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29/10/2022

“O meu marido é médico há mais de quarenta anos, é um rapaz muito competente e esteve meses sem me dar um beijo na boca.”

A mulher não gosta de mim e eu também não gosto dela. Há uns anos, quis reclamar já não sei do quê no ginásio, eu era do grupo de apoio à causa dela, mas quando saiu desembestada da aula para ir à portaria aos berros, querendo que assinássemos um abaixo-assinado — não redigido —, pus-me a fancos e ala porque já sei no que é que essas padeiras de Aljubarrota contribuem para as suas próprias causas e ainda ia acabar a ter que escrever o dito documento, assiná-lo e, já agora, sem acreditar na eficácia dele. Então, ela teve a pouca sorte de comentar: “Estas que dizem que sim a tudo são sempre as primeiras a saltar fora” e eu fiquei deveras magoada, especialmente porque não sou “esta”. Só não lhe pulei para cima à unhada por respeito aos cabelos brancos dela e eventualmente porque tinha um tacho ao lume e mais o que fazer do que ficar ali a bater bocas — salvo seja — com a idosa.

Ao fim de largos meses, senão anos, reapareceu no ginásio. Dirigiu-se à porta da sala, abanou os puxadores e, uma vez que estava trancada, não conseguiu abri-la. No entanto, persistiu na tentativa, uma vez que uma porta claramente fechada à chave cuja transparência dos vidros denuncia sala vazia não é indicador suficiente de que não é possível entrar naquele momento. Gozei o prato até que ela se aproximou d’ “esta” e, só para a desestabilizar, avisei: “Já se pode andar sem máscara de há uns meses para cá”, não fosse dar-se o caso de a figura ter estado congelada desde meados de 2020. “Eu uso sempre. Enquanto usei, ninguém lá em casa teve Covid. Depois tirei e todos tivemos. O meu marido esteve meses sem me dar um beijo na boca. Um dia fomos comemorar os quarenta anos do nosso filho mais velho e caímos todos doentes. Mas o meu marido é médico e pôs toda a família a antibiótico [para um vírus, wtf?], é um rapaz muito competente, sabe muito bem o que faz. É médico no Alentejo há mais de quarenta anos”.

A Humanidade está perdida, escrevam o que vos escrevo. 


04/09/2022

Os meus becos

Então, acabo a radioterapia na próxima quinta-feira. Comentei o facto com uma desvairada do ginásio, que só conheço de lá, e que me esbugalhou os olhos e afirmou, peremptória: “Na sexta-feira trazes uma garrafa de champanhe”. Perante a minha hesitação, “Não gostas de champanhe?”, eu “Heh, neste momento não gosto de quase nada.”, “Então, tinto. Gostas de tinto?” [Não sei que parte de “nada” é que ela não percebeu.] “Dá-me sono. Imediatamente. Tipo coma. Uma vez adormeci a meio de uma conversa com a minha cunhada.” “E branco, gostas?”, “Sim, mas tem que estar fresco. Também gosto de Rosé.” Ela, a torcer o nariz e a processar a ideia, cinco enormes segundos: “Gostas de Rosé?”. “Gosto. Mas tem que estar fresco.” E eu a dar-lhe, no fundo a arranjar uma desculpa para me livrar da carraça. O ginásio não vai guardar uma garrafa no frigorífico dos funcionários porque há uma borracholas que quer comemorar o fim dos tratamentos de uma desgraçadinha mal agradecida. Ela outra vez com uma paragem da boneca, os olhos escancarados e o sorriso congelado no seu expoente máximo. Procurei demovê-la: “Não acho muito boa ideia, repara: antes da aula, vamos para lá enjoar”. [Poupei-a à vez em que, calor assassino, tempo de sobra e muita gula por um prato de tremoços, emborquei uma cerveja antes da aula e ainda hoje desconheço como é que não expeli tudo cá para fora — tremoços incluídos — a meio de uma pirueta.] “Depois da aula, pior ainda: a noite já caiu, não vamos ficar as duas no meio da rua de copo na mão. E preciso de conduzir em segurança para casa.” Ela ainda argumentou que “o professor podia juntar-se a nós”, mas isto porque ela tem um crush por ele, que eu, lamento, não tenho.

Antes da aula, tinha-me perguntado como é que eu estou psicologicamente. “Acredita que, desde o início, ainda não deitei uma única lágrima”. [Não contam duas chatices que tive entretanto e aproveitei para purgar umas quantas a mais que tinha cá engasgadas.] “Mas tens que deitar. E vais deitar. E vai ser comigo que vais deitá-las.”

Eu não quero beber com ela. Eu não quero chorar com ela.


03/07/2022

Dançar é como andar de bicicleta (sem rodas e sem rodinhas)

A última vez que tinha dançado tanto tempo seguido tinha sido há uma semana, aquando do Rock in Rio, mas, antes desse memorável evento, estive quieta de bailaricos talvez meio ano. Claro que tinha que vir para aqui gabar-me que fui ao RIR (hahaha). Fui no dia dos fósseis, em que tocavam Ub4, A-ha e Duran Duran, eu à espera de só encontrar thios de calças encarnadas e camisa branca, sapato de vela sem meia (ugh), acompanhados de thias cheias de extensões, botox e casaco de couro amarrado à cintura, afinal foi pacífico: média etária, meio século, mas muita canalha miúda e até duas senhoras idosíssimas (uma delas de cadeirinha eléctrica, a outra de bengala), havia de tudo um pouco, só não bebés (especialmente daqueles que guincham). Perdi praticamente todo o concerto dos Ub4, mas tinha que jantar sem ter que me meter numa bicha do demónio. (Meu pequeno grupo, hambúrgueres ao preço do ouro, eu um Pai Thai vegan ao preço da platina.) E sim, também estive mais de uma hora numa fileirinha pirilau para receber à borla uma cadeira insuflável, como tanto critica esse povo influencer (?), que não só tem menos quinze anos do que eu, como também vai parar a tendas vip e sentar-se em maples feitos de rabo de boi. Adiante: assim que me apanhei com o pufe, dei em dançar toda a noite, pelo que não usufruí praticamente nada dele, mais valia tê-lo oferecido a um pobrezinho que fosse ali a passar, sei lá.
Mas não era a isto que eu vinha: era também para me gabar, é certo, mas sobretudo para comunicar ao mundo que hoje voltei às minhas danças no ginásio. Levei três ou quatro abraços da treinadora, agradeci-lhe a frase que me inspirou durante estes sete meses e que saiu da boca dela, fiz a aula a sentir-me a maior, a não errar praticamente nada nas coreografias todas (embora suspeite que só fiz m., mas soube-me tão bem!), sempre com Natércia a assar-me a mioleira, ao fim de quinze minutos pensei: “Olha, faleço feliz!”, mas aguentei até ao último minuto, soubesse eu o que sei hoje e ter-me-ia voluntariado para os Comandos, pois desconfio que numa tropa especial é que eu me encaixava bem. 

