Mostrar mensagens com a etiqueta supermercado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta supermercado. Mostrar todas as mensagens

17/06/2025

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 63

Acerco-me, confiançuda, das caixas em que a gente, pessoas humanas, é que faz tudo: desde o registar ao pagar — no qual deveríamos ser agraciados com um respeitoso desconto —, ao ensacar, nada passa pelas mãos dos funcionários. Isto, claro, em se tratando de um vulgar terrestre, já nado com o dom da tecla e da leitura óptica. Em cada compra das minhas, o mínimo de vezes que chamo a ex-antipática do braço entrapado são umas três. Hoje, perdi-lhes a conta. Fui confrontar-me com uma máquina que absorveu o mau génio que dominou em tempos a ajudante-de-clientes-aflitos, e que implicou comigo logo à cabeça. Primeiro artigo, um par de rolos de papel de cozinha. "Artigo desconhecido" [Oh, Deus, queres ver que vim comprar ouro em pó?]. Ela veio, tocou em trinta e dez botões, passou aquela coisa que parece um secador de cabelo [hei-de experimentar] por vários cartões que trazia no bolso, e sentenciou: "Pode continuar." Continuei. Passa isto, passa aquilo, tudo a eito. Ah, não, espera. Passei um artigo que pesava vinte gramas e a máquina indiferente. Passei uma embalagem de fiambre, põe-se ela: "Peso de artigo não especificado". [Fiambre já pesado na fábrica, capaz de ter uma barata a dormir dentro da embalagem, chiu, não acordem a menina]. Lá veio a senhora dos botões e da leitura óptica e repetiu que continuasse. Estava aqui a pessoa a passar uma embalagem de cajus, atira-a com uma certa determinação para aquilo a que chamam balança, mas que mais não é do que uma passadeira estática (como, aliás, deveriam ser as de todos os ginásios), vê lá escrito Caju - não sei quantos euros, mas não vê os cajus em parte nenhuma. Rebusca no tapete dos registados, Ai, queres ver que sou o novo David Copperfield e, ao invés de um avião, faço desaparecer frutos secos?, nada do pacote, rebusca no chão, na vizinhança e, atónita, exangue, lá chama outra vez a amiga loira, que vem a rir, e ainda se ri mais quando lhe é explicado o facto. Depois encontra os cajus atrás da máquina, toca em mais quarenta e oito botões e usa aquele taser [não sei como não na minha testa] e some-se, não para trás da registadora, mas lá para o posto de vigia dela. Tento, então, passar um conjunto de três embalagens de toalhitas para a higiene do povo do lar, que a gente é suavemente limpinhos e, ao preço a que está o papel higiénico, mais vale isto, mas verifico que não tem um código de barras único e lembro-me que não sei multiplicar por três lá naqueles botões do ecrã. Por isso, rebento a fita que os une e pretendo passar um a um, que lá somar, isso sei. Passo o primeiro, pouso na passadeira e leio logo: Peso errado, ou coisa que me valha. A outra aparece-me e explico-lhe a minha enésima dificuldade, e é então que ela me esclarece que cada código daqueles é referente às três embalagens de toalhitas. Continuo sem entender, visto que acabei de passar seis litros de leite e tive de os virar de cabeça para baixo porque a asa com o código está no topo.

É claro que, muitos minutos depois, chegou o momento do pagamento. E paguei. E enchi um saco de supermercado, para além do meu, íntimo e pessoal, que já transbordara desde a cena do papel de cozinha. Tudo aquilo me exaspera. A alternativa, que é alguém registar as compras por mim, simplesmente não me assiste. Demasiada conversa parva para meus actuais parâmetros. A velhice tem destas coisas: poder escolher, poder dizer “não”, poder não dar contas porque. E peguei no segundo saco e o cheiro a peixe podre era assim algo de histriónico. Todo molhado por dentro. A água que teve, apodreceu ali. E eu a pensar numa solução. Tudo, menos chamar a minha já velha serva. Vou comprar outro saco. Não, tenho dezenas em casa. Vou deitar este fora. Não, este pesadelo custa uma parte do intestino grosso. Vou comprar sacos de plástico. Não, que eu sou pelo bem. Vou deitar-me para o chão e gritar que quero a minha mãe e que estou farta de viver estes pesadelos acordada, e depois, quando efectivamente acordo, são verdade. Vou fugir. Deixo aqui as m. todas e defeco no assunto. Não posso. Já entrei na recta da meta. E essa é uma rota de colisão. Então, a mais luminosa que me ocorreu foi pegar em parte de um dos rolos de papel de cozinha e limpar aquele nojo, enquanto paguejava, P. da minha vida, só me acontecem m., depois de todas as m. por que já passei aqui, agora tenho o c. do saco a cheirar a escargots podres. É isto, a velhice. É tudo descarrilar e ainda termos forças para trovejar, encher o saco com mais dez quilos de trampas e levar tudo para o lar. 

