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22/02/2026

Ela fala(va?) tanto # 34

Olá! Feliz Ano Novo. Ai, já cá estive depois disso? Nem fazia ideia. Ontem recebi uma notificação do comando desta coisa, a avisar que não usava a conta há mais de três meses, e que, por conseguinte ma iam apagar. Também não gostei. Vim logo a correr — e, aparentemente, levei um dia a chegar — pôr um poste, antes que me varressem onze ou doze anos de trabalho árdua e infinitamente intelectual. 

Que é feito de mim? O costume. Novidades: tenho a que fala tanto de baixa há cinco meses, portanto, tenho que partir do pressuposto de que ela, de facto, esteve doente. Isto, por comparação com a minha pessoa humana, que já viu o agulhão da anestesia tantas vezes e tão sem conta, que nem vos conto. Operaram-lhe as tripas, mas acho que não fez delas coração, porque a primeira atitude que tomou foi, exactamente, abandonar a mão que lhe deu de comer. Nada oncológico, tenham lá calma. Pela descrição dela, uma tripa meteu-se dentro da outra e depois, ao invés de resultar uma tripinha desta promiscuidade, fez um nó lá dentro que, afinal, era uma hérnia. Eu não sei nem a o que é que ela foi operada, sei apenas que andou ali pela zona do cocó. [Note to self: se, na próxima encarnação, calhares em médica, não escolhas gastroenterologia. Recuso-me a aceitar o pivete que vai na sala de cirurgia a cada doente que lá mete o rabo.] Lamento a sorte dela, só que nunca vi ninguém recuperar de uma cirurgia às miudezas durante cinco meses. Tem-me brindado com atestados médicos vários, todos assinados pela mesma médica, uma senhora de idade já reformada, que deve ter sido muito boa aluna a ditados na escola primária: vêm todos com a advertência de que não pode fazer esforços (como se ela andasse a subir a escadotes e a limpar janelas do lado de fora, sentada nos parapeitos.) Estou a ponderar, quando e se ela voltar, sentá-la no sofá da sala, e desatar a mudar camas, a estender roupa, a recolher, a passar a ferro, e ela sem fazer um único esforço, em obediência à Dra. Ditados. Lembro-me de, se antes de tudo isto, ela sofria dos pulsos, e fazia pouco e mal, então agora com as tripas viradas do avesso, piorou a minha situação. A ver se algum dia lhe doeu a língua.

Então, o que é que tem acontecido? Linda faz trabalho de Fala Tanto, com excepções (passar lençóis de cama e camisas de cônjuge, vai tudo para a engomadoria, senão qualquer dia zurrava, arre burra) e ainda o de Linda. Exerço tarefas que sempre odiei, como a de tirar a louça da máquina (só de me lembrar do cagaçal, arrepio a espinha toda) e outras que sempre amei (passar a ferro é tão relaxante, que só chamo a engomadoria porque também tenho os meus limites). Outro dia parti quatro pyrexes* de uma só vez, que foi um alívio. Dois eram mesmo Pyrex*, dos grandes, da carne e do peixe (passamos a comer só lasanha no lar...?) e os outro dois eram de porcelana. Caíram os quatro em cima do lava-louças, uma das crianças achou que eu falecera porque fiquei calada, mas não faleci, fiquei foi paralisada com o frete de ter que limpar aquela m. toda. Não me ocorreu fazer os puzzles para os reaver e rever, pois os cacos eram tantos, que era capaz de inventar uma nova forma de arte e já chegam as que existem.

Adquiri um aspirador novo, no qual Fala Tanto não poderá pôr as unhas de gel (sim), caso volte, pois é pessoa dotada da arte de dar cabo como mais ninguém, para além de falar. O meu aspirador, do qual não vou dizer a marca, porque NMPPI, mas é o Ferrari* dos aspiradores. Aquilo, uma pessoa anda com ele de trás para a frente, e o lixo desaparece todo sob a pá, sem ser preciso fio, ficha, tomada, sacos, nada! Só falta mastigar o lixo e cuspir um bolo brigadeiro. 

Tenho, pelo menos, dois armários que me obrigam a fazer uma ginástica incrível, incredível, inacreditável, para meter a louça toda lá dentro. Mas, no final, consigo e sinto-me bastante mais tonificada e inteligente. No entanto, se o problema é o excesso, um destes dias parto, não toda, mas metade da loiça, enquanto grito e esperneio o que me aborrece na vida, e resolvo o problema. 

Vou também ter que impor novas regras no lar, de entre as quais: 1. Não quero ouvir um pio (e não "piu" como para aí se diz) durante todo o expediente. Acho que é a única regra. Não sei como é que isso vai correr... Claro que mal, pois ela vai amuar, mas ao menos amua calada

Parece que este discurso é um bocado facho. Mas então, vamos lá a ver: ela opera as molezas da barriga e está, pelo menos, cinco meses de baixa. Não pode fazer esforços, quando a profissão que exerce obriga a alguns — e tudo depende do conceito de "esforço". Eu, por exemplo, considero um esforço quase tudo. Nesse caso, quem é que pode fazer esforços no lar? Hum? Linda, claro, a pessoa mais saudável, musculada e com as forças puxadas que existe naquele espaço.

Está na minha casa há vinte e oito anos. 


* NMPPI


16/07/2025

Ela fala tanto # 33

Por exemplo, digo-lhe para fazer almôndegas para o almoço e ela responde-me com a descrição ao pormenor da casa de uma das irmãs na Costa, que afinal é uma tenda no Piedense, cujas segunda e terceira letras troco sempre sem querer quando rarissimamente lá passo e que só ficará na História da criminologia portuguesa por ser onde estavam instalados os pais e a própria Ana Cristina, único e dos mais tristes homicídios de que há registo, cometido pelo gang do multibanco.