19/10/2021

Gostaria muito de ser diferente, e não esta troca-o-passo que sou

Um bocadinho também troca-tintas, mas isso agora não é para aqui chamado.
Tudo começou porque tinha o cartão de entrada no ginásio no porta-luvas de Rosinha e não me lembrei de o meter no saco quando saí do carro. Estava a uns bons cento e cinquenta metros do recinto, saltos altos, eu toda proa a abanar a popa até lá. Só à porta me apercebi da falta do cartão, pedi à entrada um de empréstimo, lá o jovem foi imediato na prestação, mas também naquilo que entendi como uma praticamente óbvia ameaça, elucidando-me de que iria ficar “penalizada” por não sei quanto tempo, impossibilitada de marcar aulas, atirada para a valeta dos utentes de segunda categoria, só faltou dizer-me que teria que ser praxada na sala de treino, encher flexões com um gorilão suado e tatuado às cavalitas até suspirar os pulmões para um tapete. Eu ai que não gosto de ameaças, sei inclusive que configuram um crime p.p. no Código dos Cães (assim conhecido porque todas as normas começam pela palavra “quem”), olho para o relógio e restam-me uns impossíveis (sobretudo com aquelas tamancas calçadas) doze minutos para chegar ao carro e voltar. Acometida por uma luminária, calço meus ténis (ou sapatilhas, chiu), arranco o vestido mesmo à super-herói, dou graças ao Senhor por já ir equipada por baixo, isto tudo a um tempo, fecho o cacifo com o cartão do ginásio e dou corda aos sapatos, que é como quem diz, saí e voltei como se tivesse tomado aquela bebida do boi encarnado: velocíssima. No regresso, de tal qualidade fora o sprint, ainda me sobravam quatro minutos até a aula começar, que aloquei mentalmente para ir fazer um bom chichi, encher a garrafa de água e ir aquecer os tornozelos e as nalgas para a sala. 
Entreguei o cartão ao balcão, e foi aqui que me forniquei. Não sei o que é que me passou pelo presunto, mas achei, com certeza, que o cacifo ia adivinhar que o meu cartão era o correcto para o abrir, apesar de o ter fechado com um outro. E é claro que não abriu. 
Lá corri de volta à portaria, pedi que me devolvessem o cartão emprestado, mas a azeda que estava de plantão naquele momento mostrou-me onde o tinha posto: numa caixa cheia de cartões, todos iguaizinhos uns aos outros, como filhos da mesma mãe. Entrementes, o meu tempo, forças, paciência e nervos a esvairem-se-me poros afora.
E foi assim que fiz uma aula de dança apertadinha para fazer chichi, porém, e em compensação, sem uma gota de água para beber. 

(Como é que abri o cacifo? Fácil: com as pestanas. No fim da aula, fui ao balcão expor o assunto que ali me levava, e o rapaz que me atendeu deu-me uma chave-mestra. Coisa que a azeda não podia ter feito, está bem de ver. Porquê? Vamos lá todos sentar aqui no chão um bocadinho a meditar nas razões dela.)

04/10/2021

Novas medidas e medições

Matemática, não me falhes agora, também tu!
Fazíamos a nossa dança num lugar marcado no chão, que media três por três, nove quadrados. Eram dezoito lugares na sala.
Com a terceira fase do desconfinamento, reduziram-nos o espaço individual, disse a instrutora, para dois por dois. Eu, por acaso, estou farta de olhar para aquele quadradinho, e sinto que não é maior do que a minha fita métrica da costura: um metro e meio.
De qualquer modo, dois por dois é menos de metade de três por três, e desta aqui é que ninguém me arreda.
De qualquer modo ainda, se antes eram dezoito lugares e agora são trinta e seis, como é que passaram de três para dois metros?
Ainda de qualquer modo, se, efectivamente, os lugares passaram para um metro e meio por um metro e meio, temos agora, nada menos do que uma quarta parte do espaço que tínhamos antes. Qualquer dia, só conseguimos dançar slow, muito agarradinh@s. Nem uma boa lambada.
Talvez deva antes voltar para os bancos da escolinha, ora com licença.


