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04/01/2026

Estroboscópica

Às vezes calha ficarmos lado-a-lado nas aulas de alongamentos. Não sei o nome dela e imagino que não saberá o meu. A primeira vez que lhe dirigi a palavra foi para lhe perguntar se tinha tido um desastre de carro, tantas eram as mesuras do instrutor com ela, tantas eram as partes do corpo que não conseguia mexer. Disse-me que não, entre o espantado e o aterrorizado, mas que tinha tido uma ruptura de mõinnnn mõinnnn e um deslocamento da mõinnn, sei lá, não percebi nada, tal era a descrição de mazelas, e eu essas coisas não fixo. Quando começam com o rádio, os ilíacos, os cruzados, algo em mim voa para o País das Maravilhas e as orelhas são as primeiras a dar à sola para longe.

- Aquelas luzes estroboscópicas são muito perigosas — disse-me um destes dias, quando esperávamos a hora da aula. Achei por bem ficar calada, um bocadinho atónita e com a cabecita de lado, como fazem as galinhas diante de quase tudo. Esperei que o que dissesse a seguir me esclarecesse, e assim foi, ou quase:

- Aquelas luzes que estão na sala e que giram, sabes?

- Sei. — Saiu-me a peta, por saber que daí a minutos ia conhecer as tais luzes, que, ao que tudo (especialmente ela) indica, estão há anos na sala, mas eu nunca as vi.

- Os meus dois filhos são autistas, mas sobredotados, eu casei-me com um autista, qualquer um deles, se viesse aqui, tinha uma crise. Também me sinto mal quando olho para aquelas luzes, e há uma rapariga aqui do ginásio que chegou ao ponto de ter que sair da sala. Já me fartei de pedir para desligarem as luzes, mas não desligaram. 

Depois entrámos na sala e, enquanto durou a aula, não tirei os olhos das estroboscópicas, a ver o que é que acontecia. Nada, absolutamente nada. A minha companheira, ao contrário, mesmo sem pôr os olhos nas luzes, cumpriu toda a aula com a habitual expressão de mártir do Caravaggio. 


24/02/2025

Dez dias, três borboteiras

Precisava com urgência para anteontem de uma borboteira, e então mandei vir daquela megastore da China (já sei as vossas opiniões, as quais partilho, porém também me farta pagar a multiplicar por dez pela mesma m. que posso pagar a dividir por dez), 

(aliás, aprendam comigo, que eu, injustamente, não duro para sempre: também havia mandado vir da mesma mega um par de sapatos de dança, depois recebi um mail a confirmar o envio, depois recebi outro a anunciar que o meu pagamento tinha um defeito qualquer, refiz a encomenda, acrescentei três itens à minha vontade, um dos quais os sapatos de dança e, antes de pagar, lembrei-me que a primeira encomenda já vinha a caminho, fechei a aplicação sem ter pago a segunda, e não pensei mais nisso, até ao dia em que me chegaram a casa os cinco artigos, dois pares de sapatos de dança incluídos. São tão extremamente confortáveis que só me apetece dormir com eles, e custaram doze paus — um par, porque o outro, conforme já disse, me saiu de graça e ofereci logo à que fala tanto, a ver se ela se calava. Não calou.)

porque até havia uma no lar, mas não a encontrei na balbúrdia da minha casa nem no caos de uma das arrecadações, pelo que presumo que deu o peido mestre e foi com a vara. Chegou-me uma coisa que fazia o barulho de borboteira, praticamente não tinha depósito para borbotos e era recarregável como um telemóvel, algo de inalcançavelmente evoluído. Vai que só tinha cerca de cinco minutos de autonomia, o que nem chega para a manga de um pullover, e depois era preciso esperar talvez doze horas para que a máquina se autonomizasse de novo. Como não sei falar mandarim, fui em demanda por outra. 

Chego à loja da catedral, onde normalmente sou bem servida pois fujo a sete ou oito pés da que começa por Wor e acaba em ten (nunca comprei lá nada que não viesse avariado, ou não avariasse no espaço de uma semana), acerco-me de uma funcionária cujos olhos dispararam na minha direcção um "odeio-te" muito claro, vá-se lá perceber porquê (havia de ter-lhe perguntado por uma rebarbadora para o buço, mas nunca me lembro destas piadas no momento certo), e digo: 

- Boa tarde. Ando à procura de uma borboteira.

- Boa tarde. Hã? Borboteira? — E era ver o nariz dela, ou lá o que era aquilo, alçar-se todo para cima, os dentes de cima, ou lá o que eram aquilos, todos à mostra, a chispar. Lembrou-me aquelas hienas do Rei Leão, mas eu estava em missão, não queria perder o foco. — A senhora quer dizer 'uma máquina para tirar borbotos?' [Oh, pá, está aqui uma sumidade linguística a perder-se a vender tralha eléctrica, agora percebo a revolta.] [Que nome sugeriria sua sumidade para uma máquina que só serve mesmo para tirar borbotos? "Depilaborbotos"? "Saca-bolas da lã"?] 

- Sim.

Mostrou-me duas ou três marcas, modelos todos iguais, pequenas e frágeis como eu já tive uma, que arrancam um borboto de cada vez e não os trinta mil de que cada pullover de cônjuge já padecia, além do que mordem que se fartam, à pincher, e fazem buracos na lã.

- Muito obrigada, quero daquelas grandes que parecem um ferro de engomar. Lá terei que ir à Wor ten.

E fui. Muito bem atendida, desta vez era um homem, que entendeu a palavra "borboteira", me fez a encomenda para a fábrica/ armazém e prometeu que a teria daí a três dias. Assim aconteceu, máquina maravilha, limpou duas ou três camisolas e, ao terceiro dia, descansou. Eternamente. Confirmada a minha teoria pela enésima vez, devolvi-a e recebi a quantia que despendera por ela. 

Meti-me numa loja de rua que vende quase tudo o que é eléctrico, pedi por uma borboteira, o senhor percebeu a palavra e simplesmente vendeu-me uma máquina decente, que já limpou o que faltava limpar e está ali para as curvas que as lãs também têm. 

Moral da história: nenhuma. Foram três borboteiras em dez dias. Nada má, esta média, como sempre, em mim. 


18/12/2024

Eu tenho problemas com tudo # 39

Tinha um exame médico para fazer, para o qual, segundo a funcionária que me atendeu, devia ir com o intestino limpo, uma vez que, dessa forma, a senhora doutora vê melhor as imagens, sem nada que impeça. Perguntei: Blocos, calhaus?, rimos muito e desligámos. O exame não é intestinal nem estomacal, esta da tripa limpa é novidade, mas quero lá saber, façam-me o raio do coiso e não nos aborreçamos mutuamente.

Entro na farmácia, que frequento muito mais vezes do que gostaria, mas também é, e talvez por isso, um terreno meu, onde me sinto completamente em casa, verifico que estão quatro pessoas acercadas do balcão, duas são casal e já estão a ir-se embora, uma outra está a ser atendida e, num dos extremos, um senhor de idade, aparentemente à espera de alguém, enrolando em tubo um calendário de parede. Sou atendida na ponta oposta do balcão e digo a Jorge, pelo canto da boca: “Microlax, se faz favor”. Ele, exactamente da mesma forma, confirma: “Microlax?”. E eu, no mesmo tom: “Microlax. É que vou fazer um exame e tenho que levar os canos desentupidos, não sei porquê”. 

Nisto, o senhor que enrolava o calendário intromete-se no assunto e pergunta, alto e em excelente som, de modo a que se ouça, pelo menos, até à porta: “A senhora vai fazer um exame ao cocó?”. 

