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29/06/2021

Ela fala tanto # 31

E não pode ver nada. Agora também quer ter tensão alta. Já não bastava a alergia aos metais. E as unhas encarnado-sangue. E ter posto ao filho o nome do meu. Fora o resto, que é tudo e mais alguma coisa.

Liga-me às 8:22 da madrugada, eu já na lufa-lufa, porém quase desacordada, Bom dia, desculpe, mas não me estou a sentir nada bem, passei toda a noite a vomitar [vá que, desta vez, sabe-se lá porquê, me poupou ao pormenor da diarreia], vou ao hospital ver o que é que tenho, Será covid?, pergunta aqui a parva, Acho que não, isto foram umas coxinhas de frango que eu comi no fim-de-semana e que me provocaram uma subida da tensão arterial, já é a quarta vez que isto me acontece [o animal selvagem que me habita a congeminar em ladainha: À primeira caem todos, à segunda cai quem quer, à terceira cai quem é parvo, à quarta cai... a Sandra! Comi pipocas ao almoço, comi pipocas ao jantar...], nem me consigo ter de pé, não tenho reacção no corpo [a tal descrição que ela faz para todas as suas maleitas e desaires, que vão da amigdalite até à cólica intestinal, passando pelas inúmeras quedas e pancadas que lhe acontecem. Não ter reacção no corpo significa exactamente o quê? Que faleceu? É que eu, na minha justa e correctíssima ignorância, desconhecia que é suposto o corpo ter reacção. Mas siga], agora estou na [nome de uma firma para a qual trabalha quando sai cá do lar, que fica a cem metros de distância] a beber um chá aqui com as minhas colegas [???] a ver se melhoro. 

Confesso que já não ouvi muito mais, porque tinha o cérebro a chiar camas de lavado, duas casas-de-banho, chegada e arrumação das compras do mês, almoço, máquina de roupa, recolher toda a que estendi ontem, estender a que lavar hoje, dobrar o que não seja para o ferro, compras, jantar. 

Portanto: minha madame passou mal todo o fim-de-semana derivados às coxas, mas ainda se arrastou até perto da minha casa, quase uma hora antes do horário de entrada (please, explain), isto tudo sem reacção no corpo. Se eu não sou uma cavala, que havia de lhe agradecer a intenção, mas não o fiz?

Moral da história: foi ao hospital, deram-lhe uma pica, mandaram-na para casa sem baixa, mas hoje ainda não pôde trabalhar, porque continuava muito zonza e com a cabeça a explodir. (Não vamos fazer a imagem mental, está bem?)

Em suma: mandei-a meter baixa. É para isso que lhe pago a Segurança Social e não há cá mais merdas. Sim, ponho com fervor a possibilidade de me ter tornado execrável. Foi do covid. Não, afinal não: foram vinte e três anos a levar com grupos, sempre à sexta e à segunda. Quando ela voltar, terei o meu corpo sem reacção. E a minha cara. E os meus ouvidos, para os intermináveis relatos que me faz de tudo o que lhe acontece na vida, e que me interessa, vamos lá a ver... zero, vírgula, zero, zero... zero.


