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07/10/2025

A pagadora de promessas

Findas que estavam umas mini-férias (na verdade, são todas mini, até as que duram meses, se é que isso existe) com a minha primogénita, escapadela que damos desde há quatro anos, fomos proceder ao check-out. Pedimos cartões para o comboio de acesso à praia e um lugar no estacionamento mais perto do cais, para que pudéssemos gozar mais meio dia de praia. Já tínhamos estacionado quando a criança me lembrou que eu deixara o almoço no apartamento. Por uma vez, não queríamos demorar no processo de ir a um dos restaurantes dali, pois tínhamos o tempo contado para fazer a viagem ainda de dia. Eu ai, que me esqueci no frigorífico, ela, ai, não faz mal, eu vou lá. Palmilhou dali até à recepção (muitos metros), da recepção ao apartamento (mais muitos metros), do apartamento à recepção (ainda mais muitos metros), da recepção até mim (tanto metro percorrido por causa da cabeça de ervilha da progenitora).

Íamos nós até um bocadinho lampeiras por aí afora no comboio, quando eu olho para o escancarado saco dela e vejo o cartão a resvalar, ou melhor, a derramar como água para a areia que envolve a zona dos carris. Ainda estava toldada por aquela sensação de estar em dívida para com minha petiza. Pus-me então em pé e gritei: “Motorista!”, que era para o homem puxar do freio. Repeti e ele nada. Hei-de experimentar “comandante”, ou “vossa altiveza” quando lá voltar. Achei prudente não me atirar do comboio abaixo, não fosse aquilo agarrar-me pelos pés e cortar-me as unhas para lá do sabugo, ou assim. E a máquina avançava, avançava. Lembrei-me então que, pelo meio do caminho, aí a uns setecentos metros da partida, ela teria que parar, para dar passagem à do sentido contrário. E parou. E eu pulei do comboio e descalcei as chanatas. Então, desatei a correr pelo cimento e pedras com bolinhas até ao sítio onde poderia estar o cartão. Não estava, mas vislumbrei um varredor de areia ao fundo, corri para ele, estanhado, mil dentes — ou mil falhas? — “Ah, é você?”, a querer conversa parva, só lhe disse: “Saudinha” e zás, de volta. O meu vestido de flores e folhos, um jardim em movimento, os meus cabelos ondulados cheios de vida, palavra que nunca me custou tão pouco correr mais mil e trezentos metros. Sentia-me etérea e potente, capaz de todos os meus impossíveis. Provavelmente, alguém viu apenas uma idosa desvairada, descalça num pavimento inacreditável, eventualmente a ter um surto em bom. Eu vi o mar, mergulhei por necessidade animal e garanto que, se nesse dia não me nasceram guelras, então também já não vão nascer nunca.


30/09/2025

Remada alta

Agora meti-me noutras actividades no ginásio, não porque me tenha fartado de dançar, mas por não ter outro remédio: uma das instrutoras engravidou, outro envelheceu. Ela ainda pulou e saltou até aos quatro meses, depois ganhou juízo. Ele começou a fazer coreografias só com os braços, para isso sento-me numa cadeira em casa, exercito-me assim e não pago nada. Claro que não desisti da dança, mas fiquei confinada a um dia por semana e eu queria mais um bocadinho, se não se importam. A piscina está fora de cogitação, porque, embora tenha o fato-de-banho mais bonito do planeta e uma touca estupendaça especial cabelos compridos, só a parafernália que uma pessoa carrega para essas aulas, já me cansa a beleza. 

Comecei então a fazer Aeróbica, onde, apesar de ser a pior aluna da sala, o instrutor acredita imenso em mim, acha que tenho potencial. Mas eu, ao fim de duas piruetas, já não sei para que lado é oeste, quanto mais onde está o espelho. E ele dá-me coragem e incentivo para continuar, mas acho que, interiormente, está a divertir-se à doida. 

Continuei com o meu Stretching e experimentei algo que dá pelo nome de Dumbbels, que mais não é do que uma tortura macaca que já pratiquei noutro ginásio sob a designação de Body Pump. Aquilo, a pessoa entra já nervosa porque sabe que vai sofrer. O instrutor (já fiz com quatro diferentes) diz que “vamos trabalhar todos os grupos musculares”. Ahahahahaha. Vamos triturar tudo o que não seja osso nem banha e, de caminho, somos voluntariamente sujeitos a todo o tipo de sofrência. Parece a tropa. Alteres, remada alta, agora nove repetições, agora outras nove, agora fica lá em cima, faz flexões em dois-dois, três-um, agacha e fica, insiste oito lá em baixo, agora mais oito, vamos aos lunges, põe um pé à frente e outro atrás e desce até tocar com o joelho no chão, insiste e pára lá em baixo, agora vamos só aos abdominais e está feito, em dois-dois, em cruzado com a perna esticada sem bater no chão. Camelo. Apetece-me assassinar o instrutor daquele dia, mas depois vem uma sensação tão, excuse my potuguese, porra, gosto desta porrada, que volto.


27/05/2025

O que interessa é participar?

Blhag, não. O que interessa é ganhar; ou então, ficar numa posição que não envergonhe as gerações vindouras. Ai, "Os últimos são os primeiros". São nada. Os últimos a entrar num elevador estreito como os do meu prédio, são os primeiros a sair, senão ninguém sai. 

Só balelas.

Aqui há bastantes semanas, nem me quero lembrar, fui enfiar-me numa corrida à noite, para percorrer um milhão de centímetros. Não treinei grande coisa, por preguiça, falta de vontade e ânimo e por achar inútil. Cada um sabe de si. [Hoje estou inquinadinha de ditados populares.] Foi ainda no tempo das monções que este país sofreu, pelo que os três primeiros quilómetros foram feitos à chuva. Nada de especial, não fora estar um frio de ananases, mas a pessoa humana ia resguardada com uma camisolinha por baixo da camisola da competição, fora a manga que uso às vezes para que o braço não se transforme numa pata de elefante. Nem dei por ter parado de chover, pois já suava as estopinhas e outros paninhos ordinários. Mas ia determinada a não parar nem para beber água, de tal modo que até levava um cantil de dois litros às costas — e ainda hoje ponho a possibilidade de terem sido aqueles dois quilos a mais a prejudicar o meu resultado —, para não ter sequer que abrandar. É claro que, ao primeiro quilómetro, já pensava coisas ao melhor estilo vernáculo (é um estilo!), mais ou menos: "por que piiii me vim meter nesta m.?". Não me doía nada, nem os pés [agora encravam-se-me as unhas, a quimioterapia ainda circula alegremente. E também devo estar um nico radioactiva], nem os joelhos [que nunca doem, mas é uma queixa vulgar do povo], nem os pulmões, nem o burro. Mas doía-me, sobretudo, a alma, muito em particular quando me vi sozinha, de noite, numa cidade cujos contornos mal conheço, a tentar correr, e nem pelotão à frente, nem atrás, com a possibilidade (que teria sido superiormente inteligente) de me atirar para o chão e chamar os meus bombeiros, que me levassem para a barraca e me dessem miminhos, como já aconteceu. Ao invés, havia uma força estúpida que me ordenava: "Continua, bruta!". Devia estar no sexto quilómetro, a solidão iniciara-se há minutos, quando me aparece uma anja alada e me diz: "Vamos embora, juntas até ao fim!". Explicou-me que faz tracking e que, nessa modalidade, ninguém fica para trás. O último é sempre acompanhado pelo "vassoura". Então, começou a varrer-me na direcção da meta, os piores quatro quilómetros que já corri na vida. Dores, agora sim. Dores nas plantas dos pés, a queimar, dores nas ancas, dores nas mãos, a inchar como salsichas frescas, dores nas costas, dores na cauda equina, dores, dores, dores, e estrada, estrada, estrada. Não sei quantas vezes morri. Ia acompanhada da minha bruxa fada e dois polícias de mota, com muitas luzes azuis, ou eu já as multiplicava, tamanho e tão penoso era o calvário. Aproveitei e contei a história da minha vida à Vassoura, porque já estava a correr há mais de uma hora e estava aborrecida de estar calada. Pedi a um dos agentes que me deixasse acabar a corrida sentada na garupa do motociclo dele, e ele riu-se de nervos. Tudo me ocorreu, mas tudo corri e cheguei, atravessando a meta de braços vitoriosos (ainda não sei como consegui erguê-los naquele momento). Uma multidão esperava por mim para a ovação, um dos polícias tirou o capacete e disse-me que queria dar-me um abraço. Assim que o fez, segredou-me ao ouvido que nunca viu um exemplo de resiliência como o meu. Cada um dá-lhe o nome que lhe quer dar, eu acho que sou só teimosa como uma mula.


