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15/12/2022

Diz que é Natal outra vez

Era para ter escrito sobre Cristiano, o único, mas deu-se que me passou da ideia. Acho que era acerca do quão irritante é a posturazinha do português médio, que endeusa e derruba a mesma pessoa em menos de um fósforo, que bate porque tem marquise, bate porque aluga barrigas para ter filhos, bate porque o botox já lhe paralisou toda e qualquer manifestação de emoção, bate porque tem namorada kitada, bate porque deu uma entrevista controversa/ que fez dói-dói a muito menino. Mas esquece que a mesma pessoa chegou a Lisboa com nove anos, dormiu num quarto nas instalações do clube, levou-nos onde nunca sonhámos, fomos vice e depois campeões da Europa, arrastou dez coxos para cinco mundiais (não esquecer que “antes” tínhamos ido a três) e que tem uma acção social que muitos, com muito mais, não têm. Um dia enfiamo-lo no Panteão e cai-nos aquela lágrima de crocodilo com a acidez do costume.
~
A cidade inundou porque tem sete colinas. E tem muitos túneis e passagens inferiores. E muitos plátanos. Vi com estes que a pira há-de cremar o pessoal da Junta a varrer folhas secas e, poucas horas depois, o mesmo tapete nos mesmos lugares. Ninguém consegue vencer a velocidade com que aquelas árvores se desnudam. Ainda por cima, são altamente alergenas. Quando eu era nova, tipo há um ano, nem podia passar perto de um plátano, que me rebentava toda. Era demolirem aquela porcaria toda e metade da água não teria subido como subiu. Ao invés, andaram a abrir as grelhas das sarjetas todas, resultado: os esgotos estão cheios de folhas secas, as tampas estão de modo a fazer uma senhora tropeçar e partir uma clavícula ou então enfiar os dois pés juntos nos buracos e ficar para ali feita estátua, cheia de malhas nas meias. Estimo que a Câmara suporte as indemnizações.
~
Tanto andei, que consegui conquistar uma Bimby. Estou a adorar, atiro com tudo lá para dentro e ela faz coisas. Nunca cozinhei tanto em tão pouco tempo na minha vida. Ando exausta. Qualquer dia, atiro-me lá para dentro, a ver o que é que ela faz. Vai-se a ver e saio de lá mais mansa.
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A da farmácia acha que eu tenho cara de tansa. Primeiro, pediu-me colaboração em géneros para fazer cabazes para ajudar as vinte e cinco famílias carenciadas do meu bairro. Esclareci-a que tal conceito não existe aqui, perguntei quem são e do que é que vivem o resto do ano, mas não soube responder-me. Da lista de bens constavam gel de banho e escovas de dentes. Eu sou uma besta, levei atum, arroz, salsichas, esses supérfluos. Agora pediu-me para ajudar a carregar os cabazes para as tais famílias. Eu. Operada há meio ano a um cancro. Só não ri porque me apeteceu chorar. Só não chorei porque me apeteceu rir.
~
Fez um ano o meu diagnóstico. Fez um ano que comecei a quimioterapia. Vai fazer um ano que me despedi do meu cabelo. Comprei uma lembrança muito especial à minha Sandra. Nunca me esquecerei das lágrimas dela, em contraste com os meus olhos secos. 
~
Sou uma besta, sim. Entrei na fase da raiva e nunca mais saí de lá.

