria, pedi que me devolvessem o cartão emprestado, mas a azeda que estava de plantão naquele momento mostrou-me onde o tinha posto: numa caixa cheia de cartões, todos iguaizinhos uns aos outros, como filhos da mesma mãe. Entrementes, o meu tempo, forças, paciência e nervos a esvairem-se-me poros afora.
E foi assim que fiz uma aula de dança apertadinha para fazer chichi, porém, e em compensação, sem uma gota de água para beber. 

(Como é que abri o cacifo? Fácil: com as pestanas. No fim da aula, fui ao balcão expor o assunto que ali me levava, e o rapaz que me atendeu deu-me uma chave-mestra. Coisa que a azeda não podia ter feito, está bem de ver. Porquê? Vamos lá todos sentar aqui no chão um bocadinho a meditar nas razões dela.)

13/11/2020

Insondáveis cá meus

Arre, égua, que não ponho aqui os sapatos de salto alto há um mês, precisa e literalmente. 

Então, outro dia fui comprar coisas e deixei Rosinha, minha canoa, num parque aberto ao exterior e às intempéries da vida, daqueles que têm uma coluna dispensadora de cartões à entrada e uma caixa de pagamento à saída, que antecede outra coluna, onde devemos esfregar o cartão num coiso óptico, para que a cancela abra e possamos sair dali para fora (e também onde se deu este bocado da minha vida, que é dos tais que porra, gostaria de pensar que nunca ocorreram, quanto mais vir para aqui registá-los para a posteriori). Isto é de uma ginástica mental que havia de ser elevada a modalidade olímpica.

Bom, paguei o valor que a caixa de pagamento me indicava (local onde há poucas semanas tivera um desaguisado com uma senhora pedinte, a propósito de estar com a máscara na boca, quase dentro dela), meti-me em Rosinha, dirigimo-nos para a cancela, abri o vidro, meti a manita de fora, fiz tudo como manda o figurino, mas não, porque as bruxas me andam no encalce, e nada pode ser assim tão linear na minha existência: deixei cair o cartão para o chão. Pronto, travão de mão, porta aberta, Rosinha a piar, pi-pi-pi, eu fora do carro, o terror: no chão, cerca de dez bilhetes, todos iguais ao que havia de ter sido meu e eu, inadvertidamente, deitara fora. Neste momento, claro que Murphy interveio e obviamente que já havia dois carros atrás da minha canoa. Fiz sinal ao de trás, que havia perdido o bilhete e não sabia qual deles era o meu - isto tudo em linguagem gestual, aquele senhor que acompanha a senhora ministra e a senhora directora-geral é um menino ao pé de mim -, mas o homem estava, sei lá eu, aflitinho para cagar, cheio de pressa, e começou logo a bufar, o que só piorou a minha situação, por me ter deixado assaz enervada. Para já, fiquei logo desgrenhada, ou a sentir-me assim. Era casaco para um lado, cabelos para o outro, a mala a tiracolo (pois que a experiência me diz que jamais volte a sair da canoa sem levar as chaves comigo), e os dez bilhetes no chão, todos iguais. Pus-me então a experimentá-los um a um, enquanto vociferava contra a minha vida. Apercebi-me que quase metade (cerca de quatro, portanto) estavam molhados e colados ao chão, derivados à chuva que caíra não sei quando. Mesmo assim, experimentei esses lá no sensor óptico, muito moles e a ameaçarem rasgar-se, uma deprimência pegada pegajosa. No entanto, não havia tentativa, reza ou força mental hercúlea que elevasse a p. da trave para eu sair dali. O de trás sugeriu-me aos berros que fizesse marcha-atrás (para os cerca de cinquenta centímetros que iria conseguir para a manobra, caso ele se esborrachasse contra o de trás dele) e fosse pedir ajuda à caixa de pagamento, e eu desesperei. Já tinha experimentado todos os bilhetes que estavam no chão, nenhum abriu lá o Sésamo, e pensei que ir falar para uma máquina, naquele momento da minha vida, seria o equivalente a pedirem-me para me lançar de para-pente sobre o mar de Dezembro. Entrei em Rosinha, dei aquele suspiro de quem já nada espera que não seja mais um montinho de merda, olhei para a minha mão esquerda e tinha lá um bilhete. Experimentei-o, só naquela, e ele abriu a cancela. 

(Não, não tive sempre aquele bilhete na mão. Foi precisamente com a esquerda que apanhei todos os bilhetes do chão e os experimentei no sensor. De duas, uma: ou aquele foi o último que apanhei e ainda não o tinha experimentado, ou - muito mais provável - quem me abriu a cancela foi o senhor que está fechado dentro da caixa de pagamento, porque o meu bilhete, simplesmente, foi engolido por Nárnia.)