24/02/2025

Dez dias, três borboteiras

Precisava com urgência para anteontem de uma borboteira, e então mandei vir daquela megastore da China (já sei as vossas opiniões, as quais partilho, porém também me farta pagar a multiplicar por dez pela mesma m. que posso pagar a dividir por dez), 

(aliás, aprendam comigo, que eu, injustamente, não duro para sempre: também havia mandado vir da mesma mega um par de sapatos de dança, depois recebi um mail a confirmar o envio, depois recebi outro a anunciar que o meu pagamento tinha um defeito qualquer, refiz a encomenda, acrescentei três itens à minha vontade, um dos quais os sapatos de dança e, antes de pagar, lembrei-me que a primeira encomenda já vinha a caminho, fechei a aplicação sem ter pago a segunda, e não pensei mais nisso, até ao dia em que me chegaram a casa os cinco artigos, dois pares de sapatos de dança incluídos. São tão extremamente confortáveis que só me apetece dormir com eles, e custaram doze paus — um par, porque o outro, conforme já disse, me saiu de graça e ofereci logo à que fala tanto, a ver se ela se calava. Não calou.)

porque até havia uma no lar, mas não a encontrei na balbúrdia da minha casa nem no caos de uma das arrecadações, pelo que presumo que deu o peido mestre e foi com a vara. Chegou-me uma coisa que fazia o barulho de borboteira, praticamente não tinha depósito para borbotos e era recarregável como um telemóvel, algo de inalcançavelmente evoluído. Vai que só tinha cerca de cinco minutos de autonomia, o que nem chega para a manga de um pullover, e depois era preciso esperar talvez doze horas para que a máquina se autonomizasse de novo. Como não sei falar mandarim, fui em demanda por outra. 

Chego à loja da catedral, onde normalmente sou bem servida pois fujo a sete ou oito pés da que começa por Wor e acaba em ten (nunca comprei lá nada que não viesse avariado, ou não avariasse no espaço de uma semana), acerco-me de uma funcionária cujos olhos dispararam na minha direcção um "odeio-te" muito claro, vá-se lá perceber porquê (havia de ter-lhe perguntado por uma rebarbadora para o buço, mas nunca me lembro destas piadas no momento certo), e digo: 

- Boa tarde. Ando à procura de uma borboteira.

- Boa tarde. Hã? Borboteira? — E era ver o nariz dela, ou lá o que era aquilo, alçar-se todo para cima, os dentes de cima, ou lá o que eram aquilos, todos à mostra, a chispar. Lembrou-me aquelas hienas do Rei Leão, mas eu estava em missão, não queria perder o foco. — A senhora quer dizer 'uma máquina para tirar borbotos?' [Oh, pá, está aqui uma sumidade linguística a perder-se a vender tralha eléctrica, agora percebo a revolta.] [Que nome sugeriria sua sumidade para uma máquina que só serve mesmo para tirar borbotos? "Depilaborbotos"? "Saca-bolas da lã"?] 

- Sim.

Mostrou-me duas ou três marcas, modelos todos iguais, pequenas e frágeis como eu já tive uma, que arrancam um borboto de cada vez e não os trinta mil de que cada pullover de cônjuge já padecia, além do que mordem que se fartam, à pincher, e fazem buracos na lã.

- Muito obrigada, quero daquelas grandes que parecem um ferro de engomar. Lá terei que ir à Wor ten.

E fui. Muito bem atendida, desta vez era um homem, que entendeu a palavra "borboteira", me fez a encomenda para a fábrica/ armazém e prometeu que a teria daí a três dias. Assim aconteceu, máquina maravilha, limpou duas ou três camisolas e, ao terceiro dia, descansou. Eternamente. Confirmada a minha teoria pela enésima vez, devolvi-a e recebi a quantia que despendera por ela. 

Meti-me numa loja de rua que vende quase tudo o que é eléctrico, pedi por uma borboteira, o senhor percebeu a palavra e simplesmente vendeu-me uma máquina decente, que já limpou o que faltava limpar e está ali para as curvas que as lãs também têm. 

Moral da história: nenhuma. Foram três borboteiras em dez dias. Nada má, esta média, como sempre, em mim. 


14/02/2025

Tenho um timor, senhora

Foi o que ouvi ao velho negro, quando lhe pedi mais uma obra na minha casa, que só me lembra a Casa Inacabada lá de baixo, da Expo, que as minhas duas filhas mais velhas um dia acabaram e foram expulsas do jogo, pois era suposto nunca se terminar aquela obra, como grande parte das públicas, que geram cadernos de encargos dignos de Eça, arrastamentos e deslizes de prazos de execução e orçamentos finais engordados como porcos para a matança.
Não sei por que escrevo tudo isto, quando venho apenas aqui contar que entrei em 2025 com os pés tortos, ainda por cima na ilusão de que estava a bailar uma dança sabida de cor, até de olhos fechados. Apanhei o susto destes últimos três anos, quando o médico me disse: "Tem um lipoma, se calhar vou ter que lhe cortar um bocado do intestino", isto eu ainda desacordada de um sono bom e justo (paguei-o, não é?) e sem sonhos — prefiro não os ter, desde miúda que sofro de terrores nocturnos e depois de graúda acordo cônjuge com gritos, choros ou, mais raramente, gargalhadas, no lugar dele eu já tinha mudado de quarto —, tudo o que termina em "oma" me congela de medo, eu "Ó senhor doutor...", já a pensar "Olha, queres ver? Agora são timores atrás de timores, vai um deles um destes dias e leva-me embora daqui", mais exames, mais análises, mais esperar por resultados (escutem, que eu não duro sempre: mais cruel do que qualquer exame — qualquer — é a espera pelos resultados), mais nervos, mais pensamentos com palavrões, mais preparação para mais uma cirurgia. Depois de dias intermináveis, eis que surgem relatórios de sol e luz, cirurgia desnecessária, timor benigno, gordura no intestino, conclusões à gaja: “Agora sou gorda no intestino. E se eu pedisse ao médico para me tirar o oma e, de caminho, recolocar-me a cintura de solteira, eu era a ´Vespa´ para um colega de faculdade” que, por acaso, morreu ontem. Estamos velhos. Nunca mais terei cintura de vespa, ele nunca mais coisa nenhuma. 
Vou viver com o meu timor com alegria, festa e dança, até me cansar dele. Ou ele de mim. 

