10/04/2025
Equação do coração
21/01/2023
Como uma filha
Não sei se tu és crente, filha,
diz-me, à laia de pergunta, aquela que é o legado mais precioso deixado pelo meu pai: uma tia, já velhinha, a quem abraço muito quando — dolorosa porque raramente — nos vemos. Vivemos à distância da primeira para a segunda capital do país, o que parece pouco, mas é muitíssimo, se considerarmos outras distâncias que não constam do mapa.
Sou, tia — digo, mais para a sossegar, mas não mentindo completamente —, pelo menos, sou uma crente interesseira, pois é d’Ele que me lembro sempre nas maiores aflições, e se eu tenho tido algumas, ou até demais. Mas não me metam com padres, que isso já não dá para mim.
No Verão passado estivemos juntas, pude rever as minhas primas e apertar nos braços aquela que perdeu o único filho para a doença que me queria levar agora a mim. Foram demasiados anos sem poder fazê-lo, esperava dela alguma mágoa, interrogações várias, mas fui encontrá-la apaziguada com a vida, não conformada, mas também não revoltada. Certamente à custa de muita terapia, mas, fundamentalmente, resultado de uma educação de amor e de um carácter limpo e bem estruturado. Sei agora, pelo meu próprio exemplo, por que é que há pessoas que se afastam diante do sofrimento dos outros: ele é insuportável porque reflecte a possibilidade do nosso. Mas também sei agora que nunca mais somos capazes de esquecer esse adeus, se não tivermos a força gigantesca e a delicadeza da minha prima Teresa, mais rara que um diamante entre rochas.
Sabes, filha, eu rezo todas as noites e peço a Deus que me dê uma morte suave. Peço também pelas minhas filhas e por ti, não peço por mais ninguém.
[Nem pelos netos, nem pelos bisnetos?]
É que te tenho a ti como uma filha.
E aquilo caiu-me dentro do peito: a irmã do meu pai, que tanto mo lembra, agora é minha mãe, e isso faz um sentido tão certo que não contesto e agradeço toscamente, “Ai que bom, agora tenho outra vez mãe”.
26/09/2021
26 de Setembro
Muitos, muitos anos no corpo miudinho de pele escura, apoiado na canadiana, cabelo branco como algodão, há-de ter sido por tudo isso que o encarregado da Junta lhe soprou ao ouvido que podia passar à frente na fila para votar. Outra Maria, fico sempre com as Marias, e há sempre muitas, de todas as idades, tamanhos e feitios. Não quis exercer a prioridade, e, no entanto, por não me ter visto — demasiado grande, de calças vermelhas, invisível a esse ponto —, colocou-se à minha frente, e eu permiti, em silêncio. Amarga, a mulher Maria que lhe calhou à frente, virou a cabeça penteada com rolos postos em casa, óculos de aros dourados, nariz pontiagudo e boca desaparecida na ruga da contrariedade, também ela próxima do mesmo motivo de prioridade, Tem que manter a distância de segurança, mas Maria boa — Mariazinha —, não entendeu ou não ouviu o que disse Maria má, pois as pessoas boas vivem noutro comprimento de onda e não escutam, por não captarem, o ruído, ora sicioso, ora num silvo, da maldade. Assim, deixou-se estar, encostada à muleta, a muleta apoiada à parede, enquanto Maria má, sacudindo os ombros e estalando saliva, se afastava o suficiente para não respirar o mesmo ar que a Mariazinha — tanto, mas tanto, que foi ficar quase colada a Maria neutra, que esperava vez à sua frente.
E eu, Maria inútil, para ali fiquei, calada, desconhecendo-me, toldada de raiva e mágoa, encostada à mesma parede, sem muleta, Mariazinha, podia ser a minha mãe, podia ser a minha mãe.
13/04/2020
primogénita
09/06/2019
estou de Junho
05/05/2019
as pessoas nunca morrem
22/02/2019
o amor também pode ser de barro
28/12/2018
um abraço de (minha) mãe
03/12/2018
Da minha janela vejo a minha mãe
Vem-me à memória que me contava dos dias em que, ao passear-me no carrinho, eu ria para tudo. Dava como exemplo as folhas das árvores a mexer ao vento, e os meus pequenos braços agitando-se de contentamento, ao ritmo dos galhos e das folhas, numa dança serena entre duas inocências semelhantes. Assim está a árvore vermelha agora, acenando-me os braços acolhedores, vestida com o vestido vermelho da minha mãe.