25/12/2018

Ainda não bebera uma gota nem duas de álcool e já confundira várias ideias

Então, partilhava eu aqui no meu salão, que a minha gata foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda se encontra em convalescença da última, quando travei o seguinte diálogo com um senhor com quem partilho uma afinidade:
LB - Foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda está a convalescer da segunda, que foi há pouco mais de duas semanas.
SCQPUA - Mas eles duram muitos anos, para aí uns vinte.
LB - Esta, não sei se durará tantos, com um carcinoma...
[Momento em que se gera alguma confusão, agora visto a esta distância.]
SCQPUA - Agora parece que é moda, toda a gente tem um.
LB - Pois, parece que está provado que uma grande percentagem da população terá um, mais tarde ou mais cedo.
(Esta minha mania de lançar números aleatórios quando não conheço a percentagem exacta, nem estou muito certa do que digo. Mas tenho em meu favor que SCQPUA também não escutou com atenção o que eu afirmei.)
SCQPUA - Lá na minha terra, toda a gente tem um.
[LB a considerar a possibilidade de existir um fenómeno endémico na terra do SCQPUA.]
LB - Ai sim?
SCQPUA - Sim, até há quem tenha dois ou três...
[LB assaz consternada com a existência de uma população inteira com semelhante pouca sorte.]
SCQPUA - ... cães.


24/12/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 18

Que tenho amigos/ conhecidos/ amigos de amigos/ amigos de conhecidos/ conhecidos de amigos/ conhecidos de conhecidos que proclamam aos sete ou oito ou nove ventos que "Detesto bolo-rei", a gente até já sabe o que é que vem a seguir, "Só gosto de bolo-rainha", e depois, sem sabermos como, há sempre alguém que nos oferece um bolo-rei, que "Este é especial, é o melhor que eu conheço, é da confeitaria beca-beca", e nós, "Ai, muito obrigada", já a imaginar:
1. A quem o passar a seguir - Tenho a certeza que há bolos-rei que circulam de casa em casa até ao ano novo, até alguém verificar que já estão demasiado secos para continuar o percurso;
2. O espaço que existe no congelador para um ringue daqueles;
3. O quão "bom" é comê-lo em torradas até aos Reis;
4. A capacidade que teremos, de impinjanço daquilo, em fatias, até ao ano novo;
5. A possibilidade de lhe arrancar as frutas todas e chamar-lhe "minha rainha" enquanto o comemos e engordamos mais um nico "para não se estragar".

VOTOS DE BOAS FESTAROLAS e festinhas boas para vós, minhas crianças loiras e cândidas! E que para o ano haja mais, com mais bolo-rei, cheio de frutas cristalizadas.


21/12/2018

A pessoa humana a fazer um esforço homérico para preservar o espírito

e vai dar com um farolim traseiro de seu boi partido, mais risco na chapa, mais amolgadela, sem que conste papel algum de assunção de culpas, com o contacto do respectivo. Sim, apesar de ter Rosinha, minha canoa, vai para dois anos, ainda mantenho meu boi, que perfez a linda idade de dezoito anos, mas que vai servindo às minhas crianças condutoras. 
Isto já foi ontem, mas ainda se me preserva o espanto, a revolta, o desalento, que eu sou um nico rancorosa nestas cenas da filha da putice, e levo algum tempo a digeri-las. 
Estimo que quem fez tamanha maldade a meu boi vá despender na farmácia tanto quanto eu no arranjo (ainda por cima, é proibido circular com um carro naquelas condições, só nos falta sermos multados pela m. que outros fizeram), mas que não seja em preservativos, cremes para a cútis ou chuchas: que seja mesmo em pomadas para a micose, a candidíase, a clamídia, a gonorreia, enfim e etecetera. 
(Eu não pensei isto, eu não disse isto, sequer o escrevi.)
Estimo que se fornique. Mas que não seja um momento prazeroso.
(É Natal, é Natal, tudo bate o pé...)
Fónix.

17/12/2018

Dicas para a aquisição da prenda perfeita para o "amigo secreto"

