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16/04/2022

Pilosidades oculares

Hoje pus pestanas postiças pela primeira vez na minha vida. Quer dizer, já tinha experimentado, mas a própria colocação havia-se revelado algo de parecido entre uma luta de cola, pêlos rígidos e nervos, com um resultado final não muito longe do que conseguiria a traveca de Almada, pestanas gigantescas à drag queen, as da direita coladas para um lado e as da esquerda para o outro, quase a meio da pálpebra, só faltava colá-las na testa. 
Na perspectiva de ficar sem as minhas, mandei vir umas especiais de corrida, naturais (com tamanho próprio para mulher), elaboradas por alguém sobrevivente a um cancro, o que, se nada garante quanto à eficácia do produto, pelo menos dá-lhe uma credibilidade acrescida relativamente às pestanas que parecem capachos extensões, que ainda estou para saber como é que alguém aguenta aquilo dependurado das pálpebras por cinco minutos que seja.
Correu mal, a minha enésima tentativa e primeira colocação. Estava enervada de me ver, de dia para dia, com menos pestanas. E a não caírem simetricamente, o que só estimulava o meu TOC com assimetrias: caíam mais da pálpebra superior direita e da inferior esquerda, mas isto faz alguma lógica? Deviam cair só as de baixo, ou então na mesma proporção à esquerda e à direita. Não, uma desarrumação impossível de disfarçar com rímel, uma indómita vontade de cortar tudo rente.
Enfim, hoje acordei determinada. Tenho um jantar com amigos — só para que conste, eu tenho amigos e que jantam comigo —, e, já que tenho que ir com as unhas todas negras, cabelo postiço e sobrancelhas pintadas, ao menos que leve pestanas nos olhos. Já não digo buço.
Aquilo tem um autocolante transparente, “invisível”, que até dá para maquilhar por cima. Mas a aplicação é o mesmo drama que é para qualquer par de pestanas postiças: são dedos a mais, pelinhos que se entortam, a cola é sempre necessária porque a curvatura das postiças nunca corresponde à da nossa pálpebra e as pontas ficam espetadas, a pessoa usa pinça (correndo o risco de espetá-la num olho e ficar invisual à custa de), prega com o pelame no sítio errado da pálpebra, descobre rugas que nem sabia que tinha (ou nasceram entretanto, com tanta contrariedade), toda uma briga entre a nossa minha teimosia e a necessidade de me sentir bela. 
Levei uma hora nisto. Aguentei, posteriormente, outra hora com elas “postas”, a sentir picar em todo o globo, um peso nas pálpebras superiores que parecia aquelas actrizes de Hollywood dos anos 50’s do século passado (só me faltava a cigarrilha), que não conseguiam abrir mais do que meio olho, uma sensação de estar pejada de remelas, pronto, arranquei tudo. Vou jantar com as poucas pestanas que ainda tenho, ou então meto uns óculos de sol e digo que estou com fotossensibilidade, derivados do luar. 

13/01/2019

Unhas de felicidade

Foi na fase final de uma incursão a Norte, estava eu a quatrocentos quilómetros de casa, com uma hora de vida disponível, sem vontade de ficar no carro feita agarrada a Ai-fostes, sem pica para mais um museu, quando me lembrei que era bom despachar a manicura, já que, no dia seguinte, tinha vida para viver que necessitava das mãos arranjadas, e ainda tinha a viagem pela frente e a perspectiva de chegar incapaz de roer a unhas, quanto mais de pintá-las. Postas todas estas condicionantes, entrei em três lojas de nails, que toda a santa terrinha tem, pelo menos, dez, mas, umas porque tinham a agenda cheia, outras porque não lhes apetecia, apenas à quarta tentativa consegui vez.
Entreguei as mãos a uma mulher feliz, o que constatei sem esforço através do viço do olhar negro, sob a espessa franja preta. Pegou nelas e perguntou, num sotaque acentuado sem margens para dúvidas geográficas, se eu tinha raízes dali. Por motivo que desconheço, falei-lhe de Barcelos, omitindo o Porto, quando estava a meio caminho entre uma e outro.
Limpou o verniz que restava nas minhas unhas com acetona pura (nada de tira-verniz sem acetona), não mas mergulhou na clássica tina de água morna, e, comentando que estavam "bem direitinhas" - desconhecendo que as corto com corta-unhas e que recebo veementes protestos da manicura a que pontualmente recorro pelo ziguezague em que lhas apresento -, pegou numa lima de metal (nada de limas de cartão) e assim as acertou sumariamente, para as deixar todas do mesmo tamanho (curto, quase pelo sabugo, que mais do que isso é capaz de me deixar nervosa até aos dentes), nada de alicate de pontas para as peles das raízes (usou uma peça metálica bifurcada, que eu pensei que me ia arrancar os dedos, mas é que não - ainda os tenho), nada de limar a unha por cima, "para tirar a gordura da unha", nada de aplicar uma camada de base protectora, foi directamente um verniz vermelho-sangue-vivo como eu gosto, apenas uma camada, nada de duas, nada de top coat, "este verniz seca rapidinho". E foi meia-hora de conversa feliz que ali aconteceu, à espera que o "rapidinho" secasse, pois os tempos não são iguais em todos os pontos do país nem do mundo, nem os relógios andam à mesma velocidade em todos os lugares. As pessoas felizes, efectivamente, não sentem o tempo a passar, precisamente porque ele não passa por elas.
As minhas unhas, essas - pese embora a falta do tira-verniz, da tina de água morna, da lima de cartão e da outra da superfície, do alicate de pontas, da base e do top coat, ou talvez por isso tudo junto -, ficaram maravilhosamente bem cuidadas, cobertas com uma grossa camada da jovialidade própria do tempo que se recusa a passar.