15/01/2025

Eu tenho problemas com médicos # 33

E com tudo # 40

Senão, vejamos: consulta semestral de oncologia. Em vez da minha médica, sou atendida por um maçarico daqueles que ainda seguram a ponta da caneta com os dedos todos. Sorridente, nervoso, deixou logo que eu dominasse a sala, o que nem sempre joga a favor de um médico. Tive a impressão que podia mandá-lo fazer o triplo mortal encarpado à retaguarda, que ele faria. Achou logo muita piada à minha falsa surpresa: “Dra. Rita, está tão mudada!”. Perguntou-me o peso e eu recusei-me a dizer. Chega de indiscrições. Levei-lhe todos os exames que fiz ultimamente, uns por auto-recriação, outros nem por isso. Gostou de tudo menos dos vómitos. Eu também não aprecio, propriamente. Disse-lhe que já não padeço desde que tomo uma cápsula em jejum. Não se ficou, mandou-me fazer dois exames, um deles extremamente invasivo. O que vale é que estarei a dormir. Pode ser que sonhe com coisas puras. Tipo “A música no coração”, sem a parte das S.S.
Depois o delfim resolve perguntar-me se tenho diarreia. Eu, apesar de me parecer que a conversa já ia a extrapolar para a intimidade indesejada, respondi: “Sr. Dr., eu estive muito tempo presa”. E ele com os olhos a pularem pelas órbitas, aposto que a traçar mentalmente o caminho para a Psiquiatria do hospital. “Não reclusa, não detida. Ainda assim, agora sou livre”. 
Volto lá qualquer dia. Espero que a minha médica já não esteja constipada [rolling eyes].
~
Fui a uma loja comprar cuecas. Agora decidi que sou alérgica aos elásticos e a tudo o que não seja algodão. Ou muito me engano, ou acabaram-se as cuecas da coboiada, sob pena de a pessoa ter que ter ao lado um frasco de Betadine. Entrei na loja onde sei que há roupa dessa sem costuras e com o tecido pretendido. Comprei umas quantas, ainda me ofereceram mais um par, e toca para casa. Na minha rua, abro a mala do carro, o saco cai-me de boca para baixo e as trezentas e cinquenta mil cuecas espalham-se pelo passeio. Devem ter-se multiplicado, porque eu metia umas no saco e espalhavam-se mais duzentas. Fora, é claro, dois sacos de víveres num braço e um saco cheio de frigideiras lá da enorme superfície, que eu, durante a batalha Linda-cuecas, nunca quis largar. Quando, finalmente, venci a coisa, passou por mim um papá com seu bebé, com um semblante extremamente preocupado e disse-me: “Bom dia”. Eu, descabelada, exausta, com cara de cueca, carregada e com a vergonha toda perdida pelas ruas da amargura, respondi: “Bom dia”. 

30/12/2024

Eu tenho problemas com médicos # 32

Acho que me rendi à seita da hipocondria activa: agora vejo qualquer coisinha em mim que não considero normal, e vai disto para marcar uma consulta. A oncologista não me satisfaz, porque posso queixar-me do que quer que seja, que ela me responde: "Isso passa". 

Ainda assim, foi ela que me prescreveu uma mamografia com ecografia mamária, para as quais, paradoxalmente, ia calma como uma preguiça. Não sentia nada de especial nas gémeas, a não ser mil merdas que me deixaram na coitadinha (clipes, cicatriz, uma leve dor na zona), por isso apareci no centro de exames quase aos pulinhos. Não que da vez em que se deu a descoberta sentisse alguma coisa, mas sentia. Apenas receava ser recebida por uma médica que, da vez anterior que havia feito a ecografia, me dissera: "Está tudo bem. Não quer dizer que seja sempre assim, mas desta vez está tudo bem". Só não lhe dei um pum olimpicamente cheiroso e insonoro (crime perfeito) no gabinete porque (ainda) sou uma senhora e (ainda) não faço essas coisas. Desta vez, a médica era de uma simpatia e energia contagiantes, tanto que sacudiu o frasco do gel e (não sei se a ponta estava entupida) aquilo espirrou em todas as direcções, designadamente para a minha cara e cabelo. Mas caguei (não literalmente), estava animada com a perícia da profissional, e, sobretudo, por me dizer que as tinha saudáveis.

Passados uns tempos, fui fazer um exame às miudezas, já nem sei bem porquê. Tinha feito um RX ao tórax por vomitar a dormir (sim, eu sei que é um risco, além do que não me apetece faleceri toda gregada) (desculpem lá o grafismo derivado da secreção), e tinha dado zero, como as contas que batem certo. Então, fui à médica que espreita cá para dentro e ela também não encontrou nada, nem um único bebé, a não ser um lindo órgão, o que me comunicou da seguinte maneira: "Se eu não olhasse para a sua cara, dir-lhe-ia que fosse já fazer o quinto, porque tem o útero de uma jovem". Fiquei sem perceber se aquilo era um elogio, ou se ela só trocou a ordem dos factores, que não é arbitrária: "Se eu não olhasse para o seu útero, dir-lhe-ia que fosse já fazer o quinto, porque tem a cara de uma jovem". Pronto, lá paguei o preço de um órgão qualquer e vim-me embora mais ou menos contente porque carrego um útero jovem, apesar de isso não se ver à vista desarmada (nem armada aos cucos). 

Por falar nisso, há meses que tenho dois sonhos recorrentes: num, estou grávida do quinto filho, toda a gente me diz que sou demasiado velha e não tenho saúde para o ter, mas eu persisto. O único problema que me assiste no sonho é que a minha barriga, ao contrário do que se passou com as anteriores quatro, não cresce. Mas o bebé nasce, pequenino e magrinho, e faz-me a mim a mulher mais feliz do mundo. No outro sonho, tenho as pernas cheias de pêlos e estou a preparar uma queixa (crime?) contra aquela loja que faz desaparecer a pelagem como que por magia, pim, pim, pim. Há pouco sonhei mesmo que dizia no sonho: "Estão a ver por que é que eu sonho tantas vezes que tenho pêlos nas pernas? É porque tenho!". Há que escalpelizar o significado destes sonhos. Fui à nettinha e fiquei na mesma. Para bebé, isto; para pêlos, isto

E assim acabo eu meu melhor ano desde 2021, e começo outro que, em não podendo ser ainda mais melhor, ao menos que seja igual (ao litro, que é sempre uma óptima medida). 

Um ano feliz a tutti quanti. 

 



18/12/2024

Eu tenho problemas com tudo # 39

Tinha um exame médico para fazer, para o qual, segundo a funcionária que me atendeu, devia ir com o intestino limpo, uma vez que, dessa forma, a senhora doutora vê melhor as imagens, sem nada que impeça. Perguntei: Blocos, calhaus?, rimos muito e desligámos. O exame não é intestinal nem estomacal, esta da tripa limpa é novidade, mas quero lá saber, façam-me o raio do coiso e não nos aborreçamos mutuamente.

Entro na farmácia, que frequento muito mais vezes do que gostaria, mas também é, e talvez por isso, um terreno meu, onde me sinto completamente em casa, verifico que estão quatro pessoas acercadas do balcão, duas são casal e já estão a ir-se embora, uma outra está a ser atendida e, num dos extremos, um senhor de idade, aparentemente à espera de alguém, enrolando em tubo um calendário de parede. Sou atendida na ponta oposta do balcão e digo a Jorge, pelo canto da boca: “Microlax, se faz favor”. Ele, exactamente da mesma forma, confirma: “Microlax?”. E eu, no mesmo tom: “Microlax. É que vou fazer um exame e tenho que levar os canos desentupidos, não sei porquê”. 

Nisto, o senhor que enrolava o calendário intromete-se no assunto e pergunta, alto e em excelente som, de modo a que se ouça, pelo menos, até à porta: “A senhora vai fazer um exame ao cocó?”. 

