02/07/2024

Leoa negra

Cada vez que ali vou, venho de lá doente. Parece um anacronismo, só ali vou porque também eu. E, de tempos a tempos, convém espreitar se o bicho não está à espreita. Passei para as consultas semestrais, o que foi uma escalada imensa na invisível montanha que tenho para subir, algumas vezes com pedrinhas e espinhos que se espetam na minha carne para me fazerem doer a alma. Basta ter uma doença paralela — gastroenterite, como há duas semanas —, que é ali que vou. Uma espécie de oráculo que sabe tudo e tudo resolve às pessoas como eu, doentes oncológicos. Isso obriga-me a lá ir muito mais do que duas vezes por ano. Quando foi das dores de barriga, na espera daquela sala tenebrosa, encontrava-se um senhor com uma peça plástica na garganta. De minuto a minuto, emitia um som de asfixia e assoava-se por ali. Eu sou forte, já vi muitas coisas, já fui sujeita a dores inimagináveis, mas, naquele dia, enfraqueci até ao limite, disse à senhora que estava ao meu lado que ia desmaiar e agarrei a cabeça para poder baixá-la. Pus a possibilidade de bater com a cabeça no chão, mas pareceu-me que qualquer coisa era melhor do que voltar a assistir à agonia do homem. Ela deu-me um rebuçado, abençoada. 

Foi ontem a consulta semestral. Enquanto esperava, fiquei numa saleta improvisada do hall dos elevadores. Ao meu lado, estava uma enorme africana, braços largos de abraço gordo — os melhores, não é? —, pés gigantes em chinelas de borracha, trancinhas de extensão vermelhas e um vestido maravilhoso, certamente feito à medida, de florzinhas encarnadas. Apoiou os potentíssimos cotovelos na imensidão das pernas, a cabeça tombou-lhe para as mãos de festas grandes e adormeceu. Assim que o fez, ecoou pela sala, pela outra ao lado e pelo corredor um ressonar, um ressoar, um ronco de exaustão. Ao cabo de vinte minutos fez-se silêncio, parou a ressonância que já me embalava a mim também, e acordou uma cara de criança, lisa e bochechuda, que quase ia jurar já ter visto numa imagem pintada, tamanha era a obediência aos cânones de beleza dela. Levantou-se da cadeira, o quadril gigantesco a bambolear no vestidinho fino e dirigiu-se a um rapaz que eu tomei por ser marido dela, a quem tratou por filho. Ele tinha o tumor mais agressivo que já vi ao vivo: num olho, em metade da cara. Tudo tapado por uma espécie de lenço de tecido fino e uma gaze. Não percebi o nome dele, porque as enfermeiras o trataram sempre por "querido" ou "meu amor". De prender a respiração, este sinal que elas, sem querer, dão. 

A mãe, que provavelmente o deu à luz com catorze anos ou menos ainda, estivera afinal a fazer uma reza de leoa, um pedido por conta de uma aflição, uma promessa irrealizável pela sua cria. O trovão que lhe saía da garganta mais não era do que um rugido de leoa acossada.


22/05/2024

O meu percevejo

Admito que sou muito atreita: tudo vem ter comigo, ele é cães a ladrar, ele é teias dos plátanos, ele é até piolhos — foram duras, as duas vezes que me atacaram, pois passei as fases quase todas do luto, desde a negação (muito duradoura, enquanto eles picavam e eu dizia que tinha uma dermite não seborreica, como se isso existisse), até ter tido que saltar a fase da raiva e ter passado directamente para a da aceitação quando, uma noite em que dormia plácida, um deles se atreveu a passear na minha testa, oh, meu amigo, aquilo foi morte imediata para ele, e pânico sem botão onde carregar para mim. A única lição que retirei dessas duas pragas foi a de que mãe que apanha piolhos, é mãe que abraça e beija. As piolhosas são as melhores mães. 

Por razões que não interessa aqui explicar, mas há que dar umas dicas, no passado domingo fui visitar um dos meus velhinhos — já tenho muito poucos, o que significa que estou quase a tomar-lhes a vez — que tinha tido há semanas uma praga de percevejos em casa, mas coisa para afectar colchões, sofás, maples, enfim, toda a mobília com panos, cortinados incluídos. Mas tinha mesmo que lá ir: íamos buscar um carro e eram precisos dois condutores para o regresso. Além disso, acho que valeu a pena, porque consegui fazê-lo dar a maior gargalhada que algum dia lhe ouvi, quando a cadela da cuidadora, que já teve cancro da maminha e agora tem no estômago, se deitou aos pés dele e eu disse: "Deixa lá, querida, estamos as duas na mesma". 

