03/12/2022

De onde vieste?

E lá fui eu para mais um exame, desta vez para verificar o motor de todas as emoções, vestido rosa forte, comprado na mais alta fraqueza dos tratamentos, no auge da vaidade, nunca me lembro de ter enchido tanto e em tão pouco tempo o guarda-roupa como na época da quimioterapia. Ia de saltos altos, sapatos quase novos que só muito recentemente pude voltar a usar, apesar de me ser conveniente não abusar da sorte, fazendo caminhadas com eles. 

Pergunto onde fica o serviço dos ecocardiogramas, a funcionária indica-me “à direita, a senhora percorre aquele corredor todo até ao fundo e depois é no último serviço, à esquerda”. Parece fácil até dobrar a esquina e aperceber-me de que o dito corredor tem uns bons cem metros de comprimento, mas quem diabos constrói um corredor daquele tamanho? Quase é necessário ir de carro, ou de patins. Não tendo um nem outros ali à mão, dou corda aos saltos altos e ala por ali afora, passando serviços vários, uma cafetaria, pessoas plantadas aleatoriamente como num cenário estático, algumas em cadeira de rodas, uma ou outra maca, cabeças virando-se na direcção da minha autoconfiança, não sei se foi bom, teria sido noutro lugar. Lá chegada, diz-me a que me atende que estou enganada, que o que eu quero está na outra ponta do mesmo corredor, reclamo que o hospital não tem um croquis na internet, não me sai disparate mais deslocado, rodo os calcanhares sem continência e acelero em direcção à casa de partida, pois a hora do exame aproxima-se a passos muito mais largos do que os meus. 

Sou atendida por uma técnica neutra, mas seca, olhar duro, que me ordena que me dispa da cintura para cima e me deite. Pergunta-me o nome completo, vê a minha ficha no computador e transfigura-se, agora a voz é suave e os modos são carinhosos. Diz-me: “O seu coraçãozinho está muito bem”, porque só vê o órgão. Falamos de cancro, de genética, de coincidências, pergunta-me se tive casos na família, que não, sou a primeira e espero que a última, “Onde é que eu fui buscar o meu cancro? Onde é que ele me apanhou? Será que também não dei uma ajudinha? Nunca vou saber.”, e então ela responde-me esta coisa extraordinária: “Às vezes é a tristeza que o traz.”


01/12/2022

La voce del sangue

Porque precisava de saber e me apetecia, fiz um teste de ADN, cujo resultado foi uma enormíssima surpresa, mas que também explicou a aura de mistério que rodeava esta pessoa humana. Esperava Angola, Moçambique, não Goa e Macau nem Timor, pois nunca fui um conquistadooooor, alguma carga de espanhola, de onde nem bom vento, quem sabe francesa, quiçá uma ancestral avec sa valise en carton, mas tudo ao lado: quarenta e quatro e um nico por cento ibérica, que nem a metade chega, onze por cento norte-africana (marroquina, argelina, egípcia? Prefiro esta última, walk like an egyptian), vinte por cento e uns pós de irlandesa, escocesa, galesa (assim se explicam os trezentos kilts que tive até aos onze anos), e depois uns surpreendentes vinte e quatro, vírgula sete por cento italiana. 

Agora entendo que tenha andado uma vida inteira a dizer que um dia queria aprender Italiano. E um dia fui mesmo. Paolo, mio professore, perguntou certa vez à turma por que é que ali estávamos. Tudo com boas desculpas: por exemplo, uma ia fazer Erasmus em Verona, duas eram italo-brasileiras, outro era professor da Faculdade de Letras, e vai aqui a dengosa e responde “Per amore della lingua italiana”, imagine-se. Mal sabia eu e também Paolo que, afinal, uma quarta parte de mim lhe é conterrânea, o que, numa perspectiva longitudinal, tanto pode ser metade da cabeça e do tronco até ao umbigo como daí para baixo, ou, transversalmente, a cabeça e ombros, e depois nem quero considerar qual das outras três partes é a italiana. Pelo menos um braço ou uma perna, são. Lasciatemi.




22/11/2022

Qualquer dia metem-me uma camisa de forças

Foi a segunda consulta com o dentista dos olhos bonitos desde que acabei os tratamentos. Isto, para explicar por que é que fui lá duas vezes no espaço de um mês e meio: havia-me queixado de que um dos dentes de baixo estava a sair do lugar onde os ferros que ele me pôs o tinham colocado e ele disse-me que me ia pôr um bracket. Por acaso, estudei a questão no Google, a ver se percebia como é que se prende um único bracket e não tirei conclusão nenhuma, pois tal possibilidade nem sequer existe. Mas siga.

(Eu sou aquela pessoa que tirou o aparelho semanas antes de começar uma pandemia a nível mundial e se viu obrigada a usar máscara.)

O dentista tinha-me pedido que levasse todos os aparelhos de contenção que tivesse em casa, e eu assim fiz: levei os três que parti (e ele desistiu de me fazer o quarto, ao contrário de cônjuge noutro sector) e o do branqueamento, todos muito aconchegados numa caixa bonita e cor-de-rosa que alguém no hospital se viu obrigado a oferecer-me em tempos, quando estive internada com covid e me deitaram o aparelho para o lixo. Após pé de vento (meu) e buscas intermináveis (delas) no lixo do pequeno-almoço de um piso inteiro, sei lá se misturado com fraldas, lá apareceu o meu aparelho, que eu só sei que era mesmo o meu porque me servia. Entretanto, fora desinfectado, a acreditar no que disse a responsável que mo devolveu. Mas siga.

Ia aqui a vítima de todos os improváveis muito bem a caminhar no passeio, cai-lhe a m. da caixa para o chão, abre-se e espalham-se todos os aparelhos na calçada portuguesa. Que contratempo, andar ali de rabo para o ar a pescar transparências de plástico, uma em cada ponta do passeio. Isto que sirva de exemplo aos donos dos cães: por piedade, apanhem sempre os dejectos dos vossos bichos, porque pode vir uma idosa e deixar cair a placa em cima de um.

Chegada à cadeira do dentista, ele pede a Sónia “Compósito” (que mais não é do que Supercola-3, passe a publicidade) e desata a espalhar cola em cinco dentes de baixo. Dos meus, entenda-se. Nisto, toca o telefone e ele faz o que nunca fez: vai para a sala ao lado atender. (Passarinh@ nov@?) Senti tanta liberdade que resolvi fechar a boca, não ia ficar ali feita boneca insuflável à espera que ele voltasse. Foi o horror: o “compósito” colou-se-me aos dentes de cima, por dentro, e à língua. Além disso, sabe a quê? Supercola, gasolina, benzovac? Sei que, no pânico, clamei por Sónia, só assim a mexer os lábios, que imediatamente me socorreu, qual bombeiro, de aspirador e jacto em punho, e me aspirou, enquanto ejectava água, os dentes e a língua. Quando o dentista regressou à sala, estava eu de língua de fora e Sónia (que, como sabem, tem o desejo inconfesso de me assassinar através da aspiração das minhas amígdalas) de aspirador em punho a aspirar-ma. 

(Acho que, sem querer, criei uma nova dieta. Vou registar a patente.)

Saí de lá com os cinco brackets e pedi elásticos cor-de-rosa: laço rosa, de Outubro rosa.


19/11/2022

Meu cabelo, minha cabeça

A mulher da franja esquisita, que se lhe espeta nas pestanas invisíveis e roça os olhos pequenos implantados sobre fundas olheiras perguntou-me, olhando atenta para o meu cabelo — que, por Cristo, é a coisa que eu tenho de mais preciosa logo a seguir à saúde dos meus filhos —, “Quando é que dás uma boa tesourada nisso?”, o que pode ter sido talvez, quem sabe?, a pergunta mais idiota que me fizeram no último ano, ou então na vida toda. 
O meu cabelo ainda não tem tamanho de gente, não faz um rabo-de-cavalo, não tenho uma melena a tapar-me um olho, mal chega à linha do colar, ainda que o estique muito. Mas tem muita personalidade, uma vida própria, um viço bonito, uma movida única. Enrola-se, quase se encaracola, não tem uma ponta espigada ou fios quebradiços. Eu gosto dele e estou profundamente convencida de que ele gosta de mim.
Tenho saudades de Natércia, em contrapartida. Ela foi a minha cabeça durante tempo que não contei, deu-me coragem e a quase doce ilusão de que só eu sabia, na rua ninguém poderia julgar-me e logo colocar-me naquele corredor dos condenados. Podia olhar-me ao espelho sem me lembrar que a vida é parva e curta e injusta e inesperada. Anteontem pu-la na cabeça, sozinhas no quarto, só ela e eu, e, ao contrário do que acontecia quando estava sem cabelo, reconheci-me ao espelho, “Olha eu, quando a angústia me comia os dias e, mesmo assim, me sentia bonita quando a punha”. Guardei-a na caixa dela, muito bem acondicionada, fiz uma festa naquela minha cabeça e pedi à vida para que não tivesse algum dia que voltar a abrir aquela caixa.

16/11/2022

Dia de sorte

Bati todos os meus recordes de frequência de locais públicos temidos (como aquela ministra) numa só manhã: dois centros de saúde e uma repartição de Finanças em menos de duas horas. 

Tudo começou nos anais, há meses, quando uma senhora enfermeira me avisou de que era conveniente pedir um atestado com vista à isenção de pagamento de taxas moderadoras. Já possuía um papel desse género, ainda argumentei que já fui dador de sangue, mas que não, que qualquer dia teria que pagar os tratamentos e essa ameaça pôs-me nas tamanquinhas e pés a caminho para o centro de saúde da área da minha residência, que era não me lembrar onde fica e juraria que era em Santiago do Chile, a avaliar pelas instalações do barraco que se arroga como tal. Lá me esclareceram que não era ali, que era acolari, mas que mandasse um mail para lá, que agilisava assim o procedimento. A bem mandada do costume assim fez, e vai que recebe uma resposta a solicitar uma data de papelada a comprovar que eu sou eu e que a doença é minha. Aparentemente, existem humanos que, para não pagarem cinco tostões por uma consulta e para estarem eternamente “de baixa”, forjam doenças. Reencarnem-me numa macaca, dá licença? Enfim, depois de ter enviado tudo o que me pediam, recebi como resposta que teria que comparecer a uma junta médica, a ser marcada a seu (deles) tempo.

Passaram-se largos meses, recebi a marcação e ontem compareci. Fui extraordinariamente pontual, e, talvez por isso, fui chamada cerca de quatro minutos depois de ter entrado. Tive a nítida sensação de que tinha entrado num tribunal com um colectivo de juizes, só que vestidos de branco: três médicas idosas, todas de óculos, todas de sobrolho levantado, até que me sentei na cadeira do réu/ arguido/ testemunha e todas desanuviaram os semblantes em simultâneo assim que eu disse “bom dia” e sorri. Perguntaram se levava relatórios e eu saco do meu dossier A4 com lombada alta e digo que sim, “Está aqui tudo, por ordem cronológica”. As três em uníssono e sincronia gestual, “Deixe estar, não é preciso, traga-os daqui a cinco anos quando fizer a reavaliação”. 