01/03/2019

Queridas anónimas,

Assim me dirijo a vocelências, no feminino, pois que estou certa quanto dois e dois serem quatro, ou melhor, nem disso estou tão certa, que vós todas haveis nascido munidas de pipi, pois foi? 
Foi.
E — contra mim, ou o meu, falo (atenção à vírgula, reparai que não escrevi o meu falo), mas — pode ser por essa razão que sois tão avessas a ser amiga de vossa amiga, esta aqui considerada, uma criada ao vosso dispor, tanto quando se trata de dar a boa da gargalhada, ainda que seca, ainda que roufenha, ainda que falsa, como quando é para verter a gota da comoção, que a pessoa humana ainda vai conseguindo provocar por estes dias que correm à velocidade da luz que nos ilumina a todos, que o Sol, quando nasce, já se sabe, uma distribuição injustamente equitativa, a tudo banha, quer tenha, efectivamente, banhas, quer só ossos, quer seja assassino ou santo, leva tudo pela mesma tabela, e eu acho mal. 
Mas não nos desviemos. 
Assim de repente, virou-me a boneca, e deixei de querer para aqui que vós, suas sem-nome, sem-cara, sem-sem, me comentem o buraco, pois isto não é da Joana, quanto mais da Maria Engrácia ou das Sorayas que vos habitam. Olhem, cansei. Ando demasiado ocupada, preocupada, extenuada e quase tudo o que termine em ada, para vos aturar aqui. Lamento.
Tenho pena, por causa de anónimas mesmo queridas que tenho, como é o caso da minha Miss Curvas (a quem baptizei!), a motard mais anónima e bem educada cá do coiso, mas isto é como aquele ditado estupidamente verdadeiro, que dita, passe o pleonasmo, paga o justo pelo pecador. É verdade, sim senhora, que a mim já me aconteceu vezes a mais, nomeadamente quanto a esta beleza toda, pois que o preconceito diz que não se pode ser gira e inteligente ao mesmo tempo e tudo no mesmo corpo, e já fui tomada por estúpida bastas vezes só por causa disso. Como agora, aliás. Portanto, querida Curvas, se me estiveres a ler, tem lá paciência com esta jarreta e arranja lá um perfil, que serás sempre bem vinda a esta luxuosa casota.
E sim, a gota de água foi uma anónima que já aqui andava a morder subrepticiamente há umas semanas, mas não foi propriamente a causa, não vá ela ficar impante de soberba e achar-se. Ó pá, se eu já tenho o pavio curto para dentadinhas que depois é "Ai, não, tu é que és paranóica e vês maldade onde não há" e mimimi, mas se o lar é meu, deixem-me cá correr à vassourada com o que não me interessa ter aqui. 
Já sei que me vão dizer que cada um vem com o nome que quiser, que Florzinha Frágil não é menos anónima do que Anónimo, mas chiu, que é. Com Florzinha Frágil, Borboleta Dorida, ou Presidente da República, eu posso sempre consultar o perfil e tirar as minhas ilações sobre há quanto tempo andam nisto, ou seja, se não é um perfil criado só para me moer, a mim e às outras bloggers topo de gama (caluda, já disse). Já com Anónimo, ando para aqui às escuras, às moscas, aos papéis, a ter que ser simpática com quem me trata mal ou me provoca. Pá, não. Ide com os porcos (coitados).




LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam17

03/01/2019

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 60

Estou tranquila, a fazer o meu pagamento nas caixas de self-service, 
(não é verdade, estou sempre a mil, simulando tragicamente mal uma calma que não possuo nem me possui a mim)
quando a senhora encarregue daquela área engraça comigo, vá-se lá perceber porquê,
(uma pobre mulherzinha, cheia de nervos e pressa para ir sabe-se lá onde, tipo coelho da Alice, as compras pic-pic-pic na leitura óptica, a máquina a encravar, "Por favor, aguarde pela assistente", "Olhe, por favor, diz aqui para aguardar, não sei o que é que esta tem hoje, acho que embirra comigo, talvez devesse mudar de máquina, esta minha vida é um desassossego, mais valia ter ido para a fila, que era capaz de me despachar mais depressa", a assistente a vir em socorro, a tocar numas quantas teclas e a máquina a respirar fundo)
(ou sou eu?)
"Por favor, continue a sua compra"
(Tão educada, a máquina, começa todas as frases por "por favor")
"Por favor, insira o seu cartão"
("Por favor, não saia sem pagar")
e vai a assistente e oferece-me uma garrafa de um litro e meio de água, daquela marca que devemos evitar nos velórios [a piada não é minha], porque "um senhor pagou-a e não a quis levar, tem aqui um pequeno defeito na tampa", "Ai, dê cá, a cavalo dado não se olha o dente", mal eu ainda sabia o quanto havia de me arrepender desta mania de seguir os ditames dos ditados. 
Saco cheio até transbordar, na outra mão mais uns itens - dois sacos de Doritos (don't ask), uma embalagem de postas de salmão para o jantarinho do lar, um saco de cenouras (que eu até parece que tenho coelhos em casa, vão-se aos quilos, mais valia ter uma horta na varanda) -, e a garrafa grátis sob um dos braços, vulgo na axila. 
Havia percorrido o quê? Cerca de quatro metros e meio, mais centímetro, menos centímetro, quando me apercebo de que estou a tomar um duche em público, apesar e sobretudo de ter um sobretudo vestido sobre o vestido. A garrafa jorrava placida e candidamente algumas gotículas sobre a minha manga, e eu, incapaz de parar, pousar as tralhas e deitar fora a magana, desci toda a rampa de acesso ao carro com a estúpida a cuspir-me o casaco todo, tendo lá chegado com a manga encharcada, porém a garrafa inteira. Coloquei-a de pé no chão da viatura, mas ela desmaiou logo ao primeiro arranque, e babou-me o tapete de Rosinha. Então, pu-la no encaixe próprio para garrafas, copos e sei lá mais que cilindros que minha Rosinha tem, só que ela deu uma pirueta nos ares numa curva acentuada, e atirou-se para a parte de trás do carro, tendo-me então molhado um dos tapetes traseiros. Foi quando decidi não lhe mexer mais até chegar ao lar, não fosse ela inundar-me o vidro da frente por dentro, e o limpa pára-brisas não ser capaz de me resolver o assunto, uma vez que acho que está colocado do lado de fora. 
Enfim, cheguei com menos meio litro de água dentro da garrafa, poças por todo o lado e a manga do casaco molhada. 
Moral da história: quando leres ou ouvires "grátis" em algum lado, foge a sete pés. Esse cavalo não tem dentes, e ainda te morde o rabo.


