28/02/2018

Ela fala tanto # 23

Entra e traz atrás dela o excesso de ruídos que lhe é característico, quiçá se por temer passar despercebida (como se isso fosse possível; como se isso fosse fundamental): bate os saltos das botas ainda no patamar dos elevadores, bate a porta, só não bate continência (lá iremos?), acelera o passo com a desculpa do guarda-chuva molhado até à casa-de-banho, tosse, deseja bom dia, dá conta de que está a chover — para o caso de eu ainda não ter percebido, não só pelo espalhafato com o guarda-chuva, como também porque existe a possibilidade, ínfima que seja, de eu viver num casulo e, no limite e na loucura, não ter internet —, ainda não despiu o casaco e já me está a perguntar o que é o almoço (são 9 da madrugada, genitais, eu ainda nem pintalguei o rosto de cores saudáveis e já me estão a sobrecarregar com particularidades?). Balbucio-lhe uma possibilidade, legumes à Braz. Ainda antes de vestir a bata, dispara:
- Por falar nisso [segura-te, LB, vem lá rajada], tenho uma dor nesta orelha que não lhe passa pela cabeça. 
- [Silêncio.] [Nunca poderá passar-me pela cabeça o que seja uma dor na orelha de quem quer que seja, que não seja algo equivalente à de Mr. Van Gogh.]
- É mesmo aqui no bolbo, cada vez que lá toco até amarinho pelas paredes. [Acima?]
- [Eu preciso de silêncio.]
- Isto foi outro dia, magoei-me com um brinco e agora dói-me. 
- Rasgou?
- Não, foi o brinco que se prendeu no furo. O brinco tem aquela parte para se meter no furo, mas não foi essa parte, foi a outra, meteu-se para lá, depois torceu, não sei como, vi-me aflita para o tirar, já na altura me doeu imenso, agora dói-me cada vez que toco lá. E é que não passa, raio do brinco, não sei como é que me fez aquilo, ainda por cima é da ourivesaria, nem é daqueles ordinários, e... [beca-beca-beca-dores-agonia-não-aguento-dói-dói-beca-beca]...
- [Tanta FDF que singra por este país afora]...


27/02/2018

Espírito de missão, ou lá o que é isto

Tinha uma autoincumbida — porque a autodeterminação é uma coisa muito bonita — e comprida missão a cumprir, que era a de fazer uns pequenos bolos para oferecer a um grupo ao qual pertenço, sendo que, para tanto, teria também que providenciar pelo seu transporte (dos bolos, não do grupo), o que envolvia uma sinuosa e previsivelmente acidentada viagem de metro. 
(Eu sou aquela detestavelzinha que se mete nas merdas com a estrita e única intenção de depois poder queixar-se. Aviso já.)
(É que isto tinha tudo para correr mal, e até me palpitava a anteriori, por que é que insisti? Para haver uma  posteriori? Para ter ceninhas para contar? Chata da porra.)
Comecei por fazer, com a mesma receita, um mega-bolo lá para o lar, feito laboratório experimental, com vista a atingir uma amostra estatística: assim eles gostassem, assim o grupo gostaria. O bolo desmanchou-se, como já disse e não quero voltar a repetir, mas ficou tão saboroso e foi aspirado em tão poucas horas, que a interpretação dos meus dados me disse que sim, que era aquele o caminho. 
Fiz, então, pequenos e belos cocozinhos os bolos pequenos.

Hã? Só classe.
Tanta coisa para demonstrar o quão sou boa na cozinha,
vertente pastelaria e doçaria.
Receita aqui.