É muito cansativa.

Mas mora ali um coração grande e bom, o que deve limpar toda a porcaria que me mete pelos ouvidos adentro. O pai dos filhos, com quem mora desde os dezasseis anos, tem uma pequena reserva onde instala animais que vai apanhando feridos ou abandonados. Tem lá, neste momento, dois casais de patos-bravos e uma galinha. Tirou a guia aos patos para que eles não voassem, e os dois casais lá se reproduziram, não sei se o mesmo pato com as duas patas ou se duas para dois, esqueço-me sempre de perguntar esses pormenores. Também porque receio que ela me conte a história da fractura da mãe, que nunca sei se foi de um braço ou de um pé porque entro em off quando ela começa a desbobinar. 

A verdade é que as duas patas ficaram chocas, dez ovos cada uma. Os primeiros dez nasceram algumas semanas antes dos seguintes, eu vi o filme e comovi-me porque também sou parva e o milagre da vida agrava-me essa característica. Entretanto, morreram três, pois a tal vida também consegue ser estúpida e ai a selecção natural e ai a lei do mais forte e porras. 

A segunda pata cansou-se de chocar ovos, é capaz de ser muito jovem e ou tola, deixou três ao abandono e foi à vida dela cuidar dos séptuplos. A galinha ficou choca, não tinha galo, não vai de modas: chocou os três ovos e nasceram-lhe três patinhos.

Diz que parir é dor, criar é amor, pelo que a galinha e os patinhos convenceram-se de que eram mãe e filhos. Só que a pata parideira e abandónica reconheceu aqueles três como sendo seus. Ao início, bicava a galinha como se a desgraçada fosse uma raptora ou uma subtractora de menores. 

Não sei como é que se entenderam. Sei só que, actualmente, andam as duas patas e a galinha a rodear os patinhos em todo o espaço, e ai do gato ou de outro animal qualquer que tente atacar os pequenos. Terá primeiro que lutar com as três mães até à morte.

Eles comem cascas de frutas e legumes. Dou comigo a descascar kiwis, deixando a casca cada vez mais grossa. A taça da alface fica a pouco mais de meio, para poder juntar tudo e, no dia seguinte, os patos terem refeição. 

Eu também falo muito.



20/01/2025

Ela fala tanto # 32

Infelizmente, desembezerrou.

Tinha um sinal estranho (agora acho tudo estranho em mim, menos o que é verdadeiramente estranho) (agora o sinal já não é estranho porque já fui mostrá-lo a um especialista). À saída para a consulta, disse-lhe:

- Vou agora ao médico para ele ver um sinal que tenho, que acho suspeito.

Resposta:

- Eu tenho uma nódoa negra no cotovelo que não imagina. Está roxa e preta. Foi ontem, fui bater com o braço no puxador da porta da minha cozinha, nem sei como é que lá fui dar. Foi com tanta força, que até fiquei zonza e tive que pedir ajuda. Isto também pode ser da anemia, que eu, com estas hemorragias todas, ando anémica. Por isso é que me dói tudo, é pulsos, é joelhos, é braços, é pernas. E tenho medo de cair, tenho tantas tonturas. Mas isso deve de ser derivado aos cristais. 




26/09/2024

Afinal ela fala tanto

O silêncio dela durou exactamente três meses e dez dias. Hoje, enquanto fazia duas malas — visto que vou correr o país de Norte a Sul no próximo domingo, rali que leva o tiro de partida amanhã (eu sei que não há tiros nos ralis, era uma metáfora) —, encontrei o anel que procurei durante uma infinidade de meses. Aquelas situações em que às tantas já procuramos onde é impossível estar — no armário dos medicamentos, debaixo de uma cómoda que tem poucos centímetros de altura entre o chão e o início da coisa (teve que ser com uma régua de um metro e meio, que, ainda que me espalmasse contra o chão, não conseguia ver para lá de onde o sol se põe), em cima do frigorífico, dentro das minhas narinas, na gaveta dos collants, eu sei lá, menina — e nada de anel. Tinha-a avisado que o anel ia aparecer, nem que eu tivesse que meter uma retroescavadora dentro do lar e arrebentar cu parquê e cus azulejos. Sacudiu os ombros, pois andava a amarrar o bode, e eu virei-me para o lado que durmo melhor. Claro que a culpa ia morrendo solteira, como sempre, e então, “Terá sido uma das gatas?”, que são quem tem as costas mais largas do lar, tipo Schwarzenegger.
Normalmente, quando ando à pesca de alguma coisa, primeiro vejo onde sei que ela estava, depois pego num objecto com o mesmo peso e tamanho, atiro ao chão e verifico a área que ele alcança. Se não encontro, parto para os locais improváveis e só depois os prováveis. A experiência diz-me que as distracções nos levam a deixar as coisas em lugares que nem o diabo acredita. Esgotei todos e nada de anel. Encontrei-o hoje, numa bolsinha onde já tinha procurado vinte vezes. Assim que lhe disse, a mulher desatou a língua há muito presa (pouco tempo para mim, o silêncio é-me tão caro que me arruino) e contou-me a história das unhas dos pés dela, que eu já sabia de trás para a frente. Apeteceu-me dizer: “Estava a gozar, o anel continua desaparecido. Mas também posso contar a história de um furúnculo que vi uma vez numa pessoa”. Chata.