Em primeiro lugar, tenho a declarar, antes que me esqueça, que faço sempre um enorme esforço de memória — coisa para me provocar copiosa sudação — de cada vez que quero proferir esta expressão, amigo secreto. Não sei porquê, simplesmente baralha-me uma sinapse qualquer, vem-me à cabeça tudo menos o modo como é comummente designado o tal amigo. Ora lhe chamo amigo anónimo, ora lhe chamo amigo escondido, ora lhe chamo amigo desconhecido, até já me ocorreu soldado desconhecido. É toda uma amálgama de nomenclaturas que até dói na alma.
Bom, mas não era a isto que eu vinha. Acabei de adquirir uma lembrança amiga lá para o secreto, e então tive estes flashes de boa conselheira, para ver se, de uma vez por todas, todos acertamos na mouche, que é como quem diz, no coração do amigo a quem vai calhar na rifa a nossa prendinha.
Então:
1. Em primeiro lugar, deve ser uma prendinha, pequenina, tanto no preço como no tamanho: para caber no bolso e, caso haja uma (in)decisão de última hora, de não haver troca, podermos tê-la escondida, desconhecida, secreta; E deve ser pouco onerosa, precisamente porque nos vai calhar a nós algo que foi oferta da revista que vimos à venda o mês passado, ou um dos tais Pyrexes dos quais eu já tenho a colecção quase toda, valha-me que tenho uma família numerosa;
2. Deve ser, em consequência de 1., uma coisa qualquer que também nos sirva a nós, para o caso de voltarmos para casa com ela;
3. Não deve ser tão pouco original como uma caixa de chocolates, uma vela, um saco de potpourris. Já ninguém aguenta. Mais vale um frasco de pickles, com uma etiqueta a dizer "gourmet", mesmo que escrita à mão, que sempre dá um ar de home and self and hand made;
4. Deve ser qualquer coisa tão insignificante, que quem recebe se esqueça, até à noite de 24, do que recebeu, e constitua, assim e por isso, uma verdadeira surpresa aquando da abertura dos pacotes [mau]. E não só não se lembrará do quê, mas também de quem ofereceu. Aquela típica situação de "De quem é isto? Tem aqui o meu nome, mas não sei quem deu esta...";
5. Deve, sobretudo, e em last, but not least, ser algo que quem recebe possa dar a qualquer pessoa daquelas que surgem à última da hora e sem aviso, numa de "passa a outro e não ao mesmo".

05/12/2018

Hã? Explica lá essa matemática de m., que eu julgo que não entendi

Loja da Disney. Vou pagar algo como 12,50 euros, ainda lhes acrescento 2 por causa de uma embalagem especial de corrida, mas a verdade é que já entrei em conflito mental comigo mesma, porque são 11 da madrugada e já me sujeitei à tortura de ter entrado em três lojas, onde esperei horrores (Nespresso: 12 minutos, apesar de só ter uma pessoa à frente, mas é que eu sofro do síndrome de não estar grávida, não ir a empurrar um carrinho, não ir a locomover-me com recurso a material ortopédico, não ser idosa, e também do transtorno de apanhar sempre à minha frente aquela pessoa que tirou o dia para ficar na loja dos cafés a discutir o melhor método para fazer leite cremoso através do espumador; Calzedonia: A saga dos collants e eu, ai, por favor, tragam-me o Verão de volta!; Parfois: o tempo desesperante que o terminal de multibanco levou a perceber que era para funcionar tipo já), e queria era despachar-me dali. Então vai ela e diz-me assim para mim: 
- A conta da senhora soma quase 15 euros, que é a quantia necessária para usufruir da oferta de um destes peluches.
E mostra-me o Mickey e aquela namorada dele, a Minnie. Ao lado, uma placa a dizer 10,49 euros. [Mas alguém ainda cai nesta cena do preço psicológico?] Horríveis. De peluche, já disse?
Vamos supor que eu não estava interessada nos bonecos, mas, ainda assim, queria perceber se me davam um, por mais 50 cêntimos, nem que fosse para dar aos pobrezinhos, que eu sou este poço. 
- Mas então, se a minha conta atingir os 15 euros, levo um desses peluches sem pagar nada?
A parva riu-se.
- Não, não...
Parva.
- A senhora paga a sua conta e mais os 10,49 do preço dos peluches.
Olha, parece que o último a rir é o que ri melhor, lá diz o povaréu. Então, gargalhei, acho que de nervos. Conclusão: eu tinha que gastar x para atingir o patamar dos privilegiados que tinham acesso a poder gastar y, com vista a poder levar para casa aquele exclusivo dos dois monos ratos.
- Deve estar a gozar, mas que raio de oferta é essa? Ainda por cima, esses dois peluches são...
E completei com um gesto das duas mãos, dizendo adeus, que é como quem diz "vá lá para a genitália, se faz favor".