Foram menos minutos de junta do que de espera. Dali saí com um atestado de incapacidade para aturar fretes e duas cópias: uma para o centro de saúde de Santiago do Chile e outra para a respectiva repartição de Finanças. No tal barracão demorei talvez meia hora, pois tinha vinte pessoas antes de mim, mas as duas dos guichês aviavam à velocidade de um pum. Só tive tempo de entabular conversações com uma senhora que me disse que nasceu em 1940 e que lhe doía muito um ombro. Tive vontade de lhe dizer: “Peça uma mamografia à médica para anteontem”, mas refreei a PDM de ser mãe do Mundo ou paranóica de serviço, que, conforme se sabe, equivalem ao mesmo. E pronto, fui para as Finanças, a calcular quantas famílias da etnia lá estariam dentro e se não seria melhor ir noutro dia. Devia ser o meu dia de sorte, pois fui atendida como se fosse a rainha de Inglaterra (enquanto viva) e mimada até à moleza (“A senhora nunca se ponha na fila quando aqui vier, a senhora é prioritária”), até pensei que estavam a confundir-me com a Gisele Bündchen.

Senti-me com sorte, como naquelas pesquisas online, passei numa papelaria, ia jogar no Euromilhões, já tinha as moedas na mão, mas depois vi que havia cromos do Mundial e torrei-as todas, porque tenho mais necessidade de fazer uma pessoa feliz do que de ganhar a fortuna que, provavelmente, arruinaria o resto da minha vida.


14/11/2022

Mais do que nunca, Sempre Mulher

Podia ter corrido tudo mal, mas as expectativas nem sempre batem certo com a realidade: minha companheirinha e eu chegámos em cima da hora porque o ponto de partida mudou de lugar e não prestámos a devida atenção ao mail de aviso, mal pudemos fazer um aquecimento, a desorganização da prova também era alguma, porque o tiro (sob a forma de papelinhos coloridos) de partida foi dado ao mesmo tempo para a corrida de competição e para a caminhada, uma multidão de cor-de-rosa pelo Parque das Nações afora, esta aqui a ligar a aplicação das corridas, o mp-3 a cair da bolsinha, um phone a saltar e pop, quase a arrancar-me um tímpano, isto tudo em simultâneo, claro que o primeiro pensamento/ desejo foi sentar-me à chinês só a sentir a brisa do rio e defecar para a corrida, mas isso significaria desistir, verbo que eu risquei do meu dicionário. Ainda bem que continuei, mp-3, phone e dignidade recuperados. O percurso também mudou e corremos na direcção da Ponte Vasco da Gama (sob a, entenda-se) um caminho sinuoso cujo primeiro quilómetro é de calçada portuguesa rebentada pelas raízes das árvores  — e obviamente que houve quedas — e um intenso cheiro a urina, o que foi bastante estimulante para aqui a gazela acelerar o passo, só naquela de me livrar do amoníaco alheio. Mais adiante, fomos então brindadas com a bela imagem do Tejo em modo maré baixa, um lodaçal de aroma a enxofre, o que, lá está, estimulou à pessoa mais um sprint, ora, se fechasse os olhos julgaria ter corrido na direcção de um WC público de xafarica. 

Por tudo isto e mais mil razões, que são as principais,  custou-me os chifres do diabo alcançar a meta, que cheguei a ponderar estar invisível. A meio do percurso tinham-me dado uma garrafa de água — que ainda estou para estudar como é que se bebe enquanto se corre sem se enfiar parte do líquido narinas acima e que a restante escorra queixos abaixo —, pelo que tive que abrandar uns dez metros, bebi metade, ofereci a outra metade à relva e arrependi-me logo daquela espécie de ida às boxes, pois constitui um excelente incentivo para não recomeçar e nos deitarmos no chão a relaxar. 

Enfim, cheguei à meta. Levei quase quinze minutos mais do que levava antes da cânser (sim, inventei uma palavra, um verbo novo: cânser. Ex: “Tu dás-me cânser com essas atitudes”; “Não me cânserem a beleza”), mas menos dez do que levei aqui há umas semanas, em que me meti na passadeira do ginásio e, quando de lá saí, só não regressei de ambulância porque tinha ido com o meu bebé e ele conduziu-me até ao lar. 

Eu chego lá (não sei bem onde). Devagar, mas chego.


09/11/2022

Hipocrisias

Reza a quase lenda que no próximo sábado me deslocarei ao campo, sei lá, conviver com a Mãe Natureza, as árvores e os passarinhos, e ainda com uma montanha de pessoas da minha idade chatas como a potassa. Acho que é o aniversário do anfitrião, que foi vagamente meu vizinho de cima durante uns anos e jamais nos convidou para o que quer que fosse, uma vez que não temos cromos para a troca, e agora, espectacularmente, lembrou-se. De caminho, deixou cair que tem uma amiga a quem foi recentemente feito o diagnóstico de cancro e que está um pouco perdida. A besta que me habita concluiu que talvez, quem sabe, estaria na lista de convidados do ex-coabitante para fazer, totalmente à borla — ou não, pois uns croquetes e umas empadas de galinha devem contar como honorários —, psicoterapia à amiga do dito coiso. Levei mais de uma semana a dar o sim, mas mal sabe ele que a minha ida está dependente de factores tão aleatórios como a mood com que acorde nesse dia, o estado do tempo e se a roupa secou no estendal. 

É verdade que recebi muito apoio, que me foi absolutamente precioso, aquando do diagnóstico e tratamentos. Mas recebi-o das minhas pessoas, assim como de algumas que, apesar de nunca ter visto, me estão no coração por me terem dado a mão quando não tinha nada nas minhas para dar, a não ser medo — que, como se sabe, é constituído por uma matéria ora viscosa, ora dura e cheia de arestas pontiagudas e são poucos aqueles que estão dispostos a ajudar-nos a carregá-lo. É também verdade que não tenho nada para dizer a uma pessoa que recebeu agora o diagnóstico de cancro. Detesto clichês, já aqui o disse trezentas vezes e repito, não quero ver-me num papel que não sei interpretar, “vai correr tudo bem”, “isso passa”, “é só cabelo, depois nasce mais forte”, porque não acredito piamente em nada disto, ou melhor, nada disto é ciência infalível, aplicável a todas as pessoas. Na minha cabeça “Vais passar às portas do inferno, vais comer o pão que o diabo amassou, vais acordar todos os dias com uma dor ou uma ferida novas”, na minha boca “Vai correr tudo bem”? Eu não sou assim, se calhar o melhor é não ir. Porque ou me apanham muda, ou me apanham calada, para não ser cruel. Ou crua, enfim.



01/11/2022

A linguagem do olhar

E ali estava eu na sala de espera dos tratamentos de quimioterapia, por conta de uma injecção que tomo a cada vinte e um dias, estava também uma multidão que enchia a sala, e estava ele e a mãe. Não foi a primeira mãe de um rapaz da idade do meu que por ali vi, já vi o desespero e, como aquela, a raiva, a dureza nas feições, a revolta revestindo-lhe toda a linguagem corporal como uma pele cheia de eczema. E depois, os olhos dele cravados em mim, numa interrogação ininterrupta, talvez porque o meu cabelo — que tem sido a metáfora de todo este percurso — denuncie que já vou lá mais adiante, já passei por ali e posso talvez contar como vai ser, como é, como foi. De vez em quando baixava a cabeça na direcção das duas mãos brancas e pequeninas, unidas numa prece — ou seria uma súplica? —, de um corpo tão comprido, pernas a perder de vista e de repente um menino, de todas as vezes que levantou a cabeça da desesperança foi nos meus olhos que depositou os dele, “Vou sair daqui inteiro?”, e os meus “Diferente, mas inteiro”, a querer dar alento quando nem para mim tenho que chegue. 

Levantei-me da cadeira antes de ser chamada para tomar a injecção, na boca emudecidas as palavras que nunca quis ouvir, “Vai correr tudo bem” [“O que é que tu sabes?”], “Vai correr tudo bem, filho, a mãe está aqui”, o que é que eu sei?, e fui esperar em pé, junto à sala de tratamentos, longe da vista, longe do coração.


29/10/2022

“O meu marido é médico há mais de quarenta anos, é um rapaz muito competente e esteve meses sem me dar um beijo na boca.”

A mulher não gosta de mim e eu também não gosto dela. Há uns anos, quis reclamar já não sei do quê no ginásio, eu era do grupo de apoio à causa dela, mas quando saiu desembestada da aula para ir à portaria aos berros, querendo que assinássemos um abaixo-assinado — não redigido —, pus-me a fancos e ala porque já sei no que é que essas padeiras de Aljubarrota contribuem para as suas próprias causas e ainda ia acabar a ter que escrever o dito documento, assiná-lo e, já agora, sem acreditar na eficácia dele. Então, ela teve a pouca sorte de comentar: “Estas que dizem que sim a tudo são sempre as primeiras a saltar fora” e eu fiquei deveras magoada, especialmente porque não sou “esta”. Só não lhe pulei para cima à unhada por respeito aos cabelos brancos dela e eventualmente porque tinha um tacho ao lume e mais o que fazer do que ficar ali a bater bocas — salvo seja — com a idosa.

Ao fim de largos meses, senão anos, reapareceu no ginásio. Dirigiu-se à porta da sala, abanou os puxadores e, uma vez que estava trancada, não conseguiu abri-la. No entanto, persistiu na tentativa, uma vez que uma porta claramente fechada à chave cuja transparência dos vidros denuncia sala vazia não é indicador suficiente de que não é possível entrar naquele momento. Gozei o prato até que ela se aproximou d’ “esta” e, só para a desestabilizar, avisei: “Já se pode andar sem máscara de há uns meses para cá”, não fosse dar-se o caso de a figura ter estado congelada desde meados de 2020. “Eu uso sempre. Enquanto usei, ninguém lá em casa teve Covid. Depois tirei e todos tivemos. O meu marido esteve meses sem me dar um beijo na boca. Um dia fomos comemorar os quarenta anos do nosso filho mais velho e caímos todos doentes. Mas o meu marido é médico e pôs toda a família a antibiótico [para um vírus, wtf?], é um rapaz muito competente, sabe muito bem o que faz. É médico no Alentejo há mais de quarenta anos”.

A Humanidade está perdida, escrevam o que vos escrevo. 


27/10/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 8

Espero-a no hall, aparece desgrenhada e coxeante, cheia de sacos e pequenas coisas que vão caindo enquanto se dirige para a porta, eu vou apanhando, são as chaves, é um saquinho não sei com o quê, é o telemóvel, é um gancho de cabelo — azul claro, a combinar com o casaco de pele curtida —, abre a porta e entra, só depois eu, faz sentido, ela é que a abre, ela é que está manca, ela é mais velha, queixa-se das dores e da maçada que foi ter caído da cama por ter pisado a água que entornara de um copo, os ossos como esferovite, anca desfeita, pulso retorcido, seis horas de cirurgia, meses de fisioterapia, eu ai que para lá caminho, a quimioterapia também me deu de brinde essa condição de que nem se diz o nome, osteo quê?, acha-me belíssima de cabelo curto, até mais nova, fico a saber o truque, quais botox, quais boa alimentação, quais actividade física, quais felicidade, uma tesoura e cá está o elixir da eterna juventude, aproveito e queixo-me das unhas, parecem feitas de mortalha, uma desfaz-se todos os dias mais um bocadinho perigosamente em direcção ao sabugo — a que entalei quando andava na Infantil e nunca mais recuperou do susto de ter sido arrancada por uma porta —, essa e a gémea (até nas unhas se dão fenómenos gemelares), e então ela ilumina-se toda no momento em que lhe dá a epifania com a solução para o meu problema unguinal,

Sabe o que é que é mesmo bom para isso?

[Vai-me recomendar Onglinex em quatro, três…]

Umas gomas que se vendem no Jean-Louis David, em forma de ursinho, que são deliciosas, pena é que custem vinte euros cada caixinha, mas são óptimas.

Exangue.

(Também posso comer uma boa pratada de gelatina. Ou quaisquer gomas, mesmo que tenham a forma de uma píton. O princípio é exactamente o mesmo.)