05/12/2018

Hã? Explica lá essa matemática de m., que eu julgo que não entendi

Loja da Disney. Vou pagar algo como 12,50 euros, ainda lhes acrescento 2 por causa de uma embalagem especial de corrida, mas a verdade é que já entrei em conflito mental comigo mesma, porque são 11 da madrugada e já me sujeitei à tortura de ter entrado em três lojas, onde esperei horrores (Nespresso: 12 minutos, apesar de só ter uma pessoa à frente, mas é que eu sofro do síndrome de não estar grávida, não ir a empurrar um carrinho, não ir a locomover-me com recurso a material ortopédico, não ser idosa, e também do transtorno de apanhar sempre à minha frente aquela pessoa que tirou o dia para ficar na loja dos cafés a discutir o melhor método para fazer leite cremoso através do espumador; Calzedonia: A saga dos collants e eu, ai, por favor, tragam-me o Verão de volta!; Parfois: o tempo desesperante que o terminal de multibanco levou a perceber que era para funcionar tipo já), e queria era despachar-me dali. Então vai ela e diz-me assim para mim: 
- A conta da senhora soma quase 15 euros, que é a quantia necessária para usufruir da oferta de um destes peluches.
E mostra-me o Mickey e aquela namorada dele, a Minnie. Ao lado, uma placa a dizer 10,49 euros. [Mas alguém ainda cai nesta cena do preço psicológico?] Horríveis. De peluche, já disse?
Vamos supor que eu não estava interessada nos bonecos, mas, ainda assim, queria perceber se me davam um, por mais 50 cêntimos, nem que fosse para dar aos pobrezinhos, que eu sou este poço. 
- Mas então, se a minha conta atingir os 15 euros, levo um desses peluches sem pagar nada?
A parva riu-se.
- Não, não...
Parva.
- A senhora paga a sua conta e mais os 10,49 do preço dos peluches.
Olha, parece que o último a rir é o que ri melhor, lá diz o povaréu. Então, gargalhei, acho que de nervos. Conclusão: eu tinha que gastar x para atingir o patamar dos privilegiados que tinham acesso a poder gastar y, com vista a poder levar para casa aquele exclusivo dos dois monos ratos.
- Deve estar a gozar, mas que raio de oferta é essa? Ainda por cima, esses dois peluches são...
E completei com um gesto das duas mãos, dizendo adeus, que é como quem diz "vá lá para a genitália, se faz favor".