26/06/2019

Baila bachata

Em plenos treinos, aprendendo uma dança nova: la bachata. 
Então, não atinava com o passo do refrão. Toca no chão com o pé direito, um-dois-três enquanto vira, toca no chão com o pé esquerdo e repete. Toda eu era trocas no toca, acertando o passo no resto da música, chegada ao refrão - só a parte principal da dança, convenhamos - e troca e troca.
Até que. Ainda a música não soava no ar, e aquilo saiu-me assim, como se já soubesse o passo do refrão há que tempos. Estava na cabeça, não me chegava aos pés. Ontem foi o clic, da cabeça aos pés.


Faz-me isto lembrar um problema social que vivi na infância que, como todos os pequenos traumas, ficou para sempre a bailar-me na cabeça, isto quase literalmente: quando eu era uma criança, havia música de fundo nos supermercados (também se fumava lá dentro, eram outros tempos de país em vias de desenvolvimento, mas nem por isso menos feliz). Eu ia, ou melhor, era levada, e fazia um imenso esforço para não desatar a dançar nos corredores, entre latas e pacotes de detergente. (Eram aos pacotes de papelão, nada cá do malfadado plástico.) Normalmente, não conseguia levar adiante os meus intentos, porque bastava distrair-me, e lá ia eu a esvoaçar, rodopiante, até à outra ponta do sector, ou até encontrar uma barreira física qualquer. (De fraldas, não havia de ser com certeza, pois as fraldas, naquele tempo, eram de pano, cá nada destes químicos que mais tarde impingimos aos nossos filhos e à atmosfera.) Depois houve ali um tempo em que não fui ao supermercado, por coincidência, ou decisão materna, que havia de estar farta de ir apanhar a bailareca ao fundo do estabelecimento, envergonhada por, mais uma vez, ter perdido o controle derivados à música. (Não foi isso de certeza, a minha mãe era a pessoa mais low profile para essas coisas, o mais certo seria até achar graça.) Acredito que foi mesmo porque não calhou. Quando lá voltei, já naquela fase espigadota em que somos uma crisálida, ou lá o que é (nem lagarta nem borboleta), sentindo-me senhora do meu nariz e da minha vontade, percorri a distância que distava entre a minha casa e o dito mercado, a debitar mentalmente um mantra, "Não vou dançar, não vou dançar, não vou dançar", entrei, toda eu convicções e autodeterminação, ouvi a música, toda eu mãos e pés juntos, parecia uma louva-a-Deus concentradíssima, aguentei o impulso sabe aquele a quem louvava a que penas, até que. 
...
Não sei como foi aquilo, devo ter-me distraído da promessa, posso ter tido uma branca, sei lá.
Sei que "acordei", e, enquanto a minha mãe e a minha irmã escolhiam coisas numa prateleira, já eu rodopiava por ali, tolhida de vergonha, achincalhada pela minha própria fraqueza e incapacidade de resistir a um passinho de dança. 
Isto até pode ser uma doença psiquiátrica com um nome estrambólico e eu não sei.

19/06/2019

Aprendam comigo, que eu não duro sempre. Só mole.

Pois, fui à Feira do Livro, e acabou por acontecer duas vezes: a primeira já estava assim mentalmente programada desde que o evento abrira as portas que não tem: à noite, rápido, rápido, direitinha à Dom Quixote para adquirir todos os meus Antónios* que pudesse carregar sem sobrecarregar a conta bancária, essa grande meretriz que emagrece sem grande esforço de forma absolutamente invejável. Trouxe apenas dois, não porque me faltassem as forças para mais, mas porque já expliquei. Ainda por cima, a casa onde habito habitualmente, ao contrário da alma que me habita a mim, não é grande, e qualquer dia estou deitada sobre livros, qual místico da cama de pregos, só que sem dor. A segunda vez que lá fui, fi-lo com tempo, apesar de o da Feira se estar a esgotar, pois fui no último dia. Percorri aquilo tudo de lés a lés, que é como quem diz, de cima a baixo e depois de baixo a cima. (Hã? Muita bom, não ter dado aquele enganozinho do "acima" e "abaixo". São muitos anos, isto.) Ora, conforme é sabido, a Feira admite apenas dois climas: ou chuva, ou um sol a pino que não dá para perceber. Deve ser da inclinação, ou então sou só eu que sofro. Como naquele dia estava calor e eu hei-de ter achado uma ideia brilhante ir de t-shirt preta e calças de ganga escuras, levei com a chapa grelhadeira todo o caminho, principalmente nas duas vezes que subi, tipo em escala ascendente, aquele passeio dos alegres intelectuais assim como eu. Portanto, enchi-me da canícula. 
Isto tudo para explicar um fenómeno da Química, que é praticamente uma metáfora da minha vida toda.
Acerquei-me ali de uma roulote que vendia beberagens, apercebi-me, enquanto esperava a minha vez, que havia umas palhinhas feitas de massa crua, e vai de pedir uma para enfiar na lata do Seven Up, isto tudo armada em ecológica da pegada verde. Vi a senhora tirar a dita lata do frigorífico, pelo que não foi agitada, sequer estava deitada (a lata, não a senhora), entregou-ma, e eu zás na argola daquilo. Abri a lata, tudo igual ao litro, e então meti a palhinha pelo buraco da coisa. E fssssssh, um vulcão de espuma sobre mim, que me atingiu a mala, os sapatos (o cinto não, porque não levava), o chão e um nico o orgulho. Era eu na Feira, onde todos se vão cultivar e pavonear, a segurar uma lata que cuspia espuma. Parecia do circo Chen, eu.
Portanto, recapitulando: massa fresca mais bebida com gás, é igual a festa da espuma.
Há uns anos, alguém descobriu um fenómeno semelhante com a Coca-Cola e os Mentos. Agora descobri eu este. Quase de certeza que o resultado é igual com qualquer bebida gaseificada e qualquer tipo de massa. Quando estiver aborrecida e sem nada para fazer, hei-de experimentar com massa de letrinhas e champanhe. Depois ponho-me no Youtube e fico rica, para poder ir à Feira para o ano, comprar todos os Antónios que ainda me faltam. 