Tinha perguntado à cuidadora se era seguro lá ir, ela que sim, que estava tudo muito limpinho, e que nem ela nem o senhor tinham picadas novas há semanas. Fui, um bocado desconfiada, lembrando-me do caos que foi em Paris, com hotéis a fechar, infestados da bicheza, o que até compreendo. Eu, se fosse hotel, também fechava, então ia arrendar quartos com animais lá dentro? Há mínimos. Mas associei o histerismo ao do papel higiénico na pandemia (e nós, fabricantes de papel higiénico, achámos o quê? Que íamos defecar sem parar enquanto estivéssemos confinados?). Sentei-me numa cadeira estofada e ali fiquei meia-hora, falando e rindo, tudo muito corriqueiro. Vai daí, saio lá de casa e sinto picos nas costas, assim como se elas fossem uma bebida com gás. Queixei-me a cônjuge, que me respondeu que "isso é psicossomático". Pois, não eram as costas dele. 

Fiz a viagem de oitenta quilómetros, pica, pica, pica, mas cheguei inteira, apenas com menos milionésimos de mililitros de sangue no corpo. No dia seguinte, as minhas costas pareciam as de um adolescente, tive mesmo vontade de ir para a praia a sentir-me jovem, sei lá. Em vez disso: lençóis de cama, resguardo e toda a roupa branca que tinha usado no dia anterior, tudo para a máquina a 60º, a roupa preta usada naquele dia, para o congelador por quatro dias (ainda lá está, vou cheirar a lombinho e a almôndegas por uns tempos), secador do cabelo no colchão, no sofá onde tinha estado, na cadeira do condutor, pomada de cortisona, anti-histamínico (que não faça dormir, senão nem um terramoto me acorda), creme para as comichões ao preço de um metro de intestino delgado, e vá lá que não me mandaram enfiar numa banheira cheia de enxofre. 

O que é certo é que não apareceu bicho nenhum, as borbulhas não alastraram e estão a secar. O meu percevejo era macho — caso contrário, ter-me-ia deixado bebés nas costas, e nada. Seria uma fêmea estéril? Nunca saberei —, pouco fiel à pessoa, mas muito à santa terrinha, o que, na essência, foi a melhor opção. Eu não poderia aturá-lo por muito tempo, acabaríamos à briga, um de nós teria que morrer e era demasiado trágico para arriscar tal cenário.

Adeus Percy*, até nunca mais.


* Percy: Significa “furar barreiras”, “perfurar cercos” ou “filho do fogo”. Inicialmente, Percy foi um sobrenome inglês toponímico, derivado de uma cidade normanda chamada Perci-en-Auge. Este era um sobrenome bastante comum entre a nobreza inglesa.

Fonte: https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/percy/

14/05/2024

Nunca ponhas palmilhas. Põe algodão, papas de sarrabulho, cuspo, o que vier. Tudo, menos palmilhas

Excelenticíssim@s Senhor@s,

Vai em cabeçalho por não poder ser em rodapé — sob pena de não me lerem o resto desta missiva, considerando-me preconceituosa (eh!) — a presente nota de cabeçalho: está com arrobas de arrobas exactamente porque assim não se distingue o género nem a tendência binária, trinária, tetranária, olhem, já ando tão perdida nas designações que inventaram para o que cada um lhe apetece, que qualquer dia nos alocam por preferências de fruta. Sei que sou heterossexual, o que, bem feitas as contas, já parece um crime afirmar, pois parece logo que sou anti-tudo o que não o seja. E gosto de dióspiros, cajus, leitãozinho da Mealhada já não quero gostar porque ai os porquinhos de leite, mas, se me dissessem que só podia comer um único alimento para o resto da vida, escolheria mesmo o amendoim, que marcha até em pasta para barrar, mas às colheradas. 

A vida continua, engordo fielmente na barriga, qualquer dia só me avio em lojas de pré-mamã. Não há problema, sou tetra-pós-mamã, que é quase o mesmo. Continuo a dançar, deixa cá ver: todos os dias, menos quinta, porque não gosto de quintas-feiras. Tenho este problema há anos: abro o roupeiro, atiro mil coisas para cima da cama, umas não me servem, as outras fazem-me parecer a mulher de Chelas, daí que acabo por, derivados ao cansaço, pôr a primeira albarda que me vem à mão depois da desarrumação. Ainda assim, sinto-me lindamente comigo mesma, devo estar a viver uma realidade paralela oferecida de bónus pela medicação. Dizia eu que danço seis vezes por semana. Ao contrário do que anuncia o Instagram nos intervalos do meu jogo, a dança não emagrece. Nem um grama. Sobretudo se, como eu, devorarem tudo o que é doce que vos passa nem que seja pela visão periférica. Ontem foi o último dia. Vou experimentar a dieta brasileira: tem fome? Bebe água e come gelo. Talvez não tão à risca, mas uma coisa equivalente, sem gordalheiras. 