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03/01/2019

Ninguém tem nada a ver com isso

Deixo o carro mesmo ao lado da loja de produtos para animal, numa pequena reentrância que faz a via, exactamente para cargas e descargas do supermercado. Não estou a impedir a passagem a nenhum carro, embora obrigue a que todos os que o façam entretanto, tenham que fazer uso de mais cautelas, pois a passagem está mais estreita. Não pus os quatro piscas porque não vou demorar mais do que quinze segundos - vou buscar o saco de areia para as caixas das minhas gatas, que está pago - e porque ninguém tem nada a ver com isso. Estou a sair do carro e já um casal de alguma idade para ter juízo está, dentro do seu carro, ao meu lado, claramente em protesto pela situação em que deixei o meu. Respondo que "Vou ali buscar a areia do gato, é um saco com quinze quilos, quer carregar, que eu estaciono bem o carro e vai o senhor lá buscá-la?". Digo "gato" e não "gatas" porque ninguém tem nada a ver com isso. Antes de eu entrar na loja e de eles se afastarem, ainda me apercebo de que ela se ri e gesticula, ridicularizando-me. Curiosa, a diferença de atitude de alguns homens, quando vão acompanhados da esponja e quando não. (E também vice-versa, mas essa não é agora a questão.) Gostaria que elas se transformassem em mosca (menos morta do que actualmente são) e pudessem assistir, por uma só vez, durante breves segundos, às enormidades que os esponjos engravatados e encasacados são capazes de dizer, quando elas lhes soltam a rédea e, por consequência, a língua. Mas também ninguém tem nada a ver com isso.

13/12/2018

Daquele programa, que, repito, a-do-ro # 11

Foi no episódio de ontem que se me alevantaram inúmeras dúvidas. Tudo por causa da melena da Isabel. 
Então, foi assim, por ordem cronológica, que é a que melhor entendo para contar uma história:

Isabel dá-nos conta de que vai praticar jiu-jitsu.
Seu cabelo está mais curto do que quando iniciou o espectáculo.

Isabel pratica jiu-jitsu, com seu cabelo curto.

Isabel vai ao lar com seu par, para ele lhe mostrar uns álbuns
da sua infância. Claramente, o cabelo cresceu-lhe pelo caminho.

Isabel vê os álbuns com Cláudio, e seu cabelo mantém-se longo.


Logo de seguida, Isabel vai lanchar ao lar dos cotas.
Já leva seu cabelito cortadito.

Cá está ela, a lanchar.

Pronto, e aqui de novo, com a mesma farpela de antes do jiu-jitsu,
falando sobre o lanche, e confirmando seu cabelo mais curto.

Ora, a mim, a quem não escapa um, tipo Dum-Dum, estas coisas intrigam-me. Não encontro explicação para o fenómeno capilar da Isabel, a não ser uma destas cinco possibilidades: 
1. A par com uma péssima legendagem, o programa sofre de um mau alinhamento;
2. Isabel coloca e retira extensões/perucas conforme a ocasião;
3. Isabel é dotada de um super-poder que se lhe revela através do crescimento capilar, consoante a circunstância/humor/clima;
4. Isabel levou tanto tempo a chegar a casa para ver os álbuns de Cláudio, que o cabelo teve tempo para crescer até àquele ponto;
5. Isabel, afinal, são duas, e entra em cena ora uma, ora outra.

Concluo, embora reticente, que talvez este tipo de programas não seja feito para pessoas minimamente atentas, que é o que eu devo ser. Mas, por outro lado, sou crente: pretendo contactar Isabel e questioná-la acerca do truque. A mim, dava-me um jeito jeitoso poder encolher e esticar a cabeleira conforme os dias. Não só tenho alturas em que mo apetecia mais curto, como, logo no dia seguinte, ou no próprio à tarde, dava um dente da frente para o ter mais comprido um centímetro. Até para lavar, secar e pintar, o óptimo era tê-lo à escovinha, e logo depois ele aparecer qual Rapunzel. Quando deslindar este mistério, venho aqui denunciar tudo.

09/12/2018

Habemus saia amarela polipela

Lembrais-vos da demanda? Eu lembro-me.
Pois, terminou.

Houve que colocar um smiley, não por pudor, mas porque
estava verdadeiramente com cara de parva, (só) naquele momento.
E não havia vagar para tirar outra.
Na verdade, mesmo que houvesse,
a cara de parva não se me descolava, pelo que, enfim.
(E aquele cabo? Não sou eu a segurar um selfiestick, sou eu a regar o meu jardim.)

Bem sei que não tem o fecho nem exactamente o feitio que eu queria. Mas isso são pormenores de somenos, dada a urgência da coisa e pela coisa.
Bem sei igualmente que não se chama amarelo à cor dela, e sim mostarda. Mas vamos que a mostarda é amarela. Também ninguém se lembrou de lhe chamar banana madura, certo? Nem limão podre. Nem tártaro dentário. Então, mostarda e amarelo são sinónimos e prontos.
Assim sendo, considero que a guerra saia amarela em polipele versus — ou adversus — LB é dada como terminada, com retumbante vitória para esta última: moi.
Não invalida a minha firme convicção de que, para o ano, as montras chiques e choques estarão cheias de saias de polipele em amarelo-amarelo. Sentar-me-ei com a minha vestida, a assistir ao filme que antevi em antestreia. 
(Pelo menos, não tive que dar um rim por ela.) (Ainda tenho os dois.)

