13/02/2016

A todos os que ainda insistem no romantismo de ver chover na p. da vidraça

Não. A p. da chuva não tem piada nenhuma. Ver chover lá fora enquanto ficamos à lareira a fazer a nossa renda, ou a fazer render o peixe, ou o amor, só é bom e bonito para quem nunca levou uma boa molha pela cabeça abaixo, para refrescar as ideias românticas da chuva lá fora. E para quem nunca teve que andar de transportes públicos, com o chão todo molhado, os assentos todos húmidos, os vidros todos embaciados e o povo todo a roçar guarda-chuvas encharcados pelas nossas perninhas abaixo. E para quem nunca levou uma molha de água porca daqueles automobilistas cuidadosos, que, sem querer, até passam, que parece de propósito, as rodas junto ao passeio onde nós estamos, criando uma onda de sonho surfista. E para quem nunca meteu um pé na poça, literalmente. Ou ficou debaixo de um telheiro, à espera que a m. da chuva altamente romântica, resolvesse abrandar de intensidade, encharcada e gelada (vá, vamos piorar o cenário) com uma criança pela mão, uma no carrinho e outra na barriga (parece impossível? Parece), igualmente encharcadas e geladas. Ou a chuva não lhe entrou casa adentro, sob a forma de água suja, às litradas, molhando chão, móveis, roupas, e tudo o que apanhou à frente. (Esta, por acaso, logo a mim, que sou a rainha da coincidência estúpida, deve ter sido a única que nunca vivi na primeira pessoa do singular.)
Portanto, a próxima vez que ouvir alguém falar no romantismo da m. da chuva a bater na p. da vidraça, mordo.

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 36

Imaginemos que uma pessoa humana está a ultimar a compra online do supermercado numa grande superfície, pertença do Tio Mimiro (cá beijinho), e até já sofreu digamos que contingências  porque o site bloqueia, porque o site, basicamente, não percebe nada do que uma pessoa quer (pede-lhe aveia, e está-se mesmo a ver que é aveia em flocos, e o chibo chiba-se com creme de aveia para besuntar a cútis, é que não há cútis que aguente!). 
Passemos, então, dessa imaginação que parece tão fértil, para a realidade nua e crua: está a mesma pessoa humana, vestida e (ainda) não fritada, a tentar processar o pagamento, quando o mistério se adensa e depois se desenrola, qual rolo de papel higiénico, diante de seus incrédulos olhos: dois dos produtos  Ajax lava tudo (diz ele) e papel de alumínio, rolo de 100 metros sem barreiras (que, com jeitinho, praticamente forrariam todo o chão cá do lar) —, fazem parte de uma coisa chamada encomenda 1, e o resto dos 51 produtos encomendados, compõem a encomenda 2. Por outro lado, tem, para a encomenda 1, um quadrinho que lhe diz "A sua encomenda será entregue entre 2 e 3 dias, horário laboral, 9:30 - 18:30", e, para a encomenda 2, pode, como sempre pôde, escolher o horário de entrega. 
Vai a pessoa e liga para o apoio ao cliente, onde é atendida por um daqueles Hélderes. Vai o Hélder e explica à pessoa que a pessoa encomendou dois artigos através do separador "Negócios", e que, se por um lado é possível passar o papel de alumínio para a encomenda geral, já quanto ao fabuloso Ajax Fabuloso, isso já não será possível, pois que só se encontra disponível no separador "Negócios". Confrontada com esta lógica-zero, é também quando a pessoa desaba e desabafa tudo o que lhe vem à alma acerca de informática aplicada ao brócolo e, sobretudo, ao nabo.
Diz que os informáticos andaram outra vez a mexer no site do hipermerceeiro. Parece que são pagos para isso.
Sai o pedido encarecido e clemente da pessoa a eles dirigido: 
Don't. Just don't. 
Ou, em vernáculo: não mexam mais, genitalho. O site já é suficientemente mau. Só à custa do Ajax, perdeu a pessoa dez minutos da sua hipertensa vida, para além da oportunidade de lho transportarem a casa.

(Vale-lhe ser azul, e lembrar-me o toque do meu primeiro telemóvel, que era com a Carmen, de Bizet.)