A minha podóloga desencravou-me as duas unhas dos polegares dos pés, ainda consequência da quimioterapia, que já lá vai há dois anos. Achei-a óptima e, quando acho alguém óptimo, sou compelida a começar a depenar a conta bancária com essa pessoa. Ela convenceu-me (nem precisou de muitos argumentos) de que eu precisava de umas palmilhas, dado que tenho os pés chatos. Disse-lhe imediatamente que sim, paguei-lhe o equivalente a um par de sapatos (três, se forem da Temu*) e ela fez os moldes. Folguei em saber que o esquerdo é mais chato que o direito, o que me trouxe a vantagem de poder chamar "chato!" a quem me aporrinhe a paciência, com a desculpa de que estou a falar com o pé. Entretanto, ela traz-me as palmilhas já feitas, diz-me para andar com os ténis e elas por casa até à corrida que ia fazer dois dias depois, mas não me apeteceu porque estava calor, porque o pezinho de princesa gosta é de andar com os porquinhos à solta, de modos que, na manhã da corrida, vai de meter as palmilhas, duras que nem um corno, dentro do téni e do outro também, e ala para a corrida, convencida de que aquilo me ia transformar numa gazela e faria os cinco quilómetros em duas ou três pe(r)nadas, qual milagre de Natal. A dita corrida (EDP**), e eu sabia por não ser a minha primeira vez (mas foi a última) é do mais desorganizado que há: os que caminham e os que correm partem ao mesmo tempo — de modo que, ao início, não corremos, fazemos slalom entre muros de gente —, não há chip para a corrida, para controlar o tempo de cada um, o pavimento consegue ser pior do que o da Expo, com calçada solta de um metro de largura, e pedras, e areia solta, e asfalto cheio de buracos, enfim, o fim. A pessoa correu dois quilómetros, já os pés gemiam "tira-me esta m.", o meu pensamento "chatos, chatos", até que avistei o stand da Vitalis* e comecei a andar porque percebi que não iria conseguir correr mais quinhentos metros só para salvar a minha vida. Outra desorganização: paletes por abrir, velhos mal dispostos, a dar alento ao povo, só porque esticávamos a mão a pedir uma garrafinha: "Mas vão ganhar alguma coisa só por terem uma garrafa?". Fui, óbvio, a única pessoa que respondeu: "Meu avô, temos sede!", enquanto estendia a mão para a garrafa de uma senhora que já tinha conseguido a dela, não percebi se porque a confundi com uma hospedeira de eventos ou se lha ia roubar, mesmo, tal era a minha transtornação naquele momento. Os pés já gritavam que se suicidavam, bebi a água toda, mas isso não me valeu de nada. Continuei a caminhar, fiz os restantes três quilómetros ainda não sei como, mas sei que cinco — CINCO — pessoas me vieram perguntar se eu estava bem e três delas, não acreditando no meu sorriso azul-turquesa, "Estou bem, muito obrigada", deram-me garrafas de água. Entretanto, deu-se início em mim a umas dores nas costas ao nível da cauda equina, e acho que só doeu mais porque nunca na vida tinha tido dores nas costas. Atravessei a meta com a sensação de já não ter pés e de que ia passar o resto da vida a andar de gatas. Deram-me um gelado da Olá*, uma medalha de participação que pesa um boi e queriam dar mais água, mas lá estava o avô da Heidi na distribuição e eu prescindi. Faltavam trezentos e cinquenta metros para o estacionamento da Champalimaud e ainda tive que descansar a meio do percurso. Ia apoiada na minha companheirinha de sacrifícios, que tinha levado menos de meia-hora a cumprir aquela maratona para IronWoman, é pequeníssima e leve como uma pluma, imagine-se o cenário. Agradeceria uma maca, ou um gorila que me carregasse.

Conduzir foi fácil, ia sentada. Mas chegar a casa e esparramar-me no sofá, foi tão duro que, só por isso, merecia outra medalha. 

Não sei onde enfiei as palmilhas. Sei só onde gostaria de as enfiar. 

Com estima, amizade e dores, 

Linda Blue


* NMPPI

** Ninguém me paga para me calar

07/04/2024

Lançamento do livro, um dia modalidade olímpica

Pergunta-me se não me importo de a acompanhar a “uma grande chatice”. Digo logo que não, pois que chatice maior haverá do que um funeral? Estivemos há poucas semanas juntas em memória de outra amiga dela, mais nova dois ou três anos do que nós, e, se fosse o caso, ela avisar-me-ia. Além disso, eu sou pro em esperar em salas de médicos e hospitais, acho que passei as vinte e quatro horas de Lisboa nos últimos dois anos. Antes perder um dia para ganhar uns milhares do que ao contrário. Ora, quem já aguentou esperas dessas, aguenta qualquer seca. Diz-me ela que foi convidada para ir ao lançamento do livro de um ex-colega e já se negou a dois ou três eventos do mesmo tipo (no duplo sentido de homem e classe de encontros), não pode negar nem mais um.