Considero que tenho muita sorte em ter um superpoder de improviso, encaixe, humor e abstracção, nomeadamente para o inesperado e o non sense. Primeiro gargalhei e imediatamente respondi, no mesmo tom: “Não senhor, não vou fazer um exame ao cocó”. Ana Teresa, aflitíssima, socorreu-me assim: “É para o teu filho mais novo, não é?”. “Não, é para o meu cão que, coitado, é muito preso. Não sei se é da trela ou das grades na janela”.


15/11/2024

L’enfer

Existe qualquer elemento na estação de Correios da área da minha residência — pode ser o ar que lá se respira, misto de cartão, electricidade e cabelos —, que me transforma num monstro. É raríssima a vez que lá vou, não por vergonha da cena anterior, mas por saber que me vou irritar, abrir as goelas e partir a loiça toda (não literalmente, já que ali praticamente nada é de porcelana). (Há uma mulher assim no Continente, mas essa é maluca.)

Um destes dias, quis o Cão que eu tivesse ido lá deixar um envelope do meu microscópico negócio on-line. Entrei, entreguei, paguei e sumi-me. Nem parecia eu. Passada uma semana, a destinatária avisou-me que a pequena encomenda ainda não chegara. Pedi-lhe que esperássemos mais uma semana, e assim fizemos. O pacote (olarilolé, olarilolé, bailar assim sabe tão bem) não chegou, cá me meti na chanata e ala para a estação. Lá chegada, verifico que tenho cerca de vinte pessoas à frente e aquele odor a Correios tomou conta do meu nariz, das minhas unhas, dos meus dentes, dos meus cotovelos, mãos e pés. Chega uma chica, pergunta a Paula, aquela funcionária com quem já me alterquei milhares de biliões de vezes, se pode fazer só uma perguntinha, e fica lá. Ao cabo de cinco minutos, avisei a que estava ao meu lado, já divertidíssima com os meus comentários, que ia largar a bomboca, para depois ficar a ver o circo a arder. Perguntei então de que tamanho era a pergunta da freguesa, tão demorada, que me respondeu que tinha ali hora marcada. Ia falecendo a rir com a resposta absurda da criatura, mas o resto do povo ficou a pontos de linchar a mulher, que nem oportunidade de argumentar com ela me deu. Cambada de chatos, nunca dizem nada, tem sempre que ser aqui a pioneira que toma as rédeas de tudo (eu nessa casa, tudo eu). 

A funcionária que me atendeu disse que eu podia escrever uma queixa no portal lá deles. 

Para me responderem o mesmo que a senhora me está a dizer?

Sim.

Ah, penso que vou declinar.

Hoje a que me fez a encomenda comunicou-me que a recebeu, vinte e três dias depois da expedição. Esteve sem saber da chave da caixa do correio uma semana e meia (ou terão sido duas e meia?). Apetece-me fazer agressivo uso das minhas unhas, dos meus dentes, dos meus cotovelos, mãos e pés.


04/11/2024

Rabos e caudas

Tens uma coisinha branca a sair do rabo, disse-me ela assim, pouco depois do início de uma aula de alongamentos — em que uma pessoa se torce e retorce no chão, levanta perna, abre pernas, faz espargata, vira-se de rabo para cima, fica de gatas, reza a Alá, mesmo que Meca não seja para aquele lado, o povo do stretching é uma bússola, vira a raba para onde lhe dá na cabeça. Do rabo? Mas o quê? Pensava eu já que era o que realmente era, um bocado de papel higiénico, só não estava a perceber como é que tinha ido ali parar. Sobretudo, queria retirar a cauda, mas, por cambalhotas (metáfora) que desse, não a encontrava. 

A partir daí, passámos as duas a aula a rir, ela de gozo e eu de nervos, ou talvez ao contrário — visto que ela via e eu só imaginava —, muito em particular quando era suposto adoptarmos posições que envolvessem decúbito ventral. Eu vestia uma saia de paddle, que dão um jeitaço para uma pessoa se mexer à vontade, sobretudo na dança, pois têm uma cueca incorporada, esticam até caberem lá duas dentro e são de um conforto absurdo. Além disso, no meu caso em particular, não permitem que desidrate/ desmaie logo ao início da aula, pois, por conta e risco do anti-ressidivas, transpiro como um pugilista, salta-me água de todos os recantos da cabeça, braços e pernas (o resto está tapado, mas a m. é a mesma), se espirrar ou rebentar em águas ninguém dá por nada. Uma tristeza. Vejo-me obrigada a beber um litro de água durante uma aula de quarenta e cinco minutos, quando não logo a seguir mais meio litro, pois saio aos ziguezagues. Mas é preciso, como navegar. E viver também é preciso.

O assunto resolveu-se nos momentos finais da aula, quando era suposto fazermos a posição "happy baby" e eu decidi que dali não passava. Pés para cima, arranquei a fralda. 

Sou uma vítima de mim mesma. Isto explica-se assim: entre duas aulas, fui fazer chichi, mas forrei a sanita (farta de agachamentos ando eu, que aquilo queima as pernas e dói). Limpei-me como sempre, com uma toalhita, deixei-a no depósito próprio e segui caminho. Já de cauda a abanar, pelos vistos. A tal coisinha branca estava apenas presa no elástico da cueca. Podia ter sido uma vergonha inesquecível, se não tivesse sido comigo. Mas ainda fui contar ao professor e rimos até às lágrimas a propósito disso. 


07/09/2024

Ela já não fala tanto (e que Deus a conserve assim, como um pickle, muitos anos e bons)

Não sei por que diachos fui embora deste modesto espacinho e não voltei mais cedo, mas acredito piamente que hoje para aqui ando, cheia de entusiasmo a bater as teclas do meu ruidoso teclado, e sou bem fulana para me evadir e só voltar daqui a dois meses, quando tiver assunto. Não que hoje o tenha, mas preciso prementemente de registar aqui dois ou três factos da minha existência. 

Há aqui um que vai, com certeza, deslocar-me placidamente para a categoria das elitistas classistas, mas, já em minha defesa antes que venha de lá a primeira pedra, tenho a dizer que eu sou a entidade empregadora nesta relação. 

A que falava muito calou-se para sempre, isto há coisa de cerca de um mês e meio, daí que já não espere que a voz lhe regresse. Deu-se que esteve de férias duas semanas e, no dia anterior a proceder a sua rentrée, à noitinha, então não é que me manda uma mensagem a dizer-se doente há muitos dias e que não poderia trabalhar nos dias seguintes? Saltou-me logo a mola, que está sempre mal apertada, e respondi-lhe que estava farta das semanas inteiras de férias que a pessoa fazia, com prejuízo do meu trabalho, do meu descanso e, sem querer pôr um peso pesado na argumentação — que não pus —, já para não falar na minha saúde. Madame Dona Senhora ainda me devia, e deve, dois dias de trabalho, que me pediu para tratar de uns assuntos, que eu lhe concedi imediatamente sem questões (não fosse ela desatar a língua e eu, sim, ter que meter baixa enquanto entidade patronal, pois, como se sabe, ela seca-me até eu ficar em modo esqueleto), ela a insistir para tratar de uns assuntos e eu calada que nem um rato, já me cheirava a gato por todos os lados ["Queres ver que esta me vai pôr a trabalhar de graça para ela, para além de lhe fornecer duas abébias seguidas?"], nunca soube que raios de assuntos queria tratar ela, pois normalmente são rixas de bairro e eu já dei para esse peditório. Aproveitei e consultei o mapa de férias dela, ilegalíssimo porque eu não sou tida nem achada na escolha dos dias, e descobri para lá uma semana em Novembro, inteirinha, em que me iria faltar porque faz anos nessa sexta-feira. ["Ai, que maçada, tenho ao meu serviço há vinte e sete anos a rainha de Inglaterra e só hoje é que descubro? Naturalmente que Sua Majestade Venerandíssima precisa de uma semana para comemorar os seus cinquenta anos!"] Bumba, foi a talhe de foice, cortei a segunda e a terça dessa semana, para que me devolvesse então os dois dias que usou para tratar de assuntos.