12/08/2019

Algumas informações acerca da pessoa humana, que, embora possam ser inúteis, terão certamente algum interesse ao nível de stalking, esse desporto paraolímpico

Pois bem, ando arredada. Já toda a blogobola deu por ela, não negueis.
Ocupo uma boa parte do meu tempo numa actividade altamente gratificante, não tanto em termos financeiros - é que nasci para rica, mas parece que não vai acontecer -, mas de ficar feliz com o resultado. Que me sai das mãos, que me dá largas à imaginação, que me diferencia e destaca muito mais do que isto aqui. Ainda por cima, não tenho que me exibir, me fazer maior, me revelar culta e bela: sou eu e o meu trabalho. Quanto melhor o fizer, mais terei para fazer. Uma suave bola de neve, toda ela algodão doce. Meti-me no Instagram, numa de divulgação, e tem sido uma revelação antropológica: o Mundo está perdido. Já recebi todo o tipo de propostas, mas é que todo. As mais indecentes têm sido as das parcerias. Nova definição de "parceria", urgente, senhores da Porto Editora: situação em que alguém que trabalha é colocado por alguém que não trabalha, em que o primeiro fornece gratuitamente ao segundo os seus produtos/serviços, a troco de nada, ou de promessas de divulgação [seja lá o que isso for].
Entretanto, comprei uma máquina de costura nova, porque a minha Rabugenta deu o peido mestre. Agora sou a feliz possuidora de Belinda, a Escrava do Silêncio. Continuo, portanto, a atribuir nomes próprios às minhas coisas. Eu sei que se chama personificação, também andei à escola e estudei Português (atentamente, acrescente-se). Deve ter uma explicação qualquer, que não encontro nem quero saber qual é.
Tenho ido a concertos (Mark Knopfler - afinal a acústica do Altice Arena não é má, os técnicos de som de Eltoninho é que não prestam - e Barclay James Harvest) e também ao cinema (destaques para o novo "O Rei Leão" e "Adeus, Professor", apesar de este último ter sido um tudo-nada desilusão, porque eu ia para me emocionar e não aconteceu. Sou uma pedra. Tenho uma pedra no lugar do coração, melhor dizendo).
Agora corro e já não detesto correr. Faço cinco quilómetros uma vez por semana, sempre no mesmo dia, sempre à mesma hora, sempre no mesmo lugar (Estádio Universitário). Em querendo assistir à paródia, é passarem ali 24/24 durante 7, e é possível que, se virem passar uma obesa velha, seja eu. A verdade é que me custa cada vez menos correr, sinto-me muito mais toni, mas acho que não estou. O importante é o sentir, como diria Francineide Carandiru.
Também tenho dançado bastante. Pela primeira vez em vários meses, consegui acertar todas as coreografias de uma aula de Aeróbica, e isso desacertou-me o relógio mental para a grande dúvida que ainda persiste: foi uma aula mais simples ou passei o patamar dos passos pedidos?
Quanto a férias, são uma realidade que não revelo se ainda para lá vou, se já cá estou, se já lá fui. Desculpem, tenho que ter o meu espaço reservado uma vez na vida, e acontece que esta posta já está de bom tamanho.

25/03/2019

Não está fácil escrever o penúltimo antes dos 3000

Não está fácil decidir o assunto do 3000.º

Este aqui tem como título Martim Moniz rules

Apetecia-me vir para aqui armada em boa, pois há muito tempo que não o faço, e isto já se sabe: um blog sem litros de baba por autoestima, sem um exagerozinho narcisista, a dar a entender que somos jovens e belos e inteligentes e bem sucedidos, tudo a um tempo, não é um blog a sério. E eu ontem fui correr. Tenho que me preparar para a corrida Sempre Mulher do próximo domingo e tinha, ao todo, o dia de ontem para os treinos, a ver se melhoro o meu último tempo, apesar de já não me lembrar qual foi. Bom, achei que ia desfalecer aos primeiros passos, mas, talvez porque recentemente cafeinada, correu bem, corri bem. Uma volta completa ao Estádio Universitário, que devem ser dois quilómetros e meio, mais cerca de quinhentos metros a andar, mais outros dois de corrida. Pronto, foram quase cinco quilómetros a correr, pelo que acho que estou mais que preparada para a maratona do dia 31.
~
Voltei a ter aulas de Jump, quem me apanha com aquelas botas nunca mais me agarra. É.pura.felicidade. O cansaço é tanto, ao fim de dez minutos, que não se pensa em mais nada, nem mesmo naquelas comezinhices de o-que-é-o-jantar-?. Acaba por ser uma actividade intelectual, em suma.
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Levei uma cornada de uma amiga. Ando há dias a matutar sobre isto. Já chorei um bocadinho e tudo. Ou melhor, aproveitei um catalizador qualquer e este assunto da amiga - que, afinal, não devia ser, eu é que confundo tudo e percebi mal -, foi na cheia, literalmente.
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Outro dia dei uma porcaria de umas moedas que tinha no porta delas a uma malabarista, do semáforo da Praça de Espanha. Daquelas que atiram pinos, maços e marretas pelos ares, sei lá se são malabaristas. Fico sempre fascinada, quando me calha o primeiro lugar no semáforo, sem perceber como é que nunca acertam num pára-brisas, no meio de tanto objecto atirado aleatoriamente. Ela era lindíssima, tinha os cabelos encaracolados e os collants rotos. Disse-lhe, "Desculpa, é tão poucochinho", e ela recebeu os cacos com uma espécie de vénia e respondeu, "É de boa vontade, chega perfeitamente". Fui-me embora feliz, tenho sempre medo/esperança de reencontrar o velhinho que vendia nougats naquele mesmo semáforo e que uma vez o taxista que me levava tratou mal. Tratei eu mal a seguir o taxista e comprei nougats ao senhor, mas porra, a ferida já lá estava. É uma vontade de lhe dizer, "Olhe, desculpe aquele dia, o homem era um bruto, mas nunca comi nougats tão bons como os seus". Nunca mais o vi, mas vejo-o de todas as vezes que cruzo aquele semáforo.
Contribuí com uma merreca para a UNICEF Moçambique. Tive vontade de repetir "Desculpa, é tão poucochinho". Na volta não recebi uns olhos belíssimos a garantirem-me "É de boa vontade, chega perfeitamente", e isso anda a fazer-me mal.
~
Fui ao Martim Moniz ver das molas de que precisava, por sugestão da Izzie. Uma pessoa entra noutra dimensão desde que sai do metro. E ainda noutra a cada loja onde entra, a pedir indicações específicas de onde encontrar aquilo assim. O que vale é que levava uma, para amostra, porque ali ninguém entende nada do que uma pessoa diz. Finalmente, quando se atinge o armazém de retrosarias, meu santo Deus, Alá, olá, olá!
E sim, é preciso tão pouco para me fazer feliz! Obri-ga-da, babe, you rock!