É o primeiro livro dele, de poesia numa língua que, se calhar, nem ele próprio entende. A mim, falam-me de lançar um livro e eu faço imediatamente a imagem mental e literal da coisa, tal e qual aquelas pessoas que se põem à beira-mar a atirar um disco de plástico uma à outra, muito atléticas e compenetradas. Ou então, aquela modalidade olímpica do lançamento do disco, que eu estou mesmo a ver que um dia se faz boomerang e sai de lá um lançador sem dentes. Devo andar a ver muitos desenhos animados.

Disse-lhe que sim, ela apreensiva, pois toda a gente — essencialmente marido e filhas — lhe disse que não. Fiz finca-pé, e vou, e vou, e vou, no dia ela ainda me pôs à vontade para desistir, ai a tua saúde, ai a chuva, ai as areias vindas do sul de todos os sules, que no mapa é norte, mas eu argumentei que já estava vestida e calçada a preceito, o que constitui o argumento mais inderrotável para qualquer mulher.

Calhou-nos um fim de tarde de céu chorão e ferroso, um trânsito absurdo na cidade, lá se foi uma hora das nossas vidas para percorrer um caminho de sete milhões de milímetros. Chegámos e a sala muito composta de cabeças maioritariamente brancas, e nós, que pintamos as nossas de castanho. O auto-homenageado (soube a posteriori que ele pagou a impressão de sua jóia) surge de kilt e eu penso que é hoje que vou saber se é verdade ou não que os escoceses não usam lingerie. O homem senta-se de pernas abertas, mas o pano pregueado cai-lhe por entre elas. Portanto, fiquei na mesma, felizmente. A figura era a do professor Girassol, mas sem chapéu e ainda menos cabelo. Para nos entreter, chamaram uma rapariga muito pouco bonita, mas com um cabelo extraordinário, que foi entoar uma música celta, com uma voz tão linda como os seus cabelos, e desafinou barbaramente três ou quatro vezes. Como se aquilo tivesse uma dificuldade de física quântica. Tragam-me os Dexis!

Quando eu contava com um croquete (de espinafres), uma empadinha (idem), uma flute de champanhe (sem álcool), começou a assinatura dos livros, de que ela comprou um exemplar ao preço de quatro mil réis em moeda antiga, que eu folheei e basicamente não tinha nada lá dentro — uma folha com uma palavra, uma folha com uma poesia em escadote, uma folha com outra poesia a rimar nuvem com nuvem, uma outra cujo poema falava de liberdade e de como estamos (?) acorrentados a ela. Mas, como havia muitas palminhas e um homem gordo ainda gritou “Bravo!” com sotaque francês, quem sou eu para achar que protagonizei mais um filme de David Lynch?

Ela quis o exemplar que comprara assinado por sua sumidade, que, entre gargalhadas inoportunas, lhe pediu: “Lembre-me o seu nome”. Estou até hoje sem perceber como é que ela resistiu a lançar-lhe o livro.


22/03/2024

Intervencionada(s)

Há cerca de meia dúzia de semanas a dividir por dois, a pessoa foi a intervencionar. A radioterapia arrasou com uma das meninas e elas brigavam todo o dia. Como a paciência tem limites, resolvi acabar com o assunto, eu sou mais redonda, eu estou mais alta, tu estás mais dura, és feia, és mais baixa, um ror de insultos que marquei, fui avisada na semana anterior que era "para a semana", nada de exames e análises feitos, no dia seguinte aviei tudo numa pernada só. 

Vai daí, dou entrada. Não me lembro de estar tão bem disposta e sem uma pinga de nervos num internamento. A pobre da auxiliar insistiu em carregar a minha mala, que ainda hoje não sei o que levava lá dentro que pesava uma bigorna mais motor automóvel, a desgraçada percorreu dois corredores com aquilo na mão, mais pequena e magra do que eu, toda inclinada para o lado do monstro, mas ela quase me arrancou o peso pesado das mãos, quem sou eu para entrar em lutas físicas para a seguir carregar um boi? Deixou aquilo num quarto duplo, onde já pairava uma senhora e um biombo separava as nossas camas. Não entabulei logo conversações, pois nunca sei se me sai uma azeda ao caminho, e esperei que ela o fizesse, se quisesse. Estava já vestida com a bata cirúrgica, os chinelos e as meias de contenção. Os olhos estavam semi-cerrados, entre o Jessica Rabbit e o Marlene Dietrich. Disse-me que lhe tinham dado "uma coisinha" para acalmar e que também me iam dar a mim. Respondi-lhe que sou resistente a "isso", mas tudo bem, podiam dar-me cicuta ou cianeto, que eu tomava na mesma, desde que me acordassem com as meninas no lugar e mais pequenas, mas gémeas idênticas. 