26/12/2017

Ai, que magia tens, Natal

Acabo um trabalho, com prazo espartano o-mais-depressa-que-conseguir, isto pela manhã do dia 23, antevéspera de Natal — sábado. 
Envio a parte final — pois a maior parte já está do lado de lá —, e recebo imediatamente um aviso automático de Não me encontro no escritório, é favor mandar para a minha colega X, que eu cá só volto para o ano, lá para o dia 3.
[Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.]
Envio então para a colega X.
Hoje, dia 26, que me parecia ser dia de labuta, muito mais do que o dia 23, mando para a colega X a conta. Só naquela, a ver se me pagam.
Recebo então um aviso de não recebimento, erro com um número que não fixei, mas que sei significar caixa cheia.
[Mais uma, directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.]
Talvez para o ano.

24/12/2017

Para o dia de hoje, uma música totalmente de Natal


Oh, não é bem, está bem. 
Mas o que interessa é a intenção. 
O Natal é quando um Homem quiser. 
Boas festas, môres. Excelentes Natais, deseja LB. 
Passem-no dancin' across the floor, through the night.
Yeah.
Ié.
(Ficai com este meu presentinho, que eu vou andando, pois tenho uma baba para fazer, e aquilo dá uma trabalheira, só ter que espremer o babete lá do primo do dromedário já me cansa.)

22/12/2017

Não sei quem está pior # 2

Estava aqui a discutir comigo mesma, a própria, esta premente questão, e, não me encontrando capaz de alcançar uma conclusão, resolvi vir para aqui explaná-la, a ver se ao menos através deste meio se me faz a luz.
Ponham-se no meu lugar.
Liguei a uma das minhas tias para desejar Boas Festas [ainda hei-de fazer um post acerca desta coisa de pôr maiúsculas em Boas Festas e em Feliz Natal], e ela atendeu-me. Comecei o telefonema dizendo que era para ter ligado no dia anterior (não coincidentemente, uma data que, para ela, é extremamente infeliz), mas que só tinha podido ligar hoje, e rebeubéu. Ela que tudo bem, que ele está aqui ao lado, estamos na varanda a apanhar solinho, ele adora, e eu a gabar-me que também nós, aqui em Lisboa, estamos com uns dias belíssimos, com algum frio, mas céu azul. Literal, como quase sempre, pois que há momentos na vida em que não é suposto usar metáforas. Perguntou-me então se queria falar com ele, eu que sim, e passa-lhe o telefone tratando-o por não-tu, Olhe, está aqui a sua filha, quer falar-lhe? Vai que a pessoa humana estranhou o tratamento sem tu, mas mais ainda o ter mudado de pai, pelo que corrigiu, Filha não, sobrinha, tia. Falei com o meu tio, tive alguma vontade de lhe perguntar se a tia tinha batido com a cabeça no varandim, ou se eram efeitos do sol portuense de Dezembro, que, pelos vistos, estava um perigo para as sinapses, mas lá me contive, porque acho que essa verborreia há-de vir na próxima década e ainda é cedo. Despedimo-nos, o tio e eu, um Bom Ano [lá está], haja saúde, beijinhos para todos, e volta a tia. Que ele ficou muito contente por eu ter ligado, eu que também gostei muito de o ouvir, e adeus, Boas Festas. 
Disse para com o meu fecho-éclair que a tia devia estar malíssimo da cabeça, e desliguei, um nico deprimida.
Passados três dias, liga-me a tia, alegre e lúcida, para me agradecer eu ter ligado.
...
- Pois, os tios estavam na varanda a apanhar sol...
- Os tios? Não, filha, era o tio e a empregada...
A sério. Não me telefonem. 