* Lobo Antunes (claro).

27/05/2019

Ando indocumentada

É verdade: de há duas semanas para cá, ando ilegal. Tenho o meu bilhete de identidade de cidadão nacional, vulgo cartão de cidadão europeu, caducado. Passado da validade, mais ainda do que eu. Expirou (Santinho!). Tem sido a minha pequena irreverência, a minha rebeldia à maluca, o eu sentir-me um nico marginal, quase uma delinquente.
Aconteceu que a pessoa humana, tal como milhares de concidadãos e concidadãs, tinha uma data de apodrecimento do coiso para os meses de Março, Abril e Maio de 2019. As notícias que de lá vinham - provindas de quem tentou a renovação antes de mim - eram de algo de semelhante ao apocalipse elevado ao serviço público. Coisas com senhas que, afinal, não garantem a vez aos humanos, chusmas de gentes que se faz valer de prioridades muita malucas (ainda vou escrever um post sobre o trio que empurra o carrinho da criança elevador adentro e gozam todos da prioridade), funcionários que vão tomar café de meia em meia hora, tempos de atendimento para lá da morte lenta, filas gigantescas em caracol, em espiral e em linha recta, a darem a volta ao bilhar grande. 
E porque não me apetece baixar a varina três vezes (mínimo) no mesmo dia, ora porque vejo um velho com um latagão de 18 anos ao colo, ora porque me passo com o do balcão derivados à quantidade de vezes que ele interrompe o serviço para ir defecar, ora porque tenho um ataque de pernas inquietas e já ninguém me segura sentada, eu sei lá, toda uma vida de transtornos que só eu sei, decidi que amanhã madrugo, atiro-me da cama abaixo ainda quase de noite e percorro oitenta quilómetros de estrada, mas vou fazer o meu cartão novo a outra cidade deste país. 
(É claro que me preocupa o facto de chegar lá ensonada e depois andar dez anos - serão dez, sinto-o - com a mesma cara de bêbada olheirenta no meu documento. Mas tudo por deslargar a vida boémia em que ando há duas semanas.)
(E preocupa-me se me mandarem sorrir. Ainda tenho o meu aparelho, do qual não rezará a história daqui a dez anos.)
(E também me preocupa se me quiserem medir. E se encolhi?) (E se cresci?) (Não saberei lidar com tais mudanças.)
(E aquela cena da assinatura com a caneta óptica. Pareço uma analfabeta a assinar.) (Talvez assine de cruz.)
(Não vou ter tempo de lavar o cabelo antes de ir. Vai assim, deslavado, que se fornique.)
Era capaz de ser melhor dormir até à hora de sempre e depois enfrentar as bichas no sossego da minha cidade.