16/11/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 17

que sou uma autêntica visionária em termos de fashion? Que procuro, numa estação do ano, uma determinada peça de roupa, que não está em lado nenhum, a não ser na minha cabeça, e, no ano seguinte, ela aparece multiplicada por milhares, elevada ao cubo, clonada até à náusea?
É que isto é assim: no momento presente, procuro uma saia de polipele, ou imitação de pele (e não verdadeira, porque gosto dos bichos - vacas incluídas -, porque é mais caro, porque é mais pesado, e, convenhamos, uma saia pesada é um peso de pesadelo, não podemos sequer aproximar-nos de uma balança com aquilo posto), em amarelo. Haveis lido bem, eu quero uma saia amarela em imitação de pele. Sou assim desde petiza, gosto do amarelo como os malucos, e adoro a mistura de preto com amarelo. (Já posso ter sido abelha noutra encarnação.)
Vai daí, meti-me nos armazéns todos. Todos! Corri Zara, Bershka, Stradivarius, Pimkie, Forever 21, Sfera, Mango, H&M, Lefties, C&A. Só me falta ver na Casa das Peles do Cartaxo - mas, lá está - e na loja do chinês - que nunca tem o meu número. (Parece que os chineses só mandam vir roupas xxl, por acharem que as europeias são extremamente grandes.) Tudo o que vi foram lojas forradas a pele, sim, mas de leopardo, jaguar, tigre, zebra e cobra: saias, vestidos, casacos, lenços, calçado, tudo em animal print, mas nada da boa da imitação da vaca curtida e pintada de amarelo. A maior aproximação do que queria, que consegui encontrar, foi um tom a que chamam mostarda. E eu não quero ser spicy, eu o que quero é uma saia amarela. Amarela, amarelo Ferrari
Já sei que, para o ano, vou encontrar saias de polipele de todos os tamanhos e feitios, numa altura em que eu 1. já não a quero; 2. acabei optando por uma bordeaux/verde-garrafa/verde-ranho (que já vi)/roxa/cor da minha pele/camel.
O modelo é este (evasé), e não pode ser outro:

Calma, que eu tenho menos 15 cm que a menina,
nunca me ficará tão curta
Se a virem passar por aí, por favor, digam-lhe que eu a quero de forma quase carnal e comuniquem-me, pode ser? Estou a ponto de oferecer um rim pela bichinha.

29/09/2018

As máquinas dispensadoras e eu

É sempre o mesmo imbróglio, cada vez que quero tirar um café das máquinas, designadamente por causa da quantidade de açúcar, que pretendo nula: esqueço-me de que devo começar por carregar no botão até desaparecerem as barrinhas todas, isto antes de escolher o que quero, antes de meter a moeda, antes de qualquer coisa. O ideal é já ir com o dedo espetado para o botão do açúcar mal cruzo a porta, senão aquilo entrega-me um xarope de café que, mesmo que não mexa com a palhinha plástica, sabe a rebuçado de açúcar com café e mais nada. Tipo aqueles cubos que se dão aos cavalos.
Mas, desta vez, foi diferente: quis uma barra energética com sabor a chocolate, uma dessas criações demoníacas que nos convencem (tits) que estamos a optar pelo bem, e nos farão magras como cadelas sarnentas e leishmaniosas, que é o que todas — mesmo as mesmo magras — queremos ser. Ninguém se iluda, que eu também já as perdi todas. 
Então, acerquei-me da dispensadora e reparei que a ranhura das moedas estava tapada com fita-cola, embora a das notas não. Ainda assim, escolhi a minha barra, digitei o número que lhe correspondia, e a máquina respondeu-me por escrito que devia inserir € 1,20, em quantia certa. Ora, como não conheço notas de um euro, muito menos de vinte cêntimos, considerei a possibilidade de haver ali qualquer confusão que não seria eu a deslindar, pelo que retirei a fita-cola e inseri uma moeda de um euro por ali adentro. Imediatamente, a máquina engoliu-me a moeda, só faltou ouvi-la mastigá-la e eructar no final. Já nem meti a de vinte cêntimos, não fosse engasgar-se e expectorar todas as que tivesse lá dentro. 
Lá tive que ir ao balcão reclamar do meu desaire, mas, desta vez, ao invés de "Nós não somos responsáveis pela máquina", ela disse-me "Eu sou nova aqui, não percebo nada daquelas máquinas, vou reportar". Portanto, acho que, logo a seguir, mal eu virei costas, inconformada e pobre — e também sem a minha barra —, reportou. 

27/04/2018

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 14

Chegou smart cap — doravante denominada chica-smart —, a touca de natação especialmente dedicada a cabelos compridos, aquela que, se não fará com que o ser humano fique mais belo, e não menos hiper-estranho do que fica com qualquer outra quando a envergar, pelo menos será a garantia de que a bicha não ameaçará saltar a cada segundo, durante todo o tempo de permanência no charco. Multiplique-se isto pelos 50 minutos a uma hora que dura a coisa, e veja-se, assim, o número de vezes que é preciso agarrar o crânio com ar de ai-Jesus, enquanto para ali submersa.