1 euro cada 20, vieram 200, seriam 200 euros
lá no outro magano, muáháháhá!



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofalta1earesponsabilidadepesa


15/12/2018

Lei da protecção de chatos

Era dia de festa, aula especial com a participação de um professor de outra modalidade que não tem nada a ver com dança, um garoto de uma simpatia absoluta, que nos ia (e nos foi) ensinar uns passos mais ou menos dançados de boxe, aquela competição do ringue. A professora do costume e ele, ambos de barrete do Pai Natal, a sala decorada com estrelinhas brancas, uma ambiência especial de alegria e espírito natalício, nesta altura somos todos mais amigos, mais solidários, mais pacientes, mais humanos. À primeira música, trinta pessoas dançando embaladas ao mesmo ritmo, entra uma outra instrutora, pega na máquina de fazer filmes e começa a usá-la. Há uma única pessoa que pára de dançar, se lhe dirige e diz qualquer coisa ao ouvido, então pára também a música e são dois no palco e vinte e nove na sala estáticos. A dita senhora explica alto que "não podem filmar sem a minha autorização expressa e escrita", oh, senhora, toda a gente sabe isso, tu queres ver que esta também parte a máquina aos parentes na consoada, não querem lá ver que temos aqui uma rezingona que expõe a desinteressante vidinha toda no FB, mas depois acha-se ofendida por estar a ser filmada num ginásio que frequenta publicamente, que nada fará com a porra das imagens, a não ser uma divulgação interna ou uma exposição num site fechado, filme no qual ela, com toda a probabilidade, não aparecerá, mas que não, ai a mim ninguém me filma se eu não deixar. E a boa da titcha a dizer que então paravam as filmagens e não se falava mais nisso, mas era só o que faltava, meta lá a câmara ao alto e filme-nos lindas, leves e louras, cantarolou a inconveniente do costume, a rabujenta saiu e nós continuámos sem ela, que nem lugar vago deixou, quanto mais memória, e fomos filmadas no melhor da festa, que dos desmancha-prazeres desta vida não reza a História, fazendo tábua rasa da lei da protecção de dados chatos. 


12/11/2018

Eu tenho problemas com doidos # 14

É por isto que este país não vai para a frente, por causa de pessoas como estas, que baixam a cabeça e nunca protestam, vociferava ela, um tom acima da fala, um tom abaixo do grito, brandindo o braço na minha direcção. 
Tínhamos feito uma aula de dança com o ar condicionado ligado em trópicas temperaturas. Vá que já havia experimentado uma hora de pedaleira, em pleno Verão, com o ar condicionado desligado, agora dançar com o ar no quente, é que nunca me ocorrera. Ela foi das primeiras a protestar, sacudindo os caracóis grisalhos, ajeitando os óculos, soprando para a própria blusa. Congestionada, afogueada, transpiradíssima, saiu da sala atrás de mim quando cruzei a porta, com vista a pedir que baixassem a temperatura do ar. Cruzámos caminho com uma funcionária que, aflita, se limitou a dizer a verdade: que não sabia o porquê daquele ocorrido, que já tinha reportado, que o técnico ia verificar, que não podia fazer mais nada senão o que já tinha feito. 
Talvez noutras circunstâncias lhe pedisse explicações para a falta de explicações, mas nem essa oportunidade tive, pois ela, em plena revolta, não o permitiu, cilindrando a rapariga, num Português pouco inteligível, com um questionário que embrulhava exigências e direitos de cliente, consumidor, pagante dos ordenados daquele espaço, toda uma panóplia de argumentação que eu própria usaria, eventualmente num outro tom, mas que me calou a mim a vontade de explanar e ouvir mais do que já ouvira.
Entretanto, a aula decorria, assim como decorreu até ao final, da mesma forma aquecida pela máquina, e já não tanto pelo ânimo desanimado, ou sequer pela animação que é o simples acto de dançar. Assim que terminou, dirigi-me ao balcão da entrada, com vista a fazer uma pergunta que nada tinha a ver com o assunto ar quente. E veio ela novamente atrás de mim, eventualmente convencida que eu iria reclamar por escrito, falando alto em abaixos-assinados, em queixas no livro de reclamações, em manifestações várias de desagrado pelo sucedido, argumentando que, quando vão ao banco cobrar a minha mensalidade, se eu não tiver lá cachet [rolling eyes] para a pagar, cobram-me logo quatro euros de multa! Quando lhe disse que não estava ali para redigir um abaixo-assinado, nem poderia assinar uma queixa conjunta no livro, já que estas são uninominais, ela virou a raiva e a revolta contra mim e acusou-me de ser parte daquela tal raça de gentes que baixa a cabeça e nunca protesta. Logo a mim, que sofro de uma extrema dificuldade em manter-me em silêncio, assim o motivo o justifique, os companheiros de armas estejam à altura e, sobretudo, não me apresentem a guerra perdida antes de ela começar, viciada por uma forma incorrecta, ainda que com um conteúdo justo. 
(E fartinha de começar combates e, de repente, me ver sozinha no ringue, ando eu. Já dei para esses peditórios todos. I'm out.)