23/05/2019

Mensagens do cosmos # 2

Recebo-as eu amiúde. 
Por exemplo, outro dia fui à boutique ver em que é que paravam as modas - literalmente -, e deparei-me com uma blusa/t-shirt branca que eh, não era bonita nem era feia, mas, como estava cheia de tempo para perder, era fim-de-semana e nem sequer estava soalheiro, fui prová-la, isto em termos de vestir e remirar no espelho, que a fome não era assim tanta. Era uma rica peça de roupa, decote em V (eu costumo chamar-lhe decote em bico, mas há quem leve a peito) e um laçarote mais para o nó de marinheiro no vértice do V, passe a ventania deste pleonasmo que, não o sendo, já o parece. É importante dizer-se que ia acompanhada por uma das minhas crianças, que se dirigira a outro provador, pelo que ia salvaguardada pela possibilidade de solicitar uma opinião abalizada e, convenhamos, sincera. (Diz que é no fundo de uma garrafa que se encontra a verdade, mas eu continuo a defender que é na boca dos filhos.) Pois que acabara de vestir a blusa e tudo me parecia errado nela. Porém, como sou uma pessoa de uma modéstia retumbante, qual Carmelita Descalça, entendi que o problema era eu e não ela. Ainda assim e talvez por isso, saí do provador e perguntei, alto o suficiente para que a criança me ouvisse, "Olha lá, qual é que é o problema desta blusa?". Quem me deu a resposta foi a funcionária da loja, que ali se encontrava a dobrar roupas: "A senhora tem a blusa ao contrário, o laço é para trás". Então está bem, lá reentrei no provador e troquei a ordem à coisa. No entanto, troquei-a tão bem trocada, que a vesti do avesso, embora com o laço para as costas, toda contrariada e a sentir que algo estava muito errado naquela situação. Depois percebi: era o cosmos a dizer-me "Não leves isso, fica-te mal e é horrível."
- Então, não gostou da blusa?
- Ela é que não gostou de mim. Depois experimentei-a do avesso e ficava-me tão mal como com o laço para a frente.

12/05/2019

Chamando os bois pelo nome. Nespresso!

Dou-me mal ali. Não há vez, ultimamente, em que não tenha um dezaguisado. E o problema está lá, não sou eu. 
Se a minha vida não dava para o argumento de um filme de terror surrealista pejado de bizarrias, então também não serve para mais nada.
Verifico pela hora de entrada impressa na minha senha de vez que estou ali há dez minutos sem que as três pessoas que ocupam os três balcões de atendimento abertos tenham acabado o seu aviamento: um casal em que ela é neutra e ele é daqueles carecas que não têm cabelo (Lili Caneças, és grande!), mas têm pêlo espesso a partir da traseira da cabeça, que lhes desce nuca abaixo e se enfia pelos colarinhos quero lá saber até onde; um estrangeiro que tem milhares de assuntos a tratar na Boutique, a avaliar pelo modo reunite que adoptou; uma senhora entradota, magra, seca, estilo senhora dona marquesa, que degusta um cafezinho no próprio balcão de atendimento, que isso do bar é para a plebe (como a compreendo, titi). Bem, sou apenas chamada ao décimo-quarto minuto, e porque, entretanto, aconteceram duas desistências (suponho que de duas pessoas assim mais normais como eu, que foram deprimir em posição fetal / praticar harakiri para baixo do balcão do bar). A registar que, entre o décimo e o décimo-quarto minuto, o casal neutra-careca cabeludo acabou de ser atendido, e aproveitou a saída do funcionário para lhes ir buscar a encomenda lá àquele buraco/ mina/ paiol/ poço onde agora vão buscar os saquinhos, e desatou aos linguados, como se estivessem na sua alegre casinha, tão modesta quanto eles, em tudo lembrando Ordralfabetix, o peixeiro; o estrangeiro agarrou em dois sacos, um contendo uma máquina nova e outro milhares de cápsulas, e deu um bacalhau à que o atendeu; a senhora dona marquesa acabou de sorver a beberagem e pirou-se sem levar nada nem coisa nenhuma, sequer um peixe.
Nos entrementes, aparecera por ali um casaleco daqueles em que ambos usam mochila, montes de sacos de lojas e um petiz de quatro anos ao colo dela, aquele bebé que justifica a ainda e para sempre proeminente barriga, que passa por gravidez para quem não sabe. Tiraram senha de prioritários, ela passou o rapaz para os braços dele e ele desandou dali para fora com a justificação da prioridade pelo mão e pelo seu próprio pé. Ela foi atendida e ainda se deu à lata de ir beber calmamente a bica ao balcão da degustação.
Olhem, eu ia-me dando uma coisa. É claro que quem levou comigo foi o desgraçado que me atendeu. Tudo em voz suave, para não doer tanto e não perder a razão (estou uma senhora, eu):
- Contei dez minutos sem que mudasse a vez das três pessoas que já estavam a ser atendidas quando aqui cheguei. E há também aquela senhora do bebé enorme, que está a ser atendida com uma prioridade da qual não pode fazer-se valer. Garanto-lhe que, para a próxima que aqui vier, tiro senha de prioritária e ai de quem duvide da minha doença. Vou fazer como as malucas, que dizem que "a minha doença não se vê".
Pronto, e saí, para aí ao cabo de quinze minutos de ali ter entrado (sim, porque o meu atendimento leva um escasso minuto). Fica o aviso.