Considero que tenho muita sorte em ter um superpoder de improviso, encaixe, humor e abstracção, nomeadamente para o inesperado e o non sense. Primeiro gargalhei e imediatamente respondi, no mesmo tom: “Não senhor, não vou fazer um exame ao cocó”. Ana Teresa, aflitíssima, socorreu-me assim: “É para o teu filho mais novo, não é?”. “Não, é para o meu cão que, coitado, é muito preso. Não sei se é da trela ou das grades na janela”.


04/11/2024

Rabos e caudas

Tens uma coisinha branca a sair do rabo, disse-me ela assim, pouco depois do início de uma aula de alongamentos — em que uma pessoa se torce e retorce no chão, levanta perna, abre pernas, faz espargata, vira-se de rabo para cima, fica de gatas, reza a Alá, mesmo que Meca não seja para aquele lado, o povo do stretching é uma bússola, vira a raba para onde lhe dá na cabeça. Do rabo? Mas o quê? Pensava eu já que era o que realmente era, um bocado de papel higiénico, só não estava a perceber como é que tinha ido ali parar. Sobretudo, queria retirar a cauda, mas, por cambalhotas (metáfora) que desse, não a encontrava. 

A partir daí, passámos as duas a aula a rir, ela de gozo e eu de nervos, ou talvez ao contrário — visto que ela via e eu só imaginava —, muito em particular quando era suposto adoptarmos posições que envolvessem decúbito ventral. Eu vestia uma saia de paddle, que dão um jeitaço para uma pessoa se mexer à vontade, sobretudo na dança, pois têm uma cueca incorporada, esticam até caberem lá duas dentro e são de um conforto absurdo. Além disso, no meu caso em particular, não permitem que desidrate/ desmaie logo ao início da aula, pois, por conta e risco do anti-ressidivas, transpiro como um pugilista, salta-me água de todos os recantos da cabeça, braços e pernas (o resto está tapado, mas a m. é a mesma), se espirrar ou rebentar em águas ninguém dá por nada. Uma tristeza. Vejo-me obrigada a beber um litro de água durante uma aula de quarenta e cinco minutos, quando não logo a seguir mais meio litro, pois saio aos ziguezagues. Mas é preciso, como navegar. E viver também é preciso.

O assunto resolveu-se nos momentos finais da aula, quando era suposto fazermos a posição "happy baby" e eu decidi que dali não passava. Pés para cima, arranquei a fralda. 

Sou uma vítima de mim mesma. Isto explica-se assim: entre duas aulas, fui fazer chichi, mas forrei a sanita (farta de agachamentos ando eu, que aquilo queima as pernas e dói). Limpei-me como sempre, com uma toalhita, deixei-a no depósito próprio e segui caminho. Já de cauda a abanar, pelos vistos. A tal coisinha branca estava apenas presa no elástico da cueca. Podia ter sido uma vergonha inesquecível, se não tivesse sido comigo. Mas ainda fui contar ao professor e rimos até às lágrimas a propósito disso. 


22/05/2024

O meu percevejo

Admito que sou muito atreita: tudo vem ter comigo, ele é cães a ladrar, ele é teias dos plátanos, ele é até piolhos — foram duras, as duas vezes que me atacaram, pois passei as fases quase todas do luto, desde a negação (muito duradoura, enquanto eles picavam e eu dizia que tinha uma dermite não seborreica, como se isso existisse), até ter tido que saltar a fase da raiva e ter passado directamente para a da aceitação quando, uma noite em que dormia plácida, um deles se atreveu a passear na minha testa, oh, meu amigo, aquilo foi morte imediata para ele, e pânico sem botão onde carregar para mim. A única lição que retirei dessas duas pragas foi a de que mãe que apanha piolhos, é mãe que abraça e beija. As piolhosas são as melhores mães. 

Por razões que não interessa aqui explicar, mas há que dar umas dicas, no passado domingo fui visitar um dos meus velhinhos — já tenho muito poucos, o que significa que estou quase a tomar-lhes a vez — que tinha tido há semanas uma praga de percevejos em casa, mas coisa para afectar colchões, sofás, maples, enfim, toda a mobília com panos, cortinados incluídos. Mas tinha mesmo que lá ir: íamos buscar um carro e eram precisos dois condutores para o regresso. Além disso, acho que valeu a pena, porque consegui fazê-lo dar a maior gargalhada que algum dia lhe ouvi, quando a cadela da cuidadora, que já teve cancro da maminha e agora tem no estômago, se deitou aos pés dele e eu disse: "Deixa lá, querida, estamos as duas na mesma". 

Tinha perguntado à cuidadora se era seguro lá ir, ela que sim, que estava tudo muito limpinho, e que nem ela nem o senhor tinham picadas novas há semanas. Fui, um bocado desconfiada, lembrando-me do caos que foi em Paris, com hotéis a fechar, infestados da bicheza, o que até compreendo. Eu, se fosse hotel, também fechava, então ia arrendar quartos com animais lá dentro? Há mínimos. Mas associei o histerismo ao do papel higiénico na pandemia (e nós, fabricantes de papel higiénico, achámos o quê? Que íamos defecar sem parar enquanto estivéssemos confinados?). Sentei-me numa cadeira estofada e ali fiquei meia-hora, falando e rindo, tudo muito corriqueiro. Vai daí, saio lá de casa e sinto picos nas costas, assim como se elas fossem uma bebida com gás. Queixei-me a cônjuge, que me respondeu que "isso é psicossomático". Pois, não eram as costas dele. 

Fiz a viagem de oitenta quilómetros, pica, pica, pica, mas cheguei inteira, apenas com menos milionésimos de mililitros de sangue no corpo. No dia seguinte, as minhas costas pareciam as de um adolescente, tive mesmo vontade de ir para a praia a sentir-me jovem, sei lá. Em vez disso: lençóis de cama, resguardo e toda a roupa branca que tinha usado no dia anterior, tudo para a máquina a 60º, a roupa preta usada naquele dia, para o congelador por quatro dias (ainda lá está, vou cheirar a lombinho e a almôndegas por uns tempos), secador do cabelo no colchão, no sofá onde tinha estado, na cadeira do condutor, pomada de cortisona, anti-histamínico (que não faça dormir, senão nem um terramoto me acorda), creme para as comichões ao preço de um metro de intestino delgado, e vá lá que não me mandaram enfiar numa banheira cheia de enxofre. 

O que é certo é que não apareceu bicho nenhum, as borbulhas não alastraram e estão a secar. O meu percevejo era macho — caso contrário, ter-me-ia deixado bebés nas costas, e nada. Seria uma fêmea estéril? Nunca saberei —, pouco fiel à pessoa, mas muito à santa terrinha, o que, na essência, foi a melhor opção. Eu não poderia aturá-lo por muito tempo, acabaríamos à briga, um de nós teria que morrer e era demasiado trágico para arriscar tal cenário.

Adeus Percy*, até nunca mais.


* Percy: Significa “furar barreiras”, “perfurar cercos” ou “filho do fogo”. Inicialmente, Percy foi um sobrenome inglês toponímico, derivado de uma cidade normanda chamada Perci-en-Auge. Este era um sobrenome bastante comum entre a nobreza inglesa.