23/10/2022

Les uns et les autres

Abraça-me sempre, dá-me dois beijinhos e pergunta “Querida, como é que estás?”, mesmo que haja ali um grupo de pessoas, só me cumprimenta a mim, porque eu sou a que esteve doente e sabe-se lá o dia de amanhã, mas sinto que as pessoas gostam mesmo de mim, algumas passaram a gostar, outras sei lá, noto uma benevolência, uma distribuição de sorrisos, uma graça em tudo o que digo, ou então uma verdade inegável, tudo a achar-me giríssima, pareces uma actriz francesa dos anos sessenta, eu mentalmente “Mas qual?”, também sorrio, pareço mas é eu com seis anos, mudando o que há a mudar, então ela toca-me no cabelo e eu sinto-me invadida como durante as gravidezes e alguém sem ser o pai me tocava na barriga, larga o que me pertence só a mim, não profanes o que me é tão caro, ela fica de olhos abertos, pondera uns segundos enquanto observa o meu cabelo, eu balbucio qualquer coisa como “Está impregnado de espuma, a ver se fica quieto no mesmo lugar”, depois diz, sem convicção alguma “Eu gosto…”, e afasta-se a sacudir o dela, amarelo e empalhado, antes o meu, castanho e curto, antes o meu, nunca invejei a barriga das outras, nem mesmo quando perdi o filho que havia de ser o terceiro.

Prefiro a louca loura, toda kitada, até a cor dos olhos é falsa, mas ela é toda verdadeira. Figura pública, podia ser só peneiras, apanhou-me em cheio um dia em que me senti mal na dança, encheu-me a cara de beijos, perguntou: “Já compraste a cabeleira?”, “Sim, e é linda”, a mim só me faltava o ranho e a baba do desconsolo, mas ela sem desarmar, “Compraste loura?”, até me fez rir, a destravada. Eu gosto de doidos, não sei porquê. Hoje viu-me a lavar as mãos, agarrou-me um braço e disse: “Estás boa, querida? Ena, já com tanto cabelinho!”, e demos uma boa turra. Nunca ninguém me tinha cumprimentado com uma turra, mas garanto que soube melhor do que qualquer abraço. Os doidos têm um coração maior do que os certos das ideias.


20/10/2022

Entrançar a tristeza

A minha avó dizia que, quando uma mulher se sentisse triste, o melhor que podia fazer era entrançar o cabelo, desta forma a dor ficaria presa entre os cabelos e não conseguiria chegar ao resto do corpo; tinha que ter cuidado para que a tristeza não se metesse dentro dos olhos, porque os faria chover, tampouco era bom deixá-la entrar nos nossos lábios pois os obrigaria a dizer coisas pouco certas. Que não se meta entre as tuas mãos — dizia-me — porque podes torrar demasiado o café ou deixar a massa crua. É porque a tristeza gosta do sabor amargo.

Quando te sentires triste, menina, entrança o cabelo; agarra a dor na madeixa e deixa-a escapar quando o vento norte vier com força. 

O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes de uma árvore e macio como a espuma do atole. Que não te apanhe desprevenida a melancolia, minha menina, mesmo que tenhas o coração partido ou os ossos frios por alguma ausência. Não a deixes entrar em ti com o teu cabelo solto, pois ela fluirá em cascata pelos canais que a lua traçou entre o teu corpo. 

Entrança a tua tristeza, dizia, entrança sempre a tua tristeza.

E, na manhã em que despertes com o canto do pardal, vais encontrá-la pálida e desvanecida entre o tear do teu cabelo. 

Traduzido, na medida do possível, do original de Paula Klug, via Instagram Cultura Inquieta.


Ainda me faltam alguns centímetros de cabelo para poder entrançar a tristeza de não o ter.


12/10/2022

A planície, afinal e a final, não existe

Foram muitos meses a ansiar pela planície, vendo-me — quantas vezes de fora para dentro — a escalar montanhas que nunca algum dia sonhei, nem nos meus piores pesadelos, assistindo à minha própria degradação física, combatendo-a com as unhas que me sobravam e os dentes intactos, fugindo de mim com o argumento do cabelo, quase dormindo de cabeleira posta, que aguentei durante a canícula e já com cabelo meu nascido, agarrada à convicção de que, quanto melhor disfarçasse os sinais da doença, menos ela teria hipótese de me esmagar contra o espelho, sempre maquilhada, sujeitando-me a procedimentos estéticos como o das sobrancelhas que, caramba, me fizeram feliz, cheguei aos cinquenta e cinco anos e foi um par de sobrancelhas semi-tatuadas sobre as que não me caíram totalmente que fez de mim uma mulher feliz.

Subi as três montanhas que me propus, ou que me foram impostas a troco da minha vida — quimioterapia, cirurgia, radioterapia —, muito pouco valentemente, é verdade que sem uma lágrima, mas isso é porque não as desperdiço com nada nem ninguém que não sejam os meus filhos, também sem um lamento, a não ser quando um dos meus pés ficou sem unhas e as mãos purgavam — só quem passou conhece o suplício —, sem uma pesquisa na internet por mera cobardia, poucas queixas aos médicos, eles a acharem-me um pouco estúpida, a pobre não sabe o que tem, deixem-na viver na ignorância. Pedras no meu caminho, senhores doutores? Meto-as todas nos sapatos e continuo a caminhar até ter os pés em chaga e aí, sim, ter motivos para ai Jesus.

Pensei que a planície fosse um lugar de paz e tranquilidade mental, que me sentaria num tronco de árvore, a fumar o meu charuto, como um velho do Oeste, só a perscrutar o horizonte, mirando a linha dourada onde a paisagem se some, atenta à possibilidade de o monstro dali surgir a trote para me devorar de novo, mas, afinal e a final, a planície não existe, é apenas um enorme buraco branco — onde não há tratamentos nem injecções nem enfermeiras e uma pessoa fica sozinha, ainda mais, sem saber o que fazer ao tempo que (ainda lhe) sobra —, que vai diminuindo de tamanho e profundidade, até que um dia há-de sair dele pelo seu pé sem olhar para trás, pronta a subir as montanhas que lhe surjam aos olhos, com pedras nos sapatos, se for o caso, e, se tiver que ser, aos gritos de ai Jesus. 




04/10/2022

And that awkward moment # 68

em que ligas para o consultório do dentista dos olhos bonitos — não pões lá os pés nem os dentes há mais de um ano, e ouviste dizer, leste ou sonhaste que a radioterapia amarelece os dentes, não que tenhas notado, mas já agora —, e te atende Sónia. 

Sónia, para quem tem memoráveis hiatos de memória, é a assistente do dentista, que está certamente apostada em asfixiar-me através da aspiração das minhas amígdalas (“amigas” para o povo), e que, com a desculpa assente nas cavalitas das muito largas costas do Covid, me entrava gabinete adentro com duas máscaras, uma viseira, uma touca, uma bata descartável completa, com mangas compridas e até aos pés, e luvas. Sem dúvida, para me aniquilar sem deixar vestígios, se não com o aspirador do cuspo, pelo menos de susto. 

Pergunta-me Sónia se estou “melhorzinha”, eu que sim, que já acabei os tratamentos há três semanas, ela então manda o primeiro tiro e eu sem perceber, “Então já teve alta do médico para vir ao dentista?”, como se estivesse a perguntar-me se já podia ir à praia ou correr a maratona em flic flacs, eu encharcada em nervos e paciência, “Sónia, eu já acabei a radioterapia há três semanas, posso e devo ir ao dentista. Certamente que não sou a primeira pessoa que consulta o senhor doutor nesta fase da doença”, e então dá-se o momento em que ela me atira a segunda bala, que poderia ser fatal, não estivesse eu habituada a lidar diariamente com humanos: “Via oral?”.

Não fiquei imediatamente estupefacta porque achei que ela se tinha enganado/ baralhado/ embebedado entretanto. “A radioterapia?”, “Sim.”

Pois, morreu-me um neurónio. 

“Sónia, o nome diz tudo: radioterapia é por radiação, não existe em comprimidos.”

“Ai é?”

Quando desliguei, tive vontade de chorar um niquinho. Então, como sempre, ri até à pré-asfixia. Eu bem digo que aquela mulher um dia me mata. Se eu não voltar aqui, já sabem.


26/09/2022

And that awkward moment # 67

em que recebes uma mensagem a anunciar a missa por alma de uma pessoa tua parente — e, consequentemente, a sua morte, facto que desconhecias —, em que a imagem de perfil é da própria, e toda ela  escrita na primeira pessoa do singular. Tipo aquele falso e maravilhoso bilhete de suicídio da personagem Sebastião do Pôr do Sol, quando foi assassinado: 

Boa tarde, 

Matei-me. Adeus e boa continuação, 

só que com a nuance Morri, venham à missa comemorativa do primeiro mês.

Dúvidas houvesse sobre a minha muito remota, porém provável, disfuncionalidade, eis uma possível explicação, com parentescos deste nível. É que nem a desculpa de se tratar do enredo de uma novela cómica tenho. Isto é a vida real. A minha vida.

Ainda estou em posição fetal. Tenho medo de partilhar genética com pessoas humanas que tomam estas iniciativas. 

Não vou comparecer à dita missa. Nunca se sabe.


23/09/2022

Exposição imersiva, submersiva, subversiva, interactiva, tudo em um

Olá, esta sou eu a cultivar-me. 

Chego à Mãe d’Água (nome mais bonito, recuso-me a chamar-lhe reservatório) para ver uma exposição sobre o Egipto, embora estivesse lá escrito “Egito”. Ou era “Egipo”? Ou “Epigo”? Olhem, não sei. Fui. Ainda proibida de ir à praia, um domingo assaz ventoso, peguei em dois familiares e aqui vai dela. Lá chegados, somos informados na bilheteira de que cada entrada (plateia em pé, porque sentados era um preço que eu esqueci imediatamente) custa doze paus, mas que, se fizermos prova de sermos moradores em Lisboa, passa milagrosamente para dez. Acho isto uma xenofobia interna, mas siga. Fiquei tão nervosa que só me apeteceu dizer com sutak dos Açores, “Atã num se vê lóg que sumos de Lisbôa?”, mas contive-me porque, efectivamente, queria poupar seis dele. Fizemos a tal prova com as cartas de condução (donde se conclui que, quem não conduz, não entra), mas em que só uma delas (por ser mais recente) continha a morada. Porém, aquele meu ar afectado e possidoninho de revolta (a terceira em minuto e meio), denunciou a minha origem lisboeta e a senhora cedeu ao óbvio. Deslargados logo ali seis contos de réis, lá entrámos para aquela sala belíssima e sinistra que tem um lago ao meio, onde um segurança nos indicou o caminho para os melhores lugares (em pé, já referi?), que eram exactamente ao lado dele, mas que, para alcançarmos sem que ele tivesse que retirar uma fita amovível, teríamos que dar a volta completa à sala (vá lá que sem um mergulhinho pelo meio, à laia de brinde), que tem seguramente seiscentos e qualquer coisa metros quadrados. Eu cá liguei a lanterna do telemóvel, porque se há coisa que me dá angústia é andar às escuras em sítios que não conheço. Isso e cheiro a suor, mas já lá vamos. Chegámos ao local indicado — a zona dos lugares sentados cheia que nem um ovo, pois isto é povo que não pode pagar o arroz e o feijão, mas lá ficar em pé meia hora é que nem ponderar —, local aprazível, fresco, cheio de espaço e um varandim para a pessoa apoiar os cotovelos ou outra articulação qualquer, e eis que chega uma família de quatro elementos, era o pai, era a mãe, era a adolescente parva e a criança sossegada, e, num espaço de vinte e cinco metros de comprimento, todo ele disponível, em quem é que a tonta vem encostar-se? Adivinharam. (Covid, aquele vírus maroto, jamais será vencido.) A exposição começou, a catraia sentou-se na varanda, de costas para as imagens, e eu desejei com ardor que ela submergisse nas águas da Mãe d’. O pai da dita considerou, com certeza, que nós éramos uns privilegiados em termos de localização, porque foi colocar-se exactamente atrás de mim. Lembro que tínhamos à disposição uma parede com vinte e cinco metros para nos colocarmos (para além das outras três com mais vinte e cinco metros cada uma) e que foram vendidos, ao todo, treze bilhetes da modalidade em pé. Lembro ainda que Covid.