Então não querem saber que Votre Majestée anda amuada comigo desde aí? E como é que eu sei? Fácil: entra de manhã, zurra "Bom dia", não responde a nada do que lhe digo, às minhas perguntas vai um "sim" ou um "não", no máximo, e suspira. E tosse. Constantemente. Quando não é uma, é outra. Mas eu tusso mais alto, literalmente: efeito secundário de uma droga com que me drogo. Mas ninguém a bate a suspirar. "Ai" quando eu passo, "haaai" quando pousa roupa passada em cima das camas (tem que se inclinar, compreendo que é chato), "haah" quando tira um tacho do armário, toda uma série de espasmos que já ponderei seguir-lhe os passos, para ver se comigo também resulta assim. 

Não é com vinagre que se apanham moscas, lá dizia o dono da "Dum-dum". E eu sou uma mosca. Chorem-me, expliquem-me o que lhes vai na dorida alma, solucem-me, funguem-se-me dos narizes, escrevam-me uma carta que me faça largar uma lágrima e cinco gargalhadas, que me levam até ao raio que já me partiu. Agora bezerras? Amuanços? Nem noto. Ando numa alegria que a endoidece. Trabalho mais e melhor, saio de casa sem alguém me perseguir até ao elevador com seus assuntos de m., já não tenho que saber quantos filhos tem cada irmã das dela e saber os nomes e datas de nascimento deles de cor (nunca consegui decorar, sei que há um Daniel e uma Daniela, mas depois é todo um sortido de Igores que uma pessoa rebolava os olhos e arredondava a saia de cada vez que ela se especava porque eu desacertava as Soraias com os Telmos). 

Chiu. O silêncio é de ouro. 


14/05/2024

Nunca ponhas palmilhas. Põe algodão, papas de sarrabulho, cuspo, o que vier. Tudo, menos palmilhas

Excelenticíssim@s Senhor@s,

Vai em cabeçalho por não poder ser em rodapé — sob pena de não me lerem o resto desta missiva, considerando-me preconceituosa (eh!) — a presente nota de cabeçalho: está com arrobas de arrobas exactamente porque assim não se distingue o género nem a tendência binária, trinária, tetranária, olhem, já ando tão perdida nas designações que inventaram para o que cada um lhe apetece, que qualquer dia nos alocam por preferências de fruta. Sei que sou heterossexual, o que, bem feitas as contas, já parece um crime afirmar, pois parece logo que sou anti-tudo o que não o seja. E gosto de dióspiros, cajus, leitãozinho da Mealhada já não quero gostar porque ai os porquinhos de leite, mas, se me dissessem que só podia comer um único alimento para o resto da vida, escolheria mesmo o amendoim, que marcha até em pasta para barrar, mas às colheradas. 

A vida continua, engordo fielmente na barriga, qualquer dia só me avio em lojas de pré-mamã. Não há problema, sou tetra-pós-mamã, que é quase o mesmo. Continuo a dançar, deixa cá ver: todos os dias, menos quinta, porque não gosto de quintas-feiras. Tenho este problema há anos: abro o roupeiro, atiro mil coisas para cima da cama, umas não me servem, as outras fazem-me parecer a mulher de Chelas, daí que acabo por, derivados ao cansaço, pôr a primeira albarda que me vem à mão depois da desarrumação. Ainda assim, sinto-me lindamente comigo mesma, devo estar a viver uma realidade paralela oferecida de bónus pela medicação. Dizia eu que danço seis vezes por semana. Ao contrário do que anuncia o Instagram nos intervalos do meu jogo, a dança não emagrece. Nem um grama. Sobretudo se, como eu, devorarem tudo o que é doce que vos passa nem que seja pela visão periférica. Ontem foi o último dia. Vou experimentar a dieta brasileira: tem fome? Bebe água e come gelo. Talvez não tão à risca, mas uma coisa equivalente, sem gordalheiras. 

A minha podóloga desencravou-me as duas unhas dos polegares dos pés, ainda consequência da quimioterapia, que já lá vai há dois anos. Achei-a óptima e, quando acho alguém óptimo, sou compelida a começar a depenar a conta bancária com essa pessoa. Ela convenceu-me (nem precisou de muitos argumentos) de que eu precisava de umas palmilhas, dado que tenho os pés chatos. Disse-lhe imediatamente que sim, paguei-lhe o equivalente a um par de sapatos (três, se forem da Temu*) e ela fez os moldes. Folguei em saber que o esquerdo é mais chato que o direito, o que me trouxe a vantagem de poder chamar "chato!" a quem me aporrinhe a paciência, com a desculpa de que estou a falar com o pé. Entretanto, ela traz-me as palmilhas já feitas, diz-me para andar com os ténis e elas por casa até à corrida que ia fazer dois dias depois, mas não me apeteceu porque estava calor, porque o pezinho de princesa gosta é de andar com os porquinhos à solta, de modos que, na manhã da corrida, vai de meter as palmilhas, duras que nem um corno, dentro do téni e do outro também, e ala para a corrida, convencida de que aquilo me ia transformar numa gazela e faria os cinco quilómetros em duas ou três pe(r)nadas, qual milagre de Natal. A dita corrida (EDP**), e eu sabia por não ser a minha primeira vez (mas foi a última) é do mais desorganizado que há: os que caminham e os que correm partem ao mesmo tempo — de modo que, ao início, não corremos, fazemos slalom entre muros de gente —, não há chip para a corrida, para controlar o tempo de cada um, o pavimento consegue ser pior do que o da Expo, com calçada solta de um metro de largura, e pedras, e areia solta, e asfalto cheio de buracos, enfim, o fim. A pessoa correu dois quilómetros, já os pés gemiam "tira-me esta m.", o meu pensamento "chatos, chatos", até que avistei o stand da Vitalis* e comecei a andar porque percebi que não iria conseguir correr mais quinhentos metros só para salvar a minha vida. Outra desorganização: paletes por abrir, velhos mal dispostos, a dar alento ao povo, só porque esticávamos a mão a pedir uma garrafinha: "Mas vão ganhar alguma coisa só por terem uma garrafa?". Fui, óbvio, a única pessoa que respondeu: "Meu avô, temos sede!", enquanto estendia a mão para a garrafa de uma senhora que já tinha conseguido a dela, não percebi se porque a confundi com uma hospedeira de eventos ou se lha ia roubar, mesmo, tal era a minha transtornação naquele momento. Os pés já gritavam que se suicidavam, bebi a água toda, mas isso não me valeu de nada. Continuei a caminhar, fiz os restantes três quilómetros ainda não sei como, mas sei que cinco — CINCO — pessoas me vieram perguntar se eu estava bem e três delas, não acreditando no meu sorriso azul-turquesa, "Estou bem, muito obrigada", deram-me garrafas de água. Entretanto, deu-se início em mim a umas dores nas costas ao nível da cauda equina, e acho que só doeu mais porque nunca na vida tinha tido dores nas costas. Atravessei a meta com a sensação de já não ter pés e de que ia passar o resto da vida a andar de gatas. Deram-me um gelado da Olá*, uma medalha de participação que pesa um boi e queriam dar mais água, mas lá estava o avô da Heidi na distribuição e eu prescindi. Faltavam trezentos e cinquenta metros para o estacionamento da Champalimaud e ainda tive que descansar a meio do percurso. Ia apoiada na minha companheirinha de sacrifícios, que tinha levado menos de meia-hora a cumprir aquela maratona para IronWoman, é pequeníssima e leve como uma pluma, imagine-se o cenário. Agradeceria uma maca, ou um gorila que me carregasse.