Seguidamente, enfrentei o problema do acondicionamento para transportar meus produtos no sinuoso percurso de quarenta minutos, que envolve uma parte a pé, outra nos trancos e barrancos do metro — com mudança de linha incluída —, mais outra parte que envolve a subida de uma rua cujo passeio é em formato de anedota (hahaha. Não ri, isto foi um espasmo). No entanto, arranjei uma caixa perfeita para aquele fim, grande e rígida, que meti dentro de um saco de compras dos grandes, para poder carregá-la mais facilmente (?).
(Nesta fase do processo, já eu estava arrependida de ter nascido.)
Saco ao ombro, toca de dar início à viagem, isto tudo de saltos altos, que eu cá, quando me meto nas missões, é para esfolar os dois joelhos até sangrar. 
Após ter atravessado ventos e marés, materializados sob a forma de escadas rolantes — nas de descida, há toda uma estratégia e uma arte de equilíbrio a considerar aquando da colocação do pezito no degrau certo, sobretudo quando se vai assim carregada —, escadas não rolantes (aquelas que ficam sempre paradas, sabem?), entrada no metro com um saco enorme (ou que, pelo menos, ia aumentando de tamanho à medida que o tempo decorria; e eu já a sentir-me um São Cristóvão) (vá que não me deu para sair no Martim Moniz), atravessamento das portas automáticas pelo lado do canal especial, mais escadas rolantes e escadas quietas (numa tradução livre, libertária e feliz, rolling stairs versus stone stairs), mais o tal passeio de piada (hahaha, outro espasmo), para chegar lá e...
oh...
... não haver encontro, por ausência do mestre.
(Não voltei para trás com a tralha toda atrás, não. Fiz beicinho e pedi que me guardassem os meus pequenos dejectos no frigorífico até uma próxima oportunidade. Até lá, transformar-se-ão efectivamente nas poias que parecem ser, mas paciência. A sorte protege os audazes. (E também os prevaricadores.) (E os lamechas.) (E os irónicos.) Enfim, não sei por que é que escrevi isto. Mas tinha ali este título metido nos rascunhos há que tempos, já não sei para que post, e tinha que acabar este de qualquer maneira.

26/02/2018

Os anjos não dão quedas

Quando a conheci, já estava e já era assim, estática e volátil, o olhar branco, opaco e perdido, o sorriso preso no último rasgo, quem sabe se no momento anterior àquele em que a doença lhe levou a vida sob a forma de viço. De todas as vezes que nos cruzámos, porém, respondeu ao meu "boa tarde" com um igual, embora não lhe tenha ouvido, para mim ou para quem fosse, mais do que isso. Ali a vi sempre, no café do marido, que há-de ter sido construído pelos dois, e onde, agora que as células lhe morrem na cabeça uma após a outra, formando tranças indissolúveis, lhe restou reservado o papel de estátua, de estátua de papel.
Naquele dia, vi-a sair, etérea, passo miudinho após passo miudinho, o corpo pequenino abrigado por calças e casaquinho de malha. Foi em direcção a sabe-se lá, em busca ou em fuga, ou então nada de coisa nenhuma destas, quem pode saber o que se passa num cérebro que deixou de processar da mesma forma que os outros? Não que me tenha feito diferença vê-la sair, não que tenha ao menos pensado que não estava certo e corria riscos — como é dramático o regresso à infância sendo assim —, não pensei mesmo nada, foi como se um anjo tivesse passado por mim e eu estivesse demasiado absorta no meu café, porque estava.
Momentos depois, vi-a surgir pelo braço de outra mulher, que chamou dali o marido e lhe narrou que a havia ido "apanhar já ao fundo da rua, na ponta do passeio, e não pode, e é perigoso".
Ele era todo grisalho de sobrancelhas carrancudas e bigode espesso quando a segurou, agarrando-a por um braço, e vociferou o imperdoável: "É só para a maldade, não é? Já não serves para nada, mas lá para a maldade estás sempre pronta!". E, de olhos besuntados em mim, continuou o horror: "Nem esse corpo já serve para alguma coisa, só serves para a maldade!".
Ela com o mesmo olhar branco e o sorriso preso no último rasgo.
Não me perdoo a incredulidade, o nojo, o choque, a inacção. Titubeei ridiculamente uma espécie de axioma, "Isso é violência doméstica, deve saber que é crime", e saí dali. Fui em direcção a sabe-se lá, em busca ou em fuga, cheia daquelas dores da impotência, da raiva e da certeza de não mais voltar.


25/02/2018

I, Tonya

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 7)

Ide ver.
Just do it*.
(Pessoalmente, não tenho qualquer memória dos factos relatados no filme. You know, I was too much occupied having babies.)
Sala cheia, minha criança era a mais nova (coincidentemente, da mesma idade que a protagonista), depois uma mulher à nossa frente, logo a seguir eu própria. Dá para imaginar a brancura do panorama até à tela, já que ficámos na última fila? Alguém saberá explicar-me o fenómeno?
(Ainda assim, e por que não?) ide. Já disse?

*NMPPI, nem é pub encapotada