07/09/2024

Ela já não fala tanto (e que Deus a conserve assim, como um pickle, muitos anos e bons)

Não sei por que diachos fui embora deste modesto espacinho e não voltei mais cedo, mas acredito piamente que hoje para aqui ando, cheia de entusiasmo a bater as teclas do meu ruidoso teclado, e sou bem fulana para me evadir e só voltar daqui a dois meses, quando tiver assunto. Não que hoje o tenha, mas preciso prementemente de registar aqui dois ou três factos da minha existência. 

Há aqui um que vai, com certeza, deslocar-me placidamente para a categoria das elitistas classistas, mas, já em minha defesa antes que venha de lá a primeira pedra, tenho a dizer que eu sou a entidade empregadora nesta relação. 

A que falava muito calou-se para sempre, isto há coisa de cerca de um mês e meio, daí que já não espere que a voz lhe regresse. Deu-se que esteve de férias duas semanas e, no dia anterior a proceder a sua rentrée, à noitinha, então não é que me manda uma mensagem a dizer-se doente há muitos dias e que não poderia trabalhar nos dias seguintes? Saltou-me logo a mola, que está sempre mal apertada, e respondi-lhe que estava farta das semanas inteiras de férias que a pessoa fazia, com prejuízo do meu trabalho, do meu descanso e, sem querer pôr um peso pesado na argumentação — que não pus —, já para não falar na minha saúde. Madame Dona Senhora ainda me devia, e deve, dois dias de trabalho, que me pediu para tratar de uns assuntos, que eu lhe concedi imediatamente sem questões (não fosse ela desatar a língua e eu, sim, ter que meter baixa enquanto entidade patronal, pois, como se sabe, ela seca-me até eu ficar em modo esqueleto), ela a insistir para tratar de uns assuntos e eu calada que nem um rato, já me cheirava a gato por todos os lados ["Queres ver que esta me vai pôr a trabalhar de graça para ela, para além de lhe fornecer duas abébias seguidas?"], nunca soube que raios de assuntos queria tratar ela, pois normalmente são rixas de bairro e eu já dei para esse peditório. Aproveitei e consultei o mapa de férias dela, ilegalíssimo porque eu não sou tida nem achada na escolha dos dias, e descobri para lá uma semana em Novembro, inteirinha, em que me iria faltar porque faz anos nessa sexta-feira. ["Ai, que maçada, tenho ao meu serviço há vinte e sete anos a rainha de Inglaterra e só hoje é que descubro? Naturalmente que Sua Majestade Venerandíssima precisa de uma semana para comemorar os seus cinquenta anos!"] Bumba, foi a talhe de foice, cortei a segunda e a terça dessa semana, para que me devolvesse então os dois dias que usou para tratar de assuntos.

Então não querem saber que Votre Majestée anda amuada comigo desde aí? E como é que eu sei? Fácil: entra de manhã, zurra "Bom dia", não responde a nada do que lhe digo, às minhas perguntas vai um "sim" ou um "não", no máximo, e suspira. E tosse. Constantemente. Quando não é uma, é outra. Mas eu tusso mais alto, literalmente: efeito secundário de uma droga com que me drogo. Mas ninguém a bate a suspirar. "Ai" quando eu passo, "haaai" quando pousa roupa passada em cima das camas (tem que se inclinar, compreendo que é chato), "haah" quando tira um tacho do armário, toda uma série de espasmos que já ponderei seguir-lhe os passos, para ver se comigo também resulta assim. 

Não é com vinagre que se apanham moscas, lá dizia o dono da "Dum-dum". E eu sou uma mosca. Chorem-me, expliquem-me o que lhes vai na dorida alma, solucem-me, funguem-se-me dos narizes, escrevam-me uma carta que me faça largar uma lágrima e cinco gargalhadas, que me levam até ao raio que já me partiu. Agora bezerras? Amuanços? Nem noto. Ando numa alegria que a endoidece. Trabalho mais e melhor, saio de casa sem alguém me perseguir até ao elevador com seus assuntos de m., já não tenho que saber quantos filhos tem cada irmã das dela e saber os nomes e datas de nascimento deles de cor (nunca consegui decorar, sei que há um Daniel e uma Daniela, mas depois é todo um sortido de Igores que uma pessoa rebolava os olhos e arredondava a saia de cada vez que ela se especava porque eu desacertava as Soraias com os Telmos). 

Chiu. O silêncio é de ouro. 


04/01/2024

Post com dois assuntos cientificamente relevantes

Tenho um clube de formigas extremamente pequenas no lar. Deslocam-se em carreiros, desconheço onde é o formigueiro, mas já salvei a vida a umas dezenas delas. É que se afogam numa gota de água, apesar de terem uma resistência louvável. (Nem sei se têm pulmões, mas devem ter.) Ontem estava a beber água por um copo, espreito lá para dentro e vejo uma delas, muito sossegadinha, muito quietinha. Considerei preferível verificar se morta, se viva, mas a fulana não me agarrava o dedo, para que eu pudesse colocá-la numa folha de papel de cozinha e devolvê-la às manas. Peguei então numa colher e retirei-a do oceano. Pensei mesmo que estivesse morta, porque continuou inerte. Quando a ia passar para o papel, vi mexer uma patita, mas ela não largava a colher molhada. Insisti na manobra e deve ter sido aí que a torci um bocado, pois aterrou no papel toda torta e baralhada. Também podia estar em pré-afogamento, coitada. Destorceu-se, endireitou-se e lá seguiu caminho toda manca, à procura das outras. E bebi a água, sim, que a vida não está para finuras.

Mas não era a isto que eu vinha, embora o tema formigas ainda não esteja esgotado. Fica para o último parágrafo.