08/10/2018

O sarilho do sarau

Por acaso, não é bem um sarau (mas compunha o título desta posta), não só porque eu já não tenho idade para isso, como também porque não. Mas será uma mega-aula, um espectáculo dentro da própria, uma coisa nunca vista — sei lá se não reportada em vídeo —, especialmente porque a pessoa humana vai estar presente, particularmente porque cá o ser vivo vai actuar, mormente porque não sabe a coreografia da música que lhe calhou na rifa, sobretudo porque nem sequer se lembra de qual a melodia em questão. Portanto, tenho cinco dias para 1. Descobrir qual é a música que acompanhará a queda em Cristo de uma grande dama; 2. Repuxar das pontas da memória pelo esquema de dança que irei protagonizar a) Ao lado da titcha [não vai correr bem]; b) Sozinha [wowowow, gentchi, vou criar a dança do piléqui!].
Em modo pré-traumático, apelei a uma companheira de bailaricos, que me esclareceu — ou não — que a dita partitura era esta:


(Fala de dores de cabeça, e cenas que não me assistem, mas também não estou em condições de negociar outra.)
Não estou muito crente, não só porque aquela que me atraiçoa constantemente não me diz que seja, como também porque, a ser, é das que tem uma das coreografias mais fáceis, e eu tinha na ideia de jerico que me tinha calhado uma muito infazível. (A titcha é uma cómica, quer divertir-se por conta da senhora...?)
Bom, à cautela, comprei uns calções novos e lindos para estrear na ocasião. As bailarinas não usam tutus novos para os espectáculos? E os futebolistas, não estreiam toilettes novas em cada jogo? Então, é a mesma coisa. Deixem-me.


04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

29/09/2018

As máquinas dispensadoras e eu

É sempre o mesmo imbróglio, cada vez que quero tirar um café das máquinas, designadamente por causa da quantidade de açúcar, que pretendo nula: esqueço-me de que devo começar por carregar no botão até desaparecerem as barrinhas todas, isto antes de escolher o que quero, antes de meter a moeda, antes de qualquer coisa. O ideal é já ir com o dedo espetado para o botão do açúcar mal cruzo a porta, senão aquilo entrega-me um xarope de café que, mesmo que não mexa com a palhinha plástica, sabe a rebuçado de açúcar com café e mais nada. Tipo aqueles cubos que se dão aos cavalos.
Mas, desta vez, foi diferente: quis uma barra energética com sabor a chocolate, uma dessas criações demoníacas que nos convencem (tits) que estamos a optar pelo bem, e nos farão magras como cadelas sarnentas e leishmaniosas, que é o que todas — mesmo as mesmo magras — queremos ser. Ninguém se iluda, que eu também já as perdi todas. 
Então, acerquei-me da dispensadora e reparei que a ranhura das moedas estava tapada com fita-cola, embora a das notas não. Ainda assim, escolhi a minha barra, digitei o número que lhe correspondia, e a máquina respondeu-me por escrito que devia inserir € 1,20, em quantia certa. Ora, como não conheço notas de um euro, muito menos de vinte cêntimos, considerei a possibilidade de haver ali qualquer confusão que não seria eu a deslindar, pelo que retirei a fita-cola e inseri uma moeda de um euro por ali adentro. Imediatamente, a máquina engoliu-me a moeda, só faltou ouvi-la mastigá-la e eructar no final. Já nem meti a de vinte cêntimos, não fosse engasgar-se e expectorar todas as que tivesse lá dentro. 
Lá tive que ir ao balcão reclamar do meu desaire, mas, desta vez, ao invés de "Nós não somos responsáveis pela máquina", ela disse-me "Eu sou nova aqui, não percebo nada daquelas máquinas, vou reportar". Portanto, acho que, logo a seguir, mal eu virei costas, inconformada e pobre — e também sem a minha barra —, reportou. 

23/09/2018

Chafé = chá de café*

Deu-se que fui tirar um mísero café, a troco de cinquenta cêntimos sem troco, da máquina dispensadora, mas, ao invés disso, ela dispensou-me um copo de água quente um bocado suja, tipo um chafé chalado, e eu queria mesmo era uma bica daquela bica.
Então, rarefeita, contrafeita e quase desfeita, dirigi-me a penas apenas ao balcão, copo de mijaroca na mão, já com a resposta que ia receber preparada: "Nós não somos responsáveis pela máquina".
- Nós não somos responsáveis pela máquina. — Disse-me ela assim para mim. 
Foi quando comecei a argumentar que não podia ficar sem café (não podia, efectivamente) e sem dinheiro. Evitei aquele outro chavão, não é pelo dinheiro, é pelo princípio (porque, na verdade, também era pelo dinheiro, porque eu não sou só pelintra, sou também sovina), e tratei os meus cinquenta cêntimos como se fossem cinquenta euros, a ver se dava a entender à pessoa que a grande questão se prendia mais com a necessidade de injectar o líquido no sistema sanguíneo do que pela pobreza franciscana em que me ia deixar tamanha perda. Ela sossegou-me, garantiu-me que o técnico ia lá todos os dias e que, no dia seguinte, me restituiria a moeda. 
(Lá fui pular sem cafeína, e depois admiro-me que não rendo o que gostaria no ginásio.)
Não fui no dia seguinte, mas para aí dois dias depois. Directa ao tal balcão, quis saber da minha moeda. Diz-me ela que ainda não era possível dar-ma de volta, que eu aguardasse mais uns dias, e foi aí que só não perdi a cabeça porque as vértebras não o permitiram. No entanto, apesar da revolta interior que ameaçava libertar a besta que também me habita, questionei, quase em falsete:
- Então quando é que isso é possível? O técnico não vem todos os dias? Era só tirar a moeda da máquina e restituir as indevidas. Ou não?
- Não, porque a situação é reportada e ainda vai à central. De lá é que dão o ok para as restituições. 

(Senti-me morrer um nico, como everytime we say goodbye.)


* não fui eu que inventei, créditos para um grupo com quem trabalhei, num local onde era recorrente fazermos chafé. (Acho que por engano.)