10/04/2019

Hoje acordei magra

E então fiz a coisa mais blogger que me ocorreu no momento, que foi tirar uma autoselfie, em clara blogger-influencer-position, para mais tarde ou mais cedo recordar o momento, quiçá irrepetível. 


Perdoe-se-me a cara de desenterrada, que se deriva do facto já sobejamente conhecido e aqui publicitado, o cabelo em (ainda maior do que é costume) desalinho, mas lavara-o há pouco e ainda não lograra dominá-lo, o cenário dantesco em que ainda se encontravam os aposentos da magra - e já muito cortei eu, poupando-vos ainda à visão dos pés por arranjar, pois até cortei ali uns cotos -, mas também não possuo um elevador que me faça as vezes de estúdio fotográfico, o xnelo e tudo e tudo o mais. Mas deu-se que temi que a visão que estava a ter de mim mesma fosse fugaz como uma fuga de gás metano, e dei-me rapidamente à frugalidade da chapa, não fosse mais tarde ser acusada de algum delírio sem provas da efectiva magreza de que estava a ser protagonista. Neste momento, por exemplo, em que já almocei uma papa de arroz, uma banana e um iogurte, estou muito mais gorda, apesar de mais gira, pois o cabelo já tomou formas de gente e substituí o xnelo por umas meias muito confortáveis que vieram parar cá ao lar por obra e graça do espírito santo (não são de ninguém, ninguém as quer, provavelmente roubei-as inadvertidamente no ginásio, assim como me nasceu um sutiã na gaveta uma vez). 
Está bem que me desapareceu o rabo, mas, em compensação, desapareceu-me também a barriga. E, no fundo dos fundos, quem é que precisa de um rabo se, quando bate com ele no chão, lhe fica a doer da forma como ficou o meu, como se não houvessem nalgas nem amanhã?
Portanto, confirmo o que já suspeitava há uns anos a esta parte gaga: nada como uma caganeira em bom para nos pôr na linha. Quais dietas io-io, quais doutores da sabedoria endócrina, quais comprimidos do milagre, quais fechar a boca e passar fome. Era eu ser uma mulher de Ciências e isolava mas era o vírus da gastura, patenteava a coisa e vendia-o que nem pãezinhos. E depois comprava frascos. Frascos!
Está feita a minha quaresma, aleluia, irmãos.

(enviado por uma filha, algum dia tenho esta imaginação?)


08/04/2019

Já não bastava o coice que me autoinflingi nos quartos traseiros

Estava aqui a degustar um iogurte simples com açúcar e uma banana - das poucas iguarias que são permitidas a uma pessoa nas minhas circunstâncias -, após ter almoçado um puré de cenouras composto apenas por cenouras e duas colheres de arroz branco composto apenas por arroz branco, quando me pus a pensar nos zezinhos. 
Os zezinhos foram dois bonecos de borracha que a minha irmã e eu tivemos, oferecidos por alguém, talvez a mãe do primo Zeca, e que, isso sim, é certo, por serem muito parecidos com ele, foram ambos baptizados com esse nome, sem maiores buscas por originalidades ou diferenciações. Os nossos zezinhos eram iguaizinhos um ao outro, apenas diferindo nas cores do cabelo - o da minha irmã era loiro, o meu era ruivo - e do debrum do almofadão, um azul, o outro verde. De resto, estavam ambos deitados de lado, com a cabeça pousada no almofadão debruado, um dedo (creio que do pé) na boca (o que muito me aborrecia, pois não conseguia pôr chucha nenhuma ao meu) e a fralda branca a tapar as partes pudendas, mas que, apesar dela e sob ela, se presumia a presença e prova de um sexo masculino. Enfim, nós demos por garantido que os zezinhos eram dois meninos e, se não havíamos perdido tempo a encontrar-lhes nomes que os diferenciassem, menos ainda nos preocupámos com o género dos bonecos. E, já que eram integralmente de borracha, almofada incluída, entendemos por bem fazer deles nossos brinquedos de banho, que, na época, era comunitário, quantas vezes não com a cadela também, já que a alternativa que apresentávamos era a de não nos lavarmos de todo. Ora, os zezinhos tinham um pipo atrás das almofadas, que era por onde entrava água, que depois saía de esguicho. Conforme é sabido comummente, nada mais fantástico para uma criança metida numa banheira do que um boneco que esguiche. É claro que, à força de tanto entrar e sair água dos corpos dos zezinhos, um dia mais tarde encheram-se de bolor e foi-lhes o fim. Acho que se desfizeram, a borracha tem esse grande sentido de oportunidade. 
Assim estou eu há três dias, a esguichar por cima e por baixo tudo o que ingiro, seja água ou outra coisa qualquer mais sólida (mesmo que seja gelo, portanto), e só não apresento uma imagem mais gráfica de todo este cenário porque, parecendo que não, ainda sou uma senhora, e ele há limites. No entanto, um pensamento ilumina-me as horas mais negras: "É desta que fico magra". 
Vá lá a ver se não me encho de bolor e não me desfaço em pó.