Por falar em canecos. E em zumba na caneca. E em zumba

Por acaso, fui a uma aula de zumba. Eu queria saber como era, mas tinha medo. Já me tinha dado mal com experiências malucas, no body pump (corpo bomba, em americano) e na bunda (a tradução livre, do americano, é peida). Em ambas havia morrido, destruído um fim-de-semana inteiro e comprometido qualquer possibilidade de regresso, já não digo às aulas, mas mesmo a uma vida normal, em que sentar-me na sanita ou comer sem ser por uma palhinha não fossem tarefas escruciantemente dolorosas. Já a achar que a zumba era uma expressão onomatopeica, tipo pumba, bumba, e outras consoantes seguidas de umba, fui, mas fui sorridente, para a stôra ter pena de mim e não me obrigar a exercícios que não fossem próprios para a minha idade.
Quando entrei na sala, apercebi-me que metade de nós éramos africanas, e pairava no ar um aroma de gafieira, porque algumas de nós  eu insisto no pronome  íamos já muito suadas. Mas foi bom, para dar ambiência, e haver algum foco na coisa.
Levei comigo a minha Preta mais querida, a quem ainda não dei aqui os parabéns e já fez anos há que semanas. Mas é que eu estava em greve nesse dia, e não deu. Ela sentiu-se em casa, porque se considera pertença de uma raça diferente da minha, desde o dia em que nasceu, o médico comentou "Mas esta é tão escura!?", e eu respondi "Senhor doutor, esta é filha do preto". Nunca subestimais a memória de um recém-nascido, escutai o que vos recomenda a voz da madre de todas as coisas.
A primeira coreografia foi ao som de Albatroz, e isso assustou-me ligeiramente, até pelo nome da criatura que entoa essa melodia. Fiz um juízo precipitado, eu sei, mas pareceu-me que dali não podia vir nada de bom, a começar assim.
Mas não. As outras zumbas, eu não sei, mas a zumba que me calhou a mim foi uma aula de danças latino-americanas, com um pouco de tudo, tipo slada, como diria o povo: mambo, samba, rumba (lá está), salsa, merengue, cha-cha-cha, e uma coisa que eu ouvi em flamenco, mas a monitora gritava cha-cha-cha nos passos de marcação.
Eu gostei. Lembrou-me levemente as minhas aulas de dança. Só faltou um bocado de kuduro para lembrar ainda mais. Aí é que as africanas nos passávamos todas.
Foi zumba na caneca, mas não foi de partir o caneco, se é que me entendem.
Entretanto, continuo, há cerca de dez semanas, ou quiçá nove e meia, a baldar-me olimpicamente  literalmente  a Pilates. André Pilateiro ainda não me sentiu a falta, ou então anda a fazer-se difícil. E eu com preguiça de me ir para lá espreguiçar.

12/02/2016

É tão pouco blogger da minha parte # 6

Era uma zona de restauração de um centro comercial, e eu estava sentada. Não que seja o melhor sítio para se tomar uma refeição, mas seguramente o mais apto para comer qualquer coisa, esse conceito tão português, semelhante a enganar a fome, matar o ratinho (ai, coitadinho), sossegar o leão que nos devora as entranhas (expressão da minha lavra, de que muito me orgulho) e etecetera. A umas mesas adiante da minha, estava um casal com um bebé. Ele segurava a criança no colo, o prato dele arrefecia à sua frente, enquanto ela comia — a sobremesa. Pouco depois, passou por mim outro casal: ela, à frente, procurava mesa; ele, atrás, segurava o tabuleiro com a refeição dos dois com uma mão, e com a outra empurrava o carrinho, onde estava sentado o filho de ambos — um carrinho de bengalas que, conforme se sabe, é muito mais difícil de conduzir com recurso a apenas uma mão.

Não gosto nada da conversa de os pais ajudarem em casa. Isso pressupõe que há um dos dois que tem uma obrigação, que o outro alivia um pouco, cumprindo por ele uma parte daquela. Mas também gostava de perceber como é que, actualmente, os casais que têm filhos pequenos, chegaram à conclusão de que o que está a dar não é a repartição de tarefas, mas sim a delegação no pai, elemento masculino da parentalidade, de todas e quaisquer. Palavra que já me dá dó os pobres coitados, assoberbados de trabalhos com a cria — que, mal ou bem, acho que fizeram a meias —, e depois chegam a casa, dão banho, dão refeição, põem a dormir e mais não sei quantos canecos. Aquilo ocorre como? Sob a chibata da ditadura das mamãs?
Ai, desculpem, mas eu sou um nico machista, detesto desigualdades.
(Qualquer dia, vestem-lhes a burqa, a ver se eles não olham para as outras.)
(Chiça, como diria a minha antiga chefe.)
(Fonix.)