Hoje entrei na quinta dimensão. Estava a cozer uns lombos de pescada na Biby — que ela coze pessimamente — e na receita mandava guardar a água da cozedura para depois a misturar com uma poção qualquer que já estava em preparação no meu caldeirão. Pus um coiso de palha por baixo do jarro e vai de verter o precioso líquido lá para dentro. Quando chegou à última gota, pás!, explodiu como que dinamitado. Pensando bem, acho que implodiu. Sei que era vidros por todo o chão da cozinha que chegavam ao corredor. E meio litro de água perfumada de peixe, que se transformou em cinco litros, pois era a minha calça, o meu pé e respectiva chinela (desculpem, mas tenho que acabar com este mito rural: eu sou como as outras pessoas. Ou pior), era o chão, era toda a bancada e a derramar-se para dentro das gavetas e armários. Valeu-me minha Sandra que, quando faço uma refeição em vez dela, até se lambe, parece que ainda tem maior ensejo para dar à matraca. Lado bom: ninguém se magoou, nem sequer com aqueles vidrinhos do tamanho da minha formiga (é assim que o cosmos me agradece) e também, menos um mono.

De vez em quando sinto um bichinho a passear pela minha testa, junto à raiz do cabelo. Depois desce, passa-me pelo nariz a atira-se em bungee jumping para o meu ombro. Há dias percebi que era uma formiga das minhas, se calhar veio agradecer-me ter salvo a coxa.

Hoje estava nas minhas danças e lá sinto outra vez um bicho pequeno a percorrer a minha raiz do cabelo. Sacudi com cuidado, para não assustar o animal nem o lesar e disse para a que estava atrás de mim: “Tenho formigas na cabeça”, que há-de ter sido a frase mais esquizofrénica que proferi na vida. Ela desesperadamente a tentar disfarçar o seu incómodo, “Pode ser algum champô que estás a usar”, mas eram de aflição os olhos dela quando eu esclareci: “Tenho imensas formigas em casa, nunca tinha visto umas tão pequeninas e, de vez em quando, uma ou outra vem passear na minha cabeça.”

04/05/2023

Só mudam as moscas

(Hah, achavam que a pessoa humana, por uma vez, ia falar sobre política? Também serve, é lerem este texto como uma metáfora. Não sei como, mas deve dar.)

Meu recém-nascido cabelo tem vindo a medrar, mas, como encaracola, vejo-me na contingência de o prender à frente com molas pequeninas, aquelas a que os brasileiros chamam piranhas, mas, como são mesmo de tamanho mínimo, eu chamo-lhes moscas. Ando com a cabeça cheia de moscas, ao todo cinco, mais dois ganchos, quando não três. Caso contrário, ficaria a filha da Lara Li com a Simone de Oliveira, que é como durmo. (Ninguém dá o devido valor aos homens.)

Outro dia perdi uma das minhas moscas, procurei por todo o lado e nada dela, “Olha, bateu asas e voou”, como o meu coração ateu. Substituí-a por uma de reserva e não pensei mais nisso. Hoje vesti uma blusa preta, rendada, com meia gola que me custa a passar na mona como um parto natural em que eu sou o nascituro, e vejo uma das moscas presa perto do ombro. Achando eu que era uma das que tinha acabado de pôr, procurei na cabeça, no meio do enxame, e estavam as cinco, todas tortas derivados à violência do parto, mas eram cinco. Ou seja, a mosca perdida agarrou-se com unhas e dentes à minha blusa, que foi à máquina, foi estendida, recolhida e dobrada (não necessita de ferro) sem que aquela que me serve há anos nas lides a tenha visto. Fala bastante, e isso impede-a de prestar atenção a minudências. Eu, por mim, limitei-me a mudar o nome de mosca para carraça às minhas molas.


29/06/2021

Ela fala tanto # 31

E não pode ver nada. Agora também quer ter tensão alta. Já não bastava a alergia aos metais. E as unhas encarnado-sangue. E ter posto ao filho o nome do meu. Fora o resto, que é tudo e mais alguma coisa.

Liga-me às 8:22 da madrugada, eu já na lufa-lufa, porém quase desacordada, Bom dia, desculpe, mas não me estou a sentir nada bem, passei toda a noite a vomitar [vá que, desta vez, sabe-se lá porquê, me poupou ao pormenor da diarreia], vou ao hospital ver o que é que tenho, Será covid?, pergunta aqui a parva, Acho que não, isto foram umas coxinhas de frango que eu comi no fim-de-semana e que me provocaram uma subida da tensão arterial, já é a quarta vez que isto me acontece [o animal selvagem que me habita a congeminar em ladainha: À primeira caem todos, à segunda cai quem quer, à terceira cai quem é parvo, à quarta cai... a Sandra! Comi pipocas ao almoço, comi pipocas ao jantar...], nem me consigo ter de pé, não tenho reacção no corpo [a tal descrição que ela faz para todas as suas maleitas e desaires, que vão da amigdalite até à cólica intestinal, passando pelas inúmeras quedas e pancadas que lhe acontecem. Não ter reacção no corpo significa exactamente o quê? Que faleceu? É que eu, na minha justa e correctíssima ignorância, desconhecia que é suposto o corpo ter reacção. Mas siga], agora estou na [nome de uma firma para a qual trabalha quando sai cá do lar, que fica a cem metros de distância] a beber um chá aqui com as minhas colegas [???] a ver se melhoro. 