11/11/2018

Separadas à nascença? # 2


Anna Chlumsky, actriz de O meu primeiro beijo e Sara Sampaio, modelo

(Estava ontem a ver o filme, pela segunda vez na minha vida - e diz que não há duas sem três, portanto, lá para os meus 95 confirmamos este ditado -, e eis senão quando, aquando do intervalo publicitário, me surge assim, vinda do nada, dona Sampaio, provocando-me, por um lado, um pequeno susto, e, por outro, esta epifania, e também confirmando que, de facto, o criador tem momentos iguais aos meus, de uma falta de inspiração, criatividade e originalidade avassaladoras.) 

24/10/2018

Vá, cosmos, diz lá o que é que queres dizer-me

Era uma vez eu, que, num gesto de profundo narcisismo e amor próprio, adquiri uma pequena medalha alegórica ao meu signo do zodíaco, que é, como não poderia deixar de ser, Escorpião. Lá no meio, muito bem colada, estava uma pedra azul, nem de propósito. Fora amor ao primeiro clique, voara para a loja na ânsia de a possuir, dera o coiro e o cabelo por ela (e mais me pedissem, que também teria dado), pendurei-a da carótida, colada à jugular, há dois meses, e nunca mais a despendurei. Passámos sessenta e tal dias a dormir juntas, a tomar banho juntas, a mergulhar no mar e na piscina juntas, a suar juntas, todo um romance que até enjoava. E, se calhar por isso mesmo, ou apesar disso, a pedra da medalha soltou-se e desapareceu sem deixar rasto.
Entristecida, porém munida do certificado de garantia, fui reclamar ao mercador que ma vendera. Que sim, que me punham pedra nova, porém talvez tivesse que a pagar, e beca-beca. Então está bem, eu ainda vou procurar a pedra, respondi sem convicção, pois que a dita tinha o exacto tamanho da cabeça de um alfinete e já havia desaparecido há quase vinte e quatro horas, tendo eu atravessado montanhas e vales nos entrementes. 
Chego a casa, ponho-me assim nos meus pensamentos, estática, de pé, "por onde é que vou começar?", olho para o chão e 
(oh, pá, ninguém vai acreditar...)
(que se lixe, arrisco.)
lá estava ela.

Pergunto-me-vos, então:
1. Essa cena da agulha num palheiro é para meninos, pois é?
2. Tenho uma vaca do genital? Muuuu.
3. Tenho olhos de lince?
4. A pedra tem o tamanho de uma rocha, eu é que vejo mal e não sei, afinal tropecei nela e estou para aqui com coisas?
5. A probabilidade de isto voltar a acontecer é para aí de uma num milhão, não? E convenhamos que não devo sequer ter um milhão de dias pela frente.
6. Será que isto invalida probabilidades quanto a ganhar o Euromilhões?
7. O ditado "Quem procura acha" não estará desactualizado, em se tratando de pessoas como eu?
8. Devia tornar-me mística? Medium? Cartomante? Investigadora criminal?
9. O facto de ser Escorpião tem alguma coisa a ver com isto?
10. O facto de a pedra ser azul determinou todo este desfecho?

04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


27/08/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 15

Que não consigo desocupar a minha parcela da unidade hoteleira sem antes fazer uma ronda semi-obsessive-compulsive-cleaner, passando jacto no duche, retirando cabelos do lavatório, puxando várias vezes o autoclismo, dobrando toalhas de rosto, alinhando toalhas de banho, esticando a cama, retirando migalhas da mesa, do balcão da kitchenette, fechando o saco do lixo, compondo objectos móveis - o comando da televisão ao lado dela; o do ar condicionado perto dele; os candeeiros em simetria -, retirando nódoas, malhas e marcas de dedadas (serei apenas uma criminosa perfeita, pergunto-me e -vos?), e ainda ficando p. da minha vida porque não há por ali uma vassoura, uma esfregona, um spray ambientador, um esfregão, baldes e detergentes?
É nada um TOC, eu é que não quero que alguém vá a seguir limpar e pense assim: "Porca, badalhoca, suja, deslavada." Porque seria o que eu pensaria, no lugar desse alguém? Porque "nas costas dos outros vejo as minhas"? Porque sim?

25/06/2018

Dúvidas que me assaltam à mão armada, logo assim pelas 11 da madrugada

(Rimou e é verdade.) (Quem rima sem querer, é amado sem saber.) 