Tinham-nos fornecido à entrada uns headphones com uma caixinha, para ouvirmos a explicação das imagens projectadas na parede, ao som da voz de Ricardo Carriço, dramatiquíssimo, olhem, até tive medo cada vez que ele dizia Tutankamon. Também foi o único nome que fixei, uma vez que já o conhecia. 

Do lado de lá da fita de segurança, mesmo ao meu lado, instalaram uma família que chegou atrasada, constituída por pai, mãe e bebé. Arranjaram-lhes cadeiras, eles sentaram-se, tiraram o bebé do marsúpio e deitaram-no no chão de pedra. Cheiravam tanto a suor que tive oportunidade de ver a exposição em quatro dimensões. 

Não sei se recomendo, vou pensar. Sei que vou passar a ir cultivar-me para outras paragens, nem que seja numa alfaia agrícola.



17/09/2022

Read the fucking manual

Ando cá a matutar em escrever um manual de instruções — porque sinto que não tenho estudos para publicar um livro — sobre “Como lidar com alguém que tem cancro”. A ideia é um bocado alcançar o Pulitzer, o Nobel, ganhar uns cêntimos, mas, essencialmente, ensinar o Outro, espalhando a palavra. Já o alinhavei e tenho, assim sendo, alguns vectores:

1. Não ignores, nem a doença nem o doente. Não finjas que não o vês (oh, como seria bom adquirir o dom da invisibilidade, mas não por essa via), não evites falar-lhe no assunto, não fujas. Se não tens nada para dizer, pergunta apenas: “Como é que estás?”. Simples, assim;

2. Não tenhas medo das palavras. Podes dizer “cancro” à frente de uma pessoa com cancro. “Um problema”, “a doença”, “isso que tens” são eufemismos. Mete-os no coiso, agora não me lembro do nome. Cancro, está bem?

3. Não digas “Estou aqui para o que precisares” quando não estás. Ninguém espera que sejas mais nem melhor do que és, prometer o irrealizável é só um desperdício de saliva, agravado se for escrito nas redes sociais, para o povaréu ver e se comover com tamanha bondade;

4. Não massacres com as tuas pequenas maleitas, olímpicas diarreias e sintomas de covid. Uma pessoa com cancro está-se completamente cagando para as tuas desinterias sazonais ou porque abusaste dos enchidos;

5. Abraça. Dá a mão. Faz uma festa na cara. Aperta as duas mãos. Olha dentro dos olhos. Evita os clichés, “Vai correr tudo bem”. Isso não tem qualquer base científica e a pessoa que está doente sabe. Pode correr e pode não. Mas abraça sempre e nunca com segundas intenções. Percebe que a libido de um doente de cancro é muito semelhante à de um calhau. Não. Lhe. Apetece. Pinar;

6. Não exageres na simpatia. A condescendência, a súbita cortesia quando foste uma besta até agora, a compreensão desmedida, cheiram a piedade e a piedade cheira mal. Age normalmente, sem demasiados “Estás tão linda”. Ninguém se sente tão linda quando carrega consigo uma doença que mata e cujos tratamentos a desfiguram;

7. Não dês espaço sem que a pessoa te peça. Dar espaço é desaparecer. Cómodo para quem salta fora, demolidor para quem fica, doente e só;

8. Deixa a pessoa respirar. É ela que acorda e se deita todos os dias com o monstro escuro. Para onde quer que se vire tem-no na sombra. Sobrecarregá-la com mais inputs é tão inútil quanto cruel;

9. Não desvalorizes. Há quem se ria do seu próprio cancro, há quem chore rios e oceanos, há quem se mantenha à tona, mas todos, sem excepção, têm uma pistola apontada à cabeça para o resto da vida, e, para viver assim, nem todos têm tomates;

10. Se não puderes fazer nada disto, vai ver se está a chover. 


12/09/2022

Voltei às pistas

O fenómeno deu-se há duas semanas, ainda faltavam nove tratamentos para acabar a radioterapia. Ao contrário do que o povo julga, eu não sou valente nem corajosa: sou das maiores e mais temíveis teimosas que conheço. Tinha consultado o oráculo da aplicação que me mede as maratonas e concluí que havia corrido pela última vez há oito meses, cinco dias antes de começar a quimioterapia. Não acredito nisto, porque não tenho nada ideia de ter corrido dez quilómetros já com o diagnóstico feito. Mas, se a aplicação diz, deve ser verdade.

Os primeiros duzentos metros, fi-los em subida, o que foi bastante inteligente da minha parte: tive, desta forma, a clara noção do que é ser um carro de bois, em que eu era o animal de tracção e os bois iam lá atrás, deitados no carro, de papo para o ar. Ponderei seriamente a possibilidade de me sentar no chão e deixar correr o marfim, porque estava quase a mascar os pulmões e a fazer um balão com eles.

Teimosa como uma mula, arre burra, obriguei-me a pensar noutra coisa, tipo trapos bonitos, e siga. Fiz o percurso que fazia há oito meses, determinada a, em vez de dar dez voltas ao largo — o que fazia das minhas corridas qualquer coisa de bastante monótono e aborrecido, mas tinha a vantagem de 1. Saber que aquelas dez voltas representavam cinco quilómetros; 2. Não corria (passe o pleonasmo) o risco de me perder, se fosse em linha recta —, dar apenas uma. A ideia era correr um quilómetro ou dois, na loucura. Cheguei ao largo e ele estava transformado numa feira, com farturas, churros e porras, tudo menos livros. Tive que contornar dezenas de barracas de louça e cacos, tapetes e cenas que desconheço para o que servem, mas dei a volta completa ao largo e, quase morta dos bofes, voltei ao lar. 

A aplicação somou cinco quilómetros, mas acho sinceramente que estava toda avariada de saudades. Na semana seguinte fui correr para o estádio universitário, que é só lombas, parece uma pista de motocross, e, aos três quilómetros, toda eu era suor e sei lá que mais porcarias. Aguentei até aos cinco e meio e basicamente estraguei o meu domingo. 

Tenho que ir mais devagar, dizem os outros humanos. Mais devagar do que isto, nem as velhinhas das caminhadas. Ou faço moonwalk, que sempre justifica a lentidão da actividade.



04/09/2022

Os meus becos

Então, acabo a radioterapia na próxima quinta-feira. Comentei o facto com uma desvairada do ginásio, que só conheço de lá, e que me esbugalhou os olhos e afirmou, peremptória: “Na sexta-feira trazes uma garrafa de champanhe”. Perante a minha hesitação, “Não gostas de champanhe?”, eu “Heh, neste momento não gosto de quase nada.”, “Então, tinto. Gostas de tinto?” [Não sei que parte de “nada” é que ela não percebeu.] “Dá-me sono. Imediatamente. Tipo coma. Uma vez adormeci a meio de uma conversa com a minha cunhada.” “E branco, gostas?”, “Sim, mas tem que estar fresco. Também gosto de Rosé.” Ela, a torcer o nariz e a processar a ideia, cinco enormes segundos: “Gostas de Rosé?”. “Gosto. Mas tem que estar fresco.” E eu a dar-lhe, no fundo a arranjar uma desculpa para me livrar da carraça. O ginásio não vai guardar uma garrafa no frigorífico dos funcionários porque há uma borracholas que quer comemorar o fim dos tratamentos de uma desgraçadinha mal agradecida. Ela outra vez com uma paragem da boneca, os olhos escancarados e o sorriso congelado no seu expoente máximo. Procurei demovê-la: “Não acho muito boa ideia, repara: antes da aula, vamos para lá enjoar”. [Poupei-a à vez em que, calor assassino, tempo de sobra e muita gula por um prato de tremoços, emborquei uma cerveja antes da aula e ainda hoje desconheço como é que não expeli tudo cá para fora — tremoços incluídos — a meio de uma pirueta.] “Depois da aula, pior ainda: a noite já caiu, não vamos ficar as duas no meio da rua de copo na mão. E preciso de conduzir em segurança para casa.” Ela ainda argumentou que “o professor podia juntar-se a nós”, mas isto porque ela tem um crush por ele, que eu, lamento, não tenho.

Antes da aula, tinha-me perguntado como é que eu estou psicologicamente. “Acredita que, desde o início, ainda não deitei uma única lágrima”. [Não contam duas chatices que tive entretanto e aproveitei para purgar umas quantas a mais que tinha cá engasgadas.] “Mas tens que deitar. E vais deitar. E vai ser comigo que vais deitá-las.”

Eu não quero beber com ela. Eu não quero chorar com ela.


01/09/2022

The girl next door # 18

Por razões que desconheço em absoluto, que tanto podem prender-se com uma extrema empatia para com o outro (ser humano) — aspirando a que, se todas as pessoas fossem como eu, ninguém andaria com a blusa do avesso na rua —, um TOC de não poder ver nada fora do lugar, ou simplesmente porque tenho a mania que sou estupendaça, outro dia corri a avisar uma vizinha de que ela trazia as cuecas à mostra.

Vinha eu com meu Pacheco — comprei um carrinho para me alombar com as compras, tipo velhas no mercado, e assim lhe chamei, em homenagem à grande Hermínia Silva e seu guitarrista —, quando vislumbro, ao fundo da rua, a minha vizinha de baixo, senhora para os seus setenta e picos e de carnes abastada, que, após despejar várias garrafas de vinho no vidrão, se preparava para entrar num carro daqueles que têm uma etiqueta TVDE. Subitamente, ela move-se, exibe-me a traseira e vejo-lhe, não o traseiro, convenhamos, mas a cueca, com a saia toda ali entalada. Quem nunca? Só quem não usa saias, uma percentagem quase irrisória da população mundial. Basta um chichi à pressa, há um repuxar mais desajeitado das pregas-laregas do vestido-larido, e lá se vai para a rua, enfrentando o(s) desconhecido(s) de pernas até ao quadril e cuecas à vela. 

Foi uma sensação de quase pânico, a que me tomou, mas, como sempre nessas, agi imediatamente. Dava para bombeira. Ou paramédica (paranóica, mas sim). Ou super-heroína, drug free. Desato então a correr na direcção da vizinha, Pacheco a reboque, quando me lembro que não sei o nome dela (apesar de vivermos sob o mesmo tecto vai para trinta anos), então foi mesmo de “Ó vizinha! Ó vizinha!”, como naqueles bairros, e ela a meter-se no carro e a fechar a porta. “Queres ver que vou morrer na praia?”, pensava meu músculo cardíaco todo acelerado. Felizmente, e porque existe um pequeno compasso de espera entre a pessoa entrar no carro e o motorista arrancar, alcancei-o, bati desesperadamente no vidro, a vizinha abriu a porta e disse-lhe: “Tem a saia presa nas cuecas”. “Estou indecente?”, respondeu ela, num risinho de nervos. “Está.” Estive mesmo para lhe recomendar passar a andar sem cuecas, a ver se estas coisas não voltam a acontecer-lhe.