04/04/2019

Cóccixada

Não existe uma fórmula correcta para contar isto. Ando para vir aqui desabafar há dois dias, desde a ocorrência, e não me sai um intróito que não pareça outra coisa, se vos confessar que caí da cama. A verdade nua e crua é que estava vestidíssima, foi a meio do dia, tudo assim muito pouco erótico. Fazia companhia a uma filha doente, deitei-me ao lado dela enquanto esperávamos o médico, e nem de repente, nem com a desculpa de atender o telemóvel, nem nada, apenas porque tinha que ser, virei-me para o lado e não me falhou o chão, antes pelo contrário: falhou-me a p. da cama, e olhem, deu-se. O trambolhão. A traulitada. Pois, não sei explicar. Tombei de maço, quedei-me no soalho, até me pareceu que a cama se elevou um bocadinho só para que eu caísse de mais alto. Eufemisticamente falando, bati fortemente com o cóccix no chão. A base da coluna. A cauda equina. O horror, a dor excruciante, o ridículo do sofrimento ao nível da rabeta. De que me servem as nalgas se depois, quando mais preciso delas, se encolhem, cobardes, e permitem que o osso se amarfanhe desta forma contra o pavimento? Deixei de ver a luz, o que, convenhamos, parecendo que não, é sempre bom sinal, o desmaio a advir, as pernas num formigueiro de térmitas, ai tu queres ver que vou ser a entrevadinha do bairro, que vai ter que explicar-se para todo o sempre que caí da cama e dei com a peida no chão?, mas como me apeteceu chorar e o meu organismo não consegue fazer tudo ao mesmo tempo, já não me apaguei, dei uma boa chorada e, quando o médico chegou, estava fina, apesar de ter a maquilhagem borrada e um andar um bocado estranho, quadril alçado e um tudo-nada coxinha.
Desde aí, dói. Dói andar, dói subir escadas, dói dançar, dói correr, dói a pessoa sentar-se, dói mais ainda quando se levanta. 
Mas quem é que nunca desceu do salto, quem foi? Ah, pois é. 


22/03/2019

A pessoa humana também se engana (e rima, ainda por cima) (again)

Este post é assim uma espécie de errata: onde se lê Singer, leia-se antes Singer.
A realidade é que o ser é livre de se enganar, hom'essa. 
Em relação ao post anterior: o Singer que vi no Car S.O.S. não era nada um Porsche. Era um clássico inglês, o Singer - marca, não modelo. Mas também se mantém quase tudo o que disse em relação ao Porsche, com a excepção de ser norte-americano. Mas até o nome do seu inventor era Singer, portanto encaixa tudo na perfeição e faz de conta que estes dois últimos posts não existiram. Mas contam na mesma. É que, a brincar, a brincar, lá enchi mais um chouriço.



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam2

15/03/2019

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 15

Comprei uma tesoura nova. A minha já tinha (e tem, graças a Deus, longe vá o agoiro, salvo seja três vezes, lagarto, lagarto, o diabo seja surdo) vinte e cinco anos, daqui a pouco vinte e seis, já havia cortado papel - erro! - algum cabelo - o que amola as tesouras, porém corta o cabelo em diagonais imperfeitas, é todo um mundo de franjas tortas -, de maneiras que já me roía mais os dedos do que cortava tecidos, e vamos assumir de uma vez por todas que eu sou dada à prenda doméstica, ao lavor feminino (calem-se as vozes dos histerismos feministas, mas também dos misóginos, cada um é para o que nasce, e deixem lá ficar os homenzinhos com os parafusos e as porcas, embora haja elementos como aqui a escritora de renome que vão a todas, ele é berbequim, ele é máquina de costura, não me metam um motor à frente, que vai tudo à frente, passe lá o pleonasmo, imagine-se este dom aplicado a um corta-relva ou a uma retroescavadora, tanto terreno por desbravar, tanta pomba assassinada), por isso era cortar panos todos os dias e, a cada um que passava, mais calejado o dedo médio da mão direita, parecia um tarado sexual destro, que era onde assentava a argola da tesoura, ainda por cima de inox, e eu tão alérgica, que também tenho cá os meus salamaleques de gaja.
Está bem que podia ter mandado amolar a velha e cansada tesoura, e vou-o, mas apeteceu-me esta mudança, deixem-me cá ter os meus caprichos mundanos.

