18/06/2022

Nunca digas nunca

Foi durante aqueles dias de calor, a praia que este ano me está proibida — mas já lá estive, sentada sob o guarda-sol, de chapéu na cabeça e besuntada como um peixe (fora de água) para assar, juro que só pus os pés metade do corpo no mar uma vez, e nem mergulhei, olha, para o ano posso pedir seis desejos, paz, saúde, alegria, beleza, dinheiro e chocolates, não necessariamente por esta ordem —, que saí à rua e a canícula ia-me fritando os mióis, Natércia transformada num capacete de ferro daqueles que se colocam nos condenados da cadeira eléctrica, só lhe faltavam os fusíveis, achei mesmo que ia electrocutar a caixa craniana, então cheguei a casa e arranquei-a. Perguntei para o lado da casa onde se encontravam todos se preparados para me verem sem Natércia, o uníssono positivo, surgi então cheia de medo e alívio, mas sou tão parva e amada, a primeira reacção veio dele, não que goste mais de mim do que os outros, mas porque é mais rápido no gatilho, mesmo à macho, @s não binári@s que não me escutem, fui eu que fiz este homem que me enche sempre de orgulho e afecto, o primeiro abraço vem sempre dele, como naquele dia em que mandei mensagem para o nosso grupo com a palavra carcinoma, depois também naquele outro em que a palavra era remissão, disse ele: “Tão bonita”, com os olhos escuros e enormes que guardam a comoção dos do meu pai, para logo desmontar a “fraqueza” e acrescentar “Pareces um kiwi”. A mais velha, minha primeira vida, “Pareces uma actriz, ou a Sinead O’Connor”, a mais nova, “Que pausada”, o pai deles todos, “Pelinhos [meu mais recente petit nom], estás cheia de pelinhos na cabeça”. Foram seis meses a esconder o que estava por baixo da cabeleira, agora acabou também isso. Fiz o que disse que nunca faria.


14/06/2022

Eu tenho problemas com médicos # 30

Dúvidas houvesse, a minha vida dava um filme de cinema do piolho: Covid, aquele vírus, caçou-me de novo na curva. O jeito que dá desta vez, nem comento. 
Acontece que tinha uma bola de líquido (soro com sangue) a formar-se na axila, sei lá se de um dreno precocemente retirado. Vai disto, faço contas à minha vida, isolamento até sexta, penso marcado para quarta, e, não querendo quebrar o recolhimento, e após chamada para o Saúde 24, ponho-me em Santa Maria em menos de nada. Ia com instruções para me dirigir à Urgência Central ou à Oncologia, e comecei pela primeira. A macha antipática do guichet, mal ouviu falar em Covid, mandou-me para o covidário e eu lá fui. Estavam para aí 38º Celsius e umas seis pessoas cá fora, de entre as quais uma mulher gorda esparramada (toda reclinada para trás, a apanhar a fresca) numa cadeira de rodas, da qual claramente não necessitava. Tinha cabelos — crespos, espigados e secos — cor-de-rosa choque. Em choque, bati à porta do covidário e veio logo uma parola atrás de mim, na fuçanga de que a madame ia passar à frente do povo, a querer armar a p., logo com quem. Ignorei-a. De qualquer maneira, a enfermeira — de mãos nas ancas, como deve ser obrigatório naquele contentor da lepra —, perguntou-me com muito mau modo onde é que eu ia, e ordenou que tinha que esperar a minha vez. Gosto de evidências destas, especialmente vindas de pessoal que não tem pachorra para a vida em geral e para o seu trabalho em particular. Eu, submissa, "Ó senhora enfermeira, eu só preciso de saber se fico aqui ou se vou para a Oncologia", vai ela e diz que tem as seis boxes cheias e que ainda nenhum daqueles doentes foi visto. Lá fiz contas outra vez, lembrei-me que o ano passado estive na boxe dez horas (true, true, 10:00/20:00) até ser internada, ora dez mais dez, a contar com os que estavam lá fora, são vinte horas de espera, por isso despedi-me delicadamente da varina enfermeira e fui espreitar a sala de espera, o que constitui uma triste metáfora, pois trata-se de outro contentor, mas sem ar condicionado, quer dizer, primeiro assam os doentes, depois é que os metem na boxe (que é gélida, portanto a ideia é o choque térmico). Estavam lá dentro, acho que ainda vivas, umas quinze pessoas, por isso voei para o hospital privado da minha eleição, onde fui atendida em menos de quinze minutos, um fresquinho de dar gosto, tudo tão limpinho que pensei que tivesse morrido e aquilo fosse o Paraíso. Mas não era. Fui atendida por um médico pigmeu, cuja farda do hospital lhe estava tão grande que as calças arrastavam por baixo dos sapatos (não têm o XXS, está visto), mudo como uma porta, ao qual expliquei (quase) tudo o que me atormentava no momento. Ele ouviu com aparente atenção, escreveu tudo num papelinho muito pequenino, em letra extremamente miudinha, e concluiu assim a consulta: "Eu vou chamar a Cirurgia Plástica". Também podia ter dito a Estomatologia, que o meu espanto não seria maior, mas já estava por tudo, chamasse também a P.E. e os bombeiros de Algés. Entretanto, um enfermeiro chamou-me, arrancou-me da veia um canhão de sangue, levaram-me a outro piso para fazer um raio-x ao tórax (tudo a ver com o que me levava lá, obviamente), veio uma médica que viu a minha bola da sovaca e disse que "aguenta até quarta-feira" (sem rebentar?), e saí de lá com menos 96 pacas na conta do banco, mas, se não aliviada, pelo menos muito mais confusa.