Um dia acertamos contas, Hades. Há-des ver.  


04/03/2024

Errare

Ainda não sei porquê e admito que nunca vou saber, meti-me um destes dias no supermercado. Já na fila para pagar, lembrei-me do bolo do caco, que não constava do meu cesto. Ali o abandonei e saí da fila, “Falta-me o bolo do caco!”, por acaso a pensar por que diachos se chama bolo àquele pão — já para não escalpelizar a palavra “caco” (monco? Burrié?) — e depois se chama pão àquele bolo de ló (e “ló” porquê? Por que não “dó” ou “lá”?) Pronto, já sei: devia estudar a etimologia das palavras antes de me meter aqui. Depois voltei para a fila, e “Ai, onde é que estão as minhas coisas? O meu carrinho?”. Estive mesmo para fazer um espavento, “Fui assaltada!”, mas depois lembrei-me que os bagulhos só são meus a partir do momento em que os pago. Foi quando percebi que estava na bicha errada. Enfim, só não erra quem não faz. 

Saí dali direitinha à loja de lingerie, entrei e disse à funcionária: “Olá. Eu sou a dos sutiãs.”. Isto porquê? Porque já entabulara diversas conversações telefónicas acerca daquela peça em particular, cor, tamanho, encomenda, já chegou, vou buscar, eu guardo. A pessoa, extremamente maquilhada (verde na parte não móvel da pálpebra, muito anos ‘70), respondeu-me assim: “Eu não sou daqui, sou de Odivelas.”. Curioso — pensei, pondo a cabecita de lado, como fazem as galinhas quando estão baralhadas (amiúde) — já não é a primeira vez que esta retro me responde isto quando a abordo. Será que diz o mesmo a todas as freguesas? Para a próxima, entro na loja e digo: “Eu não sou de Odivelas, sou daqui.” Só para ver o que é que acontece. 

Deslindado o imbróglio, chegámos à conclusão que as negociações que eu havia entabulado não haviam sequer tido lugar com alguém daquele espaço comercial, mas sim de um outro, para lá da Estefânia. Tudo culpas do Google, que uma pessoa põe “loja de x no lugar y” e o destravado apresenta-nos o lugar z. Não importa, a verdade é que estava tão empenhada na aquisição que me despedi da de Odivelas e determinei-me a zarpar Rosinha, minha canoa, até para lá da Estefânia. Acerco-me da viatura e deparo-me com um idoso, dentro do carro estacionado ao lado, a ver no telemóvel mulheres sem sutiã. É o mal de darem smartphones àquela faixa etária, coitados. Depois enganam-se e vão parar ao inferno, ou ao céu, ou lá o que é.


15/05/2022

Há quem não dialogue comigo

Creio que estou a desenvolver a arte, com bastante perícia e minúcia, do monólogo. Estou demasiadas horas sozinha em casa, já que não posso fazer sequer as bem fadadas caminhadas (unhas dos pés ainda em processo de descolagem, qual avião com asas). Falo com as gatas, rabujo com os objectos, enfim, atingi o ponto da velha tonta, que era suposto chegar daqui a umas (poucas!) décadas.

Chegara eu à caixa do supermercado, pusera meus quase haveres na passadeira rolante, em primeiras uma palete de leite com seis litros dele, em segundas um outro bagulho qualquer, creio que um quilo de sal grosso, que preciso de tingir umas calças encarnadas de encarnado (porque um dia tinha uma nódoa que esfreguei tão bem que lhes arranquei a tinta, e, vá, a p. da nódoa também), e o tingimento envolve sal grosso, de contrário não o adquiriria, que a gente só usa flor de sal cá no lar, somos um jardim salgado, mui finos.

Vai a pessoa que me calha na rifa registar os meus coisos, o leite, o sal, e nisto reparo que o meu total já vai em 31 paus e uns cêntimos, e é quando me saltam os dois olhos das órbitas na direcção do ecrãzinho e me apercebo que a palete do leite foi registada como se custasse 30 dele. Olha, queres ver que me enganei e trouxe leite de chinchila? Ou será que fui catapultada para 2099 e isto é o preço normal do leitinho? Ah, já sei: isto é para “Os apanhados”. Vou dialogar.

- Olhe, desculpe, por que é que me registou o leite por 30 euros?

- …

- Já sei: tem ouro na sua composição. 

- …

- Sou menina para me engasgar se der um gole num leite desse preço.