(*)

Então, adquiri esta maravilha da técnica da desunião, linda e blue, aros de plástico - e até uma ceninha para poisar o dedito indicador, se reparardes -, com uma lâmina de fazer inveja à Rita Capadora lá do meu Alentejo. 
E estou feliz desde então, sendo que pretendo passar um fim-de-semana em grande estilo podador, aparador e trinchador com a minha nova boneca. 
(Chiu, pá... fogo.)

(*) Sim, temos noção - meu editor de imagem, meu fotógrafo particular e eu - que esta pic tem tudo para dar errado, uma vez que a posição do punho é tudo menos anatómica para quem tem uma tesoura, ainda por cima óptima, na mão. Foi todo um debate entre nós três, tirámos dezenas de chapas, e a produção é que decidiu por esta, porque, por um lado, viam-se as unhas quase bem pintadas, a pulseira de plástico, o cenário de barras a condizer com tudo, uma luz perfeita, enfim, toda uma mise en scène que convinha não desperdiçar. (Mentirosa é a prima e casou-se.)



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam6

03/01/2019

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 60

Estou tranquila, a fazer o meu pagamento nas caixas de self-service, 
(não é verdade, estou sempre a mil, simulando tragicamente mal uma calma que não possuo nem me possui a mim)
quando a senhora encarregue daquela área engraça comigo, vá-se lá perceber porquê,
(uma pobre mulherzinha, cheia de nervos e pressa para ir sabe-se lá onde, tipo coelho da Alice, as compras pic-pic-pic na leitura óptica, a máquina a encravar, "Por favor, aguarde pela assistente", "Olhe, por favor, diz aqui para aguardar, não sei o que é que esta tem hoje, acho que embirra comigo, talvez devesse mudar de máquina, esta minha vida é um desassossego, mais valia ter ido para a fila, que era capaz de me despachar mais depressa", a assistente a vir em socorro, a tocar numas quantas teclas e a máquina a respirar fundo)
(ou sou eu?)
"Por favor, continue a sua compra"
(Tão educada, a máquina, começa todas as frases por "por favor")
"Por favor, insira o seu cartão"
("Por favor, não saia sem pagar")
e vai a assistente e oferece-me uma garrafa de um litro e meio de água, daquela marca que devemos evitar nos velórios [a piada não é minha], porque "um senhor pagou-a e não a quis levar, tem aqui um pequeno defeito na tampa", "Ai, dê cá, a cavalo dado não se olha o dente", mal eu ainda sabia o quanto havia de me arrepender desta mania de seguir os ditames dos ditados. 
Saco cheio até transbordar, na outra mão mais uns itens - dois sacos de Doritos (don't ask), uma embalagem de postas de salmão para o jantarinho do lar, um saco de cenouras (que eu até parece que tenho coelhos em casa, vão-se aos quilos, mais valia ter uma horta na varanda) -, e a garrafa grátis sob um dos braços, vulgo na axila. 
Havia percorrido o quê? Cerca de quatro metros e meio, mais centímetro, menos centímetro, quando me apercebo de que estou a tomar um duche em público, apesar e sobretudo de ter um sobretudo vestido sobre o vestido. A garrafa jorrava placida e candidamente algumas gotículas sobre a minha manga, e eu, incapaz de parar, pousar as tralhas e deitar fora a magana, desci toda a rampa de acesso ao carro com a estúpida a cuspir-me o casaco todo, tendo lá chegado com a manga encharcada, porém a garrafa inteira. Coloquei-a de pé no chão da viatura, mas ela desmaiou logo ao primeiro arranque, e babou-me o tapete de Rosinha. Então, pu-la no encaixe próprio para garrafas, copos e sei lá mais que cilindros que minha Rosinha tem, só que ela deu uma pirueta nos ares numa curva acentuada, e atirou-se para a parte de trás do carro, tendo-me então molhado um dos tapetes traseiros. Foi quando decidi não lhe mexer mais até chegar ao lar, não fosse ela inundar-me o vidro da frente por dentro, e o limpa pára-brisas não ser capaz de me resolver o assunto, uma vez que acho que está colocado do lado de fora. 
Enfim, cheguei com menos meio litro de água dentro da garrafa, poças por todo o lado e a manga do casaco molhada. 
Moral da história: quando leres ou ouvires "grátis" em algum lado, foge a sete pés. Esse cavalo não tem dentes, e ainda te morde o rabo.


