Atenção, almas sensíveis: isto vai ser porco.
~
Quando eu era pequenina, e o meu avô morava na avenida João XXI, passava a vida em casa dele, designadamente porque com ele morava a minha titi, irmã mais velha da minha mãe, que cuidava de nós nas ausências e impedimentos dela, numa espécie de delegação de poderes afectivos tácita, mas efectiva. Ora, para quem não sabe, a avenida João XXI é perpendicular à avenida de Roma, que, na época, era das avenidas mais caras da cidade de Lisboa, tanto pelas lojas que lá havia, como pelos preços das habitações. Na avenida de Roma, moravam muitas pessoas bem afortunadas, não sei se felizes e contentes, mas, pelo menos, no aspecto financeiro. E, conforme acontece quando sobra dinheiro nos orçamentos das famílias, havia muitos cães na avenida de Roma. Nessa altura, as pessoas da avenida de Roma que tinham cães, iam passeá-los para as avenidas paralelas e perpendiculares. Por isso, a avenida de Paris, a praça de Londres, a praça Pasteur, a avenida Óscar Monteiro Torres e a avenida João XXI, tinham imenso cocó de cão no passeio. As pessoas dos cães tinham o cuidado de se deslocarem com eles para uma rua afastada da sua, para não a conspurcarem. Sabia-se qual era a avenida da cidade que tinha mais cães, pela distribuição geográfica dos cagalhões: passeio limpo, era sinal de maior densidade populacional canina. Passeio sujo, era sinal de que os bobis moravam na perpendicular. Isto foi ilação que tirei eu, muito pequena ainda, à medida que saltitava de intervalo de poia em intervalo de poia, pela avenida João XXI acima e abaixo, num jogo de macaca improvisado, lembrando, soubesse eu que eles existiam, um campo minado de Angola, embora eu fizesse valentemente a travessia dele sem recurso a qualquer máscara de protecção.
Agora já não é assim. As cagadelas dos cães evoluíram bastante, se não em quantidade, pelo menos em arrumação. Os donos, eventualmente porque também os horários laborais se tornaram mais exigentes e, consequentemente, por chegarem mais cansados dos seus trabalhos forçados, não calcorreiam passeios infindos até encontrarem um que não lhes venha a incomodar o roteiro pedonal, nem leve os vizinhos a acusá-los de se estarem a cagar — quase literalmente — para a higiene da rua toda. Os próprios animais, habituados a percursos cada vez mais pequenos até ao alívio da tripa, fazem-no quase à porta do prédio onde, desgraçados, habitam.
Tudo isto para, no fundo, demonstrar o ponto a que os meus vizinhos conseguiram levar o pequeno jardim de relvado que fica exactamente ao lado do meu prédio. Já não são só os dos prédios contíguos — mas também são — os maiores cagadores de um espaço que não é só deles. Não sei como é que ainda ali nascem flores. Existem flores de merda?
Estou a pensar tomar uma atitude. Não queiram saber, porque não é bonita. E vai cheirar muito mal nas caixas de correio deles.
Desculpem o esplendor, mas quatro imagens valem mais do que quatro mil palavras.