31/08/2022

Entrelaçados

Vi-os primeiro de costas, caminhando pela sala de espera dos tratamentos, as mãos dadas com os dedos entrelaçados, havia um amor na junção da pele dos dois,

parecem namorados

mas alguma coisa me disse que talvez mãe e filho, uma diferença pouca, 

se calhar teve-o com quinze anos

E depois, tão parecidos, os namorados nunca são parecidos, as mãos iguais que não se largaram, e então senti que estavas ali comigo, as nossas mãos iguais e dadas, entrelaçadas, nós, que somos mais de abraços, o teu abraço que vem sempre, o teu abraço que é sempre o primeiro, naquele dia “carcinoma”, veio logo, inteiro e meu, também já vi pérolas de vidro a saírem dos teus olhos desde aí, tu lembras-te de eu te agarrar o braço já adolescente e pedir a brincar, na rua, “Vamos fingir que somos namorados?”?, e tu “Oh, mãe…”, a soltares-te sem convicção nenhuma, olha, hoje lembrei-me de nós naquelas duas mãos dadas, sei perfeitamente que ali estavas também, como estás há exactamente vinte e dois anos abraçado a mim. Meu pequenino, meu amor tão grande.



30/08/2022

Eu tenho problemas com médicos # 31

Tenho quase a certezinha absoluta que, se conhecesse uma pessoa como eu, fugia dela a sete ou oito pés. Há dias, como hoje, em que pareço desvairada.

Hoje foi dia de tratamento plus consulta. Entrei no serviço um nico desmoralizada, com receio de que me acontecesse o mesmo que ontem: sorvi uma hora de espera naquele salão inóspito. Mais do que a doença, custam os tratamentos; mais do que os tratamentos, custam as esperas. Porém, nem teriam passado cinco minutos de me ter posto com cara de sala de hospital — a explorar sites de roupa bonita — quando ouço o meu nome no altifalante, a chamar para o tratamento. Rápido, como sempre (a não ser naqueles segundos em que não posso respirar e só me passam disparates pela cabeça, para além das placas da máquina), lá fui para o vestiário preparar-me para voltar ao salão e esperar duas horas pela consulta. Ainda só tinha puxado o fecho (nas costas) do vestido, ouço o meu nome a ser chamado para o gabinete oito, enfiei Natércia até aos sobrolhos e, ainda com o colar na mão, dei mais corda à alpercata corredor afora, na gula de não perder a vez. Dez metros volvidos, entro de rompante no gabinete do médico, “Ai, desculpe, senhor doutor, mas é que estava no vestiário e ouvi o meu nome”, tudo isto enquanto endireitava Natércia, sem espelho nem nada. (Devo ter posto o risco ao meio, que é para aí o pior penteado de sempre para mim, fico a parecer o John Lennon. Ou a Yoko Ono.) O médico consultou-me em cerca de três minutos — sem queixas —, quis ver a minha pele — sem queimaduras —, pelo que comecei a preparar-me para me ir embora. Puxei outra vez o fecho do vestido (saudades do meu cirurgião, que sempre mos desceu e subiu, com a desculpa de que essa é uma das tarefas para as quais um homem serve), quando reparei que tinha atirado o sutiã para cima da marquesa, para onde lançara também a mala de mão e a pasta com os cartões necessários. Já não podia, porque não queria, voltar a abrir o fecho do vestido. Azar meu: as minhas malas de mão são minimalistas, cabe lá dentro o telemóvel, as chaves de casa e carro e uma nota de quinhentos euros, mais nada. Sorte minha: tenho ordens para só usar sutiãs sem arames, portanto foi só amachucá-lo o melhor possível e sair de telemóvel na mão. Nem imagino o que teria feito se levasse um desses com arames e caixas. Se calhar, tinha que esquecê-lo e deitá-lo para o cesto dos papéis. Teria sido tão mais constrangedor. Assim, foi só engraçado, ver a cara do médico.



26/08/2022

Mal-haja

O homem que está atrás do balcão embirra comigo porque sabe que eu o detesto. Também pode ser ao contrário. Outro dia, precisava de uma informação, estava cansada de tanto esperar, e aproximei-me do vidro. Ele estava sentado a uma secretária, olhou para mim e ignorou o meu “Boa tarde, precisava de uma informação”. Chegou uma mulher com uma senha na mão e ele desata a atendê-la. Claro que protestei que estava primeiro, mas o inflexível disse que ia atender primeiro a senhora que tinha senha. “Ah, entendi. Eu estou invisível e não sei. Posso fazer os gestos que me apetecer? Porque deduzo que não me viu a fazer-lhe sinal que queria uma informação”. Afinal, eu só queria saber [onde raios] existia uma casa-de-banho, “já não digo limpa, porque isso me parece impossível, mas, ao menos, em que a porta feche”. 

Não gosto de mim agora. A fase da raiva nunca passou e, aparentemente, nunca passará. Tenho vontade de bater nas pessoas intransigentes. Nas pessoas, ponto.

Uma mulher foi até ao vidro do cumpridor, não levava senha, pediu muitas vezes “por favor”, “desculpe lá”, sempre nuns sorrisos, todo um exagero que pensei que fosse ajoelhar-se, e ele só lhe pediu o cartão dos tratamentos. Mais três “obrigada, desculpe lá” e ele, “Não tem de quê”. Ela, por três vezes — que eu contei —, “bem haja”. Também tive vontade de lhe bater, a subserviência é tão ridícula e tanto há quem a confunda com educação ou simpatia.

Depois ela sentou-se atrás de mim ao telefone e disse mais duas vezes “bem haja” — que eu contei —, à despedida, antes de desligar a chamada.

Eu não quero ficar assim.

23/08/2022

A sala da solidão

Às vezes, apetece-me desistir. Parar agora e sentar-me, a esperar para ver. Estou farta de salas de espera, já agora. Cansei-me de casais de reformados que vão juntos aos tratamentos de um deles. Se é ela que está doente, ele pavoneia-se de um lado para o outro, as plumas de pré-viúvo ainda — considera ele — em forma, todas no ar. Há um que, assim que a mulher vem lá de dentro, faz uma espécie de vénia a quem está sentado (onde me incluo) e, histriónico, deseja as melhoras e acrescenta um “até amanhã”, que me irrita a ponto de ter vontade de o mandar à merda ou fazer-lhe aquele gesto do dedo. Intimamente, mando mesmo, às vezes até para lugar mais fálico e menos escatológico, reviro os olhos e nunca respondo. A educação de águas límpidas que me foi fornecida não me obriga a ser simpática com pavões, cláusula primeira. Se é o homem que está doente, lá vão elas de unhas dos pés verde fluorescente, exagerando nas mesuras e cuidados (“Queres um pãozinho?”, “Uma bolachinha?”), rainhas do esmero, em compensação tratadas como criadas, fazendo de conta que não ouvem a resposta brusca e o mau modo constante. Precisavam eles de uma igual àquela cigana (ups, disse) que outro dia consolava o marido birrento, “Já disse que não vou, ninguém me obriga”, batendo com o pé no chão: “Mas a doutora não disse que o tratamento é para te curar, é só para te tirar as dores”. Depois, há o senhor de cadeira de rodas que só tem meia perna e veste calções de ganga, o coto todo à mostra e uma cruz desenhada a caneta Bic no lugar da cicatriz. Há as mulheres e os homens também que, como eu, vão sozinhos ao tratamento, porque aquilo são meia-dúzia de minutos, não dói no corpo nem dá efeitos secundários imediatos. Há a rapariguinha negra, de vestidinhos floridos e justos como os de uma criança, que dorme sempre. Invejo-lhe a tranquilidade e a alienação, quando afinal até é fácil deduzir que ela está muito mais doente do que eu. Há os da etnia, que vão em grupo para o tratamento de uma delas. Há as senhoras de idade, de touca ou de peruca sintética, que têm todo o tempo do mundo e as longas esperas não parecem afectá-las em nada. Há os magros como cães famintos, que não inspiram coisa nenhuma, a não ser talvez espanto. Parecem saídos de um campo de concentração e têm todos aquele mesmo olhar que vemos nas fotografias de Auschwitz. De vez em quando, passa uma maca ou uma cadeira de rodas, à partida ou à chegada de uma ambulância. Já não olho.
Dizem-me, quando me vêem ir abaixo, que falta pouco. Não falta pouco, não senhor. Faltam treze vezes este outro mundo, que, mesmo que — por um paradisíaco absurdo — esperasse só um minuto de cada vez que ainda terei que lá ir, seriam sempre treze minutos de inferno para enfrentar.


20/08/2022

Travão de mão, travão de pé, travão de dedo

A frota do lar, se contabilizadas todas as viaturas de que já fomos alegres proprietários, tem variado alguma coisa em termos de tamanho, em função do número de elementos que compõem la famiglia. Quando começámos, éramos dois e um Y10, que ainda aguentou uma petiza — embora muito mal, já que a cadeirinha não cumpria o efeito de concha em caso de embate ou travagem brusca, tão curta era a distância entre os bancos da frente e os de trás (parecia um avião, sim. Ou o Coliseu dos Recreios) —, mas já não aguentou duas, e, assim, fomos indo ao mercado automóvel de cada vez que esta barriga se enchia de vida. No último, ricos em sonhos filhos e pobres em ouro, tivemos que enveredar pela via da segunda mão no volante, que é como quem diz, dos usados. E, assim, tivemos a primeira de três monovolumes de sete lugares (o sétimo era conhecido por “o lugar da sogra”, que ficava à porta e era, idealmente, para ser usado sem cinto de segurança em percursos com curvas muito apertadas. Calma, não estava destinado à minha mãe). A última que tivemos, aqui designada por “o camião”, resolveu falecer o ano passado, assim do nada, a meio do nada, ou seja, de uma autoestrada. 

Sejamos francos: já nunca andamos os seis no mesmo carro em simultâneo, pelo que o arranjo do camião — que ficava mais dispendioso do que o valor de mercado dele — era mais um capricho (bastante meu) do que uma necessidade. E, assim, entrou para o parque automóvel desta barraca o primeiro carro com travão de dedo.

Enquanto condutora do camião, não posso dizer que tenha tido grandes dificuldades em utilizar o travão de pé: o carro destravava-se com uma alavanca mais ou menos escondida, como a do combustível, e travava-se com aquele quarto pedal à esquerda, que nos exige um alongamento ao nível da correspondente perna, mas que é um stretching que só faz bem. No entanto, tal sistema não só é perigoso por ser tão fácil destravar o carro — e ele há crianças muito irrequietas e imaginativas —, como também é impossível a qualquer passageiro travar o carro no caso de o condutor (inadvertidamente…) o deixar destravado. Por acaso, nós fomos muito mais neuróticos com os filhos do que os meus pais foram connosco: iam tomar um café à Pastelaria Roma, enquanto nós ficávamos as duas a apitar até endoidecermos um quarteirão inteiro.

A mais recente aquisição automóvel tem, como já disse e nunca é demais repetir, travão de dedo: carrega-se num botão e trava, carrega-se outra vez no botão e destrava. Se a possibilidade de os passageiros poderem travar o carro está resolvida, a de as crianças o destravarem não está. Nem para elas, nem para humanas como eu. Aquilo ora acende uma luz quando trava, ora apaga a luz não sei quando. E é que nunca me lembrei de ir verificar ao painel se aquele P estava aceso. Parava o carro, carregava no botão, dava assim uns abanões para a frente e para trás e era desta forma que achava que sabia se o boi estava manso ou não. Outro dia abanei-me no banco e ele não se moveu. No entanto, deixei-o destravado. Vá que foi num plano sem inclinação. A partir desse dia, nunca mais lhe toquei, não vá ele dar uma de touro mecânico. Tenho minha Rosinha e somos muito felizes a gente as duas.

