09/11/2015

Queres ajuda?

Não. 
Eh pá, não.
Não me ofereçam ajuda. Não é que isso me diminua em algum ponto dos meus pespontos, não me mirra, não me rebaixa, mas eleva-me a tensão, o desumor e a fasquia do salto em altura da tolerância. E aborrece-me ao nível do bocejo.
Eu faço a minha parte. Cumpro-a. Agradeço que os outros façam a deles.
Por exemplo: perguntam-me se quero ajuda — estão a pressupor que eu estou a cumprir uma obrigação, e vêm para me facilitar a vidinha, aliviando-me dela. Mas é que nem sempre estou. Muitas vezes, estou só a fazer a minha parte na linha de montagem. E não preciso de alívio. Juro. Até passo ao largo da farmácia, tamanha é a falta de prisão que tenho. Sou encarcerada em prisões várias, mas essa não é uma delas. Ando sempre aliviada.
Aliás, estou convencida que, se recorresse a ajuda profissional para os nervos, também por exemplo, tinha que chegar lá e deitar-me directamente na marquesa, antes que o psi (tinha que ser um psi-homem, uma psi-dama ia dar-me cabo dos trabalhos dos nervos) me perguntasse se precisava de ajuda e nos estragasse o arranjinho. (A chatice é que isso da marquesa é um mito rural, não existe em consultório nenhum para aí desde os tempos do Dr. Freud.)
É como nas lojas, por exemplo outra vez. Vem a que me pergunta se quero ajuda e eu fico apreensiva, porque já uma vez disse a uma que precisava de ajuda e até me pareceu que aquilo lhe caiu mal a ela. Ainda hoje considero se terá pensado que eu queria que chamasse o INEM, olha a afronta. Se me perguntam, na loja, se quero ajuda, eu imagino que é para me ajudarem. Isso sim, é ajuda. Agora, ainda ficarem chateadas porque eu lhes pedi ajuda é que me transcende. Ainda outro dia lá passei e entrei, mas, mal vi as sobrancelhas da fulana, espetadas na raiz do cabelo, a arquearem-se ainda mais mal me viu, rodei o salto e saí, antes que fosse mesmo preciso o INEM para mim (ou para ela).
Ajudar é outra coisa. É prestar auxílio a quem dele precisa. É eu ir carregada com sacos pesados (esta não me sai da cabeça; nem das cruzes) e tirarem-me um ou dois sacos do lombo, para os carregarem por mim. Mas também não me perguntem se quero ajuda, que, lá está: isso possessa-me, fico possuída, possuo-me. Não perguntem, ajam: dirijam-se a mim, saquem-me dos sacos — até podem mascar-se de ladrões, que eu não me importo e juro que não grito Aqui d'el rei, um gatuno! —, mas arranquem-me a porra dos pesos de cima dos ombros. Prometo que, se suspeitar ao de leve que mos levam para mos roubar, até agradeço ter ficado mais leve dos pesos pesados. Só não mos devolvam para cima das costas, que eu não aguento mais.
Só preciso que colaborem comigo. Que partilhem, que cooperem, que façam a vossa parte, que não sobrecarreguem a minha. Mas não me perguntem se preciso de ajuda. Eu também não faço isso a ninguém: quando vejo uma pessoa carregada, ou que vai a cair, ou que se distraiu da sua criança (tão comum, Cristinho...), avanço para fazer qualquer coisa de útil. Não chateio. Ajudo.
Só preciso dessa ajuda.


4 comentários:

  1. E, se nessa aproximação, a pessoa disser: vou ajudá-la, pois vai muito pesada! É uma abordagem mais assertiva? A mim não me custa que me perguntem se preciso de ajuda, mesmo quando é óbvio. Penso que será uma forma de não mal interpretada essa mesma ajuda. Pois se vier alguém, e me tirar de sopetão os sacos, ou outra coisa qualquer que me atrapalhe, vou pensar que estou a ser sonegada de algo que me pertence. Noutro tipo de situação, uma queda eminente, ou alguém a querer levantar-se da cadeira e manifestar grandes dificuldades, também não pergunto, ponho-me em ação. Cada um terá a sua forma de agir.
    Boa noite, Linda. Boa semana.
    Um beijinho,
    Mia

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    1. Eu hoje acordei a implicar com o verbo "ajudar", Mia. Está demasiado difundido, disseminado, usado como arma, moeda de troca, bandeira, mas, na prática, pouco ou nada utilizado.
      O que eu faço não é arrancar os sacos da mão de ninguém, claro. Simplesmente, digo "Dê-me dois dos seus sacos, por favor", e agarro neles. Evito ao máximo dizer "Vou ajudá-lo/a".
      Mas também reconheço que sou uma peniquenta e atribuo demasiado valor a algumas palavras :)
      Boa semana para ti também, e um beijinho.
      Boa noite :)

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  2. You've got issues, lady. Precisas de ajuda :P

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    1. A tua sorte foi não teres usado o ponto de interrogação :P

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