Quando falo e o resultado daquilo que procurei transmitir é igual a zero, tal poderá dever-se a um destes factores:
1. Não me diz entender;
2. O meu interlocutor não me ouviu;
3. Falei demasiado baixo/ educadamente/ numa linguagem excessivamente elaborada, metafórica, indirecta, estrangeira;
4. Tenho problemas de dicção (dos quais nunca me apercebi);
5. Estou rodeada de pessoas com défice auditivo;
6. Quando eu falo, ninguém baixa as orelhas;
7. O meu interlocutor não compreendeu o que eu disse;
8. Não repeti vezes suficientes (naquela de água mole);
9. Talvez tenha que insistir ad nauseum, assim como se faz com as crianças, cujo lema é "Ralha-me, mas não me ignores";
10. Um pouco de todas.

15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


29/10/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 4

Fui para praticar run walk run, mas limitei-me ao walk, dado que a multidão era compacta e os caminhos demasiado estreitos e sinuosos. Não lembra ao menino traçar um percurso que inclui degraus, pedras soltas, raízes de árvores que levantam o piso, estacas de madeira, etecetera. É uma vergonha que uma zona como a do Parque das Nações, excelente para caminhadas e corridas, esteja desleixada àquele ponto. Eu vi uma senhora cair, já que estamos a falar nisso. E sim, tropeçou na calçada, elevada pelas raízes. Isto não quer dizer que considere o percurso da Avenida da Liberdade melhor do que este, mas quer dizer que este é só péssimo, não sei se já disse.
Ainda assim, foi muito bom. Melhorei o meu tempo, embora desconheça como é que ainda levei mais de uma hora. (Suspeita-me que são as outras que não me deixam passar, e estragam-me os tempos.)


Tenho que treinar mais, está visto. A ver se, da próxima, chego aos 59 minutos. 

Pontos altos do evento:
1. A aparição do Tony Carreira, aquele mito da plagiação, que eu, sinceramente, ainda não percebi quem é que ele tanto plagia. Não conheço uma única melodia dele, e, eventualmente, nenhuma de nenhuma das vítimas dele. Fez um playback mediano, imitando-se a si mesmo, foi medianamente aplaudido, saiu como entrou: médio;
2. A cruel dificuldade em pronunciar os LL de um apresentador, que insistiu por três vezes em chamar ao palco um senhor de nome Luís Lopes. Acredito que não fui a única que me lembrei de Felisberto Lalande, aquele boneco delicioso do Herman José;
3. Um polícia, sabem? Um daqueles senhores da PSP, que estava a meio do percurso a sorrir para as fêmeas todas, e que mereceu apupos, piropos e gritinhos vários. Só criminosas;
4. Este sol. O mini-bronze que foi possível imprimir na pele, quase em Novembro. Este azul;
5. (but not least) A recolha de cento e dezassete mil e não sei quantos euros para pesquisa/ tratamento/ prevenção/ combate do mal, que é cancro — tem esse nome — e ainda mata.  

Já o disse aqui uma vez, e repito: não me chocaria que o lema da campanha fosse "Quem tem mamas, tem medo". 
A sério. Ainda agora estou para perceber o ar de falta-me-a-pachorra de algumas pessoas, à passagem das participantes da Corrida. Mulheres incluídas, claro.

29/09/2017

All my loving

Não sei se foi ontem ou se foi anteontem, que ouvi na rádio, mas também não sei em qual (acho que foi na Radar, que ocupa 90% do tempo que eu ouço rádio), em que perguntaram não sei a quem importante — mas lá está: não fixo nada do principal, mas retenho o acessório —, qual a música dos Beatles preferida dele. Ainda suspendi a respiração enquanto a resposta não chegava, porque — com os outros, não sei, comigo é assim — achamos sempre que hélas!, há uma alma gémea nossa algures, em cada uma das nossas pequenas opções, mas rapidamente veio a infirmação de que, desta vez, pelo menos, não era aquele Bobby (?) quem tinha um gosto igual ao meu, mas também a confirmação de que gostos não se discutem, nem o musical, por conseguinte.
Ele escolheu She loves you
Eu escolhi, há muitos anos, All my loving.