Dediquemos agora um pouco do nosso precioso tempo a prognosticar qual será o passo seguinte a percorrer, em toda esta problemática da indumentária piscinal, tendo em conta dois factores: 1. A natural insatisfação do femedo; 2. Aqueles momentos em que, não tendo mais nada para inventar, inventamos mais um pequeno nada. É que me parece que está prestes a nascer o terrível e inultrapassável momento aquático em que a pessoa, aborrecida com os salpicos, ou com outra coisa qualquer, mas porque o rímel à prova de água lhe exponencia as pestanas assazmente, entende serem prementes, inadiáveis e imperiosos uns óculos especiais para pestanas compridas, quiçá com umas caixas mais côncavas, tipo aqueles peixes.


26/04/2018

Barreira linguística # 2

Vamos supor que entras para comprar um rímel à prova de água com a escova curva, e te deparas com uma vendedora que quer que compres uma máscara, que pode não ser à prova de água, com a escova plana.

Entro e peço, por favor,
- Um rímel à prova de água.
Chama a colega, chefe de loja/ mais habilitada/ mais capacitada para me vender o que eu não quero comprar/ tudo junto.
- Máscara de pestanas. — Corrige a altíssima — Queira acompanhar-me ao expositor.
E lá vou, tic-tic-tic, até à grande placa negra, onde se expõem tintas e truques para nos enganar (e podermos iludir-nos de que enganamos o próximo, seja lá ele chegado ou distante) em relação à passagem do tempo, ou àquilo que nunca tivemos (boas cores, pestanas longas, pele de pêssego, olhar profundo, profundamente enigmático). 
- É esta a nossa máscara waterproof. — Anuncia (corrigindo um anglicismo, mas usando um estrangeirismo inútil), enquanto me apresenta a solicitada escova empapada em tinta negra.
- Eu queria com a escova curva. Tem algum assim?
- Não, só este. — E eis que começa a quebrar-se-lhe a curta paciência, o que percebo pelo ligeiro baixar de braços. Ainda assim, insiste:
- Mas esta escova é muito boa, proporciona o alongamento da pestana. 
Quando se trata de estética, tudo passa a ser conjugado no singular: o pêlo, a pestana, o pé, a mão, a raiz, a cutícula. Quanto aos restantes, acho que não, mas, se apenas tivéssemos um pêlo ou uma pestana, imagino que nenhuma de nós se daria a trabalhos de arrancar, ou pintar, alongar, enrolar. 
- Mas eu queria curva, nada como uma curva para me enrolar as pestanas. — Teimo.
- E tem mesmo que ser à prova de água? — Muda ela de estratégia.
- Tem. 
- É que temos aqui uma máscara com a escova curva, mas não é à prova de água.
- Mas eu quero à prova de água.
Não quero explicar-lhe que vivo o drama puramente feminino da touca horrível + fato-de-banho assustador, e preciso imperiosamente de levar pestanas que se vejam para dentro de água.
Negócio não feito, não desfeito.


18/04/2018

Post interdito a machos # 8

(Porque só uma mulher pode entender todo o conteúdo que segue.)

Estávamos numa aula aquática, já havíamos sido sujeitos a todas as sevícias de que os monitores se haviam lembrado, e, nos últimos quinze minutos, ainda tiveram a peregrina de nos mandar sugerir fazer um jogo de futebol (polo, ou lá o que é). 
Já noutro post denunciei que a água da piscina nos dá cabo do verniz, seja ele gelinho ou quentinho manicure normal. Começo a suspeitar que lhe deitam gotas de tira-verniz, assim como desmaquilhantes vários, do dos olhos ao facial. Uma pessoa entra qual bailarina aquática — se descontarmos a touca do Demo e o fato-de-banho abaixo de péssimo —, e sai transfigurada em si mesma, com mais dez anos em cima das peles. É como mergulhar no Grande Tanque de Elixir da Eterna Velhice.
O jogo decorria na sua (a)normalidade, apesar de as duas equipas estarem claramente desequilibradas: uma delas — que, obviamente, não era aquela que me calhou — tinha dois homens, e não eram eles dois elementos quaisquer. Eram dois tubarões lá para os seus trinta e picos, com uns cabedais de meter respeitinho fora de água, quanto mais lá dentro. Acho que ganharam a partida, e só não tenho a certeza porque os instrutores, feitos treinadores-árbitros-fiscais-de-linha, boicotaram grande parte dos golos que a equipa adversária havia de ter marcado, desviando a baliza no último momento. 
Mas não é isso que interessa agora aqui. O que vim contar foi o grande momento que protagonizei, e que só não foi de puro fair play porque se deu com uma das minhas companheiras de equipa: lá no meio da confusão aquática, a bola do nosso lado, perto da baliza adversária, e, portanto, numa fase do jogo que requeria alguma atenção acrescida da minha parte, ouvi a senhora mais idosa que se encontrava em campo (capitã?) a gritar:
- Perdi uma unha!
É claro que nem me passou pela cabeça levar o aviso ao pé da letra (até porque se tratava de uma unha da mão), pois, naquele relance que dirigi à mão da senhora, percebi que se tratava de uma unha postiça. Acerquei-me dela, certifiquei-me da cor das restantes nove (um castanho-bordeaux, fácil de encontrar na transparência-azul da piscina) e, qual baywatch da unha tresmalhada, anunciei:
- Vou procurá-la, já lha entrego.
Ela sem acreditar, assim como eu. 
O que é facto é que a unha passou por mim a nadar, fazendo piruetas em direcção ao fundo da piscina, toda ela num parafuso bonito de se ver. Tentei apanhá-la, mas a libertária continuou no seu passo de natação sincronizada até ao chão. Pus-lhe um pé em cima, agarrei-a com os dedos (nós somos tão primatas...), levantei o pé e eis-la. A senhora quase chorou, interpretem como quiserem.
O jogo não havia parado, e terminou passados minutos, acho que empatado. 