26/12/2018

Ano Novo: uns batem tachos, outros batem pratos

Literalmente.
Andava exausta dos meus pratos da loja do sueco, AKA IKEA**, todos lascados, a porcelana a estalar e a aparecerem-lhes filamentos negros, qual mapa dos rios do nosso bom Portugal, todo um desassossego de cada vez que iam ao microondas, iam assim e voltavam assado, para além do que superaquecia a loiça e a comida mantinha-se fria. 
Pus-me, então, nas tamanquinhas, e dirigi-me à Vista Alegre*, VA para os amigos. Cheia da PDM, quis do phyno, mas, não alcançando o spéxique, optei pelo bom e velho Sagres. Portanto, doze de cada: rasos, sopa e sobremesa, só para as primeiras necessidades. Ali chegada, apercebo-me de que são três sacos grandes, cada um com três caixas, uma vez que os pratos são embalados aos quatro e quatro. (Isto parece um problema de matemática do primeiro ciclo.) Também considerei que, tendo em conta que havia deixado Rosinha a cinquenta metros dali, era capaz de ter que fazer um esforço para o qual talvez não fosse preparada, pois que nem aquecimento fizera. Ainda assim, avaliei o peso aos sacos, e afirmei, peremptória, que sim, que era capaz de os carregar até à viatura. Um jovem franzino que ali havia chegado há menos de nada perguntou-me se queria ajuda, ao que lhe respondi que não senhor, "Muito obrigada, eu vou tentar, e, se aos vinte e cinco metros verificar que não sou capaz de chegar ao carro, volto para trás com os sacos e aceito então a sua ajuda", hahaha, muita gargalhada, e eu ala que se faz tarde com os trinta e seis pratos pendurados dos braços, para aí vinte e quatro num e doze no outro, se não me falha a matemática. 
Teria talvez percorrido uns quinze ou dezasseis metros e um dos sacos começou a rasgar-se ao nível da alça. (Note to self: ir à VA reclamar da qualidade dos sacos deles **.) Aproveitei para pousar os três no chão e descansar três segundos, passe o pleonasmo. Não sei se pelo cansaço ou se sou mesmo assim, devo ter achado que, se pusesse o saco que se estava a rasgar num só braço e os outros dois no outro, o esforço era menor para o que se estava a rasgar, e então não se rasgava tanto. Eu também tenho os meus momentinhos louros. Claro que rapidamente percebi que o raio do saco se ia soltar da alça até ao carro e eu ia partir a loiça toda no meio da avenida. Outra vez no chão os três sacos, resolvi meter o rasgado debaixo do braço e os outros dois na mão do outro braço, mas tal também não se revelou possível, pois num deles estavam os pratos rasos, que são os maiores, que são os mais pesados, e eu não ando no ginásio há décadas para ganhar músculos desses. Pronto, resumindo: o rasgado ficou na sovaca, um dos outros na mão desse braço e o outro na outra mão. 
Conduzi com o máximo cuidado até casa, evitei colisões e curvas acentuadas, e chegaram os trinta e seis lindinhos inteiros e perfeitos.
Estava a pô-los na máquina, que isto dos pratos é como comprar cuecas, dei uma traulitada com um deles e lasquei-o. Copo meio cheio? Ao menos não foi um raso. Copo meio vazio? Podia ter sido um de sobremesa. 
Anyway, enchi-me de nervos e de cola, porque achei que a Supercola 3**, aquela cola que é cuspo nos materiais e sutura cirúrgica na nossa pele, me resolveria o assunto. Não resolveu, tenho os dedos cheios de cola e Ai-fostes não me reconhece a impressão digital. (Criminosos, escutai-me, que eu não duro sempre: quereis criminar sem deixar impressões digitais no local? Supercola 3 nas pontas dos dedos e nunca mais ninguém vos agarra.)

* NMPPI
** Ninguém me paga para me calar


25/12/2018

Ainda não bebera uma gota nem duas de álcool e já confundira várias ideias

Então, partilhava eu aqui no meu salão, que a minha gata foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda se encontra em convalescença da última, quando travei o seguinte diálogo com um senhor com quem partilho uma afinidade:
LB - Foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda está a convalescer da segunda, que foi há pouco mais de duas semanas.
SCQPUA - Mas eles duram muitos anos, para aí uns vinte.
LB - Esta, não sei se durará tantos, com um carcinoma...
[Momento em que se gera alguma confusão, agora visto a esta distância.]
SCQPUA - Agora parece que é moda, toda a gente tem um.
LB - Pois, parece que está provado que uma grande percentagem da população terá um, mais tarde ou mais cedo.
(Esta minha mania de lançar números aleatórios quando não conheço a percentagem exacta, nem estou muito certa do que digo. Mas tenho em meu favor que SCQPUA também não escutou com atenção o que eu afirmei.)
SCQPUA - Lá na minha terra, toda a gente tem um.
[LB a considerar a possibilidade de existir um fenómeno endémico na terra do SCQPUA.]
LB - Ai sim?
SCQPUA - Sim, até há quem tenha dois ou três...
[LB assaz consternada com a existência de uma população inteira com semelhante pouca sorte.]
SCQPUA - ... cães.