Conclusão: que prejuízo e que espaço ocupava a velha trave do travão de mão para andarem com invenções destas? Já só falta inventarem o travão de testa, se é que me faço entender. Vou fundar um movimento qualquer, #naoabrimosmaodotravaodepuxarparacimaeparabaixo.



13/08/2022

Nunca fujas ao teu destino

Estava eu relativamente mal instalada no grupo do whatsapp da dança, no qual havia entrado apenas e tão-só para obter o nome de uma música — que adoro de paixão e é para aí a única coreografia que sei de cor sem erros, o que já faz de mim uma interesseira inescrupulosa —, onde me aborrecia com toda a solenidade, basicamente porque, sendo o mesmo constituído por dezenas de pessoas, as trocas de mensagens eram acerca de tudo menos do interesse comum, já não contando com os aniversários, em que era um dia inteiro de quadrinhos amorosos de parabéns, numa desordenada competição de quem é que conseguia o mais piroso, depois fiquei doente, abandonei as aulas e saí do grupo, um alívio sem precedentes, só comparável ao da satisfação de uma necessidade fisiológica premente, sete meses de paz e sossego, e depois voltei. Voltei, e voltei a dançar, e devo ter ficado tão excitada com essa volta que a minha vida deu, que pedi a uma das administradoras [olha a cagança] que me incluísse de novo no grupo, ela assim fez, e eu, sejamos honestos, aguentei-me lá… quatro dias. Desta vez, já não havia necessidade de alguém fazer anos, estava rigorosa, diária e definitivamente instituída a parolice no grupo, por conta não sei de quem, ou de quens — a pessoa entra, baila e sai, não conhece nomes, não associa caras, não nada, sabe apenas que há a alta, a gira, a que dança bem, a gorda, a antipática, e já sabe muito —, todos os dias gifs cheios de glitter a desejar um dia bom, bonecos a brilhar, corações a explodir de tanto amor, my eyes, my eyes, não posso desver tanta saloiada, então saí outra vez, desta feita para não mais voltar, o problema és tu, não sou eu, podes ficar com o carro, a casa, as jóias, os putos, mas nesta barraca de farturas não fico eu.



Estava eu descansada da minha vida, livre de gifs com ursinhos e outros bichos cheios de amor para me dar, quando, de repente, a mulher que podia ser minha mãe — que, relembro, deu um olímpico trambolhão e partiu não sei quantos ossos, ao nível do fémur e do pulso, mas, que eu tenha sido informada, nenhum no crânio — desata a mandar-me diariamente bonecada semelhante à anteriormente descrita, os bons dias, a frase lapidar, a lição de vida, as protecções divinas, tudo muito cheio de brilhantinhos e corações e sopeiradas assim. Vejo-me compelida a responder-lhe com um singelo porém assertivo coraçãozinho, em sinal de “gostei”, só para não a ofender, quando, efectivamente, “não gostei”, isto de ser uma pessoa educada é um fardo excessivamente pesado, que faz da pessoa uma conformada e hipócrita, quando a minha vontade era correr tudo ao coice, socorro, tirem-me deste pesadelinho!

Preciso de uma explicação do cosmos: porquê?


 

11/08/2022

Incondicional

Excepcionalmente, hoje fiz tratamento de manhã. Mandaram-me estar lá às 8:30 e eu, obediente, assim fiz. Pode ter sido da hora do dia, pode ter sido da luz matinal assim triste, pode ter sido do meu próprio sono — a radioterapia dá-me sono; a quimioterapia dava-me sono; todas as anestesias que fiz entretanto me deram sono; também há pessoas que me dão sono —, mas o ambiente do salão de espera é totalmente outro, como se o espaço não fosse o mesmo: quem ali está, está verdadeiramente doente. Aquela é a recta. Um rapaz com pouco mais de trinta, apoiado na companheira, talvez irmã, talvez Simão de Cirene ou apenas Maria, todo cera, todo rosto de Cristo, arrastando os pés até ao calvário, uma senhora em cadeira de rodas, boca deformada, perna corroída, e aqueles dois: a mesma imagem, com algumas décadas de distância um do outro. O mais velho, muito velhinho, calças e camisa impecavelmente passadas a ferro, cabelo cuidadosamente penteado. O nariz preso a uma caixa de oxigénio, tossia forte, mas também fracamente, enquanto o mais novo lhe estendia lenços de papel atrás uns dos outros e o ajudava a limpar-se a cada acesso. “Quer outro, pai?”, e nisto os olhos envidraçados caídos nele, assim quieto e embevecido, num desvelo tão absoluto, que eu, que agora tenho uma pedra no lugar do coração, não resisti a molhar as pestanas.


10/08/2022

Invisibilidade indolor

(Este blog parece uma página de Instagram que tive que deixar de seguir porque a autora, apesar de muito cómica, era assaz aborrecida: cada vez que “abria a boca”, era para dizer “Eu sou vegan”. Já eu, cada vez que escrevo um post, digo “Eu tenho cancro”. Cada parva com a sua mania.)

Passei a conhecer as pessoas por outros prismas, como se me tivesse sentado numa cadeira elevatória e giratória e pudesse andar-lhes a toda a volta, vê-las por quadrantes nunca antes imagináveis porque impossíveis, olhá-las de cima, de viés, do avesso, à socapa. Sentir-lhes, assim, as fragilidades, as cobardias também, as fraquezas, as falhas. Claro que a inversa também é verdadeira, e foi-me igualmente dada oportunidade de conhecer a dimensão inumana — no sentido positivo do termo — de outras, por tão generosa e abnegada. Curiosamente, nestas últimas incluem-se pessoas da blogosfera, ou daquilo que resta deste nosso recanto, que vieram dar-me um abraço muito mais apertado e definitivo do que o de outras da minha vida real.

Antes que haja por aí alguma confusão, estou a lembrar-me concretamente de uma amiga de amiga, que se cruza comigo no ginásio e que, desde que o mundo soube, logo a seguir a mim, que eu estava doente, simplesmente deixou de me falar. Não que antes travássemos diálogos muito profundos, basicamente não passávamos do “olá”, ou, no limite da loucura, algo acerca de treinos ou da nossa amiga comum, mas agora julgo que me tornei invisível, pois a criatura passa por mim e desvia o olhar, ou, melhor ainda, olha-me à transparência, eu feita cristal bonito que se quebra quando cai.

Não sei como, nem se vale a pena, explicar a estes seres que o que eu tenho não se pega. Que o que eu tenho precisa de palavras, sobretudo se forem ditas por mim, sobretudo se forem um bocadinho mais do que chavões, andrà tutto bene. Que o que eu tenho se chama cancro, não tumor, não problema, não doença, só. Eu chamo o boi pelo nome, nada temam, que não desmaiarei se disserem “cancro” à minha frente. Cancro, cancro, cancro. 

Compreendo que, sem saber o que fazer ou dizer, haja quem prefira não fazer ou dizer coisa alguma. Eu também já fiz isso. E agora sei o quanto dói essa forçada indiferença. Mas também sei que, quando nos tornamos invisíveis, deixa de doer.


09/08/2022

Estar, ser, parecer

Na Radioterapia todas as mulheres são iguais: cabelo muito curtinho, roupa prática — fácil de despir, geralmente da cintura para cima —, sandálias rasas. Uma usa meias cirúrgicas bege debaixo das sandálias, os dedos à mostra, as unhas pintadas. Algumas ainda com a touca oncológica, um lenço, quase todas com as sobrancelhas em tímido renascimento. Os homens também são todos iguais, mas a eles bastam dois centímetros de cabelo para já não “parecer”. 

No salão de espera, estão apenas duas perucas: a de uma senhora de idade, que se maquilha até à exaustão, usa vestidos de flores e sandálias douradas, e a minha. A dela é sintética — sem movimento, com o brilho do nylon, parece (e, eventualmente, estará) carregada de laca —, porém combina na perfeição com todo o restante cenário. Tem franja, é cor de cobre, bate nos ombros e é enrolada para fora. Há uma harmonia com as sobrancelhas tingidas a lápis, os lábios de borrões vermelhos, o blush gritante, o sorriso exausto mas ingénuo. Eu levo os meus vestidos de sempre, a bela Natércia e sapatos fechados, sob a forma de alpercatas, claro que de cunha de oito centímetros. Não posso mostrar as minhas unhas dos pés. A quimioterapia simplesmente destruiu-as e o meu organismo ainda não as reconstruiu.

Um a um, somos chamados lá para a câmara de ficção científica. As técnicas muito técnicas, como treinadores de futebol, há muito pouco espaço e tempo para uma piada, um sorriso, uma gargalhada. As minhas ficam todas suspensas no nada. Estou rodeada de pessoas que consideram que alguém com cancro tem que estar sempre aos miares e suspiros. E não há lugar para um bom bâton borrado pelos dentes afora, nem para o campo de flores que um vestido pode carregar.


05/08/2022

Descalça

De entre outras, mais ou menos criadas por mim, tenho usado muito a metáfora do caminho de pedras pontiagudas que percorro descalça. Às vezes até tenho superstição em abrir a boca para falar, pois que até as imagens figuradas que construo vêm ter comigo: a quimioterapia sensibilizou-me mãos e pés, julgava eu que se limitaria à infecção nas unhas, afinal deu-me de graça plantas e palmas ultra sensíveis, com uma maravilhosa pele que não devo ter desde o berço, e que, apesar, contudo, todavia, mas, porém, não aguentam qualquer calçado e, uma vez descalça, qualquer piso.

Isto para dizer que a enfermeira que me fez a consulta preparatória de radioterapia me deu carta branca para ir à praia até começar os tratamentos. O que é que ela foi dizer. Fui, e fui à grande: alugámos colmo, almoçámos que nem reis (ignoremos, só agora por momentos, o facto de o meu paladar estar do avesso e um hambúrguer de salmão com batatas doce fritas poder saber-me a uma barra ferrugenta), fomos mergulhar até lhes perder a conta. Pedi os três desejos da praxe, que, se fosse uma pessoa normal, pediria “a cura, a cura, a cura”, mas sou tão prosaiquinha que “desperdicei” (aos olhos e sob o ponto de vista de humanos mais elevados) um deles a pedir “que o meu cabelo cresça depressa”. Só me danei por não ter definido “depressa”, por ser um conceito tão vago e vasto, que lá quem recebe estes pedidos tanto pode ser uma lesma e pôr-me o cabelo a crescer ao ritmo dos elevadores do IKEA, como pode ser um hiperactivo e amanhã acordar qual cavernícula. Também nadei, apesar de frequentar uma praia cujo mar não permite grandes braçadas, mas era verem-me sem Natércia, a nadar enquanto levava tareia das ondas, e teriam a imagem perfeita de um pato feliz.

A saída do mar, de todas as vezes que lá entrei naqueles dois dias, custou-me muito mais do que a entrada: havia uma barra larga de conchas partidas, que todas as pessoas passavam como se fosse areia fina, mas aqui à princesa do pé fino causaram dores excruciantes, rés-vés a lágrima bem salgada. Então, ofereci pela saúde dos meus filhos. (Caluda, eu é que sei onde é que gasto as minhas fichas.)

Portanto e à conclusão, corrijo a metáfora: estou a percorrer, descalça, um caminho de conchinhas partidas. 