15/04/2018

para Sempre Mulher

Com mais um ano de idade biológica no lombo, lá fui para a Sempre Mulher, (ainda) na modalidade caminhada de lazer, mas, desta feita, fiz o grande feito de ter feito o mesmo percurso em menos 32 (trinta e dois!) minutos do que no ano passado: caminhada avenida da Liberdade acima, corrida na Fontes Pereira de Melo até ao Saldanha, caminhada até à João Crisóstomo, e de regresso ao Saldanha, corrida na Fontes Pereira de Melo, caminhada no Marquês, corrida na avenida da Liberdade até à meta. 
Por este andar, para o ano vou ao lado das atletas de alta competição, e ainda as ultrapasso. Isto, numa linha de raciocínio perfeitamente lógica: se no ano passado fiz o mesmo percurso em 01:19:56, e este ano em 00:47:59 (o raio do cronómetro espeta-se sempre nos cinquenta e tais quando eu vou a passar, só para o galo), isto quer dizer que, para o ano, a minha marca pode ser 00:15:57, mais segundo, menos segundo, certo? Certo. A Matemática tem destas coisas, e nunca falha. 


O tempo apresentou-se de feição, pois choveu todo o percurso, o que, parecendo que não, refresca, à medida que se sua. Por outro lado, este ano foi comigo não uma, mas sim duas filhas, o que foi duplamente divertido. Para a próxima, levo as filhas todas que tenho (ou não me chame Linda Blue e assim elas anuam), e aí, sim, para além de triplamente divertido, seremos tantas, que seremos imbatíveis e inultrapassáveis. 


05/04/2018

Madrinha atípica # 2

Sou dotada de bastante orgulho derivado às prendas que ofereço à minha afilhada. Se já filhas tenho bastantes, afilhada tenho só uma, com a grande vantagem de ser um tanto mais nova do que as da minha criação. Aquela menina matou-me (não a gritos; não a tiros; sim a beijos) muitas das saudades que fui deixando arrastar para trás no tempo, aquele que não volta para lá. Sem ter culpa pelo mau jeito, tem também a grande desvantagem de ter nascido em plena Páscoa, mais coisa, menos coisa, pois que esta é festarola móvel, ao contrário do aniversário da minha petite, que é de comemoração imóvel. Ou seja, ou calha em cheio na Páscoa, ou calha-lhe rés-vés, mas nunca em vazio.
Sinceramente, gostava de ser afilhada de mim mesma. De alguma maneira, até sou, naqueles momentos extra aniversário, Natal ou Páscoa, em que me oferto cenas. Mas não é a mesma coisa que seria alguém me fazer esse miminho, pois sou uma carente no que toca a agrados com valor monetário sentimental. A madrinha que tive não se esticava muito nas datas, a não ser por duas vezes em que me ter brindou com um relógio de pulso, o primeiro que espatifei logo (por ser extremamente pequena, não só em altura como também em idade), se calhar por não saber ler as horas, e um outro, que era um Timex* azul com números brancos, de que só havia à venda ou azuis ou vermelhos, mas a minha madrinha lá deve ter percebido que, para mim, ou era azul ou não servia, e posso mesmo dizer que amei aquele relógio com fervor quase carnal, tanto que ainda o tenho guardado, volvidas que lhe são em cima cerca de várias décadas. 
Bom.
Nestes treze anos de vínculo que nos une, dei à afilhada do meu coração um serviço completo de colheres de café em prata (quando eu ganhar o Euromilhões, faço-te o Topázio* Caninhas de jantar, querida, se me estás a ler), a Pandora* completa, brincos e pulseiras a perder de vista, o relógio mais foleiro do Mundo, mas que ambas delirámos por dar/receber, e eteceteras vários, tudo assim nesta linha de pensamento. 
Porém, mas sem poréns, dá-se que a menina está a fazer-se mulher, e algo me gritava que só eu, que quase nunca a vejo, me apercebi desse facto. Então, fui à loja italiana da lingerie de perdição e adquiri-lhe um conjunto bellissimo. Dei-lho com a recomendação de que não abrisse à frente de toda a gente (referia-me aos pais) (e sim, sou desencaminhadora), ela sumiu-se para o quarto e voltou, minutos mais tarde, com uma piscadela de olho, "Adorei a prenda, madrinha" e um abracinho bom.
Mais tarde, a mãe, minha bicomadre, enviou-me uma mensagem, a dar conta de que ela estava tão feliz que não queria largar a lingerie. E que eu tinha acertado em cheio.
Olha a novidade, são muitos anos a virar frangos.
Portanto, já sabeis: quando tiverdes dúvidas acerca do que ofertar a jovens dos zero aos quarenta e nove, vinde cá perguntar, que LB é este poço de sabedoria da treta e abnegação, capaz de iluminar trevas dessas.