Confesso que já não ouvi muito mais, porque tinha o cérebro a chiar camas de lavado, duas casas-de-banho, chegada e arrumação das compras do mês, almoço, máquina de roupa, recolher toda a que estendi ontem, estender a que lavar hoje, dobrar o que não seja para o ferro, compras, jantar. 

Portanto: minha madame passou mal todo o fim-de-semana derivados às coxas, mas ainda se arrastou até perto da minha casa, quase uma hora antes do horário de entrada (please, explain), isto tudo sem reacção no corpo. Se eu não sou uma cavala, que havia de lhe agradecer a intenção, mas não o fiz?

Moral da história: foi ao hospital, deram-lhe uma pica, mandaram-na para casa sem baixa, mas hoje ainda não pôde trabalhar, porque continuava muito zonza e com a cabeça a explodir. (Não vamos fazer a imagem mental, está bem?)

Em suma: mandei-a meter baixa. É para isso que lhe pago a Segurança Social e não há cá mais merdas. Sim, ponho com fervor a possibilidade de me ter tornado execrável. Foi do covid. Não, afinal não: foram vinte e três anos a levar com grupos, sempre à sexta e à segunda. Quando ela voltar, terei o meu corpo sem reacção. E a minha cara. E os meus ouvidos, para os intermináveis relatos que me faz de tudo o que lhe acontece na vida, e que me interessa, vamos lá a ver... zero, vírgula, zero, zero... zero.


16/04/2021

Profilaticamente isolada

Por razões não sei de que foro, que, exactamente por essa razão, não cabe aqui explicar — ficaria longo, ou então descabido, ou simplesmente não me apetece explicar (ah, a amarga liberdade, que gradualmente se vai perdendo por este deserto afora) —, encontro-me física e espiritualmente retirada da realidade (seja lá o que isso for nos dias que correm por estes dias) que é o mundo (oh) lá fora, ou seja, a rua. Assim, estou sem a matraca que me faz a lide doméstica, mal ou bem. Tenho, por esse motivo, aprendido algumas coisas, ou melhor, tenho relembrado que elas são como são, como afirma o povo quando não tem mais nada para dizer (bastas vezes), utilizando jargões que mais não são do que bengalas para o coxear do discurso desconexo. A saber: As minhas casas de banho têm sido lavadas com limpa-vidros, o que redescobri agora, já que já havia chegado a essa conclusão aquando da quarentena, nos idos 2020. Mal ela regressou ao trabalho, apliquei-lhe uma descasca de que não tinha memória nos últimos vinte e dois anos (entretanto, perfez vinte e três “de casa”, stricto sensu, as aspas aqui só vêm compor este ramalhete em jeito de rosário de amarguras), o que, aparente e realmente de nada me valeu, a não ser ter-lhe valido a ela um par de lágrimas (matematicamente, uma por cada olho, se tiver os dois sacos a funcionar em perfeito paralelo), que eu, halleluja!, não vi, mas recordo ter vagamente escutado umas fungadelas — que também podem ter derivado de alguma alergia (vai-se a ver, ao líquido para os vidros com que me higieniza as retretes, mas não os vidros, a avaliar pelo miserável e opaco estado a que mos deixa chegar), mas que eu, cruel, porém justa, olimpicamente ignorei. Quando a pessoa regressar, lá terei que repetir todos os blás da outra vez, ou, em alternativa, sujeitar-me ao diálogo que já antevejo, ou anteouço:

- A Sandra voltou a limpar as casas de banho com o líquido para os vidros. Diga-me porquê.

(Eu, sempre em busca do conhecimento; eu, antropóloga do serviço doméstico; eu, aplicando psicologia ao nível do uso de detergentes; eu, passada da marmita por dentro, mas por fora uma serena senhora, a evitar que me salte a mola e lhe solte os cães.)

Respostas possíveis:

- Aaaah...

- Eu já lhe tinha dito que precisava de um spray para as casas de banho, mas comprou-me um limpa-vidros e estou a usá-lo até ter o frasco vazio para poder meter lá a lixívia.

E é tudo por hoje.

Se me sinto mais leve? Não. Não tenho comido mais do que o costume, mas no próximo domingo não irei correr, e isso sim, pode fazer toda a diferença (mental). Tenho que voltar a dançar.

https://m.youtube.com/watch?v=N2oiBSL_D80

23/02/2021

Ela fala tanto # 30

E, desde que veio lá da quarentena - e depois fez mais não sei quantas, à custa de um filho covidado, uma irmã covidada, o papagaio covidado, tudo e todos menos ela, mas que remédio senão aturar os diversos timings de recato e recolha ao lar -, mas, e sobretudo, após ter levado a desanda da vida laboral dela (porque, ó pá, passei-me de lavar, passar, esfregar e cozinhar e encontrar tufos de sujidade em tooodos os recantos cá do lar), agora está irónica. Diz-me merdas. Do género: pergunta-me por uma coisa qualquer, "Chegou a comprar a alface?"

Note-se que não me trata por nada, e trabalha na minha casa há vinte e três anos. Não sou "senhora dona", não sou "senhora doutora", não sou "senhora", não sou "ó tu". Deixei de ser "Olhe" porque lhe acabei com isso num dia de tempestade gástrica, e também tive que lhe cortar com o "você" (com o qual ela, respeitosamente, trata a mãe e tratava a avó) porque tudo tem os seus limites e aquilo arranhava-me os tímpanos. 

Vai que eu respondo: "Não sabia que era preciso comprar, a Sandra não me disse."

"Eu disse-lhe ontem, se calhar não ouviu ou esqueceu-se."

"Acho que nem uma coisa nem outra."

"Não faz mal."


Ou eu digo: "Ainda não pus a máquina a trabalhar porque estou à espera que a Sandra tire os lençóis das camas."