Não perguntei, mas ter-me-ia arrependido se tivesse perguntado: "Eu vou ser operada às hemorróidas". A única parte boa da coisa foi ter logo concluído que não era com o meu médico - o senhor é um cavalheiro, não faz essas coisas - e, portanto, não me passaria à frente. 

Chega a enfermeira, daquelas pessoas que só são bonitas ao perto (ao longe, meh) com a bata e os chinelos. Perguntei pelas meias, respondeu, olhos abertos de ameaça para os meus (mal sabe ela que eu tenho tanto medo de enfermeiras como de baratas. Zero), furibunda porque se havia esquecido das meias e não queria dizer. "As meias não se põem em qualquer cirurgia". "Pois, mas eu vou pôr meias. Trago dois pares na mala (queres ver que era isso que pesava os cornos?) e, seguramente, não ponho os pés na sala de cirurgia sem elas. Já as uso desde a minha terceira cesariana e, desde lá, quer que lhe conte quantas vezes fui operada? Digo-lhe que adormece". Então explicou-me que as meias de contenção só se usam em cirurgias com duração superior a quinze minutos. Revirei os olhos mentalmente, imaginei o meu médico a tratar do meu assunto num quarto de hora, ou então aparecer ao dentista dos olhos bonitos com aquela porra enfiada nas pernas e sorri, falsa, enquanto ela ia buscar as meias e me metia um comprimido debaixo da língua. 

Não tive sono até, já no bloco, me injectarem uma poderosa droga veias afora. Antes disso, ainda me lembro de me mostrarem a touca verde, e eu sobrepor as duas mãos sobre a cara, gemendo: "Não, a touca não, por favor, não quero pôr isso, fica-me malíssimo!". Depois apaguei.

Acordei no melhor dos mundos, sem touca. Está tudo bem com as gémeas. 

12/03/2024

Botei

o voto na urna. Não foi fácil. Pelo caminho, cerca de seiscentos metros, ainda ia, já não como em tempos — a fazer undolitá — a votar mentalmente por exclusão de partes “Neste não, naquele nem pensar, no coiso era o que faltava”. Como sempre, fiquei na sala exclusiva das Marias, de Maria Eduarda a Maria Viviana. Tinha tido um cuidado desmesurado a escolher a hora para ir exercer os meus direitos, que os tenho, minha senhora, para não encontrar as caridosas do “Estás bem?”, a enterrarem os olhos nos meus, uns ares tão sérios que julgo que vão ralhar-me já, já, eu naquela, “Estou, estou bastante bem, que eu saiba”, elas logo a amolecer o olhar, “Isso é que é preciso, espírito positivo”, como quem diz, “Coitada, diz que está bem, é deixá-la viver na ilusão de que não é a primeira de nós todos a morrer”, sabem lá elas se dali a cinco minutos não vem uma betoneira desgovernada que as mistura com o cimento. Escolhi tão afincadamente a hora, que as encontrei todas, mas consegui tornar-me invisível à mais empenhada, que quis um dia tomar café comigo no pós-tratamentos e esteve todo o tempo a chorar porque havia saído recentemente de uma peritonite. 

À minha frente encontrei dezanove Marias até à curva que dava acesso à sala. Chegou a minha vez, o rapaz que presidia aquela mesa ia adormecendo a ler o meu nome (já estou habituada) e deu-me aquela folha gigantesca, onde constavam partidos dos quais nunca tinha ouvido falar, como o fálico (?) “Ergue-te!”, ou bíblico, sabe Deus (“Levanta-te e anda!”), para além de mais um ou dois, agora não sei precisar quantos desconhecia. Quase todos, vá.

Já no meu cantinho, pronta para exercer, reparo que não há ali caneta ao meu dispor. Procuro na mala, sei que é raro ter uma caneta (trauma com uma que se me rebentou dentro da mala, não quero lembrar-me; o mesmo para os pacotes de açúcar; e as saquetas de molho de soja), mas desta vez lá estava uma, triste, só e abandonada, gelada, gelada. Nos entrementes, ouvia-se o meu murmúrio, “Não há aqui caneta? Uma pessoa puxa pelo cordelinho e não vem nada na ponta. Se não tivesse uma na mala, a esta hora não votava”. Fui à mesa entregar o meu papelinho e comuniquei: “No meu cantinho não havia caneta. Senti um convite, mais, um incitamento, ao voto em branco”. Rimo-nos todos muito e depois voltei para casa, com o meu dever (não me enganei, não) cumprido.


06/03/2024

Aprendam comigo, que eu não duro sempre

Quando tu, mulher, desconfiares que algo está errado porque alguém mexe no teu corpo, é porque está. Não estás errada. Deixa-te de dúvidas, “Será que…?”, “Não pode ser…”, “Sou eu que tenho a mania”. Não, não és: os abusadores não têm escrito na testa “tarado”. Das duas vezes que fui atacada — mesmo, com perseguição e encurralamento — eram homens novos, fato e gravata, malinha de cromados.