Conduzir foi fácil, ia sentada. Mas chegar a casa e esparramar-me no sofá, foi tão duro que, só por isso, merecia outra medalha. 

Não sei onde enfiei as palmilhas. Sei só onde gostaria de as enfiar. 

Com estima, amizade e dores, 

Linda Blue


* NMPPI

** Ninguém me paga para me calar

07/04/2024

Lançamento do livro, um dia modalidade olímpica

Pergunta-me se não me importo de a acompanhar a “uma grande chatice”. Digo logo que não, pois que chatice maior haverá do que um funeral? Estivemos há poucas semanas juntas em memória de outra amiga dela, mais nova dois ou três anos do que nós, e, se fosse o caso, ela avisar-me-ia. Além disso, eu sou pro em esperar em salas de médicos e hospitais, acho que passei as vinte e quatro horas de Lisboa nos últimos dois anos. Antes perder um dia para ganhar uns milhares do que ao contrário. Ora, quem já aguentou esperas dessas, aguenta qualquer seca. Diz-me ela que foi convidada para ir ao lançamento do livro de um ex-colega e já se negou a dois ou três eventos do mesmo tipo (no duplo sentido de homem e classe de encontros), não pode negar nem mais um.

É o primeiro livro dele, de poesia numa língua que, se calhar, nem ele próprio entende. A mim, falam-me de lançar um livro e eu faço imediatamente a imagem mental e literal da coisa, tal e qual aquelas pessoas que se põem à beira-mar a atirar um disco de plástico uma à outra, muito atléticas e compenetradas. Ou então, aquela modalidade olímpica do lançamento do disco, que eu estou mesmo a ver que um dia se faz boomerang e sai de lá um lançador sem dentes. Devo andar a ver muitos desenhos animados.

Disse-lhe que sim, ela apreensiva, pois toda a gente — essencialmente marido e filhas — lhe disse que não. Fiz finca-pé, e vou, e vou, e vou, no dia ela ainda me pôs à vontade para desistir, ai a tua saúde, ai a chuva, ai as areias vindas do sul de todos os sules, que no mapa é norte, mas eu argumentei que já estava vestida e calçada a preceito, o que constitui o argumento mais inderrotável para qualquer mulher.

Calhou-nos um fim de tarde de céu chorão e ferroso, um trânsito absurdo na cidade, lá se foi uma hora das nossas vidas para percorrer um caminho de sete milhões de milímetros. Chegámos e a sala muito composta de cabeças maioritariamente brancas, e nós, que pintamos as nossas de castanho. O auto-homenageado (soube a posteriori que ele pagou a impressão de sua jóia) surge de kilt e eu penso que é hoje que vou saber se é verdade ou não que os escoceses não usam lingerie. O homem senta-se de pernas abertas, mas o pano pregueado cai-lhe por entre elas. Portanto, fiquei na mesma, felizmente. A figura era a do professor Girassol, mas sem chapéu e ainda menos cabelo. Para nos entreter, chamaram uma rapariga muito pouco bonita, mas com um cabelo extraordinário, que foi entoar uma música celta, com uma voz tão linda como os seus cabelos, e desafinou barbaramente três ou quatro vezes. Como se aquilo tivesse uma dificuldade de física quântica. Tragam-me os Dexis!

Quando eu contava com um croquete (de espinafres), uma empadinha (idem), uma flute de champanhe (sem álcool), começou a assinatura dos livros, de que ela comprou um exemplar ao preço de quatro mil réis em moeda antiga, que eu folheei e basicamente não tinha nada lá dentro — uma folha com uma palavra, uma folha com uma poesia em escadote, uma folha com outra poesia a rimar nuvem com nuvem, uma outra cujo poema falava de liberdade e de como estamos (?) acorrentados a ela. Mas, como havia muitas palminhas e um homem gordo ainda gritou “Bravo!” com sotaque francês, quem sou eu para achar que protagonizei mais um filme de David Lynch?

Ela quis o exemplar que comprara assinado por sua sumidade, que, entre gargalhadas inoportunas, lhe pediu: “Lembre-me o seu nome”. Estou até hoje sem perceber como é que ela resistiu a lançar-lhe o livro.


22/03/2024

Intervencionada(s)

Há cerca de meia dúzia de semanas a dividir por dois, a pessoa foi a intervencionar. A radioterapia arrasou com uma das meninas e elas brigavam todo o dia. Como a paciência tem limites, resolvi acabar com o assunto, eu sou mais redonda, eu estou mais alta, tu estás mais dura, és feia, és mais baixa, um ror de insultos que marquei, fui avisada na semana anterior que era "para a semana", nada de exames e análises feitos, no dia seguinte aviei tudo numa pernada só. 

Vai daí, dou entrada. Não me lembro de estar tão bem disposta e sem uma pinga de nervos num internamento. A pobre da auxiliar insistiu em carregar a minha mala, que ainda hoje não sei o que levava lá dentro que pesava uma bigorna mais motor automóvel, a desgraçada percorreu dois corredores com aquilo na mão, mais pequena e magra do que eu, toda inclinada para o lado do monstro, mas ela quase me arrancou o peso pesado das mãos, quem sou eu para entrar em lutas físicas para a seguir carregar um boi? Deixou aquilo num quarto duplo, onde já pairava uma senhora e um biombo separava as nossas camas. Não entabulei logo conversações, pois nunca sei se me sai uma azeda ao caminho, e esperei que ela o fizesse, se quisesse. Estava já vestida com a bata cirúrgica, os chinelos e as meias de contenção. Os olhos estavam semi-cerrados, entre o Jessica Rabbit e o Marlene Dietrich. Disse-me que lhe tinham dado "uma coisinha" para acalmar e que também me iam dar a mim. Respondi-lhe que sou resistente a "isso", mas tudo bem, podiam dar-me cicuta ou cianeto, que eu tomava na mesma, desde que me acordassem com as meninas no lugar e mais pequenas, mas gémeas idênticas. 

Não perguntei, mas ter-me-ia arrependido se tivesse perguntado: "Eu vou ser operada às hemorróidas". A única parte boa da coisa foi ter logo concluído que não era com o meu médico - o senhor é um cavalheiro, não faz essas coisas - e, portanto, não me passaria à frente. 

Chega a enfermeira, daquelas pessoas que só são bonitas ao perto (ao longe, meh) com a bata e os chinelos. Perguntei pelas meias, respondeu, olhos abertos de ameaça para os meus (mal sabe ela que eu tenho tanto medo de enfermeiras como de baratas. Zero), furibunda porque se havia esquecido das meias e não queria dizer. "As meias não se põem em qualquer cirurgia". "Pois, mas eu vou pôr meias. Trago dois pares na mala (queres ver que era isso que pesava os cornos?) e, seguramente, não ponho os pés na sala de cirurgia sem elas. Já as uso desde a minha terceira cesariana e, desde lá, quer que lhe conte quantas vezes fui operada? Digo-lhe que adormece". Então explicou-me que as meias de contenção só se usam em cirurgias com duração superior a quinze minutos. Revirei os olhos mentalmente, imaginei o meu médico a tratar do meu assunto num quarto de hora, ou então aparecer ao dentista dos olhos bonitos com aquela porra enfiada nas pernas e sorri, falsa, enquanto ela ia buscar as meias e me metia um comprimido debaixo da língua. 