Fonte: https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/percy/

04/01/2024

Post com dois assuntos cientificamente relevantes

Tenho um clube de formigas extremamente pequenas no lar. Deslocam-se em carreiros, desconheço onde é o formigueiro, mas já salvei a vida a umas dezenas delas. É que se afogam numa gota de água, apesar de terem uma resistência louvável. (Nem sei se têm pulmões, mas devem ter.) Ontem estava a beber água por um copo, espreito lá para dentro e vejo uma delas, muito sossegadinha, muito quietinha. Considerei preferível verificar se morta, se viva, mas a fulana não me agarrava o dedo, para que eu pudesse colocá-la numa folha de papel de cozinha e devolvê-la às manas. Peguei então numa colher e retirei-a do oceano. Pensei mesmo que estivesse morta, porque continuou inerte. Quando a ia passar para o papel, vi mexer uma patita, mas ela não largava a colher molhada. Insisti na manobra e deve ter sido aí que a torci um bocado, pois aterrou no papel toda torta e baralhada. Também podia estar em pré-afogamento, coitada. Destorceu-se, endireitou-se e lá seguiu caminho toda manca, à procura das outras. E bebi a água, sim, que a vida não está para finuras.

Mas não era a isto que eu vinha, embora o tema formigas ainda não esteja esgotado. Fica para o último parágrafo.

Hoje entrei na quinta dimensão. Estava a cozer uns lombos de pescada na Biby — que ela coze pessimamente — e na receita mandava guardar a água da cozedura para depois a misturar com uma poção qualquer que já estava em preparação no meu caldeirão. Pus um coiso de palha por baixo do jarro e vai de verter o precioso líquido lá para dentro. Quando chegou à última gota, pás!, explodiu como que dinamitado. Pensando bem, acho que implodiu. Sei que era vidros por todo o chão da cozinha que chegavam ao corredor. E meio litro de água perfumada de peixe, que se transformou em cinco litros, pois era a minha calça, o meu pé e respectiva chinela (desculpem, mas tenho que acabar com este mito rural: eu sou como as outras pessoas. Ou pior), era o chão, era toda a bancada e a derramar-se para dentro das gavetas e armários. Valeu-me minha Sandra que, quando faço uma refeição em vez dela, até se lambe, parece que ainda tem maior ensejo para dar à matraca. Lado bom: ninguém se magoou, nem sequer com aqueles vidrinhos do tamanho da minha formiga (é assim que o cosmos me agradece) e também, menos um mono.

De vez em quando sinto um bichinho a passear pela minha testa, junto à raiz do cabelo. Depois desce, passa-me pelo nariz a atira-se em bungee jumping para o meu ombro. Há dias percebi que era uma formiga das minhas, se calhar veio agradecer-me ter salvo a coxa.

Hoje estava nas minhas danças e lá sinto outra vez um bicho pequeno a percorrer a minha raiz do cabelo. Sacudi com cuidado, para não assustar o animal nem o lesar e disse para a que estava atrás de mim: “Tenho formigas na cabeça”, que há-de ter sido a frase mais esquizofrénica que proferi na vida. Ela desesperadamente a tentar disfarçar o seu incómodo, “Pode ser algum champô que estás a usar”, mas eram de aflição os olhos dela quando eu esclareci: “Tenho imensas formigas em casa, nunca tinha visto umas tão pequeninas e, de vez em quando, uma ou outra vem passear na minha cabeça.”

04/12/2023

Parque de estacionamento - 1; Linda Blue - 0

A pessoa até já vai nervosa quando se acerca de um parque de estacionamento. Tinha mais uma consulta das centenas que já tive, esta para verificar se o braço está mais gordo do que o outro ou não. Vivo um bocado aterrorizada com a ideia, porque, caso se verifique, vou deixar de saber que número visto. Nada é impossível comigo: tive um pé maior do que o outro durante anos a fio, agora o maior encolheu e passei a calçar o número abaixo [já vi desculpas melhores para renovar o calçado todo], ou seja, todos os sapatos me chinelam, e isso provoca umas dores que ninguém supõe, uma vez que tenho que fazer imensa força com os dedos para que não me caia um sapato nalguma escada rolante, venha um príncipe atrás de mim e tenha que lhe aventar com o outro para correr mais agilmente.

A facilidade com que me perco nos assuntos. Pareço o tio das Derry Girls

Aproximei-me do parque, esperei pacientemente a minha vez (porque tinha tempo, pois aquela lesmice só dá vontade de uma pessoa perder o amor ao carro e empurrar os caracóis todos para dentro do parque), depois chegou o cruel momento em que tive que abrir o vidro e esticar o braço ao máximo e, mais uma vez, faltava-me cerca de um Danoninho para chegar ao botão da Via Verde. Veio imediatamente um cavalheiro muito solícito, e, sem eu lhe pedir nada, espeta o dedo em "retirar ticket", enquanto eu digo "Via Verde, por favor". O bilhete saiu mesmo, mas a teimosa até ganhou braço, qual Senhora Incrível, e pumba no botão verde. A cancelinha abriu, eu acenei gudebai ao senhor, ele de bilhete no ar, "O que é que eu faço a isto?", "Deite fora, que eu saio com a Via Verde". Estacionei Rosinha de forma a revelar o meu TOC — carro direito e com as exactas distâncias entre os extremos do dito e o tamanho do lugar —, saí um bocado contrariada porque o pavimento era daquele cheio de hexagoninhos, que qualquer humano que tenha calçado uns saltos altos joga ali um bocado à roleta russa, "a ver se o raio do salto não se mete nos buracos desta m.", mas avancei. Ao passar pela casota onde se esconde um senhor que já está irascível às nove da manhã, deu-me cá aquela dúvida "e se...?", sabem? Lá fui gritar para o acrílico que nos separava: "Bla, bla, bla, um senhor tirou um bilhete, bla, bla", e ele estende-me um cartãozito, "É este, minha senhora. A senhora não saía do parque com a Via Verde, porque tem prioridade a primeira escolha". Olha que bem pensado, existe sempre a possibilidade de alguém se pôr a tocar piano com os botões daquela coisa. Lá lhe agradeci e fui-me, na direcção da entrada do parque quando, de repente, vejo uma barra enorme na direcção da minha cabeça e só tenho tempo de dar um salto para o lado e dizer "Ai!". Sinceramente, em que mundo estamos? A ver se alguém me avisou. Se calhar, queriam ver o que é que acontece quando uma pessoa leva com a trave na mona. Eu também apreciava visionar os carros deles a levarem com aquilo no tejadilho. Será que tem uma lâmina, qual guilhotina? Fiquei a pensar nisso, seria coisa para me deixar para ali rachadinha nos meio. Mas não, como cheguei à consulta com as duas metades agarradas, tive a grata notícia de que os braços continuam da mesma absurda grossura. Ordens da médica: "Dance, dance, dance". Pelo menos, não me disse "Faça flexões, pranchas e burpees", senão também não me apanhava lá outra vez. 


15/11/2023

O universo também não ajuda nada

Fui a uma palestra sobre alimentação de senhoras que tiveram cancro da mama, no âmbito de um programa em que me inseriram. Deixei Rosinha, minha canoa, num parque ao ar livre, porém debaixo de uma passagem superior. Lá chegada, sentei-me, observei as restantes pré-palestradas, todas significativamente mais velhas do que eu, menos uma, que é a que tem o ondulado mais bonito de todas. A primeira vez que a vi, perguntei-lhe se era consequência dos tratamentos (o cabelo renasce com outra textura e, às vezes, outra cor. O meu veio encaracolado e branco, vá-se lá explicar esta última). Ela respondeu-me que sempre o teve assim, e eu anunciei-lhe, como se ela soubesse o truque: “Eu quero igualzinho”. Nas outras, vi muitos edemas, muito peso a mais (por falar nisso, as minhas calças 38 deixaram todas de me servir, comprei umas 40, agora caem-me), muita grisalha, muito sobretudo num dia não tão frio que justificasse. A palestra foi dada por uma nutricionista magra (aleluia!) e, basicamente, era a explicação da roda dos alimentos: o que podemos ingerir, o que não podemos e em que quantidades. Tirei imensos apontamentos, a minha letra foi diminuindo de tamanho até quase chegar a invisível. Tenho a motricidade fina toda lixada. Saí muito esclarecida e pouco convicta de que me vou meter naquela prisão redonda só para ter mais alguns anos de vida. Engordei para aí uns três quilos nestes dois anos,  provavelmente derivados dos tratamentos e da pastilhagem diária, mas não vou amandar-me a um poço a propósito. Danço cinco vezes por semana, é essa a minha roda.