19/09/2018

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 5

Vá, que eu preciso de desabafar. Vão lá buscar os mochinhos, rodeiem-me e escutem-me, ou deixem-me.
Saí de casa com meia-hora de antecedência relativamente à hora de começo da aula de dança, para percorrer um percurso que não são mais do que dez minutos, mesmo tendo em conta os semáforos, as passadeiras, os xoninhas e etecetera. Subestimei a hora de ponta de Lisboa, subestimei que há uma casta de super-xoninhas que deixa o carro ir abaixo quando abre o verde, subestimei o quão difícil é encontrar lugar para parquear Rosinha, subestimei que preciso de cinco minutos só para me equipar, e até à paisana fui: um vestido que já deve ter sido mais largo, porque dantes me servia e agora está justo quase até ao sufoco, e uma sandalete de salto alto, que eu também não faço por menos. 
Digamos que, quando passei à porta do ginásio, faltavam quinze minutos para a aula, e de lugar para estacionar, nem sombra. Nem ao sol, na verdade. Afastei-me, assim, cerca de duzentos metros, e estacionei num parque daqueles que não só estão munidos de coluna de pagamento da EMEL, como também possuem um chão aos favos de mel em cimento, que consegue ser, simultaneamente, uma m. para os pneus e outra para os pés. Aconteceu, é claro, que a coluna de pagamento do parque ficava a, pelo menos, dez metros de onde eu me encontrava, mas o remédio era só um, como nas Finanças: pagar e não bufar. Perdi, portanto, a conta ao número de vezes que torci os pés nos favos de mel, até alcançar o pagamento do parque, e depois repeti a proeza no regresso, para pôr o raio do selo no carro. Palavra que equacionei usar a aplicação, ou então arriscar a multa, que me ficaria seguramente mais barata do que se tivesse fracturado um osso, que não fracturei. Neste meio tempo, já só faltavam dez minutos para a aula, eu estava a duzentos metros de salto alto da porta do ginásio, e o vestido, encharcado pelos meus nervos, havia-se-me colado à derme de tal modo que ponderei seriamente levá-lo para a aula, calçando apenas os ténis. Apressei o passo e cheguei quatro minutos antes do início da aula. O arrancar do vestido de mim foi algo doloroso, já que exigiu um momento em que, em asfixia, e em claustrofobia, tive que me contorcer toda lá dentro, arriscando a luxação dos dois ombros e dos dois cotovelos, para além da cervical e de todas as vértebras. Fui acabar de me vestir dentro da aula, já que foi lá que me calcei. (E sim, atravessei o ginásio a correr, descalça, como a outra.) (Não tem importância, eles estão habituados.)
É óbvio que não dancei nada de jeito. 


10/09/2018

Curtas (ou nem tanto) e grossas

Fui chamada para o "palco" numa aula de dança, para acompanhar a instrutora numa coreografia. Ora, eu sofro de professorite, um síndrome que eu própria inventei, e que se explica pelo exponencial enervamento quando na presença de um mestre. Assim como existe o síndrome da bata branca, deveria existir o síndrome do quadro de giz (ou da caneta de feltro, ou interactivo, o que é que isso interessa?)/ dos óculos na ponta do nariz/ da autoridade não parental/ sei lá do que mais. Deve ser pela dificuldade na sua definição que o síndrome não tem nome. Logo, não existe.
Se eu sou de uma timidez caricata nos momentos em que me sinto avaliada, que são todos os da minha vida, imagine-se o que será (foi!) diante de uma plateia inteira. Não correu mal, mas porra. 
[Perdendo uma seguidora em 4, 3, 2, 1...]

Nem de propósito, deparei-me com este aviso
num determinado Museu desta cidade
(sou tão blogger, vou a museus)
(acho chato contar que a que nos recebeu estava com os copos)

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À saída de uma aula de Jump, encontrei o enfermeiro que me tira sangue quando o vou dar. Não me lembro do nome dele, mas sei que o sei. Paulo, Pedro, João, um apóstolo. Também pode ser Sanguessuga, hei-de sugerir-lhe. Ele ia fazer Step, e eu devia ter ficado a assistir, porque se é aquela animação a sugar sangue às pessoas, que direi de uma aula de Step com ele ao lado. Mas eu fujo delas como o diabo da cruz, demasiada coordenação para a minha lateralidade excessivamente bem definida.
Depois da primeira surpresa que se sofre quando se encontra alguém fora do seu cenário, Olá!; Olá, enfermeiro!; Eu conheço-a!; Eu também o conheço, do IPS!; Eu sou o enfermeiro!; Eu sou a que dá sangue,
seguiu-se um diálogo muito digno e muito técnico, especialmente tendo em conta a pequena multidão que ali se encontrava a escutá-lo:
- Fez lá aferese?
- Não, porque não posso, tenho quatro filhos. Só sangue. Olhe, vou lá para a semana.
- Boa. Adeus!
- Adeus, bom treino.
(Sou tão simpática.)
(E blogger.)

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Como passar dados de Ai-fostes para o computa: esquece. Dava pano para um post daqueles que ninguém lê. Noutro dia.

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Voltei a pintar o cabelo em casa. Cansei-me da seca de ir ao salão do bairro. E a qualquer outro. Levei horas, mas ficou tão bem pintado que ninguém diz que eu não nasci já assim, morena e gira, e não aquela loura de olhos azuis, enorme e tronchuda, que fez o terror no berçário. (Not, calma. Já nasci assim, mesmo, esta delicadeza de dar dores.) Até estou a ponderar abrir o meu próprio estabelecimento, comprar baldes desta tinta e pintar as minhas freguesas todas da mesma cor, vulgarizando (ainda mais) esta que a Natureza naturalmente me forneceu.



(Isto já está demasiado blogger. Acabou.)