- …

- Ou então, se calhar desisto do leite e passamos a pôr água da torneira nos cereais lá em casa.

A muda desregistou o leite sem uma palavra, nem desculpe, nem enganei-me, e voltou a registar, desta vez por 5 euros. Ou seja, minha iluminada passou o código de barras da palete e depois multiplicou por seis, que eu ainda sei a tabuada. Tão comunicativa, até me deu vontade de ir buscar mais cinco paletes, já que me tinha mentalizado em despender 30 mocas em leite, não fora depois ter que os alombar até ao cume da montanha onde vivo (um segundo andar com elevadores).


16/11/2021

Bonita, bonita, era que este dom me servisse para alguma coisa

Estou necessitada de um golpe de sorte. A minha estabilidade, o meu equilíbrio e até a minha felicidade dependem, neste momento, de uma resposta que está para me ser dada nos próximos dias. Ando numa pilha de nervos, num credo, num ai Jesus de dar gosto ao diabo. Não fora ser uma senhora e não fazer essas coisas, e já estaria desintegrada em estrume daquele altamente fertilizante, pardonnez-moi o grafismo e a gráfica desta singela e escatológica imagem.

Hah. 

Sempre fiz apostas comigo mesma, desde que me lembro de existir como gente. Sei que não sou a única, o que me conforta, pois, embora isso signifique que não sou nenhuma pérola irrepetível, dá-me também a ilusão de não ser uma bela aberração. Lembro-me, por exemplo, da Dolly do Hello, que pediu um sinal ao falecido para que lhe desse a anuência quanto ao casamento com o Horácio. Percebem o raciocínio?

Assim, estava eu na fila única do hipermercado, e, sem ter olhado para as caixas — isto é fundamental para se entender o contexto —, apostei assim: “Se eu for chamada para a caixa 21, é sinal de que a notícia que aguardo será boa”. [As caixas são para aí trinta e cinco.] Eu gosto do vinte e um por egocentrismo e superstição, nasci num dos doze do ano, e deixem-me. Deu-se então a minha chegada ao primeiro lugar da fila, e, ao olhar para a 21, verifiquei que a operadora ainda estava a receber o pagamento de uma pessoa e havia uma outra à espera de ser atendida, com as compras já no tapete. Arrependida, um pouco zangada comigo mesma, quase furiosa — porque tanto acredito nas minhas perguntas como nas respostas que o cosmos me dá —, ainda pensei em desfazer a aposta, “agora não vale”, à pita da escola, “não vale salvar todos” no jogo das escondidas. (De resto, nunca percebi essa cena de salvar todos, uma batota como outra qualquer.) Estava eu mergulhada nestes pensamentos, prestes a afogar-me neles, quando o altifalante chama: “Caixa número vinte e um”.

(Foi uma alegria tão grande que paguei a despesa de um rim que lá deixo praticamente todos os dias sem um pestanejar de rímel, toda eu risos e simpatias para a funcionária. Não presto para nada.)

Desculpem, mas isto não é altamente científico?


08/11/2021

Leave me breathless

Já aqui me insurgi, não contra, mas a propósito do despropósito que constituem as campanhas daquele hipermercado que responde por um nome começado por Conti e terminado por nente, e que nem foi capaz de adaptar o nome ao estaminé quando se instalou nas nossas ilhas.
Cá vai mais uma, que, como sempre, não passa de um exercício de matemática simples, tipo quarta classe, como se dizia no meu tempo.
Agora são facas. Diz que são de cortar a respiração, o que é credível pelo aspecto dos retratos: as naifas são perfeitas para talhar uma jugular, quiçá uma boa carótida.


Uma delas, por ter o mimoso nome de santoku, há-de estar destinada ao golpe na veia femural. (Pareço uma cirurgiã — ou uma talhante — a falar, mas é que fui estudar.)
(Esta m. está a centrar-me o texto, derivados às imagens, mas defequei. Sei muito bem que, se for à html, posso alterar, mas não vou.)


Mas o que me traz aqui, efectivamente, são aqueles cálculos esdrúxulos a que sinto que tudo isto me compele. Então, imaginemos que eu quero uma faca multiusos, como outro dia me apeteceu: junto vinte selos, sendo que cada um corresponde a vinte paus de compras, logo, a minha faca custa-me quatrocentas mocas, em não me falhando a calculadora (nhé, fiz de cabeça, sou um crânio). E depois, vou à caixa trocar os selos pela faca, e passam-me um recibo de quarenta e quatro e noventa e nove dele — que há-de ser o valor de mercado da coisa —, mas a zeros.