Mas não era a isto que eu vinha. Chego ao parque de estacionamento, coloco o bilhete lá naquela coisinha óptica e diz a máquina: “bilhete inválido”. Entretanto, formava-se uma bichinha atrás de mim, tudo muito solidário, “Ai, agora como é que a senhora sai daqui?”, “A senhora venha atrás do meu e, quando a cancela abrir, passamos juntos” (eu já a ver-me finada, degolada por uma cancela de parque de estacionamento), “A senhora peça ajuda”, já eu ligara para cônjuge, “O que é que queres que eu faça? Vem para casa e amanhã vais aí buscá-lo” (a ver se não me esqueço de o retirar dos contactos de emergência), já eu premia com todas as forças de meu indicador o botão de SOS da máquina e nada, o homem devia estar a dormir lá dentro, já eu ligava para os dois números de assistência, um não atendia, o outro dizia que só funcionavam num raio de um horário que, obviamente, não incluía o meu. Tentei outra vez na porra óptica, “bilhete inválido”, Cristo, que merdas tão grandes que só a mim sucedem. Carreguei então de novo no botão de SOS e lá hei-de ter acordado o humano, “O senhor desculpe…”, “Ó minha senhora, eu estou a trabalhar” [ninguém diria, há dez minutos, se calhar tinhas ido fazer cocó enquanto eu me espremia aqui dos nervos]. Mas foi útil. Fez-me ler o bilhete todo, hora de entrada, número de código, nome do parque. “A senhora está no parque errado”, ah, eureka, fico-lhe muito agradecida e até estimo que a sua inoportuna evacuação tenha decorrido pelo melhor. Mas a sério, fiquei desconfiada que mudaram os parques de lugar só para medirem a minha capacidade de sair de uma situação.

Quanto a mim, não sei se estou pior ou só mais velha.

12/09/2023

O já velho e eterno problema de fazer uma mala condigna

Vamos aceitar sem cerimónias que não sei fazer malas. Desta vez, despejei a gaveta das cuecas para dentro da dita, levei o dobro dos biquínis para os dias que ia ficar, levei apenas uns calções e uns ténis, um vestido para cada dia e umas calças caso chovesse, apenas uma parte de cima de pijama e seis de baixo e zupa com ela. Resultado: voltei com dezenas de cuecas limpas, usei todos os biquínis porque me dava ao luxo de fazer pausa de almoço, passei o tempo a lavar os calções de treino no bidé do quarto pois frequentei o ginásio até ao estoiro (dois quilómetros de cada vez na passadeira transformavam-me numa torneira de suor, o que vale é que não cheiro. A retirada de gânglios não tem só coisas más e a outra axila solidariza-se e também não cheira), usei as calças porque choveu mesmo, e tive que improvisar pijamas com t-shirts giríssimas que tenho. 
Este ano fiz férias no sul da nossa Espanha, escapando airosamente ao sul daquele Portugal seboso e chineleiro, que adora fazer filas para tudo, até para o pão que o diabo amassou. Do lado de lá, sessenta por cento dos hóspedes eram portugueses, o que também não é só vantagens. Queres perceber onde está um português, nem que seja na China? É o homenzinho que tropeça. É o que desconhece em absoluto a noção de espaço vital e fala alto e escuta tudo o que dizes. É o que come três pães ao pequeno-almoço, ou então ovos mexidos com um estrelado (saw it) e fatias de pão com bacon. Eu comi todos os dias um Donut, ora pequenino, ora grande, ora médio. Bem feita que me venha parar tudo ao donut pneu. 
No geral, a Península Ibérica é uma fartazana de varizes e celulite, e não é só nas mulheres. Mas as criaturas estão tranquilas com aquilo, quem sou eu para me ralar?
No geral, apreciei assaz as férias. Fiz muita praia, num mar que até permitia nadar, muita piscina, apanhei muito sol e a minha pele não berrou que só tem um ano de radioterapia, o meu cabelo não ficou com aquela cor de cocker spaniel (muito protector, muito chapéu), dormi e comi em excesso mas não pus um grama (devo ser muito criteriosa ou tenho uma balança burra), não bebi senão água e cerveja sem álcool. É por estas e por outras que julgo que um dia me canonizam, nem que seja à força.
No regresso, porque perdemos uma hora para fazer dez quilómetros derivados a um acidente (um carro foi parar ao talude, desconheço como é que se faz semelhante manobra) e tínhamos, ao todo, para almoço, quatro barrinhas de cenoura, dois Actimel* (ou Actimeis, como diz o povo), um pacote de batatas fritas com sabor a ketchup e um chocolate branco, para além de um pequeno saco de ração para gatinhos, porque nos tomámos de amores por uma gata com uns dois meses, que baptizei de Mira. Repartimos aquilo tudo, prescindindo da ração, mais porque ficámos empanturramos com a mistura anterior, e foi o nosso almoço, já não havia cá tempo para paragens. Não percebo como é que o meu aparelho digestivo não me manda à merda. 

* NMPPI

01/01/2023

Só desgraças

Antevéspera de Ano Novo e a desgraçadinha do costume a sentir um incómodo todo o dia, idas ao chichi de vinte em vinte minutos, ai isto são nervos (mas de que mais?), ai ando a beber demasiada água, ai devo estar a ficar incontinente, depois era aquela dorzinha, aquela vontade de desmaiar na loja — pudera, quem não, com um casal horrendo à minha frente com dois filhos horrendos a demorarem uma eternidade para trocarem não sei que merda por um sutiã de cetim azul escuro com uma rendinha parolíssima, pináculo da sensualidade para ele (?), que dançava (pessimamente) ao som da música ambiente da loja —, todo um cenário que me disse: “Vai ao hospital, histérica, depois mete-se o Ano Novo [aprecio a expressão] e já a tua infecção te chegou ao cérebro”, porque eu sou eu e eu sou essa, que anda sempre a desafiar a septicémia, e foi assim que, à hora de jantar, pouco mais ou menos, vi na nettinha qual o que levava menos tempo a atender-me e ala para as Descobertas, qual conquistador. Lá chegada, sou logo avisada que, afinal, o tempo de espera são duas horas. Bem gemi ao enfermeiro que necessitava de uma pulseira amarela (até porque combinava melhor com o vestido do dia), mas o implacável algemou-me com uma verde. Há-de ser lagarto, com certeza. Ou estava nauseado por estar a trabalhar na antevéspera de Ano Novo, esquecido do quão aborrecido é estar doente nesse mesmo dia. Se calhar, preferia trocar comigo.