18/12/2017

Um pensamento natalício por dia, drivados da época # 2

Hoje venho com vontade de passar por mentirosa.
Mentira, estou só a preparar terreno, por saber de antemão que será este o meu rótulo quando acabar de contar um eloquente momento da minha ainda tão breve existência.
Ora bem. Nas minhas mãos faleceu a varinha mágica cá do lar. Nem de propósito, já vamos ver porquê. 
Como era máquina para ter menos de um aninho de idade, entendi mandá-la de volta à loja, acompanhada da prova da respectiva compra. Porém, não sabia eu onde se encontrava essa. Foi quando me lembrei da caixa dos talões de multibanco, que religiosa e piamente guardo, sendo relíquia para pesar, assim por alto e a olhómetro, cerca de quatrocentos e oitenta e seis gramas, mais grama, menos grama. São, se não milhares, pelo menos muitas centenas de papelotes daqueles. Perfeita e profundamente ao acaso, meto a mão na caixa (o palheiro) e zás (a agulha). Isso mesmo que estou a dar a entender. Só o (Senhor Doutor) Euromilhões é que não me sai na rifa. 
Foi o milagre de Natal.
Portanto, e em suma, e quanto a mim, está despachado por este ano o tal milagre. Queimei as possibilidades todas, tanto que até nem vou jogar mais, por não ter hipótese de me sair. (Mentira, esta sim.)

[Eu era menina para meter aquele mágico que fez desaparecer um Boeing, o Copperfield, num chinelo. I mean, literally. Metia o gajo numa Havaiana. Debaixo daquela coisa do meio, onde se (quem o tem) raspa o fungo.]


17/12/2017

Um pensamento natalício por dia, drivados da época

Isto já foi anteontem, mas ainda está válido. Ontem tive outro, mas tem que ficar para post posterior, que é como quem diz outras núpcias (ou segundas núpcias?). Se tiver mais algum hoje, venho aqui fazer o reZisto, como diria Amélia, aquela pessoa que nunca resistiu a dizer reZisto, no lugar que competia por direito a registo
Fui-me ao shopping evocativa de uma autêntica Mãe Natal: levava vestida a minha gabardina vermelha. Imbuíra em mim o espírito, logo pelas dez da madrugada.
No regresso, resolvi carregar para casa não só as compras daquele dia, como também as dos anteriores. Começava a ter pesadelos que me assaltavam a mala de Rosinha, e só a chatice de ter que repetir a caça à tralha, ou o deslavamento de meter um postalinho em cada sapatinho, com uns dizeres eloquentes, "Desculpa este ano, mas fui roubada e a tua prenda (caríssima!) foi na leva".
Não contei os sacos, até porque fui metendo uns dentro de outros, mas andavam pela boa dezena. E não era só o volume que me carregava a cruz nas cruzes, era mesmo o peso somado de tanta ceninha.
Então, pensei:
Não passa de hoje que vou dizer às crianças que o Pai Natal não existe. 
...
Estou farta disto, ele com a fama e eu com o desproveito. 
...
Quais crianças?
Bom, enfim, aos miúdos.
...
Aos meus pequenos adultos. 
...
Mas eles já não acreditam. 
...
Não interessa, é hoje.