Ou seja, o cutelo custou-me quatrocentos, ou quarenta e quatro e noventa e nove, ou zero? 
Agora que pus isto assim, nestes termos, já não consigo dormir sem uma resposta. Às vezes (raramente!), mais valia estar calada.


02/10/2020

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 62

Eram 10:00 da madrugada, já eu pagava as minhas singelas comprinhas numa caixa rápida -, seis ou sete pequenas coisas e uma coluna de papel higiénico, com trinta e tal rolos. Depois pus-me a ensacar. (Um dia vou conseguir meter as compras nos sacos - por sua vez colocados num cubículo acrílico onde cabem, na melhor das hipóteses, dois pacotes de manteiga -, à medida que as registo.) Acabara a tarefa há menos de nada quando me surge pela esquerda um idoso impaciente - sei lá com o quê, visto que, ao lado da que eu ocupava, a outra caixa se encontrava vazia e ele podia perfeitamente tê-la utilizado -, que exclama: Raio da velha, que vem para aqui empatar isto

Por acaso, ocorreu-me que fosse comigo, mas, ou porque ainda estava numa hora zen do dia, ou pelo efeito da surpresa, nem me dei ao trabalho de verificar se, efectivamente. Segui então o meu caminho, rampa abaixo, rumo a Rosinha e à minha vida sem máscara. Carregava nesse momento o peso dos trinta e tal rolos de papel higiénico nos ombros, quando o mesmo coiso passa por mim - apesar de ter outra rampa disponível, embora parada, ao lado -, dá-me um suave encontrão (pessoas que desconhecem o conceito de distanciamento social), e dá-me também vistas para ficar a observar bem o espécime: magro, apressado, agarrado, sobretudo à única compra que fora ali fazer: uma garrafa de tinto, provavelmente o seu (primeiro?) biberon do dia. 

Que trágico. 

(Estimo que se fornique.)

[É verdade, não tenho problemas em relatar que alguém me chamou velha com pouco mais de cinquenta anos. Esta pode ter sido a primeira de muitas. Pelo menos, não venho para aqui dar a entender que sou mais nova do que efectivamente sou. Desde os trinta e poucos que sei que quem me chama "menina" ou "jovem", ou quer vender-me, ou quer pedir-me alguma coisa, designadamente que eu não quero comprar/ dar.]

#fuckcoerência


26/06/2019

Baila bachata

Em plenos treinos, aprendendo uma dança nova: la bachata. 
Então, não atinava com o passo do refrão. Toca no chão com o pé direito, um-dois-três enquanto vira, toca no chão com o pé esquerdo e repete. Toda eu era trocas no toca, acertando o passo no resto da música, chegada ao refrão - só a parte principal da dança, convenhamos - e troca e troca.
Até que. Ainda a música não soava no ar, e aquilo saiu-me assim, como se já soubesse o passo do refrão há que tempos. Estava na cabeça, não me chegava aos pés. Ontem foi o clic, da cabeça aos pés.


Faz-me isto lembrar um problema social que vivi na infância que, como todos os pequenos traumas, ficou para sempre a bailar-me na cabeça, isto quase literalmente: quando eu era uma criança, havia música de fundo nos supermercados (também se fumava lá dentro, eram outros tempos de país em vias de desenvolvimento, mas nem por isso menos feliz). Eu ia, ou melhor, era levada, e fazia um imenso esforço para não desatar a dançar nos corredores, entre latas e pacotes de detergente. (Eram aos pacotes de papelão, nada cá do malfadado plástico.) Normalmente, não conseguia levar adiante os meus intentos, porque bastava distrair-me, e lá ia eu a esvoaçar, rodopiante, até à outra ponta do sector, ou até encontrar uma barreira física qualquer. (De fraldas, não havia de ser com certeza, pois as fraldas, naquele tempo, eram de pano, cá nada destes químicos que mais tarde impingimos aos nossos filhos e à atmosfera.) Depois houve ali um tempo em que não fui ao supermercado, por coincidência, ou decisão materna, que havia de estar farta de ir apanhar a bailareca ao fundo do estabelecimento, envergonhada por, mais uma vez, ter perdido o controle derivados à música. (Não foi isso de certeza, a minha mãe era a pessoa mais low profile para essas coisas, o mais certo seria até achar graça.) Acredito que foi mesmo porque não calhou. Quando lá voltei, já naquela fase espigadota em que somos uma crisálida, ou lá o que é (nem lagarta nem borboleta), sentindo-me senhora do meu nariz e da minha vontade, percorri a distância que distava entre a minha casa e o dito mercado, a debitar mentalmente um mantra, "Não vou dançar, não vou dançar, não vou dançar", entrei, toda eu convicções e autodeterminação, ouvi a música, toda eu mãos e pés juntos, parecia uma louva-a-Deus concentradíssima, aguentei o impulso sabe aquele a quem louvava a que penas, até que. 
...
Não sei como foi aquilo, devo ter-me distraído da promessa, posso ter tido uma branca, sei lá.
Sei que "acordei", e, enquanto a minha mãe e a minha irmã escolhiam coisas numa prateleira, já eu rodopiava por ali, tolhida de vergonha, achincalhada pela minha própria fraqueza e incapacidade de resistir a um passinho de dança. 
Isto até pode ser uma doença psiquiátrica com um nome estrambólico e eu não sei.