Aguardei exactamente duas horas, durante as quais aturei um excitado casal italiano, que berrava e gargalhava, ou seja, me impediu de, ao menos, dormitar um nico. Estou neste ponto de velhice. O excitado tinha pulseira amarela, o que me levou a concluir pela xenofobia do enfermeiro da triagem em relação à minha pessoa. Depois fui atendida por um médico em cerca de quatro minutos, que confirmou o meu diagnóstico e me receitou, assim como me mandou fazer urinocultura. O enfermeiro que me recebeu apresentou-me um frasquinho anatomicamente adequado para recolher urina a um recém-nascido rapaz, e perguntou-me assim: “Já alguma vez fez colheita de urina asséptica?”, veio-me a vontadinha de responder: “Fiz quatro cesarianas, quimioterapia, radioterapia, tamponamento nasal e mais mil porras, mas realmente recolher urina é que nunca”. Ao invés, respondi: “Sim. Tenho que me lavar primeiro, deitar fora as primeiras pingas de chichi e depois encher esse frasquinho minúsculo, no qual me será impossível acertar”. Afinal, não. O homem explicou-me todo o processo com uns pormenores sórdidos de tal forma, que só pensei: “Não acredito que estou a ter esta conversa com um estranho”. Depois de praticar diversas posições de ioga na casa de banho do hospital, fui aviar a receita do médico, tomei o antibiótico e, passada uma hora e meia, já em casa, tive um ataque de frio que me pôs os dentes a bater como castanholas e me levou a ponderar que me finaria em breve, tipo em minutos, mas isto já no dia 31. Mesmo à parva, falecer no último dia do ano. Pelo menos, fiquei a saber o que sente uma pessoa que morre de frio. 

Calma. O importante é que entrei em 2023 recuperada deste desaire. A ver se o ano não me é tão padrasto como o anterior. Chiça penico.



30/08/2022

Eu tenho problemas com médicos # 31

Tenho quase a certezinha absoluta que, se conhecesse uma pessoa como eu, fugia dela a sete ou oito pés. Há dias, como hoje, em que pareço desvairada.

Hoje foi dia de tratamento plus consulta. Entrei no serviço um nico desmoralizada, com receio de que me acontecesse o mesmo que ontem: sorvi uma hora de espera naquele salão inóspito. Mais do que a doença, custam os tratamentos; mais do que os tratamentos, custam as esperas. Porém, nem teriam passado cinco minutos de me ter posto com cara de sala de hospital — a explorar sites de roupa bonita — quando ouço o meu nome no altifalante, a chamar para o tratamento. Rápido, como sempre (a não ser naqueles segundos em que não posso respirar e só me passam disparates pela cabeça, para além das placas da máquina), lá fui para o vestiário preparar-me para voltar ao salão e esperar duas horas pela consulta. Ainda só tinha puxado o fecho (nas costas) do vestido, ouço o meu nome a ser chamado para o gabinete oito, enfiei Natércia até aos sobrolhos e, ainda com o colar na mão, dei mais corda à alpercata corredor afora, na gula de não perder a vez. Dez metros volvidos, entro de rompante no gabinete do médico, “Ai, desculpe, senhor doutor, mas é que estava no vestiário e ouvi o meu nome”, tudo isto enquanto endireitava Natércia, sem espelho nem nada. (Devo ter posto o risco ao meio, que é para aí o pior penteado de sempre para mim, fico a parecer o John Lennon. Ou a Yoko Ono.) O médico consultou-me em cerca de três minutos — sem queixas —, quis ver a minha pele — sem queimaduras —, pelo que comecei a preparar-me para me ir embora. Puxei outra vez o fecho do vestido (saudades do meu cirurgião, que sempre mos desceu e subiu, com a desculpa de que essa é uma das tarefas para as quais um homem serve), quando reparei que tinha atirado o sutiã para cima da marquesa, para onde lançara também a mala de mão e a pasta com os cartões necessários. Já não podia, porque não queria, voltar a abrir o fecho do vestido. Azar meu: as minhas malas de mão são minimalistas, cabe lá dentro o telemóvel, as chaves de casa e carro e uma nota de quinhentos euros, mais nada. Sorte minha: tenho ordens para só usar sutiãs sem arames, portanto foi só amachucá-lo o melhor possível e sair de telemóvel na mão. Nem imagino o que teria feito se levasse um desses com arames e caixas. Se calhar, tinha que esquecê-lo e deitá-lo para o cesto dos papéis. Teria sido tão mais constrangedor. Assim, foi só engraçado, ver a cara do médico.



28/07/2022

The radio star

Acho que me criaram expectativas demasiado altas, ai que aquilo não custa nada, ai que é só deitares-te lá e esperares que o tempo passe, ai que são quinze minutos e está feito, tudo muito cheio de ais, seguidos da peta.

A sala de espera, onde permaneci para lá de uma hora (ninguém me manda chegar mais cedo, mas quarenta e cinco minutos foram derivados ao atraso no atendimento), é uma caixa de gritos. As únicas pessoas silenciosas eram quatro mulheres daquela etnia que Deus me livre dizer o nome — não venham de lá os histericofóbicos e me soltem os cães —, cônjuge e eu própria. Quer dizer, nunca me calei, mas porque tive sempre urgências para debater, e tudo num tom aceitável. Entraram dois bombeiros daqueles do transporte de doentes, que suponho que o maior incêndio que viram na vida foi o de algum fósforo que acenderam lá por casa, não desmerecendo nas suas funções, mas que fizeram um chavascal de tal modo — porque se puseram a conversar com pessoas na sala, ao invés de tratarem do assunto que ali os levava —, que o homem do altifalante teve que gritar “Silêncio na sala!”, parecia mesmo um juiz zangado em plena audiência, usando aquele sistema de som dos hospitais públicos, cheio de ruído e zero de percepção. (Eu só percebi porque precisamente a mesma frase já me gritava aos ouvidos há bastantes minutos.)

Depois lá me chamaram. Estava a estrear um vestido lilás para me dar sorte. Foi nada, apeteceu-me comprá-lo e ir dressed to impress com alguma moderação. Logo passou uma enfermeira por mim, que disse: “Que senhora tão bonita!”, o que me fez encolher porque não incho, mas registei a parte do “senhora”. Sou uma bruta, porém sorri e agradeci. Na verdade, estou cansada de ser bonita, linda e querida. Queria só sair deste pesadelo, dá licença?

Depois foi despir, deitar numa marquesa que parece uma cama ginecológica, mas ao contrário — os estribos são para pôr os braços, não os pés — e obedecer a ordens: respire normalmente, encha o peito de ar, tranque a respiração (uma eternidade de quarenta segundos que parecem duas horas), pode soltar o ar todo (sorte delas que eu não sou dada à flatulência e compreendi de que ar se tratava), isto por cinco ou seis vezes, p. da minha sorte, que nem a radioterapia pode ser feita a limar as unhas. Mais depressa fazia duas sessões de quimioterapia do que uma disto, embora não queira voltar para lá, hã? Lagarto, lagarto. Mas isso sou eu, que tenho a mania que sou diferente. 

Já só faltam vinte e nove iguais às acima descritas. Logo à noite já serão só vinte e oito.



