Nas últimas semanas, não estranhei a ausência da Carminho nas aulas de dança. Sabia onde ela estava, pequenina e magrinha, à briga com a morte, essa implacável que leva quem quer e bem entende, sem critério nem justiça. Agora já não sei onde está a minha companheira de voos leves, para onde foi, sei apenas que, ao início, olhava para trás na minha diagonal esquerda e lá estava ela, as asas servem p’ra voar, depois a ausência, que ocupa um espaço muito nítido e lá estava o lugar dela vazio, agora não está ninguém na sala, olho naquela direcção e vejo uma enorme cratera, um ground zero, os vultos que o ladeiam são-me estranhos e perco-me na coreografia uma, duas, cinco vezes, tenho as asas doridas.