06/03/2019

Eu tenho problemas com tudo # 37

Por vezes, supreendo-me. E também me sinto ódio. Só não me sovo porque já se sabe, depois teria que me acusar de violência doméstica ao mais puro e alto nível, iria dar com os ossos na trave, que é como quem diz, na barra do tribunal, defender-me enquanto me acusasse, num registo algo esquizofrénico para o qual não estou preparada.
Senão, vejamos: tenho, apesar da minha não miopia, um pequeno espelho que aumenta a imagem dez vezes. É muito útil para apanhar aqueles pêlos que nós não vemos, mas tooooda a gente vê. Também instalei (sim, com berbequim, buchas, parafusos, euzinha) um outro, com braço articulado, mas maior, que aumenta sete vezes. É muito útil para apanhar aqueles pêlos que nos parece que ninguém vê, mas que, na realidade, tooooda a gente vê. Ora, o mais pequeno, porém mais preciso, prende através de duas ventosas que, à força de tanto colar com cuspo no espelho maior da casa-de-banho (que não aumenta nada, dá a imagem real de tudo quanto é pêlo, ou seja, não se vê nenhum) se rasgaram irremediavelmente. Portanto, o melhor de todos os espelhos ficou praticamente inutilizável, uma vez que não dava para o pregar na vertical.
Bom.
Estão a acompanhar?
Inconsolável, do que é que me lembrei?
Ah - dizem vocês, numa lógica adivinhação - foste comprar um espelho novo, que aquilo é uma barateza, uma pechincheza, quase dado no supermercado.
Não.
Fui ao supermercado, é certo, mas no intuito de comprar duas ventosas. Lá chegada, apercebi-me de que só havia blisters (palavra da funcionária que me acudiu na busca) com duas ventosas, diferentes em tamanho uma da outra. Vai que trouxe dois blisters, para, assim, ficar com duas ventosas iguais. Chegada ao lar, vai de tentar encafuar as duas ventosas mais pequenas nos buracos das costas do raio do espelho que, entretanto, farto de dar quedas e de não se partir (com vista a não me dar sete anos de azar), tinha as costas todas rachadas, e abria fendas à medida que eu, já munida de chave de fendas (passe o pleonasmo), entrosava as borrachas nos orifícios, claramente mais pequenos do que elas. Vá que consegui. 
Vá também que, logo a seguir, se me colocou o problema de onde é que eu vou aplicar as duas ventosas que sobraram? Ah, já sei, vão para pendurar panos de cozinha, respondi-me assim para mim. Só que os ganchos eram azuis, e a minha cozinha é toda em amarelinhos. Vai então de arrancar os ganchos àquelas duas ventosas, e aplicar-lhes os das outras duas (em inox, não choca nos amarelos). Desta vez, foi de alicate. Tanto torci os arames, que lá consegui cravá-los nas duas ventosas para os panos. Um bocado de cuspo depois Preguei-os na parede, e lá estão.
Mas não podia ter comprado um espelho novo e deixar-me de merdas? 
Podia, mas não era a mesma coisa.




LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam12

21/01/2019

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 61

Então - isto é um suponhamos -, suponhamos que o ser humano se desloca à superfície, qual emergente, e faz as suas compras, sabe o senhor, seja lá ele quem for, por que é que, naquele dia, são apenas duas ou três tangas. Vai para a caixa de registo pela própria freguesa, que é a tal que se irrita logo aos primeiros acordes - "por favor, aguarde pela assistente", frase que se encontra ao nível de nervoso miudinho daquela outra, "só há o que está exposto" (ou, como diria Jhi, pessoa oriental do meu bairro, "só tem o à mostla") -, passa os artigos todos pelo scan, e repara que está a escassos sete cêntimos de atingir a mágica quantia de vinte euros, que lhe dará a imperdível oportunidade de ser agraciada com uma m. de um selo, que, por sua vez, juntamente com outros catorze ou vinte e quatro, a tornará feliz contemplada com o quê? Um automóvel? Uma viagem ao Samouco? Uns patins em linha da Barbie*? Nada disso, um original e inquebrável Pyrex*!
Inconformada pela tangente quase secante, a cidadã vai de lançar mão - literalmente - de uma caixa de pastilhas que ali jaziam tristemente à espera de dono, acrescentando, assim, ao seu total, noventa e cinco cêntimos, e transformando, desta forma, a sua conta em € 20,88.
(Não sei se estão a acompanhar o raciocínio.) (Reconheço o seu intrincado matemático, mas caramba.)
Dá-se então o momento em que a humana aborda a tal assistente, a conta em riste, alguma soberba pela sua chico-espertice e raro sentido de oportunidade, e a fulana responde que não dá o selo porque "a conta da senhora não chegou aos vinte euros, uma vez que recebeu um desconto imediato de € 1,69 num dos produtos", oh, pá, até vi tudo negro. E não houve "Gosto de ver como o cliente é tratado no Continente**, e se discutem cêntimos por conta de um desconto do qual ele não tem culpa e, pelos vistos, nem pode negar-se a receber" que demovesse a criatura de me dar a porra do selo.

(Soubesse ela a quantidade de selos que as colegas me deram - dados! - por motivo de a quantia estar quase num múltiplo de vinte, da minha simpatia, de beicinhos vários, de a máquina ter encravado e me ter feito "queimar o refogado que deixei ao lume", calava-se bem calada e ainda me dava mais um selo de brinde. Assim, levo com as pequenas autoridades que povoam o meu país, por compensação pelas grandes birrentas como eu.)

É verdade: as pastilhas não aparecem em último, mas isso
deve-se ao facto de a maquineta ordenar as compras lá
como ela entende

* NMPPI
**  Ninguém me paga para me calar

03/01/2019

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 60

Estou tranquila, a fazer o meu pagamento nas caixas de self-service, 
(não é verdade, estou sempre a mil, simulando tragicamente mal uma calma que não possuo nem me possui a mim)
quando a senhora encarregue daquela área engraça comigo, vá-se lá perceber porquê,
(uma pobre mulherzinha, cheia de nervos e pressa para ir sabe-se lá onde, tipo coelho da Alice, as compras pic-pic-pic na leitura óptica, a máquina a encravar, "Por favor, aguarde pela assistente", "Olhe, por favor, diz aqui para aguardar, não sei o que é que esta tem hoje, acho que embirra comigo, talvez devesse mudar de máquina, esta minha vida é um desassossego, mais valia ter ido para a fila, que era capaz de me despachar mais depressa", a assistente a vir em socorro, a tocar numas quantas teclas e a máquina a respirar fundo)
(ou sou eu?)
"Por favor, continue a sua compra"
(Tão educada, a máquina, começa todas as frases por "por favor")
"Por favor, insira o seu cartão"
("Por favor, não saia sem pagar")
e vai a assistente e oferece-me uma garrafa de um litro e meio de água, daquela marca que devemos evitar nos velórios [a piada não é minha], porque "um senhor pagou-a e não a quis levar, tem aqui um pequeno defeito na tampa", "Ai, dê cá, a cavalo dado não se olha o dente", mal eu ainda sabia o quanto havia de me arrepender desta mania de seguir os ditames dos ditados. 
Saco cheio até transbordar, na outra mão mais uns itens - dois sacos de Doritos (don't ask), uma embalagem de postas de salmão para o jantarinho do lar, um saco de cenouras (que eu até parece que tenho coelhos em casa, vão-se aos quilos, mais valia ter uma horta na varanda) -, e a garrafa grátis sob um dos braços, vulgo na axila. 
Havia percorrido o quê? Cerca de quatro metros e meio, mais centímetro, menos centímetro, quando me apercebo de que estou a tomar um duche em público, apesar e sobretudo de ter um sobretudo vestido sobre o vestido. A garrafa jorrava placida e candidamente algumas gotículas sobre a minha manga, e eu, incapaz de parar, pousar as tralhas e deitar fora a magana, desci toda a rampa de acesso ao carro com a estúpida a cuspir-me o casaco todo, tendo lá chegado com a manga encharcada, porém a garrafa inteira. Coloquei-a de pé no chão da viatura, mas ela desmaiou logo ao primeiro arranque, e babou-me o tapete de Rosinha. Então, pu-la no encaixe próprio para garrafas, copos e sei lá mais que cilindros que minha Rosinha tem, só que ela deu uma pirueta nos ares numa curva acentuada, e atirou-se para a parte de trás do carro, tendo-me então molhado um dos tapetes traseiros. Foi quando decidi não lhe mexer mais até chegar ao lar, não fosse ela inundar-me o vidro da frente por dentro, e o limpa pára-brisas não ser capaz de me resolver o assunto, uma vez que acho que está colocado do lado de fora. 
Enfim, cheguei com menos meio litro de água dentro da garrafa, poças por todo o lado e a manga do casaco molhada. 
Moral da história: quando leres ou ouvires "grátis" em algum lado, foge a sete pés. Esse cavalo não tem dentes, e ainda te morde o rabo.