"Não faz mal."

Ou então: "Isto está tão desarrumado, nunca há tempo para arrumar."

"Não faz mal." - Porque talvez seja como os homens, lá terá aquela costela sobresselente e não entende indirectas subtis e delicadas, tens que lhe dizer "Arruma, pá, porra!". 

Não faz mal? Então e se eu a puser a andar, com a desculpa de que já não dá mais para aguentar esta relação, também me diz que não faz mal?


28/05/2020

Ela fala tanto # 29

E sofre de sem-nocite. Ou eu sou excessivamente bem educada, o que pode igualmente constituir uma barreira à nossa comunicação. Dá-se que ela não reconhece uma indirecta, ou, quando acha que reconhece, ela sequer existiu enquanto tal.
Desbobinei, sabe-se lá a que propósito, o quanto me aborrecem as pessoas da minha idade: entre queixas, lamúrias, pequenas (enormes!) doenças, afecções, achaques e hipocondrias, não se inibem de fazer dos seus senãos tema de conversa, quer circunstancial, quer mesmo de encontros marcados a propósito de “nos encontrarmos”, “nos divertirmos”, “nos vermos, que há tanto tempo, e agora só em funerais, porque já ninguém casa nem baptiza os filhos”. Telefonemas, então, valha-nos o Senhor (Doutor): é de não atender, ou de atender já a gemer ou em prantos pela morte da bezerra, antes que nos suplantem ou suguem com as suas tragédias. Uma prosa que comece por “não sabes o que me aconteceu”, é mote para a fuga em frente, sem mais explicações. Quase todos estão estabelecidos na vida na pior acepção da expressão: não se mexem, não praticam actividade nenhuma, estão gordíssimos, mas depois também não bebem nem fumam. Imagino que até tenham máquinas melhores do que a minha, mas vivem obcecados com o colesterol, a ureia e os triglicéridos. Como se eu fosse médica! E ainda que fosse. Chatos.
Resposta dela a este sentido desabafo:
- As pessoas não vêem que são chatas? Eu, por exemplo, tenho imensas cãmbrias [ataque de pânico disfarçado de sorriso verde], estão constantemente a doer-me os braços e as pernas e não chateio ninguém [hiperventilação, preciso urgentemente de um saco de papel!]. Às vezes até se me prende uma perna quando vou a andar na rua, das cãmbrias [era eu ter uma arma de fogo em casa], acho eu que são cãmbrias [capaz de me enforcar], sei lá se são cãmbrias [ou de cortar os pulsos. Os dela]. Mas é uma dor que ninguém imagina! [A jugular dela será à direita ou à esquerda?].
...
...
Silêncio sepulcral. Eu flutuando para longe do alcance da vista e da voz dela. É que sofro dos nervos. E é por isso que venho para aqui relatar os meus dramas. Só lê quem quer. Adeus.


21/05/2020

Ela fala tanto # 28

E, de repente, chega o dia em que usa metáforas e eu sou tão apanhada de surpresa que protagonizo um momentinho louro digno de registo aqui no coiso, ou de Oscar. 
Falava-me de uma das irmãs, a que tem menos vergonha na cara, a que trilhou caminhos mais sinuosos, mas também a mais magra, a única das quatro que é magra, e isso constitui um crime de lesa majestade, quanto mais de Senhora Dona Madame. 
- Ela tem lá aquele brilhantinho na testa que dá aquela luz e quando os homens vêem aquilo, parece que ficam doidos.
Aqui a jerica pousou o trabalho que tinha em mãos em seu generoso - porque atura estas  coisas - regaço, exalou um profundo, porém imperceptível suspiro, e questionou:
- Um brilhante na testa? Nunca vi... Já vi pearcings em sítios esquisitos, mas na testa...
Deu-se então o momento crucial desta brilhante! narrativa, que foi aquele em que, enfaticamente, suspirou ela (terá revirado os olhos? Terá um blog em que descreve este mesmo momento sob o título “Ela não pesca nada”? Nunca saberemos), e esclareceu: 
- É uma maneira de falar. 
Como quem diz: “É uma metáfora, duh”.




30/05/2019

Ela fala tanto # 27

A sem-nocite não tem limites.
Procurava eu um recipiente de loiça tipo pyrex, para aquecer comida no forno, e lembrei-me que tinha dois iguais, com desenhos diferentes, mas que havia um deles que já não avistava há bastante, pelo que perguntei por ele, olha a loucura. 
- Então, esse foi o que me bateu na cara e se partiu.
Pronto, o verbo partir conjugado na forma pronominal nunca é bom augúrio. 
Sinto no ar um cheiro a acusação.
- Como assim?
- Então, estava mal arrumado...
Um pivete a segunda acusação. Mal arrumado por quem?
- ... e caiu-me na cara.
Terceira acusação, um enxofre que não se pode.
- Ainda andei aí uns dias com a cara marcada. Não deu por isso?
Quarta? Fede.


Pá, não. Cansei de levar na corneta.
- Não, não dei por nada. Fiquei sem pyrex, portanto. 
[Olha a velhaca, que uma pessoa quase faz um traumatismo craniano, acidente grave de trabalho, por uma porcaria de loiça que não vale um c. e que ela há-de ter arrumado mal de propósito, amarga aqui as dores em silêncio e a gaja, além de não dar por nada, ainda lamenta o tareco, em vez de se preocupar com a pessoa, dar-lhe a baixa ou então pagar-lhe uma indemnização.]