Não tive sono até, já no bloco, me injectarem uma poderosa droga veias afora. Antes disso, ainda me lembro de me mostrarem a touca verde, e eu sobrepor as duas mãos sobre a cara, gemendo: "Não, a touca não, por favor, não quero pôr isso, fica-me malíssimo!". Depois apaguei.

Acordei no melhor dos mundos, sem touca. Está tudo bem com as gémeas. 

12/03/2024

Botei

o voto na urna. Não foi fácil. Pelo caminho, cerca de seiscentos metros, ainda ia, já não como em tempos — a fazer undolitá — a votar mentalmente por exclusão de partes “Neste não, naquele nem pensar, no coiso era o que faltava”. Como sempre, fiquei na sala exclusiva das Marias, de Maria Eduarda a Maria Viviana. Tinha tido um cuidado desmesurado a escolher a hora para ir exercer os meus direitos, que os tenho, minha senhora, para não encontrar as caridosas do “Estás bem?”, a enterrarem os olhos nos meus, uns ares tão sérios que julgo que vão ralhar-me já, já, eu naquela, “Estou, estou bastante bem, que eu saiba”, elas logo a amolecer o olhar, “Isso é que é preciso, espírito positivo”, como quem diz, “Coitada, diz que está bem, é deixá-la viver na ilusão de que não é a primeira de nós todos a morrer”, sabem lá elas se dali a cinco minutos não vem uma betoneira desgovernada que as mistura com o cimento. Escolhi tão afincadamente a hora, que as encontrei todas, mas consegui tornar-me invisível à mais empenhada, que quis um dia tomar café comigo no pós-tratamentos e esteve todo o tempo a chorar porque havia saído recentemente de uma peritonite. 

À minha frente encontrei dezanove Marias até à curva que dava acesso à sala. Chegou a minha vez, o rapaz que presidia aquela mesa ia adormecendo a ler o meu nome (já estou habituada) e deu-me aquela folha gigantesca, onde constavam partidos dos quais nunca tinha ouvido falar, como o fálico (?) “Ergue-te!”, ou bíblico, sabe Deus (“Levanta-te e anda!”), para além de mais um ou dois, agora não sei precisar quantos desconhecia. Quase todos, vá.

Já no meu cantinho, pronta para exercer, reparo que não há ali caneta ao meu dispor. Procuro na mala, sei que é raro ter uma caneta (trauma com uma que se me rebentou dentro da mala, não quero lembrar-me; o mesmo para os pacotes de açúcar; e as saquetas de molho de soja), mas desta vez lá estava uma, triste, só e abandonada, gelada, gelada. Nos entrementes, ouvia-se o meu murmúrio, “Não há aqui caneta? Uma pessoa puxa pelo cordelinho e não vem nada na ponta. Se não tivesse uma na mala, a esta hora não votava”. Fui à mesa entregar o meu papelinho e comuniquei: “No meu cantinho não havia caneta. Senti um convite, mais, um incitamento, ao voto em branco”. Rimo-nos todos muito e depois voltei para casa, com o meu dever (não me enganei, não) cumprido.


04/03/2024

Errare

Ainda não sei porquê e admito que nunca vou saber, meti-me um destes dias no supermercado. Já na fila para pagar, lembrei-me do bolo do caco, que não constava do meu cesto. Ali o abandonei e saí da fila, “Falta-me o bolo do caco!”, por acaso a pensar por que diachos se chama bolo àquele pão — já para não escalpelizar a palavra “caco” (monco? Burrié?) — e depois se chama pão àquele bolo de ló (e “ló” porquê? Por que não “dó” ou “lá”?) Pronto, já sei: devia estudar a etimologia das palavras antes de me meter aqui. Depois voltei para a fila, e “Ai, onde é que estão as minhas coisas? O meu carrinho?”. Estive mesmo para fazer um espavento, “Fui assaltada!”, mas depois lembrei-me que os bagulhos só são meus a partir do momento em que os pago. Foi quando percebi que estava na bicha errada. Enfim, só não erra quem não faz. 

Saí dali direitinha à loja de lingerie, entrei e disse à funcionária: “Olá. Eu sou a dos sutiãs.”. Isto porquê? Porque já entabulara diversas conversações telefónicas acerca daquela peça em particular, cor, tamanho, encomenda, já chegou, vou buscar, eu guardo. A pessoa, extremamente maquilhada (verde na parte não móvel da pálpebra, muito anos ‘70), respondeu-me assim: “Eu não sou daqui, sou de Odivelas.”. Curioso — pensei, pondo a cabecita de lado, como fazem as galinhas quando estão baralhadas (amiúde) — já não é a primeira vez que esta retro me responde isto quando a abordo. Será que diz o mesmo a todas as freguesas? Para a próxima, entro na loja e digo: “Eu não sou de Odivelas, sou daqui.” Só para ver o que é que acontece. 

Deslindado o imbróglio, chegámos à conclusão que as negociações que eu havia entabulado não haviam sequer tido lugar com alguém daquele espaço comercial, mas sim de um outro, para lá da Estefânia. Tudo culpas do Google, que uma pessoa põe “loja de x no lugar y” e o destravado apresenta-nos o lugar z. Não importa, a verdade é que estava tão empenhada na aquisição que me despedi da de Odivelas e determinei-me a zarpar Rosinha, minha canoa, até para lá da Estefânia. Acerco-me da viatura e deparo-me com um idoso, dentro do carro estacionado ao lado, a ver no telemóvel mulheres sem sutiã. É o mal de darem smartphones àquela faixa etária, coitados. Depois enganam-se e vão parar ao inferno, ou ao céu, ou lá o que é.


04/01/2024

Post com dois assuntos cientificamente relevantes

Tenho um clube de formigas extremamente pequenas no lar. Deslocam-se em carreiros, desconheço onde é o formigueiro, mas já salvei a vida a umas dezenas delas. É que se afogam numa gota de água, apesar de terem uma resistência louvável. (Nem sei se têm pulmões, mas devem ter.) Ontem estava a beber água por um copo, espreito lá para dentro e vejo uma delas, muito sossegadinha, muito quietinha. Considerei preferível verificar se morta, se viva, mas a fulana não me agarrava o dedo, para que eu pudesse colocá-la numa folha de papel de cozinha e devolvê-la às manas. Peguei então numa colher e retirei-a do oceano. Pensei mesmo que estivesse morta, porque continuou inerte. Quando a ia passar para o papel, vi mexer uma patita, mas ela não largava a colher molhada. Insisti na manobra e deve ter sido aí que a torci um bocado, pois aterrou no papel toda torta e baralhada. Também podia estar em pré-afogamento, coitada. Destorceu-se, endireitou-se e lá seguiu caminho toda manca, à procura das outras. E bebi a água, sim, que a vida não está para finuras.

Mas não era a isto que eu vinha, embora o tema formigas ainda não esteja esgotado. Fica para o último parágrafo.