Então e tu?

11/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 2

Quis publicar uma imagem ilustrativa [alerta redundância] do meu post anterior. Porém, Ai-fostes, acometido de uma má net, derivados de estar demasiado próximo do mar [se esse conceito existisse], não mo permitiu. O quartel-general onde estava instalado o router do pólo onde me acampei era demasiado longe [e cem metros pode ser um conceito interpretável como demasiado longe] para que me deslocasse, metesse pic condicente e voltasse para a boa barraca, pelo que só hoje, regressada e ressabiada, com cara de fim de férias, aqui a publico.
Sem filtros, como tudo em mim.
Já não se trata de uma tentativa de meter nojo, pois que até a mim mesma, ao contemplá-la, agora, a esta distância [duzentos e oitenta e cinco quilómetros, vírgula — após vírgula simbólica — três, pode considerar-se demasiado longe] e sob este prisma (pesadíssimo), a imagem mete nojo, e inveja, e drama, e já saudades, e só coisas feias — não fora ela tão linda.


Diz que Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe. O povo é quem mais ordenha. 
E amanhã é outro dia, lá dizia a outra dos ventos. 
Adeus, que agora vou ali pôr-me em posição fetal e encher-me de baba até me passar a fase da raiva.
[A ver se agora alguém aqui vem desejar-me "Boas não-férias".]


03/08/2017

Laser para melhor lazer

Um altar a quem inventou a depilação a laser. Sinto necessidade de beijar pés, só por conta desta liberdade proporcionada não sei por quem. (Vá, e se eu não vou googlar, façam-me a fineza de também não o fazerem por mim.)
Nunca como agora me senti um homem, e está a ser bom: é vestir os trajes de banho e ala que se faz tarde para o charco, livre de preocupações menores (ou nem tanto) com pilosidades indesejadas. Longe vão os tempos de cavernícula, em que, à porta de casa ou já no areal, se me atravessava um pêlo no olhar - qual cisco, quase me fazendo chorar -, e isso era assunto bastante para dobrar as tormentas por horas, enquanto durasse a permanência, já que um único pêlo, esquecido/ignorado pela lâmina/máquina/pinça/cera, tresmalhado do grupo a que pertencia, escapado à morte a que condenara os irmãozinhos, era coisa para me arrasar os nervos e o dia de veraneio. Quanto mais vários pêlos. Um tufo. So-cor-ro, nem me quero lembrar. E depois, aquela sombra do pelinho nascituro, a saga do pêlo encravado, a frequência com que era preciso dedicar-me à transformação de mãe Eva em Gisele Bündchen, toda essa contratempice acabou, graças ao Senhor Laser.
No entanto, e por acaso, isto sem qualquer base científica - como tudo o que profiro para aqui -, acho que a depilação a laser só foi inventada no momento em que os homens começaram a arrancar os pêlos deles. Foi certamente em homenagem (não mulheragem, vêem?) a eles que surgiu o ditado 'A necessidade faz o engenho'. Isto que disse agora e o que vou dizer a seguir, enquadra-se no meu sector machista, ou sei lá se apenas controverso: nós, mulheres, somos dotadas de um espírito de sacrifício e abnegação, que nos levaria a suportar mais não sei quantos séculos de tortura depilatória, até, na melhor das hipóteses libertárias, criarmos um no shave qualquer e regressarmos à peluda origem. Aliás, não fora os homens terem começado a viver sozinhos e a sentir necessidade de preparar as suas refeições, e o micro-ondas estaria por inventar, e nós estaríamos de barrigas coladas a um fogão (a carvão.) (A pedras friccionadas.) Ou agarradas a um tanque de roupa. Ou a bater claras em castelo com um garfo. Tudo por causa do tal espírito.