* NMPPI

28/03/2018

Post interdito a machos # 7

O soutien, ou sutiã, conforme preferirdes, é aquela peça de vestuário que, salvo as excepções dos de desporto e medicinais, regra geral, vem apetrechado com colchetes, que são o que encerra o dito cujo até à próxima abertura, isto tanto para o bem como para o mal. A mim parece-me, mesmo sem ter feito uma auscultação de mercado exaustiva ou de qualquer espécie, que toda a mulher, mais ou menos a partir dos doze anos de idade (ou desde que as meninas eclodem), consegue fechar os dois colchetes atrás das costas, atrás dos olhos, à frente do peitoà frente das costas, nas costas, sem recurso a ajudas, espelhos ou outras manobras que tais. O tacto também é um sentido, e é em grandes momentos como o da abotoadura do sutiã que dá provas cabais da sua grande oportunidade. Portanto, apertar dois colchetes, minúsculos e quase juntos, em duas ou três fileiras, quantas vezes com unhas compridas, não sendo tarefa que exija grande ciência nem tecnologia, também não é impossível aos olhos (mesmo sem recurso a eles) de qualquer mulher desde o final da infância.
Com o advento dos bralettes, advieram com eles as fileirinhas de colchetes, mais concretamente três fileiras paralelas (vá lá não serem perpendiculares; ou oblíquas. Secantes) de nada menos do que quatro colchetes cada uma. Quatro. Não sei como não se lembraram de pôr um fecho-éclair naquilo.
Ora bem, quatro vezes três, é igual a doze. Doze colchetes são vinte e quatro peças do tamanho de uma mosca recém-nascida, para uma mulher ter que manusear sem olhar, nas suas próprias costas. Esta intrincada matemática, qual autêntica matriz, que envolve análise combinatória (aliada à ginástica contorcionista de todas as articulações do braço), equivale a n possibilidades de combinações entre os doze colchetes, cada qual, como já vimos, com duas peças, e em que há que fechar em recta perfeitamente vertical, nada menos do que quatro deles. Nada confuso, portanto.
Aposto todas as minhas fichas em como quem desenha os sutiãs são homens. Esquecem-se — ou não — do super-multitasking feminino: tal como nos primórdios da eclosão, havemos de abotoar o bom bralette na barriga, rodando-o e depois subindo-o torso acima, até que nos reabituemos à estratégia da cabra cega. Subestimam-nos, os meninos.


08/03/2018

Ser mulher

também é isto: a pessoa é fiel detentora de uma viatura automóvel, que responde pelo nome de Rosinha, minha canoa, que, por sua vez, possui uma coisa debaixo do banco do passageiro da frente, à qual não consegue atribuir um nome. Trata-se de uma espécie de caixa de metal, não sendo, no entanto, uma caixa, uma vez que não tem tampa. Porém, tem uma abertura, numa das faces, por onde tudo entra e fica. E, quando digo, tudo, quero significar, exactamente, tudo. Qualquer miudeza que caia da mão direita do condutor, ou de qualquer mão do passageiro-pendura, enfia-se pela lateral dos bancos, e eclipsa-se para lá. A dita abertura da dita coisa é bastante pequena, pelo que não permite a entrada de uma mão, e, quanto a dedos, estamos conversados, pois só entram ali dois ou três, impossibilitando-os de alcançarem o fundilho, transformando qualquer busca numa sessão de contorcionismo inútil. Já para lá refundi acessórios do cabelo, a chave de abertura do telemóvel, as costas do telemóvel — que recuperei com um palito de sushi, um torcicolo, três cãibras e um esgotamento nervoso —, dinheiro (sim, comprovei-o hoje, mas não sei afiançar a quantia certa), e só o Criador saberá o que mais. 
Então, aqui há dias, enfarpelada com um sobretudo alapado ao torso e todo abotoado à frente, e, num largo gesto, não de abnegação, como é meu apanágio, mas sim de impaciência — porque outra das características peculiares de Rosinha é a de que o cinto do passageiro fica a bater tac-tac-tac quando ele sai de Rosinha —, na tentativa, em pleno andamento, de esticar o referido cinto, hei-de tê-lo feito com tal convicção que, assim me estiquei para a direita em diagonal, assim me saiu a jacto um dos botões do casaco, mas isto com uma violência tal, que dei graças ao cosmos de não me ter acertado numa das vistas. Ao invés, disparou lá para o canto, entre a porta e o banco, e nunca mais o vi. 
Estou, aliás, convicta de que, debaixo daquele banco, está Nárnia. É toda uma outra dimensão, um verdadeiro universo paralelo. As coisas, simplesmente, incorporam de alguma forma alternativa, saem do radar, desintegram-se. 
Mayday.
Estou farta de procurar a m. do botão, e ele não aparece. Já fiz pesquisas dentro e fora do carro, já usei a lanterna, já tirei fotografias ao interior (tenebrosas, irreais e indecifráveis), já subornei o rapaz para que tentasse por sua conta, já só me faltou enfiar-me, eu própria, lá dentro e transformar-me numa ameba proteus. Ainda agora, fiz a enésima tentativa e, após um momento Carochinha, em que encontrei vinte cêntimos (será o botão, transmutado?) e mais três arranhões nos dedos, o coiso não apareceu. Deve estar, feito parvo, a rir-se de mim, lá com o mundo de cenas, de entre objectos e, quem sabe, animais, que já foram ali parar antes dele. 
E não, não adianta equacionar a solução do botão sobresselente, que esse deve existir, mas eu também o extraviei algures, para uma qualquer caixa lá do lar, onde repousam todos os botões extra que a roupa nos fornece, e deve estar cheia deles, pertencentes a peças que eu já nem sei quando e por que é que comprei. Ou então, juntou-se ao outro, e vivem agora, felizes para sempre, em Nárnia, metamorfoseados em unicórnios. 
Chiça.

05/03/2018

Óscaras 2018

Conforme já vem sendo tradição — umas vezes, sim, outras vezes, não — cá no buraco, vimos por este meio anunciar as oscarizadas do ano, ou seja, aquelas que são as mais merecedoras de nota derivados aos seus outfits. 
Na mesma senda, não se distinguem os fatos da passadeira dos outros, usados no after party. Isso calha-vos a vocês, perceberem quais foram usados aonde.
Quanto às mais bem vestidas, elas são exactamente aquelas que não constam na lista abaixo. Para essa tarefa, estão cá as bloggers a sério. Eu sou apenas a genuína blogger.