19/10/2018

Ela fala tanto # 26

E estava tão feliz com o grande feito de ter perdido (ou ganho?) alguns, vários, demasiados minutos do seu expediente a colar selos numa caderneta, 


que eu calei, se calei, mais uma e outra vez, a vontade de lhe perguntar se considera que não tem, efectivamente, mais nada para fazer (tanto pó acumulado, tanta tralha desarrumada, tanta pomba assassinada), mas o que é certo, indesmentível e real, é que lá fui à gigantesca superfície, também eu toda feliz e contente, trocar a caderneta por um pirex que não me faz falta nenhuma (mas é grátes, canudo!) e que não tenho onde arrumar (ainda acaba em floreira/fruteira/penico chique), e do qual não vou desenvolver o custo efectivo, porque já o fiz aqui, e eu sou pouco dada a repetir assuntos... acho.


14/09/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 59



Isto assim, vindo de um iogurte, não sei se encare como uma promessa ou como uma ameaça (sobretudo derivados ao calor que se faz sentir por estes dias que correm velozmente uns atrás dos outros, em filinha indiana).

12/09/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 58

Atravancado que está o espaço dos supermercados com as vendas para o regresso às aulas, naquela que é a época pré-Natal destas superfícies, deparo-me com coisas assim:


Isto é giro, especialmente tendo em conta que a média nacional, ao nível do Português dos portugueses, ao fim e ao cabo de doze anos de escolaridade (doze dos dezassete que têm de vida, mais de 70% dela!), está em 11 valores na escala de 20. É certo que se uns obtiveram 12 (oh, extravagância!), outros obtiveram 9. É assim que funciona a estatística. Ou seja, para uns terem 18, outros tantos tiveram que ter 3. 
E depois, vem o pessoal da venda de material escolar — onde se incluem livros, manuais, enfim, papéis cheios de letras — incentivar à compra, e, quem sabe se também (na loucura), ao estudo, através desta linguagem periférica, na convicção de que só esta os nossos miúdos são capazes de perceber, e, naquela psicologia de pacotilha lá dos marketings, "só assim conseguimos chegar-lhes".

[Vá lá, eu sei que "bué" já entrou no nosso dicionário há muitos anos, embora devesse considerar-se um estrangeirismo — origem Angola ou São Tomé —, mas e quanto ao resto? Mano, cena, brutal, fixe...?]
[Ó pá, fónix!]

27/05/2018

22/04/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 56

Era estar menos atenta, e já não dava por estes diálogos:
- Olha, alguma de vocês percebe alguma coisa de Francês?
- Não, porquê?
- Porque está ali uma senhora que só pede por cus-cus-cus-cus...

Por acaso, depois fiquei a congeminar nisto: quando uma pessoa come couscous, e lhe fica presa uma única bolinha entre os dentes, como é que exprime a sua lamúria? Tenho um couscou [cuscu] preso no dente? Ou Tenho um coucou [cucu] preso no dente

[Hã, e o esforço para escrever posts sem conteúdo a que me tenho votado ultimamente, ninguém louva?]

13/03/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 55

Ou
Há uns que gostam de apanhar, só pode ser isso.

Não posso ir ao supermercado, nem que seja virtualmente. Isto é, através de nettinha, pois que aquela coisa do online permite a uma pessoa humana teletransportar-se para o recinto, escolher os itens no sossego do seu computa e tê-los todos no lar em cerca de horas, verdade?
Não. Mentira. Tudo depende de, de quem se trata. E eu trato-me de uma pessoa sem sorte para algumas coisas, por compensação de todo o resto. 
Escolho o horário de entrega para o lapso que dista entre as 10:30 e as 12:30 da madrugada.
Vejo chegar as 12:30 e nada de a encomenda me chegar aos braços. 
Ligo para o apoio ao cliente, sou atendida ao fim de um quarto de hora de música de câmara, e isto a fazer-se uma da noite, rés-vés Campo de Ourique com a hora do almoço. 
Diz que o entregador está ligeiramente atrasado. (Oh, really?)
Protesto e reclamo que alguém me vai devolver a taxa de entrega. A Voz diz-me que sim, dado que já se deve ouvir o meu ranger + espumar + arfar. Vou esperar sentada, a ligar para aquele 707 nos próximos dias, cada vez que abrir a minha conta e verificar que — oh, surpresa! — a taxa não me foi devolvida.
Cerca de quê? Três, cinco minutos depois, recebo uma chamada do apoio, agora já com uma gravação, que me faz um questionário em duas singelas perguntas:
1. De 0 a 9, recomendaria o serviço online a um amigo?
2. De 0 a 9, quão satisfeito ficou com o serviço de atendimento mu-mu-mu, que nem a deixei completar a pergunta, pois já me tinha caído o dedo, outra vez, e com toda as as minhas forças, na tecla do zero. 
Era terem esperado meia-hora, que já me apanhavam macia, como de costume. Assim, olha,  apanharam-me em bruto (ou em bruta, se preferirem), e enfardaram até eu me cansar. 