14/06/2022

Eu tenho problemas com médicos # 30

Dúvidas houvesse, a minha vida dava um filme de cinema do piolho: Covid, aquele vírus, caçou-me de novo na curva. O jeito que dá desta vez, nem comento. 
Acontece que tinha uma bola de líquido (soro com sangue) a formar-se na axila, sei lá se de um dreno precocemente retirado. Vai disto, faço contas à minha vida, isolamento até sexta, penso marcado para quarta, e, não querendo quebrar o recolhimento, e após chamada para o Saúde 24, ponho-me em Santa Maria em menos de nada. Ia com instruções para me dirigir à Urgência Central ou à Oncologia, e comecei pela primeira. A macha antipática do guichet, mal ouviu falar em Covid, mandou-me para o covidário e eu lá fui. Estavam para aí 38º Celsius e umas seis pessoas cá fora, de entre as quais uma mulher gorda esparramada (toda reclinada para trás, a apanhar a fresca) numa cadeira de rodas, da qual claramente não necessitava. Tinha cabelos — crespos, espigados e secos — cor-de-rosa choque. Em choque, bati à porta do covidário e veio logo uma parola atrás de mim, na fuçanga de que a madame ia passar à frente do povo, a querer armar a p., logo com quem. Ignorei-a. De qualquer maneira, a enfermeira — de mãos nas ancas, como deve ser obrigatório naquele contentor da lepra —, perguntou-me com muito mau modo onde é que eu ia, e ordenou que tinha que esperar a minha vez. Gosto de evidências destas, especialmente vindas de pessoal que não tem pachorra para a vida em geral e para o seu trabalho em particular. Eu, submissa, "Ó senhora enfermeira, eu só preciso de saber se fico aqui ou se vou para a Oncologia", vai ela e diz que tem as seis boxes cheias e que ainda nenhum daqueles doentes foi visto. Lá fiz contas outra vez, lembrei-me que o ano passado estive na boxe dez horas (true, true, 10:00/20:00) até ser internada, ora dez mais dez, a contar com os que estavam lá fora, são vinte horas de espera, por isso despedi-me delicadamente da varina enfermeira e fui espreitar a sala de espera, o que constitui uma triste metáfora, pois trata-se de outro contentor, mas sem ar condicionado, quer dizer, primeiro assam os doentes, depois é que os metem na boxe (que é gélida, portanto a ideia é o choque térmico). Estavam lá dentro, acho que ainda vivas, umas quinze pessoas, por isso voei para o hospital privado da minha eleição, onde fui atendida em menos de quinze minutos, um fresquinho de dar gosto, tudo tão limpinho que pensei que tivesse morrido e aquilo fosse o Paraíso. Mas não era. Fui atendida por um médico pigmeu, cuja farda do hospital lhe estava tão grande que as calças arrastavam por baixo dos sapatos (não têm o XXS, está visto), mudo como uma porta, ao qual expliquei (quase) tudo o que me atormentava no momento. Ele ouviu com aparente atenção, escreveu tudo num papelinho muito pequenino, em letra extremamente miudinha, e concluiu assim a consulta: "Eu vou chamar a Cirurgia Plástica". Também podia ter dito a Estomatologia, que o meu espanto não seria maior, mas já estava por tudo, chamasse também a P.E. e os bombeiros de Algés. Entretanto, um enfermeiro chamou-me, arrancou-me da veia um canhão de sangue, levaram-me a outro piso para fazer um raio-x ao tórax (tudo a ver com o que me levava lá, obviamente), veio uma médica que viu a minha bola da sovaca e disse que "aguenta até quarta-feira" (sem rebentar?), e saí de lá com menos 96 pacas na conta do banco, mas, se não aliviada, pelo menos muito mais confusa.

23/04/2022

Destravada

Tínhamos como intenção, minha Rosinha e eu, estacionar num parque de estacionamento de um supermercado, lado-a-lado com o carro de outro condutor que acabara de fazer a mesmíssima manobra. E assim fizemos. O senhor saiu da viatura dele, foi ao porta-bagagens remexer não sei em quê, quando me apercebi de que o carro dele estava a andar sozinho, recuando na sua direcção. Curiosamente, o homem também deslizava para trás, numa óbvia impossibilidade de ser colhido pelo próprio automóvel, como se ambos estivessem em cima de um tapete rolante, ou a fazer moonwalk, sempre à retaguarda. Mas o que é que o neurónio louro/ ansioso/ incapaz de raciocinar algo que não seja sempre A tragédia, processou logo? “O homem vai aqui morrer esmagado pelo próprio carro à minha frente e eu não terei movido uma palha para o evitar”. Mais nada, isto logo pela manhã, quase madrugada, eram umas 10:30. Então, vai de reagir, como faço sempre nas situações de pânico (mesmo naquelas que não são, como se verá pelo exemplo desta), valha-me ao menos isso, que não sou dessas que “ai, eu paraliso”, ou seja, “mais um mono para carregar se houver um incêndio, estúpida”. Bati no meu próprio vidro, já que não conseguia abri-lo (motor desligado), tentei apitar (motor desligado), e, quando tomei a decisão que considerei certa — abrir a porta e gritar-lhe que tinha o carro destravado —, já o homenzinho podia estar falecido sob sua máquina, mas ao menos eu tentara salvá-lo e isso, parecendo que não, conta pontos não sei aonde. Mas não, ele continuava a mexer no interior do porta-bagagens, recuando à medida exacta em que o carro dele recuava. 

Percebi, nesse momento, que era eu quem tinha o travão de mão desligado e que Rosinha avançava, felizmente sem que houvesse qualquer obstáculo à nossa frente, caso contrário lá se teria ido com os porcos mais um pára-choques (que é para isso que eles servem, literalmente).

Moral da história? Acho que não há. Pus um chapéu sobre Natércia, para me disfarçar de Greta Garbo, ainda me cruzei várias vezes com o senhor nos corredores do supermercado, ponderei desculpar-me com a seguinte frase: “Afinal, a destravada era eu”, mas o ar atónito da figura de cada vez que me encarava era tal, que deixei para uma próxima.


16/04/2022

Pilosidades oculares

Hoje pus pestanas postiças pela primeira vez na minha vida. Quer dizer, já tinha experimentado, mas a própria colocação havia-se revelado algo de parecido entre uma luta de cola, pêlos rígidos e nervos, com um resultado final não muito longe do que conseguiria a traveca de Almada, pestanas gigantescas à drag queen, as da direita coladas para um lado e as da esquerda para o outro, quase a meio da pálpebra, só faltava colá-las na testa. 
Na perspectiva de ficar sem as minhas, mandei vir umas especiais de corrida, naturais (com tamanho próprio para mulher), elaboradas por alguém sobrevivente a um cancro, o que, se nada garante quanto à eficácia do produto, pelo menos dá-lhe uma credibilidade acrescida relativamente às pestanas que parecem capachos extensões, que ainda estou para saber como é que alguém aguenta aquilo dependurado das pálpebras por cinco minutos que seja.
Correu mal, a minha enésima tentativa e primeira colocação. Estava enervada de me ver, de dia para dia, com menos pestanas. E a não caírem simetricamente, o que só estimulava o meu TOC com assimetrias: caíam mais da pálpebra superior direita e da inferior esquerda, mas isto faz alguma lógica? Deviam cair só as de baixo, ou então na mesma proporção à esquerda e à direita. Não, uma desarrumação impossível de disfarçar com rímel, uma indómita vontade de cortar tudo rente.
Enfim, hoje acordei determinada. Tenho um jantar com amigos — só para que conste, eu tenho amigos e que jantam comigo —, e, já que tenho que ir com as unhas todas negras, cabelo postiço e sobrancelhas pintadas, ao menos que leve pestanas nos olhos. Já não digo buço.
Aquilo tem um autocolante transparente, “invisível”, que até dá para maquilhar por cima. Mas a aplicação é o mesmo drama que é para qualquer par de pestanas postiças: são dedos a mais, pelinhos que se entortam, a cola é sempre necessária porque a curvatura das postiças nunca corresponde à da nossa pálpebra e as pontas ficam espetadas, a pessoa usa pinça (correndo o risco de espetá-la num olho e ficar invisual à custa de), prega com o pelame no sítio errado da pálpebra, descobre rugas que nem sabia que tinha (ou nasceram entretanto, com tanta contrariedade), toda uma briga entre a nossa minha teimosia e a necessidade de me sentir bela. 
Levei uma hora nisto. Aguentei, posteriormente, outra hora com elas “postas”, a sentir picar em todo o globo, um peso nas pálpebras superiores que parecia aquelas actrizes de Hollywood dos anos 50’s do século passado (só me faltava a cigarrilha), que não conseguiam abrir mais do que meio olho, uma sensação de estar pejada de remelas, pronto, arranquei tudo. Vou jantar com as poucas pestanas que ainda tenho, ou então meto uns óculos de sol e digo que estou com fotossensibilidade, derivados do luar.