Não. A p. da chuva não tem piada nenhuma. Ver chover lá fora enquanto ficamos à lareira a fazer a nossa renda, ou a fazer render o peixe, ou o amor, só é bom e bonito para quem nunca levou uma boa molha pela cabeça abaixo, para refrescar as ideias românticas da chuva lá fora. E para quem nunca teve que andar de transportes públicos, com o chão todo molhado, os assentos todos húmidos, os vidros todos embaciados e o povo todo a roçar guarda-chuvas encharcados pelas nossas perninhas abaixo. E para quem nunca levou uma molha de água porca daqueles automobilistas cuidadosos, que, sem querer, até passam, que parece de propósito, as rodas junto ao passeio onde nós estamos, criando uma onda de sonho surfista. E para quem nunca meteu um pé na poça, literalmente. Ou ficou debaixo de um telheiro, à espera que a m. da chuva altamente romântica, resolvesse abrandar de intensidade, encharcada e gelada (vá, vamos piorar o cenário) com uma criança pela mão, uma no carrinho e outra na barriga (parece impossível? Parece), igualmente encharcadas e geladas. Ou a chuva não lhe entrou casa adentro, sob a forma de água suja, às litradas, molhando chão, móveis, roupas, e tudo o que apanhou à frente. (Esta, por acaso, logo a mim, que sou a rainha da coincidência estúpida, deve ter sido a única que nunca vivi na primeira pessoa do singular.)
Portanto, a próxima vez que ouvir alguém falar no romantismo da m. da chuva a bater na p. da vidraça, mordo.