Outra vez na fila do supermercado. Tinha ido comprar só batatinhas para assar, postas num saco de rede. De repente, sinto um toque na cauda (vá, não me obriguem a chamar rabo ao meu rabo), que deslizou um pequeníssimo instante sobre o meu vestido. O primeiro instinto foi puxar as batatinhas atrás, com a intenção de as espetar na cara do fdp. Virei-me em décimos de segundo, à espera de um rapazola da escola profissional, para se gabar aos amigos, ou um bêbado qualquer, mas deparei com um senhor, muito bem posto, que, naquele momento, muito providencialmente, mexia nas suas próprias compras. Aí é que me vieram as dúvidas, “Foi impressão minha”, “Dou-lhe com as batatas no focinho e ainda cometo uma injustiça”, etecetera e parva. Paguei, as lágrimas a quererem chegar no pior momento, como sempre, saí para o vento e admiti a mim mesma: “Não foi nada impressão tua, devias ter-lhe enfiado batatas cruas até à garganta e, simultaneamente, demonstravas naquele lugar a quantidade de palavrões que uma senhora sabe aplicar no momento certo”.

Nunca se esqueçam disto: não há impressão ou desconfiança ou dúvidas, de que alguém, sem o nosso acordo, nos está a tocar. Está. Sempre. Mesmo.

(Em casa, perguntei a uma das crianças se estava ordinária, dentro de um vestido roxo de gola camiseiro, não curto, não justo, e ela ensinou-me: “Até podias estar nua, o problema não está em ti, está nele”.)


04/03/2024

Errare

Ainda não sei porquê e admito que nunca vou saber, meti-me um destes dias no supermercado. Já na fila para pagar, lembrei-me do bolo do caco, que não constava do meu cesto. Ali o abandonei e saí da fila, “Falta-me o bolo do caco!”, por acaso a pensar por que diachos se chama bolo àquele pão — já para não escalpelizar a palavra “caco” (monco? Burrié?) — e depois se chama pão àquele bolo de ló (e “ló” porquê? Por que não “dó” ou “lá”?) Pronto, já sei: devia estudar a etimologia das palavras antes de me meter aqui. Depois voltei para a fila, e “Ai, onde é que estão as minhas coisas? O meu carrinho?”. Estive mesmo para fazer um espavento, “Fui assaltada!”, mas depois lembrei-me que os bagulhos só são meus a partir do momento em que os pago. Foi quando percebi que estava na bicha errada. Enfim, só não erra quem não faz. 

Saí dali direitinha à loja de lingerie, entrei e disse à funcionária: “Olá. Eu sou a dos sutiãs.”. Isto porquê? Porque já entabulara diversas conversações telefónicas acerca daquela peça em particular, cor, tamanho, encomenda, já chegou, vou buscar, eu guardo. A pessoa, extremamente maquilhada (verde na parte não móvel da pálpebra, muito anos ‘70), respondeu-me assim: “Eu não sou daqui, sou de Odivelas.”. Curioso — pensei, pondo a cabecita de lado, como fazem as galinhas quando estão baralhadas (amiúde) — já não é a primeira vez que esta retro me responde isto quando a abordo. Será que diz o mesmo a todas as freguesas? Para a próxima, entro na loja e digo: “Eu não sou de Odivelas, sou daqui.” Só para ver o que é que acontece. 

Deslindado o imbróglio, chegámos à conclusão que as negociações que eu havia entabulado não haviam sequer tido lugar com alguém daquele espaço comercial, mas sim de um outro, para lá da Estefânia. Tudo culpas do Google, que uma pessoa põe “loja de x no lugar y” e o destravado apresenta-nos o lugar z. Não importa, a verdade é que estava tão empenhada na aquisição que me despedi da de Odivelas e determinei-me a zarpar Rosinha, minha canoa, até para lá da Estefânia. Acerco-me da viatura e deparo-me com um idoso, dentro do carro estacionado ao lado, a ver no telemóvel mulheres sem sutiã. É o mal de darem smartphones àquela faixa etária, coitados. Depois enganam-se e vão parar ao inferno, ou ao céu, ou lá o que é.


