29/03/2018

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 4

Ai-fostes veio parar-me às mãos guarnecido com uma aplicação assaz atractiva, quanto mais não seja por ter, no seu ícone, un petit coeur. Responde ela pelo nome de "saúde" e é a que — de entre outras valências que não explorei — nos mede a distância diária que percorremos a pé ou a correr (como se corrêssemos com recurso a outra zona do corpo que não fossem os pés). A mesma aplicação peca, a meu ver, pela incapacidade intrínseca que lhe é inata, de nos contar os passos em situações de não deslocação, ou seja, quando maior é o esforço, que é no ginásio: elíptica, passadeira, jump, body pump, aeróbica, etecetera. Pode uma pessoa estar a finar-se de exaustão cardio-gluteal durante uma ou duas horas, que a aplicação do coraçãozinho lhe atribui muito menos passos (na verdade, igual a zero) do que se for bater pernas para o shopping no mesmo espaço de tempo.
[No entanto, existem casos como o meu em que me parece justo que assim seja: a marcha fora do ginásio é cumprida (e comprida) de saltos altos, pelo que até deveria valer o dobro, como aquelas campanhas em África.]
Depreendo, não obstante, que Ai-fostes contabiliza a passada de forma relativamente aleatória. Por exemplos: anteontem, ao longo de um dia inteiro, contou-me 3941 passos para 2,6 km. Ontem, eram ainda umas escassas 16:49 da tarde, já ele me havia contabilizado os mesmíssimos quilómetros, mas com 4447 passos. Ou seja, percorri a mesma distância, dando mais 506 passos (e sim, recorri à calculadora, porque este desgaste pedonal acaba por me afectar o cérebro).





Conclusões:
1. Há dias em que dou passos de gueixa;
2. Há dias em que dou passos de elefante/ gazela;
3. A contabilização é muito mais aleatória do que eu imagino. Tipo o boletim metereológico;
4. É possível enganar a aplicação (que funciona por GPS), bastando, para tanto, que nos desloquemos de um lado para o outro, nem que seja do sofá para o frigorífico, do frigorífico para a despensa e da despensa para o sofá, sempre no enfardanço. Ou então, era a pessoa praticar o ballet e dar uns bons jetés por dia, que aquilo contava dez passos por cada jeté);
5. Nós não estamos sós


28/03/2018

Post interdito a machos # 7

O soutien, ou sutiã, conforme preferirdes, é aquela peça de vestuário que, salvo as excepções dos de desporto e medicinais, regra geral, vem apetrechado com colchetes, que são o que encerra o dito cujo até à próxima abertura, isto tanto para o bem como para o mal. A mim parece-me, mesmo sem ter feito uma auscultação de mercado exaustiva ou de qualquer espécie, que toda a mulher, mais ou menos a partir dos doze anos de idade (ou desde que as meninas eclodem), consegue fechar os dois colchetes atrás das costas, atrás dos olhos, à frente do peitoà frente das costas, nas costas, sem recurso a ajudas, espelhos ou outras manobras que tais. O tacto também é um sentido, e é em grandes momentos como o da abotoadura do sutiã que dá provas cabais da sua grande oportunidade. Portanto, apertar dois colchetes, minúsculos e quase juntos, em duas ou três fileiras, quantas vezes com unhas compridas, não sendo tarefa que exija grande ciência nem tecnologia, também não é impossível aos olhos (mesmo sem recurso a eles) de qualquer mulher desde o final da infância.
Com o advento dos bralettes, advieram com eles as fileirinhas de colchetes, mais concretamente três fileiras paralelas (vá lá não serem perpendiculares; ou oblíquas. Secantes) de nada menos do que quatro colchetes cada uma. Quatro. Não sei como não se lembraram de pôr um fecho-éclair naquilo.
Ora bem, quatro vezes três, é igual a doze. Doze colchetes são vinte e quatro peças do tamanho de uma mosca recém-nascida, para uma mulher ter que manusear sem olhar, nas suas próprias costas. Esta intrincada matemática, qual autêntica matriz, que envolve análise combinatória (aliada à ginástica contorcionista de todas as articulações do braço), equivale a n possibilidades de combinações entre os doze colchetes, cada qual, como já vimos, com duas peças, e em que há que fechar em recta perfeitamente vertical, nada menos do que quatro deles. Nada confuso, portanto.
Aposto todas as minhas fichas em como quem desenha os sutiãs são homens. Esquecem-se — ou não — do super-multitasking feminino: tal como nos primórdios da eclosão, havemos de abotoar o bom bralette na barriga, rodando-o e depois subindo-o torso acima, até que nos reabituemos à estratégia da cabra cega. Subestimam-nos, os meninos.


27/03/2018

Freud, socorro!

E lá estava ela, exibindo a sua pretensa superioridade na matéria, impondo opiniões, desfocando o objectivo, na ânsia de sobressair. E ele, ao lado, adormeceu. Foram escassos três segundos, qualquer coisa de imperceptível, mas foram profundos, alienatórios e reparadores. Quem mos dera. Ao invés, morri-me mais três segundos da minha vida.
Ela não o viu adormecer, pois estava tão concentrada em si mesma que simplesmente era incapaz de olhar à volta.
Pode ser uma fase que passo agora, e que passará um destes dias — ou não —, mas tenho cada vez menos paciência para a soberba, para a vaidade cultural, para a sobranceria intelectual. Sobretudo quando, como é exemplo esta senhora, se engana tanto e tantas vezes seguidas que não é possível justificar verdadeiros erros com lapsos (e não gralhas porque a mulher fala; na verdade, não se cala).
O que mais me intriga é que a própria não se apercebe. Pode estar diante de um grupo de seis, de dez, talvez pudesse enfrentar uma plateia de centenas, que nunca se daria conta do frete que provoca de cada vez que abre a boca para mais uma das suas pequenas — infindáveis — dissertações. Aquilo é quase um dom para a hipnose de grupo. (Estará a treinar?) 
Olho para ela e penso se algum dia ficarei assim, não necessariamente dona da última opinião, pois isso nem me é estrutural, mas assim: convencida que sou um "bom papo", que é um prazer para os outros ouvirem-me (e, se não for, no limite, que me aturem na mesma, porque já defeco se me ouvem por opção ou por mera delicadeza), que sou uma oradora de mão boca cheia. O que sei, para já, é que nunca ninguém adormeceu a ouvir-me falar (faça-se honrosa excepção aos filhos enquanto pequenos, o que era, se não um alívio, pelo menos um momento bom). Já pus gente a ouvir-me com atenção, com (real ou simulada, nunca saberei) admiração, com alegria, com lágrimas, até mesmo com raiva. Já provoquei, através das minhas palavras, as mais diversas reacções nos meus interlocutores. Mas sono, ou adormecimento então, isso nunca. Quer dizer, que eu tenha dado por isso. Ou não terei  já tido momentos em que, também eu, concentro o centro do mundo no meu umbigo e não vejo mais nada?