15/12/2017

Encerrada que está a época da caça

à prenda de Natal ideal, chego a conclusões dispersas:
1. Este ano, num largo gesto de extrema abnegação, não comprei nada para meter no meu próprio sapato. [Nem mesmo um par de sapatos que vi na Pimkie* e pelos quais fiquei a chorar lágrimas de sangre, porém não me serviam. Eram dois números e meio acima do meu, e digo-vos que raramente senti tão premente desejo de que me crescessem os pés até ao 39, mas mamã, por que não me haveis feito patuda, contudo?] Aquilo que comprei, estreei logo. A vida é demasiado curta e sabe-se lá.
2. Consegui, das vinte e três prendas que comprei, não alcançar a perfeição em nenhuma delas; não espero por oooohs, nem por aaaaahs. Se os houver, o problema sou eu, não são eles. 
3. Dei por encerrada a caça há coisa, mais coisa, menos coisa, de meia-hora, e ainda estou em modo de esgotamento nervoso e também físico; os meus braços não me obedecem, apesar de me encontrar aqui a teclar, embora isto seja o meu piloto automático por mim, eu sou apenas um co-piloto exaurido e demente, em mayday.
4. As lojas dos chineses são caríssimas, fujam de lá, nem que seja a sete pés pequenininhos.
5. O povo ensandeceu antes de mim, o que não me traz alegria, porém, enfim, algum alento. Ontem assisti ao seguinte diálogo entre uma senhora-com-imperiosa-e-irreprimível-vontade-de-se-exaltar e um funcionário-daquele-armazém-de-tudo-criado-pelo-Demo: "Olhe, onde é que eu posso fazer uma reclamação?"; "Muito bom dia, minha senhora. Do que é que se trata?"; "É que isto está marcado a um preço e ela  [desgraçada-funcionária-de-uma-de-cinquenta-caixas-que-aquilo-tem] cobrou-me outro”. [Aposto o meu braço direito em como o preço cobrado foi superior, caso contrário a revolta + reclamação desvanecer-se-iam num pum]; "Quando é que a senhora fez a compra?"; "Agora mesmo". [Don't wish you a merry Christmas, you musty.]

* NMPPI


12/12/2017

Eu também tenho uma árvore de Natal, ou pensam?

Era para ter sido montada a 8, que é uma espécie de tradição não vinculativa na minha casa, dia de dois dos quatro baptizados, dia de Nossa Senhora da Conceição (concepção, a quem justiça fiz), antigo Dia da Mãe, mas, essencialmente, porque marca o início dos trinta dias em que se aguenta a árvore em casa. Mais do que um mês do repolho — que, apesar de artificial, larga coisas verdes, enche de pó tudo à sua volta (há quem não aspire; não há quem aspire), e, a partir do dia, vá, 4 de Janeiro, já é lignum non grata —, parece-me demais.
Foi montada a 10, no limite do agora-já-não-aguento-é-não-ter-árvore-de-Natal. Algo que, não há muitos anos, era uma quase cerimónia, com direito a músicas natalícias de fundo (que me irritam, mas aguento e não choro), quatro crianças de barretes de Pai Natal (meus queridos duendes) a colaborar na decoração — brigando porque "tu já puseste mais bolas do que eu", "eu é que quero pôr a estrela", "estás a pôr os enfeites todos no mesmo sítio, este lado está careca", "eu não chego lá acima!" —, passou a ser uma tarefa que resolvemos os dois, em talvez quinze minutos, por uma estar fora, outra estar dentro mas sem vontade, outra ter ido ali "já volto, é o tempo de lavar os dentes" e o outro ter procrastinado com um "já vou". (Meus queridos duendes, onde vos haveis escondido, seus patifórios?) (Estão todos convocados para a desmontagem.)
Ficou azul, a minha árvore. Um pouco escura, porque é verde (não percebo porquê). Mas cheia de luzes, que este ano todas têm forma de amor.