21/01/2024

Fui à festa e, parecendo que não, diverti-me bastante

Então, lá fui ao aniversário de um dos professores de uma das danças que pratico. Tinha a morada do restaurante, mas a senhora do GPS devia estar com a cabra e, em vez de me mandar pela Av. Berlim, mandou-me por estradas nunca antes percorridas, mas o certo é que fui lá ter, orgulhosamente independente e crescida. Lá chegada, dou com mesas e mais mesas de senhoras grisalhas, pelo que pensei que me havia enganado na porta e fora parar ao octagésimo aniversário de uma anciã deste mundo. Já ia rodar os saltos quando descobri uma cara conhecida, acerquei-me e anunciei que não conhecia ali ninguém. Parece que fora ideia do aniversariante: “misturar tudo”. Ah tá bem. Fui sentar-me noutra mesa, à espera da mistura que me calhava na lotaria, que chegou praticamente em manada e a quem conhecia todos. Todos, não é bem assim: um pequeno homenzinho de cabelos pintados com tinta Robbialac branca e moldados por uma bisnaga inteira de wet gel extra firme, à prova de bala, com plastificação a quente, depois congelado a cinquenta negativos, com recurso a uma massa branca cimenteira munida de electrochoques a quem ousasse tocar naquilo, todo ele vestido de branco até aos pés, anéis, pulseiras e colares dos que se vendem nas lojas de piercings e — cereja no topo do bolo de noiva (ou Virgem Santíssima?) —, o seu perfume patchouli. Ao lado de quem é que se sentou a flausina? Pois.

Depressa concluí que era totalmente indiferente quem nos calhava perto, pois ninguém ouvia ninguém, derivados da barulheira que um senhor fazia, de violinha em punho, gritos de agonia, “Meu bem, você me deixou”, isto com a desculpa que se tratava de música ao vivo.

Uma velhota que já estava com uma cadela de todo o tamanho quando eu cheguei, veio dizer-me ao ouvido que teve uma loja que faliu e prometeu ir a pé a Fátima quando conseguisse livrar-se dela. E que estava, por isso, a angariar um grupo para a acompanhar. Olhem, ide, mas não vos esqueceis do garrafão para a organizadora, senão ela nem de Loures passa.

Também foi uma briga com a ementa, era só pratos de maminha, peito não sei de quê e salsichas. Parti para o menu das pizzas e escolhi a verde, mas sem o pimento e a cebola, que são dois alimentos que adoro do coração, simplesmente, quando comidos ao jantar, falam comigo toda a noite. E eu preciso de dormir.

Comecei a ver passar jarradas de sangria e achei oportuno, só naquela de deixar um bocadinho de mau ambiente (o proclamado “peidinho social”), avisar que só pagava o que comesse, pois também já não estou na idade de cair nessa de pagar as borracheiras dos outros. E foi o que aconteceu no fim: pizza vegetariana e 7UP, que eu agora estou do mais abstémio que existe à face. Continuo pasmada com o facto de ainda não ter sido canonizada.

Ao meu lado direito ficou uma rapariguinha e a sua mãe, que me pareceu que não falavam com ninguém, a não ser uma com a outra. À frente de ambas, uma das nossas que levou o marido (má ideia, isso nunca se faz!), que pendurou a cabeça em modo de crucificado e já só a levantou quando acabou a refeição. 

Disse à miúda: “Já viste o emplastro que me saiu ao lado?”, do que ela riu muito, passou à mãe, que também riu muito e, encorajada pelo tricot que iniciara, prossegui: “E o casal que está à vossa frente? Duas múmias. Não sei se ele chega vivo ao final da festa”. A criança não se riu, mas eu não estranhei. Passei mais tarde um nico de aflição quando percebi que os quatro não se largaram o resto da noite em amena cavaqueira. Eu sou pro neste tipo de gaffes.

Foi muito divertido, dancei muito, só com um 7UP no estômago, não houve necessidade de capirinhas, cervejas ou sangrias. Só agora percebi que não é daí que vem o swing.


18/01/2024

Macaquinhos, cada um tem os seus

Chego perto dos elevadores e ela já lá está. Acaba de abrir-se o que chamou e tem à frente, encara perifericamente comigo — creio que o pescoço não mexe — e salta para o lado, para a porta do outro elevador, em cujo botão toca freneticamente, mas que, obviamente, não vem, visto que está o outro ali mesmo, à espera que alguém se digne entrar. Digno-me eu, com um suspiro inaudível (?), e sigo. Batalha esta inglória, visto que uma e outra íamos para o segundo andar. Confesso que nem ponderei ir pelas escadas, vinha de uma aula violenta de dança e carregada de tralha. Ela, por sua vez, carregada de fantasmas, que devem pesar toneladas: casaco comprido, botas altas, gorro até aos olhos, luvas. Faz-me lembrar uma criatura que viajava diariamente comigo no metro, há cerca de dez anos. E, de repente, apercebo-me que é exactamente a mesma pessoa. É filha da mulher do saco do El Corte Inglès, anciã que habita este caixote há tantos anos como eu e, desde que o marido morreu e o filho — que morava portas com portas com os pais, e cuja mulher me odiava por estar permanentemente grávida, como se eu lhe tivesse furtado a fertilidade e o mundo fosse injusto e Deus não tivesse uma justiça distributiva — se foi, levando a mulher e o São Bernardo que tinham enjaulado num T2, nunca mais tendo dado as caras nem mais parte nenhuma do corpo, que a mulher do saco passou a usá-lo como uma mala cara de estimação. Depois de várias conjecturas mórbidas que fiz acerca do conteúdo do saco, um dia apanhei-a distraída na paragem do autocarro e fui vasculhar. Decepção: eram só jornais. Ainda tive relações de cordialidade com a pessoa até ao dia em que ela chamou parvo ao meu filho — andava ele de skate debaixo da janela dela e a filha, aquela calmeirona para mais de trintas (ou oitentas?) queria dormir a sesta —, que nunca mais me viu a dentadura à mostra.