(Pode ser que, para o ano, já tenha pés de tairoca, com aquele calcanhar de queijo de Serpa, ai que delícia.)

04/08/2022

Radio gaga

Chego à sala de espera — que é mais um salão, dadas as suas medidas, talvez uns cem quadrados, dava para um belo bailarico, não fora as circunstâncias — e apercebo-me de que está bastante compostinha. Faço aquela matemática básica, um terço são lugares vagos, metade das gentes podem ser acompanhantes. Mesmo assim, imagino que vou ali passar o resto do dia e uma parte da noite e pergunto à do balcão se está muito demorado, ao que ela me responde a frase que está ex aequo com “só há o que está exposto”, “esse artigo foi descontinuado” e “isso é com a minha colega”: “A senhora tem que esperar a sua vez”, logo a mim, que adoro retóricas. “Claramente, isso não responde à minha pergunta”, “Mas é que eu não sei”, “Acabou a conversa”, e ficámos por aqui. Pena que também só haja o que está exposto nestes lugares, que não descontinuem estas azedas que estão sempre em modo de frete no seu local de trabalho e, efectivamente, tudo deve ser assunto para a colega, que não está à vista porque nem sequer existe.

A Radioterapia é detestável desde que entro até que saio. O pessoal não tem a noção que trata exclusivamente com pessoas com cancro, como acontece na Oncologia. Já lá dentro, em vez de enfermeiras e assistentes, existem técnicas, com a simpatia de um empregado de mesa. Zero empatia, zero humanidade, é um corre-corre de despe, deita, posiciona milimetricamente para que os raios que partam a possibilidade de o cancro voltar funcionem, luzes e máquinas a toda a nossa volta, uma placa redonda, uma placa rectangular, uma outra que parece um ovo de avestruz, as técnicas saem da sala e uma delas transforma-se numa voz, “Dóna Maria, suspenda a respiração”, “Agora tranque”, e a p. da centrifugadora a fazer girar as placas à minha volta até à asfixia, “ai, que morro da cura”, parece que estou numa daquelas competições absurdas que fazíamos em miúdos, de atravessar a piscina debaixo de água até ouvirmos um gemido que nos saía da garganta, a mim só me apetece fugir dali a bater o dente e correr para os braços da minha mãe, que me espera com uma toalha seca e macia, como macio era o abraço dela.


03/08/2022

Hoje ando em limpezas (e não são de Verão)

Fartei-me de páginas que andava a seguir, de mulheres com cancro, e hoje des-segui-as todas. Só faltou a Fernanda Serrano, que é um caso de recuperação, bonitíssima (ainda mais ao vivo do que em fotografias), e a quem outro dia descobri uma cicatriz na axila igual à minha, pelo que me senti menos desanimada com o assunto. De resto, foi tudo. É com algum remorso, mas também tranquilidade que confesso que nunca segui @ilovecancer, porque o nome da página me deixava demasiado apreensiva e incrédula. I hate cancer, want to kill it. Até a queridíssima Joana Cruz foi na cheia, zanguei-me com ela desde que cortou o cabelo, ainda ele estava curto. E uma outra, muito animada, sempre a rir muito e a achar um piadão às fases todas desta merda. No mesmo barco meti uma que foi mesmo mastectomizada e passa a vida a ralhar com a vida e os seguidores. Compreendo-a, também me apetece acabar com o mundo à dentada e à unhada, só não me apetece aturar as birras das outras, se nem as minhas aturo.
Outro dia falei com uma amiga que passou por um processo semelhante ao meu pouco tempo antes de mim, a quem o cabelo e todo o pêlo caíram até à lisura — ao contrário de mim, que mantive o meu pente um do início ao fim da quimioterapia, sem uma pelada, ou seja, não caía mas também não crescia —, e que começou a rapar quando ele começou a crescer porque não aguentava ver metade branco e metade escuro, “parecia uma porca malhada” (sic). Até tive vontade de lhe bater.
Todos os dias vou verificar se o meu cabelo já cresceu mais um milionésimo de milímetro. Há dias em que sim, há dias em que não. E esses são duros como o caminho de pedras pontiagudas, descalça, que tenho percorrido. Chamem-me fútil. Digam-me que isso não é o mais importante. Digam que “é só cabelo”. E que “cresce num instante” (um centímetro por mês, vai demorar até bater nos ombros, não?). Claro que sim, tendes razão. Mas eu quero o meu cabelo de volta. É a minha fuga? Pode ser, respondam os psis. Enquanto me entretenho com isso, não penso no cancro. Mas, de todas as dores por que tenho passado, esta é de longe a que me dói mais. 


28/07/2022

The radio star

Acho que me criaram expectativas demasiado altas, ai que aquilo não custa nada, ai que é só deitares-te lá e esperares que o tempo passe, ai que são quinze minutos e está feito, tudo muito cheio de ais, seguidos da peta.

A sala de espera, onde permaneci para lá de uma hora (ninguém me manda chegar mais cedo, mas quarenta e cinco minutos foram derivados ao atraso no atendimento), é uma caixa de gritos. As únicas pessoas silenciosas eram quatro mulheres daquela etnia que Deus me livre dizer o nome — não venham de lá os histericofóbicos e me soltem os cães —, cônjuge e eu própria. Quer dizer, nunca me calei, mas porque tive sempre urgências para debater, e tudo num tom aceitável. Entraram dois bombeiros daqueles do transporte de doentes, que suponho que o maior incêndio que viram na vida foi o de algum fósforo que acenderam lá por casa, não desmerecendo nas suas funções, mas que fizeram um chavascal de tal modo — porque se puseram a conversar com pessoas na sala, ao invés de tratarem do assunto que ali os levava —, que o homem do altifalante teve que gritar “Silêncio na sala!”, parecia mesmo um juiz zangado em plena audiência, usando aquele sistema de som dos hospitais públicos, cheio de ruído e zero de percepção. (Eu só percebi porque precisamente a mesma frase já me gritava aos ouvidos há bastantes minutos.)

Depois lá me chamaram. Estava a estrear um vestido lilás para me dar sorte. Foi nada, apeteceu-me comprá-lo e ir dressed to impress com alguma moderação. Logo passou uma enfermeira por mim, que disse: “Que senhora tão bonita!”, o que me fez encolher porque não incho, mas registei a parte do “senhora”. Sou uma bruta, porém sorri e agradeci. Na verdade, estou cansada de ser bonita, linda e querida. Queria só sair deste pesadelo, dá licença?

Depois foi despir, deitar numa marquesa que parece uma cama ginecológica, mas ao contrário — os estribos são para pôr os braços, não os pés — e obedecer a ordens: respire normalmente, encha o peito de ar, tranque a respiração (uma eternidade de quarenta segundos que parecem duas horas), pode soltar o ar todo (sorte delas que eu não sou dada à flatulência e compreendi de que ar se tratava), isto por cinco ou seis vezes, p. da minha sorte, que nem a radioterapia pode ser feita a limar as unhas. Mais depressa fazia duas sessões de quimioterapia do que uma disto, embora não queira voltar para lá, hã? Lagarto, lagarto. Mas isso sou eu, que tenho a mania que sou diferente. 

Já só faltam vinte e nove iguais às acima descritas. Logo à noite já serão só vinte e oito.



23/07/2022

Tetratlo # 4

Consulta de Fisiatria: a ver se não é preciso fisioterapia, para não ficar com um braço mais gordo do que o outro. Só me falta mais essa. É acontecer-me semelhante desgraça e passo a levantar diariamente pesos com o outro braço, para ao menos ficarem iguais. 

O hospital é um labirinto, projectado por um arquitecto esquizofrénico, penso eu de que, enquanto percorro quatro corredores, dois em cada piso, e de já ter apanhado, pelas minhas contas, dois elevadores. Isto, depois de ter ido bater a duas portas que não abriam e tocado a uma campainha que não funcionava. Enveredei então por um outro corredor, onde não se via uma alma viva, mas se ouviam martelos e marteladas. Uma voz, atrás de um guichet escondido num canto escuro, perguntou-me para onde ia, respondi que para a Medicina de Reabilitação (não me lembrava do nome da médica), e a pessoa disse-me que era lá ao fundo do corredor, depois das portas automáticas, e que eu seria chamada pelo nome (que ela não perguntou qual). Percorri aquilo, não passei por portas automáticas nenhumas, mas sim por uma obra a céu aberto, uma parede destruída que dava para a rua, que local tão seguro. Sentei-me quietinha quando vi umas cadeiras, embora continuasse sem ver uma pessoa para amostra. Ao fim de quinze minutos, abre-se uma porta e surge a médica, muito sorridente, muito simpática, muito faladora. Cansou-me a beleza, falou durante meia hora seguida. Mediu-me os braços, deu-me a grande novidade de que eles são milimetricamente iguais (o que eu considero bastante anormal, visto que todos temos assimetrias por todo o corpo. Devo preocupar-me?), mandou-me fazer uns exercícios em casa para a mobilidade do braço e chutou-me para a próxima consulta, em Outubro. Saí de lá exausta, mas — e talvez por isso — consegui atingir a porta da rua sem me enganar no labirinto.


Tetratlo # 3

Consulta de Oncologia: a médica é uma simpatia, mas não há dúvidas de que eu gosto mais de homens e eles de mim. Não perdoo ao destino nem à m. do meu seguro ter tido que abandonar o meu oncologista giro. Disse-me ela que estou livre de consultas por três meses e que as idas ali serão cada vez mais espaçadas. Estou com ela há cinco meses e não cinco semanas, como estive com o cirurgião, e não houve abraço de despedida. Perguntou-me apenas se já comemorei a remissão do tumor, e respondi a verdade: “O vinho tinto ainda me sabe a aguarrás”. Sugeriu outra bebida, mas nem a cerveja marcha neste momento: arde-me a boca de tal maneira, que parece que a enchi de álcool etílico e depois lhe meti um fósforo aceso. Estou tão abstémica como era aos quatro anos de idade. 

Despedi-me dela com um: “Espero que não tenhamos que nos ver antes dos três meses que referiu”. Sorrimos, acenámos adeusinho com as mãos e pronto. Sem espinhas, sem lágrimas.



Tetratlo # 2

A seguir, fui tratar da injecção que faz com que, de três em três semanas, saia daquele hospital com uma das coxas a valer milhares de euros, quais Pretty Woman, quais quê, walking down the hospital. Burocracia inultrapassável, retiro senha para a triagem das enfermeiras, para que peçam à farmácia do hospital que envie a preciosidade, o que costuma levar uma hora, mais minuto, menos minuto. Dada a distância da farmácia para a Oncologia, cerca de duzentos metros, imagino que a injecção faz o trajecto a rebolar sozinha. Espero meia hora para ser atendida na triagem, o que faz com que me convença que são três da tarde e não duas, tanto sinto que esperei. Imploro que ela escreva no mail que aligeirem o processo de envio, pois tenho uma consulta às 16:00 (o que é verdade), e que diga que a injecção é para uma senhora muito ansiosa, que vem da Psiquiatria e até têm que lhe misturar uma dose de calmante na seringa, que ela está a começar a partir tudo. A enfermeira ri-se muito e escreve o mail, desconheço em que termos. Volto para a sala de espera, onde as mulheres discutem cabelos e respectiva queda, e apercebo-me das horas. Volto à triagem e digo: “Senhora enfermeira, esqueça tudo o que lhe disse há pouco. Julguei que já eram três da tarde, vi mal as horas. Escreva outro mail para a farmácia e diga que a ansiosa não sabe ver as horas e que agora já pode esperar. E que até podem demorar mais do que é costume”. Noutros tempos, ter-me-ia deixado ficar na sala de espera, envergonhadíssima da minha impaciência/ insistência inútil contra esta espécie de establishment secular. Agora, depois de ter perdido tanta coisa, mas tanta, o pouco filtro que ainda me restava também ter ido na cheia, é das minhas menores preocupações.