Hoje entrei na quinta dimensão. Estava a cozer uns lombos de pescada na Biby — que ela coze pessimamente — e na receita mandava guardar a água da cozedura para depois a misturar com uma poção qualquer que já estava em preparação no meu caldeirão. Pus um coiso de palha por baixo do jarro e vai de verter o precioso líquido lá para dentro. Quando chegou à última gota, pás!, explodiu como que dinamitado. Pensando bem, acho que implodiu. Sei que era vidros por todo o chão da cozinha que chegavam ao corredor. E meio litro de água perfumada de peixe, que se transformou em cinco litros, pois era a minha calça, o meu pé e respectiva chinela (desculpem, mas tenho que acabar com este mito rural: eu sou como as outras pessoas. Ou pior), era o chão, era toda a bancada e a derramar-se para dentro das gavetas e armários. Valeu-me minha Sandra que, quando faço uma refeição em vez dela, até se lambe, parece que ainda tem maior ensejo para dar à matraca. Lado bom: ninguém se magoou, nem sequer com aqueles vidrinhos do tamanho da minha formiga (é assim que o cosmos me agradece) e também, menos um mono.

De vez em quando sinto um bichinho a passear pela minha testa, junto à raiz do cabelo. Depois desce, passa-me pelo nariz a atira-se em bungee jumping para o meu ombro. Há dias percebi que era uma formiga das minhas, se calhar veio agradecer-me ter salvo a coxa.

Hoje estava nas minhas danças e lá sinto outra vez um bicho pequeno a percorrer a minha raiz do cabelo. Sacudi com cuidado, para não assustar o animal nem o lesar e disse para a que estava atrás de mim: “Tenho formigas na cabeça”, que há-de ter sido a frase mais esquizofrénica que proferi na vida. Ela desesperadamente a tentar disfarçar o seu incómodo, “Pode ser algum champô que estás a usar”, mas eram de aflição os olhos dela quando eu esclareci: “Tenho imensas formigas em casa, nunca tinha visto umas tão pequeninas e, de vez em quando, uma ou outra vem passear na minha cabeça.”

04/12/2023

Parque de estacionamento - 1; Linda Blue - 0

A pessoa até já vai nervosa quando se acerca de um parque de estacionamento. Tinha mais uma consulta das centenas que já tive, esta para verificar se o braço está mais gordo do que o outro ou não. Vivo um bocado aterrorizada com a ideia, porque, caso se verifique, vou deixar de saber que número visto. Nada é impossível comigo: tive um pé maior do que o outro durante anos a fio, agora o maior encolheu e passei a calçar o número abaixo [já vi desculpas melhores para renovar o calçado todo], ou seja, todos os sapatos me chinelam, e isso provoca umas dores que ninguém supõe, uma vez que tenho que fazer imensa força com os dedos para que não me caia um sapato nalguma escada rolante, venha um príncipe atrás de mim e tenha que lhe aventar com o outro para correr mais agilmente.

A facilidade com que me perco nos assuntos. Pareço o tio das Derry Girls

Aproximei-me do parque, esperei pacientemente a minha vez (porque tinha tempo, pois aquela lesmice só dá vontade de uma pessoa perder o amor ao carro e empurrar os caracóis todos para dentro do parque), depois chegou o cruel momento em que tive que abrir o vidro e esticar o braço ao máximo e, mais uma vez, faltava-me cerca de um Danoninho para chegar ao botão da Via Verde. Veio imediatamente um cavalheiro muito solícito, e, sem eu lhe pedir nada, espeta o dedo em "retirar ticket", enquanto eu digo "Via Verde, por favor". O bilhete saiu mesmo, mas a teimosa até ganhou braço, qual Senhora Incrível, e pumba no botão verde. A cancelinha abriu, eu acenei gudebai ao senhor, ele de bilhete no ar, "O que é que eu faço a isto?", "Deite fora, que eu saio com a Via Verde". Estacionei Rosinha de forma a revelar o meu TOC — carro direito e com as exactas distâncias entre os extremos do dito e o tamanho do lugar —, saí um bocado contrariada porque o pavimento era daquele cheio de hexagoninhos, que qualquer humano que tenha calçado uns saltos altos joga ali um bocado à roleta russa, "a ver se o raio do salto não se mete nos buracos desta m.", mas avancei. Ao passar pela casota onde se esconde um senhor que já está irascível às nove da manhã, deu-me cá aquela dúvida "e se...?", sabem? Lá fui gritar para o acrílico que nos separava: "Bla, bla, bla, um senhor tirou um bilhete, bla, bla", e ele estende-me um cartãozito, "É este, minha senhora. A senhora não saía do parque com a Via Verde, porque tem prioridade a primeira escolha". Olha que bem pensado, existe sempre a possibilidade de alguém se pôr a tocar piano com os botões daquela coisa. Lá lhe agradeci e fui-me, na direcção da entrada do parque quando, de repente, vejo uma barra enorme na direcção da minha cabeça e só tenho tempo de dar um salto para o lado e dizer "Ai!". Sinceramente, em que mundo estamos? A ver se alguém me avisou. Se calhar, queriam ver o que é que acontece quando uma pessoa leva com a trave na mona. Eu também apreciava visionar os carros deles a levarem com aquilo no tejadilho. Será que tem uma lâmina, qual guilhotina? Fiquei a pensar nisso, seria coisa para me deixar para ali rachadinha nos meio. Mas não, como cheguei à consulta com as duas metades agarradas, tive a grata notícia de que os braços continuam da mesma absurda grossura. Ordens da médica: "Dance, dance, dance". Pelo menos, não me disse "Faça flexões, pranchas e burpees", senão também não me apanhava lá outra vez. 


15/11/2023

O universo também não ajuda nada

Fui a uma palestra sobre alimentação de senhoras que tiveram cancro da mama, no âmbito de um programa em que me inseriram. Deixei Rosinha, minha canoa, num parque ao ar livre, porém debaixo de uma passagem superior. Lá chegada, sentei-me, observei as restantes pré-palestradas, todas significativamente mais velhas do que eu, menos uma, que é a que tem o ondulado mais bonito de todas. A primeira vez que a vi, perguntei-lhe se era consequência dos tratamentos (o cabelo renasce com outra textura e, às vezes, outra cor. O meu veio encaracolado e branco, vá-se lá explicar esta última). Ela respondeu-me que sempre o teve assim, e eu anunciei-lhe, como se ela soubesse o truque: “Eu quero igualzinho”. Nas outras, vi muitos edemas, muito peso a mais (por falar nisso, as minhas calças 38 deixaram todas de me servir, comprei umas 40, agora caem-me), muita grisalha, muito sobretudo num dia não tão frio que justificasse. A palestra foi dada por uma nutricionista magra (aleluia!) e, basicamente, era a explicação da roda dos alimentos: o que podemos ingerir, o que não podemos e em que quantidades. Tirei imensos apontamentos, a minha letra foi diminuindo de tamanho até quase chegar a invisível. Tenho a motricidade fina toda lixada. Saí muito esclarecida e pouco convicta de que me vou meter naquela prisão redonda só para ter mais alguns anos de vida. Engordei para aí uns três quilos nestes dois anos,  provavelmente derivados dos tratamentos e da pastilhagem diária, mas não vou amandar-me a um poço a propósito. Danço cinco vezes por semana, é essa a minha roda.