19/10/2018

Ela fala tanto # 26

E estava tão feliz com o grande feito de ter perdido (ou ganho?) alguns, vários, demasiados minutos do seu expediente a colar selos numa caderneta, 


que eu calei, se calei, mais uma e outra vez, a vontade de lhe perguntar se considera que não tem, efectivamente, mais nada para fazer (tanto pó acumulado, tanta tralha desarrumada, tanta pomba assassinada), mas o que é certo, indesmentível e real, é que lá fui à gigantesca superfície, também eu toda feliz e contente, trocar a caderneta por um pirex que não me faz falta nenhuma (mas é grátes, canudo!) e que não tenho onde arrumar (ainda acaba em floreira/fruteira/penico chique), e do qual não vou desenvolver o custo efectivo, porque já o fiz aqui, e eu sou pouco dada a repetir assuntos... acho.


27/09/2018

Ela fala tanto # 25

Depois do "bué", veio o "ya", e, desde hoje, o "tchau, beijinhos". 
É certo que se pode dizer que quase coabitamos, pois ela labora no lar que é meu há praticamente vinte e um anos. Se até a própria lei considera esta relação laboral uma relação com especificidades próprias, quem sou eu para querer estabelecer ditames rígidos empregador - trabalhador com uma pessoa que me entra portas adentro diariamente e até "viu nascer" metade dos meus filhos?
Mas é que me questiono se um destes dias não chegaremos ao cumprimento de "Hey", que usava aquela personagem maravilhosa, Nick Moore da série Family Ties ("Quem sai aos seus"), dos idos 80's do século transacto.


E depois, mais adiante um pouco, passaremos para o cumprimento dos punhos fechados, e seremos migas e manas para sempre.

06/04/2018

Ela fala tanto # 24

No entanto, ou tem breves bloqueios, ou serei eu que não alcanço raciocínios tão intrincados, esdrúxulos, direi mesmo abstrôncios.
Ouve um estrondo no quarto das miúdas, vai calmamente saber do que se trata. Vê uma delas com uma das portas do roupeiro na mão, que acabou de descarrilar do trilho que é a calha. Coisa para dois metros e tanto de altura, algo como oito ou dez quilos de peso. 
- Ah, pensava que tinhas caído.
E assim disse, melhor fez: saiu do quarto e foi à atarefada e inadiável vida dela.
Pergunto-me assim: então e se ela tivesse caído? E respondo-me assado: provavelmente, diria: “Ah,  pensava que a porta do armário tinha caído”. E lá ia, à atarefada e inadiável vida dela.
Só não me pergunto o tamanho da puta que ela havia de armar se a porta lhe descarrilasse nas mãos, ou se desse uma queda na minha casa. Logo baixa, quais agora?
(Se calhar, se fosse comigo, defecava no assunto. Em se tratando de uma das pessoas que eu gerei, é que temos a burra nas couves, que parece que tudo muda de figura. E de cores.)

28/02/2018

Ela fala tanto # 23

Entra e traz atrás dela o excesso de ruídos que lhe é característico, quiçá se por temer passar despercebida (como se isso fosse possível; como se isso fosse fundamental): bate os saltos das botas ainda no patamar dos elevadores, bate a porta, só não bate continência (lá iremos?), acelera o passo com a desculpa do guarda-chuva molhado até à casa-de-banho, tosse, deseja bom dia, dá conta de que está a chover — para o caso de eu ainda não ter percebido, não só pelo espalhafato com o guarda-chuva, como também porque existe a possibilidade, ínfima que seja, de eu viver num casulo e, no limite e na loucura, não ter internet —, ainda não despiu o casaco e já me está a perguntar o que é o almoço (são 9 da madrugada, genitais, eu ainda nem pintalguei o rosto de cores saudáveis e já me estão a sobrecarregar com particularidades?). Balbucio-lhe uma possibilidade, legumes à Braz. Ainda antes de vestir a bata, dispara:
- Por falar nisso [segura-te, LB, vem lá rajada], tenho uma dor nesta orelha que não lhe passa pela cabeça. 
- [Silêncio.] [Nunca poderá passar-me pela cabeça o que seja uma dor na orelha de quem quer que seja, que não seja algo equivalente à de Mr. Van Gogh.]
- É mesmo aqui no bolbo, cada vez que lá toco até amarinho pelas paredes. [Acima?]
- [Eu preciso de silêncio.]
- Isto foi outro dia, magoei-me com um brinco e agora dói-me. 
- Rasgou?
- Não, foi o brinco que se prendeu no furo. O brinco tem aquela parte para se meter no furo, mas não foi essa parte, foi a outra, meteu-se para lá, depois torceu, não sei como, vi-me aflita para o tirar, já na altura me doeu imenso, agora dói-me cada vez que toco lá. E é que não passa, raio do brinco, não sei como é que me fez aquilo, ainda por cima é da ourivesaria, nem é daqueles ordinários, e... [beca-beca-beca-dores-agonia-não-aguento-dói-dói-beca-beca]...
- [Tanta FDF que singra por este país afora]...


09/01/2018

Ela fala tanto # 22

Outras vezes, sou eu que falo tanto.
Não sei ter animais. Perco a conta às vezes que vou verificar se as gatas estão a respirar, perante aquela letargia que me assusta e me deixa doente.

- Não quero ter mais passarinhos presos em gaiolas. Quando estes dois acabarem, acaba-se a gaiola. O meu problema é que os passarinhos nunca me morrem no mesmo dia. Depois fica ali um sozinho, viuvinho, eu encho-me de penas, e lá mando vir outro. Depois morre o outro, fica mais um sozinho, e andamos nisto há anos. Agora olho para eles, vejo que um é muito mais velho do que o outro, tem mais peninhas brancas na cabeça e nas costas, é capaz de morrer primeiro. E fica o outro sozinho, e eu isso não vou aguentar. 