Miss Lucy in The Sky With Diamonds


Miss Qual é o Mal? Ah, Tudo


Miss Ainda Bem que Tenho Bolsos para Guardar Cenas


Miss Esqueci-me dos Sapatos


Miss Porra Para os Sapatos


Miss Avozinha do Capuchinho


Miss Cardeal Patriarca, Hallelujah


Miss Caderno Para Colorir


Miss Super-Heroína (essa mesmo)


Miss O Tecido Estava Num Saldo Imperdível


Miss A Mim Deram-me Uma Tesourada. Ou duas


Miss Mandei Aplicar Bottox Também no Vestido

Miss Nota de Cor

Miss Esfarraparam-me Toda

01/03/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 13

que, quando outro condutor me bloqueia o carro com o seu, e olho à volta (sem esperança), depois dou uma apitadela simpática (elas existem, são assim duas seguidinhas, pi-pi), espero mais um tempinho (uns quê?, largos quatro segundos, ou assim), apito já menos simpaticamente (piiii-piiiii), espero mais um bocado (desta vez, dou-lhes bastante, quase três segundos que custam a passar como os dos agachamentos com a barra nos ombros, com pesos desumanos), e é que nada de me aparecer o bloqueador da minha vida, 
[congemino manobras impossíveis, imagino que vou ficar ali para sempre e um dia vão encontrar-me putrefeita ao volante (mesmo que esteja em esqueleto, por favor, alguém me penteie), elaboro mentalmente discursos imaculadamente ofensivos para o momento do aparecimento do meliante, suo um bocadinho das mãos e das pálpebras, pondero chamar o reboque, a polícia de intervenção militar, a brigada dos bons costumes, os bombeiros, os rapazes da obra (há sempre uma obra por perto) que me levantem o prevaricador no ar, a minha família toda, chamo pela minha mãe, brado aos céus por uma ajudinha nesta hora de aflição,]
e isto, ao cabo de menos de nada, tudo me dá para meter as duas mãos na buzina e já de lá não as tirar até ensurdecer a rua, o bairro, a cidade, até alguém chamar a ambulância do asilo de doidos ou até, olha o disparate, aparecer o dono da m. do carro que está a atravancar o meu e a minha vida toda desde que nasci, no século passado?
...
E eis que me surge no horizonte, negro e nervoso, uma de duas possibilidades:
1. É homem: corre para o carro, faz parkour, vem de braços no ar, a pedir desculpas a todos os santinhos e, já agora, a mim. Sorri, desdobra-se em penitências, só lhe falta ir buscar o cilício, cortar os pulsos ou dar o corpo às balas, quer dizer, às rodas, debaixo do meu. Geralmente, mete-se no dele, sai disparado como uma bala e desfaz-se em fumo;
2. É mulher: vem para o carro com a paz e a calma de uma procissão, talvez traga cristais nos bolsos, ou nem quero imaginar aonde. De caminho, só lhe falta fazer um bocadinho de moonwalk, para atrasar mais a coisa e exponenciar a minha irritação. Não pratica o contacto visual comigo, sequer faz um breve gesto com a manita (não, não é esse; esse, deveria eu fazer) como sinal de desculpas. Adivinho-lhe mesmo um semblante contrariado, toda a sua linguagem corporal grita "Mal educada!". Mete o rabo entre as pernas e mete-se toda, rabo incluído, dentro do carro. Faz uma micro-manobra, para não me facilitar a saída e me provar por A + B + C + D até Z que eu sou uma má condutora e uma azelha. Depois de me obrigar a chegar à frente e atrás cerca de dez vezes, ainda me fica com o lugar. E oh, efectivamente, a malcriada sou eu.