05/09/2018

O elefante no meio da sala

Estava eu muito descansada, à-roda-à-roda-à-roda como uma ratazana, girando e rodopiando na aula de dança, quando, derivados ao aparelho e sua consequente maior salivação,
(porquê, não se pode falar sobre cuspo na blogobola? Quer dizer, as outras falam de piolhos, cacos de monco e puns de traque, e eu não posso falar de cuspigongos?)
que, meninos, aumenta exponencialmente quando se coloca o objecto estranho na boca, me salta um perdigoto tamanho xxl para o soalho da sala de bailarico, mas uma coisa gigantesca, daqueles que até fazem um arco no ar, se elevam acima da nossa cabeça, e aterram, estatelados e grandiosos, nem bem aos nossos pés, mas a uma distância suficiente para que, embora não possamos esborrachá-los, eles não nos saiam do campo de visão nem do Mundo, o que nos permite pressupor que todos aqueles que nos rodeiam o vêem, porém fazem a fineza de o ignorar, o que é, convenhamos, muito mais constrangedor do que se, efectivamente, não o avistassem. Um pouco a cena do elefante no meio da sala, que toda a gente vê, mas todos fingem que não. 
A própria coreografia que a humana tentava seguir no momento também não deu uma ajuda, pois não surgiu nenhum passo, por mais que me adiantasse, cruzasse ou saltasse, que calhasse pisar o perdigoto. É certo que poderia ter saído do esquema, saltado a pés juntos em cima da poça, mas sei lá se aquilo não dava em rebentar e lá ia eu pelos ares, cheia de saliva por mim acima. Além disso, tal atitude daria ainda mais nas vistas. Quem é que pula em cima do elefante? Pois. E ele ali, brilhante, exuberante, rechonchudo, só faltava içar um flyer a dizer "Mamã, estou aqui".
É claro que, até se evaporar completamente, se transformou numa pequena lagoa, depois num riacho, logo a seguir num oceano em modo tsunami. Só depois encolheu, e, quando fui para o pisar, com todos os cuidados para não escorregar - a ver se alguém lá meteu um daqueles avisos de piso molhado, é o metes! -, ele já se evaporara para não sei onde, quiçá para a atmosfera, ou para a minha pele, onde terá sido reabsorvido e reentrado no meu sistema linfático-nervoso e de hoje para amanhã se transformará na maior pérola de canto de boca que a História ilustrada da minha rua já viu.


23/06/2018

Cycling, uma experiência esmagadora

Na pendência do dia de ontem, fui-me a uma aula de cycling. 
Tudo isto, porque tenho a PDM que sou a mãe mais fixe do pedaço (constituído por meu lar), e não consigo dizer que não, incapacidade que detenho para aí desde que corrigi o vício, logo após ter aprendido a segunda palavra de todo o meu já extenso vocabulário. (A primeira foi "pai"; a segunda foi, exactamente, "não".)
À chegada, o instrutor perguntou aos cerca de quarenta da enorme sala, quem é que estava ali pela primeira vez. Só eu e outra levantámos o braço, mas, por alguma razão que não me assiste, ele só se acercou de mim para me dar explicações acerca do funcionamento da máquina (bicicleta — cujo nome é uma metáfora, já que não tem rodas — estática). (Há-de ter pensado, "Aquela senhora tem uma alta probabilidade de faleceri, deixa cá dar-lhe uma aula teórica, e assim isento-me já de responsabilidades".)
O ar condicionado estava avariado, o que, passe o pleonasmo, condicionou grandemente a minha performance. 
De resto, correu tudo mal. O selim é uma peça claramente congeminada pelo Cão, ou por um torturador profissional (que, como se sabe, são uma e a mesma pessoa), coisa para esmagar uma determinada zona do corpo da humana, a níveis olímpicos, tal e qual um esmagador de alhos. (Dei comigo a olhar para os meus companheiros de Volta e a temer pela masculinidade deles, se é que algum ainda a conserva.) Tanto que, nos momentos em que o instrutor mandava pedalar de pé, cá o ser era a primeira a elevar-se e a pedalar, ou sei lá a fazer o quê com as pernas e os pedais. 
Ao cabo de quarenta e cinco minutos de senta-esmaga-aumenta-a-intensidade-pedala-de-pé, e muitas gotas litradas de suor escorridas, a tormenta acabou e foi possível apear-me e até ser cínica e mentirosa, quando o mestre me ordenou/pediu/perguntou/afirmou, "Isto é para continuar", "Claro que sim", de cara deslavada e suada, e toma lá bacalhau.
Um dia, à chegada ao Purgatório, Alguém me perguntará: "E tu, filha, o que fizeste tu de bem?", "Ai, eu fiz cycling durante quarenta e cinco minutos para ser querida com uma filha". E certamente levarei dois merecidos pares de estalos, com a palma e as costas da mão, "Vai para o Diabo que te carregue, que isso é coisa para te fazer merecer o Inferno".
Vá que hoje não tenho dores. Devem estar reservadas para esse momento.

18/04/2018

Post interdito a machos # 8

(Porque só uma mulher pode entender todo o conteúdo que segue.)

Estávamos numa aula aquática, já havíamos sido sujeitos a todas as sevícias de que os monitores se haviam lembrado, e, nos últimos quinze minutos, ainda tiveram a peregrina de nos mandar sugerir fazer um jogo de futebol (polo, ou lá o que é). 
Já noutro post denunciei que a água da piscina nos dá cabo do verniz, seja ele gelinho ou quentinho manicure normal. Começo a suspeitar que lhe deitam gotas de tira-verniz, assim como desmaquilhantes vários, do dos olhos ao facial. Uma pessoa entra qual bailarina aquática — se descontarmos a touca do Demo e o fato-de-banho abaixo de péssimo —, e sai transfigurada em si mesma, com mais dez anos em cima das peles. É como mergulhar no Grande Tanque de Elixir da Eterna Velhice.
O jogo decorria na sua (a)normalidade, apesar de as duas equipas estarem claramente desequilibradas: uma delas — que, obviamente, não era aquela que me calhou — tinha dois homens, e não eram eles dois elementos quaisquer. Eram dois tubarões lá para os seus trinta e picos, com uns cabedais de meter respeitinho fora de água, quanto mais lá dentro. Acho que ganharam a partida, e só não tenho a certeza porque os instrutores, feitos treinadores-árbitros-fiscais-de-linha, boicotaram grande parte dos golos que a equipa adversária havia de ter marcado, desviando a baliza no último momento. 
Mas não é isso que interessa agora aqui. O que vim contar foi o grande momento que protagonizei, e que só não foi de puro fair play porque se deu com uma das minhas companheiras de equipa: lá no meio da confusão aquática, a bola do nosso lado, perto da baliza adversária, e, portanto, numa fase do jogo que requeria alguma atenção acrescida da minha parte, ouvi a senhora mais idosa que se encontrava em campo (capitã?) a gritar:
- Perdi uma unha!
É claro que nem me passou pela cabeça levar o aviso ao pé da letra (até porque se tratava de uma unha da mão), pois, naquele relance que dirigi à mão da senhora, percebi que se tratava de uma unha postiça. Acerquei-me dela, certifiquei-me da cor das restantes nove (um castanho-bordeaux, fácil de encontrar na transparência-azul da piscina) e, qual baywatch da unha tresmalhada, anunciei:
- Vou procurá-la, já lha entrego.
Ela sem acreditar, assim como eu. 
O que é facto é que a unha passou por mim a nadar, fazendo piruetas em direcção ao fundo da piscina, toda ela num parafuso bonito de se ver. Tentei apanhá-la, mas a libertária continuou no seu passo de natação sincronizada até ao chão. Pus-lhe um pé em cima, agarrei-a com os dedos (nós somos tão primatas...), levantei o pé e eis-la. A senhora quase chorou, interpretem como quiserem.
O jogo não havia parado, e terminou passados minutos, acho que empatado. 