Portanto, a filha é assim desde muito antes do covid: deve ter a panca dos ácaros, das bactérias, dos vírus, do diabo a quatro patas. Anda por aí muita gripe A e também a outra sem direito a letra, tudo tosse, tudo funga, tudo se desfaz em ranho e eu, por uma vez, passo sambando na cara das inimigas. Também tenho meus macaquinhos no sótão, mas até acho que estou coberta de razões. Quando a outra pulou para o elevador do lado, pensei, hipocondriacamente: “Será que esta já sabe e, como é avariada da marmita, julga que isto se pega?”. Mas depois sosseguei a vítima que há em mim, com “Hah, ela faz isto com toda a gente. Eu, tal como os outros, temos a carraça, a lepra, o dengue, o E. Coli e a malária, tudo junto.”

É que nem imagina que eu tenho mais motivos para me proteger dela do que ela de mim.

04/01/2024

Post com dois assuntos cientificamente relevantes

Tenho um clube de formigas extremamente pequenas no lar. Deslocam-se em carreiros, desconheço onde é o formigueiro, mas já salvei a vida a umas dezenas delas. É que se afogam numa gota de água, apesar de terem uma resistência louvável. (Nem sei se têm pulmões, mas devem ter.) Ontem estava a beber água por um copo, espreito lá para dentro e vejo uma delas, muito sossegadinha, muito quietinha. Considerei preferível verificar se morta, se viva, mas a fulana não me agarrava o dedo, para que eu pudesse colocá-la numa folha de papel de cozinha e devolvê-la às manas. Peguei então numa colher e retirei-a do oceano. Pensei mesmo que estivesse morta, porque continuou inerte. Quando a ia passar para o papel, vi mexer uma patita, mas ela não largava a colher molhada. Insisti na manobra e deve ter sido aí que a torci um bocado, pois aterrou no papel toda torta e baralhada. Também podia estar em pré-afogamento, coitada. Destorceu-se, endireitou-se e lá seguiu caminho toda manca, à procura das outras. E bebi a água, sim, que a vida não está para finuras.

Mas não era a isto que eu vinha, embora o tema formigas ainda não esteja esgotado. Fica para o último parágrafo.

Hoje entrei na quinta dimensão. Estava a cozer uns lombos de pescada na Biby — que ela coze pessimamente — e na receita mandava guardar a água da cozedura para depois a misturar com uma poção qualquer que já estava em preparação no meu caldeirão. Pus um coiso de palha por baixo do jarro e vai de verter o precioso líquido lá para dentro. Quando chegou à última gota, pás!, explodiu como que dinamitado. Pensando bem, acho que implodiu. Sei que era vidros por todo o chão da cozinha que chegavam ao corredor. E meio litro de água perfumada de peixe, que se transformou em cinco litros, pois era a minha calça, o meu pé e respectiva chinela (desculpem, mas tenho que acabar com este mito rural: eu sou como as outras pessoas. Ou pior), era o chão, era toda a bancada e a derramar-se para dentro das gavetas e armários. Valeu-me minha Sandra que, quando faço uma refeição em vez dela, até se lambe, parece que ainda tem maior ensejo para dar à matraca. Lado bom: ninguém se magoou, nem sequer com aqueles vidrinhos do tamanho da minha formiga (é assim que o cosmos me agradece) e também, menos um mono.

De vez em quando sinto um bichinho a passear pela minha testa, junto à raiz do cabelo. Depois desce, passa-me pelo nariz a atira-se em bungee jumping para o meu ombro. Há dias percebi que era uma formiga das minhas, se calhar veio agradecer-me ter salvo a coxa.

Hoje estava nas minhas danças e lá sinto outra vez um bicho pequeno a percorrer a minha raiz do cabelo. Sacudi com cuidado, para não assustar o animal nem o lesar e disse para a que estava atrás de mim: “Tenho formigas na cabeça”, que há-de ter sido a frase mais esquizofrénica que proferi na vida. Ela desesperadamente a tentar disfarçar o seu incómodo, “Pode ser algum champô que estás a usar”, mas eram de aflição os olhos dela quando eu esclareci: “Tenho imensas formigas em casa, nunca tinha visto umas tão pequeninas e, de vez em quando, uma ou outra vem passear na minha cabeça.”