27/04/2017

Quando fazes aos outros o que não gostas que te façam a ti

Coincidimos na aula de dança, coincidimos depois no balneário, coincidimos finalmente na saída do ginásio. Como uma sombra, assim mesmo, muito maior do que eu, ela esteve sempre quatro passos atrás de mim, coincidências que acontecem, como numa coreografia bem ensaiada. Tínhamos recebido a novidade de uma aula especial, extra-plano, com o triplo da duração das costumeiras, e ambas queríamos fazer a inscrição para o evento. Ela, enorme, possante, chegou ao balcão os tais quatro passos depois de mim, pelo que fui atendida em primeiro lugar. Disse ao que ia, que queria inscrever-me na aula especial. Ela encostou-se no outro extremo do balcão, à espera que chegasse a sua vez, atenta, porém impaciente. Enquanto era atendida, vi num relance que toda a linguagem corporal dela denunciava pouco tempo/paciência/vontade de esperar. Pareceu-me cansada e atribuí a cara fechada a isso mesmo.
A funcionária perguntou-me se queria a t-shirt alusiva ao dia e eu ai que sim. Perguntou-me de que tamanho, e eu "XS, então não se vê logo?", mas ela não percebeu a ironia e disse-me que não tinham XS, com as sobrancelhas elevadas ao nível da raiz do cabelo.
Nesse momento, ela começou a borbulhar, aquele ponto da fervura que não tarda à ebulição. Fitava-me fixamente, contrariada e suspirante. Imagino que terá rolado mentalmente os olhos várias vezes.
- Então o S, pronto. Vai-me ficar largo, mas depois mando apertar à costureira.
(Isto era uma piada.)
Quase a ouvia bufar, a três metros de distância, enquanto me lançava olhares de enfado e pressa. A outra escrevia no computador sei lá o quê, que também não atava nem desatava com a inscrição nem com a t-shirt. 
- Tem aí alguma para eu ver o tamanho? — Quis eu acelerar o processo, abreviando a agonia da minha companheira de aula. E não esperei a resposta, fui para o expositor das t-shirts, para confirmar.
- Pode ser o S, sim.
Os olhos dela em alvo, ou melhor, eu em alvo, os olhos dela em mira, chispando. 
Finalmente, explodiu, e avisou:
- Vou-me embora, venho cá amanhã. — Na voz a raiva, no andar a fúria.
Não se costuma dizer que "Nas costas dos outros vejo as minhas"? Pois, foi exactamente o que me aconteceu. Pude ver-me ali, em tantas circunstâncias em que simplesmente desisto, porque está uma chata a fazer o Mundo perder tempo.
Não me posso esquecer de que vamos dançar juntas. (E de que ela é muito maior do que eu, já disse?)

07/03/2017

Parir é dor, criar é amor;

A César o que é de César

- Ditados # 19 e # 20

Estava ontem a passear pela blogobola, passei por um blog que também sigo (mas não persigo, como a nenhum) e mergulhei de cabeça — salvo seja — [não abram o link se não estiverem preparados, meus maricas] nestas fotografias tiradas em pré, durante, e imediatamente pós parto.
E insurgi-me.
Vêem-se mulheres a dar à luz dentro de água, no carro, nas escadas, de gatas, de cócoras, a fazer o arado e o pino [isto já não, mas eu tinha que exagerar], vêem-se as cabeças das crianças a saírem dos sítios mais incríveis de suas mães [tipo esse], vêem-se pais com a mão na barriga, a mão nas costas, a mão por todos os lados (ele há homens com várias mãos), vêem-se crianças pequenas a assistir ao parto (o que é uma péssima ideia, principalmente se der merda), vêem-se outras mulheres, manifestamente não parteiras, a colaborar no evento (a curiosa, a mãe da mãe, a companheira da mãe). São 59 fotografias, mais ou menos bem conseguidas, mais ou menos comoventes, mais ou menos mais-ou-menos e também mais e menos. De todas, apenas uma é uma fotografia de um parto por cesariana. 
Desculpem. Eu só queria perceber se o nascimento por cesariana não é um nascimento digno de registo e depois destaque. Se é preciso sofrer, respirar, hiperventilar e a seguir parir para se dar o processo completo de se pôr uma pessoa no mundo. Eu pus quatro, todas por cesariana. (Por isso é que não pus cinco ou seis, e não se tratou nunca de uma questão religiosa ou financeira, mas apenas um assunto de amor.) Não tive direito a contracções, a dores pré, a corpo suado, a cabelo empapado. Não houve pai na sala de cirurgia, por opção dele, mas também fui bem compensada por uma enorme equipa. (Nós, cesariadas, temos direito a quatro médicos — cirurgião, segundo cirurgião, anestesista e neonatologista — e duas enfermeiras — parteira e pediátrica. É muita gente.) Mas tive direito às mesmas (ou melhores) dores logo a seguir. E, sobretudo, tive aquele mesmo momento mágico, em que o relógio efectivamente pára, e todos os presentes fazem um silêncio berçal, até que alguém pergunta as horas, para registar. Tive direito à pele com pele, ao cheiro animal, às lágrimas roucas, aos risos de alívio e amor eterno.
Quatro pessoas. Respect, hã?



