30/09/2017

Eu tenho problemas com médicos # 28

Desta vez, se pensar bem nisso, o problema nem é meu: é do agregado. 
Então, o homem quer livrar-se dos óculos, porque, ao que parece, as pessoas que os usam têm dificuldades acrescidas — ou, tão-"somente", dificuldades, ainda que não acrescidas —, para aquelas tarefas que nós, não míopes, nem hipermetropes, nem astigmáticos, cumprimos com facilidade e também felicidade, a mesma à qual só damos valor quando assistimos com frequência a estes cenários: tomar banho às cegas, entrar no mar às apalpadelas (acho que não às banhistas, mas é um risco que se corre), o regresso à toalha ser um enigma difuso, jogar à bola sem a ver tão bem quanto os outros jogadores, tirar um prato do forno sem ficar em Alcácer Quibir. E etecetera. Ora, vamos considerar que não consegue adaptar-se às lentes de contacto. [Vamos também fingir que não sabemos que ele nunca fez um esforço de adaptação, tipo enfiar aquilo lá para dentro e, assim, ver a luz.] 
[Enfim, não quero imaginar maquilhar-me sem ver o que estou a fazer. Levar ao limite a noção de long lash extensions, cara acima, testa afora, raiz do cabelo adentro.]
Vai daí, consultou o seu oftalmologista de há alguns anos, que concordou que a miopia dele está estável, e, por conseguinte, é de operar e livrar-se dela, e, de caminho, dos óculos. Processo iniciado, o médico manda a requisição para efeitos de seguro [esses cães que regateiam todos os cinco tostões quando é para pagar, mas para receber parece que é sempre pouco, e vão, de certeza, considerar a cirurgia um acto estético]. Só que a requisição referia apenas um olho, sendo que ele, ao que tudo indica, tem dois. E ambos são míopes, pelo que, consequentemente, têm que ser democraticamente operados. Incrédulo, ligou ao médico, mas acontece que o senhor doutor não está disponível/está fora/hoje não dá consulta/ligue mais tarde. Ainda mais incrédulo, mandou mail ao médico. Sem resposta.
E estamos nisto há dois meses. Porque há um oftalmologista neste nosso país que considera normal:
1. operar um só olho;
2. operar um olho de cada vez;
3. que há alguém que vai usar monóculo;
4. que é vulgar ter miopia num só olho;
5. que o olho é um conceito que não conhece plural;
6. que admite a existência do número ímpar, em se tratando de olhos. (Quem sabe se a requisição corrigida, isto no caso de chegar a passá-la, será referente a três olhos. Ou cinco.)
(No lugar dele, eu mudava de oftalmologista. Faz-me muita confusão um médico que não sabe fazer contas de matemática.)


29/09/2017

All my loving

Não sei se foi ontem ou se foi anteontem, que ouvi na rádio, mas também não sei em qual (acho que foi na Radar, que ocupa 90% do tempo que eu ouço rádio), em que perguntaram não sei a quem importante — mas lá está: não fixo nada do principal, mas retenho o acessório —, qual a música dos Beatles preferida dele. Ainda suspendi a respiração enquanto a resposta não chegava, porque — com os outros, não sei, comigo é assim — achamos sempre que hélas!, há uma alma gémea nossa algures, em cada uma das nossas pequenas opções, mas rapidamente veio a infirmação de que, desta vez, pelo menos, não era aquele Bobby (?) quem tinha um gosto igual ao meu, mas também a confirmação de que gostos não se discutem, nem o musical, por conseguinte.
Ele escolheu She loves you
Eu escolhi, há muitos anos, All my loving.


Então e tu?

28/09/2017

Nefanda demanda

Isto é um supÔnhamos: estou convidada para um aniversário, que começou por ser almoço, de repente já era a meio da tarde, e agora desconfio que é jantar, se é que chega a acontecer. Mais uma vez, há um amigo que perfaz a módica quantia de cinco décadas, e parece que isso é motivo de comemoração em grande estilo. E style. Também mais uma vez, ninguém me pediu uma singela contribuição para o repasto, mas ou porque é moda ou porque a noção acabou de vez, desta vez, o pedido foi não para uma viagem, mas para um barco (chiu, leram bem, um barco). Foi-nos sugerida, pela mulher do aniversariante, uma transferência bancária, supostamente surpresa para ele (da qual ela também beneficia).
[Querido, vou organizar-te uma festinha pelo teu próximo aniversário, peço ao povo aquela mala que vi na montra da avenida da Liberdade, e depois andamos os dois a passear com ela a tiracolo por Ibiza, buenas?]
A mim, quando me dizem que o traje é informal porque é um almoço (ou jantar?) no campo, numa quinta da família, fico logo nervosa, porque sei que vai aparecer de tudo: desde a thia sem noção, toda de tafetá, até à thia sem noção, de look total jeans. 
Portanto, independentemente de ser no campo, e porque também já estou naquela fase da vida em que posso fazer o que quiser, porque a idade é um posto, pensei numa coisa assim:

É óbvio que não quero ir igual-igual a esta miudinha, especialmente porque pretendo usar mais roupa por baixo do blazer. 

Mas não está nada fácil encontrar o conjunto, nesta altura do ano. E supÔnhamos que só tenho dois dias para o fazer. 
Já corri as Zaras, Massimo Duttis, Uterqües, Bimbas mais Lolas, Lanidores, El Corte Inglés, e até as mais fanqueiras desta vida (só não fui à Primark, tu queres ver que era lá que...?). E nada. Ele há em azul, preto, cinzento, bege, vermelho, e até cor-de-rosinha. Tudo, menos branco. E eu quero ir sujar-me para o campo, de branco vestida, caturreira!

Entretanto, nas pesquisas online, diverti-me muito com a moda para este ano. Não saí do site da Zara, nem do separador 'calças'. Deixo-vos aqui momentos que passei, se não hilariantes, pelo menos trágicos, do que tem sido esta demanda. 
(Quando não tiver assunto para escrever — que é todos os dias, convenhamos —, já tenho aqui um nicho.)

















27/09/2017

já não há amores-perfeitos

Ficaram tombados, como frágeis guerreiros ao primeiro combate, arrancados, amputados, atirados pelo ar. 

E depois vi-nos penduradas de falta de ar, também nós arrancadas, amputadas, atiradas pelo ar. 
Reconheci-te, quando a senti em mim, a velha vontade de derramar pérolas pequeninas, inundando de cristais o chão de terra alcatifado. Lembro-me das tuas mãos miudinhas a tapar os olhos, o silêncio de um soluço percebido num movimento magrinho.
Amadurecemos, mana. Envelhecemos, sabes? Temos que voltar a ser pequeninas e apertar o abraço nas horas de tempestade. Diz que dos maduros não reza a História, e ambas sabemos que um destes dias teremos que nos fazer fortes como dantes e deixar correr o canal.