08/12/2017

Ela fala tanto # 20

À procura de camisolas quentes — conceito que, depois de revirado o gavetão da cómoda, concluo que desconheço —, dado o degelo dos últimos dias, apercebo-me que tenho cerca de (não contados, este é um número aproximado, pelo que tanto podem ser mais como menos) dez casacos de malha pretos, ora de decote em V, ora de decote redondo, ora com um folho na ponta da gola, ora com uma transparência de lado, ora com um laço a fechar o cimo da abotoadura. Dez, para aí. Quanto a camisolas quentes — lã, gola alta, enfim, que não deixem passar o frio pelos recantos —, umas três. 
Dá-se que também sou um nico faladeira, mais porque penso alto do que porque precise de comunicar ao Mundo estas coisas, e aconteceu ter comentado com ela — que ciranda constantemente ao meu redor — a seguinte realidade: "Não sei para que preciso de dez casacos de malha pretos. Se o Mundo acabar amanhã a casacos pretos, tenho a minha sobrevivência garantida".
No dia seguinte, mostra-me ela uns botins vermelhos que as irmãs lhe ofereceram pelos anos. "Muito giras", limitei-me e contive-me. 
- Por falar nisso [só eu sei o quanto temo as frases dela começadas por "por falar nisso"], outro dia [fora no dia anterior] estava-me a dizer que tem dez casacos de malha pretos, já viu como está este meu casaco de malha vermelho? Tão velho que estou capaz de o deitar para o lixo. Estou mesmo a precisar de um novo. 
...
...
...
Isto assassina-me o espírito natalício. 
Uma m. de um casaco de malha, de qualquer cor, custa uma m. de seis euros. (Na Primark*, pelo menos.)
É não me pedirem, e têm de mim um rim, um olho, um pulmão, a minha medula, o meu sangue para lá do impossível. 
É pedirem-me desta maneira deslavada, e têm de mim um coice, porque isto é para lá do indecente. 
Vou comprar-lhe um casaco de malha verde, que é para aprender a não ser pedinchas. 

* NMPPI

17/11/2017

dignidade

Fui encontrá-lo muito velhinho, tolhido pela doença que o definha há mais de vinte anos, cruel e sarcástica, de roer músculos e ossos, de deixar a cabeça intacta. Contra todas as expectativas, continua bonito, a mesma proporção perfeita em todos os quadrantes do rosto, o mesmo sorriso impossível, que a doença proíbe, o mesmo sentido de humor dos Natais da minha infância no Porto, a mesmíssima alegria por me ver chegar. Acho que nunca o tinha abraçado tão longamente, nunca lhe tinha dado tantos beijos, mesmo somados todos aqueles que lhe dei ao longo da minha vida inteira. 
Meu tio, meu querido tio. 
A afinidade é aquela espécie de parentesco que acontece por adopção, e essa pode acontecer por via do coração. Marido da irmã do meu pai, meu tio, meu querido tio do coração. 
Não me viu crescer, sequer envelhecer, perguntou se eu tenho vinte anos, numa quase gargalhada sem vestígio de confusão — elogioso, amoroso, íntimo. 
Depois, aquela sopa que teimava entornar para fora da tigela, derramando-se pelo prato afora, aquela colher que não chegava cheia à boca, e a minha hesitação — num daqueles momentos em que qualquer decisão que tomemos será forçosamente a decisão errada —, logo seguida da pergunta sussurrada,
Tio, quer que eu faça isso?
Quis evitar a todo o custo o verbo "ajudar", que tanto me consome. 
Num silêncio sem olhar, sem qualquer movimento de cabeça, ouvi dele, no mesmo tom quase mudo,
Não, filha. 

24/12/2016

Movimento "Vamos ajudar Palmier a encontrar o espírito"

Conforme sabeis, eu própria ando em busca do espírito. Mas este meu espírito — passe o pleonasmo — de abnegação, leva-me a fazer uma pausa na minha procura e a dar uma mão (olha aí a cacofonia...), um pezinho (de dança), uma ajudinha para encontrar aquele que era suposto já nos ter encarnado a todos, fosse lá de encarnado, de dourado, ou — por que não? — de azul.  

Foi hoje de manhã. Caminhando motorizada rumo aos braços da minha mãe, pela estrada fora, bem sozinha, foi via rádio que me chegou o espírito, adentrando-se por meu boi adentro, invadindo todo o habitáculo, e também os meus tímpanos. E eu, olhem, deixei. Trinei. Repuxei das pontas das minhas cordas, e deu-se a simbiálise Espírito-Nataleiro-Linda-Blue.
Espero que gostem. Fomos acompanhados em contrabaixo pelo motor, que também esteve muito bem.