Mas não era a isto que eu vinha. Chego ao parque de estacionamento, coloco o bilhete lá naquela coisinha óptica e diz a máquina: “bilhete inválido”. Entretanto, formava-se uma bichinha atrás de mim, tudo muito solidário, “Ai, agora como é que a senhora sai daqui?”, “A senhora venha atrás do meu e, quando a cancela abrir, passamos juntos” (eu já a ver-me finada, degolada por uma cancela de parque de estacionamento), “A senhora peça ajuda”, já eu ligara para cônjuge, “O que é que queres que eu faça? Vem para casa e amanhã vais aí buscá-lo” (a ver se não me esqueço de o retirar dos contactos de emergência), já eu premia com todas as forças de meu indicador o botão de SOS da máquina e nada, o homem devia estar a dormir lá dentro, já eu ligava para os dois números de assistência, um não atendia, o outro dizia que só funcionavam num raio de um horário que, obviamente, não incluía o meu. Tentei outra vez na porra óptica, “bilhete inválido”, Cristo, que merdas tão grandes que só a mim sucedem. Carreguei então de novo no botão de SOS e lá hei-de ter acordado o humano, “O senhor desculpe…”, “Ó minha senhora, eu estou a trabalhar” [ninguém diria, há dez minutos, se calhar tinhas ido fazer cocó enquanto eu me espremia aqui dos nervos]. Mas foi útil. Fez-me ler o bilhete todo, hora de entrada, número de código, nome do parque. “A senhora está no parque errado”, ah, eureka, fico-lhe muito agradecida e até estimo que a sua inoportuna evacuação tenha decorrido pelo melhor. Mas a sério, fiquei desconfiada que mudaram os parques de lugar só para medirem a minha capacidade de sair de uma situação.

Quanto a mim, não sei se estou pior ou só mais velha.

06/04/2023

Agora só nos falta uma praga de gafanhotos

Nos últimos dois anos, a minha vida tornou-se num rosário de amarguras com muitas continhas: covid com direito a duas semanas de internamento, inundação que basicamente destruiu a minha casa, e cancro. Resolvidos o primeiro e talvez o último, começou a obra de restauro do lar, a terminar nunca, não fora termos dado um ultimato à equipa, “Amanhã [hoje] mudamos, esteja isto como estiver”. Não sei se lançaram foguetes, se assaram para ali sardinhas, se cuspiram fogo sei lá de que parte do corpo, a verdade é que nos incendiaram a varanda, pelo que, em vez de ir “estrear” uma casa a cheirar a tintas e a móveis novos, vamos para uma que só me lembra uma chouriçada assada, e há-de ser o pitéu que me adentrará as narinas nas próximas noites. Dizem eles que caiu uma beata lá de cima e pegou fogo a uns cartões e a umas madeiras que ali estavam. Bem se vê que nunca estudaram Física e desconhecem que um objecto feito de papel e esponja, com um peso que não deve chegar a três gramas, não faz um trajecto descendente de vários metros e depois, sem mais nem menos, num dia sem vento, curva para dentro. Azar deles, que nenhum vizinho de cima dos meus fuma, ao contrário do pintor, que mais vezes vi com a pipa nos dedos do que com o pincel.


29/10/2022

“O meu marido é médico há mais de quarenta anos, é um rapaz muito competente e esteve meses sem me dar um beijo na boca.”

A mulher não gosta de mim e eu também não gosto dela. Há uns anos, quis reclamar já não sei do quê no ginásio, eu era do grupo de apoio à causa dela, mas quando saiu desembestada da aula para ir à portaria aos berros, querendo que assinássemos um abaixo-assinado — não redigido —, pus-me a fancos e ala porque já sei no que é que essas padeiras de Aljubarrota contribuem para as suas próprias causas e ainda ia acabar a ter que escrever o dito documento, assiná-lo e, já agora, sem acreditar na eficácia dele. Então, ela teve a pouca sorte de comentar: “Estas que dizem que sim a tudo são sempre as primeiras a saltar fora” e eu fiquei deveras magoada, especialmente porque não sou “esta”. Só não lhe pulei para cima à unhada por respeito aos cabelos brancos dela e eventualmente porque tinha um tacho ao lume e mais o que fazer do que ficar ali a bater bocas — salvo seja — com a idosa.

Ao fim de largos meses, senão anos, reapareceu no ginásio. Dirigiu-se à porta da sala, abanou os puxadores e, uma vez que estava trancada, não conseguiu abri-la. No entanto, persistiu na tentativa, uma vez que uma porta claramente fechada à chave cuja transparência dos vidros denuncia sala vazia não é indicador suficiente de que não é possível entrar naquele momento. Gozei o prato até que ela se aproximou d’ “esta” e, só para a desestabilizar, avisei: “Já se pode andar sem máscara de há uns meses para cá”, não fosse dar-se o caso de a figura ter estado congelada desde meados de 2020. “Eu uso sempre. Enquanto usei, ninguém lá em casa teve Covid. Depois tirei e todos tivemos. O meu marido esteve meses sem me dar um beijo na boca. Um dia fomos comemorar os quarenta anos do nosso filho mais velho e caímos todos doentes. Mas o meu marido é médico e pôs toda a família a antibiótico [para um vírus, wtf?], é um rapaz muito competente, sabe muito bem o que faz. É médico no Alentejo há mais de quarenta anos”.

A Humanidade está perdida, escrevam o que vos escrevo. 


04/10/2022

And that awkward moment # 68

em que ligas para o consultório do dentista dos olhos bonitos — não pões lá os pés nem os dentes há mais de um ano, e ouviste dizer, leste ou sonhaste que a radioterapia amarelece os dentes, não que tenhas notado, mas já agora —, e te atende Sónia. 

Sónia, para quem tem memoráveis hiatos de memória, é a assistente do dentista, que está certamente apostada em asfixiar-me através da aspiração das minhas amígdalas (“amigas” para o povo), e que, com a desculpa assente nas cavalitas das muito largas costas do Covid, me entrava gabinete adentro com duas máscaras, uma viseira, uma touca, uma bata descartável completa, com mangas compridas e até aos pés, e luvas. Sem dúvida, para me aniquilar sem deixar vestígios, se não com o aspirador do cuspo, pelo menos de susto. 

Pergunta-me Sónia se estou “melhorzinha”, eu que sim, que já acabei os tratamentos há três semanas, ela então manda o primeiro tiro e eu sem perceber, “Então já teve alta do médico para vir ao dentista?”, como se estivesse a perguntar-me se já podia ir à praia ou correr a maratona em flic flacs, eu encharcada em nervos e paciência, “Sónia, eu já acabei a radioterapia há três semanas, posso e devo ir ao dentista. Certamente que não sou a primeira pessoa que consulta o senhor doutor nesta fase da doença”, e então dá-se o momento em que ela me atira a segunda bala, que poderia ser fatal, não estivesse eu habituada a lidar diariamente com humanos: “Via oral?”.

Não fiquei imediatamente estupefacta porque achei que ela se tinha enganado/ baralhado/ embebedado entretanto. “A radioterapia?”, “Sim.”

Pois, morreu-me um neurónio. 

“Sónia, o nome diz tudo: radioterapia é por radiação, não existe em comprimidos.”

“Ai é?”

Quando desliguei, tive vontade de chorar um niquinho. Então, como sempre, ri até à pré-asfixia. Eu bem digo que aquela mulher um dia me mata. Se eu não voltar aqui, já sabem.


26/09/2022

And that awkward moment # 67

em que recebes uma mensagem a anunciar a missa por alma de uma pessoa tua parente — e, consequentemente, a sua morte, facto que desconhecias —, em que a imagem de perfil é da própria, e toda ela  escrita na primeira pessoa do singular. Tipo aquele falso e maravilhoso bilhete de suicídio da personagem Sebastião do Pôr do Sol, quando foi assassinado: 

Boa tarde, 

Matei-me. Adeus e boa continuação, 

só que com a nuance Morri, venham à missa comemorativa do primeiro mês.