07/06/2022

200 dias

Foram exactamente duzentos dias entre aquele em que, agarrada ao papel, na avenida cheia de trânsito no chão e aviões no céu, percebi que tinha chegado o momento de me fazer forte e enfrentar a fera, e ontem, quando o médico me tirou a cruz das costas, as correntes dos tornozelos e a corda da garganta, e me disse que estou livre, matei o monstro, a quimioterapia limpou-mo do corpo. 

Estávamos a lanchar, ela e eu, amigas desde os dez anos, já perdi a conta a quantas décadas tem esta amizade. Tínhamos o sol em cima, a luz toda só nossa, quando me lembrei de lhe mostrar em que pé está o meu cabelo. Levantei um dos lados de Natércia e os olhos dela logo marejados, eu sem cabelo, ou melhor, com um cabelinho pequenino, e de repente também sem chão, sem saber o que dizer, “O que é que foi? Ficaste comovida por veres o meu micro-cabelo?”. Agarrei as duas mãos dela, queria consolá-la do mal que tinha acabado de lhe provocar, e nisto ela dá-me a resposta mais bonita que podia ter dado: “Não, é que me lembraste muito o teu pai”.


28/05/2022

Sabichona

Naquele dia, que verdadeiramente não interessa para aqui qual foi, dirigi-me ao balcão de levantamento de exames médicos de um dos hospitais de Lisboa onde é praticamente imperioso que se deixe um órgão qualquer à nossa escolha para que seja possível liquidar uma factura. 

A jovem criança que me atendeu, pestanas muitíssimo postiças, cabelo apanhado num rabo-de-cavalo extremamente repuxado, farda impecável, responde-me, após consulta do oráculo computorizado onde haveriam de constar quase todos os meus passos do último meio ano: “Não tenho cá nada”. Pacientemente, expliquei-lhe que não se deve usar secador no cabelo das bonecas seria operada no dia seguinte, pelo que um electrocardiograma e um RX de tórax são fundamentais para que a cirurgia possa ter lugar. E diz-me a bebé, de repente médica por osmose, do alto da sua científica sabedoria: “Mas não é por a senhora não ter o resultado desses dois exames que vai deixar de ser operada amanhã”. Tive uma pequena taquicardia, respirei um bocadinho fundo, equacionei dar-lhe uma palmada no rabo, mas apenas esclareci: “Uma cirurgia com anestesia geral requer que se façam esses dois exames, para que o anestesista saiba em que estado está o nosso coração e os nossos pulmões. Sem eles, nem o cirurgião pode operar, nem eu me deixo operar. Repare, se eu morrer a meio da operação porque não toparam com uma insuficiência cardíaca, dado que não tinham o resultado dos meus exames, a culpa morrerá comigo, mas solteira, pois ninguém saberá que este diálogo aconteceu”. 

Acho que a baralhei. As pestanas postiças abriram em leque, pareciam uns pavõezinhos, quando me despachou para a colega — “A senhora vá ali ao balcão do internamento, pode ser que lá consigam [percebê-la] esclarecê-la” —, onde, simplesmente, no mesmo oráculo que a petiza consultara, constavam os meus exames, que a colega imprimiu e me entregou. Isto levou cerca de dois minutos, vá, dois minutos e trinta e nove segundos.