26/02/2017

A idade é um posto?

Já tive esta sensação tantas vezes que não pode ser só uma impressão minha, ou uma mania da perseguição, daquelas de que sofro amiúde com minudências e menoridades. Existe, está confirmado por mim mesma, através daquela cena hegeliana da tese, antítese e síntese: ora, disse-me esta última que sim, que existe uma casta de miudinhas que consideram que só elas podem (e devem!, acrescento eu aos berros) fazer ginástica, ou melhor, frequentar ginásios, pelo que, e em consequência, a espelunca daquele espaço (sempre claustrofóbico, fedorento e de paisagem inestética), lhes pertence no seu todo, até ao mais ínfimo cantinho, por consequência de uma qualquer escritura que assinaram naquele preciso momento em que decidiram mudar de estilo de vida, ou lá o que é que as move.
Senão, vejamos: 
1. Ele é toda uma atitude sempre que a pessoa se encontra, languidamente, a ocupar um tapete, uma máquina, um qualquer recanto lá do espaço do qual, como já vimos, são donas: colocam-se em posições tais, disparam olhares tamanhos, processam sussurrinhos entre si tão evidentes de que é aquele lugar específico que pretendem ocupar , que, não fora uma data de coisas, uma pessoa até se sentiria mal e trataria de lhes fazer a vontade se:
    a) Fosse insegura — oh, shit, I'm not;
    b) Não as topasse e não estivesse verdadeiramente a defecar-se para aquelas intenções tão óbvias;
    c) Não tivesse já tido a idade delas, coisa que não é recíproca e na qual, portanto, leva vantagem;
    d) Não pagasse a sua mensalidade;
    e) Considerasse a vaga hipótese de elas terem alguma razão — mas é que não.
2. Ele é toda uma série de momices ao nível da conquista do exíguo rectangulozinho que é o banco corrido do balneário, destinado a apoio, para sentar ou colocar o saco (ou, na loucura, ambos, sei lá). Vai de exemplo: a pessoa põe o saco. Logo surge uma incomodada que precisa daquele mesmo niquinho de madeira para ali colocar a sua escova do cabelo, ainda que todo o banco esteja livre;
3. Ele é a palhaçada de a pessoa abrir o seu cacifo e quase se meter inteira lá dentro para se vestir, e já ter a do lado a precisar que feche a porta do seu para que ela possa não só abrir o dela, como também ali montar escritório, procedendo a mil actividades, entre responder a duas mil mensagens, pôr/tirar vários totós do cabelo, passando pelo espalhar de não sei quantos cremes para não sei quantas zonas diferentes e específicas do corpo/cara/cabelo/mente, mas que cheiram todos, basicamente, a coco (não pus circunflexo nem acento agudo, por motivo de uma dúvida não gramatical que só eu sei);
4. Ele é nas aulas de grupo, aquela imperiosa necessidade de se colocarem na fila da frente assim que se apercebem que a pessoa já ali estava. Penso que são as mesmas que discutem o mesmo lugar nas aulas de matemática.
Tudo nelas, desde os rolling eyes mais ou menos disfarçados, à linguagem corporal, passando pela atitude, grita Minha senhora, ponha-se no seu lugar! (Vá para casa coser meias!) [Quem melhor do que uma mulher para ser machista com as outras mulheres?] E eu, olhem, ponho-me: no meu tapete, na minha máquina, no meu espaço, na minha fila da frente.