Ela ouviu-me atentamente, os olhos fixos sem sombra de crítica nem pestanejar de pasmo, e disse:
- Eu posso levar o passarinho que ficar sozinho para um senhor que mora ao pé de mim e faz criação, que ele tem uma gaiola enorme com muitos. 

Minha Bianca é uma cougar: é ela a mais velha no casal. Pode ser por isso que nunca tiveram filhos juntos. Mas nas noites de Inverno vou sempre vê-los encostados um ao outro, no mesmo poleiro, a fazerem-se volumosos para se aquecerem e para darem calor ao outro. Não suporto a ideia da viuvez do meu Bernardo. Sofro por antecipação, aliás como com tudo. Prefiro despedir-me dele em vida, imaginando que vai ter uma vida melhor do que a da solidão da gaiola, que há-de ficar ainda mais fria sem a Bianca, ainda que seja Verão, pois mesmo no Verão se aquecem encostados no mesmo poleiro. Aninham-se, na melhor acepção do termo, já de si tão bom. O meu Bernardo aprenderá a piar em galinhês, deixará de ser um biquinho-de-lacre chique, mas que tão baixo preço a pagar é esse, diante da alternativa que é a tristeza da casa vazia?

02/01/2018

Ela fala tanto # 21

Lembram-se daquilo dos cravas e dos pedinchas? Foi há bocado.

Sexta-feira, último dia útil — como se inúteis fossem os outros — do ano, dia em que lhe entreguei o ordenado + passe [que pago por inteiro há anos, embora ela tenha outro trabalho], tudo em notas, porque parece que a transferência demora mais do que é suportável, mas quero lá saber.
Havia dormido cá no lar um rapaz das amizades das minhas grandes crianças, que, chegado a desoras e por já não haver barco que o levasse a casa, antes de se encostar para se refazer da noitada, retirou as lentes de contacto dos respectivos olhos e colocou cada uma em sua chávena de café, a boiar no líquido próprio. 
Resumindo: ela chegou de manhã e deitou as lentes fora. Fui à óptica mais próxima, comprei uma caixa delas e deixei lá 22 pacas. Quando cheguei a casa, madame já se sumira, um providencial minuto antes da hora, não fosse cruzar-se com as minhas ventas da total rejeição. Assim, não me desejou bom ano, nem me deu a mim oportunidade para o fazer. 
Hoje, à queima-roupa, minutos depois de entrar: 
- Nem sabe o que é que me aconteceu na sexta-feira. Passei o fim de ano e o fim-de-semana todo a pensar nisso. 
- ...
- Então não perdi parte do dinheiro que estava no envelope?
- O ordenado?
- Sim, mas só uma parte. Depositei x [e disse-me o valor total do ordenado] e pus de parte o dinheiro para carregar o passe, mas, quando fui para o carregar, já não tinha o envelope na mala. Depois fui encontrar o envelope no meu caminho, já todo rasgado e sem dinheiro. 
- Quanto é que era?
- Vinte e cinco euros.
[Como se eu não soubesse que o passe dela ME custa € 36,20 de trinta em trinta dias.]
- Olhe, foi o karma, que isso foi quase exactamente o que eu deixei na óptica para pagar as lentes que a Sandra deitou fora.

(Antigamente, há muitos anos, havia uma otária em mim que responderia: "Ah, coitada, tome lá outros 25 e não se fala mais nisso".)
(A otária morreu.)

08/12/2017

Ela fala tanto # 20

À procura de camisolas quentes — conceito que, depois de revirado o gavetão da cómoda, concluo que desconheço —, dado o degelo dos últimos dias, apercebo-me que tenho cerca de (não contados, este é um número aproximado, pelo que tanto podem ser mais como menos) dez casacos de malha pretos, ora de decote em V, ora de decote redondo, ora com um folho na ponta da gola, ora com uma transparência de lado, ora com um laço a fechar o cimo da abotoadura. Dez, para aí. Quanto a camisolas quentes — lã, gola alta, enfim, que não deixem passar o frio pelos recantos —, umas três. 
Dá-se que também sou um nico faladeira, mais porque penso alto do que porque precise de comunicar ao Mundo estas coisas, e aconteceu ter comentado com ela — que ciranda constantemente ao meu redor — a seguinte realidade: "Não sei para que preciso de dez casacos de malha pretos. Se o Mundo acabar amanhã a casacos pretos, tenho a minha sobrevivência garantida".
No dia seguinte, mostra-me ela uns botins vermelhos que as irmãs lhe ofereceram pelos anos. "Muito giras", limitei-me e contive-me. 
- Por falar nisso [só eu sei o quanto temo as frases dela começadas por "por falar nisso"], outro dia [fora no dia anterior] estava-me a dizer que tem dez casacos de malha pretos, já viu como está este meu casaco de malha vermelho? Tão velho que estou capaz de o deitar para o lixo. Estou mesmo a precisar de um novo. 
...
...
...
Isto assassina-me o espírito natalício. 
Uma m. de um casaco de malha, de qualquer cor, custa uma m. de seis euros. (Na Primark*, pelo menos.)
É não me pedirem, e têm de mim um rim, um olho, um pulmão, a minha medula, o meu sangue para lá do impossível. 
É pedirem-me desta maneira deslavada, e têm de mim um coice, porque isto é para lá do indecente. 
Vou comprar-lhe um casaco de malha verde, que é para aprender a não ser pedinchas. 

* NMPPI