06/12/2015

esdrúxula

Lembro-me daquele silêncio que antecede a enorme vaga, das imagens do tsunami. Foi assim, num sábado de sol, adentrado pelas janelas em jorros de vida e luz. Veio depois o ruído ensurdecedor que urrou a morte, a imensa massa de água, que nos arrastou a todos, loucos e perdidos, sem nada nem forças onde nos agarrarmos. 
(Talvez passe a chacota, capaz de me tornar a piada, quem sabe não mereço mesmo.)
Experimentei um título do género "Quem nunca amou um animal, nunca aprendeu a amar" (daquelas frases que se retiram da net e que até são verdade), depois "A morte veio de mansinho", ainda mudei para "A morte veio devagarinho", e logo a seguir o título pareceu-me absurdo e também ridículo, porque é verdade que ela veio de silêncio vestida, mas roubou-nos a Mel e deixou-nos numa pobreza que só mesmo quem já amou um animal é capaz de perceber. 
Só queria explicar qual é o sabor desta dor, por palavras bonitas e poéticas e que só as pessoas muito eruditas alcançassem, de maneira a não parecer tão ridícula, nem me sentir tão ridícula, nem ser tão ridícula, mas é que não me sai nada de jeito. Fazia uma parábola, talvez ficasse tudo sem perceber nada, mas eu protegida pelas minhas palavras bonitas.
Tentei escrever qualquer coisa para me aliviar, pois é na escrita que encontro alento para tudo o que me dói, mas deixei de ser capaz e só vim aqui dizer que perdi a capacidade para me exprimir por escrito, ou, pelo menos, para que alguém leia o que eu escrevo sem pensar desde logo se eu avariei de vez ou quê. 
(É que sim.)
Morreu a minha gata e eu não sou capaz de des-sofrer isto. A falta que ela me faz, em todos os cantinhos da minha casa, é tão ensurdecedora como a falta que me faz em todos os cantinhos do meu coração.
Quero lá saber que me chamem ridícula. Podem chamar, por estar a escrever sobre a minha gata como se não fosse sobre uma gata. 
(Todas as cartas de amor são ridículas, 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são

Ridículas.*)
(O amor por um animal é ridículo (?), 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca amaram 
Um animal
É que são
Ridículas.) 

(Todas as palavras esdrúxulas
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.*)

Não consigo perceber, neste preciso momento, como é que a palavra saudade não é uma palavra esdrúxula.

* Álvaro de Campos

05/12/2015

Coração esgatanhado

Na mesma mantinha em que a acolhi, há quatro anos, a dormir dentro de uma caixa de sapatos, e logo aninhada no meu peito, embrulhei-a hoje e levei-a de casa, aninhada no meu peito, lavada pelas minhas lágrimas, inerte.
Queria ter forças para o tamanho esmagador desta dor, consolar-me na ideia de que não mais terei sofás esgatanhados, nem cestos esfarrapados. 
Mas assim fiquei, com o coração esgatanhado, e nada me parece suficiente senão arrancá-lo do peito, de tão esfarrapado que ficou.


04/12/2015

Chico-smart não me tem em grande conta # 14

Isto é no que dá, armar em moderna e querer comentar nos vossos blogues através de chico, o smart mais phone que Deus nosso senhor criou, com a graça de Deus.

Comentava eu no blog da Mia, Desabafos em Rodapé. A coisa até me estava a correr bem, em termos linguísticos, vá. E o perturbado sugeriu:


Addicted


Adoro isto, e anda-me em repeat há dias, e há noites.
Umas vezes, ouço a versão real, 
Ver a cidade se acender,
e, outras vezes, a que o meu ouvido criou,
Veracidade se acender

Vou deixar a rua me levar

Adoro isto, não sei se já disse.