Já somos estes todos: um, dois, três, quatro, cinco. E seis, claro.

Vem, e traz um amigo também.

Eu queria imbuir-me do espírito

Mas não está fácil. De entre mil afazeres que quase não me deixaram tempo para respirar, este ano logrei empurrar as prendas — não literalmente — até quase à antevéspera do exacto momento em que é suposto entregá-las. Em plena gripe e pico de trabalho, enfiei-me no shopping num daqueles dias e horas proibitivos, em que todos os factores not se conjugavam: Dezembro, depois de almoço, dia de jogo daquele que só me dá alegrias. Consegui sair viva, e, embora mais rica em termos antropológicos, em termos financeiros um tudo nada menos. 
Está aberta — e espero que em breve fechada — a época do ano em que me assalta um fervoroso desejo de beijar os pés dos lojistas que me embrulhem as m. que eu compro. Não sei se ando a comprar o papel errado, a fita-cola errada, ou se o erro está em mim, mas fazer embrulhos está a tornar-se um programa épico ao nível da motricidade fina, que só não tento remediar com treinos intensivos e ou terapia porque, conforme já devo ter dito lá para trás, isto é só uma fase, e ai de quem me venha com a léria de que o Natal é quando o Homem quiser, que eu mordo. Se assim fosse, ainda era menina para me meter numa acção de formação e dar cabo do handicap, quem sabe acrescentando uma alínea ao meu curriculum vitae com mais essa valência. Não sendo, deixo-me estar como estou, hei-de comer doze passas daqui a dias a pedir que me saia o Euromilhões, e nessa altura arranjo quem me embrulhe (não literalmente, também). 
O meu corta-fitas não corta a fita-cola. Tem uma lâmina poderosíssima, capaz de decepar dois dedos, ou degolar um cavalo, mas lá a fita é que não. O problema pode ser ela, e não ele, uma vez que aquela fita-cola em particular estica como um elástico, mas cortá-la em pequenos pedaços é que já não é possível. E depois, não cola, fazendo claras injustiças ao próprio nome. Por outro lado, o papel que tenho em casa, não sei se é encerado (?), oleado, ou simplesmente de má qualidade, pois desliza e faz desvios drásticos quando o manuseio, pelo que tudo redunda num enorme desastre de embrulhos sem nexo. Para finalizar (embrulhos nunca finalizados), não tenho fita de laços, o que leva a que todos os meus embrulhos pareçam encomendas de correio com uma decoração pseudo-natalícia. Também não me lembrei de adquirir etiquetas, para distinguir os meus pacotes (chiu), o que terá como consequência a cegada do costume, que sou eu, em plena consoada, a puxar pela que me atraiçoa todos os dias, incapaz de me lembrar do que é para quem.
Também me irrita um bocado não ser capaz de presentear todos os filhos com prendas de valor igual. Longe vão os tempos das três Bratz + avião da Playmobil, e ficávamos todos felizes a cantar jinguélbel. Ninguém reclama, na verdade, mas eu é que fico mal comigo mesma. 
Em compensação, e talvez por isso, para as amigas vai a eito: compro meia-dúzia (ou menos, que acho que tenho menos do que seis amigas, mas ficava aqui melhor esta expressão — numérica) de qualquer coisa, todas iguais, e já não tenho complexos de desequilíbrio (mental). O mesmo faço com os sobrinhos. Estou mesmo a caminhar a passos largos na conquista oficial da categoria de Tia das Cuecas: desde luvas a cachecóis, passando por cintos, já corri todas as possibilidades, pelo que me falta apenas o patamar Cuecas, que penso atingir para o ano que vem. 

Não sei se leram isto tudo. Eu confesso que não. 
Na verdade, vinha aqui para desejar-vos a todos (deixem-me chamar-vos leitores só por uma vez, isso faz-me içar numa outra escala só por um bocadinho, vá lá...), 

UM NATAL MUITO AZUL