16/02/2018

Por uma vez na vida, sei que não sou só eu

que sofro de tiques, picadas e comichos vários aquando da pintura das unhas das mãos. (Há que especificar, pois que o mesmo fenómeno não ocorre quando se passa verniz nas unhas dos pés.)
Vão por mim que, apesar de não ter experimentado, garanto esta veracidade: até podemos fornecer  previamente uma boa dose de coça-coça ao nariz, até podemos esfregar o couro cabeludo com o esfregão de palha de aço, até podemos esgatanhar os globos oculares até sangrar, que, se tiver que ser, vai acontecer:
1. Uma narina que pica. As mais arrojadas, chegam mesmo a espirrar, retorcem a cabeça na direcção contrária à das mãos e, gloriosas, assim evitam despejar o jacto nas unhas, mas também conseguem bater com elas num lugar qualquer que garanta igualmente a esmerdança do momento artístico;
2. Uma leve comichão na cabeça. Que depois passa a picadela. Logo a seguir, parece um insecto. Depois, um enxame deles. Finalmente, levamos as pontas de dois dedos à cabeça, coçamos ao de leve, a comichão agrava-se gravemente, raspamos com os nós dos dedos, e, nesse cuidado todo, esmerdamos três unhas contra a palma da mão;
3. Um cabelo que se atravessa num olho. Aliás, os olhos são férteis em desculpas para estragar a manicure. Também existem as modalidades caiu-me-uma-pestana/sobrancelha-no-olho, tenho-um-cisco-no-olho, comovi-me. Seja o que for que seja, um olho agredido por objecto invisível, ao ponto de ameaçar saltar da órbita, é urgência que nos leva a manita de unha fresca até lá. O normal e natural, por ser tão frequente como cem por cento das vezes, é a mão voltar de lá com um cabelo atravessado na unha. Ou dois. Ou em duas unhas. E a consequente defecança do processo todo;
4. Um dia de bad nails, que os há, assim como os há de bad hair. Porque está húmido lá fora, e as unhas não secam, nem que as metas no micro-ondas; porque o verniz está velho, e até podes esperar uma semana com as mãos no ar, que a primeira vez que as usares, nem que seja para fazer um gesto largo sem tocar em lado nenhum, vão-te aparecer vestígios de um fantasma, que é o Fantasma das Unhas; porque sim, porque não era para ser e tu teimaste em pintar as unhas logo hoje, que os chakras não estão alinhados; 
5. Um telemóvel que toca. Tal não devia sequer ser um factor ponderável diante da importância que é deixar secar o verniz até não haver risco de ficar riscado. Porém, nestas alturas, o telemóvel de uma dama é uma sucursal do 112: liga o filho que está doente, liga o cliente mais importante (que ainda não pagou o último trabalho), liga a sogra, liga o bombeiro, liga o gato que ainda está preso no telhado. É atender, minha gente. Já sabemos que vamos ficar com o verniz colado ao aparelho, teremos que recomeçar tudo desde o início dos primórdios da pré-História, rangeremos os dentes mais um bocadinho, e, afinal, a p. da chamada era só para te dizer que "está tudo bem". Está tudo bem??? 
OK, respira, hiperventila para o saco de papel, corta as unhas curtas, ou melhor, rói-as até ao sabugo, deita fora a caixinha da manicure e torna-te hippie. Caga nisso. E também naquilo. Caga na mata. A vida é curta como as tuas unhas deviam ser, e há coisas verdadeiramente mais importantes. Tipo as flores e a Natureza. E cenas.

15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

08/02/2018

Azul aos meu pés!

Primeiro, foi a Zara* que os teve, que eu namorei sem com eles ter casado (nem ter chegado a perceber muito bem quem é que foi deixado no altar); depois foi a Ros*, pelos quais suspirei, sem ter cedido ao ímpeto, a bem das Finanças do País.
Agora são meus.
É certo que não sei quando, nem como, nem porquê, nem onde os vou usar. E dão todo o ar de que vão fazer-me sofrer um bocadinho das cruzes.
Mas o que é isso interessa, se o mar é azul e se é de azul que eu gosto?


* NMPPI
É verdade. Não sei fotografar cenas. Mas vá, concentrai-vos na beleza do objecto e esquecei lá essas minudências.

06/02/2018

Foi tão blogger da minha parte # 8

Era uma vez eu, que, farta de gastar dinheiro na perfumaria, fui ao supermercado e experimentei não um, não dois, mas cinco rímeis diferentes em cima das minhas pestanas, já de si pintadas. Queria perceber qual era o melhor, e, não podendo pôr um, tirar e pôr outro a seguir, acumulei-os. Se, assim, não consegui fazer essa aferição, pelo menos fiquei com todas as pestanas carregadas de tinta preta, e dei-me então a oportunidade de escolher qual trazer para casa. Como não estava fácil escolher entre tantos, e todos tão bons, trouxe três, para usar alternada ou concomitantemente, consoante a mood do dia.
Isto foi um entróito, para criar algum suspense e salivação. Agora é que é o post a sério.

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Andei eu anos — décadas! — desta minha vida, convencida de que tinha olhos frágeis (designação que eu própria inventei), e que, por conseguinte, tinha que usar apenas rímeis (a tal máscara de pestanas) de qualidade, vulgo caríssimos, e não é que, farta de o enterrar todo naquela escova cheia de carvão em papas, decidi experimentar não um, mas cinco diferentes, e trouxe comigo três deles, marca supermercado, e não aconteceu nada, a não ser ter ficado com umas pestanas panorâmicas, qual traveca de Almada, qual pestana postiça, qual ó-eu? Nada de olhos a picar, nada de pestanas aos molhos como o alecrim, nada de choram os meus olhos. 
Isto, de várias, uma: 
1. Ou os meus olhos perderam a fragilidade e ganharam uma espécie de calo;
2. Ou a indústria da cosmética, ao nível do supermercado, melhorou bastante em termos qualitativos;
3. Ou existe aqui um factor psicológico, e a carteira é que manda, porque não é o corpo, é mesmo ela é que paga, e, por conseguinte, de tão mais barato, já nada me pica;
4. Ou eu andei a mentir a mim mesma estas décadas todas (perdi mesmo a memória — outra vantagem que só a idade dá — em relação à idade com que pintei as pestanas pela primeira vez);
5. Ou eu não tinha mais nada para fazer ao metal, para ir todos os meses (ou todos os quarenta dias, para ser mais rigorosa) à perfumaria empenhar os anéis para trazer a tinta preta;
6. Ou estou naquele período de lua-de-mel com os artigos, e daqui a três, quatro dias, estou a rosnar que me caíram as pestanas todas;
7. Ou comecei, finalmente, a ver mal, e vejo pestanas onde elas não existem;
8. Ou a minha vida é pautada por estas maiorências e ninguém me dá o meu devido valor;
9. Ou o assunto pestanas não é, efectivamente, um assunto que se transporte para aqui, e mais valia estar calada;
10. Ou quem cala consente.
[Pôxa, vi-me aflita para chegar às 10.]

É pedirem com jeitinho, e até digo as marcas. Mas posso adiantar que um deles é aquele que é branco de um lado e preto do outro. O branco usa-se primeiro, está bem?