Tetratlo # 1

Quatro compromissos agendados para o mesmo dia, no mesmo hospital. Primeiro, às 13:18 (gosto. Podia ser 13:19 ou 13:17, mas era mesmo 18), análises clínicas. Sou de tal forma pontual, so british, que chego e falta uma pessoa para a minha vez. Sei que não vou demorar, são quinze gabinetes e aquilo é sempre a aviar. Enquanto espero, um velhote cai na rua, fica sentado no passeio, as pernas na estreita estrada onde passam as ambulâncias, um braço esfolado. A mulher grita mais do que ele. Noutros tempos, iria a correr ajudar, perguntar se podia fazer alguma coisa, não sei quê, não sei que mais. Mas agora tenho um calhau no lugar do coração, não posso — nem quero — fazer esforços, e apercebo-me, livre de eventuais culpas, que são precisos três bombeiros para içar o homem. Esqueço logo o assunto, até porque chega a minha vez, gabinete 13. Já estou sentada na cadeira da sanguessuga quando irrompe o casal velhote e mulher aos gritos, ela pedindo ajuda para o marido, que está a sangrar do braço e precisa que lhe façam um curativo. Gabinete 13, repito. Acredito que a personagem veio a correr atrás de mim, pois teve que correr o corredor todo desde o 1 para se ir enfiar no meu. A técnica em protesto pouco veemente, que ali não se faziam curativos, mas após uma frase onde se incluía a palavra “órina”, lá pôs um penso rápido no braço do homem. Entrementes, eu bufava a minha sorte macaca, mas por que raios a mulher havia arrastado o homem até ao gabinete que era nada menos do que o décimo-terceiro mais longínquo da porta? Noutros tempos, ainda era capaz de limpar a ferida ao homem, ralhar com a sugadeira de sangue que um band-aid não era suficiente, accionar connects para o internarem e ainda me alistar nas Carmelitas Descalças. Mudei muito. Ando a aprender a pôr-me em primeiro lugar em todas as ocasiões da minha vida. Não que antes me pusesse em segundo (plano), era em último, mesmo: nos escafundós da fila, onde já ninguém me via, nem eu própria a mim mesma. Isso acabou, agora tenho que olhar-me ao espelho e pensar: “Linda”.


12/07/2022

autoestima <--> subestima

Isto é uma espécie de Novas Oportunidades, que no meu tempo de adolescente dava pelo nome de Novas Profissões: estar doente é toda uma agenda. Neste momento estou, já não petrificada, mas até um pouco fascinada, com a quantidade de marcações que tenho para o mesmo dia, vá que todas no mesmo hospital: análises, a injecção que me é dada — literalmente duas vezes: na coxa e na bolsa, pois não pago os milhares (envergonho-me de dizer quantos são) de euros que ela vale (?) — e duas consultas, cada uma de sua especialidade, que é para não me enjoar. 

Ando revirada, se não de pernas para o ar, pelo menos do avesso: perdi a conta ao número de TACs, ressonâncias, análises, consultas e testes de covid que fiz nos últimos sete meses. Passei em todos com distinção, nem eu sei bem como. Lembra-me isto aqueles exames na universidade, em que a pessoa vai totalmente às escuras, com a sensação/ certeza de que não pesca um boi e depois tem uma nota injustíssima de tão boa para a ignorância que para lá carregou no lombo, arre burra. 

Estou farta, mas também enfiada num túnel que não tem volta atrás — porque se recuar ainda será mais escuro — e o caminho é sempre em frente. Não posso sequer sentar-me no chão e fazer a birra que me apetece, a bater com os pés e os punhos. Tenho que continuar, por muito que a vontade que tenho seja sair deste corpo e ir para outro (mesmo que mais feio e velho e gordo, deixem-me lá ser este estupor), ouvindo a voz exterior dos outros e a minha voz interior: "O pior já passou, já subi a montanha mais alta". Passou? Se calhar, mas eu também tenho medo da planície, sou esta caguinchas que fica a relaxar depois do esforço mais cruel, a pensar "E se...?".

Em matéria de autoestima, atingi quase o pináculo. Nem aos dezoito anos recebia tantos elogios (até porque, nessa idade, infelizmente, alguns eram assédio porco, como qualquer mulher sabe). Conforme já disse aqui, agora sou querida e linda. Posso dizer, fazer ou escrever as maiores barbaridades, que nada é levado tão a sério que me faça cair em desgraça, pois que talvez não exista, aos olhos dos outros, maior do que aquela em que já caí. 

Aprontava-me para fazer treino respiratório de preparação para a radioterapia, que mais não é senão obrigarem-nos a estar sem respirar uma eternidade até estarmos azuis, mas tudo pelo bem dos pulmões e do que perfeito coração. As técnicas disseram-me que teria que tirar Natércia (não sem antes perguntarem se era cabelo meu, ganda Nat) e eu tirei. "Ainda fica mais bonita", assim ouvi logo, enquanto exibia o meu cabelito de Mariza na época em que ela usava rente à cabeça. Depois retiraram-me a máscara e "Mais bonita ainda". (Estão tão habituadas, que já dizem aquilo quase sem olhar para os doentes.) Até que me pediram para abrir o fecho das calças — para que pudessem monitorizar a minha respiração pela barriga —, mas eu, que sou mal intencionada, pensei (juro que apenas por breves segundos) assim: "Tu queres ver que agora também...? E ainda irão dizer-me: 'Ainda mais bonita'?”.


04/07/2022

… deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Andava há cinco semanas a fazer penso pós-cirúrgico, uma vez, duas vezes por semana, e esta minha mania de me aconchegar nas rotinas, já estava a ser um programa qualquer, as enfermeiras amorosas, o médico um prato cheio, todos os meus pensos foram uma paródia pegada, cada vez que me lembro que de uma das primeiras idas a enfermeira me disse: “Eu sou a Mónica das mamas” — por ser especialista em amamentação —, e eu, que já conhecia aquele nome e alcunha de outro lugar, escancarei olhos e boca, “O quê? A Mónica das Mamas da Bumba na Fofinha? A mesma que mexeu nas mamas da Bumba está a mexer nas minhas!?”.

Então hoje o cirurgião disse-me que já não era preciso voltar lá, deu-me alta e aquilo pôs-me em baixo. A enfermeira igualmente desolada, “Espero que tudo lhe corra bem, foi das pessoas mais simpáticas que por aqui passaram”, e eu de beiça caída, “E agora, senhor doutor?”, ele de braços abertos para mim, “Agora…”, e abraçámo-nos quase longamente, “Vai tudo correr-lhe bem, é muito querida, gosto muito de si”. 

Devia ter saído do hospital aos pulinhos, mas nunca achei graça nenhuma a despedidas. Flutuei até ao carro, embargada, apesar do quase doce sabor de mais uma pequena vitória.

https://youtu.be/ifm00JEjSeo


 

03/07/2022

Dançar é como andar de bicicleta (sem rodas e sem rodinhas)

A última vez que tinha dançado tanto tempo seguido tinha sido há uma semana, aquando do Rock in Rio, mas, antes desse memorável evento, estive quieta de bailaricos talvez meio ano. Claro que tinha que vir para aqui gabar-me que fui ao RIR (hahaha). Fui no dia dos fósseis, em que tocavam Ub4, A-ha e Duran Duran, eu à espera de só encontrar thios de calças encarnadas e camisa branca, sapato de vela sem meia (ugh), acompanhados de thias cheias de extensões, botox e casaco de couro amarrado à cintura, afinal foi pacífico: média etária, meio século, mas muita canalha miúda e até duas senhoras idosíssimas (uma delas de cadeirinha eléctrica, a outra de bengala), havia de tudo um pouco, só não bebés (especialmente daqueles que guincham). Perdi praticamente todo o concerto dos Ub4, mas tinha que jantar sem ter que me meter numa bicha do demónio. (Meu pequeno grupo, hambúrgueres ao preço do ouro, eu um Pai Thai vegan ao preço da platina.) E sim, também estive mais de uma hora numa fileirinha pirilau para receber à borla uma cadeira insuflável, como tanto critica esse povo influencer (?), que não só tem menos quinze anos do que eu, como também vai parar a tendas vip e sentar-se em maples feitos de rabo de boi. Adiante: assim que me apanhei com o pufe, dei em dançar toda a noite, pelo que não usufruí praticamente nada dele, mais valia tê-lo oferecido a um pobrezinho que fosse ali a passar, sei lá.
Mas não era a isto que eu vinha: era também para me gabar, é certo, mas sobretudo para comunicar ao mundo que hoje voltei às minhas danças no ginásio. Levei três ou quatro abraços da treinadora, agradeci-lhe a frase que me inspirou durante estes sete meses e que saiu da boca dela, fiz a aula a sentir-me a maior, a não errar praticamente nada nas coreografias todas (embora suspeite que só fiz m., mas soube-me tão bem!), sempre com Natércia a assar-me a mioleira, ao fim de quinze minutos pensei: “Olha, faleço feliz!”, mas aguentei até ao último minuto, soubesse eu o que sei hoje e ter-me-ia voluntariado para os Comandos, pois desconfio que numa tropa especial é que eu me encaixava bem. 

01/07/2022

O António e os dedos no rabo

Sim, se calhar estas coisas acontecem a toda a gente, mas dá-se que não o creio. É por esse motivo que necessito de desabafá-las por escrito, como se, ao fazê-lo, elas se me descolassem da mente, ou, pelo menos, perdessem a força estrondosa com que me atormentam.

Era eu a chegar à bicha (blhá) da estação de serviço, e reconheci-o logo, de costas: careca, envergando o tipo de calças que usa sempre — skinny jeans, o homem já passou dos sessenta e aquilo ainda lhe aumenta mais o perímetro da cintura e lhe diminui o volume do traseiro a níveis praticamente inexistentes —, camisa desportiva entalada por dentro das calças, todo um menear de anca enquanto se queixava do aumento do preço dos combustíveis. Quando se apercebeu de que era eu que estava atrás dele, perguntou-me como é que eu estava, deu-me dois beijinhos extremamente perfumados e eu respondi a verdade: "Agora estou melhor". "Ah, do quê?", "Cancro.", "Aaaah, de quem?", "Meu.", e ele de nariz franzido, óculos a subirem para o intervalo das sobrancelhas, olhos exageradamente escancarados, boca a tomar aquele formato da das influencers quando se fotografam em selfie, "Aaaah, não fazia ideia!", lá veio a retórica das amigas que tiveram, milhares de amigas que tiveram e estão óptimas, olha que maravilha, ter um cancro é o prelúdio de ficar óptima, imagino o que ficarei, se óptima já eu era. 

Estava nestes pensamentos etéreos — não esquecer que o cenário era uma bomba de gasolina —, quando ele larga de lá, depois de me dizer que o Paulo é como um filho para mim, sendo que eu sei que o Paulo e ele vivem maritalmente: 

- Eu faço o exame da próstata todos os anos. Os meus amigos recusam-se, dizem que ninguém lhes mete os dedos no rabo, ou então aquele aparelho, mas eu não. 

E eu a pensar que sorte a dele, amigas pós-cancro óptimas, amigos pré-cancro com medo dos dedos no rabo, agora finalmente concluo que isto de ser mulher é um privilégio muito maior do que eu pensava, talvez me pirasse daqui neste preciso momento, antes que ele seja um nico mais gráfico.