29/03/2018

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 4

Ai-fostes veio parar-me às mãos guarnecido com uma aplicação assaz atractiva, quanto mais não seja por ter, no seu ícone, un petit coeur. Responde ela pelo nome de "saúde" e é a que — de entre outras valências que não explorei — nos mede a distância diária que percorremos a pé ou a correr (como se corrêssemos com recurso a outra zona do corpo que não fossem os pés). A mesma aplicação peca, a meu ver, pela incapacidade intrínseca que lhe é inata, de nos contar os passos em situações de não deslocação, ou seja, quando maior é o esforço, que é no ginásio: elíptica, passadeira, jump, body pump, aeróbica, etecetera. Pode uma pessoa estar a finar-se de exaustão cardio-gluteal durante uma ou duas horas, que a aplicação do coraçãozinho lhe atribui muito menos passos (na verdade, igual a zero) do que se for bater pernas para o shopping no mesmo espaço de tempo.
[No entanto, existem casos como o meu em que me parece justo que assim seja: a marcha fora do ginásio é cumprida (e comprida) de saltos altos, pelo que até deveria valer o dobro, como aquelas campanhas em África.]
Depreendo, não obstante, que Ai-fostes contabiliza a passada de forma relativamente aleatória. Por exemplos: anteontem, ao longo de um dia inteiro, contou-me 3941 passos para 2,6 km. Ontem, eram ainda umas escassas 16:49 da tarde, já ele me havia contabilizado os mesmíssimos quilómetros, mas com 4447 passos. Ou seja, percorri a mesma distância, dando mais 506 passos (e sim, recorri à calculadora, porque este desgaste pedonal acaba por me afectar o cérebro).





Conclusões:
1. Há dias em que dou passos de gueixa;
2. Há dias em que dou passos de elefante/ gazela;
3. A contabilização é muito mais aleatória do que eu imagino. Tipo o boletim metereológico;
4. É possível enganar a aplicação (que funciona por GPS), bastando, para tanto, que nos desloquemos de um lado para o outro, nem que seja do sofá para o frigorífico, do frigorífico para a despensa e da despensa para o sofá, sempre no enfardanço. Ou então, era a pessoa praticar o ballet e dar uns bons jetés por dia, que aquilo contava dez passos por cada jeté);
5. Nós não estamos sós


26/03/2018

Splash

Aqui há tempos, tipo ontem, acordei a sentir-me uma sereia [e não metade mulher, metade baleia — e não, a piada não é minha]. Atendendo a esse facto, e logo após puxada aula de dança, vai de me meter noutra aula, igualmente de dança, mas, desta feita, imersa — e só não submersa porque é suposto deixar as cabeças, minha e dos outros que lá estavam, fora do charco. 
É claro que, entre uma aula e outra, duchei-me. Se a ideia de ir boiar no suor alheio já me deixa apreensiva, que direi da contrária, e dá-se que sou humana de respeitar extremamente o próximo, sobretudo quando ele está efectivamente próximo. 
Enverguei então fato de banho próprio para a ocasião — horrível, como são todos os fatos de banho de natação —, chinelos —, minhas havaianas high heels — e touca, aquele penico que não fica bem a ninguém (de tal modo que não sei como é que o pessoal das praxes académicas ainda não se lembrou de substituir os penicos por toucas de natação), daí que seja impossível ficar-me bem a mim. Na verdade, levava duas toucas, uma em cima da outra, porque uma só não me segurava o cabelo e precisava da outra para segurar a primeira. Para além disso, fui um bocadinho maquilhada (coisa leve, um rimelzinho e um nico de base + anti-olheiras, pois que enfrentar a aula de chapinhanço com olheiras é que jamé-salomé), tendo em conta que não tencionava mergulhar (ou não era suposto, melhor dizendo). Esqueci-me, ou ignorei, a possibilidade da ocorrência de salpicos, derivados ao facto de existirem em todo o lado adultos imaturos e inconscientes, brlá-brlá-brlá.
Apesar de ser eu, acho que correu tudo muito bem. Pelo menos, acertei com a porta para a piscina, não escorreguei em lado nenhum, nem o fato de banho encolheu comigo lá dentro. Fora o facto de as duas toucas terem ameaçado, logo ao início das actividades, saltarem-me da cabeça (imagino que em simultâneo), e ter tido que pedir socorro à titcha, que, mal suspeitando que eu já tinha duas, me atirou mais uma (o que me há-de ter feito ficar parecida com Stewie Griffin, aquele bebé maléfico e macrocéfalo); fora ainda ter-me dirigido à única louca que frequenta aquelas aulas para fazer par comigo numa actividade a dois; descontando também ter saído da banheira com um dos olhos (ao menos que fossem os dois!) a borrar, qual guaxinim zarolho, de resto, acho que o cômputo foi assaz positivo.
Voltarei. (Ainda não sei se isto é uma promessa ou uma ameaça.)