Dúvidas houvesse sobre a minha muito remota, porém provável, disfuncionalidade, eis uma possível explicação, com parentescos deste nível. É que nem a desculpa de se tratar do enredo de uma novela cómica tenho. Isto é a vida real. A minha vida.

Ainda estou em posição fetal. Tenho medo de partilhar genética com pessoas humanas que tomam estas iniciativas. 

Não vou comparecer à dita missa. Nunca se sabe.


23/09/2022

Exposição imersiva, submersiva, subversiva, interactiva, tudo em um

Olá, esta sou eu a cultivar-me. 

Chego à Mãe d’Água (nome mais bonito, recuso-me a chamar-lhe reservatório) para ver uma exposição sobre o Egipto, embora estivesse lá escrito “Egito”. Ou era “Egipo”? Ou “Epigo”? Olhem, não sei. Fui. Ainda proibida de ir à praia, um domingo assaz ventoso, peguei em dois familiares e aqui vai dela. Lá chegados, somos informados na bilheteira de que cada entrada (plateia em pé, porque sentados era um preço que eu esqueci imediatamente) custa doze paus, mas que, se fizermos prova de sermos moradores em Lisboa, passa milagrosamente para dez. Acho isto uma xenofobia interna, mas siga. Fiquei tão nervosa que só me apeteceu dizer com sutak dos Açores, “Atã num se vê lóg que sumos de Lisbôa?”, mas contive-me porque, efectivamente, queria poupar seis dele. Fizemos a tal prova com as cartas de condução (donde se conclui que, quem não conduz, não entra), mas em que só uma delas (por ser mais recente) continha a morada. Porém, aquele meu ar afectado e possidoninho de revolta (a terceira em minuto e meio), denunciou a minha origem lisboeta e a senhora cedeu ao óbvio. Deslargados logo ali seis contos de réis, lá entrámos para aquela sala belíssima e sinistra que tem um lago ao meio, onde um segurança nos indicou o caminho para os melhores lugares (em pé, já referi?), que eram exactamente ao lado dele, mas que, para alcançarmos sem que ele tivesse que retirar uma fita amovível, teríamos que dar a volta completa à sala (vá lá que sem um mergulhinho pelo meio, à laia de brinde), que tem seguramente seiscentos e qualquer coisa metros quadrados. Eu cá liguei a lanterna do telemóvel, porque se há coisa que me dá angústia é andar às escuras em sítios que não conheço. Isso e cheiro a suor, mas já lá vamos. Chegámos ao local indicado — a zona dos lugares sentados cheia que nem um ovo, pois isto é povo que não pode pagar o arroz e o feijão, mas lá ficar em pé meia hora é que nem ponderar —, local aprazível, fresco, cheio de espaço e um varandim para a pessoa apoiar os cotovelos ou outra articulação qualquer, e eis que chega uma família de quatro elementos, era o pai, era a mãe, era a adolescente parva e a criança sossegada, e, num espaço de vinte e cinco metros de comprimento, todo ele disponível, em quem é que a tonta vem encostar-se? Adivinharam. (Covid, aquele vírus maroto, jamais será vencido.) A exposição começou, a catraia sentou-se na varanda, de costas para as imagens, e eu desejei com ardor que ela submergisse nas águas da Mãe d’. O pai da dita considerou, com certeza, que nós éramos uns privilegiados em termos de localização, porque foi colocar-se exactamente atrás de mim. Lembro que tínhamos à disposição uma parede com vinte e cinco metros para nos colocarmos (para além das outras três com mais vinte e cinco metros cada uma) e que foram vendidos, ao todo, treze bilhetes da modalidade em pé. Lembro ainda que Covid.

Tinham-nos fornecido à entrada uns headphones com uma caixinha, para ouvirmos a explicação das imagens projectadas na parede, ao som da voz de Ricardo Carriço, dramatiquíssimo, olhem, até tive medo cada vez que ele dizia Tutankamon. Também foi o único nome que fixei, uma vez que já o conhecia. 

Do lado de lá da fita de segurança, mesmo ao meu lado, instalaram uma família que chegou atrasada, constituída por pai, mãe e bebé. Arranjaram-lhes cadeiras, eles sentaram-se, tiraram o bebé do marsúpio e deitaram-no no chão de pedra. Cheiravam tanto a suor que tive oportunidade de ver a exposição em quatro dimensões. 

Não sei se recomendo, vou pensar. Sei que vou passar a ir cultivar-me para outras paragens, nem que seja numa alfaia agrícola.



17/09/2022

Read the fucking manual

Ando cá a matutar em escrever um manual de instruções — porque sinto que não tenho estudos para publicar um livro — sobre “Como lidar com alguém que tem cancro”. A ideia é um bocado alcançar o Pulitzer, o Nobel, ganhar uns cêntimos, mas, essencialmente, ensinar o Outro, espalhando a palavra. Já o alinhavei e tenho, assim sendo, alguns vectores:

1. Não ignores, nem a doença nem o doente. Não finjas que não o vês (oh, como seria bom adquirir o dom da invisibilidade, mas não por essa via), não evites falar-lhe no assunto, não fujas. Se não tens nada para dizer, pergunta apenas: “Como é que estás?”. Simples, assim;

2. Não tenhas medo das palavras. Podes dizer “cancro” à frente de uma pessoa com cancro. “Um problema”, “a doença”, “isso que tens” são eufemismos. Mete-os no coiso, agora não me lembro do nome. Cancro, está bem?

3. Não digas “Estou aqui para o que precisares” quando não estás. Ninguém espera que sejas mais nem melhor do que és, prometer o irrealizável é só um desperdício de saliva, agravado se for escrito nas redes sociais, para o povaréu ver e se comover com tamanha bondade;

4. Não massacres com as tuas pequenas maleitas, olímpicas diarreias e sintomas de covid. Uma pessoa com cancro está-se completamente cagando para as tuas desinterias sazonais ou porque abusaste dos enchidos;

5. Abraça. Dá a mão. Faz uma festa na cara. Aperta as duas mãos. Olha dentro dos olhos. Evita os clichés, “Vai correr tudo bem”. Isso não tem qualquer base científica e a pessoa que está doente sabe. Pode correr e pode não. Mas abraça sempre e nunca com segundas intenções. Percebe que a libido de um doente de cancro é muito semelhante à de um calhau. Não. Lhe. Apetece. Pinar;

6. Não exageres na simpatia. A condescendência, a súbita cortesia quando foste uma besta até agora, a compreensão desmedida, cheiram a piedade e a piedade cheira mal. Age normalmente, sem demasiados “Estás tão linda”. Ninguém se sente tão linda quando carrega consigo uma doença que mata e cujos tratamentos a desfiguram;

7. Não dês espaço sem que a pessoa te peça. Dar espaço é desaparecer. Cómodo para quem salta fora, demolidor para quem fica, doente e só;

8. Deixa a pessoa respirar. É ela que acorda e se deita todos os dias com o monstro escuro. Para onde quer que se vire tem-no na sombra. Sobrecarregá-la com mais inputs é tão inútil quanto cruel;

9. Não desvalorizes. Há quem se ria do seu próprio cancro, há quem chore rios e oceanos, há quem se mantenha à tona, mas todos, sem excepção, têm uma pistola apontada à cabeça para o resto da vida, e, para viver assim, nem todos têm tomates;

10. Se não puderes fazer nada disto, vai ver se está a chover.