06/02/2018

Foi tão blogger da minha parte # 8

Era uma vez eu, que, farta de gastar dinheiro na perfumaria, fui ao supermercado e experimentei não um, não dois, mas cinco rímeis diferentes em cima das minhas pestanas, já de si pintadas. Queria perceber qual era o melhor, e, não podendo pôr um, tirar e pôr outro a seguir, acumulei-os. Se, assim, não consegui fazer essa aferição, pelo menos fiquei com todas as pestanas carregadas de tinta preta, e dei-me então a oportunidade de escolher qual trazer para casa. Como não estava fácil escolher entre tantos, e todos tão bons, trouxe três, para usar alternada ou concomitantemente, consoante a mood do dia.
Isto foi um entróito, para criar algum suspense e salivação. Agora é que é o post a sério.

______________________
Andei eu anos — décadas! — desta minha vida, convencida de que tinha olhos frágeis (designação que eu própria inventei), e que, por conseguinte, tinha que usar apenas rímeis (a tal máscara de pestanas) de qualidade, vulgo caríssimos, e não é que, farta de o enterrar todo naquela escova cheia de carvão em papas, decidi experimentar não um, mas cinco diferentes, e trouxe comigo três deles, marca supermercado, e não aconteceu nada, a não ser ter ficado com umas pestanas panorâmicas, qual traveca de Almada, qual pestana postiça, qual ó-eu? Nada de olhos a picar, nada de pestanas aos molhos como o alecrim, nada de choram os meus olhos. 
Isto, de várias, uma: 
1. Ou os meus olhos perderam a fragilidade e ganharam uma espécie de calo;
2. Ou a indústria da cosmética, ao nível do supermercado, melhorou bastante em termos qualitativos;
3. Ou existe aqui um factor psicológico, e a carteira é que manda, porque não é o corpo, é mesmo ela é que paga, e, por conseguinte, de tão mais barato, já nada me pica;
4. Ou eu andei a mentir a mim mesma estas décadas todas (perdi mesmo a memória — outra vantagem que só a idade dá — em relação à idade com que pintei as pestanas pela primeira vez);
5. Ou eu não tinha mais nada para fazer ao metal, para ir todos os meses (ou todos os quarenta dias, para ser mais rigorosa) à perfumaria empenhar os anéis para trazer a tinta preta;
6. Ou estou naquele período de lua-de-mel com os artigos, e daqui a três, quatro dias, estou a rosnar que me caíram as pestanas todas;
7. Ou comecei, finalmente, a ver mal, e vejo pestanas onde elas não existem;
8. Ou a minha vida é pautada por estas maiorências e ninguém me dá o meu devido valor;
9. Ou o assunto pestanas não é, efectivamente, um assunto que se transporte para aqui, e mais valia estar calada;
10. Ou quem cala consente.
[Pôxa, vi-me aflita para chegar às 10.]

É pedirem com jeitinho, e até digo as marcas. Mas posso adiantar que um deles é aquele que é branco de um lado e preto do outro. O branco usa-se primeiro, está bem?

05/02/2018

26/01/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 52

Ou talvez devas.

Só não acerto no Euromilhões. 
A troca de mensagens que segue foi antecedida pelo seguinte diálogo:
- Estou sem xeta no porta-moedas, não me apetece ir levantar nem pagar com multibanco duas merdinhas que são precisas lá em casa. Dá-me aí.
(Pareço uma assaltante, eu.) (Às vezes, literalmente.)

Era para correr duas ou três capelinhas, alface aqui, ervilhas congeladas ali, e, diante dessa perspectiva, resolvi meter-me no supermercado, onde se concentra tudo e mais um par de botas. (Também literalmente.)
Levei 10 euros no bolso, pus no cesto o que havia a pôr, mais uma coisinha aqui, outra ali, faltam legumes para a sopa, couve-flor, abóbora, cenouras, olha courgete desidratada, xacá experimentar, quase tudo muito saudável, caixa com ela. 
Conta final: € 9,99.